Por Mário Magalhães*

Verbete do dicionário “Houaiss”
O mundo gira, a lusitana roda, e as vivandeiras continuam na ativa. Pelo menos no Brasil.
Eu as supunhas extintas, como contei no ano passado, em post reproduzido abaixo.
Agora, elas chegaram ao jornalismo. Ou melhor, regressaram, décadas mais tarde.
Como no século XX, ninguém diz que quer intervenção militar para rasgar a Constituição.
As vivandeiras falam em proteger a ordem constitucional. Mas, cá entre nós, pode chamar de golpismo.
A essa altura do século 21, as vivandeiras são grotescas.
Podem ser também perigosas.
*
Tudo é história: vivandeiras
(Publicado no blog em 14 de outubro de 2015)
Um bom método para avaliar se o Brasil melhorou ou piorou, e levantar um pouco o astral, é catar palavras que caíram em desuso.
Muitos jovens nunca ouviram falar em “anjinhos”. Não que eles não mais existam. Mas é cada vez mais difícil encontrá-los, graças à decadência da mortalidade infantil.
Anjinhos são bebês ou crianças mortos. Quase sempre por doenças associadas à desnutrição, ou à fome, para falar em bom português. Eram comuns nos cenários nordestinos.
Quantos brasileiros sem cabelos brancos sabem o que é “empastelamento”?
Houve uma época, no trepidante século XX, em que as autoridades empastelavam jornais. Isto é, fechavam na marra publicações que não acolhiam as ideias do poder.
E “vivandeira”, alguém ainda liga o nome à pessoa?
Na origem, como ensina o verbete do “Houaiss” reproduzido no alto, era a “mulher que acompanha uma tropa, vendendo ou levando mantimentos e bebidas”.
Mais tarde, ganhou outra conotação, a de quem incentiva a desinteligência entre militares. E atiça a sua intervenção ilegal e ilegítima na ordem constitucional, derrubando e promovendo governos.
As vivandeiras grassaram no país da década de 1920 à de 1980.
Eu as supunha extintas, como a varíola.
Lembrei-me delas por causa do assanhamento de um pessoal que anda provocando as Forças Armadas a fazerem o que, salve, salve, elas têm reiterado que não farão. Quer dizer, não pretendem estuprar a democracia.
Para frustração das, como é mesmo?… vivandeiras.
*Mário Magalhães nasceu no Rio de Janeiro na primeira semana de abril de 1964. Formou-se em Jornalismo na Escola de Comunicação da UFRJ. Trabalhou nos jornais “Tribuna da Imprensa”, “O Globo”, “O Estado de S. Paulo” e “Folha de S. Paulo”, diário do qual foi repórter especial, colunista e ombudsman. Recebeu mais de 20 prêmios e menções honrosas no Brasil e no exterior, entre eles: Every Human Has Rights Media Awards, Lorenzo Natali Prize, Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos e Anistia, Grande Prêmio Esso de Jornalismo, Prêmio Folha de Reportagem, Prêmio Direitos Humanos-RS, Prêmio Dom Hélder Câmara de Imprensa (da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), Prêmio Anamatra (Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho), Medalha Chico Mendes de Direitos Humanos, Prêmio AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros) e Prêmio da Associação Interamericana de Imprensa. Lançou em 2012 o livro “Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo”, pela Companhia das Letras. O livro recebeu o Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) como melhor biografia do ano.
FONTE: http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2016/03/07/grotesco-e-perigoso-em-pleno-2016-vivandeiras-querem-intervencao-militar/