Chora a nossa pátria mãe gentil

Por: Mônica Raouf El Bayeh

Chora a nossa pátria mãe gentil. Não por mais uma vergonha da seleção. Nem pelo jogo de com camisa X sem camisa de fundo de quintal que foi a partida contra a Holanda.

A pátria chora porque uma nuvem preta vêm cobrindo, mais uma vez a todos nós. E assustando nossos irmãos. Tirando inocentes de casa, ameaçando, botando fuzil na cara até de menores, deixando recados para os que não são encontrados.

A ditadura voltou ou nunca foi embora? Se o presidente fosse militar, não dizia nada. Mas justo uma presidenta ex- guerrilheira? Que ironia do destino.

Dia 12 de julho de 2014, guarde essa data. No objetivo claro de constranger e intimidar cidadãos que participam de manifestações, a polícia prendeu 38 pessoas. Em uns casos com mandado, em outros nem isso.

Um típico caso de faxina para o final da copa. Numa atitude inconstitucional, aleatória e mal explicada. Pior, a mesma atitude já foi tomada pela polícia no início da copa e a gente nem ficou sabendo.

Para o presidente de Comissão de Direitos Humanos da OAB do Estado do Rio de Janeiro, Marcelo Chalreo, as prisões são inconstitucionais. “As prisões têm caráter intimidatório, sem fundamento legal, e têm nítido viés político, de tom fascista bastante presente. O objetivo é claramente afastar as pessoas dos atos públicos”

O primeiro boletim que eu li sobre o assunto dizia que os manifestantes tiveram suas casas vasculhadas e foram encontrados: celulares, computadores, máscaras de gás, jornais e joelheiras.

Eu pensei, estou ferrada! Tirando a máscara de gás, tenho tudo. Sou a próxima. Deixo, inclusive a dica aqui: minha sogra tem isso tudo na casa dela. Entendeu a deixa? Endereço inbox.

Falando sério, agora. Máscara de gás não é ataque, é defesa. Ataque são as bombas que os manifestantes têm levado na cara. Se levam máscaras de gás é por uma questão de sobrevivência. Aliás, todos deveriam ter uma máscara de gás, já que as bombas têm a capacidade de ir bem longe, até o oitavo andar dos prédios da cidade pessoas passavam mal com o efeito que elas causavam. É crime se proteger?

Provavelmente viram o absurdo da acusação e resolveram incrementar. Acharam um revolver velho, do pai de um dos acusados com porte de arma vencido. E aumentaram para: armas. Duvido que lendo essa matéria tenha uma só pessoa que não conheça uma criatura completamente inocente que possua arma em casa, a pretexto de se defender de ladrão.

Acharam maconha na casa de um outro. Acrescentaram: drogas. Olha a lista crescendo e ficando perigosa!

Amigos presos, amigos sumindo aqui pra nunca mais. Foi assim que me senti ontem ao ser procurada por várias pessoas pedindo ajuda. E pensei, quantos Amarildos ainda vão sumir com essa história? Até quando tanto desmando? Do fundo de um passado sombrio tenho visto, janela por janela, as paisagens se repetirem. E é com muita angústia por tudo que escrevo aqui agora.

Uma das presas foi a advogada Eloísa Samy, conhecida por trabalhar na defesa das pessoas presas em manifestações. É crime ser advogada? O professor que foi barbaramente arrastado pela polícia nas ruas do RJ também estava na lista e foi preso. Seu crime? Ser arrastado? Ele levou os policiais a lhe arrastarem pelas ruas? É isso?

Fui procurada ontem por educadores ameaçados de prisão. Seu crime? No geral, o crime de um professor é ensinar para que o futuro seja melhor. Ensinar a lutar por uma vida mais digna. Provocar a indignação pelo que não presta. E mostrar que não se acostuma com o que é ruim. Isso agora dá cadeia? Parece que sim.

No jornal da televisão anunciavam a prisão de Black-blocks. A notícia tinha uma função tranquilizadora implícita: a população ficasse tranquila. A cidade já estava limpa para o final da copa. Os malfeitores estavam presos. Nem tudo é o que parece ser. Nem tudo é o que querem que pareça ser.

Luíza Dreyer, a cantora linda de voz esplendorosa que participou do The Voice, está na lista também. Eu torcia por ela, no The Voice. Torço ainda mais agora, para que ganhe mais essa disputa, dessa vez contra o abuso de poder. O crime da Luíza? Protestar. É crime?

As pessoas que entraram em contato comigo não eram malfeitores. Eram professores. Agora sendo caçados, sem mandados. Ou com mandados, tendo seus nomes expostos num PROCURA-SE moderno que antigamente era pregado em árvores. E hoje em dia é rapidamente espalhado em redes sociais.

Está no Facebook, eu li, não sei se é verdade. Mas eu li os presos tentando se defender, falando de terem tido objetos plantados nas investigações. Armas, bombas, coisas que não lhes pertenciam. É praticamente um lenda urbana essa história de que a polícia, a pretexto de inspecionar plantava drogas para acusar as pessoas. Nunca aconteceu comigo, nem com ninguém conhecido. Eu aqui não posso afirmar nada. Mas onde há fumaça…

Fico aqui pensando com meus botões: os black blocks que quebravam tudo nas passeatas eram sempre longamente filmados pela imprensa. Porque a imprensa sempre sabia onde eles estavam e a polícia não? Por que não prenderam logo enquanto eles promoviam a quebradeira? Onde ficava a polícia enquanto eles quebravam? Não viam? Não ouviam?

Enquanto educadores são presos, a pretexto de serem bandidos, o bandido que fez a maior roubalheira com os ingressos da FIFA foi solto e já sumiu pela porta de trás. E corruptos são liberados das prisões.

A qualquer pretexto invadem hoje a casa de uma pessoa, sem mandado ou com um mandado sem justificativa, levam preso sei lá até quando. Já se imaginou sendo invadido, caçado, impunemente e sem direito a defesa? Já se imaginou com medo sem nem saber de que ou de quem direito? Imagine! Quem garante que o próximo não será você?

Às vésperas da comemoração da queda da Bastilha, ainda se vê o poder repetindo o mesmo velho esquema de calar quem incomoda. A Bastilha era um depósito de loucos onde os pensadores iam sendo jogados. Porque soltos, eram perigosos.

O jornal acusa os cidadãos presos de plantar o caos. Pensar, questionar é plantar o caos? Pensar é muito perigoso mesmo. O bom pensar de um povo faz cabeças rolarem. Bastilha neles para que tudo fique como está! Voltamos aos tempos dos presos políticos.

Mas sei que uma dor assim pungente não há de ser inutilmente. A esperança dança na corda bamba de sombrinha e em cada passo dessa linha pode se machucar. Azar! A esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar (Aldir Blanc e João Bosco).

Foto de Cristina Froment

FONTE: http://extra.globo.com/mulher/um-dedo-de-prosa/chora-nossa-patria-mae-gentil-13240147.html#ixzz37Y3dE9Ql

“Prisões preventivas” da Copa, armação no Rio para evitar protestos

 

debate criminalização 1

NOTA DE REPÚDIO ÀS PRISÕES ARBITRÁRIAS

via Lúcia Rodrigues, no Facebook

Na véspera da final da Copa do Mundo, o principal debate não é sobre quem será o possível campeão, mas sim sobre se temos ou não democracia em nosso país. A Justiça expediu 26 mandados de prisão contra professores, jornalistas, radialistas, midiativistas e outros cidadãos, além de mandados de apreensão de dois adolescentes, por conta da participação destes em manifestações e da articulação de novos protestos para os próximos dias. O ato repete prisões que ocorreram também na abertura da Copa.

Tal atitude nos afasta cada vez mais de um Estado Democrático onde o direito à liberdade de expressão e manifestação deve ser garantido amplamente. Por conta disso, as entidades e militantes abaixo assinados repudiam a ação policial e fazem questão de frisar algumas questões relevantes:

1 — O advogado criminalista Lucas Sada, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro, cuida do caso da radialista Joseane de Freitas, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), presa neste sábado (12/07) sob a alegação de formação de quadrilha armada, assim como todos os outros presos. O advogado relatou que Joseane apenas participou de duas manifestações, a mais recente realizada em Copacabana por ocasião da abertura da Copa do Mundo. Ela e os outros presos no Rio serão encaminhados ao Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu. Este fato reforça características típicas de Estado de exceção que estamos enfrentando nos últimos dias.

2 — A Polícia permitiu acesso exclusivo para os jornalistas a serviço da mídia corporativa empresarial, impedindo jornalistas e comunicadores independentes de fazerem a cobertura da ação. Esse fato revela uma atitude antidemocrática e fere a liberdade de expressão e de imprensa, caracterizando uma violação aos direitos humanos.

3 — Outra violação de Direitos quase se concretizou com a autorização para que os jornalistas que tiveram acesso às dependências da Cidade da Polícia filmassem e fotografassem os presos políticos, mesmo sem haver nenhuma condenação aos suspeitos. Sem maiores explicações, a polícia desistiu de apresentar os detidos. Repudiamos a imposição desse tipo de tarefa pelas empresas aos jornalistas, que viola o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Tal repúdio se dá porque a atitude da polícia e também das empresas que em outros casos já publicaram imagens se impõe como uma violação aos Direitos Humanos dos presos políticos, e um ataque à Cláusula de Consciência do mesmo Código, que garante o direito de os profissionais se negarem a tarefas antiéticas.

4 — Ao chegar à Cidade da Polícia para verificar denuncia de cerceamento ao trabalho dos jornalistas, a diretora do sindicato Gizele Martins foi impedida de ter acesso às dependências da delegacia. Do lado de fora, ela comprovou que jornalistas independentes e comunicadores foram de fato proibidos de entrar na unidade.
Diante desse cenário, é necessário restabelecermos o Estado Democrático de Direito com garantia da liberdade de expressão, manifestação e imprensa. Não podemos admitir, a pretexto da garantia da ordem, o cerceamento de direitos e a prisão daqueles que participam de protestos e lutam por suas causas, ideais e sonhos de uma sociedade mais justa, livre e democrática.

Assinam:

Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro

Sindicato dos Radialistas do Estado do Rio de Janeiro

Associação Mundial de Rádios Comunitárias

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Enquanto os brasileiros sofrem com a derrota da seleção, um resultado muito mais grave está sendo engendrado: a derrota da democracia e da Constituição.

No Rio de Janeiro, por razões políticas, 17 pessoas foram presas, com base em mandados de prisão temporária, e dois menores foram apreendidos.

Um representante do poder judiciário viabilizou a ação policial, evidenciando mobilização orquestrada com participação governamental. A operação foi justificada para prevenir ações que pudessem perturbar a ordem pública no dia da decisão da Copa do Mundo. Por esse motivo os advogados têm tido dificuldade em conhecer a substância de cada acusação: tudo foi feito para impedir que os presos se beneficiassem de Habeas Corpus antes de domingo.

O chefe da polícia civil tem deixado claro, em seus pronunciamentos, que as prisões visam prevenir possíveis ações. Estamos diante de uma arbitrariedade inaceitável, que agride o Estado democrático de direito.

As prisões constituem ato eminentemente político e criam perigoso precedente: a privação da liberdade individual passa a ser objeto de decisão fundada em previsões e no cálculo relativo ao interesse dos poderes do Estado.

Foram golpeados direitos elementares individuais e de livre manifestação. Conclamamos todos os cidadãos comprometidos com os princípios democráticos, independentemente de ideologias ou filiações partidárias, a unirem-se contra o arbítrio e a violência do Estado, perpetrada, ironicamente, sob a falsa justificativa de evitar a violência.

Marcelo Freixo, Jean Wyllys, Lindberg Farias, Tarcísio Motta, Chico Alencar, Luiz Eduardo Soares

FONTE: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/prisoes-preventivas-da-copa-armacao-para-evitar-protestos.html