Jeffrey Beall e os “super achievers” da ciência salame

O Professor Jeffrey Beall, que costumeiramente traz análises e revelações sobre os efeitos da propagação exponencial de revistas predatórias sobre a qualidade das publicações científicas, acaba de produzir uma postagem lapidar sobre o irmão siamês do “Trash science“, o também pernicioso “Salami science” (Aqui!).

E Jeffrey Beall faz isto tratando do caso de dois “super achievers” (pesquisadores que se notabilizam por produzirem “solo” ou acompanhados um número acima da média de publicações anuais) da ciência mundial cuja produção combinada é de deixar a maioria dos que conhecem o caminho que um determinado artigo precisa percorrer para ser finalmente publicado se perguntando qual é o segredo de tamanha produtividade.   O próprio Jeffrey Beall desvenda parte do mistério ao destrinchar as publicações, e as claras repetições de conteúdos, dos professores Shahaboddin Shamshirband e Dalibor Petković em revistas científicas aparentemente sérias.

Eu mesmo já tratei neste blog do papel negativo que a prática do “Salami science” causa tanto na qualidade da ciência, como nos sistemas de premiação e distribuição de recursos para a pesquisa científica , e que é potencializada pela existência do mercado de “Trash science (Aqui! e Aqui!).

Uma coisa que é citada por Jeffrey Beall e com a qual eu concordo é sobre o risco de que a tolerância ao “Salami science” acarreta para a comunidade científica, na medida em que o sistema do “peer review” se funda no compromisso de que um dado experimento seja submetido apenas numa dada revista, impedindo a multiplicação de submissões e, consequentemente, de publicações de um mesmo resultado. Ao se romper com essa regra básica, tudo se torna possível. Até o rompimento dos padrões éticos que deveriam guiar a busca de publicar um artigo científico. É que se isto se tornar prática, não haverá muito o que se esperar em termos de qualidade e rigor.

Outro aspecto que Jeffrey Beall é a política de “hands off” que os chamados “super achievers” gozam em suas instituições. Eu mesmo já tenho presenciado a existência de pesquisadores extremamente prolíficos em seu número de publicações, mas que são claramente incapazes de contribuir minimamente para a qualidade intelectual dos programas de graduação e pós-graduação nos quais participam. A estes “super achievers” resta a desculpa de que são “ratos de laboratório”  que se ocupam apenas de suas pesquisas.  Mas até aí morreu o Neves. É que apesar de todas as suas omissões e incongruências, os “super achievers” são vendidos dentro de suas instituições como o exemplo a ser seguido, já que seriam eles os pilares da captação de recursos tão escassos quanto necessários.

Entretanto, o que pouco se fala é que ao se sobrevalorizar os supostos “super achievers“, o que se faz é contribuir para a privatização das pesquisas já que eles acabam por monopolizar espaços físicos dentro de suas instituições e a distribuição de verbas pelas agências de fomento.

Ainda que o aparecimento do “Salami science” e do “Trash science” seja parte de uma evolução da indústria das publicações científicas e da comodificação da ciência mundial, ignorar os seus efeitos deletérios por mais tempo poderá trazer danos irreparáveis para a produção e evolução do conhecimento científico, especialmente nos países localizados da periferia do Capitalismo.  O problema aqui é saber se haverá quem queira enfrentar os dois irmãos siameses de frente.  É que com raras exceções, como as do Professor Jeffrey Beall nos EUA (Aqui!) e do jornalista Maurício Tuffani (Aqui!) no Brasil, a maioria dos que conhecem o problema prefere olhar para  o outro lado.

Do “Salami Science” ao “Trash Science”: como pudemos afundar tanto e tão rápido no precipício da ciência predatória?

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Em 14 de Dezembro de 2013 usei o espaço deste blog para tratar do problema do “Salami science” que é uma prática bastante conhecida de partir uma mesma pesquisa em diversas publicações com fins de aumento de pontos na comunidade científica (Aqui! e Aqui!). Naquele momento, o número de acessos foi relativamente baixo e a repercussão entre os meus pares na Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) foi marcada por uma indiferença quase total. Apenas uns poucos colegas se dispuseram a comentar sobre o que eu estava apontando, e esses eram normalmente os que não tinham a prática de fatiar para multiplicar suas pesquisas. Em suma, quem não devia é que se dispôs a refletir sobre um problema que se espraia pela comunidade científica mundial.

Mas eis que menos de dois anos depois das minhas postagens, nos vemos defrontados com algo muito pior do que o “Salami science” que é a prática ainda mais nefasta (como se o “Salami science” já não fosse extremamente danoso e antiético) que é da publicação de pseudo-artigos em editoras especializadas em publicar lixo científico. Mais uma vez o que eu tenho visto é um silêncio quase ensurdecedor que normalmente ocorre quando ninguém quer falar sobre um crime praticado por uma facção criminosa dentro de uma das centenas de milhares de comunidades carentes que existem no Brasil.

Mas o problema aqui é que não estamos falando de gente pobre e esquecida pelo Estado brasileiro. Aliás, muito pelo contrário, pois ainda são raros os pesquisadores que saíram das camadas mais pobres da população para ocuparem postos em universidades públicas e centros de pesquisa de excelência. E, apesar dos pesares e eles são muitos, ainda há bastante dinheiro público circulando para incentivar a produção da ciência no Brasil.

Então por que este fenômeno de mutismo frente à disseminação de lixo científico que serve para turbinar currículos na Base Lattes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e que serve para determinar progressões funcionais, concessão de bolsas de mérito por produtividade científica, e financiamentos de projetos de pesquisa como corretamente apontou em artigo recente (Aqui!) o jornalista Maurício Tuffani? Ao menos para mim, esse silêncio é explicado pela inaptidão da universidade brasileira de exercer o elemento básico da autocrítica que, pasmemos todos, é um dos bastiões da construção de sistemas universitários sólidos. E, além disso, esse silêncio revela que poucos estão dispostos a nadar contra a corrente, pois sabem que esse exercício traz mais riscos do que prêmios.

Agora, um fato que não pode ser escondido é de que ou os dirigentes da CAPES e do CNPq tomam medidas drásticas para banir as publicações predatórias do Qualis Capes para restabelecer critérios de credibilidade nesse ranking ou estaremos diante de um precipício bem fundo, de onde poucos conseguirão se levantar. E o problema é que mesmo na atual fase do Capitalismo, marcado pelo domínio das operações financeiros, a produção de ciência de excelente qualidade é a única forma das universidades contribuíram para o desenvolvimento nacional. Se abdicarmos de cobrar que não premie o lixo científico que bate nas nossas portas com a volúpia em que o lixo urbano invade nossos rios e baías, é melhor logo fechar as portas e partir para outra atividade que seja menos exigente em termos de critérios de validação.

Prêmio Nobel de Medicina de 2013 faz ataque contundente à cultura do “Salami science”

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Nas últimas duas décadas as universidades brasileiras foram tomadas de assalto pela cultura do “Fator de Impacto” que alimenta a chamada “Salami science”.

Abaixo vai um contundente artigo assinado, e que foi publicado no jornal inglês “The Guardian, pelo Prêmio Nobel de Medicina de 2013, o biólogo Randy Schekman, sobre o controle exercido sobre a qualidade da ciência pelo monopólio exercido por grandes revistas científicas sobre o que é publicado enquanto ciência de qualidade.

Essa cultura do “Salami Science” que é tão duramente criticado pelo Dr. Randy Schekman é atualmente idolotrada no Brasil por agências de fomento lideradas pelo CNPq, e se tornou dogma na avaliação que é feita pela CAPES dos cursos de pós-graduação existentes no Brasil. Como ainda engatinhamos no quesito da formação científica, ler essas críticas é essencial. Do contrário, continuaremos atrelados a um sistema que não produz boa ciência e, pior, oferece incentivo aos que aprenderam a obter os “bônus” sem necessariamente produzir nada que mereça ser chamado de ciência.

Como revistas como Nature, Cell e Ciência são prejudiciais à ciência.

Os incentivos oferecidos pelas principais revistas distorcem a Ciência, assim como grandes bônus distorcem o sistema financeiro.

 Randy Schekman

Litter in the street

A revista Science recentemente removeu um artigo relacionando o ato de jogar lixo na rua e violência. Foto: Alamy / Janine Wiedel

Eu sou um cientista. O meu é um mundo profissional que  alcança grandes coisas para a humanidade. Mas está sendo desfigurado por incentivos inadequados. As estruturas predominantes da reputação pessoal e progressão na carreira significam as maiores recompensas muitas vezes acompanham o trabalho que seja o mais brilhoso, não necessariamente o melhor. Aqueles de nós que seguem estes incentivos estão sendo inteiramente racionais – Eu pessoalmente os seguia  – mas nem sempre melhor servirmos os interesses da nossa profissão, e muito menos aqueles da humanidade e da sociedade.

Todos sabemos o que os incentivos que distorcem fizeram para o sistema financeiro e os bancos. Os incentivos meus colegas enfrentam não são bônus enormes, mas as recompensas profissionais que acompanham a publicação em revistas de prestígio – principalmente Nature, Cell e Science.

Essas revistas de luxo são supostamente o cume da qualidade, publicando apenas as melhores pesquisas. Porque financiamento e nomeação de painéis usam frequentemente o local da publicação como um proxy para a qualidade da ciência, aparecendo nestes títulos muitas vezes leva a financiamentos e cátedras. Mas a reputação das grandes revistas científicas é apenas parcialmente justificada. Enquanto elas publicam a maioria dos melhores dos artigos em circulação, elas não publicam apenas trabalhos de qualidade excelente. Nem são eles os únicos que publicam pesquisa de alta qualidade.

Essas revistas vendem de forma agressiva as suas marcas, da forma mais propícia para a venda de assinaturas do que para estimular as pesquisas mais importantes. Como os estilistas que criam bolsas ou roupas de edição limitada, os editores dessas revistas sabem que a escassez alimenta a demanda, de modo que artificialmente restringem o número de artigos que aceitam publicar. As marcas exclusivas em seguida, são comercializadas com um truque chamado “fator de impacto” – uma pontuação para cada revista, que mede o número de vezes que seus trabalhos são citados por pesquisas posteriores. Artigos de melhor qualidade, diz a teoria, são citados com mais frequência, por isso melhores revistas se vangloriaram de sua maior pontuação. Ainda assim, é uma medida profundamente falha, perseguindo o que se tornou um fim em si mesmo – e é tão prejudicial para a ciência como a cultura do bônus é para o sistema financeiro.

É comum, e incentivado por muitas revistas científicas, que a pesquisa seja julgada pelo fator de impacto do periódico que a publica. Mas, a pontuação de uma revista científica é uma média, que diz pouco sobre a qualidade de qualquer peça individual de pesquisa. Além disso, a citação é, por vezes, mas nem sempre, ligada à qualidade. Um artigo pode se tornar altamente citado porque  a ciência é boa – ou porque é atraente, provocante ou errada. Editores de revistas de luxo sabem disso e, por isso aceitam artigos que vão fazer ondas porque exploram temas sensuais ou fazem postulações desafiadoras. Isso influencia a ciência que os cientistas fazem. Baseiam-se bolhas nos campos da moda, onde os pesquisadores podem fazer as afirmações ousadas que essas revistas querem, mas ao mesmo tempo desencorajam outros trabalhos importantes, como estudos de replicação.

Em casos extremos, a atração da revista de luxo pode incentivar “jeitinhos”, e também contribuir para o número crescente de artigos que  depois são retirados de circulação porque são falhos ou fraudulentos.  Só a revista Science só retirou de circulação recentemente artigos de alto impacto que relatam a clonagem de embriões humanos, as ligações entre lixo e violência, e os perfis genéticos de pessoas centenárias. Talvez ainda pior,  a Science não retirou de circulação um artigo  alegações de que um micróbio é capaz de usar arsênio em seu DNA em vez de fósforo, apesar das esmagadoras críticas científicas.

Há uma maneira melhor, através da nova geração de revistas de acesso aberto que são livres para qualquer um ler, e não têm assinaturas caras para promover. Nascidas na web, elas podem aceitar todos os artigos que cumprem as normas de qualidade, sem limites artificiais. Muitas são editadas por cientistas que estão atividade, e que podem avaliar o valor dos artigos sem levar em conta as citações. Como eu sei a partir da minha editoria de eLife, uma revista de acesso aberto financiada pelo Wellcome Trust, do Instituto Médico Howard Hughes e da Sociedade Max Planck, eles estão publicando ciência de classe mundial a cada semana.

Os financiadores e universidades também têm um papel a desempenhar. Eles devem dizer às comissões que decidem sobre financiamentos e enquadramentos para não julgar artigos científicos por onde eles são publicados. É a qualidade da ciência, e não a marca da revista, o que importa. O mais importante de tudo, é que, nós, os cientistas precisamos agir. Como muitos pesquisadores de sucesso, eu publiquei nas grandes marcas, incluindo os artigos que me levaram a ganhar o prêmio Nobel de medicina, que eu terei a honra de receber amanhã.  Mas não mais. Eu já decidi que o meu laboratório irá evitar as revistas de luxo, e eu incentivo aos outros a fazerem o mesmo.

Assim como Wall Street precisa quebrar a influência da cultura de bônus, o que leva a tomada de riscos que é racional para os indivíduos, mas prejudicial para o sistema financeiro, do mesmo modo  a ciência deve quebrar a tirania das revistas de luxo. O resultado será uma pesquisa de melhor qualidade que melhor servirá à Ciência e à Sociedade.

FONTE: http://www.theguardian.com/commentisfree/2013/dec/09/how-journals-nature-science-cell-damage-science

Nobel da Física de 2013 diz que hoje não teria lugar na Academia

“Não seria considerado suficientemente produtivo”, afirma Peter Higgs, que em 1964 previu a existência do bosão de Higgs, que só viria a ser comprovada em 2012. Cientista britânico critica o clima atual das universidades, em que os investigadores são transformados em máquinas de produzir papers.

Peter Higgs, prémio Nobel da Física de 2013 junto com François Englert pela descoberta do bosão de Higgs, disse ao The Guardian que hoje não conseguiria um emprego na Academia. “Tão simples assim. Não creio que fosse considerado suficientemente produtivo”.

Higgs recebeu diversos prémios, como a Medalha Dirac pelas contribuições à física teórica do Instituto de Física em 1997, o Prémio High Energy and Particle Physics pela Sociedade Europeia de Física em 1997, o Prémio Wolf de Física em 2004 e o Nobel de Física de 2013. Mas duvida que a descoberta que expôs num célebre artigo publicado em 1964 pudesse ter sido feita no clima que impera nas universidades de hoje, onde os investigadores têm de produzir papers uns atrás dos outros. “É difícil imaginar como é que no ambiente atual [da universidade] eu teria paz e tranquilidade suficientes para fazer o que fiz em 1964”.

Higgs diz que publicou menos de dez artigos depois da sua importante descoberta de 1964, e está convencido que teria sido despedido se não tivesse sido nomeado para o Nobel, pela primeira vez, em 1980. O que aconteceu foi que a direção da Universidade de Edinburgh percebeu que o investigador poderia vir a ganhar o Prémio Nobel, e se não ganhasse sempre poderiam ver-se livres dele.

O cientista contou ao Guardian o embaraço que ele significava para o departamento quando circulava o pedido de lista de publicações dos cientistas do departamento naquele ano, e ele respondia: “Nenhum”.

O nome de Higgs foi posto à partícula cuja existência ele previu em 1964 e que só foi comprovada pelo acelerador de partículas LHC do Centro Europeu de Investigação Nuclear (CERN) em 2012. O físico só lamenta que o bosão tenha ficado conhecido como “a partícula de Deus”, pois teme que essa alcunha “reforce o pensamento confuso na cabeça das pessoas que já pensam de forma confusa. Se acreditam na história da criação em sete dias, estão a ser inteligentes?”, disse ao Guardian.

FONTE: http://www.esquerda.net/artigo/nobel-da-f%C3%ADsica-de-2013-diz-que-hoje-n%C3%A3o-teria-lugar-na-academia/30526