Governo Lula libera importação de lixo e desfere golpe duro no movimento de catadores

Atlas aponta defasagem em dados brasileiros sobre reciclagem

Movimento de catadores faz trabalho hercúleo em prol da reciclagem de resíduos sólidos, sem o devido apoio de todas as esferas de governo no Brasil

O Brasil é um país que recicla em torno de 4% dos resíduos sólidos gerados pelo processo de produção, consumo e descarte de bens, um valor abaixo dos 19% da média global. Estes dados são da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente) a partir de dados do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento) para o ano de 2023.

Mas esse valor baixo não se dá por causa da ausência de um verdadeiro exército de trabalhadores que atuam para recolher, tratar e entregar para que sejam retornados às cadeias produtivas.  Em uma visita que realizei a uma cooperativa de catadores no município de São Leopoldo (RS), pude ver de perto como esse esforço é prejudicado pela ausência de políticas públicas que apoiem e fortaleçam esse segmento dos trabalhadores brasileiros.

Apesar disso, todos os dias, os catadores espalhados pelo Brasil realizam um trabalho hercúleo que tem baixo retorno econômico, e que muitas vezes é sabotado no plano local quando prefeituras firmam contratos com grandes empresas que optam por dificultar em vez de facilitar a organização de associações e cooperativas de catadores.  Um exemplo se dá aqui mesmo em Campos dos Goytacazes, onde em vez de apoiar e financiar o trabalho de coleta feito pelos catadores, a Prefeitura fez o caminho contrário.

Pois bem, como no Brasil, aquilo que está ruim sempre pode piorar, o governo Lula fez publicar na última terça-feira (22/04), o Decreto Nº 12.438, de 17 de abril de 2025 que, pasmemos todos, liberou a importação de diversos tipos de resíduos sólidos, sob a desculpa de facilitar a atividade industrial.

Em um toque irônico (ou seria sádico) , o artigo 2o. do Decreto Nº 12.438 afirma que “a indústria que utiliza resíduos como insumos industriais dará preferência aos resíduos existentes no mercado interno que beneficiem cooperativas, associações e outras formas de organização popular de catadoras e catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis, de modo a aprimorar os sistemas de logística reversa e a implementação da economia circular.

Ora bolas, se fosse intenção realmente apoiar a atividade de associações e cooperativas, o caminho correto seria aumentar o nível de financiamento a atuação delas, em vez de liberar a importação de lixo que, na prática, servirá como um incentivo negativo para o uso de material coletado dentro do país. O pior é que  temos exemplos passados de que o lixo trazido dos países centrais nem sempre se restringe ao que foi autorizado, visto que o grau de controle nos pontos de entrada nem sempre é o melhor.

Quem ganha com isso são os países centrais que estão com lixo soltando pelo ladrão e com dificuldades para encontrar um destino para todo o que é produzido pelas formas perdulárias de consumo que existem entre as camadas mais ricas da população.

Trabalho informal nos lixões: um risco à vida dos catadores

lixões

Por Francisco Oliveira*

A falta da gestão de resíduos vai além dos impactos negativos na economia brasileira e na saúde pública. Trabalhadores informais, mais conhecidos como catadores, recuperam e vendem materiais recicláveis retirados dos lixões – um trabalho nobre e honroso que garante a coleta e triagem de materiais recicláveis, gerando múltiplos benefícios sociais. Porém, que coloca suas vidas em risco.

Para se ter uma ideia da gravidade da situação, de acordo com um relatório da Associação Internacional de Resíduos Sólidos (ISWA) e da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE), a exposição aos lixões a céu aberto tem um impacto prejudicial sobre a expectativa de vida da população maior do que a malária. A atividade é considerada pelo Ministério do Trabalho como insalubre em grau máximo, pois estão submetidos ao calor, umidade, ruídos, chuva, risco de quedas, atropelamentos, cortes, ao contato com ratos, sobrecarga por levantamento de peso e contaminações por materiais biológicos.

Já o estudo realizado pela Coordenação de Vigilância e Saúde (Covisa), Fundacentro e os Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CRST), analisou as condições de trabalho, saúde e segurança de, aproximadamente, 900 catadores do estado de São Paulo. Na pesquisa, foram encontrados agentes químicos no ambiente de trabalho que causam doenças respiratórias e dermatoses por contato. Além dos riscos de doenças osteomusculares e circulatórias, os trabalhadores, que lidam com prensas enfardadeiras das centrais não possuem proteção, o que traz risco de amputações.
Não bastasse sofrer com todos os riscos e exploração da força de trabalho, os catadores encaram o que chamo de marginalização da profissão, que nada mais é do que o preconceito da sociedade — mesmo sendo os grandes responsáveis pelos altos índices de reciclagem no país. Afinal, eles não carregam lixo dentro das carroças, mas sim, mercadorias.

O que muitos não se dão conta é que, a desvalorização dos catadores é prejudicial ao meio ambiente e para a sociedade, pois além de serem o meio mais eficiente e econômico de garantir a coleta e triagem de materiais recicláveis, geram múltiplos benefícios sociais, econômicos e ambientais.

Mesmo com a situação de precariedade na qual esses trabalhadores vivem, a grande questão é que não existiria reciclagem no Brasil se não fosse o esforço dos catadores. O poder público precisa assumir suas responsabilidades com o meio ambiente, com a população e, principalmente, com esses profissionais. A inclusão social e a formalização da atividade devem ser articuladas a uma política que garanta a segurança e benefícios para essa classe, o que poderia ser incorporado às políticas públicas de serviços, saúde e laboral, desde que estas áreas se integrem, de forma objetiva, para buscar soluções que valorizem e minimizem os danos a estes trabalhadores.

*Francisco Oliveira é engenheiro civil e mestre em Mecânica dos Solos, Fundações, Geotecnia e fundador da FRAL Consultoria.