Tsulama da Samarco: uma catástrofe que continua acontecendo, apesar da propaganda em contrário

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Após mais de 3 anos desde que o reservatório de Fundão da Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) rompeu e destruiu o Distrito de Bento Rodrigues (Mariana/MG), o que se vê é a pior das procrastinações para se combater efetivamente os danos sociais, econômicos e ambientais que a busca desmedida do lucro causou ao ecossistema do Rio Doce e de vários de seus afluentes.

Mas pior do que procrastinar as soluções, o que tem se visto é a lenta e efetiva ocultação dos , processos persistentes de contaminação que continuarão ainda por vária décadas, já que boa parte dos sedimentos sequer ultrapassou a primeira barreira de contenção que é a Usina Hidrelétrica Risoleta Neves (também conhecida como Candonga) que fica localizada no limite entre os municípios de Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado (MG).

Felizmente, em tempos de redes sociais e rápida circulação de informações e imagens, é possível encontrar evidências de que a catástrofe causada pelo Tsulama da Samarco (Vale+ BHP Billiton) continua longe de terminar, ao contrário do que nos querem fazer crer.  O vídeo abaixo é um exemplo perfeito disso, pois mostra a situação vigente na UHE Risoleta Neves no último domingo (02/12) quando sob fortes chuvas, uma quantidade impressionante de rejeitos continuou sua viagem até a região da foz do Rio Doce.

Assim, que ninguém se deixe enganar pela propaganda enganosa de que o Rio Doce começou a sua recuperação, pois, de fato, o que está em curso é a piora paulatina e crônica de sua degradação. E com a culpa evidente clara da Samarco (Vale+ BHP Billiton). 

 

 

Doce Rio: uma canção para não deixar o TsuLama ser esquecido

bella

A cantora capixaba Bella Nogueira [1] usou a sua grande capacidade musical na canção “Doce Rio” para que não esqueçamos da trágico incidente ambiental causado pela Mineradora Samarco [Vale + BHP Billiton] em Bento Rodrigues (MG).

Em meio a todas as procrastinações que prolongam os danos causados no Rio Doce, a única coisa que não podemos fazer é “esquecer” o que foi feito a partir da simples procura do lucro em detrimento da sustentabilidade social e ambiental dos ecossistemas dos quais milhões de pessoas dependem.

Por isso, a canção de Bella Nogueira merece ser divulgada por todos os que querem que as mineradoras Vale e BHP e Billiton seja responsabilizadas pelos graves danos que causaram ao Rio Doce.


[1] https://www.facebook.com/pg/OficialBellaNogueira/about/

Estudo revela que TsuLama pode ser “bomba relógio de metais pesados” no Rio Doce

Lama da Samarco pode ser “bomba-relógio” de metais pesados no Rio Doce

Rejeitos provenientes do desastre em Mariana (MG) continuam chegando ao estuário do Rio Doce

 

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Resíduos do reservatório da Samarco em Minas Gerais continuam chegando ao estuário do Rio Doce e o material está associado a metais pesados que correm o risco de serem liberados no ambiente – Foto: Divulgação / Esalq

Uma “bomba-relógio” com metais pesados continua ameaçando o estuário do Rio Doce, mesmo após dois anos e meio do vazamento de 50 milhões de metros cúbicos (m3) de rejeitos de mineração do reservatório da Samarco, localizado no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (Minas Gerais). Essa conclusão é resultado de um estudo desenvolvido em parceria por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), da Universidade de Santiago de Compostela (Espanha) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

“A ideia era de que a maior parte daquele material liberado após o acidente ficasse nas proximidades da barragem e do município de Mariana. No entanto, a lama chegou a Regência, uma vila localizada no litoral do Espírito Santo, região importante ecologicamente, com intensa atividade de pesca e turismo, onde o Rio Doce deságua”, lembra Tiago Osório Ferreira, professor do Departamento de Ciência do Solo da Esalq.

Segundo o estudo, o rejeito continua chegando ao estuário e o material está associado a metais pesados, que correm o risco de serem liberados no ambiente. “Em função das condições locais de solo, esses metais podem, a médio ou longo prazo, ser biodisponibilizados”, complementa o docente.

Parte desse estudo foi publicada pelo pesquisador Hermano Queiroz, doutorando do programa de pós-graduação em Solos e Nutrição de Plantas, da Esalq. Queiroz identifica alguns dos metais encontrados. “Identificamos cobre, manganês, zinco, cromo, cobalto, níquel, chumbo, todos eles associados ao rejeito”, ressalta.

Novo desastre

A disponibilização de metais pesados em um sistema estuarino pode resultar em novo desastre. “Alguns desses metais são tóxicos e podem se acumular em plantas e peixes, acarretando efeitos potencialmente nocivos sobre a fauna e a flora associadas a esse ecossistema”, destaca o professor Ferreira.

Águas do Rio Doce em Galileia (Minas Gerais), com a lama da barragem da Samarco que se rompeu no município de Mariana em 5 de novembro de 2015 – Foto: Eli Kazuyuki Hayasaka via Wikimedia Commons/CC BY-SA 2.0

Os pesquisadores alertam ser perigoso considerar apenas os patamares atuais de contaminação. “Olhando para os níveis de contaminação de hoje, apenas o níquel e o cromo, entre os metais analisados, estão em níveis superiores ao permitido pela legislação brasileira. No entanto, essa visão estática não acompanha a dinâmica da movimentação do material que segue em direção ao estuário periodicamente; por exemplo, cada vez que chove, mais rejeito é depositado”, constata Queiroz.

Além disso, considerar os índices totais de contaminação mascara o fato do rejeito rico em ferro ser uma fração instável, podendo ser solubilizado e facilitar a liberação dos metais pesados. “Os oxihidróxidos de ferro, nas condições de solo estuarino, são suscetíveis a dissolução, o que poderá aumentar a biodisponibilidade e o risco de contaminação por metais”, observa o pesquisador.

O estudo faz parte do projeto Rede de Solos e Bentos na Foz do Rio Doce (Rede SoBEs RIO DOCE), financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Espírito Santo (Fapes), e pode ser lido, na íntegra, em https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0048969718315547. Sob solicitação, os resultados foram apresentados ao governo do Estado do Espírito Santo.

bomba relógio

Com informações da Assessoria de Comunicação da Esalq,  Mais informações: e-mails hermanomelo@usp.br, com Hermano Queiroz; e toferreira@usp.br, com o professor Tiago Osório Ferreira

FONTE: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-ambientais/lama-da-samarco-pode-ser-bomba-relogio-de-metais-pesados-no-rio-doce/

Lançamento do livro “​DESASTRE NA BACIA DO RIO DOCE: Desafios para a universidade e para instituições estatais”

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Lançamento do livro “​DESASTRE NA BACIA DO RIO DOCE: Desafios para a universidade e para instituições estatais” organizado por Cristiana Losekann (UFES) e Claudia Mayorga ​(UFMG). Uma iniciativa do Organon – Núcleo de estudo, pesquisa e extensão em mobilizações sociais (UFES) e do Observatório Interinstitucional Mariana Rio Doce (UFMG-UFES-UFOP).

livro cristina

Acompanhar, compreender e buscar reparação para o desastre causado pelo crime socioambiental da mineradora Samarco, no Rio Doce, em Mariana/MG, foram tarefas que diversos atores se propuseram a empreender, buscando aspectos do desastre levando-se em conta a perspectiva das comunidades atingidas ao longo de dois anos de desastre. O objetivo central desta obra é apresentar ao público geral e aos próprios atingidos um balanço acerca das reivindicações e processos institucionais em curso, além de provocar reflexões e autorreflexões sobre a atuação da universidade, da ciência e de instituições de justiça.

As autoras e os autores da obra têm em comum uma atuação enraizada nas comunidades atingidas durante todos esses anos de desastre, o que permitiu consolidar as diferentes experiências de pesquisas como uma reflexão do ocorrido a partir de questões ligadas aos problemas de gênero, do trabalho e dos efeitos das próprias atividades científicas no cotidiano das comunidades afetadas. O livro conta também com os relatos e análises de duas instituições de Estado ativas nesse caso, a Defensoria Pública do Espírito Santo (DPES) e o Ministério Público do Estado de Minas Gerais (MPMG), ambas apresentando aspectos centrais de suas atuações nesses dois anos desde o rompimento da barragem de Fundão, em Minas Gerais.

O livro tem distribuição gratuita e pode ser acessado [Aqui!]

Novo vazamento no mineroduto Minas-Rio volta a atingir Santo Antonio do Grama

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O jornal “O Tempo” publicou uma matéria informando que houve um novo vazamento no mineroduto “Minas-Rio” que atingiu novamente os mananciais hídricos que já tinham sido atingidos anteriormente no município de Santo Antonio do Grama no dia 12 de março [1]. 

Neste novo vazamento, a mineradora Anglo American reconheceu que o problema ocorreu por 45 minutos e lançou no ambiente 453 m3 de minério de ferro.  Esta quantidade serviu para novamente tornar inviável a captação de água para consumo humano.  Há que se lembrar que parte desse material poderá atingir a já combalida bacia hidrográfica do Rio Doce que já foi duramente atingida pelo TsuLama da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton).

Por último, é preocupante que em pouco mais de duas semanas, o mineroduto Minas-Rio já tenha rompido duas vezes e no mesmo ponto.  Certamente há algo a mais a ser apurado na forma com que a mineradora Anglo American vem operando o maior mineroduto do mundo.  A ver!

Novo vazamento de minério é identificado em Santo Antônio do Grama

Em 12 de março, a mesma falha ocorreu, afetando o córrego. À época, foram despejados 450m³ de minério durante 45 minutos

Da Redação

santo antonio

Pela segunda vez neste mês, houve um rompimento em uma tubulação da mineradora Anglo American, em Santo Antônio do Grama, na Zona da Mata mineira, causando vazamento de polpa de minério de ferro no Ribeirão Santo Antônio.

Segundo a mineradora, a falha ocorreu por volta das 18h55 desta quinta-feira (29) e durou aproximadamente cinco minutos para ser estancada. Ainda de acordo com a Anglo American, não houve feridos e operações da empresa estão paralisadas.

Em 12 de março, a mesma falha ocorreu, afetando o córrego. À época, foram despejados 450m³ de minério durante 45 minutos, deixando a água marrom e obrigando que a captação e o abastecimento fossem suspensos. As atividades foram retomadas na última terça-feira.

Após o ocorrido, a Justiça da Comarca de Rio Casca determinou o bloqueio de R$ 10 milhões da mineradora. Uma audiência de conciliação está marcada para o dia 20 de abril.

Confira o comunicado da empresa

“A Anglo American informa que, por volta das 18h55 de hoje, foi identificado outro vazamento no mineroduto, próximo à estação de Bombas 2, em Santo Antônio do Grama. O vazamento de polpa de minério de ferro, material não perigoso, durou aproximadamente cinco minutos e já foi estancado. Não houve feridos. As operações da empresa estão paralisadas.

As autoridades e órgãos competentes já foram avisados. A empresa está mobilizando todos os esforços para ação imediata de resposta ao incidente e, tão logo tenha mais informações, divulgará à sociedade”. 

FONTE: https://wordpress.com/post/blogdopedlowski.com/55153


[1] https://blogdopedlowski.com/2018/03/12/mineroduto-minas-rio-rompe-e-contamina-corpos-hidricos-em-santo-antonio-do-grama/

Como o pior desastre ambiental do Brasil ainda está afetando milhares de pessoas

O que pode ser pior que uma catástrofe socioambiental? Outra subsequente. Enquanto o poder econômico dominar o jogo político fatalmente isto voltará acontecer.

Photo: @portalconfluencias

Por Gustavo Lermen Silva**

Em 5 de novembro de 2015 rompeu a barragem do Fundão, localizada no subdistrito de Bento Rodrigues, a 35 km do centro do município brasileiro de Mariana, Minas Gerais. Mais de 60 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro vazaram do complexo de mineração operado pela Samarco, percorreram 55 km do rio Gualaxo do Norte e outros 22 km do rio Carmo até o grande Rio Doce. No total, a lama viajou 663 km até encontrar o mar, foi caracterizado por especialistas como o maior desastre ambiental do país, alterou profundamente os ecossistemas ao longo da bacia e afetou mais de 23 mil famílias.

Dois anos depois do rompimento da barragem que devastou a maior bacia hidrográfica da região sudeste do Brasil, os mecanismos do sistema foram alterados para pior com uma flexibilização do Código de Mineração por parte do Governo Federal, com o argumento que atrairá investimentos.

O que aconteceu não foi um acidente e sim um crime cometido pelas mineradoras com a cumplicidade do Poder público. O Ecocídio que deveria servir de alerta para evitar outros, apenas expôs a face mais perversa e a lógica desumana aplicada por companhias como Vale/Samarco e BHP Biliton. Grande parte da mídia também faz parte do esquema e está a serviço dessas empresas inescrupulosas. De acordo com o Relatório de Segurança de Barragens, publicado pela Agência Nacional de Águas em 2016, estima-se que 85% das barragens do Brasil não são corretamente fiscalizadas e não possuem um responsável legal. Há mais de 600 minerações empresariais em Minas Gerais, mais de 60 denúncias de barragens em alto risco de desabamento, a barragem do Fundão que ruiu em 2015 já havia sido denunciada dez anos antes e mesmo com tantas irregularidades praticadas e risco iminente de ruir, a empresa conseguiu renovar suas licenças. Nenhuma medida de segurança foi tomada, simplesmente por ser muito mais barato pagar alguma eventual multa do que investir em prevenção de acidentes. Ironicamente, os valores das multas são estipulados por eles próprios, ainda assim recorrem aos Tribunais para não pagá-las e muitas vezes conseguem, mesmo se a Vale tivesse pago todas as multas ao longo da sua história seria insuficiente. Pagar uma multa é muito diferente do que reparar danos; o impacto social causado em um desastre dessa magnitude tem valor incalculável. O descaso com a vida alheia é tanto, que sequer havia uma sirene para alertar a população em caso de rompimento da barragem, o número de mortes só não foi maior porque alguns heróis pegaram em suas motos e correram para avisar que o tsunami de lama tóxica estava a caminho. A empresa afirmou que os resíduos das barragens não são tóxicos e não oferecem risco à saúde, chegaram até a propor que lama fosse utilizada na confecção de tijolos para construção civil.

O esquema começa com megacorporações financiando campanhas eleitorais, elegem os representantes dos seus interesses, infiltram-se em todas as esferas políticas, encaminham e aprovam seus projetos megalómanos disfarçados de altruísticos, sempre tudo em nome do progresso do país e claro, das suas contas bancárias. A população não é consultada nas tomadas de decisões e assiste impotente a doença e a morte espalhar-se. Metais pesados fluem pelo falecido Rio Doce até a sua foz e continuarão afetando nocivamente todos os ambientes atingidos por muitas décadas, talvez séculos. Em breve estarão provocando doenças degenerativas e a indústria farmacêutica já deve estar contabilizando seus futuros clientes; com a água contaminada não se pode irrigar as plantações e acontece um êxodo populacional. O envenenamento do ‘Watu’ que significa rio na língua Krenak transformou completamente a vida das 126 famílias indígenas que viviam da agricultura, caça e pesca. Os índios Krenak perderam a sua identidade, são acometidos por alcoolismo, depressão e agora compram comida em supermercados. Estão impedidos de realizar os seus rituais e tem que se afastar do rio sagrado até para buscar as sementes de obá, necessárias para confeccionar artesanatos. Leonir Boka é o chefe da aldeia Atorã, seu nome significa “peixe”, tem um jeito tímido, mas para defender seu povo fala com desenvoltura e vontade, “Não tem casa, não tem dinheiro ou qualquer coisa que pague o que fizeram com o rio, o que fizeram com nossa gente. Se fosse para escolher qualquer coisa nesse mundo, a gente queria o rio de volta”, diz.

Recentemente, a relação entre o surto de febre amarela e este desastre entrou na narrativa da mídia tradicional, o biólogo e ambientalista Augusto Ruschi predisse há 27 meses atrás que isto iria acontecer. De acordo com dados do Ministério da Saúde, entre janeiro de 2017 e janeiro de 2018 registrou-se tantos casos quanto nos últimos 30 anos. A sopa química acabou com a vida do rio, que sem peixes e sapos para comer as larvas dos mosquitos, criou um ambiente favorável ao surgimento do surto que está se espalhando para outras regiões do país. Macacos estão sendo dizimados pela febre e por pessoas desinformadas que os matam por pensar serem transmissores do vírus, não são. O Governo age com ineficácia na informação dos procedimentos a serem tomados e a população enfrenta grande filas para a vacinação; um fato ocorrido recentemente no Rio de Janeiro chamou a atenção, traficantes de drogas sequestraram duas técnicas de enfermagem de um posto municipal de saúde para aplicar a vacina contra a febre amarela em sua quadrilha. “É um facínora, mas deu um banho de organização no serviço público!”, comentou um ex-ministro do meio ambiente no twitter. A lama carcinogênica depositada no leito e nas margens do rio continua a chegar incessantemente ao oceano, como mostra a monitoração por satélite. Os peixes do mar, cetáceos e corais estão contaminados da Bahia a São Paulo e a área atingida aumenta a cada dia no Atlântico Sul.

É chocante constatar que as vítimas atingidas diretamente não são indenizadas com justiça e sim constantemente enganadas por quem deveria protegê-las. A Fundação Renova opera com mesma lógica de quem a criou, é permeada em todos os escalões por antigos funcionários das empresas criminosas e foi criada pelas empresas acusadas especialmente para reparar os danos causados às pessoas e ao ambiente, mas parece ser na prática mais uma artimanha das empresas envolvidas para posar de benfeitoras. A Renova foi um dos primeiros artifícios para preservar a imagem da Samarco/Vale, retirando-as dos holofotes.

Até agora todos os 22 acusados não foram condenados, a Justiça Federal suspendeu a ação criminal que tornava os acusados em réus por homicídio no desastre de Mariana, 19 pessoas morreram. Como era de se esperar, os acusados são amparados por um exército de advogados que usam uma infinidade de recursos para protelar as decisões da justiça, recorrem em todas as instâncias para ganhar tempo e conseguem a prescrição de muitos processos. Preparam novos projetos monstruosos, como uma barragem 4 vezes maior que a colapsada em 2015, sempre com a condescendência de parte da comunidade e autoridades locais, o pressuposto é que será benéfico para a região a nível econômico.

Procuradores da República e Promotores de Justiça se aliaram e proibiram uma outra Fundação chamada Getúlio Vargas (FGV) de medir os danos causados pela tragédia de 2015. O motivo para essa proibição foi um conflito de interesses no contrato. A Companhia Vale que é controladora da Samarco, ocupa uma vaga na instituição FGV. O cinismo é tão grande que a empresa causadora do dano, queria fazer a avaliação econômica do mesmo.

No livro, e seqüencialmente documentário, The Corporation: The Pathological Pursuit of Profit and Power, os autores canadenses Mark Achabar; Jenifer Abbott e Joel Bakan (2003) apresentam um histórico do crescimento das grandes corporações mundiais, em que são abordadas questões sociais e ambientais como a utilização de produtos perigosos e nocivos à biosfera, à saúde humana e a dos animais, destruição do seu habitat natural, lixo tóxico, poluição, produtos químicos sintéticos, fazendas industrializadas, experiências, aplicação de hormônios artificiais para aumentar a capacidade de produção do animal, devastação florestal, emissão de CO2, lixo nuclear, questões econômicas e políticas, assim como a responsabilidade das corporações no mundo contemporâneo e seu compromisso com o desenvolvimento e a formação da sociedade. Nele, foram ouvidos mais de 40 depoimentos de altos executivos de multinacionais, operadores de bolsa, professores universitários, historiadores, cineastas, espiões de empresas, etc. A reflexão traz a seguinte questão: se as corporações fossem pessoas, que tipo de pessoas elas seriam?

Elas não têm uma alma, um ser moral, nem um corpo para ser contido ou preso. Não têm compromisso com a vida humana, nem com a dos animais ou com o meio ambiente. Só se comprometem com o lucro. Mentem e patrocinam mentiras para construir a imagem de benfeitoras, de bem intencionadas, e escondem a exploração, a manipulação política, a destruição moral, instrucional, ambiental, entre tantas outras destruições. Não existe o conceito de lealdade. Não há preocupação com as consequências, desde que não afetem os lucros.

Assim como as pessoas, as empresas podem apresentar sintomas de psicopatia, como: descaso pelos sentimentos alheios; incapacidade de manter relações duradouras; repetidas mentiras e trapaças para obter lucro; incapacidade de seguir normas sociais de conduta dentro da lei.

Robert Hare, atual membro do conselho do Centro de Pesquisas sobre Serial Killers do FBI desenvolveu – The Psycopathy Checklist – Revised (PCL –R) – que pode ajudar a detectar comportamentos de risco em indivíduos: eis alguns semelhantes assumidos por corporações criminosas; sentimentos insuflados de importância pessoal; manipulação e chantagem; atração pelo poder; ausência de remorso ou culpa; emoções superficiais; ausência de empatia com os outros; estilo de vida parasita; controles comportamentais precários; impulsividade; irresponsabilidade; incapacidade de se responsabilizar por suas ações. Hare (2003).

Corporações regidas por esse tipo de raciocínio deveriam ser boicotadas e punidas exemplarmente, mas não são e mais uma vez fica evidente para os transgressores que o crime ainda compensa.

Felizmente a mudança de paradigmas preconizada por Fritjof Capra em 1982 no livro The Turning Point está acontecendo e a vigente visão de mundo mecanicista vem sendo questionada e revista, abrindo cada vez mais espaço a um novo paradigma denominado holístico ou ecológico. Apesar de não apresentar soluções, o livro mostra claramente a importância de mudarmos de atitude, ou seja, abandonar as nossas concepções e as nossas narrativas de separação, dominação e competição e substituí-las pelas de interligação, co-evolução e cooperação.

Há uma nova geração de diretores e investidores iluminada pelo chamado ‘pensamento sistêmico’ citado por Capra e com a percepção que as propriedades essenciais de um organismo encontram-se no todo e na sua organização, que tudo decorre das relações entre suas partes e dentro de um contexto mais amplo do mundo que integra as sociedades humanas e as suas atividades com o ecossistema planetário do qual dependemos.

** Artigo publicado originalmente em inglês no site The Inertia [Aqui!]

Leitor corrige blog e informa sobre o drama do abandono em Rio Doce (MG)

Tsulama mapa

No dia 24 de Abril publiquei uma postagem uma visita que realizei ao município de Barra Longa (MG) onde pude visitar áreas atingidas pelo TsuLama da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) [Aqui!]. Naquele postagem, cometi um deslize imperdoável para um geógrafo que foi antecipar o início do Rio Doce que efetivamente só se inicia 15 km abaixo no município homônimo. Na verdade, as imagens que mostrei na postagem são do Rio do Carmo que é o que corta o território de Barra Longa.

Pois bem, um leitor do blog gentilmente me cobrou a correção do nome do rio de Barra Longa, e ainda me ofereceu informações importantes sobre os impactos causados no município de Rio Doce pela ocorrência do TsuLama.

Como as informações prestadas ao blog são extremamente importantes, estou compartilhando a mesma. Além disso, como já respondi ao leitor na seção de “comentários”, estou planejando uma nova visita aos rios do Carmo e Doce tão logo o (des) governo Pezão pague os salários que me deve.

Por ora, segue a narrativa que me foi enviada pelo leitor do blog, a quem agradeço pela correção do meu erro, e por fornecer uma descrição tão detalhada do que está acontecendo em Rio Doce.

Mas enquanto a visita a Rio Doce não acontece, compartilho um vídeo que mostra como ficou o Rio Doce logo no seu início após o TsuLama.

Corrija o nome do rio e visite a cidade de Rio Doce para ver de perto o nosso drama

Prezado professor,

Sou mineiro do município de Rio Doce, vizinho à Barra Longa, (cidade onde visitou) e gostaria de fazer algumas considerações.  O rio que passa por Barra Longa não é o rio Doce e sim o rio Do Carmo, portanto as fotografias postadas por você, retratam apenas uma pequena parte do maior crime ambiental já cometido nesse país.

A Mineradora Samarco, não dá ponto sem nó, pois arrumaram a praça da cidade de Barra Longa, as ruas próximas, realizaram pista de caminhada , parquinho,  varrendo a sujeira para onde os olhos dos visitantes (como você) e dos desavisados não alcançam.

Tudo maquiagem …. grosseira, para inglês ver!

Não nos deixemos mais ser ludibriados por uma corja de empresários e políticos que arruínam nosso país …. temos que dar a volta por cima.

Entendo que para divulgar uma matéria dessa e para que passasse maior credibilidade a seus leitores, deveria ter pesquisado um pouco mais, pois teria sido muito útil para nos ajudar a divulgar o que tem sido feito em nossa região, certamente a mais afetada.
Deveria ter descido um pouco mais e apreciado o encontro dos rios Piranga e Do Carmo, já no município de Rio Doce/MG, formando o rio Doce, um visual muito bonito, apesar de toda essa sacanagem com nosso meio ambiente, nossas pequenas cidades, e nosso povo já tão sofrido e esquecido.

Sugiro numa próxima oportunidade, que chegue até Rio Doce (MG) esse sim o município mais brutalmente afetado, e que até o presente momento sofre com os maiores impactos gerados decorrentes desse crime ambiental,  tais como: a poluição;  a inoperância da UH Candonga; o total assoreamento do lago com mais de 10 milhões de toneladas de m³ de rejeitos de minério; o trânsito intenso de máquinas e empresas terceirizadas numa cidade de apensas 2611 habitantes (previsão de Censo 2016 IBGE); a grande circulação de operários, a sujeira, e, mais recentemente, a compra de 03 fazedas produtivas de Rio Doce, para carreamento dos rejeitos que assoream o lago, e que pelo visto que aqui ficará pa ra a posteridade, sem qualquer projeto compensatório para Rio Doce.

Todo esse lixo extraído no município de Mariana, a eles gerou empregos, renda, melhor estrutura da cidade de Mariana, cabendo agora a Rio Doce aceitar os rejeitos sem qualquer compensação até o momento, onde os mais fortes sobrepõem-se aos mais fracos.

Enfim, gostaria de sugerir uma matéria mais condizente com a realidade, pois seria mais uma forma de ajudar a divulgar o que passam centenas de pessoas que aguardam ansiosamente o retorno de suas rotinas a que estavam habituadas, mas subentendendo que isso será impossível de acontecer,  se pelo menos adotem medidas mitigadoras para compensar essas cidadezinhas que tinham como um de seus atrativos, o nosso tão importante rio Doce.

Obrigado!