Um epitáfio para Roberto Kant de Lima

Morre Roberto Kant de Lima, professor da UFF e referência em segurança pública no Brasil

Roberto Kant de Lima, antropólogo e professor da UFF em Niterói

Soube hoje do falecimento do professor titular da Universidade Federal Fluminense, Roberto Kant de Lima, o que sem dúvida foi uma notícia triste para quem o conheceu. Tive a oportunidade de uma convivência mais próxima com o professor Kant quando ele esteve envolvimento no esforço de consolidação do Centro de Ciências do Homem (CCH) da Universidade Estadual do Norte Fluminense, a convite do professora Lana Lage da Gama Lima no final dos anos de 1990.

Com o professor Kant aprendi que se pode ser academicamente rigoroso sem se perder o bom humor e o senso crítico frente às muitas idiossincrasias que marcam a vida universitária. Assim que nos conhecemos ele generosamente me presenteou com sua obraA Antropologia da acadêmia: quando os índios somos nós”, uma espécie de autobiografia onde se utilizou da sua experiência como estudante de doutorado na Universidade de Harvard para refletir sobre as dinâmicas e relações de poder presentes no ambiente acadêmico, mostrando como as hierarquias e disputas simbólicas moldam as práticas e os discursos dentro da universidade.  Nesse trabalho, que ele mesmo considerava desprentesioso, considero que o professor Kant nos ofereceu uma essencial para compreender as complexidades e contradições inerentes ao mundo acadêmico.

Apesar da temporada do professor Kant ter sido relativamente curta no CCH, guardei e cito sempre um bordão jocoso pelo qual ele demonstrava sua incredulidade sobre certas posições e declarações que claramente afrontavam a lógica. Nessas ocasiões, o professor Kant soltava um “eu estou confusa”, que era normalmente seguido de alguma observação mais direta sobre o que o interlocutor acabava de dizer. Com Kant de Lima, não havia muita paciência para aquilo que afrontava a sua inteligência.

Mas eu nunca confundi a irreverência e o aparente desprezo pelos ritos com falta de substância ou de profundidade, ou menos ainda de despreparo. A trajetória acadêmica pretérito e posterior ao CCH demonstra que ele deu o melhor de si na labuta acadêmica, algo que todos deveriam almejar, mas nem todos conseguem fazer.

Lembro que em nosso último encontro presencial que ocorreu em uma madrugada friorenta rodoviária de Caxambu (MG) onde esperavamos a partida  do ônibus de retorno ao Rio de Janeiro após participarmos de uma das reuniões anuais da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), ele mais uma vez foi extremamente gentil comigo, e me desejou sorte na continuidade do processo de construção do CCH, da qual ele, mesmo à distância, continou contribuindo para consolidar.

Com certeza, a perda física de Robert Kant de Lima será mais sentida pelos seus familiares e companheiros de construção da UFF. Mas esta perda afeta para além da família e dos colegas da UFF, pois, sua contribuição e influência intelectual foram muito mais além, deixando suas marcas até aqui na Uenf.