Tribunal de Justiça do RS libera uso de agrotóxico 2,4-D para safra 

Denúncias de deriva do 2,4-D caem, mas produtores de uva continuam sofrendo  perdas | GZH

Deriva de 2,4-D causa morte de parreirais na campanha gaúcha

Por Sílvia Lisboa para “Matinal”

Em decisão publicada em 15 de setembro, o desembargador Francesco Conti, do Tribunal de Justiça gaúcho, manteve a decisão que suspendeu a proibição do agrotóxico 2,4-D. Com isso, o herbicida poderá ser usado no plantio da soja, que começa neste mês.

O governo de Eduardo Leite (PSD) entrou com um recurso contra a decisão da juíza Patrícia Laydner, titular da Vara de Meio Ambiente, que proibiu temporariamente uso do herbicida até que o estado delimitasse zonas de exclusão ou um zoneamento que protegesse as culturas da uva, da maçã, das oliveiras e a fruticultura, em geral, que são destruídas pela deriva do herbicida. O recurso pedia o efeito suspensivo da decisão da primeira instância, alegando que “as perdas na Região da Campanha poderiam ser superiores a 30% nas lavouras de grãos.”

Conti julgou procedentes os argumentos da ação civil pública em nome de duas associações de produtores de vinho e maçã que entraram com a ação civil pública em 2020, solicitando a proibição do uso do 2,4-D, um dos componentes do Agente Laranja, uma arma química usada na Guerra do Vietnã. O produto é muito usado nas lavouras da soja, milho, arroz e outros grãos e cereais, mas inviabiliza os cultivos de frutas e oleaginosas. O desembargador entendeu que, até ser analisado o mérito da apelação do estado, que quer manter o herbicida em uso, fica suspensa a proibição. Ou seja, até a ação não ter transitado em julgado, o 2,4-D seguirá liberado ao uso no Rio Grande do Sul.

Entramos em contato com a Associação de Vinhos Finos da Campanha, uma das autoras da ação, mas não obtivemos retorno até o fechamento desta notícia. O espaço segue aberto.

Para o deputado estadual Adão Pretto Filho (PT), vice-presidente da subcomissão sobre herbicidas hormonais da Assembleia Legislativa, a decisão é resultado da falta de diálogo do governo com os setores produtivos.

“O governo teria a oportunidade de dialogar com esses setores tão importantes, da fruticultura, da uva, das hortaliças, e tão afetados pelo 2,4-D e outros hormonais, mas de forma autoritária foi ao judiciário, pensando só no benefício econômico de alguns”, declara. “Lamentavelmente, a iniciativa foi tomada sem diálogo e de forma atrasada. A ciência e os pesquisadores já conhecem o mal que esses venenos fazem para o nosso estado.”

Além dos prejuízos aos cultivos de frutas e hortaliças, o 2,4-D causa danos à saúde humana. A Organização Mundial de Saúde (OMS) o classifica como possivelmente cancerígeno para humanos. Um dossiê da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) mostra que a substância está associada a problemas endócrinos, formação de câncer e malformações fetais.

A Assembleia Legislativa do RS criou uma subcomissão para debater o assunto que opõe o setor agrícola do estado. Em um relatório, a subcomissão propôs um novo marco regulatório com 10 medidas estruturantes que tentam melhorar as ações de fiscalização, regrar a aplicação do agrotóxico, criar um fundo para indenizar produtores atingidos e outro para premiar aqueles que conservam os biomas, entre outras ações.


Fonte: Matinal

A corrida para salvar fósseis expostos pelas enchentes recordes no sul do Brasil

Com a continuação das chuvas intermitentes, paleontólogos do sul do Brasil estão trabalhando para extrair ossos de dinossauros e outros antes que sejam danificados

Uma equipe de pesquisa do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia, no sul do Brasil, escava um sítio fóssil. Crédito: Janaína Brand Dillmann 

Por Meghie Rodrigues para a Nature

A chuva pode ser uma amiga ou inimiga para os paleontólogos. Ela pode lavar o solo ou erodir rochas, potencialmente revelando fósseis emocionantes , ou pode fazer com que espécimes delicados já expostos se desintegrem.

Em nenhum lugar isso é mais verdadeiro agora do que no sul do Brasil. Em maio, enchentes devastadoras no estado do Rio Grande do Sul revelaram pedaços de ossos de pelo menos 35 animais antigos, incluindo um esqueleto de 233 milhões de anos que está entre os fósseis de dinossauros mais antigos do mundo. Mas chuvas intermitentes e condições úmidas desde então têm feito pesquisadores correrem para recuperar outros espécimes menores e mais vulneráveis ​​que também são preciosos.

Somando-se à urgência está a natureza sem precedentes das enchentes. Entre 27 de abril e 27 de maio, a capital do estado, Porto Alegre, viu cerca de 66 centímetros de chuva — quase metade do que normalmente acontece em um ano, e muitas outras cidades em todo o estado também foram inundadas. Alguns sítios paleontológicos ainda estão debaixo d’água.

“Se os paleontólogos não estiverem presentes para coletar o material quando ele começar a aparecer, corremos o risco de perder parte dele para sempre”, afirma Leonardo Kerber, coordenador do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica Quarta Colônia (CAPPA) da Universidade Federal de Santa Maria, em São João do Polêsine.

Superando expectativas

Desde as chuvas de maio, o paleontólogo Rodrigo Temp Müller e seus colegas do CAPPA intensificaram o monitoramento dos locais de escavação perto de São João do Polêsine, que fica cerca de 280 km a oeste de Porto Alegre.

Um close de um fóssil de dinossauro

Paleontólogos descobriram esses ossos, pertencentes a um dinossauro carnívoro de 2,5 metros de comprimento chamado herrerassaurídeo, depois que enchentes devastaram o sul do Brasil. Crédito: Rodrigo Temp Müller

Em 15 de maio, cerca de duas semanas após chuvas torrenciais terem causado o transbordamento das margens do sistema fluvial do Rio Grande do Sul, Müller e a equipe descobriram um fóssil de 2,5 metros de comprimento de um dinossauro carnívoro e bípede pertencente à família Herrerasauridae. “Tínhamos certeza de que encontraríamos algo depois das fortes chuvas”, diz Müller, mas o espécime ainda superou as expectativas.

Os herrerassaurídeos surgiram e desapareceram durante o período Triássico (cerca de 250 milhões a 200 milhões de anos atrás) e foram os “primeiros predadores de topo a aparecer entre os dinossauros”, diz Aline Ghilardi, paleontóloga da Universidade Federal do Rio Grande do Norte em Natal, Brasil. Eles acabariam sendo substituídos durante o período Jurássico (200 milhões a 145 milhões de anos atrás) por dinossauros maiores chamados terópodes, que incluem carnívoros bípedes e de três dedos, como o Tyrannosaurus rex .

Alguns pesquisadores argumentam que os herrerassaurídeos foram os primeiros terópodes, mas essa designação ainda é controversa. “É por isso que as descobertas do CAPPA são tão importantes — elas podem nos ajudar a resolver questões em aberto como essa”, diz Ghilardi.

Trabalhando contra o clima

Mas tem sido difícil comemorar a descoberta, diz Müller. As enchentes afetaram quase 2,4 milhões de pessoas no Rio Grande do Sul, incluindo 183 indivíduos que morreram e 27 que ainda estão desaparecidos, de acordo com autoridades locais. “Pessoas perto do local da escavação perderam suas casas”, ele acrescenta.

Desde a descoberta do fóssil, Müller e seus colegas levaram pedaços de rocha e solo contendo o espécime Herrerasauridae de volta ao laboratório para extrair cuidadosamente os ossos. Eles removeram material suficiente até agora para ficarem cautelosamente animados: eles acham que pode ser o segundo fóssil mais completo desse tipo já encontrado.

Uma foto aérea de enchentes cobrindo estradas em Porto Alegre

Inundações recordes submergiram partes da capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, no início de maio. Crédito: Carlos Macedo/Bloomberg/Getty

Mas a equipe não pode relaxar ainda. Com a chuva continuando a cair intermitentemente, os pesquisadores ainda estão correndo para salvar fósseis de muitos animais menores — aqueles que geralmente não fazem manchetes, mas que ainda são importantes. “Todo mundo gosta de dinossauros grandes”, diz Kerber. Mas “a maior diversidade de espécies está sempre entre os animais menores”. Esses fósseis ajudam os paleontólogos a reconstruir como as espécies evoluíram e a descobrir detalhes sobre os ambientes em que viveram.

Os menores ossos de animais, grandes e pequenos, também são uma preocupação. Eles são os primeiros a desaparecer quando a chuva atinge um local de escavação, diz Juan Cisneros, paleontólogo da Universidade Federal do Piauí em Teresina, Brasil. “Eles são raros e mais difíceis de encontrar.” Ossos do ouvido em pequenos répteis, por exemplo, podem ter apenas milímetros de comprimento, mas eles revelam muito sobre o cérebro de um animal e quão inteligente ele pode ter sido.

Tesouro

Cerca de uma semana atrás, os pesquisadores do CAPPA descobriram o crânio de um bebê rincossauro — um réptil herbívoro com bico de papagaio que podia crescer em média até cerca de 1 metro de comprimento e dominou a Terra durante o Triássico médio ao final (247 milhões a 200 milhões de anos atrás). Embora esses fósseis de rincossauros sejam abundantes, Müller diz, “eles são importantes exatamente porque são abundantes”. Em particular, eles desempenham um papel estratigráfico na pesquisa porque marcam locais do Triássico, ele acrescenta. “Onde há um rincossauro, provavelmente haverá um herrerassaurídeo.”

A região rica em fósseis onde os paleontólogos estão trabalhando abriga 29 sítios de escavação, 21 dos quais a equipe do CAPPA conseguiu acessar desde as enchentes, de acordo com Müller e Kerber. Quatro ainda estão quase completamente submersos.

Uma coisa que funciona a seu favor é que o CAPPA é muito próximo. “Não precisamos planejar longas viagens de escavação, mas podemos estar no campo toda semana”, diz Müller. O próximo desafio que os pesquisadores enfrentarão é o que fazer com todos os fósseis que estão recuperando — o centro não tem um museu. “Seria importante ter um, não apenas para armazenar os fósseis que encontramos”, diz Kerber, “mas também para educar a população local sobre o quão rica é sua região”.

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-024-02794-8

E agora Marcelo, o rio transbordou e tudo acabou? Reflexões sobre o “day after” da hecatombe climática do RS

rio transbordado

Por João Anschau

“Fala Marcelo”, pede mais uma vez o locutor. E Marcelo convida novamente os plantadores de trigo para um dia de campo.

“E o que mais Marcelo?”, insiste o extraterrestre apresentador. Marcelo então aproveita e dá spoiler das novidades, novos manejos – entenda-se, agrotóxicos e insiste para que os parceiros não percam a janela de plantio das culturas de inverno.

“Fala Marcelo e o recado final”, mas antes, o acelerado radialista agradece, num verdadeiro gozo, o tempo dedicado a conversar e trazer luz para os ouvintes carentes de “sabedoria”. E Marcelo não se afrouxa e sentencia: “não podemos se entregar pro tempo”.

O relato descrito anteriormente não é ficção. O informe comercial, tratado como entrevista, aconteceu no mesmo dia em que a UFAL divulgou um estudo mostrando o nível de encharcamento do solo no RS.

Indo para o segundo mês do pós-Veneza, o nosso laranja síndico da massa falida fala somente em reconstruir. É música triste de uma nota só. Ele quer nos fazer crer que temos que continuar para manter o mesmo. Nenhum mea culpa, algo que a direita costuma cobrar vorazmente da esquerda, a respeito do acontecido. Ao contrário, o que mais ouvimos são palavras anêmicas que fogem do problema. O nosso comandante parece estar sem bússola e deixa claro em suas manifestações que emergência climática não tem nada de urgente. Ele parece muito com aqueles desprovidos de criatividade que enxergam na bebida alcoólica o único gancho para as suas sofridas composições. Findando cada dia, eu tenho a impressão de que somos governados por pessoas com deficiência cognitiva severa.

Há algumas semanas, provocado por um grupo de jovens a respeito de minhas esperanças quanto ao futuro (futuro?), respondi que eu aposto num triplo: um meteoro para acabar de vez com esta bagaça; a volta dos dinossauros; ou, finalmente, a dupla de ratos Pink e Cérebro conseguindo dominar o planeta, colocando os ratos humanos em seus devidos esgotos.

Não é o pessimismo que aduba os meus dias. A minha resposta é fruto do descrédito. Estamos carentes e essa falta é resultado de outra: lideranças no plural. Nos acostumamos a ficar no aguardo de uma fala, de um gesto ou uma indicação do mesmo de sempre. Terceirizou-se o articular, conquistar e toda e qualquer iniciativa que necessite pôr as mãos na massa e nas maçãs colhidas direto na fonte alimentar natural. Dizem os especialistas que tudo se faz pelas redes, e esse negócio de juntar gente para conversar, ouvir, trocar uma ideia ou começar uma revolução – nem que seja pra dizer que são contra os “comunistas” -, é papo de analógicos. As redes e a pandemia de COVID-19 realmente nos tornaram “melhores”. PS: Para eu ser justo, de acordo com a revista Science, após a passagem do furacão Maria, os macacos de Porto Rico ficaram menos agressivos e mais solidários. Outra vez os irracionais nos dando a letra. 

Um modo todo estranho de indignação faz com que percamos o senso de prioridade e de responsabilidade. Atualmente, somos envolvidos pela teia chamada comoção, arquitetada pela senhora emoção que não costuma dialogar com a razão. Não são apenas os dejetos ou lixo produzido e reproduzido que fazem parte de nossa paisagem cada vez mais concreta e abstrata de qualquer alteração. Nos tornamos o exército de Brancaleone, nos diferenciando dos originais pela falta de talento e de coragem. 

“Admirável Mundo Novo”, do genial e visionário Aldous Huxley, parece ter sido escrito para o agora. Uma sociedade alienada, sob controle e estruturada em valores pré-definidos, distante da realidade e submissa, além de achar normal a padronização em detrimento da pluralidade, parece muito com o “vale a pena ver de novo”. A obra cai como uma luva para definir o contemporâneo céu, sol, sul, terra embarrada, cor desbotada, onde muito do que se planta não cresce e o que mais floresce são as dúvidas e dívidas.

Em alguns locais alagados na capital gaúcha foram encontradas piranhas – sem necessidade de trocadilhos infames – e essa informação passou batida como se fosse normal. Mexemos com a estrutura bem bolada dos demais que habitam essas paragens e as consequências estão aí, agora, também, mordendo os calcanhares dos desatentos. Parafraseando o saudoso Eduardo Galeano, a injustiça climática é como as serpentes e só morde os pés descalços dos periféricos.

Calma, que tem mais. Em Caxias do Sul, o mesmo vereador que destilou toda a sua estupidez – sóbrio e limpo, eu imagino – xenofóbica contra nordestinos, agora, resolveu demonstrar que ignorância ambiental não é fruto apenas do negacionismo. É um fermento que faz crescer o ódio que mira sempre um “inimigo” indefeso e tido como empecilho. As árvores, na cabeça do edil “e”diota, são as responsáveis pelo evento climático que, diferente de seu mandato parlamentar, não tem hora pra acabar. E nós bancamos esse “democrata” quadrúpede ainda não domesticado. Umberto Eco tem razão. Antes, um viva à liberdade de expressão.

E como passamos pelo mês das festas juninas, pipocam pedidos nada envergonhados de senhores sem-vergonha. O setor privado, representado por estruturas que lhes garante zero questionamento da base da pirâmide, quer dinheiro de quem, na visão deles, só atrapalha o “desenvolvimento”. Quando a água invade as camas dos trabalhadores, o Estado é lembrado para acudir… os mega/maxi empresários. E o prêmio “faz a diferença” vai para… os indiferentes com a aflição alheia. Ou como escreveu Oswaldo Montenegro é “muito deleite pra pouca dor”. 

Para além dos ventos, granizo e chuvas, tudo em excesso, temos também a falta de respostas. As consequências – causas são cristalinas apesar da sujeira – que tornaram o Rio Grande do Sul uma grande fazenda não são discutidas. Tá tudo dominado e bloqueado por um discurso de que a palavra de ordem é união e de que agora é hora de reerguer. Refazer quantas vezes? Uma fórmula que gera divisas para os agraciados de sempre e passivos humanitários para o lumpesinato, também conhecidos como buchas de canhão. Essa movimentação feita no modo prende a corrente e arrebenta o que estiver pela frente em nome do “deus” cifrão tem credores que, ao que parece, já mandaram vários recados e todos foram solenemente ignorados ou colocados na gaveta do um dia se vê o que faz. Senhores dos anéis cravejados de sangue inocente, chegou a hora do encontro de contas. E agora? O trator, o machado e a motosserra não podem ser culpados ou puxar uma “cadeia” sozinhos. São instrumentos que, como nós, legitimam novas tragédias. Campanhas de solidariedade são importantes, mas não podemos ficar apenas no doar itens de primeira necessidade, enquanto outros deram, sem consulta prévia, suas vidas.

Os refugiados ambientais não são frutos do acaso ou obra do divino, mas resultado contábil borrado de um modelo de sociedade que deu, dá e continuará dando ruim. Vida que segue, pra esta gente, não é apenas mais uma frase de efeito, mas efeito comportamental do vamos esticar a corda mais um pouquinho e arranjar um local “mais” seguro pra essa indiada até a próxima enxurrada. Deslocamentos humanos serão romantizados ou transformados em histórias de superação com exibição em horário nobre? 

Pode piorar? Sempre. “Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra…” passou as divisas do rios Mampituba e Uruguai. A bancada ruralista gaúcha, não satisfeita em testemunhar os desastres ambientais e sociais repetidos, agora quer replicar a nossa desgraça para os outros. Um projeto de lei, desconhecido da imensa maioria, como sempre acontece, infelizmente, pretende dar permissão para acabar com quase 50 milhões de hectares de campos nativos. O relator do absurdo é o deputado tucano Lucas Redecker, nascido em uma das regiões mais atingidas no estado. Nobre representante do poder que emana do povo, vide as áreas de proteção ambiental na volta do Rio Taquari que não chegam a um terço do que já foram um dia. O senhor me faz lembrar a modelo Nana Gouvêa que costumava fazer selfies em locais devastados por alguma tragédia e achava que estava tudo certo registrar e faturar com a desgraça alheia. Recentemente elas frearam o ímpeto coronelês de Arthur Lira e o PL – duplo sentido bem oportuno – do estupro. Quem vai puxar o bridão dos senhores do engenho, acionistas e financiados?

Na hora da tormenta, minha mãe, dona Anita, costuma queimar folhas de palma. O faz, segundo ela, para afastar o mau tempo. José Lutzenberger e o padre jesuíta Pedro Balduíno Rambo foram lembrados, há algumas semanas, também na hora do desespero. Mas, ao que parece, o tempo já abriu, e seus préstimos de sabedoria e conhecimento não serão mais necessários por agora. Vale o mesmo para o Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, descoberto pelos pautadores de nossas vidas, como se novidade fosse, após 60 anos de pesquisa, extensão e ensino. O negacionismo não é obra de ‘jair’ apenas. É uma construção simbólica que reza pela cartilha Chacrinha: eu estou aqui para confundir; eu não estou aqui para explicar.

Em alguns meses teremos eleições municipais. Eu estou apostando uma garrafa de vinho produzida sem trabalho escravo que o tema mudanças climáticas receberá o mesmo tratamento dado àquela criança que quer algo e a mãe responde que na volta a gente compra. Por mais que pesquisadores, cientistas, extensionistas, ambientalistas e outros tantos comprometidos com a vida da mãe Terra e seus filhos de todas as espécies batam seus tambores, a triste e covarde melodia da conformidade, da ignorância e da indiferença ditará os passos da maioria. O poder econômico desarma todos os alarmes e conta para isso com o aparato servil e parcial da mídia tradicional, um escudo bem alimentado que faz o trabalho de aquietar mentes e corações. Para além do Município que queremos é oportuno perguntar “que amanhã sua candidatura defende?”

No próximo dia 8 de julho vamos “comemorar” uma década do 7 a 1. Vivemos um grande looping onde derrotas são celebradas e o 20 de setembro guasca não me deixa faltar com a verdade. O senso comum é modulado de tal forma que torna qualquer questionamento um ato de rebeldia. Uma receita básicona e de simples preparo, que prevê subverter a ordem imposta que nos faz acreditar que somos meros passageiros, sem responsabilidades e com o bilhete de partida comprado com destino incerto, é tida como heresia. E na melhor das utopias, faltam pulmões para gritar e apontar o caminho, e no horizonte não aparece, nem que seja, um Dom Quixote para movimentar os moinhos da insurreição.

Tudo se encaminha para que no final não seja a esperança a última a morrer.

As enchentes devastadoras do Brasil atingiram mais duramente a “população negra da periferia”

Os bairros mais pobres de Porto Alegre, muitas vezes mais próximos dos rios e com a pior infraestrutura, sofreram o impacto da crise

sarandi rsHomens olham para uma rua inundada em Sarandi, uma das mais atingidas pelas fortes chuvas em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, em 27 de maio de 2024. Fotografia: Anselmo Cunha/AFP/Getty Images

A esposa e os quatro filhos partiram em busca de abrigo com parentes, mas Ferreira, 51 anos, quis ficar: seu pai havia construído a modesta estrutura térrea e ele morou lá a vida toda.

Pela manhã, porém, a água lamacenta chegava até seu peito e ele sabia que não tinha escolha a não ser fugir.

A casa passou quase um mês sob a água fétida, poluída por esgoto, animais mortos, restos de comida e combustível de milhares de veículos submersos.

pessoa vestindo calça e suéter preto fica no portão em frente à casa com uma pilha de tábuas e itens empilhados em frente ao portão

Marcelo Moreira Ferreira. Fotografia: Fornecida

Quando Ferreira regressou numa manhã recente para começar a limpeza, uma mancha castanha a cerca de 1,8 metros acima das paredes ainda marcava a marca da água alta.

Para ajudar a mascarar o fedor, ele acendeu um incenso. Depois examinou a ruína: tudo o que sua família possuía estava em uma imensa pilha de escombros em frente à casa, esperando para ser recolhido.

“Temo que a água suba novamente, mas voltamos porque é o único lugar que temos”, disse ele.

Ferreira, um homem negro, vive em Sarandi, um dos bairros mais atingidos pelas cheias que mataram 175 pessoas, deslocaram centenas de milhares e deixaram mais de um milhão sem serviços essenciais como electricidade e água potável.

E embora os danos tenham afectado milhões de pessoas, a população negra da região foi a mais atingida: pesquisas recentes mostraram que as áreas onde as águas das cheias atingiram o pico mais alto, se espalharam mais e permaneceram por mais tempo foram aquelas com a maior proporção de residentes afro-brasileiros.

“As pessoas dizem: ‘As enchentes atingiram todo mundo’”, disse o geógrafo Paulo Soares, pesquisador do Observatório das Metrópoles, que participou do estudo. “Mas quando refinamos a pesquisa, vemos que – embora tenha atingido a todos de uma forma ou de outra – atingiu alguns grupos com mais força.

Em Porto Alegre e cidades vizinhas, os bairros mais pobres – muitas vezes mais próximos dos rios e com a pior infraestrutura – foram os mais afetados.

Historicamente, as pessoas se mudaram para bairros como Sarandi, e os vizinhos Farrapos, e Humaitá porque eram mais acessíveis.

“E eram mais baratos porque foram inundados durante a grande cheia de 1941”, disse Soares.

mapa rs

Em 1941, as enchentes duraram 22 dias e inundaram 15 mil casas em Porto Alegre. O principal rio da cidade, o Guaíba, atingiu 4,76 metros de profundidade.

Esse costumava ser o padrão para inundações extremas, mas em maio deste ano todos os recordes foram quebrados. Mais de 300 mil casas foram inundadas só em Porto Alegre e o Guaíba atingiu 5,35 metros no dia 5 de maio.

Outro estudo recente mostrou que a queima humana de combustíveis fósseis e árvores tornava as inundações pelo menos duas vezes mais prováveis, enquanto as falhas nas infra-estruturas agravavam os danos.

Mais de 420 mil pessoas ainda estão deslocadas e 16 mil vivem em abrigos.

O governo federal do Brasil e o governo do estado do Rio Grande do Sul anunciaram pagamentos de ajuda totalizando cerca de £ 1.000 (US$ 1.273) por família às pessoas afetadas, mas para muitos – incluindo Ferreira – os subsídios são apenas uma gota no oceano.

“Eu trabalho como pintor de paredes. Se eu não trabalhar, não recebo salário e não trabalho há um mês. Estamos sobrevivendo graças às doações. Vou ao quilombo buscar comida.”

“Quilombo” é uma palavra de origem bantu que, durante os 350 anos de escravidão no Brasil, referia-se a comunidades estabelecidas por escravos fugitivos.

Agora a palavra também é usada para grupos comunitários negros tanto no Brasil rural quanto urbano. Hoje, existem cerca de 3.500 quilombos autodeclarados no país, incluindo o Quilombo dos Machado, a cerca de 500 metros da casa de Ferreira, onde a população local se reuniu para distribuir doações às famílias afetadas.

Cerca de 20 voluntários se revezam na distribuição de quatro refeições diárias (café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar), cestas básicas e colchões. As doações vêm de todo o país.

Luiz Rogério Machado, 43 anos, mais conhecido como Jamaika, próximo ao Quilombo dos Machado.Luiz Rogério Machado, 43 anos, mais conhecido como Jamaika, próximo ao Quilombo dos Machado. Fotografia: Fornecida

“Estamos operando 24 horas por dia, 7 dias por semana”, disse o líder quilombo, Luiz Rogério Machado, 43 anos, mais conhecido como Jamaika.

Atendendo cerca de 2.500 pessoas por dia, o centro está em funcionamento desde 2 de maio e não tem planos de fechar tão cedo. “Só quando esse inferno acabar”, disse Jamaika.

Jamaika disse que a história recente já mostrou que a população negra do Brasil muitas vezes sofre o impacto das crises de saúde pública.

“Quando veio a pandemia de Covid, já sabíamos qual população iria morrer… Então, com as enchentes não seria diferente. Sabíamos que a mais afetada seria a população negra da periferia”

Soares, o geógrafo, ressaltou que os cidadãos brancos do Rio Grande do Sul foram afetados e, embora os bairros mais atingidos tenham uma proporção maior de negros, eles ainda são predominantemente brancos. Os bairros mais ricos também foram gravemente afetados, assim como a cidade de maioria branca, Eldorado do Sul.

O pesquisador disse que algumas pessoas ficaram surpresas com os resultados do estudo por um motivo específico – até porque o Rio Grande do Sul é amplamente visto como uma das regiões “mais brancas” do Brasil.

Até o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, disse durante recente visita que não sabia que havia “tantos negros” no estado.

Desde o século XIX, as ondas de imigração alemã e italiana para a região – parte de um projeto governamental para “embranquecer” sua população – tiveram um claro impacto na demografia do Rio Grande do Sul: 78,4% de sua população é branca, segundo dados o censo de 2022 – quase o dobro do valor nacional de 43,5%.

Mas também existem 2,3 milhões de negros – 21% da população do estado, conhecidos como gaúchos.

Os negros gaúchos foram os responsáveis ​​por instituir o que mais tarde ficou conhecido como Dia da Consciência Negra, que este ano será comemorado pela primeira vez como feriado nacional.


Fonte: The Guardian

Enchentes no RS: a entrevista que não foi publicada porque entrevistado se recusou a confirmar a pauta do repórter

Jurandir-Malerba-arquivo-pessoal(Foto: Jurandir Malerba / Arquivo Pessoal)

Por Jurandir Malerba

Sou Professor Titular de História da UFRGS e reporto a seguir um episódio revelador do modus operandi de certos veículos de imprensa brasileiros. Em meio à tragédia que vivemos no Rio Grande Sul, semana passada um jornalista de veículos reacionários da grande imprensa entrou em contato pedindo uma entrevista sobre a recente tragédia climática no Rio Grande do Sul, quando choveu, em uma semana, dez vezes a média histórica para todo o mês de maio, causando mortes e destruição. As perguntas enviesadas já evidenciavam para onde o jornalista queria levar a matéria: uma crítica da atuação do Estado, louvando ações individuais da “sociedade civil”, reproduzindo a fake de que o “povo” salvou o povo. Em minha devolução, posicionei-me contra o viés inscrito no questionário, não obstante tenha me disposto a respondê-lo, até como um contraponto àqueles que atenderiam às expectativas do editorial. Segue a reprodução integral das perguntas e respostas:

1. Por que o brasileiro tem sido tão solidário com os gaúchos?

Uma tragédia dessa dimensão, uma das maiores da história do Brasil, ao lado do rompimento da barragem em Brumadinho (2019) e da hecatombe da pandemia de Covid no Brasil (2020-2021) não há como passar incólume à população brasileira, que sempre foi majoritariamente solidária, exceto uma fração, nada desprezível numericamente, de classe média. Por outro lado, não se pode desconsiderar o efeito “poderia ser comigo”, já que a incompetência e a má gestão pública, principalmente nos níveis municipal e estadual, é de conhecimento de todos. Pesquisa da Confederação Nacional de Municípios desta semana revelou que 8 em cada 10 prefeitos do país assumem despreparo para lidar com eventos climáticos extremos. E todos sabem, até os negacionistas, que os eventos vão se intensificar em número e potência

2. Houve momentos parecidos na nossa história? Quando?

Certamente, como a enchente histórica aqui mesmo em Porto Alegre de 1941. Desconsiderando o modelo de urbanização criminoso europeu de avançar a cidade sobre o rio, aquela enchente foi um fenômeno natural. Mas esta, de 2024, não! Entre 1950 e começo da década de 1970, Porto Alegre investiu na construção de um sofisticado sistema contra enchentes. O que acaba de acontecer é o resultado criminoso de sucessivas gestões que, além de não inovar o sistema, o sucatearam, sem investimento e manutenção. Os números estão disponíveis e há documentos que comprovam a negligência das últimas administrações estaduais e municipais. Para ficar em outros três desastres recentes, com o mesmo caráter criminoso, basta lembrar os rompimentos de barragem em Mariana (2015) e Brumadinho (MG), o primeiro o maior em impacto ambiental e o segundo em número de vítimas; e os 700 mil brasileiros e brasileiras vítimas não só do vírus SARS-Cov-2, mas da gestão criminosa da crise de saúde pelo então governo negacionista. Com 2,7% da população mundial, o Brasil concentrou 13% das mortes por COVID no planeta. O relatório final CPI da COVID abunda em dados e a sociedade aguarda o indiciamento, pela Justiça, dos culpados.

3. Até então, falava-se muito da polarização política e do individualismo, coisas que estariam minando o nosso senso de comunidade e a união entre as pessoas. Por que essas coisas não atrapalharam tanto?

A polarização política, como pessoas de boa-fé sabem, não existe, pois não há “polos”. Há uma extrema-direita fascista, globalmente articulada e muito ativa na disseminação de fake news inclusive nesta crise do Rio Grande do Sul, espalhando concertadamente que o Estado (em âmbito federal) está inativo, ou mesmo atrapalhando e que é o “povo” que está socorrendo o povo. Eu vivo em Viamão, na área metropolitana de Porto Alegre e estive na linha de frente da crise, voluntariando, e garanto que, sem suporte do Estado, a sociedade civil, sozinha, não teria conseguido salvar um décimo das vítimas, pessoas e animais. No entanto, vemos a proliferação de fakes, como bloqueio de estradas por polícias e Exército e assim por diante. As razões do ataque às FFAA pela extrema direita são de público conhecimento: retaliação pela não adesão ao golpe falido em 8 de janeiro de 2023.

4. Muita da ajuda foi prestada pela própria sociedade civil, e não pelo governo/Estado. Isso terá consequências para o futuro? Teremos uma população mais unida e mais cética com o Estado no futuro?

Como eu disse, essa afirmação é falaciosa. Sem dúvidas, o voluntariado foi importante no socorro imediato, durante as chuvas torrenciais e inundações. Mas o Estado (tanto no âmbito municipal, como Estadual e, principalmente, Federal) também foi decisivo no socorro às vítimas desde o primeiro momento. E o será na reconstrução do estado do RS. A “sociedade civil” não aportará centenas de bilhões necessários à reconstrução da infraestrutura logística, de socorro às empresas e às famílias. Neste ponto entra o problema central da comunicação. Se não houver um controle responsável das mídias digitais, est aremos todos sob o risco do enfraquecimento do Estado.

5. Por que as narrativas políticas para tentar dividir a população durante esse momento parecem não ter prosperado?

Essa proposição não é inteiramente verdadeira. A extrema-direita tem logrado algum êxito na propagação de mentiras. Por outro lado, é preciso uma percepção sociológica mais aguçada para pensar a “população”. Ela não é coesa. Bastará observar, conforme as estatísticas ficarem disponíveis, quem são proporcionalmente os segmentos mais afetados pelo desastre. São os pobres, os periféricos, das cidades-satélites de Eldorado do Sul e Guaíba, das periferias de São Leopoldo e Canoas; dos bairros pobres de Porto Alegre como São Geraldo, dos baixadões do Humaitá e da Zonal Sul, onde se concentram muitas “vilas” (como aqui se chamam as favelas). E não será de egressos desses extratos que a produção de fake news acontecerá, mas das classes médias não atingidas.

Imediatamente, sem emitir juízo algum sobre minhas respostas, o jornalista pediu para aprofundar a comparação à tragédia climática do RS com a Covid no Brasil, em relação a seu caráter histórico, questionando se as enchentes deste ano, aqui, poderiam mudar o modo de ver os eventos climáticos no Brasil. E assim me dei ao trabalho de responder:

Vai depender de uma série de fatores. Os negacionismos são uma realidade deletéria nos últimos anos, potencializados e usados politicamente pelas/nas redes sociais. Foi assim na pandemia, e assim é em relação à ciência, à história, à política, às religiões. Então, em uma época em que pessoas acreditam que a terra é plana e tentam convencer outras pessoas disso, e em que setores criminosos manipulam essa ignorância ativamente produzida, a coibição veemente das fake news negacionistas por parte das autoridades judiciais será um elemento decisivo para que as pessoas entendam que estamos no ponto de não retorno em relação ao meio ambiente e ao clima.

Depois de ter atendido ao jornalista, respondendo até pergunta extra, sua resposta foi a de que não incluiria minha contribuição no texto que produzia, que já estava quase finalizado, porque “Nós realmente estamos indo por caminhos muito distintos, uma pena” e que esperava que eu conseguisse “publicar suas reflexões em outro lugar”.

Agradeço ao jornalista dos veículos reacionários a oportunidade de organizar minhas reflexões e publicá-las em outro lugar, ao mesmo tempo desnudando essa forma perniciosa de fazer imprensa, infelizmente, ainda corrente no Brasil. Ao confirmar que seguíamos por “caminhos muito distintos”, os veículos revelam que simplesmente procuravam por alguém, com alguma chancela institucional, que endossasse sua perspectiva liberal, anti-Estado, mercadófila, individualista e negacionista. Não se tratava de matéria jornalística, mas uma busca de material para a pregação ideológica. Se não responder o que o veículo quer, não se publica. Esse tipo de “cobertura” é tragédia em cima de tragédia!

*** 

Jurandir Malerbaé Professor Titular de História da UFRGS.


color compass

Fonte: Observatório da Imprensa

Quem paga pelas apostas do Lula?

lula dança

Por Douglas Barreto da Mata

Apesar de todas as minhas críticas, algumas com tom até deselegante, reconheço, uma coisa não se pode subtrair da biografia de Lula:

Sua incrível capacidade de perceber o ambiente ao seu redor, e de tomar decisões para influir nesse ambiente.

A despeito dos chavões e lugares comuns acerca da sua origem, e o quão inédito seria um migrante de pau de arara possuir tais “dons”, como se inteligência e sabedoria para viver fossem qualidades exclusivas dos ricos e letrados (mito despedaçado na ótima obra de Suassuna, O Auto da Compadecida), o fato é que o “baiano” (como era pejorativamente apelidado nos tempos de ABC) é um cabra arretado, quando se trata de sobreviver e mudar a realidade.

Talvez por isso, justamente por isso, que eu seja tão ríspido com ele, porque se ele fosse um imbecil qualquer, eu diria: “está dentro do previsto”.

Se fosse um FHC estava tudo certo, não dava para esperar muito daquele sujeito mesmo.

Mesmo toda essa genialidade política de Lula não o salvou de si mesmo.

Explico:  Lula, como todo líder genial e carismático, é ameaçado constantemente pela sua própria figura, e Lula sendo Lula, com sua origem e sua carreira política, tende a ser massacrado pelas elites, e cobrado por sua base social.

O assédio das elites é auto explicativo, ainda que Lula tenha passado boa parte de seus anos e anos de vida pública tentando convencê-los de que é “confiável”.

Já o descontentamento da sua base social é diretamente ligado ao cumprimento ou a frustração das expectativas que ele mesmo, Lula, criou em torno de si.

Então, aqui um momento de pausa dramática:

Lula não é vítima, não é um coitado incompreendido que sofre por ser rejeitado pelos ricos, e acossado pelos mais à esquerda que ele, e/ou pelos pobres e classe média ingratos, como alguns querem acreditar.

Nem tampouco, é um refém da “governabilidade” ou de um tipo de fatalismo que o coloca como um boneco imóvel no cargo que ocupa.

Seu incômodo é resultante da conta política que ele fez, ao pretender ser o eterno conciliador, e com o seu sonho de ser um JK mais contundente, ou um Vargas menos autoritário. Não deu, não foi nem uma coisa, nem outra.

Por certo, não dá para colocar a culpa só nele, sim, há contingentes históricos poderosos, mas o fato que ele é a variável principal dessa equação, inclusive para alterar a realidade que o cerca.

Nesse quesito, Lula falhou ao se adequar a esta realidade, sem ao menos tentar propor um debate de desconstrução, de ineditismo institucional, e limitou-se a fazer o permitido, e mesmo assim, teve sua sucessora golpeada, com a mão de Obama que lhe deu tapas nas costas, e que cuja administração cevou e treinou os golpistas de togas e anéis de doutores que o prenderam.

Lula renunciou ao seu fazer histórico, que pode ser (mal) definido como a nossa capacidade de entender que há coisas que nos cercam, e nos empurram para uma direção, mas que há espaço para que assumamos certo controle para mudar estas coisas.

Ceder (sempre) à “governabilidade” é uma postura cretina, porque Lula sabe que a “governabilidade” é um saco sem fundo, que se alimenta do medo dos que não querem perdê-la, enquanto ela pede mais e mais concessões.  Lula é assim, um desperdício, um desperdício calculado, porém.

Agora, nesse triste episódio no Rio Grande do Sul (RS), que era mais previsível e certo que a morte e os impostos, Lula faz uma aposta.

Como não conseguiu definir no seu terceiro mandato qualquer agenda política viável, nem mesmo a defesa de seu mandato, quando bárbaros assistidos, carinhosamente, por militares vandalizaram Brasília, Lula “entregou” a pauta à uma “defesa da democracia” para o judiciário.

O judiciário que anos antes alimentou esse mesmo pessoal, quando se omitiu na cassação de Dilma, e o sequestrou na sede da Polícia Federal no Paraná

Os militares? Bem, os militares acolheram de volta dos vândalos, logo depois dos crimes, em flagrante associação ou bando (Artigo 288 do Código Penal), e mesmo assim, nada. A cena de blindados das forças armadas impedindo os policiais de efetuarem prisões dos acampados (em frente ao Comando Militar) é o retrato trágico do governo Lula, que desde ali seria marcado para sempre, como está.

Dúbio, fraco, acovardado, acossado.

No RS, Lula enxergou a sua possibilidade de recuperar terreno.  No Rio de Janeiro também.

Está em andamento uma estratégia que passa pela cassação do governador e dos seus aliados, e Lula imagina que o PT seria maior beneficiado, ao mesmo tempo que força Eduardo Paes a “convidar” um petista para a vice na chapa à prefeitura neste ano, pois desse modo, o PT herdaria a prefeitura em 2026, quando Paes renunciaria para concorrer ao governo do estado.

Como uma parte das grandes forças não sobreviverá no RJ para concorrer ao cargo de governador tampão nestas eleições extraordinárias, com a cassação do governador, vice e presidente da Alerj, o PT apresentaria um candidato em condições de se eleger, e tentar a reeleição em 2026, ou ceder a vaga para Paes, em uma acordo que garantiria a vice-governadoria para o PT (e espaço no governo), além de uma vaga na chapa de senador.

Pois bem, no Sul a jogada de Lula parece ser outra.  É emotiva, é a pieguice com a qual Lula imagina dominar a cena. Os vídeos de Lula beijando e abraçando as pessoas no abrigo, com o fotógrafo onipresente Stuckert ensaiando os desabrigados para o melhor “take” destruíram até essa coisa cafona, porém genuína de Lula, o seu trato com os mais pobres. Ficou feio.

Esta mesma pieguice cafona, que contaminou a todos, que parece ser um fetiche do Brasil caboclo pelos seus compatriotas de sangue europeu e olhos azuis, se materializou em uma “semi intervenção” federal, com a criação de um ministério da reconstrução. Como assim? O resto do país perguntará? Está tudo certo nas terras da Amazônia? No Cerrado? No Nordeste?

Será que essas regiões precisam se auto imolar para que tenham tamanha atenção? Ué, não é o “agro” a solução de tudo?

Por que um estado que se orgulha de sua incansável capacidade de gerar riquezas, dentro da narrativa da herança de organização rigorosa alemã e italiana, de uma ética de perfeição, frente a um país de mamelucos preguiçosos e corruptos, não conseguiu impedir o cataclisma, e pior, não conseguiu planejar como sair do lamaçal onde eles mesmos se meteram?

Por que um dos estados mais “agro” do país não consegue se reerguer com as suas próprias pernas, sendo certo que os estragos foram muito mais violentos, justamente, por causa da devastação causada por essa atividade econômica?

Não seria justo debater que este setor ajude a pagar a conta com impostos de reparação?

Não seria papel do líder máximo do país ajudar, principalmente os mais pobres, e simultaneamente cobrar responsabilidades dos ricos que causaram a tragédia, ou ao menos, concorreram fortemente para que ela acontecesse?

Lula tenta suprir sua carência de afeto, alimento principal dos líderes carismáticos, com a exploração rasteira de um fenômeno que um governo chamado de esquerda, ou progressista, ou vá lá, responsável, deveria estudar, debater e propor saídas, sem repetir as velhas fórmulas popularescas de crianças no colo, algum dinheiro nas contas, e bilhões para empresas e contratos.

Até quando Lula vai seguir matando Lula?

Silêncio sepulcral nos Pampas, onde até o Minuano virou tornado.

MST lança SOS Rio Grande do Sul para vítimas das chuvas

sos rs

Estimados/as amigos, amigas e camaradas da luta do MST

Nós do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra estamos fazendo uma campanha de arrecadação financeira para contribuir nas ações nos municípios gaúchos.

Cerca de 300 famílias inteiras de assentamentos do MST estão atingidas pelas enchentes. Muitos perderam tudo e maior parte da produção de nosso arroz orgânico foi comprometida ou totalmente perdida.

Compartilhamos vídeo da situação de algumas das nossas áreas na região metropolitana, em especial a do Assentamento de Eldorado do Sul [Aqui!].

Informações Bancárias:

Banco: 350 Agência: 3001

Conta: 30253-8

CNPJ: 09.352.141/0001-48

Nome: Instituto Brasileiro de Solidariedade

CHAVE PIX: 09352141000148

O MST sugerindo uma contribuição mínima de 50 reais

Esses recursos serão utilizados para reconstrução de 420 casas de famílias assentadas que foram destruídas, viabilizar as cozinhas comunitárias nas áreas afetadas seja assentamentos ou bairros e na compra de material de higiene; além de organizar atendimento de água potável.

Posteriormente disponibilizaremos do relatório de aplicação!

Lideranças do povo Kaingang são libertadas no RS depois de decisão liminar do STJ

Por CIMI

kaigang
Cinco lideranças indígenas do povo Kaingang da Terra Indígena Kandóia, município de Faxinalzinho, Rio Grande do Sul que, injustamente, acabaram sendo presas no último dia 9 de maio pela Polícia Federal, foram libertadas neste domingo, 22. Deoclides de Paula, Celinho de Oliveira, Daniel Rodrigues Fortes, Nelson Reco de Oliveira e Romildo de Paula já estão na aldeia.

A libertação ocorreu em função de uma decisão liminar concedida pelo ministro Rogério Schietti Cruz do Superior Tribunal de Justiça (STJ) na noite de sexta-feira, 20. A decisão do ministro atende pedido de liminar apresentado em habeas corpus impetrado pelos advogados de defesa das lideranças indígenas e caça a prisão temporária das lideranças que estavam no Presídio Estadual do Jacuí, em Charqueadas (RS).

O STJ, então, restabelece a justiça no caso, uma vez que não há provas que incriminem as lideranças Kaingang acusadas pelo delegado da Polícia Federal de Passo Fundo, Mário Viera, responsável pelo inquérito, pelos assassinatos de dois agricultores. O delegado, até o momento, não disponibilizou o inteiro teor do inquérito aos advogados de defesa dos indígenas.

Em dia 17 de junho, Onir Araújo, um dos advogados defensores dos indígenas, esteve na sede da Polícia Federal em Passo Fundo e requisitou cópia do inquérito. Mais uma vez foi negado. A alegação era de que “dr. Mário Vieira estava em missão” e regressaria ao município somente no início da segunda quinzena do mês de julho. Com isso, o direito de defesa das lideranças indígenas está prejudicado.

Fonte; http://racismoambiental.net.br/2014/06/liderancas-do-povo-kaingang-sao-libertadas-no-rs-depois-de-decisao-liminar-do-stj/