E agora está reconhecido que a ressurreição do Rio Doce não se dará em cinco meses. Alguém se surpreende?

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A matéria abaixo publicada pelo jornal Estado de Minas traz uma fotografia mais sóbria das expectativas de recuperação da bacia do Rio Doce após a invasão do TsuLama da Mineradora Samarco (Vale +BHP Billiton). Interessante notar que um dos especialistas ouvidos foi o professor Paulo César Rosman da COPPETEC/UFRJ que causou um certo frisson ao anunciar em uma entrevista à BBC a ressurreição do Rio Doce para um período de cinco meses (Aqui!). Na matéria mostrada abaixo, o Prof. Rosman é bem mais conservador em seus prognósticos, o que, convenhamos, já deveria ter sido na primeira entrevista.

O ponto que a matéria levanta e eu concordo integralmente é que os desafios colocados pelo TsuLama da Mineradora Samarco só serão solucionáveis em curto, médio e longo prazos. E mais importante, que dar resposta à crise social causada pelo TsuLama será apenas o primeiro passo de uma longa caminhada.

Mas atenção, essa caminhada só será possível com a permanente observação de membros socialmente comprometidos da comunidade científica e da sociedade civil, especialmente dos municípios atingidos pelo TsuLama. É que se depender do Estado brasileiro e das mineradoras (Samarco, Vale e BHP Billiton), toda essa lama será imediatamente empurrada para debaixo do tapete.

Reparação dos estragos em Mariana e no Rio Doce pode durar uma década

Balanço da catástrofe aponta desafios de curto, médio e longo prazos e indica que curar a ferida humanitária é só a primeira meta de uma longa missão

Tulio Santos/EM/D.A Press

Uma longa missão de recuperação, de alto custo, com ações que vão exigir sucessivos anos de comprometimento, público e privado. Essa foi uma das poucas certezas que ficaram depois das 16h20 de 5 de novembro, quando a Barragem do Fundão estourou, em Mariana, na Região Central de Minas. De lá até a foz do Rio Doce, no Espírito Santo, a enxurrada de 55 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério fez vítimas, causou prejuízos em escala ainda não estimada e deixou um imenso rastro de devastação. Passado um mês da tragédia, autoridades trabalham para cobrar da Samarco, proprietária da barragem, e de suas controladoras, as gigantes Vale e a anglo-australiana BHP, reparação dos estragos. Com a catástrofe ambiental ainda se expandindo, encontrar uma solução humanitária para as mais de 700 pessoas atingidas – muitas delas ainda vivendo em hotéis – é a medida mais urgente. A médio prazo, o desafio é evitar ainda mais devastação no Rio Doce. Mas chegar perto da recuperação de toda a bacia hidrográfica é tarefa bilionária, para pelo menos uma década.

Especialistas explicam ainda que a recuperação vai exigir diferentes medidas, a depender da localização do estrago. “Obviamente, nas áreas de montante (mais próximas da barragem), mais impactadas, onde os rejeitos passaram com volume e velocidade maiores, a recuperação será mais lenta. Até porque os resíduos extrapolaram a calha dos rios Gualaxo do Norte e do Carmo, e ainda há muito sedimento nas margens”, explica o professor Paulo Cesar Rosman, do Departamento de Recursos Hídricos e Meio Ambiente da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que tem estudos sobre a Bacia do Rio Doce. Nos trechos seguintes, no médio Rio Doce, onde há três usinas hidrelétricas que contiveram parte dos sedimentos, o prazo para restauração deve ser um pouco menor. Na foz, é possível que, passado o período chuvoso, em abril, a água retome os índices normais de turbidez e oxigenação, com a sedimentação da lama e de metais pesados, como chumbo, ferro, alumínio e manganês, afirma o professor. Esses elementos ainda estão acima dos limites toleráveis, segundo relatório do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), divulgado no último dia 30.

O início do desafio ambiental, segundo a presidente do Ibama, Marilene Ramos, é conter o resíduo de rejeitos que ficou na área da barragem estourada, além de reduzir o volume que sobrecarrega o reservatório de Santarém. A estrutura, também da Samarco, foi afetada pela lama no dia do rompimento. “O objetivo é evitar novos carreamentos, principalmente porque estamos em pleno período de chuva”, afirma. Segundo ela, a empresa se comprometeu a construir diques drenantes, em 90 dias, para essa finalidade. Será preciso ainda remover e destinar adequadamente o rejeito que extravasou a calha dos cursos d’água em cerca de 70 quilômetros de áreas de preservação permanente, para regeneração da flora e melhoria da turbidez da água. Além disso, “é preciso manter o trabalho de proteção da ictiofauna e também das tartarugas marinhas e mamíferos aquáticos na área costeira”, lista Marilene.

O custo de R$ 20 bilhões para a recuperação da Bacia do Rio Doce foi estimado em ação civil pública ajuizada pela Advocacia-Geral da União (AGU), em conjunto com os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Segundo a presidente do Ibama, a restauração dos processos ecológicos, como crescimento de vegetação até a idade adulta e repovoamento da fauna, pode exigir 10 anos, “embora não seja possível prever quando o meio ambiente vai resgatar sua condição de normalidade.”

FONTE: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2015/12/06/interna_gerais,714685/reparacao-dos-estragos-em-mariana-e-no-rio-doce-pode-durar-uma-decada.shtml

Incidente de Mineradora Samarco: Relatório preliminar do IBAMA mostra catástrofe socioambiental

Relatorio IBAMA

Tive acesso hoje e disponibilizo logo abaixo, um relatório preliminar produzido pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA) que aborda os principais impactos pelo TsuLama liberado pela ruptura da barragem do Fundão da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton).

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Ainda que as evidências fossem iniciais, os responsáveis pelo relatório não titubeiam em apontar que o incidente da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) “trouxe consequências ambientais e sociais graves e onerosas, em escala regional, devido a um desastre que atingiu 663,2 km de corpo d´água nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, além de impactos ao estuário do rio Doce e à sua região costeira.

Por fim, o relatório traz ainda uma série de sugestões sobre as ações de mitigação que deveriam ser adotadas para iniciar o processo de restauração ambiental do Rio Doce.

Lamentavelmente, pouco ou nada já se fez para dar consequência a essas sugestões.

Incidente da Samarco: expedição científica da UENF gera primeiros resultados sobre impactos do TsuLama no Rio Doce

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Pesquisador do LCA/UENF realizando coleta no Rio Doce.

Acabo de conversar com o Prof. Carlos Eduardo Rezende, chefe do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) sobre os primeiros resultados que já foram gerados pelas análises feitas nas amostras coletadas ao longo da calha do Rio Doce (mais precisamente entre Ipatinga  (MG) e Regência (ES) entre os dias 24 e 28 de Novembro.

Como era de se esperar, em termos dos dados de granulometria, as amostras coletadas mais próximas de Mariana estavam enriquecidas em silte e nas proximidades de Regência o material passou a ter uma composição dominado por argilas finas. Na prática esses dados confirmam o que vem sendo dito sobre o impacto físico que o TsuLama teve nas regiões mais próximas de Bento Rodrigues com o soterramento de nascentes e da calha principal, enquanto que nas imediações do oceano o principal impacto deverá ser químico, dependendo do tipo de elemento que estiver aderido na argila.

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Além disso, os resultados para o chamado Material Particulado em Suspensão (MPS) também confirmam que houve um profundo impacto sobre a coluna d`água, mas que também variou do ponto de origem do derrame até as imediações do mar em Regência. Nesse caso, na estação de coleta referente à Ipatinga (MG), o valor médio obtido foi de 1.880 mg/l, enquanto que em Regência o resultado foi de 747 mg/l.

Apenas para dar a exata dimensão da alteração que isto significa, é preciso lembrar que o valor médio do MPS no Rio Madeira, um dos rios com maior capacidade de carreamento de sedimentos em suspensão na Amazônia, os valores médios giram em torno de 700 mg/l. Já no Rio Paraíba do Sul o valor médio do MPS gira em torno de 100 mg/l. Há ainda que se lembrar que a faixa de variação do MPS para o Rio Doce fica entre 20 e 350 mg/l, o que varia ao longo do tempo em função do regime de chuvas.

Afinal, o que todos estes valores significam? Uma primeira coisa é que em qualquer escala, o impacto da chegada do TsuLama no Rio Doce foi muito forte, ainda que variando ao longo da sua calha principal. Além disso, qualquer plano de recuperação do Rio Doce terá de levar em conta a espacialização dos impactos que estão ocorrendo e de sua persistência no tempo, já que alguns pontos foram mais fortemente atingidos do que outros. 

Os resultados são mais impressionantes quando se verifica que os valores de MPS no Rio Doce pós TsuLama ultrapassam os que ocorrem num dos maiores rios da Amazônia! E, assim que me desculpem os mais otimistas, cinco meses parecem muito pouco para que ocorra a ressurreição do Rio Doce.

Finalmente, como adiantei no início esses são apenas os resultados iniciais, e muitos outros virão nos próximos meses, especialmente no tocante à composição química do material coletado.  E essa é uma demonstração de que a Uenf, em que pese toda a crise que lhe é imposta pelo (des) governo Pezão continua cumprindo o seu papel de produzir conhecimento científico de alta qualidade. 

Incidente da Samarco: imagens do estrago na interface rio-oceano que só aparecem na imprensa internacional

As duas imagens abaixo acabam de ser publicadas fora do Brasil onde não vi qualquer veículo da mídia corporativa brasileira fazendo o mesmo. As razões para essa “pequena” omissão podem ser muitas, mas a primeira me parece ser o esforço para fazer valer a imagem de que o incidente não foi “tão grave assim’ e que o “Rio Doce vai ressuscitar em 5 meses”. 

Agora vejam as imagens e me respondam com sinceridade: será que temos tantas razões assim para ter tamanho otimismo em relação aos efeitos do TsuLama da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) no Rio Doce e nos ecossistemas costeiros do Espírito Santo?

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Poluidor tomando de conta de poluição dá no que? Olhe para o Rio Doce e responda!

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De tempos em tempos ouço e leio pessoas das mais variadas formações afirmando que a iniciativa privada deveria ser deixada sozinha na administração do passivo ambiental que geram, pois o Estado é ineficiente e corrupto.  Essas vozes expressam uma forma bem precária de neoliberalismo mambembe coloca no mercado todas as virtudes, enquanto que para o Estado sobre todos os males e defeitos.

Agora, o infeliz incidente da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) vem nos demonstrar quão perigoso é deixar as corporações operando por si mesmas, e sem os devidos instrumentos de coerção que inibam a irresponsabilidade social em nome do lucro.

Uma coisa que salta aos olhos na matéria assinada por Mateus Parreiras é que as barragens de rejeitos da Mineradora Samarco (Vale+BHP Billiton) estão em condições precárias há mais de uma década, período em que Minas Gerais teve como governadores os senhores Aécio Neves e Antonio Anastasia do PSDB que promoveram um sucateamento óbvio do sistema ambiental estadual. Aliás, é preciso lembrar que Fernando Pimentel (PT) está continuando o “bom” trabalho dos tucanos.

Mas uma coisa é certa: deixar poluidor tomar conta da poluição é a mesma coisa de que deixar a raposa tomando conta do galinheiro. Simples assim!

Barragem que se rompeu em Mariana tinha 20 vezes o volume registrado pela Feam

Dados sobre barragens da Samarco estão defasados desde 2012. Última informação sobre a represa que estourou indicava que estrutura acumulava 20 vezes menos rejeito do que o volume liberado pela catástrofe

 
Euler Júnior/EM/DA Press

Desde o ano de 2012, dados sobre a altura e o volume de rejeitos das barragens do Fundão e de Santarém, da Mina do Germano, da Samarco, em Mariana, estão defasados no cadastro de estruturas de represamento da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam). A represa de rejeitos do Fundão se rompeu completamente no último dia 5, e a lama que continha atingiu Santarém, que por esse motivo está em obras de reforço para impedir que também ceda. O acidente com os dois barramentos destruiu comunidades próximas, matou 13 pessoas, deixou oito desaparecidas, poluiu a Bacia Hidrográfica do Rio Doce e o mar capixaba. Altura e volume das barragens são componentes fundamentais para caracterizar o nível de risco que as estruturas apresentam, segundo as normas federais (Lei 12.334/2010 e Resolução CNRH 143/2012) e estadual (Deliberação Normativa 62/2002). Principalmente depois de os órgãos fiscalizadores das duas esferas governamentais admitirem que, devido ao número insuficiente de fiscais, as equipes priorizam vistorias onde os riscos são mais evidentes. A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável informou que os dados são repassados pela empresa por formulário, mas não sabe se as lacunas de estatísticas se deu por omissão da mineradora ou erro da secretaria em divulgá-las. 

O último relatório que incluiu o volume de rejeitos do Fundão – até o desastre considerada uma estrutura segura – ocorreu em 2013. Naquele ano, constava no cadastro que a barragem comportava 2,65 milhões de metros cúbicos de areia, lama e detritos de minério. Contudo, a própria Samarco admitiu que um volume 20 vezes maior – 55 milhões de metros cúbicos – vazou da represa após sua ruptura. Santarém, que fica abaixo e retinha apenas água, aparece com 14,5 milhões de metros cúbicos até 2011, data da última atualização no sistema de controle estadual. Apesar de constar como saturada, a Barragem de Germano – também afetada e que passa por obras estruturais para impedir sua ruptura – consta com volume de 45 milhões de metros cúbicos no relatório de 2013, apesar de ter a capacidade de 70 milhões, volume que configura saturação. 

No que diz respeito à altura das barragens, os dados também estão incompletos e os que existem são confusos. Para se ter uma ideia, em 2013, a altura de Fundão registrada no cadastro estadual era de 80 metros, enquanto técnicos do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) aferiram 130 metros em vistoria ao local. Santarém, que em 2009 passou de 29 metros para 53 metros, voltou a apresentar 29 metros em 2012 e depois subiu para 32 metros em 2013, sendo que nunca houve registros de redução do barramento ou de desabamentos antes do acidente.

A necessidade de abrir espaços para conseguir cumprir os contratos de fornecimento de minério, que representam mais rejeitos, sempre foi uma preocupação de primeira ordem para a mineradora, que tem dificuldade espacial e por isso lança mão de projetos audaciosos, segundo especialistas. “Na minha avaliação, a Barragem do Germano já estava saturada desde 2003 e, sem nenhuma obra de alteamento para ampliar a capacidade, já se tentava reduzir o volume dos rejeitos de uma forma que considero perigosa. Ao dizerem que está saturada agora, tenho minhas dúvidas”, afirma o engenheiro de minas e especialista em dragagem Maurílio Mansur. De acordo com ele, uma das soluções tentadas foi usar dragas para remover a lama do fundo de Germano para sete baias instaladas sobre o barramento. “A cada mês, enchíamos uma baia. A Samarco queria com isso que o material secasse e se compactasse, para liberar mais espaço. Só que 90% daquilo era areia, que não se compacta com a secagem. Não deu certo, mas deu para perceber essa ânsia. Uma barragem não se rompe no campo, mas no escritório”, disse.

Sobre as trincas e abatimentos nas estruturas de barramento de Santarém e Germano, admitidas pela mineradora após o desastre, Mansur acredita serem relativos a problemas na drenagem das represas, uma estrutura que serve para absorver a umidade que chega da extremidade onde o rejeito de minério é depositado. “Esse tipo de dano é bem característico. A filtragem dessa água deve ter falhado. Portanto, não adianta apenas reforçar, tem de reparar isso também”, afirma.

PLANO EMERGENCIAL

O DNPM fez duas fiscalizações no complexo da Alegria, onde estão instaladas as barragens de Germano, Santarém e Fundão, em 2012 e 2013. Na primeira, os fiscais tiveram de elaborar um plano de segurança com inspeções de 15 em 15 dias e realizar um grande laudo anual em que constasse a situação de estabilidade das barragens. Segundo fontes do departamento,  todas essas etapas foram cumpridas e uma declaração de estabilidade foi firmada por um engenheiro independente, com assinatura de responsabilidade técnica ligada ao Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Minas Gerais (Crea-MG).

No ano seguinte, exigiu-se a formulação de um plano de ação emergencial para o caso de ruptura das barragens. De acordo com essas fontes do DNPM, a Samarco apresentou os planos, mas uma das linhas de investigação sobre o acidente apura justamente se as medidas foram postas em prática, o que até o momento ainda não foi confirmado. Nem mesmo pela empresa, que se limitou a declarar, por meio de seu presidente, Ricardo Vescovi, que o plano foi iniciado assim que ocorreu o rompimento, mas que o histórico do que foi feito ainda não foi esclarecido.

O Estado de Minas entrou em contato com a Samarco para que se pronunciasse sobre a falta de informações no cadastro de suas barragens, mas até o fechamento desta edição a empresa não se manifestou. Também não foi detalhado pela mineradora quais eram as etapas e procedimentos do plano de ação emergencial que deveria ter entrado em operação com o acidente.

fonte: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2015/12/01/interna_gerais,712952/barragem-tinha-20-vezes-o-volume-registrado.shtml

Após ler entrevista na BBC, internauta cria evento para celebrar o dia da ressurreição do Rio Doce

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As reações à entrevista dada pelo prof. Paulo César Rosman da COPPETEC à BBC sobre a situação criada pelo incidente da Mineradora Samarco em Mariana (Aqui!) não tardaram. Um membro da rede social Facebook resolveu inclusive criar um evento que ele denominou de “Dia da Ressureição do Rio Doce, segundo Paulo Rosman e o MMA” e a adesão já foi significativa poucos minutos o convite estar disponível.

E o interessante é que a data anunciada para a “ressurreição” é 28 de Abril de 2015. Será que o Rio Doce ressuscita até lá?

Quem quiser aderir ao evento, basta clicar (Aqui!)

NA BBC, pesquisador da UFRJ que isentou Porto do Açu de processo erosivo anuncia “ressurreição” do Rio Doce atingido pelo Tsulama da Samarco

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O  “TsuLama” provocado pela Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) vem servindo como base para uma disputa cada vez mais evidente sobre a escala da catástrofe e o tempo que levará para que o Rio Doce recupere a sua capacidade de carreamento mínima, podendo assim retomar parte da dinâmica que prevalecia antes do dia 05 de Novembro. Mas para mim fica cada vez mais claro que as avaliações que têm sido feitas parecem estar dependendo do grau de alinhamento que o pesquisador que é ouvido.

Vou citar o exemplo da entrevista que Paulo César  Rosman, professor de Engenharia Costeira da COPPE/UFRJ e autor de um estudo encomendado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) para avaliar os impactos e a extensão da chegada dos rejeitos da Samarco no oceano Atlântico (Aqui!).  Antes que eu me detenha em alguns aspectos da entrevista em si, tenho que lembrar que o Prof. Rosman é o mesmo especialista que ofereceu um parecer que isentou o Porto do Açu de qualquer responsabilidade do processo erosivo que hoje corrói a Praia do Açu, ameaçando levar consigo a localidade de Barra do Açu. 

Mas indo ao conteúdo da entrevista em si, eu selecionei alguns pontos que me parecem ser mais relevantes, e os enumero abaixo;

1.  O Professor Paulo César Rosman  é graduado em Engenharia Civil, ênfase Obras Hidráulicas e Saneamento, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; M.Sc. em Engenharia Oceânica pela COPPE/UFRJ, e  possui um Ph.D. em Engenharia Costeira – pelo Massachusetts Institute of Technology.  Isto, entretanto, não o impede de fazer previsões muito além da sua área de especialização como, por exemplo, o retorno da população de peixes ao Rio Doce em cinco meses!

2. Ainda sobre os peixes, o Prof. Rosman compara um número hipotético que foi citado por diferentes fontes (aquele que diz que apenas 8 toneladas de peixe teriam morrido em função do “TsuLama” da Samarco), para então minimizar o impacto ao comparar com os valores da mortandade de peixes na Lagoa Rodrigo de Freitas, um ecossistema totalmente estressado pelo lançamento de esgotos sem tratamento e outros tipos de contaminantes. Aqui um primeiro problema é de que ninguém pode atestar efetivamente qual foi o montante de peixes que morreram, já que inexiste a infraestrutura para retirar todos os peixes mortos debaixo da lama para pesá-los, chegando assim ao número real. Além disso, comparar o estado atual do Rio Doce à Lagoa Rodrigo de Freitas, é como comparar maças e peras. Em outras palavras, não serve para nada. Aliás, serve sim. Serve para isentar a Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) das suas responsabilidades sobre as consequências da sua ação negligente em Mariana.

3. Um aspecto que já deve (ou deveria) estar sendo repensado pelo Prof. Rosman tem a ver com a toxidade da lama que foi lançada no Rio Doce. É que como já comentei aqui, a própria Vale já reconheceu (apesar de ter recusado a maternidade já que filho feio não tem mãe nem pai) que existem metais pesados e outros elementos químicos potencialmente tóxicos acima dos seus valores máximos históricos nos sedimentos. Mas ouvindo um especialista na área de toxicologia ambiental, ele me lembrou que “independente do caráter de mobilidade dos elementos dentro do rejeito, trata-se o material do TsuLama como tóxico porque as concentrações de coloides e material em suspensão desempenham este papel de toxidez bloqueando o sistema respiratório de peixes e soterrando, em muitos casos, os organismos bentônicos.” Pois bem, esse aspecto da toxicologia passou ao largo da análise do Prof. Rosman, e é até compreensível em função da sua especialização, mas desabilita sua capacidade preditivas acerca da “ressurreição” do Rio Doce em cinco meses. Além disso, como orientei um estudo sobre os efeitos do incidente da Cataguazes Papel na piscosidade do Rio Paraíba do Sul, já verifiquei que a “ressurreição” que ocorreu foi, quando muito, parcial, e causou profundas alterações na subsistência econômica dos pescadores que viram as populações das espécies com maior valor comercial simplesmente encolherem. Assim, considerando que o Prof. Rosman é engenheiro hidraúlico e de saneamento, considero lamentável  que ele tente usar o descaso histórico com a proteção da Lagoa Rodrigo de Freitas com o que está se passando no Rio Doce.

4. Repetindo o que já havia dito no caso do Porto do Açu onde associou o impacto da erosão sobre os moradores da Barra do Açu ao fato de que teriam construído em local impróprio, nessa entrevista à BBC, o Prof. Rosman indicou sua crença de que “o poder público não poderia permitir a instalação de povoados em áreas de passagem de eventos como esse que ocorreu” e que “atualmente é inaceitável e injustificável ter povoados em rotas de avalanche de barragens, ninguém poderia morar nestes locais.”   Mas curiosamente no caso de Bento Rodrigues, o que ocorreu foi justamente o contrário, pois a criação da comunidade antecedeu à instalação da barragem! E o mesmo vale para outras comunidades que foram duramente atingidas pela invasão do “TsuLama“.  Então, se isto é verdade e seguindo o raciocínio do Prof. Rosman, por que se permitiu a instalação da barragem da Samarco em um ponto acima e não abaixo de Bento Rodrigues,  fato que se repete ao longo de centenas de barragens de rejeitos em Minas Gerais? Afinal, pau bate em Chico tem que bater em Francisco, não é? 

5. Também considerei para lá de otimista a previsão de que a próxima estação de (fortes) chuvas “lavarão” o Rio Doce. É que a primeira incerteza se refere às “fortes chuvas” já que nos últimos anos, elas não ocorreram. O segundo problema que eu considero particularmente importante é de que não foi mencionado o fato de que o Rio Doce já se encontrava numa condição de forte estresse hídrico antes do “Tsulama” que cobriu ou entupiu muitas nascentes. Então olhar para a passagem dos sedimentos pela calha, seja em que velocidade for, e desprezar o estresse hídrico a que o Rio Doce está submetido, torna no mínimo precária a previsão de que as chuvas “lavarão” o material  do “TsuLama”.  Ainda há que se notar que se pelo menos ele tivesse fornecido as variáveis que usou na modelagem que fez para chegar a essa previsão, poderíamos verificar as chances de sua previsão se confirmar.

Após estas considerações, e eu teria outras, eu fico imaginando se o Prof. Rosman desta vez visitou toda a área atingida pelo “TsuLama“, ao contrário do que ocorreu na erosão do Porto do Açu quando ele reconheceu em audiência pública na Câmara Municipal de São João da Barra que nunca foi à área mas, mesmo assim, produziu um documento isentando o empreendimento.

Finalmente, dada a notoriedade do Prof. Rosman em sua área de especialização, creio que as suas declarações devam servir como base para os estudos que serão feitos nas diversas áreas acadêmicas em que ele ofereceu suas previsões. É como em ciência podemos até nos arvorar a fazer previsões, mas a sua sustentação só ocorrerá se houver verificação empírica. E como sei que muitos artigos científicos ainda serão produzidos sobre os efeitos sociais e ambientais do “TsuLama” da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton), vamos ver qual é a “verdade” que sobreviverá ao crivo rigoroso do exame científico.

MPMG divulga resultados de análises laboratoriais da qualidade da água no rio Doce

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O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) apresenta o resultado das análises laboratoriais para metais pesados realizadas sobre a água bruta do rio Doce e aquela tratada pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) de Governador Valadares em estações de tratamento, bem como dos sedimentos coletados no rio Doce e no tanque de decantação do Saae.

Em exame técnico preliminar das análises, a Comissão Técnica Científica da Universidade Federal de Juiz de Fora – Campus Governador Valadares (UFJF-GV) concluiu que a água tratada se encontra dentro dos padrões para metais pesados descritos na Portaria 2.914/2011, do Ministério da Saúde.

Para as amostras de água bruta coletadas diretamente no rio e nos sedimentos, constatou-se, preliminarmente, a presença de metais, inclusive os classificados como metais pesados segundo a União Internacional de Química Pura e Aplicada (Iupac), os quais estão acima do padrão estabelecido pela Deliberação DNC Copam/CERH-MG.

A comissão de professores da UFJF concluiu que o processo de tratamento da água executado pelo Saae consegue eliminar os metais localizados na água bruta e sedimentos. O parecer científico final dos professores será apresentado na segunda-feira, 30 de novembro, com todas as conclusões acerca das análises laboratoriais em questão.

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Resultados 7164/15

FONTE: http://www.mpmg.mp.br/comunicacao/noticias/mpmg-divulga-resultados-de-analises-laboratoriais-da-qualidade-da-agua-no-rio-doce.htm#.VljEwXarSUl

O desastre de Mariana é o retrato do Brasil

Por Wilson de Figueiredo Jardim

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O rompimento da barragem de rejeitos de minério de ferro da Samarco ocorrido em 05/11 pode ser considerado o maior desastre ambiental já causado pelo homem no Brasil. Um número relativamente pequeno de vítimas frente à dimensão do evento, seguido por uma comoção mundial frente aos atentados terroristas em Paris que ocorreram na semana seguinte serviram para desviar as atenções do problema brasileiro. Similar ao que ocorreu quando do assassinato do então prefeito Toninho de Campinas, morto um dia antes do ataque às Torres Gêmeas em Nova Iorque , cuja atenção mundial acabou sombreando a morte do ex-prefeito.

No entanto, o evento de Mariana serviu para mostrar a negligência e a inoperância dos órgãos governamentares frente aos eventos desta natureza. Mesmo para quem não tem formação técnica, um simples passeio pela região mineradora e siderúrgica de Minas Gerais mostra a degradação ambiental em todas suas formas: uma forte contaminação atmosférica associada a um passivo ambiental visível nos solos e águas, onde a fiscalização pelos órgãos governamentais (DNPM e FEAM) fica muito aquém do esperado. Nestas regiões a riqueza é para poucos, enquanto que a degradação ambiental é democratizada. Se as Normas Reguladoras da Mineração estivessem sendo seguidas na sua totalidade pela Samarco, este evento não deveria ter ocorrido.

Quando o mar de lama desceu como uma avalanche para atingir o rio Doce, levando tudo no seu caminho, o governo descobriu que não sabia como agir, e começou o festival de barbaridades que não deve terminar tão cedo. Ibama, Ministério Público Federal e Estadual, agências ambientais estaduais, concessionárias de água, aventureiros, cada um falando sua linguagem própria. Afinal, qual era mesmo o material contaminante?

A primeira ação conjunta que se esperava do governo era a identificação rápida e precisa do material que jorrou da barragem. Granulometria, densidade, composição química, potencial de lixiviação de intoxicantes, dentre outros para só assim poder avaliar os possíveis impactos para a saúde humana e a biota. Como isso não foi feito, surgiram especulações sobre a toxicidade, o arsênio se tornou metal (é um metalóide), o material particulado se tornou solúvel, e assim o mar de lama invadiu também o bom senso.  Isso mostra a inoperância do governo, incapaz de colocar um único interlocutor para coordenar as ações remediativas. Interessante é que tanto na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) como na UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto) há uma série de dissertações e teses que mostram a caracterização e reuso desta lama. Mas parece que a desinformação é mais interessante do que a informação.

O ápice do festival de barbaridades técnicas foi o uso de bóias de contenção de material flotante (principalmente óleos e borras de derrame de petróleo) para conter o material particulado que compõem o rejeito, o qual tem um diâmetro médio de 10 µm, e evitar sua dispersão no mar. Só faltou alguém sugerir o uso de um grande macaco hidráulico para levantar a foz do rio Doce e fazer o rio correr para a cabeceira. Humor à parte, o desencontro é tão grande que não seria possível descartar esta eventualidade.

O material mais fino que compõe a lama de rejeitos irá se dispersar com o tempo ao longo do rio e no mar, causando um impacto transiente que já mostrou sua força. O fato é que temos agora um passivo ambiental residente de grandes proporções para tratar, visando restaurar ao máximo suas condições pré-acidente. A lama, contendo uma parcela apreciável de sílica, devastou as matas ciliares e ali se depositou, pelo menos em pontos mais próximos à barragem, e deve impedir a recomposição destas matas se não for removida ou recoberta com solo fértil. O leito do rio Doce recebeu uma quantidade de rejeito que deve atuar como se fosse um selo físico, impedindo trocas na interface água/sedimento, processo esse de vital importância para a saúde do sistema aquático.

A recuperação desta bacia é processo de longo prazo, e somente terá sucesso se houver um plano de ação coeso, envolvendo vários atores que trabalhem num projeto factível, integrado, multidisciplinar, usando ao máximo todo o conhecimento que já está disponível visando o sucesso desta remediação. E por favor, esqueçam as técnicas mirabolantes e pirotécnicas, e concentrem-se na fiscalização efetiva e na prevenção.

Wilson de Figueiredo Jardim é professor aposentado do Departamento de Química Analítica (DQA), do Instituto de Química da Unicamp

FONTE: http://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2015/11/23/artigo-o-desastre-de-mariana-e-o-retrato-do-brasil

Espírito Santo: enquanto população passa sede, Aracruz Celulose (Fibria) tem estoque de água de 100 dias

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A matéria abaixo revela um outro aspecto dantesco do drama que está cometendo a população que vive nas localidades próximas à Foz do Rio Doce. É que a Fibria (ex-Aracruz) que possui um canal de adução que remove água do Rio Doce para abastecer o seu processo produtivo pode-se dar ao luxo de suspender a coleta de água por até 100 dias, pois possui segundo declarou a própria empresa um sistema próprio de reservatórios que permite uma autonomia que não é estendida à população.

Aliás, é curioso notar que o Rio Doce já vinha sofrendo com uma forte escassez hídrica nos últimos meses, o que chegou a interromper a chegada de suas águas ao mar, mas não se teve notícia de que a Fíbria tivesse suspendido a captação. O mais estarrecedor é que uma Comissão Parlamentar de Inquérito instalada pela Câmara Municipal de Linhares já apurou que  com o desvio feito no Rio Doce, o consumo diário das usinas da Aracruz Celulose (Fibria), por meio do canal Caboclo Bernardo, seria suficiente para abastecer 2,6 milhões de pessoas, o equivalente à população da Grande Vitória ou a 26 cidades como Linhares (Aqui!).

E não que em meio a toda a desgraça ambiental que acomete o Espírito Santo, as ações da Fibria tiveram um leve aumento no dia de hoje. Milagres do capitalismo financeiro!

Fibria fecha comportas que captam água do Rio Doce

Leonardo Merçon/Instituto Últimos Refúgios/Divulgação
Rio Doce poluído pela lama do rompimento de barragens em Mariana (MG)

Rio Doce: o fechamento das comportas foi recomendado pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE)

Da REUTERS

São Paulo – A produtora de celulose Fibria informou que fechou as comportas que captam água do Rio Doce para sua fábrica em Aracruz, no Espírito Santo, medida que será mantida até recomendação de reabertura pelos órgãos competentes.

O fechamento das comportas foi recomendado pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Aracruz e pela Agência Nacional de Águas (ANA) para preservar o ecossistema de rios locais depois do rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco em Mariana (MG), levando lama até o litoral do Espírito Santo.

“A suspensão temporária da captação de água do Rio Doce não afetará a produção da Fibria, que tem o Canal Caboclo Bernardo como fonte complementar”, disse a companhia em nota nesta segunda-feira. 

A empresa possui também um sistema próprio de reservatórios com autonomia de 100 dias para abastecer sua fábrica no Espírito Santo, com capacidade de produzir 2,3 milhões de toneladas de celulose por ano.

“A produção de celulose da unidade de Aracruz segue normal”, disse.

Às 14h07, no horário de Brasília, a ação da Fibria subia 0,17 por cento, diante de variação positiva de 0,1 por cento do Ibovespa.

FONTE: http://exame.abril.com.br/negocios/noticias/fibria-fecha-comportas-que-captam-agua-do-rio-doce