Vista do espaço, as águas do Atlântico Sul aparecem escurecidas em manchas que se estendem por 800 quilômetros
Vanessa Barbosa, de
NASA Earth Observatory/ Jesse Allen
Proliferação de algas: as manchas escuras ocupam 800 quilômetros da costa carioca
São Paulo – Olhando rápido, essa supermancha escura na foto acima até poderia ser confundida com uma extensa ilha submarina. Mas está longe disso. Essa é vista espacial das algas que se proliferam aos montes nas águas das praias cariocas, levando desconforto aos banhistas.
No dia 19 de janeiro, a Nasa captou imagens dos micro-organismos que têm aparecido com frequência na costa do Rio de Janeiro, com ajuda do Modis (Moderate Resolution Imaging Spectroradiometer), instrumento no satélite Aqua.
Vistas do espaço, as águas do Atlântico Sul aparecem escurecidas em manchas que se estendem por 800 quilômetros. Na imagem, os fios inchados de branco sobre o mar são nuvens.
Biólogos consultados pela Agência americana afirmam que os micro-organismos são conhecidos como Myrionecta rubra, uma alga que não é tóxica para os humanos, nem para outros organismos marinhos.
Segundo a Nasa, a alga tem uma cor avermelhada, mas na foto espacial ela aparece escurecida devido à forma como o oceano absorve a luz solar.
“A Myrionecta rubra flutua até dois metros abaixo da superfície da água, por isso os fótons de luz vermelha são absorvidos ou espalhados”, explica a Agência em seu site.
A edição do Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro traz hoje a exoneração de três secretários estaduais: duas esperadas e uma designação surpreendente. Os dois petistas exonerados são Zaqueu Teixeira e Carlos Minc. Essas duas exonerações eram mais do que esperadas. Mas a designação de Regis Fitchner, secretário da Casa Civil, um dos homens com maior poder no (des) governo de Sérgio Cabral para ocupar as duas secretarias pode significar que os arranjos para ocupar o vácuo da saída dos petistas ainda estão sendo encaminhados
Mas isto só sinaliza a força de Fitchner, um dos membros da turma do Guardanapo. O interessante é que o próprio Fitchner anda anunciando que quer seguir o caminho de Sérgio Côrtes. Deve estar esperando o melhor momento para poder seguir o caminho da roça que, no seu caso, é o exterior.
Participe da campanha Basta de Remoções Forçadas! Últimos dias!
Assine, compartilhe a petição e nos ajude a chegar a 5.000 assinaturas ! Em fevereiro, elas ser ão entregues ao prefeito Eduardo Paes, junto com outras centenas que foram coletadas nas ruas.
Desde 2009, segundo a Prefeitura, mais de 100 mil pessoas removidas na cidade do Rio de Janeiro. Entre em ação para mudar essa realidade! Moradia é um direito!
O jornal Folha da Manhã traz uma matéria sobre a entrega de casas construídas com verbas estaduais e federais pelo vice (des) governador Luiz Fernando, o Pezão (Aqui!). O que mais me chamou a atenção nessa notícia não foi a entrega das 138 casas que foram construídas por “módicos” R$ 6.045.571,62. O que realmente me chamou a atenção foi o tamanho das “casas”: 31 m2 para pessoas sem necessidades especiais e 41 m2 para pessoas portadoras!
Com certeza nenhum dos políticos que estarão entregando essas dádivas arquitetônicas deve viver numa sala de estar que seja menor que a maior das unidades! E o pior é que esses pseudo-conjuntos habitacionais na maioria das vezes sequer possuem áreas para expansão, o que dado o tamanho médio das famílias brasileiras deixa pouco mais de 6 m2 por pessoa. Esse tipo de adensamento forçado dos pobres é um acinte ao direito democrático à cidade. Além disso, como já tive a oportunidade de orientar uma dissertação de mestrado justamente sobre a construção de conjuntos habitacionais para os pobres, sei que além de não resolverem a questão da moradia de qualidade, esses conjuntos contribuem para precarizar a renda e aumentar o grau de segregação social que sues moradores já sofriam nos seus locais de origem.
Em suma: essas micro-casas só servem mesmo para criar uma falsa sensação de melhoria da moradia. E bastaria enviar os políticos para morar lá que logo veríamos isso mais claramente. E quanto ao preço das unidades? Essa já é uma questão para outra postagem!
Para quem acha que já atingimos as raias da loucura com a gastança para a Copa da FIFA, a matéria abaixo da Agência Reuters que o pior ainda está por vir nos Jogos Olímpicos de 2016. É que de um orçamento inicial estimado de R$ 4,2 bilhões, as estimativas já chegam a R$ 7 bilhões, podendo chegar a R$ 10 bilhões. Esse gasto todo não trará grandes ganhos para os pobres da cidade do Rio de Janeiro, mas deverá redesenhar completamente a distribuição das classes sociais no espaço carioca. E ai não precisa ser da Fundação Cacique Cobra Coral para saber que vão chover remoções para cima dos pobres.
E pensar que a Suécia recusou se candidatar para sediar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 para não ter que gastar dinheiro público que seria melhor gasto com a construção de moradias populares (Aqui!). Como diz Ancelmo Góis: deve ser terrível ter que viver na Suécia!
Orçamento da Rio 2016 sobe para cerca de R$7 bi, diz fonte
A previsão inicial do orçamento operacional, que era gastar 4,2 bilhões de reais, pode aumentar ainda mais
Rodrigo Viga Gaier, da
Divulgação/COB
Bandeira Rio 2016: o custo total da Olimpíada será apresentado na próxima semana
Rio de Janeiro – O orçamento operacional da Olimpíada de 2016 no Rio de Janeiro subiu mais de 2,5 bilhões de reais ante a estimativa inicial do comitê organizador local dos Jogos, para cerca de 7 bilhões de reais, e pode subir ainda mais, disse à Reuters uma fonte próxima ao assunto.
Quando apresentou o orçamento na proposta de candidatura aos Jogos, em 2009, o comitê organizador estimava gastar 4,2 bilhões de reais no evento. Agora, com a atualização dos valores, a variação do câmbio e a inclusão de outras responsabilidades e modalidades no programa olímpico, o orçamento subiu para 7 bilhões de reais.
Além disso, a previsão inicial de aporte de 1,4 bilhão de reais das três esferas de governo no COL foi elevada para 1,9 bilhão de reais.
“É muito difícil fazer um prognóstico para a obra de um banheiro de uma casa. Imagina de uma Olimpíada que envolve muito mais gente, órgãos e outros fatores”, disse a fonte, sob condição de anonimato. “É um salto grande mas que era necessário”, disse, acrescentando que o orçamento ainda “corre o risco de passar por uma nova revisão”.
“Acho um risco danado fechar esse número em 7 bilhões. Acho que deveríamos jogar mais para cima, para uns 10 bilhões (de reais), para termos folga e chance de até sobrar dinheiro no final”, disse.
O orçamento operacional dos Jogos Olímpicos de 2016 será divulgado oficialmente nesta quinta-feira. O valor é referente apenas às obrigações do COL, e não inclui as obras de infraestrutura e construção de arenas esportivas.
O custo total da Olimpíada será apresentado na próxima semana, quando será divulgada a matriz de responsabilidade dos Jogos Olímpicos. Na proposta de candidatura do Rio, esse gasto foi estimado em 23 bilhões de reais.
A triste cena que assistimos na manhã desta quarta-feira (22), com milhares de pessoas caminhando pelos trilhos da rede ferroviária urbana do Rio, é o retrato do ocaso de um governo. Reflexo da incapacidade, ou a falta de vontade mesmo, de dar a essas pessoas um transporte com as mínimas condições de conforto, segurança e eficiência. São milhões de trabalhadores maltratados diariamente na via férrea a caminho do trabalho.
O Jornal do Brasil há tempos vem alertando para o problema dos trens urbanos do Rio e em setembro, na matéria “Diário sobre trilhos: 15 anos de problemas e falhas da SuperVia”, listava todos esses problemas. A Agetransp – agência que regula e fiscaliza os transportes públicos no Rio – nesses quinze anos de falta de investimentos, acidentes e transtornos constantes na via férrea, nunca tomou atitude alguma com relação à concessionária e pelo que se viu nos últimos dias de 2013, vai continuar do mesmo jeito.
No final de dezembro, o governador Sérgio Cabral nomeou para a Agetransp o ex-diretor do Metro, Cesar Ferraz Mastrangelo, além do ex-chefe de gabinete da Casa Civil, Arthur Vieira Bastos, os ex-deputados Aparecida Gama e Carlos Correia, e a ex-chefe de gabinete do presidente da Alerj, Lucineide Pereira Cabral Marchi. Com esse time, fica fácil prever os rumos da agência.
Os problemas que os trabalhadores que dependem dos trens urbanos enfrentam constantemente não se restringem apenas às falhas do transporte. O atraso para chegar no trabalho é outro transtorno que ninguém pode resolver. Como explicar ao patrão tantos atrasos por conta do trem? Quem vai arcar com o prejuízo do ponto cortado? Perguntas que certamente ficarão sem respostas.
Os flagrantes dos problemas nos transportes públicos no Rio são diários, para desespero da população carioca que infelizmente não tem para quem reclamar. A apatia e inépcia da Agetransp se estende também ao Metro que não se integra totalmente com outros meios de transporte, não tem investimentos para ampliação da rede e por várias vezes os equipamentos de acesso estão parados, como escadas rolantes e elevadores que deveriam servir a cadeirantes. Esse é o retrato dos transportes públicos do Rio e também a cara de um governo que está no fim.
Polícia tenta remover moradores de suas casas na favela do Metrô-Mangueira. (foto: Francisco Chaves)
As imagens da violência contra os moradores do Metrô-Mangueira que marcaram a semana infelizmente não são novidade na forma de agir da Prefeitura do Rio de Janeiro em processos de remoção. Desde 2010, o poder público municipal tenta tirar a comunidade com diferentes argumentos: estacionamento para a Copa, passarela de acesso e, atualmente, o projeto seria a construção de um pólo automotivo. O fato é que uma favela a 500 metros do Maracanã, palco da final da Copa do Mundo de 2014, não parece combinar com a imagem que o Rio quer passar ao exterior.
Cartaz colado no muro do Metrô-Mangueira. Após prometer pessoalmente que famílias não ficariam desassistidas, o prefeito Eduardo Paes sumiu.
Negociações individuais, indenizações irrisórias, tortura psicológica e covardia
Em processos de remoção de favelas, é praxe da Prefeitura do Rio manter negociações individuais com os moradores. Ou seja, não se negocia com uma associação ou comissão, mas com cada família. Quando os moradores se organizam para ir juntos às reuniões, elas acabam sendo desmarcadas pelos agentes municipais. É a maneira encontrada para minar a comunidade e evitar que haja resistência organizada e coletiva. Assim que algum morador aceita sair de sua casa, a Prefeitura costuma derrubá-la deixando os escombros para trás, abalando estruturalmente as casas restantes e emocionalmente os que não cederam; criando uma situação de caos.
A Prefeitura costuma também dizer aos que resistem que quanto mais esperarem menor vai ser a indenização, que eles vão ser reassentados num bairro ainda mais distante, ou que simplesmente vão acabar sem nada, já que seriam invasores e o fundo para reparação teria um limite determinado. É a tortura psicológica relatada em diversas comunidades e amplamente documentada, em casos como Metrô-Mangueira, Estradinha, Largo do Tanque, Providência, Vila Harmonia, Vila Recreio II, Vila Autódromo, apenas para citar alguns. As indenizações costumam ser baixíssimas, já que o município paga apenas as benfeitorias (paredes, telhado, janelas), não reconhecendo a posse da terra mesmo quando ocupada há mais de cinco anos, como prevê a lei.
“Quando a gente menos esperava, no dia 23/12, chegaram as máquinas e começaram a derrubar as coisas. Foi o presente de Natal que a Prefeitura deu pra comunidade, começaram a quebrar tudo no final do ano sem que a gente esperasse”. Laércio Chagas, ex-morador da Vila Recreio II.
Uma outra prática da Prefeitura do Rio é atuar em datas festivas. As famílias do Largo do Tanque foram removidas no Carnaval de 2013, a remoção do Metrô-Mangueira está acontecendo em período de férias e as casas da Vila Recreio II foram destruídas no Natal de 2010. Em reunião com os moradores do Recreio, a Prefeitura chegou a prometer que os deixaria passar as festas de fim de ano em suas casas, mas no dia 23 de dezembro as máquinas chegaram e começaram a derrubar tudo. Foi o presente de Natal que a Prefeitura deu para as famílias da comunidade: terminarem o ano sem ter onde morar.
O caso do Metrô-Mangueira no entorno do Maracanã
Em agosto de 2010, agentes municipais começaram a marcar as habitações sem aviso prévio, fazer negociações individuais e derrubar as casas. As primeiras 107 famílias, das cerca de 700 da comunidade, foram reassentadas em Cosmos, a 50 quilômetros de distância dali. As outras exigiram outro tratamento. Pela resistência dos moradores e a proximidade do Maracanã, o caso ganhou repercussão mundial e em 2011 estava no principal jornal da Inglaterra, o The Guardian. As famílias acabaram conquistando o direito de ser reassentadas em um local próximo, nos empreendimentos Mangueira I e II, e no Bairro Carioca, em Triagem.
Durante esse tempo, os moradores que ficaram no Metrô-Mangueira conviveram com lixo, ratos e insetos que se proliferavam nos escombros deixados pelos tratores. Como as negociações passaram a ser mais lentas, a Prefeitura não conseguia demolir as casas imediatamente e o local ficou abandonado. Em 2012, as famílias tiveram que suportar até placas da campanha de reeleição do prefeito Eduardo Paes colocadas sobre os escombros. A prática de manter negociações individuais fez com que as casas fossem reocupadas por famílias sem-teto à medida que os antigos moradores eram remanejados.
Moradia tratada como caso de polícia
Após as manifestações de junho de 2013, o prefeito Eduardo Paes fez uma caravana nas comunidades do Rio de Janeiro para tentar mudar a sua imagem, desgastada com os atos. O prefeito foi ao Metrô-Mangueira e prometeu que aqueles moradores que ocuparam as casas vazias não ficariam desassistidos, receberiam aluguel social de R$ 400 e seriam cadastrados em programas sociais. O mínimo que a Prefeitura de uma cidade como o Rio de Janeiro pode fazer com quem precisa de assistência social. A reunião deixou os moradores mais tranquilos em relação ao seu futuro.
“Foi desumano o que eles fizeram. A moça acabou de sair de dentro de casa e a máquina veio e derrubou. Nosso dinheiro é lixo? Porque a gente pode ser pobre, mas a gente contribui pras coisas. A gente abre um crédito, paga um monte de imposto, não é?”. Daiane Heizer, moradora do Metrô-Mangueira.
Mas na terça-feira, 7 de janeiro de 2014, as famílias foram surpreendidas com a ação de tratores, que chegaram a derrubar algumas casas, e da polícia. A revolta da população ganhou repercussão mundial e a Prefeitura covardemente se escondeu. Na quarta-feira, advogados voluntários faziam o cadastro e pediam cópias de documentos para moradores. Isso mesmo. Voluntários cadastravam moradores. A Prefeitura da cidade da Copa do Mundo e das Olimpíadas sequer enviou um assistente social ao local. Como de costume na favela, o único representante do poder público era a polícia. Os voluntários esperavam no mesmo dia fazer uma reunião com o secretário de habitação, Pierre Batista, mas ele não os recebeu. A reunião acabou acontecendo no dia seguinte.
Na quinta-feira (9), a Prefeitura do Rio pela primeira vez se manifestou através de uma nota. Citou os locais de reassentamento dos antigos moradores do Metrô-Mangueira e sorrateiramente esqueceu de Cosmos, para onde ela gostaria de ter enviado as 700 famílias em 2010 mas não conseguiu, fruto da resistência daquela comunidade. O comunicado diz que após uma reunião de representantes da Secretaria Municipal de Habitação e da Subprefeitura com a Defensoria Pública, OAB e moradores foi decidido que as famílias receberão o aluguel social até a entrega de imóveis do programa Minha Casa Minha Vida. O mínimo. Exatamente o que foi prometido por Paes, mas que mais uma vez só se efetivou após a mobilização dos moradores. Se tivessem oferecido o mínimo desde o início, nada disso teria acontecido.
Onde será o espetáculo da Copa do Mundo?
O caso do Metrô-Mangueira demonstra como a Prefeitura do Rio é incompetente até para o que mais sabe fazer: remover famílias. Cem mil pessoas estão passando por processo de remoção no Rio de Janeiro. Destas, pelo menos 65 mil já perderam suas casas desde 2009. A maioria foi reassentada em bairros periféricos, como a Prefeitura gostaria de ter feito no Metrô-Mangueira. Se tudo isso aconteceu em 2014, a 500 metros do palco da final da Copa do Mundo do Brasil, dá para imaginar o que o brasileiro tem sofrido nas 12 cidades-sede da Copa para prepará-las para o espetáculo que está por vir. Mas está cada vez mais claro que o verdadeiro espetáculo vai acontecer do lado de fora dos estádios.
Renato Cosentino trabalha na organização de direitos humanos Justiça Global e acompanha as remoções no Rio de Janeiro desde 2011 através do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas.
Hiding under Batman’s cape in a favela in Rio de Janeiro, where many people are refusing to leave their homes so the area can be renovated ahead of the World Cup soccer tournament, which starts in June.
O ano mal começou e os enfrentamentos na cidade do Rio de Janeiro retomaram com força. De um lado os (des) governos de Sérgio Cabral e Eduardo Pae e, de outro as comunidades pobres que tiveram a má sorte de ficar no caminho de algum empreendimento voltado para os mega-eventos que ocorrerão em 2014 (Copa do Mundo) e 2016 (Jogos Olímpicos).
Mas o que está mudando a face desse enfrentamento é a crescente disposição dos pobres de se defenderem da ação de grilagem promovida pelo Estado. O foco mais recente dessa resistência é a Favela do Metrô, na Mangueira. Ali, enfrentando a dura repressão policial e todo o aparato criado para varrer as comunidades para regiões distantes da periferia.
Abaixo duas imagens que mostram bem a natureza do conflito.
Aqui a denúncia das remoções é clara e direta, e o importante é o chamado à resistência.
Aqui em um imagem incrível capturada por Douglas Shineidr, o secretário municipal de Habitação da cidade do Rio de Janeiro, Pierre Batista, recebe uma ovada no momento em que parte da Favela do Metrô estava sendo destruída.
Esse crescimento da resistência precisa ser apoiado de forma objetiva e decidida por sindicatos, movimentos sociais e organizações da sociedade civil. É que só apoiados, os moradores poderão ter uma chance mínima de traduzir sua indignação em direitos frente a um Estado que se encontra hoje totalmente controlado por interesses privados, alguns de cunho inconfessável.
Segundo dados da Fiocruz, hipertensão, AVC, depressão e até suicídios foram registrados
Cláudia Freitas
As remoções realizadas em comunidades como o Complexo do Alemão, Manguinhos, na Zona Norte, e Rocinha, na Zona Sul, principalmente em função das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo do Estado do Rio, estão causando graves consequências à saúde dos seus moradores. Além disso, os principais objetivos anunciados pelo governo estadual para o PAC também não foram alcançados, nos aspectos da moradia, saneamento básico e mobilidade urbana. As conclusões parciais constam em um relatório de pesquisa desenvolvida pelo Laboratório Territorial de Manguinhos (LTM) da Escola Nacional de Saúde Pública, em parceria com a Fiocruz e o Ministério das Cidades/CNPq, que será entregue até o final de 2014, com recomendações de melhorias nas comunidades estudadas.
O projeto intitulado “Políticas Públicas, Moradia e Saneamento: uma análise participativa do PAC Manguinhos-RJ na perspectiva da Promoção da Saúde e da Justiça Ambiental” é coordenado pelos pesquisadores Marcelo Firpo de Souza Porto e Marize Bastos da Cunha, que há um ano estão avaliando as obras do PAC realizadas nas comunidades, com a participação de entidades sociais e moradores destas áreas. O objetivo do estudo é desenvolver uma matriz diagnóstica dos problemas ocasionados pelo programa do governo no conjunto de favelas e identificar os elementos que os desencadeiam. Os resultados preliminares apontam para um quadro grave e comum nas três comunidades, relacionado ao processo de desapropriação dos moradores que residem nas localidades por onde as obras do PAC vão passar.
“O impacto que essas remoções causam na saúde dos moradores é enorme. Tivemos uma noção desse fato quando entrevistamos moradores e agente de saúde no Complexo do Alemão e Manguinhos. Nos relataram diagnósticos de pessoas que sofreram AVC [Acidente Vascular Cerebral], depressão, hipertensão e até suicídio após passarem pelo drama das desapropriações. Não temos acesso aos dados oficiais, mas com estes relatos já podemos traçar uma relação direta das obras com a saúde das pessoas”, esclareceu Marize Cunha.
Caixa d ‘água construída pelo PAC não é usada. Complexo do Alemão, outubro de 2013
A pesquisadora da Fiocruz descreveu ainda o cenário caótico que encontrou na comunidade da Manguinhos após uma série de remoções iniciadas desde o ano de 2009. “Parece cena de filme de guerra, com casas destruídas, áreas alagadas, esqueletos de imóveis. É desolador. Sem contar as condições precárias daquelas famílias que resistem às intimações do governo e continuam nas suas casas sem o fornecimento dos serviços básicos, cortados pelas empresas públicas, ou seja, sobrevivem sem água e luz”, relatou Marize. Um dos moradores de Manguinhos contou para os pesquisadores que a sua residência foi condenada pelas autoridades após um desabamento e a indenização oferecida não correspondia ao valor de mercado do imóvel e muito menos dava para comprar outra propriedade. “Esta pessoa estava desesperada, estressada. A qualidade de vida cai muito nestes casos”, disse Marize.
Avaliando as desapropriações no conjunto do Alemão, Marize citou outro aspecto que leva ao adoecimento: o rompimento dos laços familiares. “Muitas famílias são separadas pelo processo de desocupação e são levadas pelo governo para locais bem distantes, tendo a sua rotina completamente modificada e com graves transtornos nos relacionamentos sociais. Isso também é causa de sofrimento e doenças”, disse ela.
Rachadura em moradia de Manguinhos. Março de 2013
Apesar do conteúdo do relatório ainda estar em fase de produção, os estudos indicam que o maior problema vivenciado pela comunidade de Manguinhos diz respeito à moradia, enquanto no Alemão a deficiência está no sistema de saneamento básico e, na Rocinha, na mobilidade urbana. Segundo Marize, a questão do saneamento no Alemão é histórica e tem a ver com as políticas públicas ineficientes. A questão do acúmulo de lixo se apresenta em toda a cidade, mas na favela esse ponto é tratado de forma diferenciada, pois precisa de um critério para o seu despejo, exigindo do morador que ele se desloque até um determinado ponto. Já a água representa outro problema, pois a sua ausência nas torneiras virou um processo natural e corriqueiro, ao passo que o produto é essencial e deve ser fornecido diariamente e com qualidade, o que não acontece nos locais pesquisados.
“Durante o PAC várias caixas d´água foram construídas no Alemão, mas estão fora de uso por problemas técnicos”, disse Marize. Segundo ela, os investimentos públicos para manter regular o abastecimento de água são altos, mas fundamentais do ponto de vista social e da saúde . “O que observamos é que quando o governo abre licitação para esse serviço as grandes empresas entram na concorrência, mas oferecendo valores que não competem com a obra. E nessa linha de execução, são realizadas as obras mais caras, como a construção das caixas d´água e depois as empresas solicitam os aditivos para continuidade do investimento, o que nem sempre é concedido e o projeto fica abandonado. Muitas vezes, a obra é registrada como pronta pelos dados do governo e a população nem tem noção desse processo. Mais tarde, fica complicado conseguir recursos públicos para a finalização destas obras”, esclareceu a pesquisadora.
Na Rocinha, os pesquisadores detectaram o problema da mobilidade urbana, agravado com os protestos dos moradores contra a construção do teleférico. “Pelo projeto do PAC e experiência comprovada no Alemão, é fácil perceber que o teleférico não acompanha a lógica do território, com seus becos, ruas principais, acessos e pontos mais altos. Ou seja, não vai ajudar no deslocamento da população. Além disso, o sistema que movimenta as gôndolas não permite elas pararem nas estações para o acesso das pessoas com deficiência ou portando bolsas de compras. Essa é outra reclamação dos moradores. É um investimento alto, que causa impacto no orçamento e que poderia ser utilizado com as obras mais necessárias ou sistema de transporte alternativo, que é mais apropriado para a região”, relatou a pesquisadora.
Nas três comunidades muitos moradores tiveram os seus imóveis interditados em função de rachaduras provenientes das trepidações das máquinas utilizadas nas obras do PAC. Na comunidade Matinha, no Alemão, as casas ao redor da caixa d´água apresentaram rachaduras em diversos cômodos e estão em processo de desapropriação. Os moradores que procuraram a prefeitura para fazer o cadastro e receber a indenização, estão sendo realocados num conjunto habitacional no bairro de Santa Cruz, na Zona Oeste. Para Marize, os desabamentos no Complexo do Alemão provocados pelas fortes chuvas que caíram na cidade nos últimos dias é consequência de fatores desencadeados com má administração das políticas públicas na comunidade, como a falta de planejamento, a ausência de diálogo com a população e precarização das moradias.
Destroços das remoções em Manguinhos
Marlize relatou um fato inusitado que aconteceu há poucos dias, durante a realização do projeto popular Circulando, promovido pelo Instituto Raízes em Movimento, no Alemão. Os destroços de uma escada que pertencia a uma casa demolida há quase dois anos foi grafitada pelo artista plástico Mário Brands, que deu ao esqueleto uma alma cultural e foi elogiado pelos moradores pela iniciativa. “Dias depois, agentes da prefeitura estiveram no local e destruíram a nova obra de arte. O impressionante é que aquela escada estava há muito tempo ali como marca de uma violência social, de uma ação cruel e algo que afetava a comunidade. No momento em que ela foi potencializada pela iniciativa cultural, foi arrancada. Um absurdo”, disse Marize.
Estudos são desenvolvidos através de oficinas interativas
A metodologia aplicada na pesquisa visa a realização de oficinas nas comunidades do Alemão, Manguinhos e Rocinha. Já foram realizados dois encontros em cada território desde o início dos trabalhos pelos pesquisados, como a participação de 15 moradores de cada região, selecionados a partir de três aspectos: sexo, local de moradia e idade. Na primeira reunião, realizada no mês de julho, os pesquisadores da Fiocruz apresentaram a linha de estudo e identificaram os eixos dos problemas relatados pelos moradores. Já na segunda oficina, em outubro, os pesquisadores retomaram as questões debatidas fornecendo dados estatísticos, material de vídeo e teórico sobre cada assunto abordado. “A intenção é implementar os temas selecionados pela própria comunidade. É ouvi-los e depois desenvolver a pesquisa com a interação deles”, explicou Marlze Cunha.
Destruição da escada grafitada por artista plástico no Complexo do Alemão
Até o final da pesquisa outras oficinas serão colocadas em prática. No Complexo do Alemão os encontros são produzidos com a colaboração da líder comunitária da favela Matinha, Renata Trajano, e da ONG Instituto Raízes em Movimento, criada para discutir os temas sociais e prestar apoio humanístico e logístico aos moradores do conjunto. “Através dos debates sobre moradia, promoção da saúde, saneamento e mobilidade os participantes vão tomando consciência de como estes fatores interferem na vida pessoal e profissional de cada morador e são, os mesmo tempo, elementos de transformação social. Existe uma convergência entre os temas e nós procuramos demonstrar como esse processo acontece no cotidiano. Quando um local fica tomado pelo lixo, por exemplo, se cair um temporal como aconteceu nos últimos dias, os detritos vão parar nas vias de acesso, fechar as passagens nas portas das casas e interferir diretamente na questão da mobilidade. O governo também precisa fazer o dever de casa e cumprir as promessas. As obras de alargamento da principal via de acesso que corta o Complexo do Alemão, a Avenida Joaquim de Queiroz, não forma realizadas e elas estavam dentre as revindicações propostas pela comunidade às autoridades. Assim, os reparos superficiais feitos na avenida servem apenas como uma maquiagem para encobrir problemas maiores nas suas ruas transversais”, exemplificou a pesquisadora.
Os resultados das oficinas serviram para a elaboração das recomendações ao governo, que constarão na finalização do estudo. O conteúdo vai mesclar conhecimentos científicos sobre os temas abordados, fundamentados em opiniões de especialistas, e os relatos dos moradores das três comunidades. “São visões diferenciadas e igualmente importantes sobre os mesmos assuntos. Esta visão compartilhada de conhecimentos chamamos de Comunidade Ampliada de Pesquisa (CAP), que produz um terceiro conhecimento, que nada mais é do que o produto final do estudo”, explicou Marize. Apesar do prazo de conclusão da pesquisa estar previsto para final de 2014, muitos dados já avaliados pela equipe da Fiocruz estão circulando pelas comunidades cariocas. O acesso dos pesquisadores aos moradores e regiões nos complexos da Rocinha e do Alemão acontece pelas parcerias deles com a TV Tagarela e Instituto Raízes, respectivamente.