O El Niño não será o desastre: o desastre será chegar a ele despreparado

Mike Davis e Rob Nixon ajudam a entender por que eventos climáticos extremos se transformam em catástrofes sociais. Com um El Niño potencialmente muito forte avançando sobre um planeta cada vez mais quente, o Brasil já dispõe de conhecimento suficiente sobre o que poderá acontecer; falta transformar esse conhecimento científico em preparação concreta

Estou lendo Late Victorian Holocausts, de Mike Davis, um livro que, apesar de publicado há mais de duas décadas, adquire uma atualidade particularmente incômoda diante do El Niño que começa a se estabelecer sobre um planeta muito mais quente do que aquele do final do século XIX. Nessa obra, Davis analisa, entre outras coisas, as gigantescas fomes associadas aos grandes ciclos de El Niño ocorridos entre as décadas de 1870 e 1890. Sua estimativa mais conhecida situa entre 30 e 50 milhões o número de pessoas que morreram durante aquelas crises. Considerando que a população mundial girava então em torno de 1,5 bilhão de habitantes, estamos falando de algo equivalente a aproximadamente 2% a 3,3% de toda a humanidade. Se transportássemos mecanicamente essa proporção para a população mundial atual, chegaríamos a algo entre 166 e 277 milhões de pessoas.

Evidentemente, não estou sugerindo que o atual El Niño produzirá semelhante mortandade, pois fazer isso seria cientificamente irresponsável e cairia justamente no alarmismo que precisamos evitar. A comparação serve para outra coisa: mostrar a dimensão que eventos climáticos podem assumir quando encontram sociedades profundamente desiguais e despreparadas para enfrentá-los.

Esse é precisamente um dos grandes argumentos de Mike Davis. As dezenas de milhões de pessoas que morreram no final do século XIX não foram simplesmente “mortas pelo El Niño”; o fenômeno climático produziu secas, alterações nas monções e quebras de safras, enquanto a organização política e econômica das sociedades atingidas, particularmente sob o domínio colonial, transformou esses eventos em gigantescas crises de fome. Em outras palavras, o El Niño produziu o perigo; o imperialismo e a desigualdade produziram boa parte da vulnerabilidade que permitiu que esse perigo se convertesse em catástrofe.

É neste ponto que Davis se encontra de maneira particularmente fértil com Rob Nixon e seu conceito de “violência lenta”. Nixon chama nossa atenção para formas de violência que não explodem diante das câmeras, mas se acumulam silenciosamente durante anos ou décadas. A degradação ambiental, a contaminação, o empobrecimento, a destruição dos meios de subsistência e as mudanças climáticas constituem processos que raramente produzem uma imagem espetacular no momento em que estão construindo suas vítimas.

Essa perspectiva nos obriga a reconhecer que um desastre começa muito antes da enchente, da seca ou da onda de calor. A catástrofe começa a tomar forma quando as cidades crescem sobre áreas inundáveis sem infraestrutura adequada; quando trabalhadores ocupam encostas porque não conseguem acessar habitação segura; quando governos deixam sistemas de drenagem durante décadas sem investimentos; quando intervenções urbanas canalizam rios e impermeabilizam suas várzeas; quando populações rurais ficam sem acesso seguro à água; quando governos municipais mantêm sistemas de Defesa Civil sem pessoal, equipamentos e recursos suficientes; e quando alertas meteorológicos existem, mas não chegam a quem precisa deles. Quando finalmente chega a chuva extraordinária, a seca prolongada ou a onda de calor, décadas de escolhas políticas aparecem subitamente sob o conveniente rótulo de “desastre natural”.

Mas o evento físico pode ser natural; a distribuição social de suas consequências não é.

O problema brasileiro é que já sabemos o que está vindo

Essa discussão deixa de ser apenas histórica quando olhamos para o Brasil de agosto de 2026. O El Niño já está estabelecido e deverá ganhar força nos próximos meses; o INMET informa que as condições do fenômeno estão presentes desde junho e que ele deverá persistir até o final do verão austral de 2026/2027. As previsões mais recentes elevaram ainda mais o sinal de preocupação, pois indicam probabilidade igual ou superior a 90% de que o fenômeno alcance intensidade muito forte nos próximos trimestres, com seu período mais crítico podendo ocorrer justamente entre a primavera e o início do verão.

As consequências possíveis para o território brasileiro tampouco constituem mistério. O fenômeno tende a favorecer excesso de precipitação e maior risco de eventos extremos no Sul, enquanto partes do Norte e Nordeste podem enfrentar redução das chuvas, secas e agravamento do risco de incêndios; temperaturas elevadas poderão aumentar ainda mais a pressão sobre ecossistemas, agricultura, recursos hídricos e populações vulneráveis.

Nem precisamos esperar outubro ou dezembro para constatar que eventos extremos constituem uma ameaça concreta. O Sul já enfrentou sucessivos episódios de chuva intensa e tempestades neste inverno, enquanto o Sudeste experimentou grandes oscilações térmicas, calor, baixa umidade e episódios de ventos intensos associados à passagem de sistemas meteorológicos. Não podemos atribuir automaticamente cada um desses eventos ao El Niño; podemos, entretanto, enxergar neles a vulnerabilidade territorial sobre a qual um El Niño muito forte atuará durante os próximos meses.

A agricultura também começa a incorporar esse risco às suas decisões. As estimativas para a safra brasileira de trigo de 2026 já sofreram redução, acompanhadas de preocupação com os possíveis efeitos de um El Niño intensificado sobre uma cultura fortemente concentrada na Região Sul. O país, portanto, não enfrenta uma ameaça desconhecida; temos satélites, modelos climáticos, séries meteorológicas, supercomputadores, universidades, institutos de pesquisa e sistemas de monitoramento que permitem enxergar com meses de antecedência pelo menos parte considerável dos riscos. Essa capacidade científica nos coloca numa situação radicalmente diferente daquela enfrentada pelas populações analisadas por Mike Davis no século XIX; justamente por isso, ela aumenta nossa responsabilidade política diante do que poderá ocorrer.

Monitorar não significa estar preparado

Seria incorreto afirmar que o Estado brasileiro nada está fazendo. O governo federal criou um Painel El Niño 2026–2027 que reúne INMET, INPE, CEMADEN, ANA, Serviço Geológico Brasileiro, Defesa Civil e outras instituições; também iniciou articulações com os estados para enfrentar os riscos associados ao fenômeno. Essas iniciativas representam passos necessários, mas reconhecer o risco, produzir boletins e realizar reuniões não significa que municípios, estados e União tenham preparado o território brasileiro para enfrentá-lo.

A pergunta fundamental precisa ir além do monitoramento: o conhecimento científico disponível já se transformou em planos operacionais, recursos financeiros, pessoal, equipamentos e capacidade de resposta na escala exigida pelo problema?

Essa pergunta abre imediatamente outras. Quantos municípios brasileiros possuem planos atualizados para enfrentar enchentes, deslizamentos, ondas de calor, secas e incêndios? Quantas Defesas Civis municipais possuem equipes e equipamentos compatíveis com os riscos previstos? Quantos governos municipais estão limpando e ampliando preventivamente seus sistemas de drenagem? Quantos hospitais possuem protocolos específicos para ondas de calor? Quais estoques estratégicos de alimentos, água e medicamentos governos municipais, estaduais e federal estão preparando? Quais comunidades vulneráveis conhecem previamente suas rotas de evacuação e seus locais de abrigo? Quais políticas apoiarão agricultores familiares caso a seca ou o excesso de chuva comprometam suas safras?

Governadores, prefeitos, ministérios e candidatos deveriam colocar essas perguntas no centro de suas agendas neste momento; afinal, quando a água entra nas casas, a prevenção já fracassou.

E começou a campanha eleitoral

Talvez um dos aspectos mais preocupantes da conjuntura seja justamente o fato de o Brasil ter entrado oficialmente na campanha eleitoral de 2026 sem que a emergência climática tenha ocupado, até agora, um espaço compatível com sua importância objetiva. Os primeiros movimentos da campanha concentram-se fortemente em segurança pública, economia, soberania e nas disputas políticas tradicionais; embora apareçam referências ambientais nos programas e discursos, ainda não se percebe uma centralidade política equivalente à magnitude de um problema que poderá atingir o país justamente durante os meses decisivos da eleição e da transição para o próximo governo.

Essa ausência ganha contornos ainda mais estranhos quando lembramos que o próximo presidente da República poderá assumir o cargo em janeiro de 2027 ainda sob os efeitos do mesmo El Niño. Mudanças climáticas e adaptação, portanto, não deveriam aparecer como um capítulo protocolar ou decorativo dos programas de governo; elas deveriam atravessar propostas para habitação, agricultura, saúde pública, energia, infraestrutura urbana, transportes, proteção social, planejamento territorial e Defesa Civil.

A ciência já realizou uma parte importante do trabalho ao demonstrar que o El Niño existe, está se fortalecendo e poderá alcançar intensidade excepcional; os cientistas também indicam as regiões mais vulneráveis, identificam os tipos de eventos que apresentam maior probabilidade de ocorrência e oferecem uma janela preciosa de alguns meses para que governos e sociedade se preparem. Se desperdiçarmos essa janela e depois assistirmos autoridades declarando surpresa diante de cidades inundadas, plantações destruídas, rios secos ou florestas queimando, não estaremos diante de uma simples falha de previsão; estaremos diante da transformação consciente de conhecimento disponível em oportunidade perdida.

É justamente aqui que Mike Davis e Rob Nixon têm algo importante a nos ensinar. O evento climático pode ter origem natural; a catástrofe social resulta da maneira como organizamos nossas sociedades, distribuímos recursos, produzimos vulnerabilidades e decidimos quem merece proteção. Não podemos impedir o El Niño, assim como não podemos evitar todos os eventos extremos associados a uma atmosfera profundamente alterada pelo aquecimento global; podemos, contudo, reduzir drasticamente a quantidade de pessoas expostas, diminuir perdas materiais, proteger sistemas alimentares, preparar hospitais, fortalecer Defesas Civis, criar estoques, apoiar agricultores e proteger comunidades vulneráveis.

O Brasil precisa, portanto, abandonar sua conhecida cultura política de agir depois da catástrofe e transformar previsão científica em prevenção material. Governos precisam limpar canais, revisar barragens, preparar abrigos, fortalecer a Defesa Civil, proteger sistemas de abastecimento, organizar brigadas contra incêndios, preparar o SUS, apoiar agricultores e mapear populações vulneráveis agora; quando a água estiver subindo, os reservatórios estiverem secando ou o fogo estiver atravessando florestas e campos, será tarde demais para transformar boletins meteorológicos em políticas públicas.

Mike Davis mostrou como eventos climáticos contribuíram para algumas das maiores tragédias humanas do século XIX quando encontraram sociedades organizadas para proteger mercados e impérios, mas não necessariamente pessoas; Rob Nixon nos ajuda a compreender que as condições que permitem uma catástrofe não surgem no instante em que começa a chover ou deixa de chover, mas resultam de processos de violência lenta que acumulam vulnerabilidades durante anos ou décadas.

O Brasil de 2026 possui uma vantagem extraordinária sobre as sociedades estudadas por Davis: sabemos que o fenômeno está chegando, conhecemos razoavelmente seus possíveis efeitos e dispomos de instrumentos científicos capazes de acompanhar sua evolução quase em tempo real. Ainda existe tempo para escolher outro caminho, mas a ciência já fez o alerta e agora cabe ao poder público transformar informação em prevenção concreta; o conhecimento acumulado também retira de governantes e candidatos qualquer possibilidade legítima de fingir surpresa caso a falta de preparação amplifique as consequências de um El Niño superforte. Se isso ocorrer, ninguém poderá dizer que não sabia o que estava por vir; a questão já não é falta de informação, mas o que aqueles que governam ou pretendem governar o Brasil decidirão fazer com ela.

De Rob Nixon ao V Distrito: a violência lenta escondida sob o nome de desenvolvimento

Quinze anos depois de sua publicação, o livro de Rob Nixon oferece ferramentas para compreender como grandes projetos econômicos transformam populações em “deslocados que não saem do lugar” e fazem da destruição de territórios e modos de vida um custo aparentemente natural do progresso

Acabei de ler, ao menos pela primeira vez, o livro Slow Violence and the Environmentalism of the Poor, e reconheço que não foi uma leitura fácil. A dificuldade não nasceu apenas da elaborada teia de conceitos e autores que Rob Nixon utilizou para deixar claro o que vem a ser violência lenta, mas também do uso de um vocabulário altamente erudito, o que diminuiu a velocidade do processo de assimilação do conteúdo denso que a obra traz.

Não pretendo aqui fazer uma resenha da obra, pois considero esse tipo de esforço algo para o qual não tenho a devida competência ou paciência para realizar com o necessário calibre que um livro como esse merece. O ponto que quero levantar é que, apesar de ter sido publicado originalmente em 2011, as questões levantadas por Nixon se mantêm lamentavelmente atuais, e com um toque de agravamento, a começar pela crise climática que hoje sacode o planeta e ganha tons dramáticos, especialmente se você está em um país europeu assolado por uma seca extrema ou no sudoeste da região Sul do Brasil, que resolveu se tornar uma passarela para tornados poderosos.

Considero que a força de Slow Violence está em oferecer uma visão apurada, usando autores-ativistas, como ele os chama, de como o capitalismo, especialmente aquele totalmente dependente de combustíveis fósseis, tem operado para criar deslocados que não saem do lugar, transformando-os em seres humanos invisíveis diante da necessidade de sustentar uma sociedade ancorada em altos níveis de consumo, mesmo que, para isso, seja preciso criar situações extremas de violência que permitam a imposição desse modus operandi societário.

Outro aspecto é que a forma pela qual Nixon faz sua compilação de casos garante a atualidade de sua análise, ainda que hoje vivamos um agravamento das condições de exploração, extração e expulsão de comunidades que têm o azar de estar no caminho de grandes projetos econômicos, seja no delta do Níger ou na Foz do Amazonas.

Particularmente importante é a noção, apresentada por Nixon já na introdução do livro, dos deslocados que não saem do lugar e que têm suas vidas completamente arruinadas pela captura de seus territórios tradicionais. De quebra, Nixon ainda recupera o conceito de “refugiados do desenvolvimento”, que reforça a noção de que, sob a desculpa de construirmos sociedades mais progressistas, o que se tem é a criação de grupos que são expulsos de suas áreas tradicionais de reprodução social e econômica. Queira ou não, essas formulações contidas em Slow Violence me soam cruelmente familiares diante do que viveram os agricultores e pescadores lagunares do V Distrito de São João da Barra.

Uma das coisas que se pode usar para avaliar o impacto de determinadas leituras é verificar se elas constroem pontes que nos permitam não apenas refletir sobre a realidade, mas também formular agendas capazes de escavar camadas ainda intocadas daquilo que se apresenta para nós como uma realidade aparentemente dada. No caso do livro de Rob Nixon, eu diria que a leitura permite construir várias pontes Rio-Niterói. E talvez seja justamente aí que resida a força maior de Slow Violence: depois de compreender como determinadas formas de violência são tornadas lentas, dispersas e invisíveis, fica muito mais difícil aceitar como naturais os territórios destruídos, as comunidades expulsas e as vidas sacrificadas em nome do desenvolvimento. A partir daí, aquilo que antes podia parecer apenas consequência inevitável do progresso passa a exigir outro nome: violência.

As queimadas da cana como expressão da violência lenta de Rob Nixon: uma nova forma de compreender um velho problema de Campos dos Goytacazes

A persistência da fumaça, da poluição atmosférica e da exposição cotidiana da população aos seus efeitos demonstra que algumas das formas mais graves de violência ambiental não ocorrem em grandes desastres, mas na repetição silenciosa de práticas que a legislação já deveria ter eliminado

Recentemente participei de uma banca de qualificação de Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFRJ. Durante a leitura do projeto, fiquei com a impressão de que havia espaço para ampliar sua fundamentação teórica e comecei a procurar autores que pudessem oferecer novas chaves de interpretação para o problema investigado. Nessa busca encontrei o livro Slow Violence and the Environmentalism of the Poor, publicado em 2011 por Rob Nixon, pesquisador sul-africano e professor do Departamento de Inglês da Universidade de Princeton. Apesar de sua enorme influência internacional, a obra continua inédita em português. Convencido da relevância de suas ideias, comprei um exemplar e, agora que o recebi, comecei sua leitura com bastante expectativa.

As primeiras páginas já deixam claro por que esse livro se tornou uma referência nos estudos sobre justiça ambiental. Nixon propõe o conceito de violência lenta (slow violence), definido como uma forma de violência que “ocorre gradualmente e fora de vista”, produzindo uma destruição retardada, dispersa no tempo e no espaço, que normalmente sequer é reconhecida como violência. Em vez de chamar atenção apenas para guerras, explosões, acidentes industriais ou grandes desastres ambientais, Nixon convida o leitor a olhar para processos cumulativos, como a contaminação química, a degradação dos solos, as mudanças climáticas, a perda da biodiversidade e a exposição permanente à poluição. São processos que se desenvolvem lentamente, dificultando tanto sua percepção pela sociedade quanto a responsabilização política daqueles que os produzem.

Enquanto avançava na leitura, tornou-se impossível não estabelecer um paralelo com uma realidade que há décadas faz parte da vida dos moradores de Campos dos Goytacazes e de outros municípios canavieiros do Norte Fluminense: as queimadas da cana-de-açúcar.

Ao contrário de um desastre industrial ou de um grande vazamento de produtos tóxicos, a queima da palha da cana não produz um único episódio catastrófico. Ela consiste em centenas de pequenos incêndios distribuídos ao longo de toda a safra. Cada um deles libera para a atmosfera grandes quantidades de material particulado fino (PM₂.₅), monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio, compostos orgânicos voláteis e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos. A literatura científica também demonstra que a combustão da biomassa pode reemitir metais-traço previamente acumulados no solo e na vegetação, entre eles o mercúrio, ampliando a toxicidade da fumaça respirada diariamente pela população.

Nenhuma dessas emissões, considerada isoladamente, costuma provocar uma tragédia imediatamente perceptível. O problema reside justamente na repetição cotidiana dessa exposição durante meses, ano após ano. Crianças, idosos, trabalhadores rurais e moradores das áreas urbanas respiram continuamente essa mistura de poluentes, aumentando progressivamente o risco de doenças respiratórias, cardiovasculares, inflamatórias e, potencialmente, neurológicas. É exatamente essa temporalidade que Nixon denomina destruição retardada (delayed destruction): a violência não explode diante dos nossos olhos; ela se acumula lentamente nos corpos, nos ecossistemas e nas estatísticas de adoecimento.

Há ainda outro aspecto fundamental da violência lenta: sua invisibilidade.

Uma explosão industrial produz imagens que ocupam imediatamente os telejornais. Uma enchente ou um rompimento de barragem mobilizam autoridades e geram forte repercussão pública. Já a fumaça das queimadas desaparece poucas horas depois. No dia seguinte, a cidade parece ter voltado ao normal. Entretanto, os contaminantes permanecem suspensos na atmosfera, depositam-se sobre o solo e continuam circulando no organismo das pessoas expostas.

No caso das queimadas da cana, essa invisibilidade assume diferentes formas. A primeira é temporal: os efeitos à saúde aparecem lentamente e dificultam a associação entre causa e efeito. A segunda é espacial: a fumaça ultrapassa os limites das propriedades rurais e alcança bairros urbanos cujos moradores não recebem qualquer benefício econômico da atividade sucroenergética. A terceira é epidemiológica: embora estudos demonstrem o aumento do risco de adoecimento associado à exposição prolongada ao material particulado, dificilmente se consegue atribuir um caso específico de doença a uma determinada queimada, favorecendo a diluição das responsabilidades. Por fim, existe a invisibilidade política. Durante décadas, a chamada “chuva de fuligem” foi naturalizada como parte da paisagem de Campos, transformando uma forma permanente de exposição tóxica em algo aparentemente inevitável.

Essa naturalização talvez seja uma das maiores vitórias do modelo de produção baseado nas queimadas. Afinal, quando uma população passa a considerar normal respirar fumaça durante boa parte do ano, a violência deixa de ser percebida como violência.

O mais preocupante é que essa situação não decorre da inexistência de instrumentos legais. Ao contrário. A legislação brasileira e a legislação fluminense caminham há anos no sentido de eliminar progressivamente as queimadas pré-colheita, especialmente onde a mecanização já é tecnicamente possível. No entanto, sucessivos adiamentos, flexibilizações e a fragilidade da fiscalização transformaram aquilo que deveria ser uma prática cada vez mais excepcional em uma rotina que continua afetando milhares de pessoas.

É justamente aí que o conceito de Rob Nixon ganha uma força extraordinária para compreender a realidade de Campos dos Goytacazes. A violência lenta não se manifesta apenas na fumaça que respiramos ou nas doenças que aparecem anos depois. Ela também se expressa na incapacidade — ou na falta de vontade política — de fazer cumprir normas criadas para proteger a saúde da população e o meio ambiente. Cada safra em que as queimadas continuam ocorrendo representa não apenas o descumprimento de um compromisso legal, mas a renovação de um modelo de desenvolvimento que socializa os danos ambientais e sanitários enquanto concentra os benefícios econômicos em poucos agentes da cadeia sucroenergética.

Talvez essa seja uma das mais importantes lições de Slow Violence and the Environmentalism of the Poor. Algumas das formas mais profundas de violência não chegam acompanhadas de explosões, sirenes ou imagens espetaculares. Elas se repetem todos os dias, tornam-se parte da paisagem e acabam sendo aceitas como inevitáveis. Em Campos dos Goytacazes, a persistência das queimadas da cana constitui um exemplo emblemático desse processo: uma violência lenta, silenciosa e politicamente tolerada, que continua comprometendo a saúde da população apesar do conhecimento científico acumulado e da existência de instrumentos legais destinados justamente a impedir sua continuidade.