Imazon emite nota sobre a Renca e as áreas protegidas

Resultado de imagem para renca extinçãoO Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), uma organização não-governamental de larga experiência sobre os problemas relacionados às mudanças no uso e na cobertura da terra na Amazônia brasileira acaba de publicar uma nota técnica sobre a situação existente na Reserva Nacional do Cobre e seus Associados (RENCA) e nas Áreas Protegidas que existem em seu interior.

Apesar das idas e vindas do governo “de facto” de Michel Temer em relação à extinção da RENCA, a nota do Imazon ainda permanece bastante atual e me parece importante que seja difundida. Por isto, a mesma segue em sua íntegra logo abaixo.

Nota Reserva Nacional do Cobre e seus Associados (RENCA) e as Áreas Protegidas


1. A Reserva Nacional de Cobre e Associados (RENCA) está inserida no centro de endemismo do Escudo da Guianas, uma área de grande importância para a biodiversidade por conter espécies únicas. Além disso, forma o maior corredor de áreas protegidas contínuas do mundo, com 32 milhões de hectares. Nessa área, há populações tradicionais, povos quilombolas e indígenas que dependem da floresta para sua subsistência (principalmente extrativismo de castanha-do-pará).

Figura 1 Renca

Figura 1. RENCA inserida no Escudo das Guianas e corredor de biodiversidade

 

 2.A RENCA abrange 46.499 quilômetros quadrados, dos quais 78,5% (36.488 quilômetros quadrados) sobrepõem a Unidades de Conservação e 11% a Terras Indígenas (5.129 quilômetros quadrados) [1].

Tabela 1. Áreas Protegidas na RENCA

Tabela 1 Renca

 

3. Na RENCA as Unidades de Conservação estão assim distribuídas (Lei SNUC 9.985/2000): i) Proteção Integral:  Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, Estação Ecológica do Jari e Reserva Biológica do Maicuru; ii) Unidades de Conservação de Uso Sustentável: Floresta Estadual do Amapá, Floresta Estadual do Paru, Reserva Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru e Reserva Extrativista do Rio Cajari;

4. Conforme legislação ambiental atual, a mineração NÃO pode ser realizada em Terras Indígenas e em Unidades de Conservação de Proteção Integral. Além disso, o artigo 18 da Lei do SNUC (9.985/2000) restringe também a exploração mineral em Reservas Extrativistas. Portanto, na RENCA a mineração somente poderia ocorrer na Floresta Estadual do Paru, Floresta Estadual do Amapá, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru e nas áreas não protegidas, somando uma área de 33.002 quilômetros quadrados (71% da RENCA);

 
Figura 2 Renca

Figura 2. Áreas passíveis de mineração na RENCA

5. A autorização de mineração nas Unidades de Conservação está sujeita a regras e zoneamento do Plano de Manejo (Plano de Gestão) e ao licenciamento ambiental. Assim, no cenário atual dos Planos de Manejo da Floresta Estadual do Paru[2], da Floresta Estadual do Amapá[3] e da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru, NÃO É POSSÍVEL realizar a mineração nas Unidades de Conservação sem revisar seus planos de manejo.

6. Portanto, apenas 10% da RENCA (áreas não protegidas) é passível de mineração de forma imediata. Então para a exploração mineral total da RENCA, o Governo Federal teria que mudar a Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (LEI do SNUC); desafetar ou mudar categoria de algumas Unidades de Conservação; revisar os planos de gestão das Unidades de Conservação. Além disso, teria que mudar o Código da Mineração para permitir a exploração nas Terras Indígenas.

7. O desmatamento na RENCA soma apenas 155 quilômetros quadrados (0,33% da área total da RENCA) e tem sido ocasionado principalmente por garimpos ilegais de ouro nas Áreas Protegidas.

 

Informações técnicas:

Jakeline Pereira, pesquisadora do Imazon – jakelinepereira@imazon.org.br / (91) 99145-4408/3182-4000

Rodney Salomão, analista do Imazon – salomao@imazon.org.br / (91) 99100-2972/3182-4000

FONTE: http://imazon.org.br/publicacoes/nota-reserva-nacional-do-cobre-e-seus-associados-renca-e-as-areas-protegidas/#_ftn1

Governo Temer prepara o terreno para ampla destruição ambiental e social na Amazônia brasileira

Resultado de imagem para mineração renca povos indigenas

Está ficando cada vez mais claro que um amplo ataque está sendo preparado pelo governo “de facto” de Michel Temer contra os ecossistemas amazônicos e as populações que neles habitam.  O exemplo mais recente foi a extinção da Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca) que abrirá um território equivalente à Dinamarca à sanha exploradora das mineradoras [1, 2].  

el pais amazonia

Além disso, temos em andamento uma ampla regressão da legislação que regula o processo de licenciamento ambiental que facilitará não apenas a expansão das atividades de mineração, mas também da implantação ainda mais rápida de pastagens. Se não bastasse isso, também há um processo em curso para afrouxar o Código de Mineração.

Em outras palavras, temos um processo misturado de modificações nas proteções (frágeis é preciso que se diga) que foram colocadas em vigência a partir da Conferência  Mundial sobre o Homem e o Meio Ambiente realizada pela ONU em Estocolmo em 1972.

Mas não bastassem esses riscos evidentes, ainda temos a informação dada pela cadeia inglesa BBC de que no caso da extinção da Renca, os representantes do governo “de facto” de Michel Temer já haviam avisado à mineradores canadenses já em Abril de 2017 que isto seria feito [3].

bbc amazonia

O oferecimento deste tipo de informação a potenciais mineradoras se reveste num completo escândalo já que estas deveriam ser informações confidenciais. Mas como estamos vivendo sob o jugo de um presidente que não tem o menor prurido em confrontar leis, mais esse absurdo está passando em brancas nuvens.

As consequências do que o jornal espanhol El País rotulou de “nova caça ao ouro na Amazônia” serão devastadoras não apenas na região anteriormente protegida pela Renca, mas em outras áreas que sofrerão destino semelhante.  E a devastação não será apenas em termos ambientais, mas também sobre populações que vivem em direta dependência da integridade ecológica dos ecossistemas amazônicos, começando pelos povos indígenas [4, 5].

Aos que esperam que algo milagroso aconteça nas eleições presidenciais de 2018, o problema é  que se o governo Temer continuar operando da forma que está, principalmente em termos da inexistência reação dos setores mais organizados da sociedade brasileira, a situação será tão explosiva que nem Lula conseguirá impedir graves conflitos de natureza socioambiental na Amazônia brasileira.


[1]  https://brasil.elpais.com/brasil/2017/08/24/politica/1503605287_481662.html.

[2] http://www.diretodaciencia.com/2017/08/25/da-forma-como-foi-feita-extincao-da-renca-traz-risco-para-a-amazonia/

[3] http://www.bbc.com/portuguese/brasil-41033211?ocid=socialflow_facebook.

[4] https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/08/25/Governo-extingue-reserva-de-min%C3%A9rios.-Por-que-isso-pode-impactar-o-meio-ambiente

[5] https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2017/08/23/governo-extingue-reserva-de-cobre-para-atrair-investimentos-em-mineracao.htm