Por Douglas Barreto da Mata
Em 2026, o Estado do Rio de Janeiro e seus personagens políticos vão enfrentar “escolhas” dignas daquela apresentada a Neo (Keanu Reeves), o herói da saga Matrix, ou seja, vamos de pílula azul ou de pílula vermelha? Um dos principais concorrentes, o Presidente da Assembleia Legislativo do estado do Rio de Janeiro (Alerj), o deputado estadual Rodrigo Bacellar está diante dessa “escolha de Sofia” (perdão por misturar as referências cinematográficas). No mundo da simbologia política, dos gestos, dos vídeos e fotos das redes sociais, são inequívocos o poder e influência do parlamentar estadual.
Ao mesmo tempo, no mundo chamado real, esse poder e capacidade de articulação nos bastidores da política são flagrantes. Ninguém chega à presidência da Alerj sem ter predicados, isso é óbvio, apesar de seus detratores argumentarem que a fraqueza evidente do governador Cláudio Castro, que chegou ao cargo sem um grupo, ou um projeto, tornaram a tarefa da captura do governo pelo deputado Bacellar bem mais fácil.
Poder ser, mas chegar onde chegou não foi pouca coisa. Porém, dar o salto para a cadeira de governador (re)eleito, para além das substituições ou renúncia do atual titular, em tática rumo às eleições, é algo bem mais complexo.
Aí eu recorro às pílulas azul e vermelha. No filme, a escolha é entre a versão da realidade e a realidade em si, embora a história do filme ainda traga outra questão filosófica, a saber, se a escolha é realmente livre, ou se ela é limitada pelas opções apresentadas, restringindo a imprevisibilidade do resultado a uma condição já determinada antes. É a eterna discussão do livre arbítrio, que atormenta a Humanidade, porque se Deus é Deus, e sabe de tudo, o passado, o presente, e o futuro, como dizer que há uma escolha livre se Ele já sabe o que vamos escolher?
Vamos deixar essa confusão de lado, porque o texto pretende ser simples, embora trate de tema igualmente complexo. Rodrigo Bacellar pode ter feito a pior escolha de sua vida. Ao se colocar como um pré candidato a governador, desde sua reeleição para a presidência da Alerj, pelo menos, ele incorre no risco de sepultar sua meteórica carreira. Não porque ele não reúna condições ou qualidades para o cargo, e esse julgamento é, em última instância, do eleitor, de seus aliados, e dele mesmo.
A questão não é essa. O problema é se colocar em rotas que o levam a quartos escuros sem portas de saída ou janelas. Parece ser o caso, principalmente porque ele, há muito tempo, não permitiu a si mesmo outra alternativa, que não fosse a declarada por seus atos e decisões. Não é muito saudável se apresentar como: ou sou candidato a governo do Estado ou não tenho outro caminho.
Em primeiro plano, há um fator real e inexorável: Eduardo Paes é o franco favorito nesta corrida, apesar de que haja sempre espaço para o imponderável em corridas eleitorais. Comparações são inúteis.Cada momento é um momento, e mesmo as derrotas de Paes nos pleitos anteriores devem ser consideradas em seus contextos. Essas condições não se repetem, embora sirvam como balizas para estudos e estratégias.
Porque se adotarmos a lógica dos partidários de Bacellar, de que Paes é um “cavalo paraguaio” quando concorre a governador, temos que lembrar que nenhum presidente da Alerj chegou ao Palácio Guanabara. Não de forma direta, pois o exemplo mais recente, Cabral era senador quando foi eleito.
Os obstáculos de Bacellar são outros. Qualquer pessoa honesta o suficiente para torcer por esse ou aquele, mas sem contaminar seu olhar, sabe dizer que nas cúpulas partidárias, que formam aquilo que se chama de campo da direita, PP, União, PL, MDB, há um consenso formado: Nenhum dos caciques quer a candidatura de Bacellar, e nesse grupo há os que admitem por falta de opção e os que não admitem de jeito algum. Nenhum, exceto Antônio Rueda.
Todos os movimentos recentes, as falas e cotoveladas apontam isso. Em dias próximos da maior manifestação evangélica do Estado, A Marcha Para Jesus, um dos líderes do segmento, Silas Malafaia verbalizou de forma direta: “Com ele eu não vou”. O pior: lá no calor do evento, o pastor Malafaia fez questão de agradecer a Castro e ao prefeito da cidade, Eduardo Paes. Bacellar não foi ao evento, assim como Paes também não foi, mas o nome de Bacellar foi ignorado, ao contrário do prefeito.
Os maledicentes dizem que Malafaia ampliou o vídeo de Wladimir Garotinho, que dias antes falou o mesmo. É claro que o prefeito Wladimir Garotinho não é “dono” do eleitorado em sua cidade, mas quem obteve 192.000 votos para reeleição a prefeito, não pode ser minimizado como um obstáculo. A cidade de Campos dos Goytacazes é conhecida por ser um pólo regional, e mais, foi a única cidade do interior que elegeu governadores, e que hoje tem um outro pretendente, que é presidente da Alerj.
Ora, então, mesmo que os amigos e aliados de Bacellar digam que a declaração do prefeito é pouco relevante, a verdade é o contrário, a cidade tem muito peso político, e irradia seus humores pelo interior. Depois a família Reis atacou em dois flancos, ao mesmo tempo que protagonizou um chamou-não chamei Wladimir para ser candidato a governador, abraçado aos pais dele, o patriarca Washington entrou em rota de colisão com o governador Castro, sobre a tarifa de trens.
Dirão os otimistas que esses movimentos são comuns, são próprios de “uma dança do acasalamento”, onde os gestos ríspidos são uma forma de aumentar o cacife de quem vai aderir, com o objetivo a tirar compromissos mais vantajosos de quem quer o apoio. Pode ser. Mas a diferença entre a escaramuça de aliança e a uma resistência consistente é a dose, o alcance e amplitude do movimento.
Quem olha o cenário tem a nítida impressão de que se houver uma candidatura de Bacellar, ela corre o risco de ter gasto toda sua força para se impor, para se colocar no “grid”, deixando o competidor sem combustível para corrida. Ainda que concorra, e ainda que ganhe, outros dizem que é muito esforço para governar por 4 anos, já que lhe seria vedada nova reeleição. Seria uma vitória de Pirro.
No entanto, essa chance de vitória é bem pequena, como dizem as projeções. O fato é que Bacellar, apesar de ter sido o homem mais forte do governo Castro, pode estar sendo utilizado por este último como ponta de lança para forçar uma vaga para o atual governador ao senado na chapa do PL, que tem vagas de menos e gente demais querendo. Por outro lado, o melhor que o PL tem a oferecer, o apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro, parece não estar disponível a Bacellar. Salta aos olhos que o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu filho Flávio hesitem tanto em manifestar apoio a Bacellar.
Cautela? Como assim? Esse cuidado só se justifica caso eles considerem outra alternativa senão o Presidente da Alerj, certo? Caso contrário, qual seria o óbice a ungir Bacellar e fortalecer seu nome desde já, junto ao eleitorado cativo do ex-presidente, que não conhece Bacellar, como mostram as pesquisas, e que, ao mesmo tempo, rejeitam o atual governador e o seu governo, justamente o ponto de apoio e lançamento de Bacellar? Não é urgente reverter esse quadro com as bênçãos do ex-presidente? Por essas razões, é justo supor que Bacellar esteja sendo encaminhado para um ponto sem retorno, sem plano B.
Seja pela rejeição dos caciques aliados, seja pela indisposição dos Bolsonaro, seja pelos interesses cruzados de que diz lhe apoiar, ou pelo favoritismo do adversário, e seu arco de influência, que vai desde a centro esquerda, passando pelo centro, além de ser o preferido das organizações Globo, dos bancos, e de empresários chamados “tradicionais”, parece que, apesar do compreensível ufanismo bairrista de analistas locais, a candidatura de Bacellar pode ser descrita como um parto complicado.
A História tem poucos exemplos de candidaturas impostas, a ferro e fogo, que deram bons resultados. Geralmente, candidaturas bem sucedidas derivam de amplos consensos, de um “processo natural”, mesmo que haja focos de oposição aqui e ali. Se olharmos para a pré candidatura de Bacellar poderemos saber exatamente qual das alternativas acima ela se encaixa. Então, um outro pensamento que me ocorre quando penso em escolhas, em pílulas azuis ou vermelhas é: Às vezes, o desastre não é escolher entre um caminho ou outro, mas sim que essa opção nos leve a não termos mais saída alguma.
É preciso adequar nosso apetite àquilo que podemos mastigar, engolir, digerir, e, botar para fora depois.

















