Grupo GLOBO descobre o desastre do EAD que ajudou a legitimar

Ao denunciar a deterioração da formação docente no Brasil, o Jornal O GLOBO expõe uma crise real — mas silencia sobre o papel histórico da grande mídia na promoção da mercantilização da educação, da expansão descontrolada do ensino à distância e do desfinanciamento das universidades públicas

O editorial do Jornal O GLOBO dia 22 de maio expõe um problema real e grave da educação brasileira: a deterioração da formação docente, especialmente nas licenciaturas ofertadas em modalidade Ensino À Distância (EAD). Os dados citados são efetivamente alarmantes: estudantes de pedagogia, letras e matemática apresentam desempenho abaixo do mínimo esperado, e o texto corretamente associa isso à expansão desenfreada de cursos de baixa qualidade orientados mais pela lógica de mercado do que pela formação pedagógica consistente. Mas há uma contradição importante (e profundamente reveladora) no posicionamento adotado pelo próprio Jornal O GLOBO.

O mesmo Jornal  O GLOBO que publica um editorial denunciando os efeitos da massificação precária do ensino à distância também participa, direta e indiretamente, do ecossistema econômico e ideológico que impulsionou a mercantilização da educação no Brasil. Ao longo das últimas décadas, empresas de mídia ligadas ao grupo produziram conteúdos educacionais, plataformas digitais, telecursos e materiais voltados justamente à expansão do ensino remoto e híbrido. Além disso, a grande mídia brasileira — incluindo o próprio Jornal O GLOBO — historicamente apoiou agendas de austeridade fiscal, privatização e flexibilização regulatória que enfraqueceram o investimento público nas universidades presenciais e abriram espaço para o crescimento explosivo dos conglomerados privados de EAD.

O problema, portanto, não é simplesmente “o EAD” em abstrato. O que o editorial evita discutir é o modelo de EAD que foi consolidado no Brasil: um sistema industrializado, financeirizado e ultrabarato, baseado em polos precários, tutoria mínima, sobrecarga docente e padronização extrema do ensino. Um modelo que interessa enormemente ao capital educacional porque reduz custos operacionais e amplia margens de lucro.

Há ainda uma dimensão ideológica importante. Durante anos, vendeu-se a narrativa de que tecnologia e plataformas digitais democratizariam automaticamente o acesso e resolveriam os problemas estruturais da educação brasileira. Essa visão tecnocrática — frequentemente celebrada pelos grandes grupos de mídia — ajudou a naturalizar a substituição da formação universitária presencial por modelos massificados de certificação em larga escala.

Agora que os indicadores mostram o colapso da qualidade formativa, parte da imprensa parece descobrir tardiamente algo que pesquisadores da educação já denunciavam há mais de uma década: não existe “atalho tecnológico” para formar professores. Formação docente exige convivência acadêmica, prática supervisionada robusta, debate crítico, inserção institucional e acompanhamento pedagógico permanente.

Outro aspecto pouco explorado pelo editorial é que o avanço do EAD não ocorreu por demanda espontânea dos estudantes, mas por um processo político deliberado de desfinanciamento das universidades públicas e incentivo agressivo aos conglomerados privados. Hoje, mais de 70% das vagas de licenciatura são ofertadas a distância porque esse modelo se tornou altamente rentável para o setor empresarial educacional.

Assim, o texto do Jornal O GLOBO acerta ao diagnosticar a crise, mas silencia sobre sua própria inserção histórica no ambiente político, econômico e comunicacional que ajudou a produzir essa mesma crise. Trata-se de uma contradição típica do capitalismo educacional contemporâneo: denuncia-se o desastre apenas depois que ele já se tornou socialmente incontornável — sem questionar profundamente os interesses econômicos que o alimentaram.

Se o Brasil pretende efetivamente enfrentar a crise da formação docente, não bastará impor limites ao EAD precário ou endurecer mecanismos de avaliação. Será indispensável reverter décadas de desfinanciamento das universidades públicas e reconstruir uma política nacional robusta de formação presencial de professores. Isso implica ampliar investimentos em licenciaturas presenciais, fortalecer infraestrutura acadêmica, laboratórios, bibliotecas e programas de residência pedagógica, além de garantir políticas permanentes de assistência estudantil que assegurem condições materiais para que jovens de baixa renda possam permanecer nos cursos de formação docente. Afinal, não se forma bons professores em massa por meio de plataformas padronizadas e tutoria precarizada, mas através de processos densos de convivência intelectual, prática supervisionada e inserção universitária crítica. Ao mesmo tempo, torna-se urgente enfrentar a crescente precarização da profissão docente em todos os níveis de ensino. Salários corroídos, sobrecarga de trabalho, perda de prestígio social, adoecimento laboral e ausência de perspectivas de carreira têm afastado especialmente os mais jovens do magistério. Sem recompor a atratividade econômica e simbólica da profissão, o país continuará produzindo um círculo vicioso: menos interesse pela docência, formação mais precária e deterioração contínua da qualidade da educação pública brasileira.