Conheça ferramenta útil para identificar “periódicos predatórios”

predatory

Neste post, mostro como identificar periódicos predatórios usando a útil ferramenta  “Compass to Publish” .

Jornais e editoras predatórios estão colocando em risco a integridade acadêmica das pesquisas publicadas.

Os periódicos duvidosos abusam do modelo autor-pago de acesso aberto da publicação acadêmica.

Aqui, eu o orientarei através da nova ferramenta exclusiva “Compass to Publish” para identificar os jornais predatórios e falsos.

A ferramenta é desenvolvida pela  Biblioteca ULiege , Bélgica. Agora, ele foi lançado online como uma versão beta.

Ele ajuda a determinar a autenticidade de periódicos de acesso aberto que exigem ou ocultam as Taxas de Processamento de Artigo (APC).

Além disso, a ferramenta online inovadora permite que você identifique as possíveis revistas predatórias.

A ferramenta tem como objetivo ajudar os pesquisadores a examinar o grau de autenticidade dos periódicos de acesso aberto.

Além disso, permite que a comunidade acadêmica compreenda melhor também pseudo-jornais e editoras.

Ao responder a uma série de perguntas relacionadas ao seu diário, você pode avaliar a autenticidade.

Esta postagem mostrará como funciona o “Compass to Publish”.

Como funciona a ferramenta Compass to Publish (versão beta)

Você pode determinar o grau de autenticidade de um jornal respondendo às perguntas do teste online.

Vale ressaltar que o aplicativo web apenas avalia a natureza fraudulenta de um periódico de acesso aberto.

Mas a ferramenta não avalia a qualidade de um periódico.

De acordo com suas respostas, o aplicativo da web gera diferentes tonalidades de cor para verificar o grau de autenticidade do seu diário.

A área mais verde em tons de cor significa que você pode confiar na revista.

Em contraste, uma zona vermelha indica que um diário é arriscado.

Como usar a ferramenta útil para identificar os diários predatórios

Vamos começar.

Você deve responder a perguntas suficientes para que a avaliação seja precisa.

Para começar a usar a ferramenta “Compass to Publish”, siga as etapas abaixo:

Abra a ferramenta Compass to Publish Online para identificar jornais predatórios

Primeiro, navegue até o  aplicativo da web  para determinar o grau de autenticidade do seu diário.

Depois de abrir a ferramenta online, você verá a seguinte página:

Compass to Publish Interface

Inserindo Título e ISSN do Jornal 

Usando a interface, você clica em  “Get to the test”  para identificar os possíveis periódicos predatórios.

Ao clicar no botão, você verá as consultas como esta:

Iniciar CTP
Comece o teste

Agora mesmo, você insere o título e o ISSN (ou eISSN) para detectar seu periódico.

Lembre-se de que você pode encerrar o teste online a qualquer momento.

Para obter um diagnóstico preciso do seu diário, você deve fornecer mais respostas.

  • Verifique se o seu diário está indexado ou não pelo DOAJ

Para verificar o grau de autenticidade do seu periódico, você fornece informações sobre a indexação do DOAJ.

Se a revista é de acesso aberto, ela está indexada no DOAJ?

Verificar: O periódico está indexado no DOAJ

Assim que você responder, uma barra de progresso aparecerá abaixo. Ao clicar em “Avançar” você prossegue para as próximas perguntas.

A revista está hospedada em uma das plataformas de acesso aberto abaixo?

Tudo o que você precisa fazer é fornecer informações relacionadas à hospedagem de periódicos.

Informações de hospedagem: plataforma de acesso aberto Para simplificar, eles já especificaram as plataformas de acesso aberto:

O Editor ou o Jornal é Membro da OASPA?

Aqui, você deve responder se seu periódico ou editora é membro da OASPA ou não.

Membro OASPA
Verificação de filiação à OASPA

O editor ou o periódico são membros do COPE?

Você responde à pergunta – eles pertencem ao Comitê de Ética em Publicações?

Membro COPE
A revista ou editora é membro do COPE?

O jornal é publicado por uma editora conhecida?

O jornal é publicado por uma editora conhecida?

 Se você está em uma plataforma de publicação conhecida, esta é a verdadeira revista científica.

Listas de jornais e editores supostamente predatórios

O periódico está incluído na lista do DOAJ de periódicos que afirmam ser indexados no  Directory of Open Access Journals?

Índice DOAJ
O periódico está incluído na lista do DOAJ de periódicos que afirmam ser indexados no DOAJ?

O periódico ou editora está incluído em alguma das listas do site  Stop Predatory Journals ?

pare de jornais predatórios
O periódico ou editora está incluído em alguma das listas do site Stop Predatory Journals?

 Diários sequestrados 

Os periódicos predatórios às vezes sequestram o ISSN de um periódico autêntico para passá-lo como seu.

O ISSN ou eISSN incluído no site da revista é autêntico?

Nota: Certifique-se de que o título da revista que você pode obter no resultado do portal ISSN corresponde estritamente ao título que é mencionado no site da revista.

 O jornal que você está testando é um jornal sequestrado? 

O jornal que você está testando é um jornal sequestrado?

Periódicos falsos ou clonados procuram enganar os autores imitando as práticas e os nomes.

O editor tem um nome estranhamente semelhante a outro editor? 

Algumas editoras predatórias usam uma semelhança de nome com editoras conhecidas para promover sua própria credibilidade.

O editor tem um nome estranhamente semelhante a outro editor?

Indexação e métricas 

A revista possui a marca registrada “Impact Factor” (Clarivate Analytics TM)?

Índice e métricas
A revista possui a marca registrada “Impact Factor” (Clarivate Analytics TM)?

O fator de impacto (FI) mede a visibilidade dos periódicos.

Freqüentemente, é mal utilizado como uma abreviatura para avaliar a qualidade de um periódico.

Para evitar tal confusão, você verifica no site da Clarivate a marca registrada “Impact Factor”.

A revista está realmente incluída nas diversas bases de dados citadas em seu site?

indexação e métricas
A revista está realmente incluída nas diversas bases de dados citadas em seu site?

Pseudo-periódicos freqüentemente afirmam ser indexados em bancos de dados ou índices bem conhecidos.

Verificando o Conselho Editorial e o Processo de Revisão por Pares

Você tem que estar ciente do Conselho Editorial da revista. Você também deve verificar o processo de revisão por pares.

Nesta etapa, você apenas responde às perguntas abaixo:

  • Os membros do conselho editorial são mencionados no site?
  • A política de revisão por pares possivelmente anunciada parece surpreendentemente rápida para sua (s) disciplina (s)?

Após fornecer as informações, prossiga para a próxima seção.

Consultas relacionadas ao conteúdo e à apresentação para identificar os periódicos predatórios

Aqui, você fornece as informações relacionadas ao conteúdo da sua revista. Levará alguns segundos para responder:

                                                                         Consulta Relacionada a Conteúdo

Estratégias de Comunicação 

Você recebe repetidamente e-mails não solicitados ( spam ) do jornal / editor?

Resultado final: 

Aqui está o resultado para jornal não especificado, pois não respondi a nenhuma pergunta durante o teste.

Resultados para jornal não especificado

Portanto, certifique-se de que seu trabalho de pesquisa acadêmica esteja em boas mãos usando a ferramenta. 

Neste guia detalhado. Eu discuti e demonstrei uma ferramenta útil para identificar jornais predatórios.

Eu espero que você ache este post útil.

https://app.lib.uliege.be/compass-to-publish/

fecho

Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo blog “bluesyemre” [Aqui!  ].

Centenas de cientistas fizeram revisões de artigos publicados em revistas predatórias

Muitos desses títulos têm alguma supervisão editorial – mas a qualidade das críticas está em questão.

revistas predatórias

Ilustração por David Parkins

Por Richard Von Noorden para a Nature

Centenas de cientistas que publicam suas atividades de revisão por pares no site Publons afirmam ter revisado artigos de periódicos “predatórios” – embora não possam saber disto. Uma análise do site constatou que ele hospeda pelo menos 6.000 revisões de registros para mais de 1.000 periódicos predatórios. Os pesquisadores que revisam a maioria desses títulos tendem a ser jovens, inexperientes e afiliados a instituições de nações de baixa renda na África e no Oriente Médio, de acordo com o estudo, publicado no servidor de pré-impressão bioRxiv em 11 de março.

O estudo é o maior a examinar alegações dos cientistas que revisam para revistas predatórias. A visão popular sobre esses periódicos é que eles geralmente publicam qualquer manuscrito oferecido por uma taxa e oferecem revisão por pares. De fato, os periódicos podem ser definidos como predatórios, mesmo que forneçam revisão por pares, porque podem ser enganosos de outras maneiras. Mas a revisão por pares que essas revistas conduzem pode não estar no padrão que muitos pesquisadores reconhecem, diz Matt Hodgkinson, chefe de pesquisa de integridade da editora Hindawi em Londres. “Eles provavelmente estão passando pelos movimentos e usando esses revisores como uma folha de figueira”, diz ele.

As análises, se genuínas, podem ser “um desperdício de tempo e esforço valiosos” dos pesquisadores, diz o estudo. Seus autores sugerem que financiadores e instituições de pesquisa devem alertar contra a  realização de revisões para publicações predatórias.

Predatória ou com poucos recursos?

Os pesquisadores usam a plataforma Publons para listar as revisões de manuscritos que realizaram. Mas a organização com sede em Londres notou há vários anos que alguns usuários estavam reivindicando a revisão de periódicos potencialmente predatórios. A equipe se juntou a pesquisadores da Fundação Nacional de Ciências da Suíça (SNSF) em Berna e da Universidade de Berna para conduzir uma análise em larga escala. Começando com uma lista negra proprietária de títulos considerados predatórios pela Cabells, uma empresa de análise editorial em Beaumont, Texas, a equipe construiu algoritmos para identificar revisões desses títulos no Publons. Eles são gostosos

Pelo menos 10% dos periódicos da lista negra de Cabells têm revisões reivindicadas no Publons, segundo o estudo. Isso não diz respeito a Cabells, diz seu diretor técnico Lucas Toutloff, porque a empresa sinaliza os periódicos como predatórios para muitos tipos de práticas enganosas, como enganar os leitores sobre qualificações do conselho editorial ou endereços físicos de escritórios, ou não ter políticas para preservar documentos digitalmente.  “Pode ser que os periódicos sinalizados como predatórios estejam realizando uma revisão por pares de boa qualidade, mas por outros motivos”, diz Anna Severin, pesquisadora do SNSF e da Universidade de Berna, coautora do estudo. Também pode ser difícil distinguir entre títulos e periódicos predatórios daqueles que são legítimos, mas com poucos recursos.

Publons diz que as revisões são registros reais: os cientistas verificam se fizeram as revisões listadas, encaminhando e-mails de reconhecimento à Publons ou solicitando que um editor de periódico verifique a revisão de forma independente.

Motivos mistos

Embora alguns cientistas possam não perceber que os periódicos para os quais estão revisando são predatórios, é possível que outros vejam a chance de expandir a lista de periódicos que revisam como uma maneira de mostrar sua produtividade acadêmica – independentemente do título. E o próprio Publons poderia estar “involuntariamente transformando a revisão por pares em um jogo”, sugere Hodgkinson. O site possui tabelas de classificação para os principais revisores – o que pode recompensar ainda mais a análise indiscriminada. Um porta-voz da Publons observa que o site fornece orientações sobre periódicos éticos e robustos e que, em julho de 2019, mudou seus placares de líderes para que seu pedido seja, por padrão, classificado por periódicos indexados no banco de dados da Web of Science.

A Nature conversou com alguns cientistas que listam resenhas no Publons para periódicos listados como predatórios na lista de Cabells. Ian Burgess, um entomologista que é diretor da Insect Research and Development, uma empresa de pesquisa contratada em Cambridge, Reino Unido, disse que revisou oito manuscritos para quatro periódicos predatórios de um editor chamado Academic Journals, da Nigéria. Burgess disse que esperava fornecer orientações aos autores, mas que a editora ignorou completamente seus comentários. “Claramente, eu fui ingênuo a pensar que, se você tivesse análises adequadas, a qualidade das publicações aumentaria”, diz Burgess, que afirma não ter feito mais análises nessas revistas, embora ainda seja solicitado. (A editora da revista em questão não respondeu ao pedido da Nature para comentar.)

E um pesquisador alemão que não deseja ser identificado disse à Nature que havia revisado para uma revista predatória, mas que suas sugestões também foram ignoradas. Ele ressaltou que algumas vezes suas sugestões de revisão foram desconsideradas também em periódicos estabelecidos.

Os autores do estudo estão planejando examinar o texto das revisões em periódicos predatórios e legítimos – em alguns casos, o Publons pode acessar o texto de relatórios de revisão particulares – para verificar se existem diferenças mensuráveis ​​na qualidade, diz Severin.

Referências

  1. Severin, A. et al. Preprint on BioRxiv https://doi.org/10.1101/2020.03.09.983155 (2020).

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela Nature [Aqui!].

Índia foca nas universidades para reprimir as revistas predatórias

Mas acadêmicos dizem que os incentivos do governo para publicar são parte do problema.

ministro indianoPrakash Javadekar,  ministro responsável pelo Ensino Superior, diz que as universidades devem ajudar o governo a impedir a publicação predatória. Crédito: Vipin Kumar / Hindustan Times / Getty

Por Subhra Pryiadarshini para a revista “Nature” [1]

A maioria dos acadêmicos considera as revistas predatórias como irritantes – se não uma ameaça – à ciência. Mas na Índia, algumas universidades recomendaram a inclusão de tais publicações na “lista branca” de periódicos aprovados no país. Agora o governo está reprimindo esta prática, que os cientistas dizem que surgiu como resultado de incentivos perversos do próprio governo.

“Vamos acabar com essa ameaça dos periódicos predatórios”, disse Prakash Javadekar, ministro responsável pelo Ensino Superior, no mês passado. As universidades agora têm até o final de agosto para revisar suas recomendações para a lista branca de revistas para evitar publicações predatórias, que ativamente solicitam manuscritos e cobram taxas pesadas dos autores sem fornecer os serviços que anunciam, como edição e revisão por pares.

Revistas predatórias são um problema porque o financiamento da pesquisa é desperdiçado em editores enganosos que não cumprem o que prometeram. Uma grande investigação jornalística internacional, publicada em vários meios de comunicação no mês passado, estimou que o número de artigos publicados por cinco grandes editores predatórios triplicou desde 2013 – passando para cerca de 175.000 artigos.

Link de desempenho

Muitas editoras que hospedam revistas predatórias suspeitas estão baseadas na Índia. E vários estudos descobriram que uma alta proporção de artigos em tais periódicos vem de acadêmicos que atuam no país.

Muitos acadêmicos indianos atribuem essa situação ao sistema nacional de avaliação do desempenho acadêmico. Em 2010, a agência reguladora e de financiamento do ensino superior da Índia, a University Grants Commission (UGC), introduziu um sistema para avaliar os acadêmicos chamado Indicador de Desempenho Acadêmico, que coloca um peso considerável no número de publicações de pesquisa. As universidades devem usar o indicador para contratar e promover membros do corpo docente. Mas cientistas reclamaram que isso encoraja acadêmicos e universidades a se concentrarem na quantidade de publicações, e não em sua qualidade.

Para reduzir a prática de publicação em periódicos abaixo do padrão, o UGC divulgou em janeiro de 2017 uma lista branca de periódicos aprovados. A lista continha aproximadamente 32.000 publicações indexadas em bancos de dados de citações científicas, como Web of Science e  Scopus, além de mais de 5.000 publicações recomendadas pelas universidades. Mas os pesquisadores rapidamente apontaram que esta lista também incluía revistas predatórias.

Virander Singh Chauhan, que preside o comitê de CGU que avalia e credencia instituições de ensino superior e que supervisionou a lista, diz que as revistas predatórias foram recomendadas por algumas universidades, e que a UGC só tinha conhecimento disso depois. A menos que as universidades parem de fazer isso, “nada pode se livrar de revistas fajutas na Índia”, diz Chauhan. Atualmente, diz ele, as universidades podem simplesmente recomendar revistas e fazer um esforço mínimo para verificar a qualidade de uma publicação.

Maior consciência

Em maio, o UGC removeu 4.305 periódicos da lista por motivos de má qualidade, ou porque foram fornecidas informações incorretas ou insuficientes sobre os periódicos removidos . (O grupo atualizará a lista com as recomendações revisadas das universidades.) Chauhan diz que a introdução de critérios mais rígidos para o registro de periódicos na lista do UGC reduzirá o número de publicações predatórias.

O astrofísico Ajit Kembhavi diz que o plano do governo de reprimir periódicos propostos pela universidade é um bom primeiro passo, mas que o maior problema é como as universidades são avaliadas e financiadas.

Uma solução mais permanente seria dissociar as avaliações acadêmicas do número de publicações de um pesquisador, diz Kembhavi, do Centro Interuniversitário de Astronomia e Astrofísica de Pune, um dos sete consórcios universitários criados pelo UGC para permitir que as universidades compartilhem infraestrutura e serviços. Recursos.

Kembhavi diz que mais precisa ser feito para promover uma maior conscientização dos periódicos predatórios entre os acadêmicos da Índia e para educá-los sobre ética em pesquisa.

Na China, onde algumas universidades recompensam os acadêmicos com base no número de publicações, o governo está trabalhando em uma lista negra de revistas que considera de baixa qualidade ou criadas apenas para fins lucrativos. As pesquisas publicadas nessas revistas não contarão para pedidos de promoção ou concessão, e os autores também receberão uma advertência.

Bhushan Patwardhan, biólogo da Universidade Savitribai Phule Pune e crítico ferrenho de práticas de publicação duvidosa, diz que o governo indiano também deve mostrar tolerância zero em relação aos acadêmicos que publicam nesses periódicos. Atualmente, não há repercussões para acadêmicos que fazem isso. Ele diz que o governo deve introduzir regras semelhantes às introduzidas para detectar e punir o plágio nas universidades, que entraram em vigor em julho. “Se os membros do corpo docente estão autorizados a saírem ilesos de tais práticas, o que os impediria de fazer isso de novo?”, diz Patwardhan.

[1] Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela revista “Nature” [Aqui!]

Caçando Jeffrey Beall para calar a incomoda verdade sobre as revistas predatórias

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Até o início de 2017 era um leitor assíduo do blog que o Professor Jeffrey Beall da University of Colorado-Denver possuía na plataforma WordPRess, e lamentei que repentinamente ele tenha interrompido postagens e removido todo o material que havia depositado, principalmente os relacionados às editoras e jornais predatórios (ou como chamo pessoalmente de reprodutores de lixo científico).  Entretanto, graças a um par de artigos publicados pelo “Times of Higher Education” pude finalmente entender as razões que levaram ao professor Beall a tomar uma medida tão drástica e que literalmente deixou a incontáveis membros da comunidade internacional órfãos da valiosa informação sobre os editores predatórios e suas estratégias de venda e publicação de lixo científico [1 e 2]

Agora, já sei que Jeffrey Beall encerrou seu blog por pressões diretas da sua própria instituição e pelo medo de ser demitido do cargo que ali ocupa.  E isso já foi até explicitado num artigo publicado por Beall na revista “Biochemia Medica” em um artigo publicado em Maio deste ano [3]. Mas a leitura do artigo de um dos artigos da “Times of Higher Education” também elucida uma das fontes principais dos ataques feitos contra a lista preparada por Jeffrey Beall. E surpreendentemente, Beall aponta o dedo para seus próprios pares em outras bibliotecas universitárias, os quais estariam focados demais na rejeição às revistas publicadas pelas grandes editoras científicas mundiais para se deter de forma cuidadosa nos riscos que estão sendo criados pela disseminação do lixo científico publicado por jornais predatórios.

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O fato  é que não é preciso ir longe para verificar que muitos dos que se concentraram em atacar o trabalho voluntário de Jeffrey Beall,  de forma até virulenta, não mostram a mínima disposição para sequer falar dos riscos que estão sendo criados pela disseminação de um incontável número de revistas de acesso aberto cujo valor científico é praticamente nenhum.  Um dos resultados disso é o fato de que muitos pesquisadores estão se tornando vítimas de esquemas criminosos que são utilizados para ludibriar incautos em nome da velocidade de publicação.

Neste caso, me interessaria saber quantas novas “editoras” e revistas predatórias foram lançadas após o encerramento do blog do Professor Beall. Como ele mesmo descreve todo tipo de tentativas de coação para que ele interrompesse a publicação de sua lista, imagino que este crescimento esteja sendo exponencial em 2017. 

Uma coisa é certa: o problema causado pela proliferação de revistas (se é possível de chamá-las assim) científicas predatórias representa um grave risco à credibilidade da ciência, o que é particularmente grave num contexto histórico onde as forças mais reacionárias da sociedade vem escolhendo os cientistas como alvos específicos da sua fúria anti tudo o que pareça ser socialmente progressivo. Um exemplo disso é o presidente dos EUA, Donald Trump, que vem desmantelando toda a infraestrutura científica que foi construída na principal economia do planeta, de modo a impedir que sejam formulados alertas sobre o grave cenário ambiental em que estamos envolvidos.

Alguns poderão dizer que os cientistas que escolhem publicar em revistas predatórias são igualmente culpados pelo problema.  O problema é que as pressões feitas sobre os pesquisadores para que publiquem ou desapareçam acabam contribuindo para que a régua da escolha de onde publicar esteja sendo usada de forma muito frouxa.  Além disso, como ainda inexistem mecanismos para substituir a Beall´s List, aumentou-se consideravelmente o fosso da ignorância sobre quais e onde estão as revistas predatórias, o que nos coloca numa situação objetiva de “faroeste caboclo” onde é cada um por si mesmo.

Um aspecto final que precisa ser ressaltado é que parece prevalecer dentro da comunidade científica internacional (e na brasileira isso se dá de forma marcante) um silêncio em relação às revistas predatórias que normalmente se esperaria se encontrar em favelas dominadas por narcotraficantes ou milicias.  E como estamos no meio de uma profunda crise econômica nota-se muito pouca disposição para sequer tocar nesse assunto. E isto é lamentável, já que a consequência imediata disso será um aumento ainda maior na proliferação das revistas predatórias.


[1https://www.timeshighereducation.com/news/journals-blacklist-creator-blames-university-website-closure;

[2https://www.timeshighereducation.com/news/beall-social-justice-warrior-librarians-betraying-academy.

[3] Para baixar o artigo do professor Beall na Biochemia Medica, basta clicar [Aqui!]

Nature publica duas cartas que lamentam o fim da Lista de Jeffrey Beall

beall´s

A respeitada revista Nature publicou na sua edição do último dia 27 de Abril duas cartas de lamento sobre o encerramento da lista de revistas predatórias (trash science) do professor Jeffrey Beall (ver abaixo).

Beall Naure

De forma geral as cartas assinadas pelos professores Vinicius Giglio e Osmar Luiz e a do professor Wadim Strielkowski apontam na mesma direção: a Beall´s List cumpria um papel inestimável na identificação de editores e revistas predatórias, e seu desaparecimento deixou muita gente perdida na selva formada pelas publicações “trash”.

Mas ambas as cartas vão além do lamento e cobram que editoras e instituições de pesquisa estabeleçam critérios que contribuam para a identificação de revistas científicas meritórias de publicação, bem como a necessidade de que sejam estabelecidos bancos de dados que permitam a rápida identificação destes reprodutores de lixo científico, de modo a que a comunidade científica os evite. 

Por fim, a carta assinada por Strielkowski aponta para a necessidade de que sejam estabelecidos comitês de ética cientifica para que estes estabeleçam diretrizes que possam facilitar a identificação das revistas e editoras predatórias.

Ainda que eu considere todas essas considerações mais do que necessárias, tendo a ficar cético quanto à disposição da comunidade cientifica mundial,  e a brasileira em particular, de atacar frontalmente o problema representado pelas revistas reprodutoras de “trash science“.  É que as revistas predatórias apenas suprem um nicho de mercado que está diretamente associado à aceitação explícita do dogma do “publicar ou perecer” que guia premiações individuais e alocação de verbas estatais e privadas para a pesquisa científica em todo o mundo. A verdade é que enquanto a cultura do produtivismo, que premia quantidade em vez de qualidade, não for revista como critério de alocação de verbas e estabelecimento de padrões salariais, o mais provável é que as revistas predatórias continuem a florescer como cogumelos em pastagens em dias de chuva.

Assim, até que se mudem os padrões de premiação, o mais provável é que cada vez mais tenhamos lixo acadêmico sendo apresentado como ciência genuína.  E de lá da sua trincheira na Universidade do Colorado, é bem provável que Jeffrey Beall ainda seja quem mais saiba os caminhos que deveriam ser trilhados para que se evite essa verdadeira hecatombe que ronda a ciência mundial. Resta saber se alguém vai procurá-lo para ouvir o que ele tem a dizer. A ver!

Revista da Fapesp mostra os rumos e riscos da difusão das revistas “trash science”: até personagem fictício pode ser membro de corpo editorial

“Dra. Fraude” se candidata para vaga de editora

Quarenta e oito publicações predatórias aceitaram uma personagem fictícia em seu corpo editorial

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© VERIDIANA SCARPELLI

 

Representantes de conselhos editoriais de 360 revistas científicas de acesso aberto receberam em 2015 um e-mail de uma certa Anna Olga Szust, jovem professora do Instituto de Filosofia da Universidade Adam Mickiewicz, na Polônia. Na mensagem, ela se dispunha a atuar como editora das publicações, embora oferecesse escassas credenciais acadêmicas: no currículo, havia apenas alguns trabalhos apresentados em conferências e um capítulo de livro, cujo título sugeria que jovens mulheres nascidas na primavera seriam mais atraentes fisicamente do que as outras. Em pouco tempo, vieram respostas. Anna foi aceita como editora por 48 periódicos e quatro chegaram a convidá-la para assumir o posto de editora-chefe “sem responsabilidades”, como escreveu um dos interlocutores. Houve também uma oferta para ela ajudar a criar uma nova revista.

A facilidade com que a inexperiente e desconhecida professora foi atendida já seria grave. O caso, porém, revela algo muito pior: Anna Olga Szust não existe. A inicial do nome do meio e o sobrenome, juntos, formam a palavra polonesa oszust, que pode ser traduzida como fraudador ou trapaceiro. A personagem foi criada por pesquisadores de universidades da Polônia, da Alemanha e do Reino Unido, que a apelidaram de “Dra. Fraude”, numa investigação sobre o modo de operar das chamadas revistas predatórias, como são conhecidas as publicações que divulgam papers sem submetê-los a uma genuína revisão por pares – basta pagar para ver o artigo publicado.

“Anna foi criada justamente para ser uma péssima opção como editora”, disse à revista The New Yorker Katarzyna Pisanski, professora da Escola de Psicologia da Universidade de Sussex, no Reino Unido, uma das organizadoras do teste, coordenado por Piotr Sorokowski, pesquisador da Universidade de Wroclaw, na Polônia. O grupo publicou um artigo em março na Nature narrando a experiência – sem, contudo, revelar o nome das revistas. A frequência com que pesquisadores recebem convites por e-mail para integrarem o corpo editorial até mesmo de periódicos fora de sua área de especialização motivou o grupo a investigar o que havia de errado na forma de recrutamento. Os e-mails assinados pela “Dra. Fraude” foram enviados a 360 periódicos escolhidos aleatoriamente, parte deles indexados no Journal of Citation Reports (JCR), ligado ao Web of Knowledge, e parte no Diretório de Revistas de Acesso Aberto (Doaj, em inglês). Também serviu como base uma lista de revistas de acesso aberto suspeitas compilada por pesquisadores da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos.

Nenhuma revista indexada no JCR respondeu ao e-mail. O estudo mostra que, dos periódicos que responderam à mensagem, poucos questionaram Anna O. Szust sobre sua experiência. E nenhum fez qualquer tentativa de entrar em contato com a instituição com a qual a falsa pesquisadora manteria vínculo. O currículo da“Dra. Fraude” foi cuidadosamente construído pelos autores do estudo. O e-mail continha seus interesses acadêmicos, dentre os quais história da ciência e ciências cognitivas, endereço eletrônico, uma fotografia e link para sua página hospedada no site da Universidade Adam Mickiewicz. Também foram criadas contas em redes sociais, como o Google+, o Twitter e o Academia.edu. Pelo menos uma dúzia de revistas condicionaram a indicação de Anna como editora a alguma forma de pagamento ou doação. Em alguns casos, foi exigido pagamento de uma taxa. Um periódico chegou a cobrar US$ 750, depois reduziu o valor para “apenas US$ 650”.

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© VERIDIANA SCARPELLI

 

Outros periódicos pediram à personagem que organizasse uma conferência e informaram que os trabalhos submetidos ao evento seriam publicados desde que os autores pagassem uma taxa. Um editor chegou a sugerir a partilha dos lucros: 60% para a revista e 40% para Anna. De acordo com a pesquisa, das oito revistas do Doaj que aceitaram Anna como editora, seis permanecem no diretório.

Publicar em uma revista de acesso aberto de prestígio não custa barato. Revistas da Public Library of Science (PLOS), por exemplo, podem cobrar de US$ 1.495 a US$ 2.900 para publicar um artigo. “Já as revistas predatórias cobram muito menos, entre US$ 100 e US$ 400”, disse em entrevista a The New York Times Jeffrey Beall, bibliotecário da Universidade do Colorado, criador de uma lista de publicações predatórias utilizadas no estudo. Na avaliação de Beall, a responsabilidade não deve recair apenas sobre os editores predatórios, pois a maioria dos pesquisadores que paga para publicar em revistas de baixo nível sabe exatamente o que está fazendo. “Acredito que há inúmeros pesquisadores que conseguiram emprego ou promoções valendo-se de artigos que publicam nesse tipo de revista, atribuindo essa produção científica como parte de suas credenciais acadêmicas”, criticou.

David Crotty, diretor da editora Oxford University Press, concorda que as revistas predatórias se tornaram mais presentes porque satisfazem uma necessidade de mercado. “Os editores predatórios de fato agem de maneira desonesta e enganosa, mas, ao mesmo tempo, atendem ao desejo de alguns autores de enganar os responsáveis pela avaliação de seu desempenho”, escreveu Crotty em artigo publicado em fevereiro no portal The Scholarly Kitchen. Enquanto os periódicos considerados legítimos, que se baseiam na revisão por pares, costumam demorar meses ou até mais de um ano para analisar e aceitar ou rejeitar um artigo para publicação, as revistas predatórias reduzem esse tempo a poucas semanas, ao adotarem um sistema de seleção frouxo ou inexistente.

Algumas instituições começam a propor ações para coibir o avanço das revistas predatórias. A Associação Mundial de Editores Médicos (Wame) divulgou no dia 18 de fevereiro um alerta no qual afirma que instituições científicas e centros de pesquisa precisam começar a monitorar pesquisadores que atuem como editores ou membros de conselhos editoriais de publicações suspeitas. Como medida punitiva, sugere às instituições o afastamento deles.

Um estudo recentemente publicado na revista BMC Medicine também destacou a necessidade de organizações científicas e de ensino serem mais rígidas com pesquisadores que corroboram as práticas das publicações predatórias. No estudo, os autores, entre eles Virginia Barbour, presidente do Committee on Publication Ethics (Cope), chama a atenção para os perigos da ação dessas revistas na área médica. “Quando não submetida ao escrutínio rigoroso da revisão por pares, a pesquisa clínica de baixa qualidade pode ter seus resultados incluídos, por exemplo, em um trabalho de revisão, poluindo o registro científico. Em biomedicina, isso pode resultar em danos aos pacientes”, conclui o estudo.

FONTE: http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/04/19/dra-fraude-se-candidata-para-vaga-de-editora/

Jeffrey Beall publica lista de 2017 e mostra o trash science em franco crescimento

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Graças ao trabalho voluntário do professor Jeffrey Beall, da Universidade do Colorado-Denver, que lança desde 2011 a sua lista de editoras e revistas predatórias, pesquisadores de todo o mundo vem gradativamente sendo municiados com as informações necessárias para que evitem contribuir para a expansão do que eu rotulei como “trash science”.  Esse trabalho é particularmente importante para países como o Brasil que vivem sobre a pressão crescente para que seus cientistas publiquem mais, mesmo que o ambiente de financiamento de suas pesquisas enfrentem cenários de completa incerteza como o que é atualmente oferecido pelo governo “de facto” de Michel Temer.

Pois bem, o professor Beall acaba de liberar a sua lista anual de editoras e revistas predatórias, e ainda acrescentou dados relativos a métricas fajutas e revistas legítimas que foram sequestradas por editoras predatórias (Aqui!).   Uma rápida olhada nas tabelas abaixo vai mostrar que a invasão do “trash science” está se tornando um problema crucial para a ciência mundial, pois o avanço em todos os indicadores escolhidos é impressionante.

Esse crescimento exponencial na produção de “trash science” se deve a uma combinação de variáveis que estão invariavelmente ligadas à s da produção científica em mais uma commodity. Mas obviamente sobram os aspectos relacionados à distribuição de verbas públicas e privadas para pesquisadores, bem como benefícios funcionais, seja no aumento de salários ou na obtenção da almejada estabilidade empregatícia dentro de universidades e instituições de pesquisa.

No caso brasileiro, todas as evidências apontam para a penetração irrestrita das editoras e e revistas predatórias dentro da nossa comunidade científica. Um fato que vem contribuindo para isso é a adoção de uma opção quantativa (no caso o número de publicações alcançadas por um determinado pesquisador) para se definir todo tipo de premiação, seja no plano individual ou dos programas de pós-graduação. 

E, pior, a única manifestação pública que ouvi nos últimos anos sobre a lista preparada pelo professor Beall foi um repúdio coletivo por parte de editores de revistas científicas brasileiras contra uma postagem que ele publicou acerca do alcance limitado da plataforma Scielo  (Aqui!).

Mas como nunca é tarde para se aprender, espero que os pesquisadores e instituições de pesquisa brasileiros comecem a prestar mais atenção no trabalho de Jeffrey Beall. É que se isso não acontecer, corremos o risco de virarmos uma espécie de mais um paraíso do “trash science” ao modo do que já ocorre em muitos países da periferia capitalista.   A verdade é que continuar fingindo que o problema não existe vai atrasar ainda mais a evolução do nosso sistema nacional de ciência.

Nunca é demais lembrar que os próximos anos serão marcados por uma forte contenção de verbas para a pesquisa científica no Brasil.  Isto nos obriga a cobrar critérios mais claros para o que vai ser distribuído. Do contrário, acabaremos vendo o grosso dos recursos indo para as mãos dos que não hesitam recorrer ao trash science para turbinar seus currículos.

Por ora, resta-me saudar o incansável trabalho de Jeffrey Beall. É que sem ele não teríamos a menor ideia do tamanho do problema ou de como evitar cair nas milhares de arapucas que vendem gato por lebre.

 

A expansão das revistas de”trash science”: por que devemos nos importar?

publication

Não sei se estou sendo alvo pessoal de uma campanha de marketing de diferentes “editoras” de revistas que disseminam “trash science”, mas minhas contas de correio eletrônico estão sendo especialmente bombardeadas nas últimas semanas com anúncios me convidando a publicar artigos em áreas que vão desde a pediatria até a engenharia de materiais (vejam abaixo três amostras destes convites)

A coisa é tão escancarada que nem é preciso visitar o blog do Prof. Jeffrey Beall (Aqui!) para verificar se editora e revista estão na sua lista de revistas predatórias.  E só esse fato explicita o fato de que o mercado de lixo científico está em processo de florescimento e não o contrário.

A pergunta que se sucede, por que o mundo do “trash science” para estar tão bem a despeito de esforços localizados para mostrar a verdadeira natureza dessa parte da indústria das publicações científicas? A primeira ideia que me ocorre é que seguindo as leis de mercado, oferta e demanda acabam se retroalimentando. Mas a coisa me parece ser mais complexa, pois se olharmos os custos envolvidos para que se publique nessas revistas caça-níqueis, há também que se introduzir análises sobre quais são os ganhos que os pesquisadores ou proto-pesquisadores acabam recebendo em troca pelos investimentos que fazem.

O mais crítico disso tudo é que ao se banalizar e incorporar como válidos artigos que não seriam publicados em revistas que sejam minimamente sérias no uso do processo de revisão por pares (ou peer-review), temos uma contaminação perigosa não apenas no que é tomado como sendo ciência, mas também nos processos de premiação e contratação. 

Outro aspecto que me preocupa com o caminho praticamente livre que essas revistas trash possuem é o processo anti-pedagógico que elas cumprem junto às novas gerações de pesquisadores. É que se tacitamente legitimar a publicação nesses veículos, e ainda por cima premiar quem faz isto, o que estamos dizendo a jovens pesquisadores é que o vale-tudo está oficializado na disseminação do conhecimento científico. Se isto já é um problema em países onde a comunidade científica já é robusta e bem consolidada, imaginemos o que isto causa nos países da periferia capitalista.

Finalmente, no caso brasileiro afora algumas tentativas de expor os malefícios do “trash science” (cito explicitamente os esforços do jornalista Maurício Tuffani (Aqui!)), o silêncio é quase total e as publicações de baixa qualidade em inglês canhestro abundam.  No caso brasileiro, o silêncio sepulcral do CNPq e da CAPES  sobre este problema, bem como a objetiva falta de ação para coibir  a premição do “trash science” são sinais de que temos um árduo desafio pela frente. Resta saber quem vai querer comprar esta briga, especialmente num tempo em que convivemos com um encurtamento brutal de verbas para a pesquisa.

Segunda geração de “revistas trash” amplia risco de vulgarização da ciência

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O professor da University of Colorado-Denver, Jeffrey Beall publicou em seu site há poucos dias a ocorrência de uma segunda onda de editores de revistas de “trash science” (Aqui!). Esses editores nada mais seriam do que indivíduos que tendo trabalhado nas primeiras editoras “trash” decidiram criar seus próprios veículos para angariar recursos com autores incautos ou não. 

Eis que na manhã deste sábado (05/03) as minhas caixas de correio eletrônico amanheceram repletas de convites de revistas científicas obscuras, mas que estranhamente conseguiram me achar.

E, como não sou o único que deve ter sido “premiado”,  isto me leva a pensar que se há oferta, há demanda. Em outras palavras, se o número de revistas está proliferando é porque a competição permite que isto ocorra. Mas ainda há que se considerar que a relação custo/benefício deve estar ao lado dos editores destas revistas predatórias, já que só é preciso enviar um arquivo e depois pagar para que um pseudo-artigo possa ser citado como tendo sido publicado.

No caso brasileiro onde a adaptação a este tipo de oferta vem se dando sem nenhum tipo de amarra mais consistente, é bem provável que quem se serviu da primeira geração de editores “trash”, agora parta para abraçar sem nenhum remorso essa segunda onda de editores predatórios.

O pior é que naqueles poucos casos onde há algum tipo de cobrança de transparência como foi o caso do evento noticiado pelo jornalista Maurício Tuffani no seu blog (Aqui!) envolvendo a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o que se vê é a procrastinação em oferecer as respostas devidas.

O problema é que ao não se ignorar e rechaçar (em vez de abraçar) as revistas que proliferam lixo científico, corremos o risco de que em algum tempo não possamos mais separar o que é ciência real e o que simplesmente lixo científico. No caso de países como o Brasil, os custos desta complacência com os editores “trash” compromete o avanço científico que conseguimos com tanta dificuldade

Maurício Tuffani disseca o crescimento exponencial do “trash science”. E eu pergunto: por que tanto silêncio em torno do problema?

monkeys

O jornalista Maurício Tuffani aborda novamente em seu blog hospedado na Folha de São Paulo a questão da produção de “trash science“, onde mostra que o número de revistas “trash” vem tendo um crescimento exponencial nos últimos anos. Essa produção de ciência “trash” é provavelmente um sinal perverso dos efeitos da transformação da ciência em mais uma “commodity”. 

Além disso, no caso brasileiro, a produção de “trash science” tem tido um papel ainda mais danoso, já que não apenas o sistema de ranqueamento dos programas de pós-graduação tem sido afetado pelo engordamento da produção científica por artigos publicados em revistas “predatórias”.  E de forma adicional, o trânsito livre que foi dado para que pesquisadores sejam premiados por engordar seus CVs com “trash science” resultou numa espécie  de “vale tudo” ,cujo resultado final tem sido o crescimento também exponencial de ruído científico.

Um aspecto que julgo especialmente importante na postagem que vai abaixo é o quase absoluto silêncio que reinava na comunidade científica brasileira acerca da contaminação causada pelas publicações “trash” no desenvolvimento da ciência brasileira. E também considero que as medidas recentes tomadas pela Capes para rebaixar ou até excluir publicações do chamado Qualis Capes são claramente insuficientes.

É que enquanto ficarmos no paliativo, os que mais se beneficiam com o engordamento de CVs por artigos produzidos via “trash science” vão continuar fingindo que continua tudo como dantes no quartel de Abrantes. Para isso, há que se ter a coragem de mexer nos mecanismos de concessão de premiações, seja no plano dos programas de pós-graduação, mas também no plano individual dos pesquisadores.

Eu apontaria que se toda a gritaria que ocorreu em relação à postagem do Prof. Jeffrey Beall se repetisse em relação ao núcleo duro da sua contribuição ao debate em relação aos problemas que cercam a disseminação de revistas predatórias, talvez não estivéssemos tendo que nos defrontar com os impactos do “trash science” em tantas áreas chaves da ciência brasileira. Mas, lamentavelmente, a gritaria parece ter sido apenas contra o mensageiro da má notícia que a maioria prefere ignorar.

Mas uma coisa positiva que está acontecendo é que mais pessoas estão começando a falar abertamente sobre os problemas causados pelo “trash science”, e da necessidade de combater as deformações que estão ocorrendo na produção científica brasileira por causa da permissividade com que essa questão foi tratada até recentemente. Pode não parecer pouco, mas já é muita coisa.

Abaixo segue a postagem do Maurício Tuffani que merece ser lida de forma cuidadosa por todos os que querem produzir ciência de qualidade no Brasil. Boa leitura!

 

Produção de periódicos predatórios aumentou 7 vezes em 4 anos

POR MAURÍCIO TUFFANI

Enquanto as autoridades das universidades, instituições de pesquisa e agências de fomento no Brasil evitam a todo custo tratar publicamente da praga que são as chamadas editoras acadêmicas predatórias e as revistas científicas por elas publicadas na base do “pagou, publicou”, no exterior o problema se torna cada vez mais escancarado.

Desta vez não foi mais uma novidade do biblioteconomista Jeffrey Beall, dos EUA, com sua lista dos  “publishers predatórios”. Um estudo publicado hoje pela revista “BMC Medicine” revela que cresceu de cerca de 53 mil em 2010 para 420 mil em 2014 o número de artigos dos periódicos despejados na literatura científica por essas editoras que exploram sem rigor acadêmico o modelo de publicação em acesso aberto na internet, baseado na cobrança de taxas de autores.

PREVISÕES

Esse crescimento corresponde a 692% em apenas quatro anos, ou seja, a cerca de 7 vezes. A partir da lista de Beall, os pesquisadores da área de ciência da informação Cenyu Shen e Bo-Christer Björk, da Escola Hanken de Economia, na Finlândia, identificaram cerca de 8 mil periódicos ativos responsáveis por esse aumento. Segundo os autores, cerca de 75% dessas revistas estão na África e Ásia.

Shen e Björk, no entanto, afirmaram que os problemas provocados ​​por essas revistas são muito limitados e regionais. A acrescentaram que acreditam que o número de artigos publicados por elas “vai parar de crescer em um futuro próximo”.

CONTESTAÇÃO

Em entrevista ao blog “Retraction Watch”, dos EUA, Beall discordou dos dois autores, afirmando que os dados por eles apresentados não dão suporte a essa previsão. E acrescentou:

“Além disso, é enganosa sua tentativa de minimizar os problemas causados ​​pelos publishers predatórios como ‘regionais’. A Índia tem 1,2 bilhões de pessoas, e a China tem 1,3 bilhão. Há dezenas de milhões de pesquisadores na região.”

Beall foi alvo no Brasil de moções de repúdio por parte de lideranças na área de publicações acadêmicas por ter publicado em julho em seu blog o post “O SciELO é uma favela de publicações?, afirmando que essa plataforma on-line brasileira de periódicos mantida por meio de recursos públicos não consegue dar visibilidade aos trabalhos científicos.

NO BRASIL

Critiquei esse texto de Beall, não só por equívocos em suas afirmações, mas também por ele ter dado razões de sobra às acusações contra ele de preconceito ideológico contra o modelo do acesso aberto e de ele ter uma visão de mundo capitalista na qual só se justifica o modelo de publicação acadêmica baseado no mercado da cobrança pelo acesso aos conteúdos dos periódicos (“Um alívio para os periódicos predatórios”, 6.ago).

O efeito desse problema em nosso país já teve amostras suficientes, desde o impacto na produção acadêmica (“Sobe para 235 a lista de predatórios da pós-graduação brasileira”, ) ao comprometimento de conferências científicas ( “Eventos científicos ‘caça-níqueis” preocupam cientistas brasileiros”, 3.mar, e “Promotoria questiona Unicamp por evento com editora ‘predatória’”, 15.ago).

Felizmente, já existe uma pequena reação contra esse quadro (“Capes rebaixa revistas científicas de má qualidade”, 23.set). Mas ainda é pouco. Por mais que tenham razão algumas das suas críticas a Beall, torna-se cada vez mais imoral e indecente a atitude de indiferença de muitas autoridades e lideranças acadêmicas brasileiras com o problema dos periódicos predatórios.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/10/01/producao-de-periodicos-predatorios-aumentou-7-vezes-em-4-anos/