Não existe mineração sustentável

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Durante lançamento de O Bem Viver na cidade mineira de Mariana, Alberto Acosta viu de perto os efeitos da maior tragédia socioambiental brasileira. “Os telhados das casas que aparecem por cima da lama são como um grito para que a Humanidade mude de rumo”

Como parte da turnê de lançamento de O Bem Viver – Uma oportunidade para imaginar outros mundos, o pensador equatoriano Alberto Acosta visitou a cidade mineira de Mariana em 28 de janeiro. Lá, participou de debate sobre o alto custo do extrativismo na América Latina com Andrea Zhouri, professora da Universidade Federal de Minas Gerais, Isabela Corby, advogada popular do Coletivo Margarida Alves, Sammer Siman, liderança das Brigadas Populares, e Letícia Oliveira, do Movimento dos Atingidos por Barragens.

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Em meio ao trauma causado pelo rompimento da barragem da mineradora Samarco, Acosta apresentou as ideias de seu livro, lançado no Brasil pela Editora Elefante e Autonomia Literária, com apoio da Fundação Rosa Luxemburgo. Depois, visitou a localidade de Bento Rodrigues, vilarejo que submergiu quase completamente ao tsunami de lama tóxica.

A destruição causada pela subsidiária das megacorporações Vale (brasileira) e BHP Billiton (australiana) marcou profundamente Acosta, que há alguns anos percorre o mundo espalhando os princípios do Bem Viver – uma alternativa ao desenvolvimento e ao extrativismo, que causam destruição e pobreza para muitos enquanto concentram renda nas mãos de grandes empresas.

É difícil saber o que senti. Foram momentos de grande vazio, enorme frustração, impotência e muita raiva. A destruição é incontestável. Sequer é possível escondê-la. As traves de futebol enterradas, uma estante sumersa no lodo, com os livros destroçados, são cenas desoladoras. Os telhados das casas que aparecem por cima da lama são como um grito para que a Humanidade mude de rumo. Quais são os significados de tamanha destruição? É tudo tão terrível…

Me chateou muito saber que as pessoas que moravam em Bento Rodrigues, ou seja, as vítimas da mineração, não são mais tratadas como vítimas: na linguagem do governo e das empresas, são “beneficiárias”, porque irão receber uma compensação pelas perdas que tiveram. São pessoas que viviam com medo: sabiam que isso poderia acontecer algum dia.”

Nesses lugares, que antes da mineração eram tão bonitos, mas que agora estão destruídos e permanentemente ameaçados por novas tragédias, não há maneira de construir o Bem Viver. Como é que pode haver alguém que diga que foi um mero acidente? Que isso não deveria acontecer? Que existe tecnologia de ponta para evitar situações como essa? É pura falta de vergonha na cara. A mineração é uma roleta russa. Quem morre participando de uma roleta russa não morre por acidente.

A mineração em Mariana destruiu um rio inteiro, com impactos sobre sociedades e ecossistemas que chegaram até o litoral do Espírito Santo. O governo e algumas prefeituras mineiras divulgaram um relatório contabilizando perdas de R$ 1,2 bilhão provocadas pela ruptura da barragem da Samarco. O governo federal tenta responsabilizar a empresa com um pedido de R$ 20 bilhões em indenizações. É suficiente? Quanto dinheiro poderia recompensar tamanha devastação?

FONTE: http://editoraelefante.com.br/nao-existe-mineracao-sustentavel/

TsuLama da Samarco: tango da impunidade dá mais um passo à frente

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A notícia abaixo publicada inicialmente pela Agência Brasil e repercutida em diversos sites dá conta de que os processos da barragem da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) em Mariana (MG) foram deslocados da instância estadual para a federal.

Neste caso, a manobra que atende a um pedido da própria Samarco é óbvia: longe dos olhos, longe do coração. Em outras palavras, sem a pressão das centenas de vítimas e da visão do caos instalado, e ainda contando com a extrema boa vontade do governo Dilma e da Advocacia Geral da União, a Samarco e suas controladoras (Vale e BHP Billiton) vão continuar ensaiando o tango da impunidade.

Simples, mas ainda assim imensamente, trágico!

Processos do desastre da barragem da Samarco, em Mariana, serão enviados à Justiça Federal

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Acidente matou 17 pessoas e devastou o distrito de Bento Rodrigues, que foi coberto pela lama tóxica. Foto: Antonio Cruz/ Arquivo Agência Brasil

Por determinação do desembargador Afrânio Vilela, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), os processos relativos ao desastre de Mariana serão enviados à Justiça Federal. O Ministério Público do Estado de Minas Gerais (MP-MG) acredita que a decisão trará graves prejuízos às pessoas atingidas pelo rompimento das barragens.

Após analisar recurso apresentado pela Mineradora Samarco, o desembargador determinou, no dia 26 de janeiro, que fossem enviados à Justiça Federal os processos de primeira instância cujos pedidos coincidem com aqueles já formulados na instituição federal.

Afrânio Vilela determinou ainda que os recursos de ações ajuizadas por particulares sejam remetidos ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região e cancelou a audiência de conciliação que estava marcada para ocorrer dia 1º de fevereiro.

Em nota divulgada hoje (4), o promotor de Justiça da Comarca de Mariana, Guilherme de Sá Meneghin, afirmou que o deslocamento de competência trará restrições à participação das vítimas, suspenderá o processo, que estava em fase adiantada, e anulará os acordos já formulados.

“Na visão do Ministério Público, não existe interesse da União na Ação Civil Pública, pois a demanda visa assegurar os direitos humanos das vítimas do rompimento da barragem em Mariana. Ainda não há uma decisão definitiva, pois a advocacia-Geral da União e o Ministério Público devem se manifestar no processo para averiguar se existe ou não interesse por parte da União”, afirmou Guilherme, em nota.

Segundo o promotor, o setor do MP-MG que trata de direitos humanos, inclusão e mobilização social atuava desde 5 de novembro de 2015, quando ocorreu o desastre. “Verifica-se que a ação civil pública obteve êxito em vários pontos para garantir direitos aos atingidos. São cerca de três mil atingidos em Mariana, sendo aproximadamente 940 desabrigados.”

Por Marieta Cazarré, da Agência Brasil, in EcoDebate,

Enquanto a Samarco não paga, as comunidades ficam no prejuízo total

Vi a imagem abaixo faz alguns dias, mas acabei não postando aqui no blog. Mas depois de ver confirmado que a Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) resolvi procurá-la para ilustrar a grande desigualdade social, econômica e ambiental que está evidente no caso do TsuLama. É que de um lado ficam as mineradoras se esquivando das suas responsabilidades e pressionando para que a Samarco volte a operar em Mariana e, de outro, as comunidades que tiveram suas vidas destruídas.

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Prazo para Samarco pagar parcela de multa venceu. Adivinhem o que aconteceu!

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Venceu ontem (03/02) o prazo dado para a Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) depositar R$ 2 bilhões da ação judicial de R$ 20 bilhões movida pela União e pelos estados de Minas Gerais e Espírito Santo contra a mineradora e suas controladoras, Vale e BHP Billiton.

É importante lembrar que há 16 dias, a Samarco fechou um acordo com a Advocacia-Geral da União (AGU), os governos de Minas e Espírito Santo para o pagamento do valor que será usado para a implementação do plano inicial de recuperação ambiental, depois do rompimento da barragem de rejeitos de minério em Mariana.

Mas passado o prazo estipulado pelos entes federados passou, e adivinhem o que a Samarco fez. Nada! Isso mesmo, nada! Não pagou um mísero centavo pelos prejuízos causados pela sua negligência e que resultou no maior desastre da mineração mundial nos últimos 100 anos!  E o pior é que as poucas condicionantes que a Samarco estava cumprindo já estão sendo suspensas pela justiça a partir de ações impetradas pela mineradora e suas controladoras, como foi o caso do suprimento de água potável na cidade de Colatina. 

Eu fico imaginando o que aconteceria na Austrália, sede da BHP Billiton, se um caso como esse acontecesse. Certamente o problema não seria tratado como tamanha “generosidade” pelo governo australiano. 

Agora, vamos ver o que acontece depois do Carnaval. Mas uma coisa é certa, se depender da Samarco, da Vale e da BHP Billiton, o que teremos é mais procrastinação no reparo das barragens que seguem instáveis em Mariana. Simples, mais ainda assim deplorável!

TsuLama da Samarco: Procuradores da República de Linhares deu início a Ação Civil Pública

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O Ministério Público Federal do município de Linhares deu início no dia de ontem (02/02) a uma Ação Civil Pública contra a Mineradora Samarco (Vale +BHP Billiton), o governo federal e o estadual do Espirito Santo, e contra os órgãos ambientais federais (IBAMA, ICBMIO) e o órgão ambiental estadual capixaba, IEMA. 

Esta ACP visa responsabilizar principalmente a Mineradora Samarco pelas perdas econômicas sendo infringidas aos pescadores capixabas que continuam impossibilitadas de realizar suas atividades cotidianas de pesca e estão passando por fortes privações.

Quem tiver interesse em ler o inteiro teor da denúncia feita pelos procuradores federais Walquiria Imamura Picoli, Eduardo Henrique de Almeida Aguiar e Jorge Munhós, basta clicar no link abaixo!

ACP Pesca litoral – FT Rio Doce

 

Fiocruz assina manifesto em apoio às vítimas de Mariana

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Na semana em que a tragédia ocorrida em Mariana (MG) completa três meses (5/2), a Fiocruz e mais 20 instituições brasileiras assinam um manifesto que alerta para a importância de acompanhar com cautela todo e qualquer projeto de reconstrução para a “nova Bento Rodrigues”, área afetada pelo rompimento da barragem de Fundão da Mineradora Samarco. Os signatários do documento ressaltam que o processo de construção dessa nova localidade deve considerar, no mínimo, a equivalência das condições de vida existentes anteriormente à tragédia; e que todas as decisões devem levar em consideração o desejo e a opinião da população afetada.

As entidades acadêmicas, associações profissionais e movimentos sociais de diversas áreas de atuação que assinam o documento defendem ainda que a definição da localização do novo assentamento, bem como a elaboração dos projetos urbanísticos e arquitetônicos, deve ser fruto de uma construção coletiva, em que a participação dos moradores seja totalmente assegurada. O manifesto também destaca que é preciso dedicar atenção especial às populações ribeirinhas e demais moradores de áreas atingidas ao longo dos cursos de água impactados. Além disso, reforça que as obras devem ser custeadas pelas empresas responsáveis pela tragédia, mas que a gestão de todas as medidas deve ser feita pelo Estado. Segundo o documento, transparência e controle social são valores imprescindíveis nesse processo.

Confira a íntegra do manifesto.

Assinam o documento:

Associação Brasileira de Agroecologia (ABA – Agroecologia)
Associação Brasileira de Antropologia (ABA – Antropologia)
Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciência (ABMC)
Associação Brasileira de Engenheria Sanitaria e Ambiental (Abes)
Associação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep)
Associação Brasileira de Limnologia – (ABLimno)
Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências (Abrapec)
Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco)
Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB)
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade (ANPPAS)
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs)
Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur)
Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento (Assemae)
Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes)
Frente Nacional pelo Saneamento Ambiental (FNSA)
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)
Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB)
Movimento Pela Soberania Popular Na Mineração (MAM)
Projeto Manuelzão UFMG
Rede Nacional de Médicos e Médicas Populares
Sociedade Brasileira de Economia Ecológica (ECOECO)

FONTE: https://agencia.fiocruz.br/fiocruz-assina-manifesto-em-apoio-vitimas-de-mariana

TsuLama: uma prova cabal de que para as mineradoras, desgraça pouca é bobagem

Ao ler a matéria abaixo publicada nesta segunda-feira pelo jornal ESTADO DE MINAS sobre as preocupações do Ministério Público de Minas Gerais em relação à estabilidade da barragem de Germano, uma das duas que ainda não romperam em Mariana (MG), só pensar que as mineradoras Vale e BHP Billiton não temem correr riscos em nome do lucro ou têm certeza absoluta da impunidade. Ou os dois!

Ministério Público vê risco em outra barragem da Samarco

“Não podemos correr novos riscos de rompimentos”, alerta promotor

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Novas movimentações de terra na Barragem do Fundão, registradas na quarta-feira, 81 dias depois da tragédia de Mariana, geraram instabilidade nos diques de Sela e Tulipa, estruturas da Barragem de Germano, a maior dentre as barragens de rejeitos da mineradora Samarco na região, afirma o promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto,  coordenador do Núcleo de Resolução de Conflitos Ambientais (Nucam), do Ministério Público de Minas Gerais. “Não podemos correr novos riscos de rompimentos”, alertou o promotor, mostrando-se preocupado com um vídeo gravado pela própria empresa que mostra quase 10 minutos da movimentação de 1 milhão de metros cúbicos de terra, água e lama.

“Queremos  medidas concretas, como o plano de emergência”, exige o promotor, referindo-se às medidas para proteger a população dos arredores se houver rompimento de outras barragens. A Samarco apresentou até agora apenas o Dam Brake, segundo o MP, com a simulação de cinco cenários em caso de rupturas das diferentes barragens, sendo o pior deles o da Mina de Germano. “Recebemos o material nesta semana e ainda estamos analisando”, afirmou o coordenador do Nucam. Dep

Desde o incidente de quarta-feira, a mineradora tem reiterado que as estruturas das barragens de Germano e de Santarém, no mesmo complexo, permanecem estáveis, com base em contíguo monitoramento. A empresa sustenta que  as movimentações de terra já eram esperadas devido às últimas chuvas e que a barragem de Santarém tem recebido reforços. Na quinta-feira, o MP cobrou novos cálculos do nível de  estabilidade de Sela.

FONTE: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2016/02/01/interna_gerais,730199/ministerio-publico-ve-risco-em-outra-barragem-da-samarco.shtml

Os reveladores adjetivos da PF para o plano de emergência da Samarco

Segundo o que nos informa a matéria assinada pelo jornalista Daniel Camargos, após apurar o Plano de Emergência adotado pela Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) para as suas barragens em Mariana, a Polícia Federa usou os seguintes adjetivos em seu relatório sobre o documento: ineficaz, subdimensionado e pro forma.

Ainda que a apuração da Polícia Federal não chegue a surpreender quem visitou a região afetada pelo TsuLama, as constatações que estão emergindo a partir da investigação policial mostram que não houve nada de acidental em Bento Rodrigues, e que toda as mortes e destruição ambiental decorreram de uma forma metódica de ignorar a legislação ambiental e de priorizar os lucros acima de qualquer responsabilidade socioambiental.

É por essa e outras que o acordo “raposa tomando conta do galinheiro” que o governos federal e estaduais de Minas Gerais e Espírito Santo assinaram com a Vale e a BHP Billiton é inaceitável. A verdade é que os dirigentes das mineradoras deviam é estar presos nesse momento e não com o controle de um fundo privado para reparar os danos que elas mesmas causaram.

Plano de emergência para barragens da Samarco era ineficaz, acusa Polícia Federal

Relatório da corporação mostra que o plano da mineradora para evitar desastres em barragens subdimensionou impactos e não incluiu treinamento nem medidas efetivas

Por Daniel Camargos

Alcantara/Divulgacao

Ineficaz, subdimensionado e pro forma são alguns dos adjetivos usados pela Polícia Federal para classificar o Plano de Ação Emergencial de Barragens (Paemb) da mineradora Samarco. As falhas no plano que deveria ser usado pela empresa em caso de problemas como o que terminou ocorrendo em Mariana, na Região Central de Minas, onde a Barragem do Fundão se rompeu em 5 de novembro provocando a maior tragédia socioambiental do Brasil, são apontadas no inquérito em fase final a que o Estado de Minas teve acesso exclusivo. Os delegados da PF fizeram 37 interrogatórios e solicitaram sete perícias técnicas para formular o documento sobre o desastre.

De acordo com o despacho de indiciamento, praticamento não houve treinamento dos integrantes do Paemb e, quando houve, “em momento algum contou com participação das comunidades ameaçadas pelo rompimento da barragem”. Ainda segundo o documento, o próprio gerente de Segurança indicado no plano nunca teria sido treinado. Pior: “Nem tem formação na área de segurança do trabalho”, atesta a PF no despacho de indiciamento.

Como o EM revelou na edição de ontem, seis funcionários da empresa foram indiciados por dolo eventual no crime ambiental (quando se assume o risco, mesmo sem a intenção de praticar crime), incluindo o presidente afastado, Ricardo Vescovi, além da mineradora. Outro erro da empresa apontado no inquérito policial foi a falta de monitoramento efetivo da Barragem do Fundão. Uma série de falhas nos piezômetros – equipamentos usados para medir a pressão das barragens – deixou a mineradora sem informação sobre o risco que a estrutura apresentava, justamente na semana do rompimento.

Os delegados da PF interrogaram os funcionários da Samarco ligados ao Paemb e concluíram ainda que a empresa agiu com “total descaso” com a segurança do trabalho, conclusão baseada em três motivos: “Primeiro, por não ser a gerência exercida por pessoa capacitada na área; segundo, por, apesar de constar o nome do declarante no Paemb, este não ter passado por nenhum treinamento; e, terceiro, por não haver comunicação eficaz nas vistorias entre o setor de segurança do trabalho e vistorias geotécnicas. Além de mais uma vez comprovado que não havia uma sirene para alertar os funcionários”, escreveu o delegado de Polícia Federal, Roger de Lima Moura, no despacho de intimação.

A PF elenca ainda como fator importante para classificar o Paemb de “pro forma” o entendimento de que o plano foi  elaborado para obter licenciamento sem que tenha havido treinamento e medidas efetivas. “O próprio coordenador do Paemb de 2014 não sabia que existia esse plano e que ele era o coordenador”, afirma o despacho da PF. O coordenador do Paemb, Germano Lopes, disse à PF que só entrou no plano em 2015. Porém, os policiais apuraram que seu nome consta no plano apresentado em 2014 e que ele é considerado executor desde 2012.

No depoimento de Lopes, ele explicou aos delegados que o plano foi construído considerando diversos sinais de emergência e que, no cenário mais grave, previa a chegada da lama até a cidade de Barra Longa. Porém, a lama de rejeitos oriunda do rompimento da Barragem do Fundão passou pelos rios Gualaxo do Norte e do Carmo (que corta a cidade de Barra Longa) alcançou o Rio Doce e percorreu 853 quilômetros do leito desse manancial, deixando um rastro de destruição. Além do desastre ambiental, o rompimento provocou a morte de 17 pessoas e deixou duas desaparecidas, arrasou comunidades e provocou o colapso no abastecimento de água de várias cidades.

“A ineficácia e o subdimensionamento do Paemb  são notórios não só pelo resultado catastrófico imensamente maior do que o previsto no plano aprovado pela empresa e nos dam breaks (estudos de simulação de rompimento das barragens) constantes, como nos próprios relatos que demonstraram falha no meio de comunicação adotado”, avalia o documento da Polícia Federal. Um exemplo de falha foi relatado pela funcionária da Samarco Viviane Aparecida, que, ao ser interrogada pelos delegados da PF, contou que uma das funções dela no Paemb era avisar o coordenador em caso de problemas. Porém, ele trabalhava ao lado dela.

Outro funcionário da empresa interrogado, o engenheiro de processo Albano Cândido Santos disse à PF que jamais participou de qualquer treinamento referente ao Paemb e detalhou: “O run out (distância a ser percorrida pelo rejeito) foi minimizado no plano emergencial. O run out pode ser previsto por meio de cálculos até mesmo antes da construção da obra, o que não foi feito. E também era de responsabilidade da empresa a comunicação às localidades de autossalvamento, conforme previsto no plano, o que não ocorreu, já que não havia a instalação de sirenes ou de outro meio de comunicação eficaz que pudesse avisar toda a população das comunidades atingidas”.

FONTE: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2016/01/31/interna_gerais,730015/plano-de-emergencia-para-barragens-da-samarco-era-ineficaz-acusa-pf.shtml

Polícia Federal indicia Samarco por responsabilidade no TsuLama

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Como mostra a matéria abaixo assinada pelo jornalista Daniel Camargos e publicada pelo jornal Estado de Minas Gerais, a Polícia Federal decidiu indicar a Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) e seis dos seus funcionários por causa das responsabilidades identificadas pela ocorrência no rompimento da barragem do Fundão que deu origem ao TsuLama.

A Assessoria de Comunicação já soltou uma nota considerando o indiciamento como sendo “despropositado e absurdo”.  

Pois bem, quem acompanhou minimamente toda a narrativa que já foi feita pelo caso, esse indiciamento só peca por ter demorado tanto tempo. E, pior, indiciar não significa conseguir punir.  Como todas as engrenagens para garantir a impunidade da Samarco, da Vale e da BHP Billiton já estão se movendo, o indiciamento da PF pode morrer literalmente afogado no TsuLama.

PF aponta que equipamentos para medir pressão de barragens não funcionaram em Mariana

Segundo inquérito sobre a tragédia, não houve leitura manual na semana do rompimento

Por Daniel Camargos 

Jair Amaral/EM/D.A Press

Um dos principais argumentos da Polícia Federal para considerar que houve dolo eventual por parte da Samarco e de seis funcionários foi a falta de monitoramento efetivo da Barragem do Fundão. Uma série de falhas nos piezômetros – equipamentos usados para medir a pressão das barragens – deixou a empresa sem informação dos riscos que a estrutura apresentava, sustenta a PF.

A Barragem de Fundão tinha dois tipos de piezômetros: manuais e automatizados. A maioria dos equipamentos era manual e funcionários faziam a leitura de seus resultados semanalmente. Já os automáticos enviavam os dados de seis em seis horas. Porém, segundo o relatório da PF, na semana do rompimento da barragem os piezômetros automatizados estavam em manutenção e os funcionários da empresa não realizaram a leitura manual.

O coordenador técnico de Planejamento, Wanderson Silvério Silva, e monitoramento da empresa afirmou, em depoimento prestado à Polícia Federal, que desde agosto as obras realizadas na barragem interferiam nos sinais. “Só tem leitura dos instrumentos automatizados até o dia 2 de novembro”, afirmou o coordenador. Nos dias 3, 4 e 5 de novembro nada foi registrado no sistema automático dos piezômetros, pois os equipamentos estavam em manutenção.

A barragem se rompeu no dia 5 de novembro, uma quinta-feira. Segundo o funcionário interrogado pelo delegado da PF, a última leitura manual de Fundão foi feita no dia 26 de outubro, uma segunda-feira. Embora a previsão era de que a leitura manual fosse feita semanalmente, a seguinte avaliação estava marcada apenas para o dia 6 de novembro (sexta-feira), 11 dias depois.

Os funcionários da Samarco interrogados pela PF divergem sobre a quantidade de piezômetros manuais e automáticos instalados na Barragem de Fundão. Wanderson afirmou que existiam entre 72 e 74 instrumentos, sendo 20 automatizados. Já o encarregado da Coleta de Campo, Pedro Henrique Costa Gomes, outro funcionário afirmou que 70% dos piezômetros instalados eram automatizados. Em nota, a mineradora esclareceu que havia 74 piezômetros, dos quais 25 automatizados. “Os engenheiros tinham conhecimentos das inconsistências de dados dos piezômetros automatizados; que inclusive foi solicitada a manutenção”, garantiu Pedro.

Os delegados da PF responsáveis pelo inquérito destacam no relatório que, apesar do conhecimento dos problemas técnicos nos piezômetros automatizados, os engenheiros não estabeleceram mudanças na periodicidade do exame dos instrumentos manuais. “Por que a coleta manual de dados não foi feita?”, questiona a PF no relatório.

Manutenção Ao ser interrogado, o coordenador de monitoramento respondeu que a leitura não foi feita nos dias 3,4 e 5 de novembro porque os técnicos estavam acompanhando a empresa contratada para manutenção dos piezômetros automatizados que começaram apresentar problemas em agosto, quando foram iniciadas as obras na barragem. O gerente-geral da Samarco, Wagner Milagres Alves, disse, em depoimento à PF, que só ficou sabendo que as redes de transmissão dos dados dos piezômetros automáticos estavam com problemas após o rompimento da barragem. Perguntado pelos delegados sobre a razão de um período de 11 dias sem leituras manuais, uma vez que os aparelhos automatizados estavam com problemas, o gerente-geral respondeu que não sabia informar.

Samarco diz que  indiciamento é ‘despropositado’

A Samarco afirmou, em nota, que não concorda com o indiciamento, pois foi decidido em relatório parcial, baseado em dados colhidos até meados de dezembro. “Após essa decisão, vários esclarecimentos foram prestados em novos depoimentos e documentos juntados, todos a afastar os fundamentos do indiciamento”, afirma a empresa em nota. A empresa entende que a alegação de dolo eventual no crime ambiental é “despropositada e absurda, pois a Samarco, seus técnicos e consultores jamais poderiam supor que pudesse ocorrer um acidente dessa dimensão nem assumiriam o risco da sua ocorrência, pois absolutamente nada justificaria assunção do risco de enfrentamento de problemas como os que a empresa está a enfrentar neste momento”.

Sobre a frequência da leitura dos piezômetros, a Samarco afirma que era maior do que a recomendada no manual de operações elaborado pelo projetista e consultor da barragem, Joaquim Pimenta de Ávila. “Além disso, as leituras dos instrumentos de monitoramento sempre atestaram a estabilidade da barragem e jamais houve alerta de iminente risco de sua abrupta ruptura”, afirma a empresa em nota.

FONTE: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2016/01/30/interna_gerais,729826/pf-aponta-que-equipamentos-para-medir-pressao-de-barragens-nao-funcion.shtml

Ibama recusa proposta da Samarco e exige novo Plano de Recuperação Ambiental

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Brasília (28/01/2016) – O Ibama encaminhou ofício nesta quarta-feira (27/01) à mineradora Samarco, responsável pela catástrofe provocada pelo rompimento de barragem em Mariana (MG), exigindo que a empresa apresente um novo Plano de Recuperação Ambiental da região afetada, com as complementações e atualizações necessárias.

Em 18/01, a Samarco, controlada pela Vale e pela BHP, protocolou na Superintendência do Ibama em Minas Gerais o Plano de Recuperação Ambiental, exigido por meio de notificação.

A equipe técnica responsável pela análise considerou que o levantamento dos impactos foi feito “de maneira genérica e superficial, sem considerar o imenso volume de informações produzidas e disponíveis até o momento”. As ações propostas foram classificadas como “pouco detalhadas e pouco fundamentadas do ponto de vista metodológico e científico”.

“O diagnóstico dos danos é extremamente superficial”, apontam os técnicos no documento. De acordo com a avaliação, a empresa “minimiza todos os impactos ambientais da ruptura da barragem”. “Em relação aos impactos sobre os organismos aquáticos, verifica-se a tendência a subestimar o problema, inclusive se omitindo completamente em relação ao volume e diversidade de peixes encontrados mortos ao longo da bacia do Rio Doce.”

A Nota Técnica produzida pelos analistas do Ibama ressalta que “a falta de prazos definidos impossibilita qualquer monitoramento das atividades a serem desenvolvidas por parte dos órgãos competentes”.

O prazo para entrega das complementações e atualizações exigidas é 17 de fevereiro.

Leia a Nota Técnica.

FONTE: Assessoria de Comunicação do Ibama,  imprensa@ibama.gov.br, (61) 3316-1015