Rio Paraíba do Sul será tema de conferência na Universidade de Lisboa nesta 6a. feira

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Atendendo a um convite do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c), o professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Carlos Eduardo de Rezende, irá proferir uma conferência sobre os estudos que seu grupo de pesquisa vem realizando no Rio Paraíba do Sul desde 1993 quando a universidade começou oficialmente suas atividades em Campos dos Goytacazes.

A conferência intitulada “Results of a long-term project in a medium size basin: the Paraíba do Sul case apresentará os resultados coletados ao longo de quase 3 décadas em um das bacias hidrográficas mais densamente povoadas e .  do Brasil.  Entre os aspectos a serem abordados estão as flutuações temporais dos principais processos biogeoquímicos que ocorrem ao longo da calha principal do Paraíba do Sul até a sua chegada na plataforma continental.

crezende

Além disso, no tocante às chamadas dimensões humanas das mudanças ambientais ,  serão apresentados os resultados  acerca das avaliações dos impactos socioeconômicos das mudanças no uso da terra sobre os ecossistemas naturais existentes no Paraíba do Sul, especialmente nas áreas de manguezais.

É importante frisar que este tipo de avaliação de longo prazo das principais bacias hidrográficas brasileiras é raro, o que aumenta ainda mais a relevância dos estudos realizados por Carlos Eduardo de Rezende e seu grupo de pesquisas no Paraíba do Sul.

A montanha de escória da CSN e o sumiço das autoridades

A imagem abaixo é da montanha de escória (i.e., residuos da produção industrial) que a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) logrou construir às margens do Rio Paraíba do Sul em Volta Redonda (RJ). A possibilidade do desmoronamento de parte ou mesmo de todo esse lixo sobre a principal fonte de água doce para milhões de habitantes do Rio de Janeiro clama por respostas e cobranças de responsabilidades.

montanha de escoria

Essa montanha de lixo tóxico que ocupa uma área equivalente a 274 campos de futebol não apareceu de um dia para outro, resultando no fato de que existe um cadeia de responsabilidades pela sua formação e ampliação.

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O que estão esperando as autoridades responsáveis pelo controle da proteção do Rio Paraíba do Sul para iniciarem o processo de remoção desse material? Que a montanha desabe e deixe o rio inutilizável sabe-se lá por quanto tempo?

A erosão em Atafona avança em meio à inércia dos (des) governos

Estive hoje no Pontal de Atafona para uma atividade de campo da disciplina de Geografia Geral que ministro para discentes do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense e o que vi me deixou impressionado. É que por alguns anos não usei essa parte da costa sanjoanense para ilustrar os processos que decorrem da ação de processos naturais e antrópicos na modelagem costeira ( ver imagens abaixo).

Apesar desse processo erosivo não ser recente, o que  mais me impressionou é o estágio atual em que a perda da face de areia parece estar ocorrendo de forma mais acelerada,  em que pese o fato de estarmos uma período de chuvas intensas que altera o padrão de descarga do Rio Paraíba do Sul em relação a pelo menos os três últimos anos. Mas nem esse volume acentuado parece estar compensando a força das correntes que atuam naquela área.

Interessante notar que há vários anos são anunciadas medidas para mitigar o processo de erosão no Pontal de Atafona. Mas entram governantes e saem governantes (muitas vezes os mesmos que tinham saído antes) e nada é feito. 

A consequência disso é que provavelmente em campos futuros deverei ter ainda mais exemplos a dar sobre como a inércia governamental somada à ação das forças da natureza contribuíram para a destruição de um dos pontos mais bonitos e atrativos do litoral norte fluminense.

Mas é interessante notar que os estudantes que estavam no campo parecem ter apreciado bem a oportunidade de ver fora da sala de aula alguns dos processos que apresentei em sala de aula. Só não tenho muita certeza se isso serve de consolo para quem está perdendo suas casas e sossego em Atafona.

Águas esverdeadas do Rio Paraíba do Sul são um sinal da alerta. Quem está prestando atenção?

Enquanto a disputa eleitoral para decidir o próximo prefeito de Campos dos Goytacazes atinge níveis de tensão máxima, algo nada prosaico está acontecendo no Rio Paraíba do Sul, suas águas estão assumindo um belo tom esmeraldino.

Entretanto, como nem sempre o que é belo também se revela seguro, a cor verde que começa a dominar a paisagem aquática da principal fonte de abastecimento da cidade de Campos dos Goytacazes deveria preocupar a todos, inclusive os gestores da concessionária Águas do Paraíba.

É que águas com tons verdes normalmente refletem a presença em grandes quantidades de algas. Ainda que este não seja um fenômeno recente, pois já ocorreu em outros anos(Aqui!), há que se apurar qual seria exatamente a alga que está causando o atual fenômeno, de modo a que se estabeleça se a mesma pode trazer danos à saúde humana ou não.

As causas deste processo são múltiplas, incluindo a estiagem sazonal, a continuidade do lançamento de esgoto in natura e o aporte de produtos químicos utilizados na agricultura. Para agravar tudo isso há o chamado processo de “piscinização” do Paraíba do Sul que em determinados trechos se comporta não mais como um rio, mas como um agregado de piscinas.

O descaso com a situação crítica em que encontra o Rio Paraíba do Sul é para mim um dos grandes exemplos de como a atual campanha eleitoral está passando ao largo de questões fundamentais para o futuro de Campos dos Goytacazes. Essa verdadeira ojeriza a abordar de forma integrada e inteligente problemas que são cruciais para o cotidiano de todos é uma das principais características de partidos e políticos que ignoram formas mais modernas de gestão das cidades.

Enquanto isso, as algas se multiplicam e o Paraíba do Sul se veste de verde.

É para isso que pagamos coleta e tratamento de esgotos?

A metade do que os consumidores pagam mensalmente à concessionária “Águas do Paraíba” vem na forma de uma rubrica identificada como “esgoto”. As boas almas que pagam essas contas deve assumir que tal rubrica se refere à coleta e tratamento de esgotos. Certo? Se for pelo que ocorre sistematicamente na esquina entre Avenida Sete de Setembro e a Rua Riachuelo, a resposta é um sonoro não.

As imagens abaixo que foram obtidas nesta último sábado (28/02) são, na verdade, uma repetição do que já foi mostrado aqui neste blog faz algum tempo, e levantam várias questões sobre a qualidade das obras que foram realizadas pela Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes na região do bairro da Lapa. E, de quebra, como esse é um problema que se repete e não tem solução, também sobre a disposição e interesse da concessionária “Águas do Paraíba” de dar o retorno devido ao que é cobrado dos campistas mensalmente.

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De quebra, um detalhe que salta aos olhos e (por que não) aos narizes é o fato de que o esgoto in natura que brota na esquina volta para dentro da terra em função da presença de uma galeria de águas pluviais que fica localizada quase ao lado. Isto seria até conveniente se esse esgoto todo não fosse parar na calha principal do já maltratado Rio Paraíba do Sul!

Mas para que ninguém diga que eu só critico e não ajuda, abaixo coloco uma imagem do satélite Landsat mostrando a área onde este despejo de esgoto ocorre frequentemente. Quem sabe assim alguém da PMCG ou da concessionária se digna a começar a resolver este fedorento problema.

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A “seca planejada” do Rio Paraíba do Sul

O Rio Paraíba do Sul apresenta as menores cotas e níveis de vazão desde que o monitoramento fluvial teve início, há noventa anos. Não estamos, porém, diante do período mais seco, sendo o atual apenas o 13o ano menos chuvoso, superado, e muito, pelas estiagens de 1934, 1941, 1954 e 1964.

 Por Emiliano Castro de Oliveira

A bacia hidrográfica do Rio Paraíba do Sul abrange 56.500 km2, percorrendo São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Dos três estados, os dois primeiros possuem maior parte no percurso do rio, que totaliza 1.130 km. As nascentes, originadas na Serra do Mar, em São Paulo, formam dois rios, o Paraibuna e o Paraitinga, que após confluírem dão origem ao Paraíba do Sul.

Apesar da origem associada a um local com altos níveis pluviométricos (1.360 mm/ano), a estiagem prolongada e intensa deste ano tem colaborado para a queda expressiva dos níveis dos reservatórios1 associados à área de nascente. Nessa mesma tendência, todo o volume do rio vem apresentando níveis muito baixos, como em Campos dos Goytacazes (RJ), já próximo à foz, onde o rio atingiu a menor cota, 4,5 m, desde que o monitoramento começou, há noventa anos.2 e 3

Além dos transtornos relativos à falta de água para abastecimento urbano, um grave problema de erosão vem afetando o distrito de Atafona (São João da Barra, RJ), situado na foz do rio. Por causa do baixo volume do rio, sua carga sedimentar também diminuiu, não fornecendo sedimentos suficientes para manter em equilíbrio o processo de construção do delta sedimentar presente na foz. O resultado é um intenso processo erosivo, no qual o mar retira o sedimento já depositado e ameaça mais ainda a população local.4 Esse processo de erosão iniciou-se a partir da década de 1950, quando foi terminada a obra de transposição do Rio Paraíba do Sul para o Rio Guandu, a fim de abastecer a Baixada Fluminense. Desde então, a partir desse ponto de transposição, até 60%5 do volume de água do rio pode ser desviado (em média 25%),5 deixando o restante do curso completamente alterado no que diz respeito ao volume. Para o transporte sedimentar ocorrer é fundamental haver água em quantidade compatível com o tipo do rio e sedimentos disponíveis. Estes últimos também diminuíram no rio6 no período analisado, ficando retidos nas nove barragens presentes no curso total do Paraíba do Sul.

Em termos de eventos de estiagem, o atual não é o mais severo,7 tanto na área de nascente em São Paulo quanto na de deságue, no Rio de Janeiro, sendo apenas o 13o ano mais seco registrado nos últimos noventa anos. As cotas do rio, em Campos dos Goytacazes, haviam chegado à casa dos 4,8 m apenas em 1954.6 E, apesar desse intenso evento de seca, as médias pluviométricas associadas às nascentes e ao curso do rio em São Paulo mostram aumentos de até 40 mm/ano,6 enquanto no trecho do Rio de Janeiro as médias pluviais apresentam diminuição de até 10 mm/ano.6

 Se não estamos passando pelo maior evento de seca já registrado, por que então desta vez o Rio Paraíba do Sul está apresentando os menores níveis de vazão? A resposta dessa pergunta não tem a ver com a estiagem atual nem com nenhuma outra. Um estudo estatístico, conduzido por Marengo e Alves,8 do CPTEC/Inpe, já demonstrava a tendência de queda acentuada na vazão do rio, piorando ano a ano, desde 1960. E pior: essa tendência de queda não apresenta atenuação em função do sutil aumento de chuvas.

O crescimento das regiões que se beneficiam das águas do Rio Paraíba do Sul, em especial do Vale do Paraíba,9 em São Paulo, e da Baixada Fluminense,9 representou diretamente o aumento no Consumo das águas do rio. Com grande expansão industrial, as regiões citadas têm crescimento econômico comparável ao da China,10 e 11 com a instalação de diversas indústrias automobilísticas, aeroporto, porto, refinaria e, consequentemente, o crescimento populacional atrelado a esse desenvolvimento.

A partir daí podem-se notar os problemas estruturais relativos ao consumo de água na região, que não foi ampliado adequadamente e continua calcado apenas no aumento da captação da água do rio. O cenário atual, de crise hídrica, demonstra que o limite de captação foi excedido, e no atual panorama não é possível projetar quanto tempo os reservatórios irão durar, uma vez que não havia previsão de consumo em uma situação de seca intensa. O processo erosivo atuante na foz do rio indica que o Paraíba do Sul não tem condições médias de prover água para todos aqueles que hoje se utilizam dele.

Além do desastre natural que representa a superexploração de um rio da importância hídrica do Paraíba do Sul, a falta de planejamento no abastecimento de água de regiões com grande crescimento econômico e demográfico é um fato de irresponsabilidade e descomprometimento dos poderes públicos estaduais. O rio não pode continuar sendo a única fonte de abastecimento dessas regiões.

A administração desse recurso fundamental foi concedida à iniciativa privada nos dois estados. Além disso, os mesmos reservatórios de água estão associados a usinas de geração de energia, também concedidas à iniciativa privada. Claramente, a gestão das vazões nessas situações é ponderada pelos contratos de concessão, uma vez que a diminuição desta implica queda no faturamento com abastecimento e geração de energia. Esse fato representa um conflito de interesses muito perigoso para a segurança do abastecimento hídrico das populações atendidas.

E o prognóstico, em termos de planejamento, para essa crise é crítico. O governo de São Paulo, representado diretamente pelo governador reeleito Geraldo Alckmin, tenta obter junto à Agência Nacional de Águas (ANA) a autorização para uma nova transposição11 das águas do rio, agora em território paulista, a fim de abastecer o também negligenciado sistema de abastecimento Cantareira,12 ou seja, a solução para um sistema de abastecimento exaurido será usar outro sistema também exaurido.

Estamos diante de uma crise na qual não há planejamento futuro e as medidas tomadas já se iniciam ultrapassadas. Realmente, o planejamento dos atuais governantes parece visar ao fim dos recursos hídricos.

Emiliano Castro de Oliveira é doutor em Sedimentologia, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e membro da Rede Braspor (Brasil-Portugal) de pesquisas de impactos ambientais em rios e na costa.

Ilustração: Elias Francioni/cc

1    Disponível em: www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/08/1500161-nivel-dos-reservatorios-do-rio-paraiba-do-sul-e-o-pior-desde-2003.shtml.

2  Disponível em: http://www.odiariodecampos.com.br/nivel-do-paraiba-ja-assusta-14973.html

3  Disponível em: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2014/10/rio-paraiba-do-sul-atinge-o-nivel-mais-baixo-dos-ultimos-90-anos.html

4  Disponível em: http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/rj/atafona+a+cidade+que+esta+sendo+engolida+pelo+mar/n1300019862044.html

5  Disponível em: http://www.cedae.com.br

6  Disponível em:http://hidroweb.ana.gov.br

7  Disponível em: http://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2014/05/16/seca-atual-em-sao-paulo-e-a-maior-em-45-anos-mostram-dados-da-usp.htm

8  José A. Marengo e Lincoln Muniz Alves, “Tendências hidrológicas da Bacia do Rio Paraíba do Sul”, Revista Brasileira de Meteorologia, 20.2, p.215-226, 2005. Disponível em: http://mtc-m18.sid.inpe.br/col/sid.inpe.br/ePrint%4080/2005/05.11.13.21/doc/v1.pdf

9  Disponível em: http://ibge.gov.br.

10            Disponível em: http://www.diariosp.com.br/mobile/noticia/detalhe/56334/Vale+do+Paraiba+cresce+em+ritmo+chines

11            Disponível em: http://www.meon.com.br/noticias/regiao/empresas-formalizadas-cresce-10-em-tres-meses-em-pindamonhangaba

12    Disponível em: www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/03/1428252-o-rio-tambem-sera-beneficiado-diz-alckmin-sobre-transposicao-do-rio-paraiba.shtm

FONTE: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1783

Pezão e a limonada da transposição do Paraíba do Sul: só ser com água barrenta!

barro

Ao final da reunião que abriu caminho para a realização da transposição do Rio Paraíba do Sul para atender as demandas do governo de São Paulo, o (des) governador Luiz Fernando Pezão teria dito que “desse limão saiu uma grande limonada”, se referindo ao processo eleitoral. “Cada um estava cuidando das campanhas e não deu pra gente sentar e dialogar. Ninguém vai perder. A população dos três Estados vai ganhar com a solidariedade nossa”, teria dito Pezão.

Agora, alguém por favor avise ao Sr. Pezão que para se fazer a diluição do limões há que se ter água.  Mas do jeito que a coisa anda, o que sobrar para diluir os limões vai ser, quando muito, água barrenta.

Será que o Pezão encararia essa limonada cheia de barro? A ver!