Ciência predatória: é hora de fechar a torneira do dinheiro público

Artigo publicado na FEBS Letters sustenta que o combate à deterioração da publicação científica precisa atingir seu combustível econômico: bilhões de dólares pagos por pesquisadores, universidades e agências de financiamento às editoras

A proliferação das chamadas revistas predatórias costuma ser tratada como um problema de comportamento individual. O pesquisador deveria escolher melhor onde publica, desconfiar de convites recebidos por e-mail e evitar periódicos que prometem publicação rápida mediante pagamento. Tudo isso é verdade, mas deixa escapar uma questão muito maior, que diz respeito a quem está pagando a conta desse sistema e por que instituições públicas continuam financiando modalidades de publicação cuja qualidade editorial nem sempre corresponde aos valores cobrados.

É justamente nesse ponto que entra o artigo “Stop paying predatory publishers of academic journals — A policy proposal to restore scientific integrity and transparency”, publicado em 26 de agosto na revista FEBS Letters por Paul B. Rainey, Kenneth N. Timmis, Paul A. Williams e outros 19 pesquisadores de instituições de diferentes países. O texto parte de uma afirmação forte: o sistema de publicação científica atravessa uma ruptura sistêmica, na qual milhares de revistas cobram taxas de processamento de artigos, as famosas APCs (Article Processing Charges), enquanto oferecem níveis muito distintos — e, em determinados casos, mínimos — de controle editorial e revisão por pares.

O tamanho da conta ajuda a entender a dimensão do problema. Citando levantamento de Haustein e colaboradores, os autores estimam que apenas seis grandes grupos editoriais — Elsevier, Frontiers, MDPI, PLOS, Springer Nature e Wiley — receberam mais de US$ 8 bilhões em APCs entre 2019 e 2023. O valor anual teria saltado de pouco menos de US$ 1 bilhão em 2019 para mais de US$ 2,5 bilhões em 2023, sendo que uma parcela significativa desse dinheiro tem origem, direta ou indireta, em recursos públicos destinados à pesquisa.

Aqui aparece uma das contradições mais interessantes levantadas pelo artigo. O Estado estabelece controles relativamente rigorosos para conceder recursos para pesquisas, exige projetos, pareceres, prestação de contas, comitês de ética e uma infinidade de procedimentos administrativos. Entretanto, quando chega o momento de pagar pela publicação dos resultados dessas pesquisas, bilhões podem ser transferidos às editoras sem que exista um mecanismo igualmente robusto para verificar a qualidade do serviço editorial que está sendo comprado.

Não basta fazer uma lista negra

A proposta de Rainey e seus colegas não consiste simplesmente em criar outra lista de revistas “boas” e “ruins”. Eles defendem um mecanismo de acreditação editorial, baseado em critérios públicos, transparentes e auditáveis, de modo que somente revistas que cumprissem esses critérios pudessem receber recursos provenientes de universidades, agências de fomento ou outras instituições públicas.

Entre as exigências estariam a existência de um conselho editorial efetivamente constituído, processos documentados e auditáveis de revisão por pares, regras claras para aceitação e rejeição de manuscritos, transparência sobre os valores cobrados dos autores e sobre o destino das receitas, políticas explícitas para evitar conflitos de interesse e padrões mínimos para a qualidade da revisão editorial. A ideia é particularmente interessante porque muda o foco do problema: em vez de perguntar apenas por que determinado pesquisador publicou em uma revista de qualidade duvidosa, deveríamos perguntar também por que uma instituição pública pagou para que ele publicasse nela.

O problema não começa nas revistas predatórias

Talvez o aspecto mais importante do artigo seja reconhecer que as revistas predatórias são apenas uma manifestação de um problema estrutural mais amplo. Os próprios autores observam que algumas grandes editoras consideradas tradicionais vêm adotando práticas que aproximam perigosamente a fronteira entre publicação científica e maximização de receitas, inclusive por meio da expansão acelerada de famílias de periódicos e de modelos baseados em grande volume de publicação.

Esse ponto é fundamental porque impede uma explicação confortável segundo a qual existiriam, de um lado, editoras científicas virtuosas e, do outro, alguns aventureiros predatórios. O crescimento explosivo das APCs criou incentivos econômicos bastante claros, pois, em um modelo no qual cada artigo publicado gera receita, aumentar o volume de publicações pode se transformar em objetivo econômico em si mesmo.

Existe ainda outro aspecto peculiar desse mercado. Uma parcela considerável do trabalho necessário para produzir aquilo que as editoras comercializam é realizada gratuitamente pela própria comunidade científica. Os pesquisadores escrevem os artigos, outros pesquisadores fazem a revisão por pares e cientistas frequentemente atuam como editores ou membros de conselhos editoriais sem remuneração. Depois disso, universidades e agências públicas ainda desembolsam milhares de dólares para tornar os artigos acessíveis, criando um modelo no qual o setor público financia a produção do conhecimento, fornece gratuitamente boa parte do trabalho editorial e depois volta a pagar para que o resultado desse trabalho seja publicado.

O “publique ou pereça” também precisa acabar

Há, entretanto, uma dimensão do argumento que considero ainda mais importante. Os autores reconhecem que fechar a torneira do dinheiro público para periódicos de baixa qualidade não resolverá sozinho o problema, pois é necessário atacar também aquilo que eles chamam de fatores de “empurrão” (push factors).

Enquanto universidades, agências de financiamento e sistemas de avaliação continuarem premiando quantidade de artigos, velocidade de publicação, índices bibliométricos e posição das revistas em rankings, continuará existindo uma enorme demanda por periódicos capazes de publicar rapidamente uma quantidade crescente de manuscritos. O mercado predatório não surgiu no vácuo, mas responde aos incentivos criados pelo próprio sistema acadêmico, no qual pesquisadores são pressionados a produzir continuamente novos artigos para disputar bolsas, recursos, promoções e posições profissionais.

Por isso, Rainey e seus colegas defendem também mudanças nos critérios utilizados para contratação, promoção e financiamento de pesquisadores, valorizando qualidade, originalidade e impacto científico em lugar da simples contagem de publicações. Nesse ponto, o artigo converge com iniciativas como a Declaração de São Francisco sobre Avaliação da Pesquisa (DORA) e o Manifesto de Leiden, que há anos questionam o uso mecânico de métricas bibliométricas para avaliar pesquisadores e instituições.

E o Brasil com isso?

Essa discussão deveria interessar particularmente às universidades e agências de fomento brasileiras. Em um sistema científico permanentemente pressionado pela escassez de recursos, é difícil justificar que dinheiro destinado à produção de conhecimento seja transferido para editoras sem uma avaliação igualmente rigorosa sobre quanto se está pagando, pelo que se está pagando e qual qualidade editorial está sendo efetivamente adquirida.

Mais importante ainda seria saber quanto universidades públicas, CAPES, CNPq e fundações estaduais de amparo à pesquisa estão desembolsando direta ou indiretamente em APCs e acordos editoriais. Antes de exigir cada vez mais artigos dos pesquisadores, talvez fosse útil tornar essa conta pública e avaliar quanto do orçamento destinado à ciência brasileira termina alimentando um mercado editorial internacional cujo faturamento cresce justamente com a multiplicação do número de artigos publicados.

A proposta publicada na FEBS Letters tem, portanto, uma virtude fundamental ao deslocar o debate da moralização do comportamento individual dos pesquisadores para a economia política da publicação científica. Revistas predatórias precisam de artigos para sobreviver, mas precisam igualmente de dinheiro, e, se uma parcela relevante desses recursos vem dos orçamentos públicos, existe uma medida bastante concreta para começar a modificar os incentivos existentes: impedir o pagamento de taxas de publicação quando não houver qualidade editorial comprovada.

Se o dinheiro utilizado para financiar a produção e a divulgação do conhecimento científico é público, transparência, revisão por pares efetiva e integridade editorial deveriam ser requisitos mínimos para decidir quem pode receber esses recursos.

Revistas predatórias abrem as porteiras para artigos feitos por ChatGPT

Um artigo recém-publicado por Daniel Stockemer e Farah Fakri, da University of Ottawa, na revista científica PS: Political Science & Politics, publicada pela Cambridge University Press em nome da American Political Science Association, oferece evidências bastante incômodas sobre algo que há muito tempo se suspeita no mundo acadêmico: em muitas revistas predatórias, o que determina a publicação de um artigo parece ter muito menos relação com sua qualidade científica do que com a disposição do autor em participar do negócio editorial.

O mérito do trabalho de Stockemer e Fakri está justamente em ter colocado essa suspeita à prova. Os autores selecionaram 144 revistas identificadas como potencialmente predatórias a partir de mensagens de spam, da Lista de Beall e de uma base especializada. Em seguida, submeteram dois tipos de material que dificilmente deveriam atravessar uma avaliação científica minimamente rigorosa: trabalhos produzidos por estudantes de graduação e pequenos artigos de engenharia integralmente gerados pelo ChatGPT.

Os resultados são impressionantes. Entre as 76 revistas às quais foram enviados trabalhos de graduação, 51 chegaram a uma decisão editorial. Dessas, 39 aceitaram os manuscritos, uma chegou a publicá-lo imediatamente e apenas 11 os rejeitaram. Isso significa uma taxa de aceitação de 78,4% entre aquelas que efetivamente responderam. E não estamos falando de artigos científicos produzidos por jovens pesquisadores, mas de trabalhos acadêmicos escritos originalmente para disciplinas de graduação, principalmente dos primeiros anos, sem contribuição original para a literatura.

Com os textos produzidos por inteligência artificial, o resultado foi ainda mais revelador. Foram submetidos 10 pequenos estudos de caso de engenharia, totalmente gerados pelo ChatGPT, a 68 revistas. Quarenta e seis aceitaram os manuscritos, apenas quatro os rejeitaram e 18 simplesmente não responderam. Os textos tinham cerca de 800 palavras e continham problemas que uma revisão minimamente cuidadosa poderia identificar, incluindo inconsistências técnicas e referências bibliográficas inexistentes.

Há episódios quase caricatos. Um trabalho de graduação sobre a crise da dívida no Sul Global foi aceito e publicado por uma revista dedicada a imagens clínicas e médicas, apesar de o artigo tratar de economia política e não possuir qualquer relação com a área médica. Em outro caso, uma revista aceitou um artigo de engenharia totalmente produzido pelo ChatGPT depois de os autores declararem deliberadamente que não haviam utilizado inteligência artificial. A resposta editorial informou simplesmente que o trabalho havia passado pelo teste de plágio. As referências falsas produzidas pela própria IA aparentemente não despertaram qualquer preocupação.

Mas há aqui uma questão que considero particularmente importante. O artigo de Stockemer e Fakri não demonstra que a inteligência artificial seja incompatível com a produção científica. Demonstra algo diferente e talvez mais grave: a existência de um sistema editorial capaz de transformar textos sem qualquer pesquisa original — inclusive aqueles produzidos automaticamente e contendo informações falsas — em aparentes artigos científicos. A diferença é fundamental. Ferramentas de IA podem auxiliar pesquisadores na organização de informações, revisão de textos, programação, exploração preliminar de dados e inúmeras outras tarefas. Nada disso elimina a responsabilidade intelectual do pesquisador nem substitui método, dados, análise, verificabilidade ou revisão crítica. O problema começa quando um texto sintético passa a ocupar o lugar da pesquisa e encontra, do outro lado, uma revista cuja preocupação principal aparentemente não é verificar se existe ciência no manuscrito.

É aí que as revistas predatórias representam um problema que ultrapassa os autores que pagam para publicar nelas. Ao imitarem a aparência de periódicos científicos legítimos — com DOI, volume, número, conselho editorial e páginas cuidadosamente diagramadas — elas podem introduzir conteúdos sem validade científica no próprio ecossistema de circulação do conhecimento. Uma vez publicado, um artigo ruim pode ser encontrado por mecanismos de busca, incorporado a revisões bibliográficas e eventualmente citado por outros pesquisadores. Stockemer e Fakri alertam justamente para o risco de conteúdos fabricados ingressarem dessa maneira no registro científico e contaminarem trabalhos posteriores.

Por isso, talvez a conclusão mais importante desse experimento seja que o problema das revistas predatórias não está apenas na cobrança de taxas de publicação. Existem excelentes revistas de acesso aberto que cobram APCs e realizam revisão por pares rigorosa. A característica essencial da predação está na transformação da publicação científica em uma relação essencialmente comercial, na qual os mecanismos que deveriam separar conhecimento cientificamente defensável de simples aparência de ciência deixam de funcionar.

E a chegada da inteligência artificial generativa torna esse problema ainda mais perigoso. Se antes produzir dezenas ou centenas de artigos fraudulentos exigia algum esforço humano, hoje é tecnicamente possível produzir textos com aparência acadêmica em escala industrial. Se existirem revistas igualmente dispostas a publicá-los sem revisão efetiva, estarão dadas as condições para uma verdadeira linha de montagem de pseudociência.

O trabalho de Daniel Stockemer e Farah Fakri, portanto, deveria servir também de alerta para universidades e agências de fomento. Em um sistema acadêmico que continua premiando quantidade de publicações, número de artigos e determinados indicadores bibliométricos, combater revistas predatórias exige mais do que elaborar listas de periódicos suspeitos. Exige modificar os próprios incentivos que alimentam esse mercado e recolocar no centro da avaliação aquilo que deveria importar: a qualidade da pesquisa e a contribuição efetiva que ela oferece ao conhecimento científico.

A cadeia alimentar das revistas predatórias

Por Theo Ruprecht para “Revista Pesquisa Fapesp”

Na  hora de submeter para publicação um artigo que fazia parte do seu mestrado, o engenheiro de computação Fábio Lobato foi atraído por um convite de um periódico científico de suposta relevância (era classificado como B4 pelo sistema QUALIS). No final de 2017, seu trabalho foi publicado. Mas, depois de cerca de um ano, veio o alerta de um colega de fora do país: aquela era uma revista predatória. Foi seu primeiro contato com esse termo, conforme me contou por telefone. “Conversando com colegas sobre o assunto, surgiu uma curiosidade científica de compreender as vulnerabilidades dos pesquisadores brasileiros”, conta.

Desse interesse nasceu, possivelmente, o mais amplo estudo nacional sobre percepções dos cientistas a respeito das revistas predatórias. Foram mais de 3 mil entrevistados, dos quais 1.065 possuíam artigos publicados e, portanto, tiveram suas respostas incluídas em um paper que saiu em abril no periódico Scientometrics — esse, claro, legítimo.

A partir da análise de 36 questões, ficou estabelecido que Lobato não foi o único acadêmico a não enxergar o predador. Entre os fatores associados a publicações predatórias, um dos mais mencionados é a falta de conhecimento. “Para não cairmos em um golpe, precisamos reconhecê-lo”, resumiu o professor, recém chegado ao Instituto de Ciências Matemáticas e Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo, em São Carlos. E-mails e convites insistentes e valores abaixo da média para publicação também estavam entre os pontos mais destacados pelos participantes.

Se esses resultados eram esperados, outros surpreenderam em um primeiro momento. Por exemplo: acadêmicos experientes demonstraram maior preocupação com os custos de publicação em comparação com os em início de carreira, o que poderia torná-los especialmente suscetíveis aos preços atraentes das revistas predatórias. O artigo destaca que “isso possivelmente reflete a estrutura de financiamento de pesquisa no Brasil, onde pesquisadores sêniores são tipicamente responsáveis por gerenciar os orçamentos e pagar as taxas de processamento de artigos”.

Por trás de tudo isso, a pesquisa confirmou uma associação entre a pressão por publicar e a experiência prévia com um periódico predatório. Do seu lado, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) tem adotado métricas que priorizam a qualidade dos estudos, em detrimento da quantidade, e o impacto na sociedade. Já o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que concede bolsas e financia pesquisas, criou em março deste ano a Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq. Entre as diretrizes, temos: “abster-se de submeter trabalhos a periódicos, eventos ou editais reconhecidamente predatórios, ou participar de práticas editoriais fraudulentas”.

Ainda assim, essas publicações estão longe da extinção. Ao perguntar a Lobato sobre os destaques de sua pesquisa recente, ouvi que ele se surpreendeu com a sinceridade dos entrevistados. “Recebemos respostas detalhadas com um teor de ‘eu escolho um periódico porque meu orientador mandou’”, exemplifica. Nesses casos, além da confiança, é importante valorizar o pensamento crítico.

Cardápio de tramoias

Talvez você queira ser creditado como o criador de um “biorreator de membrana baseado em inteligência artificial para tratamento de esgoto”. Ou, quem sabe, de um “robô humanoide com aplicações industriais”. Pois se de um lado temos revistas predatórias que aceitam artigos sem muitos critérios, do outro há fábricas de artigos científicos (as paper mills) prolíficas e com um portfólio de falcatruas cada vez mais extenso. Uma reportagem do The Guardian publicada em agosto divulgou o trabalho do matemático Reese Richardson, que localizou, entre 2020 e 2026, mais de 18 mil anúncios em redes como WhatsApp, Telegram e Facebook com propostas para inflar o currículo de cientistas.

Foram identificadas 14 diferentes categorias de produtos, que vão das conhecidas ofertas para inserir artificialmente nomes em estudos falsos até a possibilidade de entrar como detentor de uma patente — a propósito, os exemplos acima são verdadeiros. A IP Australia, órgão do governo australiano onde essas patentes foram depositadas, afirmou que está aberta a analisar suspeitas de desvios, mas que não existem evidências de que a organização vem sendo usada em larga escala para esse tipo de fraude.

O caso, no entanto, indica como as paper mills adotam um modelo de negócios ao mesmo tempo obscuro e agressivo, inclusive manipulando estruturas públicas vinculadas à ciência para abrir atalhos na carreira acadêmica. Uma estimativa de Richardson reportada na mesma matéria do The Guardian sugere que a quantidade de “produtos” desse mercado vem dobrando a cada 18 meses. Em seus estudos, ele abriu o bueiro do esgoto digital e entrou em dezenas de grupos nos quais as paper mills disponibilizam seus serviços a cientistas pressionados pela lógica do publicar ou perecer. Seu celular, pelo visto, não para de apitar: “Posso simplesmente olhar minhas notificações e ver que recebi 20 mensagens de WhatsApp de paper mills nas últimas 24 horas”.

Um escândalo anacrônico
Quem viu a clássica série Plantão Médico (ER na versão original) sabe: pagers faziam parte do cotidiano dos profissionais de saúde. Popular nas décadas de 1980 e 1990, esse equipamento recebia — só recebia — mensagens curtas, o que, para um médico ou enfermeiro que atuou na Era Pré-Popularização do Celular, funcionava como um alerta ou chamado para atender um caso urgente, por exemplo. Eis que os pagers, ou bips, como os apelidamos por aqui, estão de volta. Uma investigação da BBC mostrou que o NHS Blood and Transplant, órgão do Reino Unido responsável por serviços de transplante, enviou informações confidenciais, como nomes completos de pacientes e tipos de órgãos necessários, de forma não encriptada para pagers de equipes de hospitais. Detalhe: esses dispositivos operam por radiofrequência, então qualquer um poderia receber as mensagens se estivesse “no canal” correto.

Havia um pedido para que os pagers fossem aposentados até 2021 no sistema de saúde de lá, porém alguns elos da cadeia de transplantes não incorporaram a recomendação. O NHS Blood and Transplant, que é obrigado a proteger dados dos pacientes, confirmou a falha e afirmou que a prática foi interrompida. Será que, depois de um atentado na primeira temporada e um ataque hacker na segunda, a série The Pitt prestará homenagem à sua musa inspiradora com um escândalo envolvendo um aparelhinho arqueológico?


Fonte: Revista Pesquisa Fapesp

A pesquisa ambiental e seus inimigos: negacionismo, produtivismo & Cia, um debate urgente

Na última segunda-feira (20/4) tive a oportunidade de participar de um debate organizado pela Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF) que teve como título “A pesquisa ambiental e seus inimigos: negacionismo, produtivismo & Cia“. Participei desta mesa/debate com meus colegas geógrafos Marcelo Lopes de Souza (UFRJ) e Carlos Bordalo (UFPA).

Apesar da duração do debate ter extrapolado as duas horas previstas, isto ocorreu em função dos elementos que foram discutidos, mas que revolveram em torno dos impactos nefastos que o produtivismo acadêmico e o crescimento exponencial da produção de artigos que estão sendo publicados por revistas predatórias ou ainda por por “paper mills” que têm se infiltrado até em revistas científicas tradicionais.

Como Marcelo Lopes de Souza bem demonstrou a combinação de produtivismo acadêmico e a disseminação de artefatos que possuem baixa ou nenhuma qualidade científica está agravando os ataques de inimigos da ciência que se utilizam de argumentos não-científicos para avançar suas agendas anti-ambientais.  

Eu me ative a abordar o crescente problema representado pela privatização da ciência a partir da participação de grandes corporações na definição do que deve ser pesquisado, em combinação com a disseminação da pseudo-ciência que se serve das pressões impostas pelo sistema do “publicar ou perecer” que coloca mais peso na quantidade do que na qualidade das publicações científicas.

Quem desejar assistir a mesa/debate em sua integridade ou mesmo parcialmente, o vídeo completo segue abaixo.  De minha parte, considero que essa questão deverá merecer muitas outras mesas e debates, pois corremos o risco de que a empreitada científica seja desmantelada em função da quantidade de lixo que está sendo publicado como se resultassem de investigações e pesquisas que passem pelos crivos da boa ciência.

 

Acesso aberto entre melancolia e futuralgia

Por Andoni Calderón Rehecho  e Raúl Aguilera Ortega 

O acesso aberto , um conceito ainda confundido em alguns círculos com o termo mais amplo “ciência aberta ” , continua sendo um dos termos mais frequentemente usados ​​na área da informação. Nascido em meio a ideais de progresso, o acesso aberto a publicações científicas tornou-se um espectro de possibilidades e, em seu avanço (supostamente) imparável, perdeu sua essência e alterou os parâmetros do mundo editorial — esperemos que não de forma irreversível.

O que aconteceu com o acesso aberto? Como nos lembra Marina Garcés, “pode haver promessas ilusórias, mas não impossíveis (…) É por isso que uma promessa não é apenas uma declaração de intenções, uma coleção de belas fantasias, mas uma interpretação da situação” (2023, p. 92). Que o acesso aberto era uma promessa possível é demonstrado pelo fato de ter se tornado, em grande parte, uma realidade um quarto de século após as primeiras declarações internacionais.

A seguir, exploraremos diversos fatores que distorcem a “promessa” do acesso aberto: a “transformação” da assinatura em publicação mediante o pagamento de taxas (APCs), o efeito “palimpsesto” da Inteligência Artificial Generativa e uma avaliação da pesquisa ancorada na “produtividade”.

Transformações? Transformador?

O modelo de publicação com APC (Taxa de Processamento de Artigos) não é meramente uma transição do modelo de assinatura; pelo contrário, aliado à ânsia inerente do sistema em publicar, abre uma comporta inesperada e avassaladora. Pode distorcer um dos pilares da comunicação científica: a seleção dos melhores trabalhos para publicação. O pagamento permite (embora não exija) a subversão dos outrora meticulosos processos de revisão por pares, encurtando os prazos. Ao fomentar a proliferação quase ilimitada de periódicos, volumes e edições para absorver tanto artigos de alta qualidade quanto subprodutos de fábricas de papel , cria um excesso de informação duvidosa que sobrecarrega o sistema. Os interesses daqueles que controlam a estrutura prevalecem sobre a essência do conteúdo, criado por pesquisadores que não hesitam em publicar mesmo sabendo que o que publicam não contribui para o avanço do conhecimento.

Não se trata apenas da proliferação de revistas predatórias, mas também da criação, por grandes editoras, de suas próprias franquias com modelos de baixo custo (Delgado-López-Cozar e Martín-Martín, 2024). Isso reforça os estudos que revelam uma tendência a um menor número de descobertas disruptivas em comparação com outras épocas? Ou é influenciado pelo fato de que nem toda pesquisa de ponta é conduzida na academia, e que alguns estudos preferem permanecer ocultos dentro das grandes empresas de tecnologia e plataformas digitais que moldam nossa época e nossas mentes? (Dans, 2018; Delgado López-Cozar, 2026).

Acordos transformativos sobre assinaturas tradicionais de periódicos são uma forma de cumprir o acesso aberto exigido pelas agências de fomento. No entanto, essas agências podem impor condições. O programa Horizonte Europa, por exemplo, considera os pagamentos por publicação em periódicos híbridos “inelegíveis”, enquanto cobre prontamente as taxas de publicação em periódicos indexados como ouro, cujo conteúdo é 100% de acesso aberto. Em outras palavras, as agências de fomento não questionam a necessidade de pagar para publicar, especialmente se aqueles que antes pagavam pelas assinaturas — as bibliotecas — agora pagam pelas publicações. Assim, aqueles que mais pesquisam e publicam geram a maior parte dos gastos com periódicos: o acesso aberto é aceitável, principalmente quando outros arcam com os custos.

Existe algum cálculo concreto sobre o declínio do valor econômico da leitura como consequência da transformação de assinaturas em contratos de publicação? Quanto custa uma APC (Taxa de Publicação de Artigo)? Por que os custos variam tanto, mesmo dentro da mesma área do conhecimento? Por que é tão caro “processar” um artigo quando, tecnologicamente, os custos são insignificantes em comparação com o mundo impresso (produção, armazenamento, envio, etc.)? Por que as editoras costumam dizer que a revisão por pares influencia os custos? Se esse fosse o caso, as revistas que exigem menos tempo de revisão (porque não há revisão por pares propriamente dita ou porque ela é mais branda) não deveriam custar menos? E se um maior número de publicações reduz o custo por publicação (Grossmann e Brembs, 2021), por que o aumento no número de publicações leva a preços mais altos?

Embora o acesso aberto tenha sido concebido para facilitar a igualdade de acesso ao conhecimento, sua estrutura atual dificulta a publicação para aqueles com menos recursos, seja porque seus campos de pesquisa recebem menos financiamento, seja porque trabalham em instituições localizadas em áreas geograficamente menos desenvolvidas economicamente.

É difícil encontrar editoras comerciais que ofereçam informações sobre APCs. A MDPI dedica uma página web a elas sem quantificar os valores ou percentagens alocados a cada conceito. A Springer Nature, que publicou apenas algumas perguntas frequentes breves, forneceu, no entanto, algumas pistas num inquérito enviado em dezembro de 2025 aos seus colaboradores, incentivando-os a avaliar, entre outros aspetos, os custos administrativos, a gestão de manuscritos e a produção editorial, o alojamento de conteúdos e a preservação digital, o controlo do plágio e a integridade académica, o apoio ao cliente e ao autor e, naturalmente, os lucros comerciais.

Grossmann e Brembs (2021) analisam, entre outras coisas, muitos desses conceitos. Eles estabelecem, de forma conservadora, o preço do processamento de artigos. Se, como calculam, esse preço varia entre US$ 194,89 e US$ 723,16, e no ano de referência apenas cerca de 3 milhões de documentos foram publicados na comunidade STM (Ciência, Tecnologia e Medicina), o custo total das APCs (se seguirmos seus cálculos) estaria entre US$ 584.670.000 e US$ 2.169.480.000. Uma vez pago esse valor, todas as publicações seriam de acesso aberto.

É muito dinheiro, mas quantas instituições teriam que compartilhar o custo? Quantos megajornais públicos como os mencionados por Aguillo (2025) poderiam ser criados com esse orçamento? E quantos repositórios poderiam ser devidamente protegidos para que bots pudessem acessá-los, mas não os derrubassem? Quantos financiaríamos com os gastos atuais em APCs? APCs que excedem os valores mencionados (Beigel et al., 2025; eles citam um valor de cerca de US$ 2,5 bilhões em APCs pagos à Elsevier, Frontiers, MDPI, Springer Nature e Wiley), mas que deixam apenas uma parte da coleção em código aberto. E ainda teríamos que contabilizar o custo das assinaturas (bilhões em todo o mundo), que não deveriam ser pagas.

A pesquisa da Springer Nature também perguntou aos pesquisadores se eles acreditam que existe uma relação entre as taxas de publicação de artigos (APCs) e as citações, o fator de impacto ou o prestígio. Quantas pessoas responderam afirmativamente? Se sim, isso influencia suas decisões sobre onde e como publicar? Gastar um centavo sequer com isso seria o mesmo que admitir que o sistema é manipulado. Aliás, se a editora publicar um relatório sobre a pesquisa, deveria esclarecer que isso não procede.

As alternativas não são uma utopia

Retornar à rota verde e desenvolver ainda mais a rota diamante mitigaria os problemas levantados. Criar um (ou mais) mega-repositórios ou um (ou mais) mega-revistas em espanhol, compartilhando recursos, em suma, são opções possíveis e necessárias.

Desde o início, a via dourada pareceu prevalecer sobre a via verde, provavelmente porque os periódicos funcionavam como canais de conhecimento e eram considerados nas avaliações, favorecidos pela bibliometria e (bem) revisados ​​por pares, etc. Além disso, os repositórios não eram tão desenvolvidos quanto são agora, e as instituições demoraram a adotar os modelos de publicação em diamante.

“Estima-se que entre 17.000 e 29.000 periódicos de Acesso Aberto Diamante em todo o mundo sejam um componente essencial da comunicação acadêmica, publicando entre 8% e 9% do volume total de artigos e 45% das publicações de acesso aberto.” Esta afirmação (Anción et al., 2022) revela que mais de 90% das publicações contribuem com pouco mais da metade do acesso aberto.

Seguindo a mesma linha de pesquisa, Aguillo (2025) propõe que, na Espanha, os orçamentos de assinaturas e APCs sejam redirecionados para financiar um megajornal público de referência , reconhecido nos processos de avaliação, apoiado pela equipe de pesquisa de ponta do país e que atraia a produção espanhola que atualmente é destinada a outros megajornais e editoras, como MDPI ou Frontiers.

Os relatórios que medem a publicação em acesso aberto nas universidades espanholas e no CSIC, elaborados pela REBIUN (2019, 2026), revelam uma tendência positiva no acesso aberto que requer maior esclarecimento. Deixando de lado as diferenças metodológicas que influenciaram os resultados ao longo do tempo, o relatório de 2014-2018 apontou um percentual de acesso aberto de 42,95% em 2014, enquanto o relatório de 2020-2024 projeta um valor de 75,60% para 2024.

Essa progressão foi influenciada nos últimos anos pela consolidação de vias comerciais de acesso aberto. Em 2014, as vias ouro e híbrida representavam 15,45% e 4,26%, respectivamente, e em 2024, esses números atingiram 28,20% e 18,60%, respectivamente. O impacto dos acordos transformadores assinados em 2021 pela Crue-CSIC com a American Chemical Society, Elsevier, Springer e Wiley, e em 2023 pela Crue com o IEEE e a Royal Society of Chemistry, é evidente. Ao mesmo tempo, a via verde declinou gradualmente, caindo para menos de 7,00% em 2023 e 2024.

Embora Cabezas (2025) indique que a via verde não seria adequada para aqueles que estão iniciando suas carreiras de pesquisa, ela continua sendo apresentada como uma alternativa viável à publicação convencional (Puebla, Polka e Rieger, 2022). Projetar plataformas que integrem a revisão por pares aberta ou adicionar essa funcionalidade a repositórios institucionais são maneiras de “hackear” o ecossistema de publicação comercial a partir de dentro das instituições. Isso não é uma utopia: a ORE (Open Research Europe)  na União Europeia e o CSIC na Espanha com seu modelo de “diamante verde” já estão fazendo isso.

Mas será que faz sentido cada instituição ter seu próprio repositório especialmente configurado ? E que cada repositório colete (para isso que servem as licenças de reutilização) documentos de outros repositórios? E que todos esses documentos sejam coletados por agregadores, e esses agregadores por agregadores de nível superior? Quanto custa manter tantos repositórios e agregadores? Principalmente quando o software de código aberto que os suporta é inflexível e muitas vezes força as instituições a dependerem de empresas para a manutenção. Será que eles são deliberadamente inflexíveis e incompletos para que precisemos de ajuda para mantê-los funcionando? Para que tenhamos que atualizá-los constantemente (e precisemos de subsídios porque os orçamentos universitários tornam isso impossível)? Como se isso não bastasse, a IA generativa está causando frequentes interrupções de serviço e falta de disponibilidade nessas infraestruturas (COAR, 2026).

Atualizações, desenvolvimentos, migrações e investimentos em tecnologia e infraestrutura poderiam ser compartilhados, e as estatísticas seriam unificadas. Quantas citações, usos e menções acumularia o repositório de todos os documentos científicos espanhóis?

Na chamada de propostas María de Guzmán de 2021, da Fundação Espanhola para a Ciência e a Tecnologia (FECYT), foi criada uma segunda linha de financiamento dedicada a infraestruturas de ciência aberta. A chamada mais recente, de 2023, teve um orçamento de 3 milhões de euros distribuídos por 47 projetos. Aproximadamente um terço do financiamento foi destinado a repositórios institucionais. Não seria suficiente 1 milhão de euros a cada dois anos, ou 500 mil euros por ano, para manter um único repositório em Espanha? Esta questão já chegou à REBIUN, que está atualmente envolvida no desenvolvimento do projeto PLATICA (Plataforma para a Promoção da Ciência Aberta), promovido pela RedIRIS, Crue e FECYT. O PLATICA irá fornecer infraestruturas a nível nacional para monitorizar a ciência aberta, catalogar e armazenar dados de investigação e gerar planos de gestão de dados. Seriam adequadas novas infraestruturas modulares neste contexto? 

O efeito “palimpsesto” da IA ​​Generativa

A Inteligência Artificial Generativa não apenas “sabe” como auxiliar na escrita, mas também como criar documentos inteiros a partir de instruções, contribuindo para a proliferação de manuscritos. Não se trata apenas de ferramentas de uso geral que podem fazer isso; existem aplicativos de pesquisa especializados que atuam como escritores fantasmas . Mesmo que as editoras promovam políticas restritivas, parece que a IA também estará envolvida na revisão e — por que não? — no design de toda a revista. Além disso, ela se alimentará de tudo o que for publicado, com ou sem seu envolvimento direto, até chegar ao ponto em que tudo será criado (com) ela?

O conceito multidimensional de um “palimpsesto digital” pode nos ajudar a compreender o cenário que enfrentamos. Segundo Kembellec (2024), a produção acadêmica atual caracteriza-se pela integração de dados visíveis e metadados invisíveis em hipertextos científicos lidos tanto por humanos quanto por máquinas. Cabe acrescentar que, a partir do momento em que as máquinas produzem novas camadas de informação, o conhecimento se emaranha em estratos sucessivos, onde se torna impossível reconhecer o que é original, quais são as fontes ou qual a contribuição humana para a inovação e o progresso.

Surge um dilema: se a IA generativa e seus usuários criam conteúdo sem levar em conta as licenças de suas fontes, devemos simplesmente permitir isso? Não defendemos o acesso aberto? Precisamos criar tipos de licenças inteiramente novos especificamente para esse fim ? Em que direção o Creative Commons (2025) está se encaminhando com seu modelo (provisório) de “sinalização”? E se colocarmos obstáculos (podemos?) no caminho desse consumo, não estaremos incentivando-o a se basear exclusivamente nas informações menos verificadas e disponíveis gratuitamente na internet? Ou em publicações por assinatura cujos direitos são comercializados por gigantes da mídia? Ou a garantir que as informações cientificamente mais relevantes permaneçam fora de seus processos e discursos? Não estaremos contribuindo para o crescimento de um palimpsesto cada vez mais distorcido e distante da realidade?

A ciência aberta é, sem dúvida, o combustível para uma Inteligência Artificial a serviço da humanidade, baseada em informações selecionadas e não em conteúdo gratuito indiscriminado; vulnerável a vieses não intencionais, mas não a vieses deliberados; independente dos interesses comerciais das editoras, mas não da vocação científica para o progresso; totalmente reutilizável (palimpsesto), mas com absoluto respeito às condições estabelecidas.

A avaliação é fundamental

Parece haver alternativas suficientes para publicar sem ter que lidar com as onerosas taxas de publicação de artigos (APCs): repositórios e periódicos Diamond (ou megaperiódicos). Mas sua natureza aberta não impede a existência de más práticas. A ânsia de encontrar atalhos para a publicação (impulsionada pela pressão do sistema de revisão por pares) corre o risco de levar muitos repositórios a se encherem de lixo (gerado por IA ou não) e os periódicos Diamond a se comportarem exatamente como megaperiódicos predatórios (periódicos Diamond predatórios?!). Não é surpresa que especialistas em processos editoriais admitam que algumas pessoas os procuram pedindo ajuda para criar periódicos que possam vender por um milhão de euros em três anos. O sistema de pesquisa está corrompido.

A chave certamente reside em mudar a forma como os pesquisadores são avaliados: publicar menos, porém com conteúdo de melhor qualidade (Publishing Futures, 2025; Cabezas, 2025), e pôr fim à mentalidade de ” publicar ou perecer” . Como apontam Maggie Berg e Barbara K. Seeber, “a universidade corporativa, que redefine os acadêmicos como atores-chave na economia do conhecimento, acentua a instrumentalização e a lucratividade” (2022, p. 96). Os mecanismos que buscam justificar o financiamento da pesquisa, formalizar os processos de atração de talentos e o planejamento de carreira acadêmica, e publicar em acesso aberto de acordo com as exigências das entidades financiadoras contribuem para a mediocridade científica. Periódicos predatórios, a explosão de monografias, revisões por pares superficiais… tornaram-se aceleradores do processo de publicação. Ninguém parece se importar em conduzir pesquisas aprofundadas e abrangentes se os indicadores medem com sucesso resultados imediatos e quantificáveis ​​(períodos de pesquisa de seis anos, promoções, rankings, etc.).

É crucial ir além da avaliação da qualidade da pesquisa com base na “produtividade” documental e no uso de indicadores tradicionais. Os fatores de impacto têm sido discutidos há anos, mas as citações, recentemente desconstruídas por Delgado López-Cozar (2025), não. As chamadas “altmétricas” também não oferecem muito mais, dadas as suas inúmeras limitações. Uma carreira de pesquisa vai muito além da publicação de um artigo científico , como delineado no primeiro compromisso do Acordo sobre a Reforma da Avaliação da Pesquisa (ARRA), assinado pelas instituições que compõem a Coalizão para o Avanço da Avaliação da Pesquisa (CoARA). A ANECA incorporou essa perspectiva em sua chamada de propostas de 2023 para a avaliação de períodos de pesquisa de seis anos, bem como em seus critérios de avaliação de acreditação.

As agências de avaliação devem explorar abordagens alternativas que reflitam melhor o escopo completo da atividade de pesquisa, evitando a tentação de considerar qualquer contribuição como relevante ou de retornar a práticas passadas. Devem também estar abertas a outras fontes de informação se realmente pretendem fazer algo diferente. Uma análise comparativa dos relatórios da ANECA sobre os editais de 2023 e 2022 para períodos de pesquisa de seis anos revela que a diferença geral nos períodos avaliados positivamente é inferior a um ponto percentual. Além disso, uma revisão dos relatórios sobre o credenciamento de docentes contratados mostra que as porcentagens de avaliações positivas em 2024 (incorporando os novos critérios) são geralmente maiores do que as de 2023.

Será que esse método de avaliação permite o reconhecimento da pesquisa de qualidade, ou apenas valida sua qualidade aparente? E isso tem consequências: há um efeito funil quando as instituições podem oferecer menos vagas do que o número de pesquisadores credenciados. Se promover a avaliação qualitativa já é difícil para a ANECA, é ainda mais complexo para as universidades.

Em outras palavras: a mudança nos critérios de avaliação nos últimos anos não prejudicou a equipe de pesquisa, mas provavelmente está preparando o terreno para futuras frustrações.

Em direção a algumas não-conclusões

O acesso aberto tem sido apresentado, durante muitos anos, como uma Era de Ouro projetada para o futuro. A inflação de expectativas, contudo, pode provocar uma perturbadora “futuralgia”, para usar o título que Jorge Reichmann deu a parte de sua obra poética. E também leva a uma espécie de melancolia retrospectiva que, como argumenta Clara Ramas, nos coloca entre o niilismo e a reação e constitui “o produto mais puro do capitalismo avançado, do neoliberalismo e da pós-modernidade” (2024, pp. 39–62).

Os desafios do futuro imediato são inquietantes. A Comissão Europeia está a conceber um novo quadro político e jurídico, a ser consagrado na Lei do Espaço Europeu da Investigação, onde a valorização do conhecimento e da competitividade será fundamental num ambiente marcado pela segurança da investigação. O Horizonte Europa 2028-2034 estabelecerá, assim, um quadro financeiro alinhado com as prioridades emergentes, mas também com as salvaguardas recentemente criadas.

A Recomendação para melhorar a segurança da investigação , publicada pelo Conselho da União Europeia em 2024, alerta para os riscos do atual panorama geopolítico global e para o desafio que este representa para a liberdade acadêmica e a colaboração internacional. Para evitar entraves a estes esforços, a Science Europe (2025) propõe, por exemplo, a definição de mecanismos de gestão e mitigação, a identificação do âmbito das “linhas vermelhas” e o estabelecimento de medidas proporcionais para prevenir o protecionismo excessivo.

Embora a transparência do processo de pesquisa esteja sendo questionada mais do que nunca neste contexto, o acesso aberto às publicações pode permanecer intacto. Afinal, os pesquisadores são incentivados, reconhecidos e contratados com base em seus resultados de pesquisa tangíveis. E as publicações de acesso aberto são, sem dúvida, o exemplo mais visível disso.

Referências

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Beigel, Fernanda; Brockington, Dan; Crosetto, Paolo; Derrick, Gemma; Fyfe, Aileen, Gómez Barreriro, Pablo; Hanson, Mark A.; Haustein, Stefanie; Larivière, Vincent; Noe, Christine; Pinfield, Stephen, Wilsdon, James (2025). The Drain of Scientific Publishing ver 2 published 17 Nov. Arxiv. https://doi.org/10.48550/arXiv.2511.04820

Berg, M. y Seeber, B. K. (2022). The Slow Professor: desafiando la cultura de la rapidez en la academia. Editorial Universidad de Granada.

Cabezas Clavijo, Álvaro (2025). Revistas decepcionantes: zombis, tortugas y marcas blancas en la publicación científica. Clip de SEDIC, Revista de la Sociedad Española de Documentación e Información Científica, nº92. https://doi.org/10.47251/clip.n92.174

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Creative Commons (2025). From Human Content to Machine Data: Introducing CC Signals. https://bit.ly/44xfDq4

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Andoni Calderón Rehecho
https://www.directorioexit.info/ficha2123
https://orcid.org/0000-0002-9948-2825
Universidad Complutense de Madrid, Biblioteca

acaldero@ucm.es

Raúl Aguilera Ortega
https://orcid.org/0000-0002-0669-8249
Universidad Carlos III de Madrid, Biblioteca

raul.aguilera@uc3m.es


Fonte: Boletín SciELO-México

Depredar: O novo capitalismo financeiro e o avanço anticientífico

Por Viviana Martinovich para “El Cohete a la Luna” 

Muito distante daquela imagem centrada na austeridade e na ética do trabalho que o sociólogo alemão Max Weber associou à expansão do capitalismo industrial e comercial, o novo capital financeiro do século XXI opera com a velocidade e a voracidade de um algoritmo, aparentemente com base em seu único interesse: retornos imediatos. 

Para além das nuances nacionais, este novo capitalismo esconde um pano de fundo comum: a subordinação do social e do coletivo a formas de poder que buscam o controle direto tanto de recursos estratégicos (através da reconfiguração de uma ordem política favorável a interesses concentrados) quanto de sujeitos (pela suspensão das normas democráticas e pela imposição de um regime de facto que ignora direitos adquiridos e autonomias institucionais). 

Mas não se caracteriza apenas pela busca de retornos rápidos, pela circulação opaca de capital e pela apropriação e comercialização de bens comuns; também investe grandes somas de dinheiro no que o médico e filósofo americano Peter Hotez chamou de “a ascensão mortal do antiscientismo ” . Em uma entrevista , Hotez destaca que algumas empresas de private equity e fundos de investimento canalizam dinheiro para grupos antiscientíficos e antivacina, que se tornaram a nova face do extremismo político e do autoritarismo.

Segundo o economista britânico Anatole Kaletsky, este novo “Capitalismo 4.0” sobrevive às crises através da rápida mutação das suas regras. Na sua adaptação mais recente, em vez de se concentrar em projetos produtivos a longo prazo, este novo capital financeiro adquire ativos construídos por outros, absorve-os e retira-se quando a credibilidade e a rentabilidade caem drasticamente. Os seus agentes, ocultos por trás de grandes fundos de investimento e conglomerados transnacionais, avançam poluindo ecossistemas, empobrecendo países ou mesmo desmantelando comunidades que construíram valor público ao longo de décadas, como é o caso das ciências.

Nesse contexto, o financiamento de grupos anticientíficos e antivacina parece fazer parte de uma estratégia mais ampla: o desmantelamento deliberado do consenso coletivo que não serve aos seus interesses, destruindo a base identitária compartilhada sobre a qual uma sociedade se apoia para debater e discordar dentro de um arcabouço de possibilidades verificáveis. Sem acordos que governem o discurso público, restam apenas narrativas concorrentes, disputando a imposição ou a repetição. Sem os fundamentos historicamente estabelecidos, o cenário torna-se ilegível, e cada discussão exige a revisitação de décadas, até mesmo séculos, de história. Tal feito requer um esforço argumentativo exaustivo que dá lugar ao silêncio e à inação, abrindo caminho para aqueles que investem no controle da narrativa. 

Surge então a questão: o que aconteceria se esse ethos coletivo , baseado em consensos e discussões historicamente consolidados, desmoronasse — o ethos através do qual diversas comunidades científicas, com diferentes racionalidades e fundamentos epistemológicos, concordavam sobre maneiras de compreender o mundo social e natural? Talvez o sistema científico se tornasse mais parecido com um modelo de trabalho baseado em plataformas: indivíduos substituíveis, sem acordos coletivos e sem a capacidade de decidir o que é cientificamente e eticamente válido e o que não é, transferindo essa capacidade para grandes corporações concentradas. 

Na Argentina, essa plataformização da prática científica se traduz no desmantelamento do sistema científico por meio do corte de verbas para programas de pesquisa , da privatização de setores estratégicos e da deslegitimação das universidades públicas como articuladoras do conhecimento. Contudo, em países onde o financiamento da ciência é mais diverso e complexo, essa combinação de voracidade financeira e erosão deliberada do caráter comunitário da ciência está gerando outros tipos de práticas. 

Embora os processos de pesquisa científica — que exigem mais tempo, conhecimento acumulado, reflexão e experimentação — normalmente demandem outros cenários especulativos, o interesse desse capital financeiro anticientífico e míope concentra-se em ambientes com alta circulação de capital, onde a ciência gera bens comercializáveis ​​com baixas barreiras de entrada; ou seja, produtos facilmente clonáveis ​​que exigem pouco conhecimento para serem reproduzidos. Um desses ambientes é a publicação de avanços ou resultados de pesquisa por meio de artigos ou trabalhos . Esses textos não apenas materializam o conhecimento, mas, no próprio ato de serem tornados públicos, colocam em jogo a aceitação de uma narrativa como cientificamente válida pela comunidade científica, a formação simbólica de prestígio, a avaliação institucional da produtividade, a competição por financiamento, as métricas globais de produção científica, a necessidade profissional e humana de comunicar o progresso do trabalho realizado e também o endosso científico que possibilita a comercialização de produtos desenvolvidos por indústrias (farmacêuticas, aditivos alimentares, substâncias químicas, etc.). Essa interseção de expectativas, necessidades e interesses transformou o ecossistema editorial em um ambiente historicamente permeável à lógica do capital. No entanto, as práticas atuais do capital financeiro e os investimentos anticientíficos alteraram substancialmente esse cenário, e é nesse terreno de rentabilidade simbólica e material que a nova ordem se desdobra livremente.

Trata-se de um mecanismo complexo, desencadeado pelas ações de certos atores e pela inação de muitos outros; pelo interesse próprio de alguns e pela indiferença de muitos outros, que, em conjunto, geram um efeito devastador. Um desses mecanismos é a atual proliferação de fábricas de artigos científicos, que reúnem textos gerados com inteligência artificial, dados fabricados e bibliografias recicladas. Como fazendas de bots — verdadeiros exércitos digitais criados para impulsionar visualizações e curtidas em publicações nas redes sociais — as fábricas de artigos científicos estão invadindo o ecossistema editorial com artigos fraudulentos que não apenas inflacionam artificialmente as citações, mas também desestabilizam os próprios fundamentos da ciência. Como aponta o neurologista Malcolm MacLeod , professor da Universidade de Edimburgo: “ Se, como cientista, eu quiser consultar todos os artigos sobre um medicamento específico que possa ser eficaz contra o câncer ou o AVC, acho muito difícil evitar os falsos. O conhecimento científico está sendo contaminado por material fabricado. Estamos diante de uma crise .”

Para que essa máquina funcione, as fábricas de papel precisam se associar a periódicos estabelecidos que lhes abram as portas, e geralmente fazem isso de duas maneiras. Por um lado, por meio de empresas intermediárias que contatam os periódicos para oferecer blocos de artigos “pré-aprovados” que garantem um fluxo constante de dinheiro; e por outro lado, por meio da compra especulativa de periódicos: grupos empresariais adquirem títulos estabelecidos, desmantelam suas equipes editoriais, substituem os processos de revisão por pares por procedimentos acelerados e os integram a redes onde domínios falsos, editoras de fachada e empresas de fachada coexistem — tudo criado para movimentar capital, diluir a responsabilidade e aumentar os lucros às custas da reputação acumulada ao longo de décadas. Uma investigação do jornal El País revela a “rede obscura ” de compras de periódicos científicos a partir de mansões na Inglaterra, com o objetivo de transformá-los em instrumentos financeiros que contribuem para a degradação do conhecimento acumulado.

Um desses muitos casos foi o de El Profesional de la Información. Com mais de três décadas de história, foi comprada por quase um milhão de euros pela editora britânica OAText, que mais tarde se tornou a Oxbridge. Em  pouco mais de um ano de práticas fraudulentas, a revista foi removida do índice Web of Science. Em uma carta recente, Tomàs Baiget , editor fundador de El Profesional de la Información , observou que, após a venda da revista, ao revisar as bibliografias de vários artigos publicados, percebeu que a Oxbridge havia inserido referências que não pertenciam aos artigos originais. Mais tarde, ele percebeu que vários dos artigos publicados “eram idênticos: quase certamente foram produzidos por fábricas de papel ”. Em apenas um ano, “ o impacto foi devastador ”: editores convidados cancelaram chamadas para artigos, muitos autores retiraram seus manuscritos e o fluxo de submissões despencou. O fundo de investimento chegou, devorou, engoliu e varreu tudo em seu caminho.

Mas esses exemplos também ocorrem dentro de grandes corporações, como no caso recente do periódico Science of the Total Environment , um dos produtos da Elsevier, que passou de publicar 656 artigos em 2011 para 10.334 em 2024, transformando-se em “ um periódico de portas abertas que aceita quase tudo “. Com taxas de publicação de US$ 4.150 por artigo , tornou-se um negócio anual de quase US$ 43 milhões. Após a detecção de avaliações falsas assinadas com os nomes de cientistas reais sem o seu consentimento, entre outras práticas fraudulentas, o periódico foi denunciado e removido da Web of Science. Este banco de dados histórico de literatura científica, responsável por classificar e moldar a corrente principal da ciência global durante a segunda metade do século XX, está sendo reconfigurado no século XXI como um defensor contra a fraude, denunciando cada caso como uma falha ética individual, sem associá-los a um problema social maior.

Estima-se que circulem mais de 15.000 revistas científicas predatórias , o que sugere um cenário mais amplo: uma nova paisagem “predatória” que não só mina a integridade das publicações, como também remodela completamente as condições que tornam a pesquisa possível. Como  aponta Dorothy Bishop , professora emérita da Universidade de Oxford, “ O nível de publicação de artigos fraudulentos está criando sérios problemas para a ciência. Em muitas áreas, está se tornando cada vez mais difícil desenvolver uma abordagem cumulativa para um tema, porque nos falta uma base sólida de descobertas confiáveis. E a situação está piorando cada vez mais ”. Uma nota recente da Royal Society indica que, somente na área biomédica, estima-se que 100.000 artigos falsos sejam publicados a cada ano.

Outro exemplo é a editora OMICS International. De acordo com uma investigação da Bloomberg , em um processo judicial de 2016, a Comissão Federal de Comércio dos EUA acusou a OMICS de ser uma editora predatória que corroía a confiança pública na pesquisa científica. A mesma investigação revelou que a OMICS International recebia financiamento da indústria farmacêutica, mas por que as grandes farmacêuticas financiariam uma editora predatória? Uma prática documentada é a introdução de artigos fabricados para inflar artificialmente o número de citações de certos ensaios clínicos que atendem a grandes interesses comerciais. Mas outra de suas intenções poderia ser minar a credibilidade da própria comunidade científica, como o único agente social capaz de demonstrar a toxicidade e a nocividade de certos produtos industriais.

A máquina continua com o mercado paralelo de autoria, onde espaços em artigos já aceitos ou até mesmo edições especiais inteiras são vendidos, transformando a autoria científica em uma mercadoria comprada e vendida a preços que variam de acordo com a disciplina, o país e o fator de impacto da revista. Em uma investigação da revista Science , uma agência de venda de autoria ofereceu a um jornalista infiltrado a posição de coautor principal de um artigo sobre câncer por US$ 14.800 . O artigo foi publicado algumas semanas depois no Journal of Biochemistry & Cell Biology , uma revista publicada por — quem? — a OMICS International, que foi denunciada pela Comissão Federal de Comércio dos EUA como uma editora predatória.

O quadro se completa com outra prática generalizada: estratégias automatizadas para inflar métricas, que depois servem como argumento de venda. O relato do editor do El Profesional de la Información confirma esse mecanismo ao revelar a inserção clandestina de referências em artigos já aceitos, sem o consentimento dos autores. 

Existem práticas ainda mais difíceis de rastrear: o uso de inteligência artificial para fabricar avaliações positivas, a compra de bases de dados para gerar históricos editoriais falsos, a clonagem de revistas de prestígio para enganar autores desavisados ​​e toda uma série de dispositivos concebidos para simular legitimidade onde existem apenas mecanismos fraudulentos. 

Enquanto o capitalismo industrial necessitava da ciência para impulsionar os processos de produção e o Estado de bem-estar social exigia novas interpretações científicas do tecido social para a formulação de políticas públicas, o capitalismo financeiro trata a ciência como um ativo em vez de um insumo, e perde o interesse no consenso que a ciência produz. As mesmas portas por onde antes entravam as demandas por desenvolvimento produtivo e os fundamentos das políticas públicas agora permitem a entrada de práticas predatórias, transações obscuras e mecanismos especulativos que desestabilizam comunidades inteiras. 

Quando todos esses processos convergem, o que se destrói não é apenas a qualidade científica: o tecido social que dava valor à ciência se erode. O reconhecimento mútuo, a discussão crítica e o senso de comunidade se desfazem. E o que resta em seu lugar é um mercado precário onde o valor de um resultado científico ou de um periódico não depende mais do conhecimento que publica, mas de sua capacidade de operar como uma engrenagem em uma cadeia global de especulação.

Embora as ciências continuem a manter uma aura de território asséptico e neutro, intocado pelos pecados mundanos, como qualquer outra prática social e coletiva, elas fazem parte do tecido social que as molda. Suas decisões, prioridades e conflitos não surgem no vácuo, mas respiram o mesmo ar da sociedade globalizada e, portanto, são terreno fértil para as práticas desse novo capital financeiro. Na mesma entrevista com Peter Hotez citada no início, o entrevistador lhe faz a seguinte pergunta: “ A postura usual da comunidade científica é manter-se publicamente neutra, especialmente em relação a questões políticas. Mas, diante da crescente onda anticientífica, o senhor acha que isso precisa mudar? ”. Ao que Hotez responde, entre outras coisas: “ Alguém que ganhou o Prêmio Nobel pelo desarmamento nuclear disse que a ideia de que a ciência é politicamente neutra foi destruída pela bomba de Hiroshima. Acho que há verdade nisso, e precisamos começar a pensar nesses termos e a falar sobre política para resolver problemas ”. 

Anos antes de Robert Oppenheimer liderar o grupo de cientistas que projetou a bomba detonada em Hiroshima, grande parte da comunidade científica já havia se transformado em uma força de trabalho remunerada a serviço de interesses industriais. Essa mudança levou ao desmantelamento das redes científicas informais que fomentavam consensos e acordos, e facilitou o distanciamento daqueles que trabalhavam na indústria em relação aos efeitos nocivos daquilo que haviam projetado . Essa “neutralidade” política em relação à sua própria prática já fragmentada é o que agora abre caminho para o avanço desse novo capitalismo anticientífico. Se a intenção é que a ciência permaneça apenas mais uma das muitas formas que as sociedades encontraram para interpretar o mundo, é hora de a própria comunidade científica reconsiderar seu lugar no tecido social e questionar o significado social de suas práticas.

Viviana Martinovich é doutora em Saúde Pública. É professora e pesquisadora do Instituto de Saúde Pública da Universidade Nacional de Lanús. É editora da revista científica Salud Colectiva e diretora editorial da série de livros Cuadernos del ISCo.


Fonte: El Cohete a La Luna

Entre o progresso e o declínio: A dualidade na produção científica na era do acesso aberto e da inteligência artificial

As transformações que vêm ocorrendo na produção e disseminação da ciência — ou, em muitos casos, da pseudociência — constituem uma combinação paradoxal de oportunidades e riscos para o avanço do conhecimento científico. Tais transformações ganharam impulso particularmente acelerado com o surgimento de duas ferramentas poderosas: o modelo de publicações de acesso aberto e o desenvolvimento recente da inteligência artificial. É necessário reconhecer que ambas possuem potencial significativo para democratizar a produção e a difusão do conhecimento científico. Contudo, também ampliam as condições para a proliferação do que se poderia denominar anti-ciência ou não-ciência, por meio da circulação de produtos que apenas simulam os atributos formais da produção científica, mas que, na prática, não passam de construções frágeis que adicionam ruído ao debate público em vez de oferecer explicações empírica e toericamente fundamentadas.

Um dos problemas centrais reside no fato de que o sistema de avaliação e premiação dos cientistas foi, há bastante tempo, capturado por uma lógica quantitativista segundo a qual o elemento determinante para o reconhecimento acadêmico é a velocidade e o volume de publicações — dinâmica amplamente conhecida pela expressão inglesa publish or perish. Como consequência, os sistemas de financiamento à pesquisa, que em grande medida dependem de recursos públicos, passaram a privilegiar pesquisadores capazes de sustentar ritmos elevados de publicação, ainda que isso ocorra frequentemente em detrimento da qualidade científica. Esse arranjo institucional tende a estimular mecanismos de competição distorcidos, promovendo a concentração de recursos em pesquisadores aparentemente prolíficos, cuja produção frequentemente se caracteriza pela repetição incremental de conteúdos já amplamente disseminados.

A esse problema soma-se um segundo elemento estruturante: a crescente utilização de indicadores estatísticos simplificados como instrumentos de aferição da qualidade científica, entre os quais se destaca o chamado fator de impacto das revistas. A centralidade atribuída a esse tipo de métrica contribuiu para a consolidação de um ecossistema editorial altamente problemático, no qual emergiram não apenas as chamadas fábricas de artigos científicos (paper mills), mas também uma indústria voltada à produção e disseminação de material acadêmico de baixa qualidade travestido de ciência legítima. Nesse contexto, práticas anteriormente criticadas, como a chamada salami science, parecem hoje quase triviais diante da complexidade dos mecanismos atualmente observados. Entre eles incluem-se a compra e venda de artigos, a comercialização de autorias e a formação de redes sistemáticas de autocitação destinadas a inflar artificialmente indicadores bibliométricos. Como resultado desse processo, surgiram os chamados “pesquisadores hiperprolíficos”, cuja produtividade aparente não corresponde necessariamente à geração de conhecimento científico substantivo, mas muitas vezes à multiplicação de material de valor científico questionável.

As implicações desse cenário ultrapassam o âmbito de disciplinas específicas e colocam em risco o próprio funcionamento do empreendimento científico. Dada a velocidade com que material de baixa qualidade pode ser produzido e disseminado, existe o risco concreto de que a parcela da produção acadêmica que efetivamente atende aos critérios de rigor metodológico, consistência teórica e verificabilidade empírica se torne progressivamente minoritária. A expansão do chamado “lixo científico” não apenas compromete a credibilidade da ciência enquanto instituição social, mas também enfraquece sua capacidade de orientar políticas públicas, inovação tecnológica e processos de tomada de decisão baseados em evidências.

Diante desse quadro, torna-se imperativa uma reconfiguração profunda dos mecanismos institucionais de avaliação, financiamento e reconhecimento da produção científica. Tal reconfiguração deve necessariamente envolver uma revisão crítica dos critérios atualmente utilizados por agências de fomento, universidades e sistemas de avaliação acadêmica, deslocando o foco da mera contagem de publicações para a análise substantiva da qualidade, originalidade e relevância do conhecimento produzido. Além disso, torna-se fundamental desenvolver instrumentos mais robustos de avaliação da produção científica, capazes de distinguir de forma mais eficaz entre contribuições efetivas ao avanço do conhecimento e produtos que apenas reproduzem a aparência formal da ciência. Caso tais transformações não sejam implementadas de maneira decisiva, o sistema científico corre o risco de aprofundar uma dinâmica de degradação institucional na qual a produção massiva de material de baixa qualidade passe a dominar o ecossistema acadêmico, comprometendo seriamente a capacidade da ciência de cumprir sua função social fundamental: produzir conhecimento confiável sobre o mundo.

Quão confiável é esta pesquisa? Ferramenta sinaliza artigos discutidos no PubPeer

O plug-in de navegador alerta os usuários quando estudos – ou suas referências – são publicados em um site conhecido por levantar questões de integridade.

Uma lupa iluminada pela tela de um laptop parcialmente aberto no escuro.

A ferramenta RedacTek alerta os usuários sobre discussões do PubPeer e indica quando um estudo, ou os artigos que ele cita, foram retirados. Crédito: deepblue4you/Getty

Por Dalmeet Singh Chawla para a “Nature”

Uma ferramenta online gratuita lançada no início deste mês alerta os pesquisadores quando um artigo cita estudos mencionados no site PubPeer , um fórum que os cientistas costumam usar para levantar questões de integridade em torno dos artigos publicados.

Os estudos geralmente são sinalizados no PubPeer quando os leitores têm suspeitas, por exemplo, sobre manipulação de imagens , plágio , fabricação de dados ou texto gerado por inteligência artificial (IA) . O PubPeer já oferece seu próprio plug-in de navegador que alerta os usuários quando um estudo que eles estão lendo é postado no site. A nova ferramenta, um plug-in lançado em 13 de abril pela RedacTek , com sede em Oakland, Califórnia, vai além – ela pesquisa em listas de referências artigos que foram sinalizados. O software extrai informações de várias fontes, incluindo o banco de dados PubPeer; dados da organização de infraestrutura digital Crossref, que atribui identificadores de objetos digitais a artigos; e OpenAlex , um índice gratuito de centenas de milhões de documentos científicos.

É importante rastrear menções de artigos referenciados no PubPeer, diz Jodi Schneider, cientista da informação da Universidade de Illinois Urbana-Champaign, que experimentou o plug-in RedacTek. “Nem todas as referências contidas na bibliografia são importantes, mas algumas delas são importantes”, acrescenta ela. “Quando você vê um grande número de problemas na bibliografia de alguém, isso coloca tudo em questão.”

O objetivo da ferramenta é sinalizar potenciais problemas nos estudos para os pesquisadores desde o início, para reduzir a circulação de ciência de baixa qualidade, diz o fundador da RedacTek, Rick Meyler, com sede em Emeryville, Califórnia. Versões futuras também poderão usar IA para esclarecer automaticamente se os comentários do PubPeer em um artigo são positivos ou negativos, acrescenta.

Retratações de terceira geração

Além de sinalizar as discussões do PubPeer, o plug-in indica quando um estudo, ou os artigos que ele cita, foram retirados. Existem ferramentas que alertam os acadêmicos sobre citações retiradas ; alguns podem fazer isso durante o processo de redação, para que os pesquisadores tenham conhecimento do status de publicação dos estudos na construção das bibliografias. Mas com a nova ferramenta, os usuários podem optar por receber notificações sobre futuras “gerações” de retratações – os alertas abrangem não apenas o estudo que estão lendo, mas também os artigos que ele cita, os artigos citados por essas referências e até mesmo os artigos citados pelo referências secundárias.

O software também calcula um “valor de associação de retratação” para estudos, uma métrica que mede até que ponto o artigo está associado à ciência que foi retirada da literatura. Além de informar pesquisadores individuais, o plug-in poderia ajudar os editores acadêmicos a manter o controle sobre seus próprios periódicos, diz Meyler, porque permite que os usuários filtrem por publicação.

No seu ‘paper scorecard’, a ferramenta também sinaliza quaisquer artigos nas três gerações de estudos referenciados nos quais mais de 25% dos artigos na bibliografia são autocitações – referências de autores aos seus trabalhos anteriores.

Versões futuras poderiam destacar se os artigos citaram estudos retratados antes ou depois da publicação da retratação, observa Meyler, ou se as menções a tais estudos reconhecem a retratação. Isso seria útil, diz Schneider, coautor de uma análise de 2020 que concluiu que apenas 4% das citações a estudos retratados indicam que o artigo referenciado foi retratado 1 .

Meyler diz que a RedacTek está atualmente em negociações com a empresa de serviços acadêmicos Cabell’s International em Beaumont, Texas, que mantém listas pagas de periódicos suspeitos de serem predatórios , que publicam artigos sem verificações de qualidade adequadas para questões como plágio, mas ainda coletam artigos de autores. tarifas. O plano é usar essas listas para melhorar a ferramenta, para que ela também possa sinalizar automaticamente quaisquer artigos citados publicados nessas revistas.

DOI: https://doi.org/10.1038/d41586-024-01247-6

Referências

  1. Schneider, J., Ye, D., Hill, AM & Whitehorn, AS Scientometrics 125 , 2877–2913 (2020).


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Fonte: Nature

Revistas predatórias e ciência de baixo impacto: cortando o mal pela raiz

predatory journals

Por Nícolas Carlos Hoch e Carlos Frederico Martins Menck

O mundo acadêmico está vivendo uma revolução sem precedentes. Foi-se o tempo em que pesquisadores submetiam um artigo científico para uma revista científica de forma gratuita, e os editores da revista cuidadosamente selecionavam apenas o material que julgassem ser de maior qualidade para publicação, já que a revista arcaria com custos de produção e impressão. Nesse modelo antigo, a qualidade do material publicado e a “tradição” da revista eram essenciais para que editoras pudessem vender assinaturas e recuperar seu investimento na produção do material publicado. O efeito colateral negativo desse sistema é que ele restringe o acesso aos artigos científicos (e, portanto, ao conhecimento) para aqueles que pagam as assinaturas, sejam eles os próprios pesquisadores ou as bibliotecas das universidades. No Brasil, a Capes paga anualmente às grandes editoras científicas para que as instituições acadêmicas do País possam acessar publicações científicas pelo portal Periódicos Capes.

Hoje, com o elogiável avanço do modelo open access (acesso aberto), a necessidade de assinatura foi removida e uma parcela cada vez maior dos artigos científicos está gratuitamente disponível na internet para qualquer pessoa ler. No entanto, revistas ainda incorrem em custos pela produção e disseminação de artigos científicos, e esse custo hoje migrou do leitor para o autor do artigo. Cientistas ao redor do mundo pagam valores que podem chegar a astronômicos US$ 10 mil para cada artigo que publicam, nos chamados Article Processing Charges (APCs). Entretanto, o pagamento de APCs para publicação de artigos tem efeitos colaterais nefastos, que foram completamente subdimensionados na concepção desse novo sistema. Um desses efeitos é que cada artigo rejeitado pela revista é uma oportunidade perdida de recolher APC dos autores e cada artigo aceito é lucro para a editora, independente de quantas pessoas se interessam por ler esse material posteriormente. Portanto, a revista científica passou a ter menor responsabilidade pela qualidade do material que publica, disparando o mercado de publicações científicas no mundo todo.

Algumas editoras menos escrupulosas foram rápidas em identificar o potencial econômico dessa mudança e turbinaram a produção de novas revistas científicas, claramente com interesses comerciais. Infraestruturas digitais foram criadas para facilitar e acelerar os procedimentos de submissão, revisão e aceite de artigos, desprezando parcial ou totalmente a crucial etapa de revisão por pares. Por exemplo, algumas revistas científicas (mesmo em editoras tradicionais) criaram capacidade para publicar mais de 10 mil artigos científicos de acesso aberto por ano, gerando lucros fantásticos para as editoras. Com práticas editoriais pouco éticas e visando ao lucro pela publicação de artigos científicos em quantidade, essas editoras e revistas, conhecidas pelo termo “predatórias”, desqualificam todo o sistema de publicações científicas. Vale ressaltar que esse lucro é gerado às custas de editores e revisores geralmente não remunerados, e que pesquisadores muitas vezes são instrumentalizados para recrutar novos artigos para as revistas na forma de editores convidados para edições especiais sobre um tema específico. Apesar de edições especiais legítimas terem um valor acadêmico importante, seu superdimensionamento recente demonstra o sucesso comercial dessa estratégia.

Mas então por que os cientistas se sujeitam a pagar APCs cada vez mais caros, gerando lucros astronômicos para as editoras e poluindo a literatura científica com artigos de mais baixa qualidade? E aqui nós finalmente chegamos ao cerne do problema: porque eles precisam. A editora não é a única que “lucra” com a publicação de mais um artigo, mas o cientista autor do artigo (e pagador do APC) necessita de publicações para sua progressão profissional. Cada artigo publicado ajuda o cientista a progredir na carreira, a alcançar um novo nível de prestígio ou a assegurar financiamento para um novo projeto. Um número alto de artigos publicados também interessa às instituições de pesquisa que se julgam prestigiadas com isso.

Infelizmente, isso ocorre porque essa é a métrica que os próprios cientistas usam para comparar a produtividade entre os pesquisadores e instituições, determinando quem merece uma promoção ou mais financiamento para suas pesquisas. Como resultado disso, alguns autores não só não se preocupam onde publicam seus trabalhos, como atuam de forma a publicar trabalhos repetitivos, limitados na sua originalidade, onde o que mais importa é ser autor ou coautor de um alto número de artigos científicos, mesmo que sua participação de fato tenha sido muito pequena. Ou seja, esse interesse mútuo na publicação de artigos em troca do pagamento de APCs, especialmente em um sistema “publicou/pagou” indiscriminado, pode constituir um problema ético grave, que vem se alastrando mundialmente.

Um sintoma cada vez mais prevalente dessa pressão descontrolada por publicações é a existência, em alguns países, de paper mills (ou “usinas de artigos”), que são empresas contratadas por cientistas expressamente para forjar artigos científicos, usando dados completamente fabricados e publicar esses artigos falsos em revistas científicas em nome do contratante. Um dos principais incentivos a esse tipo de comportamento é uma política adotada pelo sistema de saúde chinês, em que a progressão de carreira de médicos é vinculada diretamente à publicação de artigos científicos.

Feito esse diagnóstico da situação, o que podemos fazer para mudar esse cenário, especialmente aqui no Brasil? Não existe solução fácil. Na nossa visão, iniciativas para identificar e remover da literatura científica aqueles artigos com pouca ou nenhuma contribuição científica, ou então identificar revistas predatórias e desencorajar cientistas a submeter artigos para esses periódicos, são intervenções necessárias, mas combatem apenas o sintoma e não a causa-raiz do problema. Enquanto houver incentivo ao cientista para publicar quantidades cada vez maiores de artigos, haverá pessoas e serviços encontrando formas de “saciar” esse desejo.

Sendo assim, entendemos que o foco deve ser em mudanças nos processos de avaliação de projetos individuais (comparando pesquisadores) ou de instituições (como universidades ou programas de pós-graduação), de forma que a publicação de artigos de baixa qualidade em revistas com práticas editoriais questionáveis deixe de ser uma vantagem. Mudanças nesse sentido já estão em curso, com várias agências de fomento científico (incluindo Fapesp, Capes e CNPq) aperfeiçoando seus procedimentos de avaliação para promover algum tipo de destaque a um seleto grupo dos melhores trabalhos que aquele cientista (ou instituição) produziu, em detrimento de métricas quantitativas que consideram apenas os números totais de artigos publicados. Na prática, entretanto, uma avaliação criteriosa da qualidade desses “destaques” pode ser um processo subjetivo e difícil de ser realizado em escala, e ainda não trouxe uma mudança significativa na cultura da comunidade científica, que continua a valorizar currículos com produção mais volumosa em processos de avaliação.

Nossa proposta é que os processos de avaliação das agências de fomento (incluindo CNPq, Capes e FAPs) eliminem ou reduzam significativamente as métricas que estimulam quantidade de publicações. Isso valeria para avaliações de auxílios científicos e bolsas, incluindo bolsas de produtividade CNPq, e instituições, como as avaliações quadrienais de programas de pós-graduação Capes. Como reconhecemos que produção científica é a base para divulgação do conhecimento, a ideia seria que se considere apenas um número máximo de publicações por ano por pesquisador avaliado, ignorando totalmente qualquer produção excedente. Por exemplo, para concessão de bolsas de produtividade em pesquisa CNPq, a avaliação ocorreria considerando apenas um máximo de três a cinco melhores artigos por ano nos últimos dez anos (para pesquisadores estabelecidos) ou de um a três melhores trabalhos por ano nos últimos cinco anos (para jovens pesquisadores). Da mesma forma, na avaliação quadrienal dos programas de pós-graduação pela Capes, poderiam ser considerados apenas um máximo de três a cinco melhores artigos por ano por docente. Naturalmente, cada comitê de avaliação poderia definir um limite anual de publicações mais adequado à prática de sua área do conhecimento e inclusive escolher qual parâmetro será utilizado para determinar a qualidade do artigo, como o número total de citações que cada artigo recebeu, ou o fator de impacto ou Qualis da revista em que foi publicado. De todo modo, a avaliação seria feita sempre considerando apenas um número predefinido (e limitado) de publicações por proponente.

Esperamos que como resultado dessa mudança na forma com que pesquisadores são avaliados, estes serão desestimulados a produzir um número muito alto de artigos (alguns chegam a publicar uma média superior a um artigo por semana!), podendo se voltar a aprofundar seus projetos de pesquisa em busca de uma melhor qualidade de suas publicações. Como resultado, um dos maiores estímulos para a produção de artigos de baixa qualidade, publicados a toque-de-caixa em revistas predatórias, deixará de existir.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

*Por Nícolas Carlos Hoch é professor do Instituto de Química da USP  e Carlos Frederico Martins Menck é professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP


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Este texto foi originalmente publicado pelo “Jornal da USP” [Aqui!].

O mundo sombrio dos “cartéis de citações”

Periódicos predatórios e pesquisadores de má fé estão manipulando o sistema de publicações científicas, e em grande escala

citation cartel

Por Domingo Docampo para o “Chronicle of Higher Education”* 

O cenário complexo da academia moderna, a máxima “publicar ou perecer” tem evoluído gradualmente para um mantra diferente: “Seja citado ou sua carreira será arruinada”. As citações são a nova moeda acadêmica e as carreiras dependem agora firmemente desta forma de reconhecimento acadêmico. Na verdade, a citação tornou-se tão importante que deu origem a uma nova forma de artifício: redes furtivas concebidas para manipular citações. Os investigadores, movidos pelo imperativo de garantir o impacto acadêmico, recorrem à formação de anéis de citação: círculos colaborativos concebidos para aumentar artificialmente a visibilidade do seu trabalho. Ao fazê-lo, comprometem a integridade do discurso acadêmico e minam os fundamentos da investigação académica. A história do moderno “Cartel de citações ” não é apenas resultado da pressão por publicação. A ascensão das megajornais também desempenha um papel, assim como as revistas predatórias e os esforços institucionais para prosperar nos rankings académicos globais.

Ao longo da última década, o panorama da investigação acadêmica foi significativamente alterado pelo grande número de acadêmicos envolvidos em empreendimentos científicos. O número de acadêmicos que contribuem para publicações indexadas em matemática duplicou, por exemplo. Em resposta à crescente procura de espaço em publicações científicas, uma nova geração de empreendedores editoriais aproveitou a oportunidade, e o resultado é o surgimento de megajornais que publicam milhares de artigos anualmente. Mathematics , um periódico de acesso aberto produzido pelo Multidisciplinar Digital Publishing Institute (MDPI), publicou mais de 4.763 artigos em 2023, representando 9,3% de todas as publicações na área, de acordo com a Web of Science. A Mathematics tem um fator de impacto de 2,4 e uma medida de influência do artigo de apenas 0,37, mas, o que é mais importante, é indexado pela Web of Science da Clarivate, pelo Scopus da Elsevier e outros indexadores, o que significa que suas citações contam para uma variedade de métricas profissionais. (Por outro lado, o Annals of Mathematics, publicado pela Universidade de Princeton, continha 22 artigos no ano passado e tem um fator de impacto de 4,9 e uma medida de influência do artigo de 8,3.)

As mega-revistas prosperam na era do acesso aberto, fornecendo uma plataforma conveniente para investigadores ansiosos por ver o seu trabalho publicado e amplamente lido. Sem acesso pago, os artigos dessas revistas podem ser compartilhados (e citados) perfeitamente. A revista recebe “taxas de processamento de artigos” pagas pelos autores de um artigo ou por suas instituições, com taxas normalmente na casa dos quatro dígitos em dólares americanos por artigo. Os anéis de citação, que existem há décadas , agora exploram os processos rápidos e fáceis de revisão por pares dos megajornais para canalizar milhares de referências para seus colaboradores. O resultado é uma distorção dos índices de citações acadêmicas e das pontuações dos fatores de impacto que permitem que estudos medíocres pareçam ser muito mais influentes do que são – pelo preço certo para a revista, claro.

Uma importante métrica de citação direcionada para o jogo citacional é a prestigiada lista de “ Pesquisadores Altamente Citados ” da Clarivate . “Da população mundial de cientistas e cientistas sociais, os Pesquisadores Altamente Citados™ são 1 em 1.000”, explica Clarivate. A inclusão na lista ocorre primeiro por meio da atividade de citação: “Cada pesquisador selecionado é autor de vários Highly Cited Papers™ que estão entre os primeiros 1% por citações em seu(s) campo(s).” Essa lista é então “refinada através de análise qualitativa e julgamento de especialistas”. Em geral, o rótulo de Pesquisador Altamente Citado da Clarivate é reconhecido pela comunidade científica como um marcador de influência.

A lista de Pesquisadores Altamente Citados também contribui para um indicador do Shanghai Ranking , um ranking acadêmico de universidades mundiais. Numa aposta pela visibilidade internacional, as instituições nem sempre são avessas a que os seus docentes encontrem atalhos para o reconhecimento acadêmico, mesmo aqueles que envolvem práticas duvidosas de citação. A atração de subir nas tabelas de classificação internacional é poderosa. Essa relação simbiótica entre anéis de citação, megaperiódicos e classificações globais sublinha a urgência de descobrir as más práticas de citação.

A proliferação de revistas predatórias agrava ainda mais o problema. O bibliotecário académico Jeffrey Beall deu o alarme sobre tais editores na Nature em 2012, detalhando o “atoleiro antiético” em que ocorreram manipulação de direitos de autor, faturação surpresa, metodologias pouco sólidas, fotos alteradas e até plágio. A “Lista de Beall”, que funcionou até Beall encerrá-la , em 2017, alertou os estudiosos sobre editoras potencialmente predatórias, muitas vezes com nomes inócuos. Apesar das tentativas de aumentar a conscientização acadêmica sobre essas questões, e apesar dos muitos esforços da Clarivate para detectar padrões de citação anômalos, os periódicos predatórios continuaram a minar o prestígio da lista de Pesquisadores Altamente Citados. Essa tendência representa uma grave ameaça à credibilidade do desempenho académico.

Para entender melhor a natureza do problema, vamos nos concentrar em um anel de citação específico. Uma análise que estou realizando com dois colegas franceses mostra como as táticas de citação combinadas podem produzir um número impressionante de artigos altamente citados em matemática num período muito curto. Em 2023, uma rede de cerca de 100 investigadores conseguiu ser coautora de 17 artigos — e fazer com que esses artigos fossem citados 396 vezes entre 2023 e o início de 2024. Esta é uma taxa de citação notável. Todos os 17 artigos estão na lista de “artigos altamente citados” da Clarivate para matemática em 2023.

Um padrão intrigante surge ao examinar os artigos que fazem referência a esses 17 artigos: o número total de artigos citados é 84, dos quais 75 são autocitações ou citações de coautores. Essa estreita colaboração sugere uma rede estreita de autores com potenciais distorções nos padrões de citação, lançando dúvidas sobre a real influência dos estudos. Além disso, o número médio de referências aos 17 artigos altamente citados é próximo de cinco, com vários artigos obtendo mais de cinco citações. Os matemáticos individuais típicos teriam recebido apenas uma referência acadêmica às suas publicações de 2023 de outros trabalhos na área.

Vamos nos concentrar em um dos artigos que citam, para ver a forma peculiar como algumas referências direcionadas aparecem:

As referências 13 a 20 são artigos com o mesmo primeiro autor e um editor de um periódico de acesso aberto onde apareceram quatro dos 17 artigos altamente citados publicados pela rede em 2023, juntamente com 21 dos 75 artigos citantes da rede.

Em outro desses 75 artigos citados, encontramos 10 autocitações dentro da rede – nove das referências (nºs 15 a 23) novamente a artigos dentro da rede com o mesmo primeiro autor. Esses nove estão agrupados da seguinte forma no texto, logo após uma referência apropriada (nº 14):

… estudou as superfícies circulares semelhantes ao tempo no espaço 3 de Minkowski do ponto de vista da teoria da singularidade. Eles apresentaram singularidades e propriedades de simetria de superfícies circulares semelhantes ao tempo no espaço 3 de Minkowski [14]. Além disso, alguns dos mais recentes estudos relacionados sobre simetria e singularidade podem ser vistos em [15–23].

Essa forma de reconhecer artificialmente o trabalho de outra pessoa não é resultado do conhecido efeito Matthew , o “melhoramento da posição de cientistas já eminentes que recebem crédito desproporcional em casos de colaboração”. Em vez disso, resulta de um esforço concertado de grupo para elevar um académico ao topo da sua pirâmide. A rede que descobrimos produziu 75 artigos discretos, publicados principalmente em megajornais, num curto espaço de tempo. As revistas não exigem o mesmo nível de atenção e escrutínio que os locais estabelecidos e, por isso, há geralmente pouco reconhecimento da investigação da rede. Mas essa falta de escrutínio serve os interesses do grupo de citações – padrões de citação menos escrupulosos permitem-lhe citar e, assim, elevar trabalhos publicados nos mesmos tipos de revistas.

Em último caso, a nossa análise aponta para uma rede bem organizada que aproveita a colaboração e as citações para elevar a pontuação dos artigos recentes para o 1% mais citado. Seguem-se vários resultados indesejáveis. Estudiosos merecedores são enganados e não têm a sua influência reconhecida. A aparente influência de estudos medíocres pode enganar os estudantes de pós-graduação. E a falta de confiabilidade das métricas de citação terá um impacto adverso na disciplina como um todo.

O que podemos fazer para combater esses atalhos acadêmicos? Devemos promover uma cultura que priorize a qualidade e a integridade da pesquisa, e devemos desvendar a teia de anéis de citação. As instituições académicas e de investigação devem encorajar e recompensar investigação rigorosa e inovadora através de contratações, promoções e aumentos salariais adequados.

Os editores também devem ser totalmente responsáveis. As megajornais devem trabalhar para garantir a integridade do registro acadêmico. Podem salvaguardar a sua credibilidade desenvolvendo estratégias que detectem e previnam a manipulação de citações. Editores que seguem padrões rigorosos sabem que manter a qualidade da revisão por pares é um desafio, visto que bons revisores geralmente são bons pesquisadores com pouco tempo livre. A discussão desta questão deverá envolver a introdução de incentivos adequados para os revisores e o alargamento da utilização de processos de revisão mais inovadores, por exemplo, revisões publicadas lado a lado com artigos ou revisões pós-publicação nas quais os cientistas possam comentar o trabalho.

O desafio da má prática de citação não se limita a um tema ou região de pesquisa específica. As suas ramificações estendem-se muito além das preocupações imediatas dos académicos estabelecidos, lançando uma sombra iminente sobre o futuro dos jovens investigadores. À medida que a pressão para recolher citações se intensifica, os aspirantes a académicos podem encontrar-se numa encruzilhada onde a tentação de tomar atalhos se torna particularmente aguda. Os jovens investigadores, que deveriam concentrar-se na exploração das fronteiras do conhecimento, correm o risco de comprometer a sua integridade intelectual e podem ficar presos numa teia de práticas desonestas, sem um caminho claro de regresso ao comportamento ético.

Na situação atual, os bons investigadores que optam por permanecer no caminho certo podem enfrentar dificuldades na progressão na carreira e nas oportunidades de financiamento. Eles podem ser gradualmente empurrados para funções com menor intensidade de pesquisa e perder a chance de fazer contribuições significativas em seu campo. Esse cenário levaria a uma falha do sistema com consequências desastrosas.

* Domingo Docampo é professor de processamento estatístico de sinais na Universidade de Vigo, na Espanha.


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Este artigo escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “Chronicle of Higher Education” [Aqui!  ].