Capitalismo precário dá as condições ideais para o coronavírus aumentar sua letalidade

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Muita tinta tem se gasto para imprimir artigos científicos e livros sobre os impactos da financeirização do Capitalismo neste início de Século XXI.  Uma quantidade menor de publicações trata da questão da precarização das relações de trabalho, e me lembro imediatamente do excelente “O privilégio da servidão” do sociólogo e professor da Unicamp, Ricardo Antunes.

Para mim, a eclosão da COVID-19 oferece uma chance espetacular de revisitarmos a situação do Capitalismo e dos efeitos da precarização das relações de trabalho na piora significativa das condições de vida da maioria da Humanidade que vive de vender sua força de trabalho.  É que a precarização da maioria tem servido apenas para um enriquecimento exponencial de uma fração específica dos capitalistas, que são os donos de bancos e daqueles que vivem de apostar nos múltiplos cassinos do rentismo globalizado.

Se olharmos de perto a forma pela qual a COVID-19 está a devastar sem dar um tiro sequer a maior potência militar que a Terra já conheceu, não poderíamos entender como os EUA estão desabando com um castelo de cartas, se não olhássemos de perto a extrema precarização das condições de vida da classe trabalhadora estadunidense, que em menos de 30 dias de crise já assistiu a uma perda de pelo menos 16 milhões de postos de trabalho, a maioria deles precarizados.  Por cima disso, o que se vê são filas quilométricas de carros que são conduzidos por desempregados, e que estão se dirigindo para pontos de distribuição de alimentos.  Essas filas são o maior testemunho do desabamento do capitalismo precarizado “Made in USA”.

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Mais de dois milhões de pessoas na Califórnia pediram subsídios de desemprego desde meados de março, quando o coronavírus começou a se espalhar rapidamente pelos EUA. 

Mas e o Brasil nessa situação toda? Como já abordei em outras postagens, vivemos, como bem demonstra Ricardo Antunes na obra acima citada, um reinado absoluto da precarização. A opção por precarizar é tal ordem que desde o golpe parlamentar que derrubou Dilma Rousseff em 2016 está em curso uma operação desmanche da Consolidação das Leis de Trabalho (CLT) cujos únicos resultados palpáveis têm sido a perda de massa salarial e o aumento no número de desempregados.

Essa sanha precarizadora não foi detida sequer pela COVID-19, pois em plena madrugada, a Câmara de Deputados aprovou a MP 905 com a qual o governo Bolsonaro pretende implantar a chamada “Carteira Verde e Amarela“,  que na verdade é uma mini contrarreforma trabalhista que se concentra em diminuir direitos trabalhistas e aumentar o poder dos patrões sobre a classe trabalhadora.

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No meio da pandemia, governo Bolsonaro opera para precarizar ainda mais os direitos dos trabalhadores brasileiros

A precarização das relações de trabalho, entretanto, é apenas uma das faces do estabelecimento de uma versão precarizado do capitalismo dependente brasileiro.  É que nessa nova faceta do capitalismo no Brasil, a classe capitalista está operando para precarizar não apenas os serviços públicos para transformá-los em mercadoria, como também se volta para reprimarizar completamente a economia brasileira. A combinação dessas precarizações é que resulta na opção de deixar muitos morrerem por causa da COVID-19, em vez de realizar todas as ações possíveis para minimizar o número de óbitos.

É por causa desse somatório de precarizações que, muito provavelmente, teremos os EUA e o Brasil como os líderes mundiais de casos de infecção e mortes causados pelo coronavírus. A única forma disso não acontecer será multiplicar as ações de base que já estão acontecendo nesses dois países, onde movimentos sociais e ativistas independentes estão organizando a resistência ao coronavírus dentro dos maiores bolsões de precarizados, que são as periferias urbanas.  Essas experiências podem não apenas reduzir a letalidade do coronavírus, mas também pavimentar o caminho para que haja uma resistência efetiva ao processo de precarização da vida que as elites econômicas adotaram para acumular a maior parte riqueza gerada pelos trabalhadores.

Um Brasil precarizado: esse é o legado que nos deixam as políticas neoliberais

precariadoSíntese da destruição socioambiental em curso no Brasil: trabalhador precário enfrenta a inundação em Belo Horizonte para entregar encomendas

Viver em uma cidade de tamanho médio torna possível abrir janelas para a realidade macro de qualquer país.  Por isso, não posso deixar de apontar que o Brasil que emerge como fruto de três décadas é de um país cada vez mais precarizado com pessoas que clamam algum tipo de êxito se conseguirem inserir em alguma forma de subemprego. Aquela outra porção que não possui a possibilidade sequer do subemprego glamourizado (Uber, IFood e outros similares) resta então se dirigir às calçadas para tentar vender algum tipo de guloseima ou simplesmente pedir dinheiro.

Apesar de saber que esse não é um fenômeno genuinamente brasileiro, não posso deixar de me sentir indignado com o destino que é dado a amplos segmentos da nossa população. A eclosão do precariado torna tudo mais difícil para que possamos alcançar um modelo de Nação minimamente democrática e com a possibilidade de dar existência digna aos mais pobres. 

O que temos, pelo contrário, é o aprofundamento da violência estatal e paraestatal que é a contrapartida da precarização do mundo do trabalho e do aprofundamento do apartheid social existente desde os tempos da Colônia. E, pior, sob a aprovação cúmplice dos segmentos da população que se beneficiam dessa forma particular de funcionamento do Capitalismo.  Dos segmentos que ganham com essa sociedade precarizada, não se pode esperar nem formas limitadas de solidariedade social. O que eles querem é que as forças policiais assegurem que possa usufruir tranquilamente das benesses do rentismo sem serem importunados pelos abandonados pelo sistema.

De quebra, desaparecem os clamores pela idoneidade dos governamentais, pois o que se vê agora é a ação óbvia para eximir membros das elites governantes de quaisquer acusações ou imputações por claros de corrupção, a começar pela rachadinhas de gabinete e as parcerias praticamente assumidas com segmentos criminosos como é o caso das milícias.

É preciso que se diga que o governo Bolsonaro e seu ministro banqueiro, Paulo Guedes, representam um aprofundamento das políticas neoliberais iniciadas por Fernando Collor e continuadas por todos os governos que se seguiram. Até aqui, o atual governo está impondo sua política de arrasa quarteirão que destrói as bases de um estado nacional minimamente soberano para impor aqui o reinado completo da especulação financeira que implica na recolonização completa do Brasil, ainda que seja por meio de estatais europeias e chinesas.  

Em meio a toda essa devastação social e econômica, não vejo saídas a partir dos partidos que se reclamam de esquerda de manhã para aplicarem eles mesmos políticas neoliberais de tarde. A única expectativa real para enfrentar o projeto de recolonização do Brasil é que vejamos brotar aqui processos similares aos que já estão acontecendo em outras partes do mundo, onde a juventude e a classe trabalhadora estão reassumindo a direção do combate de massas sem ligar muito para as agendas reformistas dos que se adaptarão a parlamentos cada vez mais subordinados às vontades das elites globais.