De Rob Nixon ao V Distrito: a violência lenta escondida sob o nome de desenvolvimento

Quinze anos depois de sua publicação, o livro de Rob Nixon oferece ferramentas para compreender como grandes projetos econômicos transformam populações em “deslocados que não saem do lugar” e fazem da destruição de territórios e modos de vida um custo aparentemente natural do progresso

Acabei de ler, ao menos pela primeira vez, o livro Slow Violence and the Environmentalism of the Poor, e reconheço que não foi uma leitura fácil. A dificuldade não nasceu apenas da elaborada teia de conceitos e autores que Rob Nixon utilizou para deixar claro o que vem a ser violência lenta, mas também do uso de um vocabulário altamente erudito, o que diminuiu a velocidade do processo de assimilação do conteúdo denso que a obra traz.

Não pretendo aqui fazer uma resenha da obra, pois considero esse tipo de esforço algo para o qual não tenho a devida competência ou paciência para realizar com o necessário calibre que um livro como esse merece. O ponto que quero levantar é que, apesar de ter sido publicado originalmente em 2011, as questões levantadas por Nixon se mantêm lamentavelmente atuais, e com um toque de agravamento, a começar pela crise climática que hoje sacode o planeta e ganha tons dramáticos, especialmente se você está em um país europeu assolado por uma seca extrema ou no sudoeste da região Sul do Brasil, que resolveu se tornar uma passarela para tornados poderosos.

Considero que a força de Slow Violence está em oferecer uma visão apurada, usando autores-ativistas, como ele os chama, de como o capitalismo, especialmente aquele totalmente dependente de combustíveis fósseis, tem operado para criar deslocados que não saem do lugar, transformando-os em seres humanos invisíveis diante da necessidade de sustentar uma sociedade ancorada em altos níveis de consumo, mesmo que, para isso, seja preciso criar situações extremas de violência que permitam a imposição desse modus operandi societário.

Outro aspecto é que a forma pela qual Nixon faz sua compilação de casos garante a atualidade de sua análise, ainda que hoje vivamos um agravamento das condições de exploração, extração e expulsão de comunidades que têm o azar de estar no caminho de grandes projetos econômicos, seja no delta do Níger ou na Foz do Amazonas.

Particularmente importante é a noção, apresentada por Nixon já na introdução do livro, dos deslocados que não saem do lugar e que têm suas vidas completamente arruinadas pela captura de seus territórios tradicionais. De quebra, Nixon ainda recupera o conceito de “refugiados do desenvolvimento”, que reforça a noção de que, sob a desculpa de construirmos sociedades mais progressistas, o que se tem é a criação de grupos que são expulsos de suas áreas tradicionais de reprodução social e econômica. Queira ou não, essas formulações contidas em Slow Violence me soam cruelmente familiares diante do que viveram os agricultores e pescadores lagunares do V Distrito de São João da Barra.

Uma das coisas que se pode usar para avaliar o impacto de determinadas leituras é verificar se elas constroem pontes que nos permitam não apenas refletir sobre a realidade, mas também formular agendas capazes de escavar camadas ainda intocadas daquilo que se apresenta para nós como uma realidade aparentemente dada. No caso do livro de Rob Nixon, eu diria que a leitura permite construir várias pontes Rio-Niterói. E talvez seja justamente aí que resida a força maior de Slow Violence: depois de compreender como determinadas formas de violência são tornadas lentas, dispersas e invisíveis, fica muito mais difícil aceitar como naturais os territórios destruídos, as comunidades expulsas e as vidas sacrificadas em nome do desenvolvimento. A partir daí, aquilo que antes podia parecer apenas consequência inevitável do progresso passa a exigir outro nome: violência.

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