Operação “Carne Fraca” expõe os intestinos do comércio da carne no Brasil

Em 2008 realizei um trabalho de campo  onde percorri mais de 8.000 Km nos estados de Goiás e Mato Grosso onde visitei várias plantas de abate de gado bovino, bem como curtumes e até uma fábrica de “Dog Toys”. Com essa  experiência vi como operavam empresas como JBS, Marfrig, Minerva, Bertin, Margen, e outras menos conhecidas.  E o cenário não era nada animador, pois ficou claro que havia uma ligação entre a expansão da pecuária, o avanço da indústria da carne e o processo de desmatamento, principalmente na região conhecido como “Arco do Desmatamento” . Talvez por isso é que principalmente nas plantas do Grupo JBS a entrada da nossa equipe de pesquisa foi permitida apenas em Goiania, tendo sido proibidos de realizar coleta de dados em todas as demais plantas, distribuídas nos estados de Goiás, Mato Grosso e Rondônia.

Desde então, graças em parte aos generosos financiamentos do BNDES durante os governos do presidente Lula, o setor da carne alcançou no Brasil um nível de aglomeração que fez desaparecer várias marcas menores, as quais caíram nas mãos principalmente dos grupos  JBS e Marfrig. A JBS inclusive tornou-se a maior empresa de processamento de carne do planeta, comprando empresas na Argentina, EUA e Austrália.

Eis que agora, a Polícia Federal veio a público para anunciar a descoberta de um amplo esquema envolvendo funcionários públicos e grandes frigoríficos envolvidos na comercialização de produtos adulterados, ou em português claro, carne podre (ver figura explicativa do esquema abaixo).

carne 1

Ao longo desses anos, tivemos que assitir ao ator Tony Ramos atuando como menino propaganda da JBS cuja carne era apresentada como sendo produzida sendo os melhores padrões mundiais (Aqui!). Interessante notar que Tony Ramos já até se manifestou sobre a “Operação Carne Fraca” que foi desencadeada pela Polícia Federal no Paraná para apurar a venda de carne estragada e turbinada com produto potencialmente cancerígena  para ser vendida como se estivesse boa (Aqui!).  Segundo suas declarações, Tony Ramos está se declarando “surpreso” com as revelações trazidas à público pela Polícia Federal (Aqui!).

Mas surpreso mesmo deve estar o dublê deputado federal e ministro da justiça do governo “de facto” de Michel Temer, o paranaense Osmar Serraglio. É que Serraglio foi flagrado numa escuta telefônica tratando de uma inspeção com o suposto chefe do esquema hoje desbaratado pela Polícia Federal,   o fiscal agropecuário e superintendente do Ministério da Agricultura no Paraná entre 2007 e 2016 , Daniel Gonçalves Filho, apontado pela PF como sendo “o líder da organização criminosa” que relaxava a fiscalização dos frigoríficos em troca de propinas. apontado pela PF como sendo “o líder da organização criminosa” que relaxava a fiscalização dos frigoríficos em troca de propinas  (Aqui!).

E aí que a porca torce o rabo. É que a partir daí o enredo fica mais denso, já que, segundo a Polícia Federal essa esquema de corrupção era utilizada para abastercer as contas bancárias do PMDB e o PP.  Esse vínculo serve para colocar por terra toda a noção vendida de que a corrupção no Brasil é algo vinculado apenas a um partido (no caso o PT) e que se dava apenas na PETROBRAS.  Na prática o que se vê é novamente a participação de dois partidos que estão no controle do governo federal (PMDB e PP), e que já estavam nos governos de Lula e Dilma.

Ah, sim, não podemos nos esquecer também que o dublê de ministro da Fazenda e banqueiro, Henrique Meirelles, já presidiu de 2012 a 2016 o conselho de administração da J&F, holding de empresas que controla o frigorífico JBS, maior processador de carnes do mundo (Aqui!). Como a Polícia Federal alega que o esquema é antiga, como fica a situação de Henrique Meirelles? Vai ser convidado a depor sobre as atividades do JBS?

Por outro lado, me desculpem os que veem algum tipo de  atentado contra os interesses nacionais ao se apurar a corrupção no setor da carne no Brasil. É que grupos como a JBS e RBF possuem negócios em escala global, e não porque aparecer com elementos nacionalistas para impedir que se prenda quem estava vendendo carne estragada para aumentar ainda mais suas fantásticas taxas de lucro.

 

Em meio de crise profunda, Alerj com plenário vazio e gritos de assassino de policiais contra Beltrame

Estive hoje na Assembleia Legislativa como parte da preparação de uma reunião da Comissão de Educação que iria reunir deputados, dirigentes de instituições de ensino, representações sindicais e o (des) secretário estadual de Fazenda, Júlio Bueno.  Eu disse que iria porque Júlio Bueno resolveu cancelar a reunião pela terceira vez consecutiva sob a alegação de estar em Brasília tratando da dívida pública do Rio de Janeiro.

Pois bem, após ser notificado de mais este cancelamento de Júlio Bueno, resolvi dar uma passada no plenário da Alerj para medir a temperatura política entre os deputados estaduais, mas acabei encontrando um plenário completamente esvaziado (ver imagens abaixo).

Segundo apurei, a base parlamentar do (des) governo estadual está evitando o plenário para não ter que dar explicações sobre o uso dos R$ 2,9 bilhões que deverão enviados pelo governo federal para assegurar a realização “tranquila” dos Jogos Olímpicos.

20160628_163042[1]

A monotonia causada pelo plenário esvaziado quando um grupo de ativistas(que estava na Alerj para apoiar a aprovação de um projeto de lei que prevê a blindagem de viaturas policiais, o PL 494-A/2015 ) reagiu de forma eloquente à defesa feita pela deputada Cidinha Campos do (des) secretário estadual de Segurança, José Maria Beltrame.  E assim por alguns minutos, o plenário foi abastecido com os gritos de “Beltrame, assassino de policiais“.

A partir dai quase que simpatizei com mais uma escapada de Júlio Bueno para não aparecer na Alerj para discutir a profunda crise em que o (des) governo comandado pelo PMDB e pelo PP colocaram o Rio de Janeiro. Mas deixando claro é que “quase” não passou disso, pois não há como não imputar culpa a quem a tem.

Jair Bolsonaro e o PP: casa de ferreiro, espeto de pau!

O deputado Jair Bolsonaro foi um dos que surfaram eleitoralmente nas críticas à corrupção que existe dentro do governo Dilma. Com seu discurso moralista e anti-esquerda, Bolsonaro garantiu o posto de deputado federal mais votado do Rio de Janeiro com algo em torno de 464 mil votos, e é considerado como sendo um dos membros da chamada “bancada da bala”.

Eis que agora o partido a que Bolsonaro é filiado, o Partido Progressista (PP), é o que teve de longe o maior número de políticos denunciados por causa do caso de corrupção na Petrobras, inclusive com correligionários aqui mesmo do Rio de Janeiro.

Agora é que eu aproveito para perguntar: como pode Bolsonaro não saber que seu partido está afundado até o pescoço na corrupção da Petrobras? A questão é realmente complexa. Se realmente não sabia, Bolsonaro passa atestado de inepto. Se sabia, e não fez nada, ai a coisa piora ainda mais. Então, deputado Jair Bolsonaro, qual é a sua verdade?

E a montanha do juiz Moro pariu um rato

Será que sou o único a achar que a lista de políticos denunciados pelo juiz federal Sérgio Moro é uma materialização do ditado de que “a montanha pariu um rato”?  É que após meses de contínuo bombardeio da mídia corporativa em relação ao caso de corrupção na Petrobras, a lista de 47 políticos denunciados sinceramente não me impressiona. Ainda que ali estejam o presidente do senado (Renan Calheiros) e da Câmara de Deputados (Eduardo Cunha), ambos do PMDB, a soma da conta realmente não fecha.

É que do total de denunciados exatamente 50% são vinculados ao Partido Progressista (PP) e que compõe uma bela lista de desconhecidos. Podem me chamar de cínico, mas mesmo reconhecendo que sempre há potencial para surpresas quando o quesito tratado é corrupção, imaginar que o PP é o centro da corrupção no Brasil é pouco razoável.

Agora, eu fico imaginando porque sobrou denúncia para o senador do PSDB e ex-governador de Minas Gerais Antonio Anastasia. Não é que ele não tenha capacidade de se envolver num esquema tão amplo como é o do chamado “Petrolão”. Mas é que colocar Anastasia dentro e deixar Aécio Neves de fora é pouquíssimo razoável. É que Minas Gerais inteira sabe que Anastasia é uma pessoa da mais alta confiança de Aécio Neves e sua família. Assim, se ela estava dentro do esquema, como Aécio estaria de fora?

A dica de que a meta de atingir Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores realmente não foi alcançada é a indicação de que a equipe de Sérgio Moro agora vai partir para investigar as propinas pagas na construção da famigerada usina hidrelétrica de Belo Monte. Em outras palavras, já que no caso da Petrobras efetivamente sobrou para o PP o maior peso das denúncias, há que se continuar “cavocando” para ver se acham algo que realmente abata o PT.

O que eu estranho nisso tudo é que estando o juiz Sérgio Moro localizado em Curitiba não sobre nenhuma investigação para o (des) governador tucano Beto Richa que literalmente afundou o Paraná em um processo de falência sem que se tenha uma ideia objetiva como ele consegui tal feito. Bom, mas dai já seria pedir muito, não é?