Rompimento de barragem de rejeitos de mineradora canadense causa Tsunami tóxico no Maranhão

Barragem é equiparada a de Mariana em proporção de exploração de minérios; população relata poluição do rio Tromaí, no oeste do Maranhão

Por Movimento de Atingidos por Barragens

Nesta quinta-feira (25), diversas denúncias a partir de vídeos e matérias de veículos locais surgiram sobre o rompimento da principal barragem de rejeitos do Maranhão, no município de Godofredo Viana, na região extremo oeste, próximo a divisão com o estado do Pará.

Moradores registraram o momento em que uma das barragens da mineradora Aurizona se rompeu, transbordou e invadiu o reservatório de água de onde era feita a captação do sistema de abastecimento da cidade

A operação de responsabilidade da mineradora Aurizona pertence ao grupo privado Canadense Equinox Gold, trata-se da maior reserva mineral de ouro do Brasil e uma das principais do mundo. Dados de 2019 revelam que essa região possui mais de 750 mil toneladas de ouro estocado em minas.

A mineradora se posicionou em nota minimizando o problema e afirmando que não houve rompimento de barragem, mas, sim comprometimento de drenagem em operação da MASA S/A (Mineração Aurizona).

Até o momento não há informações sobre vítimas. Os primeiros relatos dão conta de que pode haver contaminação do rio e que o rompimento interditou o acesso à única estrada da região. O rio mais próximo da mineradora é o rio Tromaí, ao lado da barragem e ao mar em uma área de mangue.]

As famílias contam que, por conta da contaminação de minérios no rio, já estão sem acesso à água potável.

A contaminação de minério deste tipo em corpos hídricos pode acarretar uma série de impactos sociais e ambientais na vida da população atingida, como a ocorrência de diversas doenças, além do aumento da pobreza e da desigualdade social, como ocorreu em Brumadinho, Minas Gerais.

Ressaltamos que em 2018 houve um deslocamento de pilhas de estéril, causado pela explosão de dinamites e cerca de quatro mil pessoas foram atingidas, ficando isoladas.

Na última terça-feira (23) a pedido do MAB, o deputado estadual Adelmo Soares (PCdoB), aprovou na CCJ da Assembleia Legislativa do Maranhão a tramitação do PL 66/2021 que cria uma lei estadual de direitos das populações atingidas por barragens no Maranhão.

Afirmamos que o evento desta quinta-feira é mais um crime socioambiental das mineradoras, que são as mais beneficiadas com o atual modelo energético existente no país, e que se colocam contra a população brasileira.

As barragens de mineração, hidrelétricas e de água no Brasil não podem continuar representando insegurança, medo e violência para a população que vive próxima desses empreendimentos.

As empresas donas das barragens, muitas de fora do país e grandes transnacionais, são as beneficiadas com o lucro às custas de nossos recursos e do nosso povo, com altas tarifas, e precisam ser responsabilizadas urgentemente.

fecho

Este texto foi originalmente publicado pelo Movimento dos Atingidos por Barragens [Aqui! ].

LIVE: O percurso criminoso das barragens de rejeitos da mineração: de MG ao Centro Norte da Bahia

rejeitos

Com:

Amelia Silva Alves Marques (Comunidade de Canavieiras, Jacobina-BA);

Pedro José de Souza (Comunidade de Canavieiras, Jacobina-BA);

Marcela Rodrigues (Movimento das Águas e Serras de Casa Branca, vitimada pelo crime da Vale em Brumadinho-MG);

Edinei Soares (Angico dos Dias, Campo Alegre de Lourdes-BA);

Almacks Luiz Silva (CPT Ampliada, Centro Norte, Diocese de Bonfim);

Radiação: Adalton Marques (Krisis/UNIVASF)

Transmissão pelo YouTube:

Confiscações e Lutas Anti-Confiscatórias:

Perigo claro e presente: reportagem revela que cidades de MG que estão ameaçadas por barragens da Vale

Mapas inéditos: 10 escolas e mais de 1,5 mil edificações estão no caminho da lama das barragens da Vale em MG

Mesmo 18 meses depois de Brumadinho, Vale e poder público não divulgam as áreas que podem ser atingidas em caso de rompimento das barragens de mineração. A Repórter Brasil teve acesso às informações e disponibiliza plataforma para consulta pública

Mapas inéditos: 10 escolas e mais de 1,5 mil edificações estão no caminho  da lama das barragens da Vale em MG

Por Amanda Rossi e Hugo Nicolau para a Repórter Brasil

Quando as aulas forem retomadas na Escola Estadual Deniz Vale, em Nova Lima (MG), os 1.254 alunos vão voltar para suas classes sem saber que o local pode ser atingido por um rio de lama em menos de 30 minutos no caso de rompimento de uma barragem próxima, com altura e volume similares à que gerou o desastre de Brumadinho. Também não receberam treinamento a respeito do que fazer em caso de emergência.

“A escola nunca recebeu essa informação”, diz Zeca Ribeiro, professor de história da Diniz Vale. Segundo outro funcionário da escola, a Defesa Civil e uma empresa contratada pela Vale fizeram uma visita rápida ao local, logo depois de Brumadinho, mas “não mostraram nenhum documento e nunca mais voltaram”. O desastre, que deixou 270 mortos, completa um ano e meio neste dia 25.

Os alunos, professores e funcionários dessa escola de Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, não são os únicos no escuro a respeito do perigo que correm. Mapas inéditos obtidos pela Repórter Brasil mostram que outras nove escolas estão dentro das chamadas Zona de Autossalvamento (ZAS) das barragens da Vale em Minas Gerais. Essas são as áreas que seriam atingidas pelos rejeitos em até 30 minutos, não havendo tempo para a Defesa Civil retirar a população do local – por isso, o nome “autossalvamento”.

No ano passado, a Vale chegou a planejar a publicação de um site com os mapas das Zonas de Autossalvamento de 64 barragens (59 delas em Minas Gerais) — e rotas de fuga em caso de rompimento. A divulgação, no entanto, nunca aconteceu. A Repórter Brasil teve acesso a esses mapas e os divulga de forma inédita para que as pessoas enfim saibam se estão em risco ou não por conta das barragens de rejeitos de minério. Nessa plataforma, é possível checar a situação das cidades mineiras que estão próximas a barragens da Vale.

mapa barragem 1Mapa mostra área da cidade de Nova Lima, incluindo escolas e prédios públicos,  que poderia ser afetada caso houvesse um rompimento das barragens da Vale; clique na imagem para consultar o mapa completo (Foto: reprodução)

No total, são mais de 1,5 mil edificações, distribuídas em 16 municípios, que poderiam ser gravemente atingidas pelos rejeitos, em caso de rompimento das barragens. Entre elas, estão prédios públicos: quatro Fóruns de Justiça, duas Câmaras de Vereadores e a prefeitura. O Brasil tem ainda outras 300 barragens de outras mineradoras, cujas áreas de risco continuam desconhecidas.

“Se há uma escola dentro da área que seria atingida, ela deveria ter não só o mapa, mas treinamento sobre o que fazer em caso de rompimento. Esse é um ótimo exemplo de como a transparência salva vidas. Mas, mesmo depois de duas tragédias tão grandes, em Mariana e Brumadinho, as instituições não aprenderam”, diz Renato Morgado, da ONG Transparência Internacional.

Questionada sobre a desistência em divulgar o site com os mapas, a Vale afirmou que “a Defesa Civil de Minas Gerais demonstrou não ter interesse” na divulgação das informações. Acrescentou ainda que está, neste momento, negociando um projeto que vai divulgar os mapas das manchas de inundação em Minas Gerais em um aplicativo, porém não informou a previsão de lançamento.

Sobre a falta de treinamento dado à população que vive na rota da lama, a Vale informou que apenas realiza simulados de emergência quando as barragens estão nos níveis 2 ou 3 de segurança — que indicam risco médio e alto. A empresa informou já ter feito dez simulados, com 26 mil pessoas. Um deles foi em Nova Lima, mas não contou com a participação da escola Diniz Vale.

A Vale afirma ainda que “não tem medido esforços para garantir a segurança das suas barragens e das comunidades localizadas a jusante das estruturas” (leia a íntegra das respostas). Entre as medidas tomadas, cita o monitoramento 24 horas das estruturas e a construção de três barreiras de contenção nas barragens de nível 3 (as de maior risco), que seriam capazes de conter todo o rejeito se houvesse ruptura.

A Defesa Civil de Minas Gerais não respondeu se tomou providências para divulgar os mapas de inundação, dizendo apenas que “a obrigação pela divulgação das informações é do empreendedor”. Em relação à alegação da Vale, de que a Defesa Civil não teria interesse na divulgação dos mapas da mineradora, o órgão não se manifestou.

barragem 2Mesmo um ano e meio depois do desastre na barragem de Brumadinho, que deixou 270 mortos, Vale e poder público não divulgam as áreas que podem ser atingidas em caso de novos rompimentos (Foto: Bombeiros/Divulgação)

O grande número de pessoas vivendo em áreas de autossalvamento, independentemente do grau de risco da barragem, é motivo de preocupação. “A existência de comunidade nesses locais é extremamente temerária, por se tratarem de evidentes áreas de risco”, escreveu o Ministério Público de Minas Gerais para a Câmara dos Deputados, em abril. No mês seguinte, os deputados federais proibiram a instalação de novas barragens se houver moradores em Zonas de Autossalvamento. Agora, a medida aguarda votação no Senado.

“Eu acho importante conhecer o mapa e ter o treinamento de emergência, mesmo se a barragem estiver estabilizada. Até porque as barragens que romperam também eram consideradas como estabilizadas”, diz o professor Zeca Ribeiro, da escola Diniz Vale.

O mapa da área de autossalvamento faz parte do plano de emergência da barragem, que deve ser elaborado pela mineradora para “minimizar danos e perdas de vidas”. Apesar de serem documentos públicos, são de acesso limitado. Esta é a primeira vez que esses mapas, elaborados pela Vale, vêm a conhecimento público e estão disponíveis para consulta.

Brumadinho sem rota de fuga

A importância do mapa de áreas de autossalvamento ficou evidente em Brumadinho. Em 25 de janeiro de 2019, o caminho da lama foi similar ao previsto no plano de emergência da Vale. O poder de destruição chegou a ser equivalente a uma onda de 30 metros a 120 quilômetros por hora, segundo cálculos da Polícia Federal. Todas as 270 pessoas que morreram estavam na ZAS. As cerca de 60 construções do local foram completamente destruídas, não sobrando vestígio nem dos seus alicerces.

Funcionários e moradores que sobreviveram dizem que não sabiam por onde a lama iria passar, nem conheciam as rotas de fuga. “Tem um vídeo de Brumadinho que mostra as pessoas correndo de um lado para o outro. Se conhecessem o mapa [da área de autossalvamento] e tivessem treinamento, muitas delas poderiam ter se salvado”, diz Sérgio Médici de Eston, professor de Engenharia de Minas da Universidade de São Paulo (USP).

“Qualquer país decente do mundo vai providenciar informações para que a população saiba que providências tomar em caso de emergência. Se as informações ficarem trancadas, não servem para nada. Esse não é um dado industrial, sigiloso, de segurança nacional. É um dado que pode ajudar a salvar vidas”, complementa Eston.

Depoimento de moradores, feito pouco depois do desastre em Brumadinho, sobre como a busca por corpos e o ódio à Vale não excluíam uma preocupação com o futuro da cidade

O caminho da lama

O município de Rio Piracicaba, com 14 mil habitantes, é o que seria mais atingido em caso de rompimento. Ali, a área de autossalvamento engloba cerca de 500 construções, sendo quatro escolas, a prefeitura, a Câmara de Vereadores e o Fórum. As barragens da Vale em Rio Piracicaba são, atualmente, consideradas fora de risco. Em seguida, estão Itabira e Nova Lima, com mais de 400 imóveis cada na zona de autossalvamento. Em Itabira, as barragens estão sem emergência ou em nível 1 (nível considerado de risco baixo).

Em Nova Lima, além do colégio Diniz Vale, seriam atingidos outra escola, três edifícios do Poder Judiciário, a Câmara Municipal e a própria Defesa Civil. Das janelas da prefeitura, seria possível ver a lama chegando até a lateral do prédio. As barragens da Vale na cidade variam de sem emergência até nível 3. No caso das represas mais perigosas, a zona urbana não faz parte da área de autossalvamento, mas está na Zona de Segurança Secundária, que seria atingida em um segundo momento, após 30 minutos.

barragem 3Mancha da lama após o desastre em Brumadinho (à esq) e o mapa da Zona de Autossalvamento prevista pela Vale mostram como as áreas coincidiam (Foto: reprodução)

A Prefeitura de Nova Lima diz que realizou simulados de emergência no ano passado. Este ano, pretendia dar continuidade aos treinamentos, inclusive na escola Diniz Vale, mas os planos foram interrompidos por causa da pandemia do novo coronavírus.

Em Congonhas, o rompimento de barragens da Vale, consideradas sem emergência, atingiria pelo menos 200 construções, incluindo duas escolas municipais e um parque. Essa é apenas parte do problema do município, que também tem barragens da CSN e da Gerdau. Congonhas descobriu a magnitude da sua vulnerabilidade depois que resolveu criar seu próprio plano de segurança de represas, reunindo dados de todas as mineradoras da região.

As áreas atingidas podem ser ainda maiores do que indicam os mapas. Segundo o Ministério Público de Minas Gerais, algumas das Zonas de Autossalvamento estão subdimensionadas. Por isso, em setembro do ano passado, o órgão firmou Termo de Compromisso com a Vale, determinando a revisão dos estudos que preveem o que pode acontecer se as barragens romperem.

Entre março e maio deste ano, foram entregues as primeiras revisões, que priorizaram as estruturas que estão em situação mais crítica. “Nestes novos estudos, as manchas de inundação aumentaram de forma extremamente significativa”, diz a Promotora de Justiça Andressa de Oliveira Lanchotti.

Acesso restrito a documentos públicos

Pela Lei de Acesso à Informação, a reportagem solicitou os mapas de inundação das barragens para a Defesa Civil de Minas Gerais. O órgão respondeu que só tinha as informações em papel, não digitalizadas. Por isso, a única forma de consultar os documentos seria ir até a sede do órgão em Belo Horizonte, mediante agendamento, sob acompanhamento de um funcionário.

Dessa forma, uma pessoa que viva em outra cidade mas queira conhecer os mapas por ter parentes no local, por exemplo, não tem como acessar a informação, nem pela Lei de Acesso. Depois de ser procurada pela reportagem, a Defesa Civil deu outra versão. Alegou que dispunha de alguns mapas digitais, mas mesmo assim não os forneceu (leia a resposta na íntegra).

Mesmo quem mora nos locais atingidos enfrenta dificuldades para ter acesso às informações. Após o desastre de  Brumadinho, o arquiteto Hugo Cordeiro, de Congonhas, resolveu ir até a Defesa Civil e pediu para ver o mapa com a mancha de inundação da barragem Casa de Pedra, da CSN. “Eram umas dez pastas, com milhares de páginas de informação técnica”, lembra Cordeiro.

barragem 4Quando Hugo Cordeiro conseguiu o mapa de inundação da barragem Casa de Pedra, da CSN, percebeu o perigo e fez por conta própria uma versão para que todos pudessem entender (Foto: Arquivo pessoal)

A procura demorou. Quando finalmente encontrou o mapa com a zona de autossalvamento, Cordeiro não conseguiu entender muita coisa. Era uma mancha vermelha, sem nenhuma informação sobre o que havia debaixo. O arquiteto tirou uma foto com o celular e, em casa, usou o Google Maps para identificar que partes da cidade seriam atingidas pela lama.

E então, Cordeiro começou a acrescentar nomes, ruas e pontos de referência. “No início, fui fazendo por curiosidade. Mas aí eu vi que o negócio era realmente perigoso. Pegava creche, escola, casas. E pensei: preciso mostrar isso para o povo. Vou fazer uma coisa para o pessoal entender”, conta o arquiteto. O resultado foi postado em seu  perfil no Facebook. Logo, viralizou. “Mais de cem pessoas vieram me pedir o mapa em alta resolução”, conta.

Falta de transparência, não só da Vale

De acordo com a Agência Nacional de Mineração (ANM), as únicas exigências para divulgação dos planos de emergência são três “cópias físicas” – uma para a própria mineradora, outra para a Defesa Civil e a terceira para as prefeituras. Não há menção a divulgação na internet. Procurada, a ANM afirmou que não fica com cópias dos planos de emergência, mas estuda reunir e disponibilizar as manchas de inundação online, como parte do Sistema Integrado de Gestão de Barragens de Mineração, que informa as características e o nível de emergência das barragens.

“Assim fica muito fácil para a empresa. Ela pode falar: ‘já fiz meu estudo de impacto e o plano de evacuação, quem quiser que venha aqui olhar’. Não pode ser assim. É preciso passar essas informações para a população, de forma didática”, fala Evandro Moraes da Gama, pesquisador de Engenharia de Minas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

“Papel não é transparência. Transparência é internet. Atualmente, existem até serviços que mandam notificações no celular se há uma chuva forte perto de você. Não é para que as pessoas fiquem alarmadas, mas para que possam saber o que fazer para protegerem suas próprias vidas”, diz Eston, da USP.

fecho

Esta reportagem foi originalmente publicada pela Repórter Brasil [Aqui!].

Nas Minas Gerais Pós-TsuLama, a política ambiental do “colocar tramela em porta arrombada”

Começa fiscalização emergencial em 220 barragens de rejeito em Minas

 Wesley Rodrigues/Hoje em Dia
Começa fiscalização emergencial em 220 barragens de rejeito em Minas
Auditoria nas barragens começa dois meses após a tragédia que devastou Bento Rodrigues

Em caráter emergencial, 220 barragens de rejeitos minerais no Estado terão as condições de segurança avaliadas por empresa especializada contratada pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). As vistorias começaram nessa segunda (18) e devem terminar no fim de abril.

A ação começou no mesmo dia em que o órgão federal publicou portaria dando prazo de 15 dias para as mineradoras de todo o país apresentarem Plano de Ação de Emergência de Barragem de Mineração. Em caso de descumprimento da norma, as estruturas poderão ser interditadas preventivamente. Os planos deverão ser entregues às prefeituras e Defesas Civis municipais e estaduais.

O pente-fino em Minas resultará em documento com análise de cada barragem e será encaminhado aos órgãos emissores de licença ambiental, à Agência Nacional de Águas, ao Ministério Público (MP) e à empresa responsável pela barragem para eventuais reparos. Também será elaborado estudo para determinar a alteração da classificação de risco de algumas estruturas.

Segundo o diretor-geral interino do DNPM, Telton Correa, o trabalho com a consultoria contratada começa em Minas porque o Estado detém metade das barragens a serem avaliadas.

Após conhecer as condições das estruturas mineiras, o trabalho será estendido aos demais estados. No total, há, no Brasil, 402 barragens enquadradas no critério da Lei de Barragens.

Em novembro, o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, soterrou o distrito de Bento Rodrigues, “matou” o rio Doce e atingiu a costa capixaba.

INVESTIGAÇÃO

No último domingo, matéria veiculada no “Fantástico”, da Rede Globo, mostrou que o MPE investiga como a Samarco conseguiu autorização do governo de Minas para erguer a barragem de Fundão, sem apresentar informações essenciais para a realização do empreendimento.

Em nota, o PSDB, que governava o Estado na época em que a Licença Prévia (LP) foi expedida, afirmou que a mineradora apresentou um projeto básico e, posteriormente, a documentação necessária para se habilitar às fases de licença de Instalação e Operação.

“Todo o processo teve parecer técnico e jurídico favoráveis e foi aprovado pelo (Conselho Estadual de Política Ambiental), instância colegiada que decide pela aprovação de licenças, dentro dos prazos previstos”, diz o texto. Ainda segundo a assessoria de imprensa do PSDB, a regularidade do licenciamento foi confirmada pelo atual governo.

FONTE: http://www.hojeemdia.com.br/horizontes/comeca-fiscalizac-o-emergencial-em-220-barragens-de-rejeito-em-minas-1.373602

Tragédia em Mariana: risco com barragens ainda segurando rejeitos é maior do que pensado anteriormente

Barragem de Santarém não se rompeu e há risco, diz DNPM

De acordo com o DNPM, a constatação só foi feita neste sábado depois de um sobrevoo na região, a princípio se pensava que ela teria se rompido junto com a do Fundão

SAMARCO
Área afetada pelo rompimento de barragem no distrito de Bento Rodrigues, zona rural de Mariana, em área afetada pelo rompimento de barragem no distrito de Bento Rodrigues, zona rural de Mariana, em Minas Gerais

NATÁLIA OLIVEIRA e LUIZA MUZZI

Depois de um sobrevoo realizado nesse sábado (14), o Departamento Nacional de Produção Mineral DNPM constatou que a barragem de Santarém, que compõe o complexo de barragens de Bento Rodrigues, não se rompeu. De acordo com o (DNPM), apenas a barragem de Fundão, que fica acima de Santarém, se rompeu e os rejeitos passaram por cima da de Santarém encobrindo ela. O risco dela também se romper existe.

“A princípio não deu para ver a de Santarém e pela lógica ela teria se rompido, porém em um sobrevoo feito na região no sábado (14) percebemos que a estrutura da Santarém se mantem, nas imagens é possível ver a crista dela”, explicou Luiz Paniago, coordenador de fiscalização da pesquisa mineral do DNPM. Desde o último dia 5, quando Fundão se rompeu encobrindo Bento Rodrigues e deixando pelo menos sete pessoas mortas, os órgãos responsáveis estavam divulgando que a Santarém também tinha se rompido.

Segundo Paniago, a barragem de Santarém está cheia e o risco de rompimento existe. “Na classificação de estado de conservação da barragem ela está com a pontuação mais elevada, de 0 a 10, ela tem a pontuação máxima de 10”, esclareceu Paniago. Além de rejeitos, a barragem também capta água e está com um de seus vertedouros, por onde a água escoa, quebrado. O DNPM já recomendou a Samarco que sejam feitas intervenções na barragem para evitar que ela também se rompa, causando uma tragédia ainda maior.

A grande dificuldade é que por causa do excesso de rejeitos não há acesso para barragem de Santarém e há dificuldade para realizar obras no local por questões de segurança. “A Samarco terá que que resolver o problema, que seja buscar um acesso por estrada vicinal ou esperar a lama secar, nós já fizemos a notificação. Pela legislação isso é de responsabilidade do empreendedor e cabe ao órgão fiscalizador cobrar estas ações deste”, alerta Paniago.

O DNPM vai realizar uma ação emergencial de reclassificação das barragens de Minas em função da tragédia no Estado. Para os trabalhos serão utilizados um fundo de R$ 9 milhões. “Será contratada uma empresa especializada em segurança em campo para realizar trabalhos no local. Serão de 10 a 15 técnicos trabalhando em Minas”, afirma Paniago. Segundo ele, os trabalhos devem se iniciar na região metropolitana de Belo Horizonte.

A última vistoria do DNPM nas barragens de Santarém, Fundão e Germano foi realizada em 2012. São feitas duas avaliação nas barragens a de dano potencial, que é a avaliação caso a barragem se rompa sobre a população que será atingida, nesse caso elas receberam classificação alta, já que havia população próxima a barragem.

A outra avaliação diz respeito ao risco crítico que se refere a forma como ela está sendo monitorada. Neste caso as barragens receberam classificação de risco baixa. “Por isso temos que rever essa classificação, já que elas foram classificadas como risco baixo e agora se romperam”, conclui Paniago.

A terceira barragem de Bento Rodrigues, a Germano, que também tem risco de se romper, tem trincas e está passando por intervenções feita pela Samarco afim de garantir estabilidade a barragem. O DNPM vai encaminhar um relatório ao Ministério Público de Minas Gerais quando concluir as vistorias no local, ainda não há data para isso.

O prefeito de Mariana, na região Central de Minas, Duarte Júnior diz ter sido pego de surpresa com a notícia de que Santarém não tinha se rompido. Segundo ele, essa nova informação só faz a preocupação na cidade aumentar. Segundo ele, a Samarco ainda não se pronunciou oficialmente sobre o assunto.

Por meio de nota, a Samarco informou que uma empresa especializada em estabilidade geotécnica está avaliando e monitorando constantemente às barragens. Segundo a empresa, as estruturas estão estáveis. Segundo a empresa, outras medidas estão sendo tomadas. “Estão sendo utilizados drones, escaneamento a laser e a instrumentação geotécnica existente para a avaliação técnica, sendo que para a barragem de Germano, as leituras são automatizadas com aquisição de dados online”, diz a nota.

Veja a nota da empresa na íntegra:

Em relação à Santarém, informamos que o maciço remanescente está íntegro mesmo estando parcialmente erodido. O mesmo acontece com a estrutura de concreto chamada extravasor/vertedouro, que poderá ser recuperada mesmo tendo um trecho em degraus danificado. Empresa especializada em estabilidade geotécnica, contratada pela Samarco, avalia e monitora constantemente as barragens.

As estruturas de barragem e de diques da Samarco encontram-se estáveis. O maciço principal da barragem de Germano está com fator de segurança acima de 1,9. O fator de 1,00 significa que a estrutura está no seu limite de equilíbrio.

As barragens estão sendo monitoradas em tempo real por meio de radares e inspeções diárias, realizadas pela equipe técnica da empresa. Além disso, estão sendo utilizados drones, escaneamento a laser e a instrumentação geotécnica existente para a avaliação técnica, sendo que para a barragem de Germano, as leituras são automatizadas com aquisição de dados online.

FONTE: http://www.otempo.com.br/cidades/barragem-de-santar%C3%A9m-n%C3%A3o-se-rompeu-e-h%C3%A1-risco-diz-dnpm-1.1170158

Tragédia de Mariana: articulista da Bloomberg faz análise cirúrgica e desnuda inoperância de Dilma Rousseff

O artigo abaixo foi escrito pelo correspondente da Bloomberg no Rio de Janeiro, Mac Margolis, e foi originalmente postado em inglês (Aqui!). O que segue abaixo é uma tradução pessoal minha para o português.  Considero que em seu artigo, Mac Margolis, faz uma análise correta dos problemas que estamos enfrentando neste momento no Brasil, principalmente pela inépcia da presidente Dilma Rousseff frente aos desafios colocados em seu segundo mandato por um cenário econômico complicado em nível internacional e, por outro, extremamente difícil do ponto de vista político no plano nacional.

E mais uma vez tenho que constatar que a mídia corporativa nacional não foi capaz de produzir nada semelhante em termos de análise do grave incidente causado pelo rompimento das barragens da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) em Mariana.

É por essas e outras que recomendo a leitura do texto abaixo.

Desastre da mina revela que o Brasil não tem líder

paracatu

Paracatu de Baixo, localidade inundada com rejeitos tóxicos. Fotógrafo: Douglas Magno, AFP/Getty Images

Por Mac Margolis

Nós não sabemos o que deu errado na mina de ferro no sudeste do Brasil no dia 5 de Novembro. Nós não sabemos o que causou a quebra de duas represas que deixaram uma cidade inundada com lodo e resíduos de minas. Até agora, nove pessoas foram confirmadas mortas, 19 estão desaparecidas, e a lama de quilômetros.

Nós sabemos o que deu errado após o desastre. A resposta do governo federal para o fiasco, ou a falta de resposta, já é um estudo em que não se fazer. Durante dias, enquanto as equipes de socorro procuram por sobreviventes, as autoridades federais brasileiras disseram quase nada.

O conglomerado brasileiro de mineração Vale SA, coproprietária da mina acidente também se escondeu inicialmente do público, optando por um comunicado de imprensa superficial um dia após o acidente e deixando o operador local, a Mineradora Samarco, fazer o comunicado. A Vale e BHP Billiton, cada uma com uma participação de 50% na Samarco, fizeram mais tarde uma conferência de imprensa conjunta, perto do local da mina e se comprometeram a fazer todo o possível para ajudar as vítimas e reparar danos. As duas empresas poderiam ter que arcar com US$ 265 milhões de multas por sua responsabilidade no acidente. O promotor ambiental estadual Carlos Eduardo Ferreira Pinto afirmou que o desastre não foi um acidente; e reguladores estaduais suspenderam a licença da mina. O silêncio de Brasília, no entanto, se mostrou estranho.

Só nesta quinta-feira, sete dias após a tragédia, a presidente do Brasil, Dilma Rousseff fez uma visita na região atingida e, mesmo assim, ela inspecionou a devastação de um helicóptero. Mais tarde naquele dia, ela anunciou uma multa de US$ 66 milhões, contra a Mineradora Samarco, e comparou os danos causados nas minas de Mariana aos da plataforma de petróleo Deepwater Horizon da BP, que matou 11 pessoas e derramou mais de três milhões de barris de petróleo no Golfo do México.

Rousseff poderia ter tomado uma pista do Chile. Em 2010, quando uma mina de ouro desmoronou e 33 homens presos no subsolo profundo, o presidente recém-eleito Sebastián Piñera imediatamente enviou seu ministro de mineração para o local da mina. Em seguida, voou para supervisionar a situação de emergência. Piñera, em seguida, convidou os engenheiros da NASA para se juntar ao esforço de resgate, e estava presente quando o último mineiro foi levado para a segurança, 69 dias depois.

É verdade, depois de um breve pós-resgate simpatia colisão, Pinera sucumbiu à política tóxica do Chile e sua popularidade despencou. Mas ele ainda é lembrado como o líder que transformou um desastre em uma oportunidade.

Desde que o escândalo de corrupção na Petrobras surgiu no início do ano passado, Dilma parece decidida a fazer o oposto. Com um único dígito índices de aprovação, a economia no tanque e a conversa de impeachment ainda correndo dentro do congresso, ela parece ter excluído más notícias e se ajoelhou para o ritual Panglossiano de seu trabalho. Nos dias críticos após o desastre de mineração, enquanto as equipes da defesa civil examinavam a lama em busca de sobreviventes, ela organizou uma festa para a Princesa Akishino do Japão, em Brasília, e em seguida, voou para o Rio para inaugurar conjuntos habitacionais de baixa renda e para anunciar uma nova linha de metrô.

Mesmo em sua turnê tardia da zona de desastre da barragem, ela parecia estranhamente otimista. “Se todos nós juntarmos as mãos e trabalharmos juntos, podemos superar esta crise mais rapidamente”, Rousseff disse a repórteres na quinta-feira, em um comunicado que parecia fundir os deslizamentos de terra trágicos com seu próprio impasse político.

Um manto de dúvidas paira sobre a catástrofe mineira. Como é que um par de barragens consideradas como “totalmente seguras” pelas autoridades locais falharam? Por que o povo no caminho do perigo não foi advertido e removido em tempo? Como reguladores e empresas de mineração podem garantir a confiabilidade de milhares de barragens de contenção, 24 delas que as autoridades federais da área da mineração consideram como estruturas de “alto risco”, para não mencionar o resto da precária infraestrutura do país?

Rousseff não foi pessoalmente responsável pela tragédia de 05 de novembro, nem é dela esperado que investigue pessoalmente o problema. Em vez disso, ela deveria fazer o que só uma autoridade eleita pode: Pressionar por explicações, manter os pés dos funcionários locais sobre o fogo, e iniciar um debate nacional sobre o que é necessário para prevenir futuros acidentes e minimizar os danos causados por lapsos inevitáveis. Ela não pode mostrar aos brasileiros um caminho num momento de crise, se ela não aparecer em cena.

Esta coluna não refletem necessariamente a opinião do conselho editorial da Bloomberg LP e seus proprietários.

Para contatar o autor desta história:

Mac Margolis em mmargolis14@bloomberg.net

Para contatar o editor responsável por essa história:

Philip Gray at philipgray@bloomberg.net