Manguezais estáveis, praias e dunas em retração: MapBiomas faz radiografia da costa brasileira nos últimos 37 anos

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Com 7491 quilômetros, a costa brasileira coloca nosso país entre os 20 países com maior litoral no mundo. Com o auxílio de imagens de satélite e recursos de inteligência artificial, o MapBiomas fez um raio-X desse território, que engloba praias, dunas, manguezais, apincus e áreas de aquicultura e salicultura. Também foram mapeados municípios no interior do Brasil com grandes areais. Os números mostram uma relativa estabilidade nessas formações naturais, com alguns ganhos em manguezais e a mesma tendência de perda de praias e dunas.

A boa notícia vem dos manguezais, que se estendem por toda a costa brasileira do Amapá até Santa Catarina. Entre 1985 e 2021, sua área total expandiu-se 4%, passando de 970 mil hectares para mais de um milhão de hectares (1.011 Mha). Três estados da Amazônia – Amapá, Pará e Maranhão – respondem por 80% da cobertura de manguezais do país e sua configuração explica esse bom resultado. Os manguezais do norte crescem sob um regime de macromaré, cujo nível de água tem variação diária superior a 4 metros, e desenvolvem-se sobre uma planície de lama que chega a medir 30 km de largura, ocupada por árvores de até 30 m de altura, afirma Pedro Walfir, da equipe de mapeamento da zona costeira do MapBiomas. Esse tipo de cobertura natural torna este ecossistema naturalmente resiliente às mudanças antrópicas.

(em hectares)

O mangue é berçário de inúmeras espécies marinhas: 70 a 80% dos peixes, crustáceos e moluscos que a população consome precisam desse bioma em alguma fase de suas vidas. Diversas espécies de peixes economicamente importantes utilizam os mangues como área de reprodução e depois voltam para o mar. Os manguezais também são importantes para proteger a costa da erosão marinha.

Entre as formações naturais sobre as quais o mangue se expande estão os apicuns – superfícies dinâmicas, hipersalinas e associadas ao regime de marés. Entre 1985 e 2021, os apicuns passaram de 57 mil para 54 mil hectares de área no Brasil. O Maranhão concentra aproximadamente 60% da superfície de apicuns do país.

A maior parte de sua área (70%) encontra-se dentro de alguma das 340 Unidades de Conservação da Zona Costeira Brasileira. Apesar disso, entre 1985 e 2021, 1,3 mil hectares de apicuns foram convertidos para atividades de aquacultura que, junto com os 531 hectares perdidos para infraestruturas urbanas, representa o principal risco para este tipo de formação natural. “Apicuns, assim como os manguezais, são localmente dinâmicos, intercalando perdas e ganhos de magnitude aproximadas ao longo da série temporal. São processos de transformação natural”, explica César Diniz, da equipe de mapeamento de zona costeira do MapBiomas. “Porém quando há a conversão para infraestrutura urbana ou aquacultura, essa dinâmica é interrompida: não há volta para a formação original”, completa.

A aquicultura foi a ocupação da zona costeira brasileira que mais cresceu nos últimos 37 anos: ela teve um aumento de 36% entre 1985 e 2021, passando de 36 mil hectares para 56 mil hectares no país. A atividade expandiu-se principalmente sobre superfícies de água (28%), mosaico de agricultura ou pastagem (25%) e formação savânica (14%), com nítida preferência por regiões não vegetadas, como apicuns ou, quando vegetadas, de porte arbustivo. Dois estados, Rio Grande do Norte, com 67%, e Ceará, com 15,4% concentram 82% da área de salicultura / aquicultura no Brasil. Mossoró, no Rio Grande do Norte, possui a maior área de aquicultura / salicultura no país: aproximadamente 11 mil hectares — o dobro da área urbanizada do município.

Praias, dunas e areais perdem 15% de área

O cenário de praias e dunas arenosas sem cobertura vegetal é distinto: com 47% de sua área está em unidades de conservação, as quais minguaram de 457 mil hectares, em 1985, para 389 mil hectares em 2021 — uma retração de 15%. Entre os vetores que levaram a essa perda de 68 mil hectares está a pressão do mercado imobiliário e o consequente avanço de infraestruturas urbanas (11%), a silvicultura (7,4%), as pastagens e mosaicos de agricultura e pecuária (10%).

Essa perda é preocupante porque praias e dunas têm papel estratégico no controle da erosão costeira e preservação da biodiversidade”, explica César. “A praia e a duna normalmente protegem os manguezais das ações das ondas, criando um ambiente calmo, onde a lama pode ser depositada e colonizada pela vegetação de mangue”, detalha.

Os Lençóis Maranhenses e o Cordão Dunar do Rio Grande do Sul são as duas feições arenosas contíguas de maior extensão no Brasil. Juntos, eles respondem por 51% da extensão de praias e dunas do país. Porém não há areais e dunas apenas no litoral: segundo o MapBiomas, dos 10 municípios com maior extensão desse tipo de cobertura, dois ficam no interior do país – Pilão Arcado e Xique-Xique, ambos na Bahia. O município líder é Barreirinhas, no Maranhão.

 
 Sobre MapBiomas

Iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, métodos e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa.

Governo Bolsonaro prepara privatização das praias brasileiras para permitir a instalação de  hotéis, parques privados, e clubes

A privatização das praias brasileiras irá impedir a livre circulação de pessoas, atendendo aos interesses dos grandes incorporadores imobiliários nacionais e estrangeiros. PL pretende reservar 10% da orla das praias do Brasil para fins de exploração turística. Iniciativa tramita em regime de urgência e aguarda análise do Plenário da Câmara; ambientalistas temem consequências caso projeto seja aprovado

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Tramita em regime de urgência na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei (PL) 4.444/21, que, entre outras medidas, autoriza a União a transformar orlas e praias marítimas, estuarinas, lacustres e fluviais federais em Zonas Especiais de Uso Turístico (ZETUR). Com isso, o projeto acabaria com o uso público de até 10% da faixa de areia natural de cada município, limitando a circulação de pessoas pela praia. Essas áreas seriam ocupadas por hotéis, parques privados, clubes, marinas, empreendimentos imobiliários e outras atividades autorizadas pelo Ministério do Turismo.

“Aprovar esse projeto de lei é um retrocesso enorme em relação a todas as questões de gerenciamento costeiro que já temos e a todas as discussões da mudança do clima”, alerta Ronaldo Christofoletti, membro de Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Hoje, temos ciência, conhecimento e legislação mundial que mostram que não devemos retirar espaços e ambientes costeiros, pois eles nos protegem frente aos impactos das mudanças climáticas e nos dão inúmeros benefícios”, frisa.

Outro importante ponto levantado por Alexander Turra, também membro da RECN e professor titular do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), é que as praias e orlas pertencem à Zona Costeira, considerada Patrimônio Nacional pela Constituição Federal, e são bens públicos de uso comum do povo, sendo assegurado sempre o livre acesso. “As atividades propostas no projeto podem excluir a passagem e o acesso das pessoas, levando a uma elitização do espaço costeiro, que por definição da Lei 7.661/88 e também da nossa Constituição é um dos espaços mais democráticos que temos”, ressalta.

A lei citada por Turra, que instituiu o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro, deixa claro que as praias são bens públicos de uso comum do povo, sendo assegurado o livre acesso a elas e ao mar. O PL, no entanto, embora mantenha essa definição, quer proibir a entrada e a passagem de pessoas nos trechos considerados de interesse de segurança nacional e em áreas que viriam a ser classificadas como ZETUR, privatizando, assim, até 10% da orla brasileira.

“Ocupar as faixas de areia para fins de uso privado e turístico é uma ameaça a estes serviços, pois pode comprometer o complexo e delicado ecossistema costeiro. Diversos estudos alertam para o processo de erosão costeira que nossas praias vêm sofrendo, o que deverá se agravar com as previsões recentes de aumento do nível do mar e aumento da frequência de eventos extremos de ressacas do mar”, explica Adayse Bossolani, Secretária Executiva do Grupo de Trabalho para Uso e Conservação Marinha (GT-Mar), da Frente Parlamentar Ambientalista do Congresso Nacional, apoiado pela Fundação Grupo Boticário, Instituto Linha D’Água, Instituto Costa Brasilis. Fazem parte do grupo deputados, senadores e membros da sociedade civil preocupados com a preservação e o uso sustentável da zona costeira e marinha brasileira.

Por suas dimensões continentais, o Brasil possui enorme variedade de paisagens ao longo de seus 7,5 mil quilômetros de litoral, desde as planícies formadas por marés e manguezais no litoral Norte; passando pelas falésias, dunas e estuários do Nordeste; pelas praias de enseadas com seus costões rochosos típicos do Sudeste; até chegar às longas praias arenosas do Sul do país. Isso sem contar com os deltas e baías, que abrigam enorme variedade de habitats e de usos e atividades socioeconômicas. Considerando essa extensão, 10% representariam cerca de 750 quilômetros, área superior aos litorais de São Paulo (622 km) e Paraná (98 km) juntos.

Os serviços ambientais que as praias oferecem são inúmeros: alimento, proteção contra inundação e erosão, recreação e lazer, herança cultural, dentre outros. No entanto, levantamentos técnicos do próprio governo, como os publicados no livro “Panorama da Erosão Costeira no Brasil”, apontam que cerca de 60% a 65% da linha de costa no Norte e Nordeste do país já estão sob processo erosivo. Nas regiões Sudeste e Sul, esse fenômeno ocorre em aproximadamente 20% do litoral.

Para Christofoletti, esses fatores tornam mais urgente a necessidade de ter um gerenciamento costeiro de forma integrada. “Quando a gente privatiza algumas partes e traz esse retalho na orla, dificulta a aplicação de outros instrumentos legais que auxiliam na gestão da costa.” O especialista acredita ser essencial que a população reflita o que significa ter uma boa relação com o oceano, pois, “uma boa relação não é estar mais próximo da praia nas férias e caminhar menos para chegar até o mar. O estar bem é estar em um lugar, sabendo que o meio ambiente está sendo conservado e respeitado”, conclui.

Sobre a Rede de Especialistas

A Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) reúne cerca de 80 profissionais de todas as regiões do Brasil e alguns do exterior que trazem ao trabalho que desenvolvem a importância da conservação da natureza e da proteção da biodiversidade. São juristas, urbanistas, biólogos, engenheiros, ambientalistas, cientistas, professores universitários – de referência nacional e internacional – que se voluntariaram para serem porta-vozes da natureza, dando entrevistas, trazendo novas perspectivas, gerando conteúdo e enriquecendo informações de reportagens das mais diversas editorias. Criada em 2014, a Rede é uma iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Os pronunciamentos e artigos dos membros da Rede refletem exclusivamente a opinião dos respectivos autores. Acesse o Guia de Fontes [Aqui!].

No Rio todo mundo tem seu próprio pedaço de praia

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A praia do Rio de Janeiro é ao mesmo tempo passarela, quadra de esportes, ponto de encontro e reflexo da sociedade e de seus dilemas sociais. Que o imenso espaço público seja considerado o lugar mais democrático do país é mais mito do que realidade.

Por Nicole Anliker, Rio de Janeiro, para o Neues Zürcher Zeitung

Eles não deixam ninguém levar a praia embora. Os cariocas, habitantes do Rio de Janeiro, provaram isso durante a pandemia da COVID-19. A mais recente proibição de banhos de sol ainda está sendo respeitada por causa do patrulhamento dos policiais, mas dificilmente vai demorar muito. Basta um olhar sobre o ano passado: naquela época, a Prefeitura do Rio de Janeiro também fechava as praias por semanas no combate ao vírus. Assim que as primeiras medidas de flexibilização foram anunciadas, no entanto, quase ninguém aderiu à proibição. Mesmo os policiais logo desistiram de pagar aos cariocas pelo que eles amam fazer de melhor: bronzear e endurecer seus corpos sob o sol escaldante. Aos poucos, eles recuperaram sua praia.

Cada um em seu próprio território

“As praias estão cheias como em qualquer outro verão”, diz Paulo Vitor Breves Izaias em fevereiro. Seu olhar vagueia pela densa agitação da areia e acrescenta: Só faltarão os turistas estrangeiros este ano. O salva-vidas de 36 anos deve saber. As praias de Copacabana e Ipanema são seu local de trabalho há doze anos . É assim que o brasileiro se parece: bem treinado para nadar e surfar, bronzeado de um marrom dourado de sol. Também se encaixa o clichê de que nada parece incomodá-lo. Breves parece calmo, fala devagar e deliberadamente. Como se o Coronavírus não existisse: os brasileiros não vão deixar sua praia ser tirada deles.

nzz 1As praias de Copacabana e Ipanema são seu local de trabalho: o salva-vidas Paulo Vitor Breves Izaias do Rio de Janeiro não poderia viver sem o mar. Kristin Bethge para NZZ

nzz 2Como se o Coronavírus não existisse: os brasileiros não vão deixar sua praia ser tirada deles. Ricardo Moraes / Reuters

“Um carioca sem praia”, pondera enquanto bebe água de coco, “não seria carioca. Ele ficaria mais nervoso, mais estressado – talvez como um “Paulista”? ” Ele ri de seu golpe aos moradores da metrópole sem praia de São Paulo. O que ele quis dizer com isso: A praia é o centro da vida de muitos cariocas. Eles acham difícil passar sem ele – mesmo em tempos de pandemia.

Não importa se velho ou jovem, pobre ou rico, preto ou branco. Como um grande espaço público, a praia do Rio é de todos. Os cariocas, portanto, afirmam com frequência e com orgulho que é o lugar mais democrático do Brasil: Na praia, o rico advogado do bairro chique de Ipanema se refresca na mesma água que o caixa que o atende no supermercado por um salário mínimo e mora no Favela do Cantagalo. Os dois estão seminus, fritando ao sol e bebendo cerveja em lata. Mas se você olhar mais de perto, vai perceber rapidamente que a realidade da cidade se reproduz na areia. Não há união, mas coexistência. Assim como a cidade, a praia também é segmentada.

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Praias da Zona Sul do Rio de Janeiro 3 quilômetros Base do mapa: © Openstreetmap, © Maptiler NZZ / ann.

São os numerosos postos de salva-vidas que dividem em setores as praias de Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon, na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, com oito quilômetros de extensão. Cada posto é usado para orientação e abriga seu próprio público, uma espécie de microcosmo social em um pedaço de areia. A frase frequentemente usada “não é a minha praia” significa “isso não é meu lugar” e reflete como o carioca se identifica com um determinado pedaço de praia – ou não.

Homossexuais, por exemplo, se encontram entre os Postos Oito e Nove, em frente à Farme de Amoedo, em Ipanema. Seu “território” é marcado por bandeiras de arco-íris penduradas em duas barracas de praia. A densidade de corpos masculinos imaculadamente treinados chama a atenção. Não muito longe dali, no Posto Nove, as alternativas de esquerda e os jovens “descolados” se encontram. Antes da pandemia do coronavirus, as festas eram regularmente celebradas ali, e a esquina é particularmente popular. Entre os Postos Dez e  Onze, em frente ao clube de campo de elite, os realmente ricos estão se bronzeando. No Posto 12, onde há playground, você encontra pais com filhos de classe média.

O Posto Sete, na Pedra do Arpoador, atrai surfistas por suas ondas. Na areia, é o ponto de encontro dos moradores das favelas e da classe trabalhadora da periferia. Esse trecho de praia surgiu na década de 1980, quando a Zona Norte pobre foi conectada diretamente à Zona Sul rica por linhas de ônibus. Os moradores de Ipanema se sentiram mal naquele momento que a classe baixa de repente tomou banho de sol ao lado deles e se alimentou com comida e bebida de seu próprio refrigerador de isopor. Mas o subúrbio veio para ficar – pelo menos durante o dia, a Praia do Arpoador é deles desde então.

Como na cidade, a praia não é toda tranquila. Repetidas vezes acontecem os “arrastões”, batidas em que grupos de jovens das favelas se enfileiram nas praias da zona sul, roubam tudo que podem e causam pânico. Segundo a antropóloga brasileira Fernanda Pacheco Huguenin, os roubos em massa representam simbolicamente o conflito territorial entre ricos e pobres do Rio. Paulo Breves viu muitos de seu posto de salva-vidas. “Eles são um bem cultural do Rio”, afirma ironicamente. Eles faziam parte da vida praiana do Rio.

Regras próprias

“Um ou dois salva-vidas sozinho monitoram até cinco mil banhistas aqui na alta temporada”, diz Breves. “Cinco mil pessoas”, ele repete enfaticamente, “em uma praia que não conhece leis.” Beber álcool, fumar maconha, ouvir música alto, passear com os cães – tudo vai aqui. Além disso: “O brasileiro não gosta de respeitar as regras”. Como exemplo, ele descreve como ele e seus colegas pescavam um após o outro fora da água quando as ondas eram perigosas e haviam desconsiderado a bandeira vermelha.

No entanto, todos aderem ao código de conduta não oficial que existe aqui: calcinhas biquínis podem e devem ser minúsculas, mas o ” topless é o tabu mais estrito. Mudar de roupa na praia – mesmo atrás da toalha – também é um impedimento absoluto. Também existe uma espécie de mecanismo de resgate para crianças perdidas: se um menor não consegue mais encontrar seus pais no tumulto, um completo estranho os agarra pelos ombros e os carrega entre os banhistas que aplaudem. Isso chama atenção para a criança.

A vida praiana do Rio também tem outras peculiaridades: as pessoas fleumáticas que não gostam de ir para a água se refrescam no chuveiro –  um serviço oferecido pelos vendedores de barracas. Os cariocas também não olham para o mar na praia, mas orientam suas cadeiras dobráveis ​​para o sol – seus corpos oleados devem receber o máximo de vitamina D possível. As cadeiras podem ser alugadas ou trazidas. As ruas dos bairros de Copacabana e Ipanema estão, portanto, cheias de gente seminua com cadeiras debaixo do braço. Aproveite a diversão na praia um para o outro. Quem está por lá quer uma boa praia, uma boa estadia na praia.

nzz 3Com cadeirinha embaixo do braço na direção da Praia de Ipanema. Luiz Gomes / Imago

nzz 4Os policiais controlam os banhistas que ousam ir para o mar, apesar de estarem temporariamente bloqueados. Andre Coelho / EP

Bar e quadra de esportes

Os cariocas também não vêm ao mar para encontrar paz. Aqui você se encontra como em um pub: há fofoca, bebida, comida e discussões selvagens. Se alguém lê um livro, com certeza é um turista – com uma capacidade de concentração extremamente boa, notem bem. Centenas de vendedores ambulantes gritam constantemente como latifundiários para oferecer suas mercadorias: caipirinha, mate chá, cigarros, sorvete, queijo grelhado ou camarão, protetor solar, biquíni e toalha de praia. Além disso, o som das ondas, o baixo de alto-falantes grandes, mixagens de alto-falantes. “O som da praia” – o som da praia – é o que Paulo Breves chama de incomparável ruído de fundo.

Em certos cantos também soa como no campo de esportes. Porque essa é a praia também. Às cinco da manhã, os primeiros madrugadores correm ao longo do calçadão ou desenvolvem seus músculos com os incontáveis ​​equipamentos de ginástica ao ar livre. Eles são seguidos por atletas que remam na areia com pneus de carro, puxam cordas ou fazem flexões. São realizados cursos de ioga, boxe, natação, futebol e surfe. Os esportes com bola são, entretanto, muito populares o dia todo: à beira-mar, grupos de  banhistas fazem malabarismos com futebol. As partidas são disputadas nos inúmeros campos de vôlei de praia, tênis de futebol e tênis de praia. Pranchas de rodas, ciclistas e patinadores aceleram ao longo da ciclovia pavimentada até tarde da noite.

A infraestrutura da praia é totalmente voltada para a loucura esportiva dos cariocas, que trabalham a perfeição do corpo com camisas musculosas e leggings neon. Eles devem ser nítidos e bem treinados. Isso pode ser devido ao fato de que o corpo está em exibição no clima quente durante todo o ano. No entanto, nem tudo se deve ao treinamento duro. Freqüentemente, os cirurgiões plásticos também ajudaram. O Brasil é campeão mundial nesse quesito: segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, não há outro país no mundo que faça tantas cirurgias estéticas.

Homenagear o sol

A praia do Rio é uma passarela, campo de esportes, ponto de encontro social, mas também um reflexo da sociedade e seus dilemas sociais. Pedro Breves não é o único a dizer o quanto isso é vital para ele. “A energia da água salgada, das ondas e da brisa atuam simultaneamente no corpo quando você nada no mar”, afirma. Trabalha contra a tristeza, você se sente melhor depois.

Só a chuva pode estragar o prazer. Nenhum carioca sequer põe os pés na frente da porta quando isso se manifesta. É por isso que eles adoram o sol como uma deusa. Todas as noites dezenas de banhistas se aglomeram no Rochedo do Arpoador e a aplaudem quando ela se afunda no mar. Quase ninguém demonstra maior apreço por ela do que os cariocas.

nzz 5Banhistas treinam boxe na Praia do Arpoador.  Pilar Olivares / Reuters

nzz 6Caipirinhas fresquinhas são vendidas na Praia do Rio. Como num mercado, vende-se tudo o que o coração que toma banho deseja.  Chico Ferreira / Imago

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo Neues Zürcher Zeitung [Aqui!].

 

UFRJ aponta que óleo pode ter saído de área a 700 km da costa

Poluição atinge praias do Nordeste desde o início de setembro

oleo praiaAdriano Machado/Reuters

Por Vinícius Lisboa – Repórter da Agência Brasil 

Um estudo realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) a pedido da Marinha conseguiu mapear, de forma preliminar, a provável área de onde partiu o óleo que polui praias do Nordeste desde o início de setembro. A região localizada abrange uma área que começa a uma distância de 600 a 700 quilômetros da costa brasileira, já em águas internacionais, em uma latitude próxima da divisa entre Sergipe e Alagoas.

Os cálculos foram feitos no Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia (Lamce) do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe/UFRJ), utilizando uma metodologia chamada de modelagem numérica. Com informações sobre a forma como o óleo chegou às praias, correntes marinhas e ventos, os pesquisadores fizeram uma previsão às avessas, reconstituindo o caminho que esse óleo precisaria ter percorrido para se dissipar da forma que vem ocorrendo.

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Fonte: Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia (Lamce)

Professor do departamento de meteorologia da UFRJ e do programa de pós-graduação de engenharia civil da Coppe/UFRJ, Luiz Assad, explica que o foco do trabalho, iniciado há duas semanas, é reduzir a extensão da área mapeada e chegar mais perto de um ponto específico de onde pode ter partido o vazamento.

“O ponto inicial seria entre 600 e 700 quilômetros, e [a área] entra um pouco mais pro Atlântico. Estamos nesse momento trabalhando para tentar diminuir essa área. Não temos um ponto de vazamento, temos uma área grande no meio do Oceano que é uma área de provável origem do óleo”.

Se ainda não foi possível ter um resultado conclusivo sobre a área do vazamento, tampouco há condições de afirmar quando ele ocorreu. Segundo Assad, as informações atuais apontam para o início de agosto, um mês antes dos primeiros registros de petróleo na costa, o que se deu em 2 de setembro.

“É uma análise ainda preliminar. A gente ainda não tem como afirmar isso”, pondera.

O pesquisador explica que, ao ser lançado no mar, o óleo sofre transformações em suas características físico-químicas, que fazem com que ele afunde até uma camada subsuperficial do mar. Apesar de pequena, a profundidade é suficiente para que ele passe despercebido por satélites.

Assad conta que o trabalho também inclui calcular o possível alcance que o óleo pode atingir no litoral brasileiro. O pesquisador considera difícil precisar quanto tempo o estudo ainda pode levar, mas ele acredita que serão necessários, ao menos, um mês a um mês e meio.  

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Este artigo foi publicado originalmente pela Agência Brasil [Aqui!].

Regiões costeiras em perigo por causa de intervenções humanas e mudanças climáticas

Praias do Rio e de outras partes do mundo correm risco de serem ‘varridas’ do mapa

Dupla de renomados geólogos marinhos alerta que intervenção humana e mudanças climáticas aceleram processo de erosão

Tempestade faz ondas encobrirem farol em Newhaven, sul da Inglaterra, em fevereiro deste ano Foto: TOBY MELVILLE / REUTERS
Tempestade faz ondas encobrirem farol em Newhaven, sul da Inglaterra, em fevereiro deste ano – TOBY MELVILLE / REUTERS
RIO – As praias do Rio e de diversas outras cidades do planeta correm o risco de serem “varridas do mapa”. O alerta vem de dois importantes nomes da geologia marinha mundial que assinam o livro recém-lançado “The last beach” (“A última praia”), ainda sem previsão para chegar ao Brasil

Os especialistas Andrew Cooper, professor de Estudos Costeiros da Universidade de Ulster, no Reino Unido, e Orrin Pilkey, professor de ciências da terra e dos oceanos na Universidade de Duke, nos EUA, defendem a teoria de que as intervenções humanas a beira-mar, junto com a elevação dos níveis de oceanos e as tempestades cada vez mais fortes por conta das mudanças climáticas, estão provocando vasta erosão de areia em direção ao fundo dos oceanos, num efeito de “varredura” do solo costeiro.

Na semana passada, tempestades nos oceanos Atlântico e do Pacífico geraram ondas de mais de 15 metros de altura que destruíram defesas marítimas de concreto em praias na Europa, América do Norte e nas Filipinas.

“A sentença de morte já soou para grandes extensões de praias ao longo de costas densamente povoadas, como a da Florida, da Costa del Sol, na Espanha, a Golden Coast da Austrália e o litoral do Rio de Janeiro” disse Orrin Pilkey ao jornal britãnico “The Guardian”.

Em “The Last Beach”, os geólogos também afirmam que, ironicamente, as paredes de concreto erguidas pelo homem para proteção contra as tempestades e elevação das águas servem apenas para acelerar o processo de erosão da linha costeira.

Pilkey e Cooper também argumentam que o ideal seria preservar ao máximo as praias como ambiente natural, longe da intervenção humana. Segundo eles, dunas e longas faixas de areia das praias funcionam muito melhor na contenção de tempestades do que paredes de concreto.

P”A praia é uma defesa natural maravilhosa contra as forças do oceano. Elas absorvem a energia das ondas do mar, reduzindo-as a um movimento oscilante suave ao longo no litoral. Tempestades não destroem praias; apenas mudam sua forma e localização, movendo-se em torno da areia para maximizar a absorção de energia das ondas e, em seguida, recuperar a linha costeira nos dias, meses e anos que se seguirem”, garante Pilkey.

Como o aumento do nível do mar contribui para os danos causados pelas tempestades, cada vez mais freqüentes devido às mudanças climáticas, o recuo das habitações ao longo do litoral se tornaria um “imperativo, mas quase impossível”.

“Vamos ter de recuar [a partir da costa]. Não há escolha. Em termos puramente econômicos, será impossível defender tudo. A defesa de cidades como Londres ou Rotterdam na Europa indicam que não haverá dinheiro para todas as outras habitações menores”, Cooper.

FONTE:  http://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/praias-do-rio-de-outras-partes-do-mundo-correm-risco-de-serem-varridas-do-mapa-14834421#ixzz3M3y0QEMD