Porto do Açu: sucesso de mídia , mas só na regional

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Tenho observado um esforço concentrado da atual controladora do Porto do Açu de promover uma volta daquelas famosas visitadas guiadas dos tempos de Eike Batista, onde o alvo principal é a mídia regional. Os relatos, como é de se esperar, são sempre bem impressionados e contribuem para um esforço de construção de imagem que não tem preço, especialmente em tempos de tanta incerteza por falta de interessados.

Essa volta das visitas guiadas ao interior do Porto do Açu é, contudo, um fenômeno regional. Tenho observado os grandes órgãos de imprensa nacional e internacional (por ex: Exame, Valor Econômico, Bloomberg, BBC, Reuters), e as entradas de matérias voltadas para cobrir o empreendimento são, quando muito, escassas e antigas. Em outras palavras, todo esse esforço é aparentemente para legitimar o empreendimento no plano local, visto que não se nota qualquer repercussão para além dos municípios diretamente influenciados por sua existência.

E ai é que reside um detalhe curioso: no plano local o que se vê é uma combinação de “cash in” e “trash out”.  Em português claro, isso significa que o Porto do Açu se tornou um ponto focal de entrada de dinheiro público graças aos generosos empréstimos do BNDES, mas por causa da sua natureza de enclave estadunidense, não há muita repercussão positiva para o entorno. Aliás, muito pelo contrário! O que se sobra para o entorno é muito lixo, seja na forma mais básica, ou na mais complexa que são suas múltiplas e profundas mazelas sociais e ambientais. Na prática, quem caminha pelas comunidades de entorno notará cenas que mais parecem saídas das regiões mais pobres do Brasil, e não de uma área que tem sido tão generosamente abastecida com vários bilhões de reais.

Apenas numa contagem básica, o que temos de objetivo do Porto do Açu para o município de São João da Barra? Os mais otimistas apontarão seus dedos para a única coisa palpável: o aumento no recolhimento do Imposto sobre Serviços (ISS). Mas e o custo social e ambiental? Começando pela salinização de águas e solos, passando pela erosão costeira que segue incontida e por incêndios na floresta de restinga, e mais recentemente no despejo de minério de ferro nas águas oceânicas que banham a área de carregamento. 

O mais impressionante é que todas essas mazelas ambientais continuam crescendo todos os dias, sem que haja qualquer esforço palpável para contê-las, o que permite estabelecer um cenário de profunda degradação ambiental caso todas as promessas de novos empreendimentos dentro do Porto do Açu se concretizam. È como se estivéssemos vivendo a aurora de uma nova “Cubatão” em nossa região, sem que ninguém pareça querer notar.

E ai todo esse esforço para angariar simpatia entre a mídia regional faz muito sentido. Resta saber se haverá como se jogar para debaixo tantos problemas… e por quanto tempo. É que não há campanha agressiva de mídia positiva que consiga encobrir tantos problemas por todo o tempo. A ver!

Folha de São Paulo mostra problemas sociais e ecológicos causados pelo mineroduto Minas-Rio

O jornal Folha de São Paulo colocou hoje no ar uma matéria sobre os graves problemas sociais e ambientais que estão sendo causados na região de Conceição do Mato Dentro (MG) pelo início do funcionamento do mineroduto Minas-Rio que é operado pela multinacional Anglo American (Aqui!).

O título da matéria é “Maior mineroduto do mundo começa a funcionar em meio a queixas” apresenta uma coleção de problemas ambientais e de perturbação do cotidiano dos moradores de município. Além da mortandade de peixes, contaminação de nascentes e uso excessivo de água em um período de seca histórica (o mineroduto consome 2.500 litros cúbicos de água por hora, o que seria suficiente para abastecer uma cidade de 220 mil habitantes!), há também a ocorrência da trepidação das casas dos moradores que causam rachaduras nas casas próximas pelos locais onde o mineroduto passa.

Mas um detalhe que conecta os moradores de Conceição do Mato Dentro aos seus congêneres no V Distrito de São João da Barra, não é o mineroduto propriamente dito, se relaciona às disputas em torno da venda de propriedades já que os agricultores reclamam dos preços pagos por suas terras.

Aliás, há outro detalhe que conecta os dois pontos do mineroduto Minas-Rio: o descompromisso da Anglo American com a resolução dos problemas que está causando, tudo em nome da geração de lucros. 

O mais lamentável é notar que também os problemas causados pela omissão dos órgãos governamentais no que tange à exercer o que a legislação determina em termos de proteção ambiental e de defesa dos direitos dos agricultores que tiveram o azar no caminho deste megaempreendimento. E aproveito para frisar que o nome disso não é desenvolvimento, nem aqui, nem na China, que para onde a Anglo American planeja mandar o minério de baixa qualidade que o ex-bilionário Eike Batista lhes vendeu.