(Des) secretário estadual da Educação veio na UENF e chamou professores em luta de “vagabundos”

Ontem fiquei sabendo de detalhes da presença do (des) secretário estadual de educação, o economista Wilson Risolia,  no III Encontro das Licenciaturas da UENF. Além de chegar atrasado, o (des) secretário Risolia falou poucas e boas para uma platéia que era reduzida, mas tinha vários docentes presentes.  Entre algumas das pérolas que me foram narradas estão a declaração de que só vagabundos estavam nas massivas manifestações que os professores realizaram recentemente, pois “quem trabalha não tem tempo para isso”. Além disso, o economista Risolia teria dito que os estudantes da rede estadual custam muito aos cofres estadual e que esse (des)governo investe bastante na educação.

risolia

A verdade é que esse convite quase secreto ao economista Wilson Risolia é típico de uma direção institucional que não entende o seu papel de defesa não apenas dos interesses da UENF, mas de toda a educação pública fluminense. Ao trazer o gestor da privatização da educação pública para dentro do campus Leonel Brizola, os autores desse infeliz convite estão sinalizando que a UENF é “mansa”. Aliás, não tenho notícia de nenhuma outra visita do Risolia a qualquer outra universidade pública fluminense desde que eclodiu a greve dos professores da rede estadual, e junto com ela a feroz repressão policial. 

Mas uma coisa é preciso ser dita: dessa reitoria que ai está eu espero isso mesmo. O que me causa uma certa irritação é ver que ninguém parece se incomodar com tanta mansidão frente a um governo tão desastroso para a UENF. Vai ver que somos mesmo muito mansos.

A repressão aos professores: o ovo da serpente que ameaça a estabilidade política

professores

Os atuais governantes brasileiros deveriam prestar mais atenção no que andam fazendo com os professores. É que nos últimos anos, fruto da profunda precarização a que a educação pública tem sido submetida, os professores têm retornado às ruas para reivindicar melhores salários e condições adequadas de financiamento.  E em vez de mudarem seus rumos, a maioria dos que ocupam as cadeiras de governo tem se valido da repressão policial e da criminalização das lideranças sindicais para tentar conter as justas reivindicações que o movimento sindical tem levantado.

Mas o que os governantes podem ainda não ter percebido é que a repetição das cenas de violência contra os professores está gerando uma onda de indignação em amplos setores da população. E essa indignação não se limita à repressão que tem sido imposta aos professores, mas a algo mais básico: o valor dos salários que estes profissionais recebem para cumprirem a dura missão de educar.

Essa minha reflexão nasceu de encontros casuais com pessoas cujas profissões são ainda mais vilipendiadas pelo atual sistema de valorização salarial, mas que encontram espaço para se indignarem mais com a condição salarial dos professores do que com suas próprias. Recentemente ouvi declarações ultrajadas de um motorista de táxi e de um vendedor num mercado municipal acerca de quanto os professores estão sendo desrespeitados em sua nobre missão de educar.  Essas pessoas quase que se desculparam por estar me cobrando o valor dos serviços que prestavam ao saberem que eu era um professor. Mesmo a informação de que eu era um professor universitário, e que não ganha tão mal quanto professores fora do sistema universitário público, serviu para amenizar a indignação deles.

Desta situação eu depreendo que , ainda de forma inadvertida, os governantes que reprimem e pagam mal aos educadores conseguiram recolocar esta profissão num patamar que talvez só existisse quando a minha falecida avó ainda dava suas aulas no ensino primário em meados do século passado. E por causa disso é que eu me arrisco a vaticinar que num futuro próximo, os governantes, independente do partido em que estejam, vão acabar se defrontando com uma onda de indignação popular que deixará a atual fase de enfrentamento com os Black Blocs como uma lembrança de um tempo de paz e serenidade. E isso tudo porque estão agredindo e perseguindo os profissionais da educação. Mas nada disso deveria causar surpresa em quem conhece uma pouco da História. Afinal de contas, a nobreza francesa perdeu a cabeça por oferecer brioches a quem queria pão.