Reestatização-já do setor elétrico!

Reforma do setor elétrico: redução de tarifas e ampliação do mercado livre  de energia | Nova Energia

 Por Heitor Scalambrini Costa*

São Paulo pode ser considerada como uma das 10 cidades de maior PIB do planeta.  Nos últimos anos, a falta de energia elétrica prolongada se tornou um problema recorrente na capital paulista. Chuvas, tempestades e ventos fortes, tem provocado quedas de árvores, danificando a rede elétrica e interrompendo o fornecimento de energia nesta megalópole, deixando milhares de pessoas sem luz por vários dias.

A Enel Distribuição São Paulo atende cerca de 7,5 milhões de unidades consumidoras em 24 municípios da região metropolitana, incluindo a capital, servindo mais de 20 milhões de pessoas, sendo a segunda maior distribuidora do Brasil, e com quase metade dos clientes da Enel no país.

O ápice da recente crise ocorreu em 10 de dezembro de 2025, quando um ciclone extratropical derrubou inúmeras árvores, afetando a rede elétrica, deixando mais de 2,2 milhões de unidades consumidoras sem energia na Grande São Paulo. O apagão durou vários dias, repetindo outros 4 ocorridos nos últimos 2 anos. A Enel SP acumula reclamações, multas não pagas, com milhões de paulistas afetados, e prejuízos estimados em bilhões de reais.

Não se pode culpar São Pedro pelas ocorrências, muito menos o cidadão/consumidor de um serviço essencial, que foi ludibriado pelas promessas neoliberais do governo FHC (PSDB) que propagavam que a privatização do setor elétrico atingiria ganhos de eficiência através da competição e do investimento de agentes privados, resultando na modicidade tarifária e na melhoria da qualidade dos serviços prestados. Pura balela.

A privatização das distribuidoras de energia, exemplificada pela Enel SP, tem gerado falhas graves e transgressões na prestação de serviços, com apagões frequentes e prolongados, devido à redução de investimentos em manutenção e no quadro de funcionários, priorizando o lucro para acionistas. Isto gera perdas econômicas para consumidores e empresas, e levanta questionamentos sobre a fiscalização das agências reguladoras, e a real vantagem de entregar serviços essenciais ao capital privado, com os governos das 3 esferas discutindo até rompimento antecipado do contrato de concessão (caducidade).  

O Ente Nazionale per l’Energia Elettrica (Enel) é uma empresa de capital predominantemente privado, com uma participação minoritária importante, do governo italiano, seu maior acionista individual. Fundada como estatal na Itália em 1962, foi privatizada nas décadas de 1990/2000, e hoje tem ações negociadas em bolsa, com o Estado italiano mantendo cerca de 23,6% do capital, influenciando a governança da empresa. No Brasil, opera concessões de distribuição de energia (SP, RJ, CE), adquiridas após privatizações de estatais como a Eletropaulo, privatizada em 1999 no governo de Mário Covas (PSDB).  

O caso Enel expõe a fragilidade na crença da superioridade e eficácia do setor privado, cujo foco no lucro, em detrimento do interesse público, resulta em altas tarifas e problemas na prestação dos serviços elétricos para o consumidor. O fornecimento de um serviço essencial, mostra que a prioridade no lucro leva à precarização do serviço, transferindo os riscos e prejuízos para a população.

Após 4 grandes apagões em dois anos, a Enel enfrenta a iminente cassação da sua concessão para o fornecimento de energia em 24 municípios da região metropolitana de São Paulo. Desde que assumiu o fornecimento de energia aos paulistas em 2018, o valor total de multas aplicadas contra ela supera os R$ 400 milhões. Menos de 90% deste valor foi pago.  Outra informação importante para entender como o aumento da lucratividade da empresa tem a ver com a redução dos custos, diz respeito ao seu quadro de funcionários. Entre 2020 e 2025 caiu 25,13%, de 26.962 para 20.185 empregados. Segundo os relatórios de administração da empresa esta redução foi devido aos terceirizados que passou de 21.114 para 15.521 trabalhadores. Entre os funcionários da empresa a redução neste período foi de 5.848 para 4.664. Tais números são contestados pela empresa.

Com a privatização de setores da economia nacional no final dos anos 90 do século passado, foram criadas as agências reguladoras federais e estaduais. Autarquias de regime especial, regulam e fiscalizam serviços públicos transferidos para o setor privado, como energia, saneamento, telecomunicações e transportes. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), como agência reguladora federal, é a responsável pela concessão dos serviços de energia elétrica (como os prestados pela Enel SP), e a ela cabe a regulação geral do setor e decisões sobre, por exemplo, a caducidade de contratos.

Para abranger todo o território nacional de maneira descentralizada foram criadas agências reguladoras nos Estados. A Aneel delega a estas agências a execução de tarefas regulatórias e fiscalizatórias no âmbito do território estadual.

A Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp), criada a partir da Comissão de Serviços Públicos de Energia (CSPE), é a autarquia que atua na regulação e fiscalização dos serviços de energia elétrica e gás canalizado desde 1998. Sua principal atribuição na área de energia é fiscalizar:  7 concessionárias (CPFL Paulista, CPFL Piratininga, CPFL Santa Cruz, EDP São Paulo, Enel São Paulo, Energisa Sul-Sudeste e Neoenergia Elektro) e 12 permissionárias de serviços públicos de distribuição de energia elétrica; 54 centrais de geração hidrelétrica (CGH); 27 pequenas centrais hidrelétricas (PCH); 42 usinas hidrelétricas (UHE);  936 usinas termelétricas (UTE); 101 usinas fotovoltaicas (UFV); 1 usina eólica (EOL); e demais instalações de transmissão (DIT). E faz o monitoramento direto da qualidade dos serviços prestados pelas concessionárias, reportando à Aneel e aplicando sanções em alguns casos.

Pode-se afirmar que a Arsesp atua como um braço regulador e fiscalizador da Aneel em São Paulo, por meio de convênio de delegação e descentralização. Não substitui a Aneel que é a responsável final pela regulação e fiscalização. Em situações de crises ou eventos climáticos graves, as duas agências devem atuar em conjunto, monitorando e acompanhando o restabelecimento do fornecimento de energia.

A Arsesp possui um quadro com cerca de 73 fiscais no total para todas as áreas reguladas (gás natural canalizado, resíduos sólidos, saneamento e energia elétrica), mas um número menor de 24 fiscais, dedicado especificamente para fiscalizar todo o setor elétrico. Com tal número de fiscais, fica caracterizado o famoso “faz de conta” na fiscalização.

Outro aspecto a ser levado em conta, nas ocorrências de condições climáticas extremas, é a gestão na poda e/ou remoção das árvores. A flexibilização ocorrida na Lei das Podas Urbanas em abril de 2022 pela base política do atual prefeito, alterou o planejamento, monitoramento e atendimento de podas e manejo arbóreo na cidade. Na atual lei é responsabilidade das subprefeituras realizarem a poda e remoção de árvores em espaços públicos. Manejo de árvores em área particular é de responsabilidade do proprietário do local. A concessionária faz a poda apenas quando os galhos estão perto ou encostando nos fios de energia. Esta atividade é importante pois na maioria das vezes são galhos e árvores tombadas que acabam rompendo as linhas de distribuição, interrompendo o fornecimento de energia. Árvores podadas e/ou removidas evitam acidentes, e consequentemente minimizam a interrupção elétrica. O fato é que a nova lei das podas não tem funcionado e que mudanças urgentes são necessárias.

Diante deste cenário por conta do péssimo serviço prestado pela Enel, da falta de coordenação, de entendimento, entre a prefeitura e a empresa concessionária, do reduzido número de fiscais estaduais para fiscalizar e monitorar a qualidade dos serviços oferecidos, e da Aneel que tem compactuado com as empresas privadas, quem sofre as consequência dos apagões é o consumidor/cidadão, as industriais, o comércio, a prestação de serviços, enfim toda a economia do estado mais rico do país e de seus moradores.

A concessão da Enel está prevista para durar até 2028, podendo ser renovada por mais trinta anos. Todavia existe um certo consenso que levou os governos municipal, estadual e federal a demandarem junto a Aneel, o rompimento do contrato de concessão. Tal procedimento dependerá da abertura de um processo administrativo, da investigação das causas do apagão, do contraditório e da ampla defesa à companhia, até que se chegue à decisão final.

Depois de 30 anos, desde a primeira privatização de uma distribuidora de energia elétrica, verifica-se que o fim da vigência de contratos de privatização de distribuidoras de energia a partir de 2025, reacendeu o debate sobre o papel do Estado e do mercado no fornecimento de energia, e de outros bens essenciais. O que não deixa de ser uma pauta atual e necessária para a discussão da reestatização dos serviços públicos no país.


*Heitor Scalambrini Costa é professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco

Em São Paulo, periquitos, maracanãs e papagaios buscam alimento em 79 espécies de plantas

Periquito-rico verde se alimenta de coquinho de jerivá em árvore no campus da USP.

Periquito-rico se alimenta de coquinho de jerivá no campus da USP.  Foto: José Carlos Motta Junior

Agência BORI

Uma pesquisa realizada no campus da Universidade de São Paulo (USP) acompanhou durante três anos a dieta de psitacídeos (aves da família dos papagaios, araras e periquitos) em vida livre e trouxe informações inéditas sobre como eles estão se adaptando ao ambiente urbano. O artigo com os resultados será publicado em breve na Revista do Instituto Florestal. 

A escolha do campus da USP não foi por acaso: trata-se de uma área extensa e heterogênea, que reúne desde prédios e estacionamentos até jardins arborizados e bordas de Mata Atlântica, funcionando como um verdadeiro laboratório vivo para estudar a biodiversidade em cidades. O levantamento registrou 2.929 eventos alimentares, envolvendo principalmente três espécies: periquito-rico (Brotogeris tirica), maracanã-pequena (Diopsittaca nobilis) e papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva).

A motivação para o estudo surgiu da grande incidência de psitacídeos observada no campus e da constatação de que havia pouca produção científica sobre sua alimentação em áreas urbanas. “Notamos que a maioria dos trabalhos era realizada em ambientes naturais. Ao registrar essas aves no campus da USP, buscamos compreender como elas estão se adaptando a um cenário bastante modificado”, explica o professor doutor sênior José Carlos Motta-Junior, mestre em Zoologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e doutor em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

Um dos principais diferenciais do trabalho é o uso exclusivo de fotografias (e eventualmente vídeos) para registrar os hábitos alimentares. Essa metodologia, pouco explorada até mesmo em nível mundial, trouxe mais precisão aos resultados. “Ao fotografar, conseguimos analisar depois no computador e confirmar o que estava sendo consumido. Por exemplo, em alguns casos o que parecia ser extração de néctar numa primeira impressão, ao ampliar as imagens, se revelava consumo de pólen. Se dependêssemos apenas da observação direta, poderíamos registrar de forma incorreta”, comenta o pesquisador.

O levantamento identificou 83 itens alimentares, sendo 79 espécies de plantas, a maioria arbóreas. Na cidade, a dieta dos periquitos, maracanãs e papagaios se baseia em grande parte nos coquinhos do jerivá, no araçá-roxo e nas sementes da paineira. Aproximadamente 60% das plantas consumidas eram nativas, fornecendo sementes, frutos e flores, enquanto cerca de 40% eram exóticas. Essa diversidade demonstra a flexibilidade alimentar das aves, fundamental para sua permanência em áreas modificadas. “Esse jogo de cintura permite que não apenas sobrevivam, mas também se reproduzam localmente, sem necessidade de migração”, acrescenta Motta-Junior.

Apesar do grande número de registros, o estudo reconhece algumas limitações, uma vez que, muitas vezes, as aves permanecem escondidas e em silêncio nas copas das árvores, dificultando a observação. Mesmo assim, a amostragem foi considerada robusta, representando a heterogeneidade do campus, que vai de áreas com forte intervenção humana até bordas de Mata Atlântica. Outro aspecto interessante é a mudança das estações do ano (sazonalidade), com maior consumo de flores em períodos secos, mostrando a adaptação às variações na disponibilidade de alimento.

A pesquisa também se destacou por não depender de financiamento externo. Os equipamentos utilizados já estavam disponíveis e a própria dinâmica de coleta não exigiu recursos adicionais. Para o pesquisador, a colaboração de estudantes de graduação da USP foi essencial no processo de coleta e análise dos dados, resultando em um trabalho coletivo de grande impacto.

Além de ampliar o conhecimento sobre a dieta dessas aves, o estudo oferece subsídios importantes para o manejo das áreas verdes urbanas. A predominância do consumo de plantas nativas reforça a importância de priorizar essas espécies em projetos de arborização. “É fundamental valorizar a flora nativa, mas sem excluir totalmente algumas exóticas, especialmente as que fornecem alimento em épocas de escassez e que não apresentam risco de invasão”, afirma Motta-Junior.

Para o especialista, os resultados também têm um papel educativo e de sensibilização. “Há um ditado que diz: conhecer é preservar. Ao divulgar dados básicos de ecologia e história natural, aproximamos a população da biodiversidade que ainda existe nas cidades, tornando mais pessoas conscientes e dispostas a valorizar essa riqueza”, destaca.

Os próximos passos da pesquisa incluem a continuidade do monitoramento para ampliar a lista de itens alimentares registrados e o aprofundamento em estudos sobre interações ecológicas, como polinização e dispersão de sementes. Também está em andamento a produção de um fotolivro digital gratuito sobre os psitacídeos do campus e a sua relação com as plantas, a ser disponibilizado futuramente no Portal de Livros Abertos da USP.


Fonte: Agência Bori

Tarcísio Freitas, o governador que só se preocupa com sua Coca Cola

Em uma entrevista coletiva em que supostamente procurava apresentar as medidas sendo tomadas por sua administração para coibir a disseminação de bebidas falsificadas no estado de São Paulo, o governador (?) Tarcísio Freitas saiu-se com uma declaração daquelas que relembram bem a sensibilidade com a dor alheia do seu mentor, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Do alto de sua insensibilidade, Tarcísio teria proferida a seguinte frase: no dia que começarem a falsificar Coca-Cola, eu vou me preocupar. ainda bem que ainda não chegaram a esse ponto“.

E pensar que segundo as pesquisas eleitorais, Tarcísio Freitas está aparecendo com grandes chances de ser reeleito caso concorra para continuar governando São Paulo nas eleições de 2026.

Pois é.  Sem comentários.

Casos de intoxicação por metanol acendem alerta para necessidade de investimentos em inteligência e fiscalização

Para o Anffa Sindical, falta de estrutura e de recursos humanos fragiliza o combate a crimes que colocam em risco a saúde da população

Metanol na bebida alcoólica: polícia faz operação em bares - 29/09/2025 -  Equilíbrio e Saúde - Folha

Por Anffa Sindical

Casos recentes de intoxicação por metanol após ingestão de bebidas alcoólicas nos estados de São Paulo e Pernambuco acendem um alerta para a necessidade urgente de investimentos em recursos humanos e estrutura voltados às ações de inteligência no combate a crimes envolvendo produtos de origem animal e vegetal, incluindo bebidas e alimentos, que colocam em risco a saúde da população. Diversas ocorrências foram confirmadas, mais de 15 estão em investigação e cinco pessoas já morreram em decorrência da ingestão da substância altamente tóxica.

Casos de intoxicação acendem um alerta para a necessidade urgente de investimentos voltados às ações de inteligência contra crimes envolvendo alimentos e bebidas (Foto: Reprodução)

As investigações apontam que falsificadores “batizavam” bebidas como gin e vodca de marcas conhecidas com metanol, que posteriormente eram comercializadas e consumidas pelas vítimas. Até o momento, não há informações sobre em qual etapa da produção ou distribuição ocorreu a adulteração, nem quem seriam os responsáveis ou se outros destilados também foram comprometidos.

Até seis horas após a ingestão, a pessoa intoxicada pode apresentar dor abdominal intensa, sonolência, falta de coordenação, tontura, náuseas, vômitos, dor de cabeça, confusão mental, taquicardia e pressão arterial baixa. Até 24 horas após a ingestão, a lista de sintomas inclui visão turva, fotofobia, visão embaçada, pupilas dilatadas, perda da visão das cores, convulsões e coma. Em casos mais graves, o paciente pode evoluir para cegueira irreversível, choque, pancreatite, insuficiência renal, necrose de gânglios, tremor, rigidez, lentidão dos movimentos e chegar ao óbito. Assim, recomenda-se a assistência médica imediata.

O Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (Anffa Sindical) destaca que as bebidas regulares possuem registro e são fiscalizadas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), portanto é imprescindível verificar a procedência dos itens consumidos. Já os casos de intoxicação envolvem produtos irregulares, fruto de práticas criminosas e que, por isso, estão sob investigação policial.

Por conta disso, para o Anffa Sindical, o episódio reforça a importância de ampliar as ferramentas de inteligência no enfrentamento a práticas criminosas que atentam contra a saúde pública e só podem ser combatidas com estrutura e servidores em número adequado. O presidente, Janus Pablo Macedo, destaca a atuação do Programa de Vigilância em Defesa Agropecuária para Fronteiras Internacionais (Vigifronteira), conduzido pelos auditores fiscais federais agropecuários que, em articulação com forças policiais, já apreendeu mais de 500 mil litros de bebidas irregulares desde 2020.

“O trabalho de fiscalização é estratégico para impedir a entrada e a circulação de produtos irregulares no País. Os profissionais que atuam no Vigifronteira têm como foco a repressão de ilícitos. Mas o avanço desse tipo de crime só poderá ser combatido com investimentos adequados em inteligência, tecnologia e, principalmente, na recomposição dos nossos quadros de servidores. Sem isso, a saúde pública continuará exposta”, afirma o presidente do Anffa Sindical.

Ele ressalta ainda que os riscos não se limitam às bebidas adulteradas: diferentes modalidades de fraude envolvendo produtos estão presentes em todo o País, o que exige estratégias articuladas de fiscalização e repressão. Nesta lista, incluem-se também alimentos e medicamentos de uso veterinário.

O Anffa Sindical lamenta profundamente as vítimas do episódio em São Paulo e em Pernambuco, defende a continuidade das investigações e cobra punição rigorosa aos responsáveis. O sindicato ainda reforça que somente com ações firmes, articuladas e estruturadas será possível proteger a saúde da população e evitar novas tragédias.

Água da chuva no estado de São Paul está contaminada por agrotóxicos, mostra estudo da Unicamp

Atrazina, 2,4-D e Fipronil são alguns dos agrotóxicos encontrados na água da chuva em diferentes partes do estado de São Paulo

Uma pesquisa conduzida pela Universidade de Campinas (Unicamp) detectou a presença de agrotóxicos nas chuvas em Brotas, em Campinas e até na cidade de São Paulo.  O estudo foi publicado na revista científica Chemosphere e alerta para os riscos ambientais da intervenção humana no meio ambiente.

A pesquisa encontrou 14 agrotóxicos e cinco compostos derivados. Os destaques são o herbicida atrazina, presente em 100% das amostras, e o fungicida carbendazin, proibido no Brasil, mas presente em 88% das amostras. O herbicida tebuthiuron foi encontrado em 3 de cada 4 amostras. 

Conforme o estudo, as concentrações dos agrotóxicos não ultrapassam o limite permitido em água potável no país, mas, parte das substâncias sequer têm padrão de segurança que são considerados aceitáveis. A exposição crônica a eles, mesmo em baixas concentrações, pode causar danos à saúde e à vida aquática.

Esses compostos são usados nas lavouras e se dissipam na atmosfera. Com o vento, a temperatura e umidade se distribuem e acabam se condensando nas gotas de chuva e retornando à superfície terrestre.

Em Brotas, por exemplo, o herbicida 2,4-D foi o de maior concentração na água da chuva. O produto não está proibido no Brasil, mas seu uso deveria ser controlado por danos comprovados para a fertilidade humana.  O fipronil, liberado no Brasil, mas já proibido na Europa e nos EUA, estava em 67% das amostras. O composto é potencialmente tóxico para abelhas e tem meia vida longa, de 220 dias, em ambientes aquáticos, por exemplo.

A principal fonte de preocupação dos pesquisadores da Unicamp se refere ao aumento do consumo de água da chuva pelas populações humanas devido às restrições hídricas.  Os pesquisadores da Unicamp sugerem estratégias de monitoramento e tratamento, com base no conhecimento científico já adquirido sobre o assunto.


Fonte:  Pesquisa FAPESP

Dia da água: Venda de áreas de pesquisa no Estado de São Paulo ameaça bioma Cerrado e põe em risco maior manancial de água doce do mundo

Diante da emergência climática, Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) defende que áreas recebam investimentos em pesquisa

São Paulo, março de 2025 – A venda de áreas de pesquisa no Estado de São Paulo pode colocar em risco o que resta do bioma do Cerrado, considerado o ‘berço das águas’, em território paulista, estimado hoje em apenas 3% da vegetação original. A afirmação é da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), que monitora 39 áreas de experimentação ligadas à Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA), todas com vocação para pesquisa e conservação do bioma.  

“O atual governo já confirmou, em resposta a um ofício da Assembleia Legislativa, que realiza um estudo para vender essas áreas. São fazendas fundamentais para a pesquisa científica, a produção de conhecimento, e, mais do que isso, essenciais para conservar o pouco que nos resta do bioma do Cerrado no Estado”, afirma Helena Dutra Lutgens, presidente da APqC. 

O Cerrado é reconhecido pela capacidade de absorver água da chuva e liberar lentamente ao longo de todo ano. No Estado de São Paulo, segundo cientistas, ele cumpre um papel ainda mais relevante, o de proteger o aquífero Guarani, maior manancial de água doce subterrânea do mundo. 

Apesar de sua importância, o Cerrado enfrenta desmatamento há décadas. Dados da plataforma Terrabrasilis, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), indicam que a área desmatada em São Paulo avançou 831,91 km² desde 2001.  

Apenas no ano passado, segundo dados do Painel Verde, do Governo de São Paulo, 281 áreas do bioma Cerrado sofreram intervenções irregulares.  

“Diante do atual cenário de mudanças climáticas, o Estado mais rico da nação deveria estar preocupado em buscar investimentos para desenvolver pesquisas sobre como enfrentar a escassez hídrica, que já afeta muitos municípios do interior paulista, ou estudos para evitar que os mananciais sejam contaminados pela exploração agrícola, algo que também já ocorre em diferentes regiões do Estado”, sinaliza Lutgens. 

Um estudo divulgado no ano passado e conduzido por pesquisadores do Instituto Geológico e da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) indica risco de algumas regiões paulistas enfrentarem aumento de até 6ºC na temperatura até 2050. Ondas de calor podem dominar o clima por até 150 dias por ano.  

Segundo a APqC, os 16 institutos públicos de pesquisa de São Paulo têm realizado estudos para identificar variedades mais resistentes às mudanças climáticas, em diferentes culturas. Mas, segundo a APqC, os esforços dos pesquisadores dependem de maior investimento, além da contratação de mais cientistas. 

“A segurança alimentar das próximas gerações depende do investimento em pesquisa que fazemos hoje. O uso sustentável da água e a descoberta de novas variedades de alimentos adaptadas ao novo clima dependem da ciência e não há como produzir conhecimento sem áreas de pesquisa, sem ter onde experimentar essas descobertas. Vender áreas de pesquisa diante do quadro que vivemos é um crime contra as futuras gerações”, finaliza Lutgens. 

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Estudo identifica 41 registros de espécie invasora de mexilhão verde no litoral paulista

Espécie é originária da região Indo-Pacífica; sua presença no Brasil pode pode estar associada ao transporte marítimo e à poluição plástica

Um estudo publicado na quarta (19) na revista científica “Marine Biology”, identificou 41 registros da espécie Perna viridis, conhecido como mexilhão verde, ao longo da costa norte do estado de São Paulo. Doze deles estavam localizados dentro de unidades de conservação, incluindo parques nacionais e reservas ecológicas, o que indica que a espécie está se estabelecendo em áreas ecologicamente sensíveis.

Com autoria de pesquisadores do Instituto de Pesca de São Paulo, da Universidade de São Paulo (USP) e outras instituições parceiras, o estudo mapeia a distribuição da espécie com base em dados que incluem amostragens em campo, revisão da literatura científica e registros da plataforma iNaturalist, em que usuários não cientistas podem relatar a ocorrência da espécie.

O mexilhão verde foi registrado ao longo da costa paulista, nas seguintes áreas: Praia da Cocanha (Caraguatatuba), Praia das Cigarras (São Sebastião), Ponta das Furnas (Ilhabela), Saco da Ribeira (Ubatuba), Enseada da Baleia (Parque estadual da Ilha do Cardoso, Cananeia), Iguape, Ilha Comprida, Peruíbe, São Vicente e Santos. A maioria desses locais foram associados a colônias do mexilhão P. perna, exceto Ubatuba, Iguape, Ilha Comprida, Peruíbe (RDS da Barra do Uma), São Vicente e Santos, onde os espécimes foram coletados de uma corda de amarração de barco.

A espécie é originária da região indo-pacífica, onde ocorre naturalmente em águas tropicais e subtropicais. No entanto, desde 1995, a disseminação na costa sul-americana tem levantado preocupações devido a impactos ambientais, econômicos e sanitários. “Ecologicamente, a espécie pode competir com moluscos nativos por espaço e recursos, alterando a estrutura da comunidade bentônica [organismos que vivem no fundo de oceano] e comprometendo cadeias tróficas”, alerta o pesquisador Edison Barbieri, do Instituto de Pesca, um dos autores do estudo. “Além disso, a bioincrustação causada pelo mexilhão pode afetar a navegabilidade de embarcações, encarecendo custos operacionais. No contexto sanitário, a espécie pode atuar como vetor de microrganismos patogênicos, comprometendo a segurança alimentar e a aquicultura local”, completa o autor.

Para o especialista, a introdução do mexilhão verde no Brasil pode estar associada ao transporte marítimo internacional, especialmente pela liberação de larvas presentes na água de lastro de navios. Além disso, substratos artificiais, como plataformas petrolíferas e embarcações, podem atuar como vetores para a fixação e dispersão da espécie ao longo da costa.  “Outra hipótese relevante é a poluição plástica, uma vez que fragmentos de plástico podem servir de substrato para a fixação de larvas e facilitar a sua disseminação para novas áreas”, frisa Barbieri.

Na visão dos autores, as autoridades ambientais devem estabelecer programas de monitoramento e implementar regulamentações mais rigorosas para o controle da água de lastro e da incrustação biológica em embarcações e plataformas marítimas. Já a população pode contribuir com a ciência cidadã, registrando novas ocorrências da espécie em plataformas digitais como o iNaturalist. Além disso, campanhas de conscientização são essenciais para evitar a dispersão acidental da espécie para novas áreas.

O grupo de pesquisadores continuará monitorando a expansão geográfica do Perna viridis e avaliando os seus impactos ecológicos e econômicos ao longo prazo. Os próximos estudos deverão se concentrar nas interações da espécie com moluscos nativos e na identificação de estratégias eficazes de controle e mitigação. Os exemplares dos mexilhões verdes coletados foram depositados no acervo do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP) para futuras análises.


Fonte: Agência Bori

A pergunta que Guilherme Boulos terá de responder: quanto vale Jerusalém?

jerusalém

Por Douglas Barreto da Mata 

Não é novidade para ninguém, que teve a paciência de conviver comigo, mais de perto, que eu sou um cinéfilo.  Entendo a essência do teatro, como real possibilidade do ator exercer seu ofício, mas sempre me apaixonou a 7ª arte, por sua complexidade construtiva, a necessidade de juntar um monte de gente e recursos para criação e narração de uma história.

Para mim, esse vetor principal do filme é a pergunta que Balian, o Barão de Ibelin (Orlando Bloom), faz a Saladin (Ghassan Massoud), às portas da muralha de Jerusalém, que estava prestes a ser dizimada pelos muçulmanos:  “Quanto vale Jerusalém?” Ao que Saladin responde: “Jerusalém vale tudo, Jerusalém vale nada”. 

Essa resposta, além de revelar a reconhecida sabedoria do líder islâmico, filosoficamente propõe, ali, naquele momento dramático, que as coisas valem o valor que damos por elas, e espicha um pouco mais o dilema, para perguntar também: o que somos capazes de fazer por aquilo que acreditamos?

Essa é a base de boa parte de nossas relações sociais, e…políticas. Motivação.

Uma lição, que deveria ser estudada com carinho pelos “petistas da feijoada”, de Campos dos Goytacazes, o pessoal do “sou PT, mas voto Feijó”, e que hoje se encastelou na campanha de Jefferson como cruzados em Jerusalém, mas sem a menor noção dos que os cerca, ao contrário do protagonista do filme.

No dia de hoje, a mídia nacional se debruça sobre a pergunta, que Guilherme Boulos terá que responder:  Quanto vale São Paulo?

Sim, estabilizado, momentaneamente, no topo das intenções de voto na corrida paulista, mas sem chance de resolver no primeiro turno, o cruzado terá que conversar com Ricardo Nunes, atual prefeito, candidato à reeleição, e apadrinhado por ninguém menos que Jair Messias Bolsonaro.

Nem vou mencionar a tragédia de um segundo turno com Pablo Marçal, porque, sabemos, a direita e sua parcela mais extremada vão convergir contra o cruzado Boulos.

Porém, se esse quadro atual se consolidar, o que farão Lula e Boulos? Há hipóteses. Jair Bolsonaro, apesar de se comportar como um imbecil, de imbecil nada tem.  É preciso não confundir o personagem com quem o interpreta. O ex-presidente sabe que existem chances reais de seu grupo não levar a prefeitura paulistana, o que mexe no tabuleiro de 2026, e etc.

Jair sabe da importância de SP, mas sabe que sem poder concorrer em 2026, seu grupo e seu capital políticos perigam minguar, inclusive com a chance de que outros aspirantes ao local que ele ocupa apareçam.

Ele já deu a entender que a “normalização” da tensão política, que é seu principal alimento, ameaça a diluição dos extremos no grande caldo de cultura e tesão nacional, o centro!  Baixou decreto ex-presidencial proibindo o PL de se coligar com os vermelhos nessas eleições.

Jair precisa de anistia ou, melhor e mais, precisa de um amplo acordo político e jurídico (como se os dois fossem coisas separadas, rs) para ser colocado de novo no páreo.  O cálculo dele, pode passar, eu imagino, por uma “liberação” de Nunes para negociar com Boulos, exigindo em troca que Lula trabalhe pelo consenso da sua anistia, seja lá com o argumento ele tenha que usar, já que nesse movimento, caberia a maior parte do prejuízo a Lula.

Lula, ele mesmo, já andou acenando com essa possibilidade, dizendo que o país precisa se pacificar, talvez, com a esperteza que só ele tem, a dos sobreviventes, de que teria que fazer essa jogada em algum tempo futuro, que parece ter chegado.  Quem olhar mais de perto vai poder perceber que o “afastamento” de Bolsonaro dos dois pólos da direita em São Paulo é mais que má vontade, porque Ricardo Salles não foi declarado candidato, como ele desejava.

É, em parte, isso, no entanto, é mais.  O truque está em se poupar do desgaste de explicar a sua base fiel de fanáticos que ele negociaria com Lula e Boulos, caso fosse um padrinho mais ativo de Nunes.  Novamente, Jair vai “terceirizar” o prejuízo da conversa a Nunes, e se duvidar, vai até fazer alguma declaração (combinada) contra a conversa Nunes/Boulos, enquanto negocia por trás.

É um aprendizado, como já disse, para o pessoal do PT, da feijoada campista.

No fim, a realidade se impõe sobre as idiossincrasias, o que é ótimo, aliás. Na verdade, tudo isso que escrevi pode não passar de mera especulação, e é, na medida que mesmo que haja estas conversas, raramente um dos atores envolvidos a confirmaria.

A questão de fundo, ou central é: a necessidade de ter essa conversa, e a possibilidade que ela exista, não nessa ordem.

O pessoal daqui tenta justificar suas posições com sofismas, do tipo, Wladimir é Bolsonaro, ao mesmo tempo que mentem ao dizer que não há diferenças entre o prefeito e a delegada, enquanto, ingenuamente, tentam esconder o fato de que agem a mando dos padrinhos da moça, como, como linha auxiliar da extrema-direita.

Agora, o líder maior, Lula, pode ter que conversar com seu arqui-inimigo, e inacreditavelmente, trabalhar para que ele volte ao cenário eleitoral.  Fica a dica:  Inimigo, ou você aniquila de vez, ou se prepara para negociar com ele.

Quanto vale Jerusalém? Quanto vale São Paulo? Quanto vale o PT de Campos?

Impacto da urbanização no litoral paulista requer ações urgentes, aponta estudo

Mapeamento conduzido na Unifesp revela a expressiva extensão de estruturas artificiais construídas na linha de costa e a ocupação de áreas vulneráveis a eventos climáticos

quebra mar

Molhe feito de rochas para proteção costeira (foto: Aline Martinez)

Por Agência FAPESP 

 Pesquisadores do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (IMar-Unifesp), em Santos, mapearam a linha costeira do Estado de São Paulo, revelando dados inéditos sobre a urbanização das zonas costeiras do Brasil.

O estudo foi conduzido durante o pós-doutorado de Aline Martinez, com apoio da FAPESP e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Os resultados foram divulgados na revista Anthropocene Coasts e destacam a necessidade urgente de ações para uma gestão costeira sustentável e resiliente.

O grupo mapeou toda a linha da costa de São Paulo para quantificar a extensão de estruturas artificiais, como quebra-mares, espigões, cais de porto e píeres, bem como ocupações em zonas costeiras de baixa elevação próximas a praias e margens estuarinas. Essas áreas são altamente vulneráveis a eventos climáticos, sofrendo com o avanço do nível do mar, inundações e erosão.

Os pesquisadores da Unifesp revelaram que o litoral paulista tem 245 quilômetros (km) de estruturas artificiais na linha de costa, o que equivale a três vezes a distância entre as cidades de São Paulo e Santos. Infraestruturas de proteção costeira, como muros de contenção, muretas, quebra-mares e estruturas de atracamento de embarcações, representam 80% de todas as estruturas mapeadas, sendo que 63% delas estão na Baixada Santista, a região mais urbanizada.

“Embora essas estruturas sejam úteis para nossas atividades diárias, elas causam grandes impactos ambientais, como a perda de hábitats naturais e de biodiversidade, além de serviços ecossistêmicos essenciais,” explicou Martinez à Assessoria de Imprensa do IMar-Unifesp. “Essas infraestruturas também facilitam a bioinvasão, quando espécies de uma região se estabelecem em novas localidades, causando problemas ambientais e prejuízos econômicos”, completou.

Riscos das ocupações

O estudo também revelou que mais de 300 km da costa paulista têm ocupações humanas em áreas vulneráveis: 235 km perto de praias e 67 km próximos a manguezais e margens estuarinas. Isso significa que mais de 25% da linha costeira “mole” do Estado possui populações humanas e infraestrutura urbana em áreas altamente suscetíveis a riscos climáticos.

A pesquisa ainda mostra que 55% da extensão de praias do litoral de São Paulo possui áreas urbanizadas dentro de apenas 100 metros de distância da faixa de areia. Na Baixada Santista e no Litoral Norte, esta cifra sobe, respectivamente, para 81% e 74% das praias.

“Manguezais e vegetações como as restingas são nossa primeira linha de defesa contra o impacto das ondas e o avanço do mar. Com as mudanças climáticas, preservar essas vegetações é crucial para proteger cidades costeiras, pessoas e atividades econômicas”, afirmou o pós-doutorando André Pardal, coautor da pesquisa.

“Projeções indicam que praias podem recuar em torno de 100 metros até o fim do século devido ao aumento do nível do mar e à erosão. O intenso processo erosivo já observado em Ilha Comprida [Litoral Sul], por exemplo, pode se tornar comum em todo o litoral paulista nas próximas décadas”, acrescenta Pardal.

Segundo o orientador de Martinez, o professor da Unifesp Ronaldo Adriano Christofoletti, é necessário realizar planos e ações eficazes para preservar os manguezais e restingas remanescentes e restaurar áreas alteradas. “No contexto dos debates sobre a PEC [Proposta de Emenda à Constituição] das Praias, nosso estudo enfatiza a necessidade de fortalecer a preservação dos Terrenos de Marinha e seus acrescidos, em vez de facilitar suas ocupações,” disse Christofoletti.

Os resultados mostram que a urbanização costeira é uma fonte significativa de impacto ambiental e riscos costeiros em São Paulo e no Brasil. A pesquisa ressalta a importância de ações eficazes para mitigar esses impactos e promover um desenvolvimento costeiro sustentável. Em particular, o estudo alerta para as ameaças de alterações em leis que facilitem a ocupação de áreas costeiras altamente vulneráveis às mudanças climáticas.

O artigo Urbanisation on the coastline of the most populous and developed state of Brazil: the extent of coastal hardening and occupations in low-elevation zones pode ser lido em: https://link.springer.com/article/10.1007/s44218-024-00048-8.


Fonte: Agência Fapesp

Chove veneno: estudo mostra que agrotóxicos cancerígenos são lançados por avião nas regiões canavieiras de São Paulo

Químicos associados ao câncer foram lançados de avião sobre os pólos da cana-de-açúcar no estado de São Paulo.  Substâncias potencialmente cancerígenas foram encontradas em 12 produtos. Em Barretos, câncer aumentou 63% em homens e 28% em mulheres 

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Por Hélen Freitas, Agência Pública/Repórter Brasil

Estudo inédito revela que 30% dos agrotóxicos aplicados de avião em plantações de cana-de-açúcar de São Paulo têm associação ao desenvolvimento de câncer. Para os pesquisadores, essa pode ser uma das explicações para o alto índice da doença nesses locais. Com uma área plantada superior ao estado da Paraíba, a cana paulista abastece os mercados nacional e internacional de açúcar e biodiesel.

Embora cruciais para a saúde da população, as informações sobre quais agrotóxicos são aplicados de avião não são abertas ao público e foram obtidas, pela primeira vez, pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo. Eles serviram de base para pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) sobre a relação entre as doenças que esses agrotóxicos podem causar e as enfermidades que ocorrem nas regiões onde foram aplicados. Chamou a atenção dos pesquisadores a prevalência de casos de câncer e a grande quantidade de pesticidas associados a essa doença.

Foram analisadas as aplicações feitas em 2019 em 63 cidades, todas nas regiões de Barretos, Batatais, Presidente Prudente, Ribeirão Preto e São Joaquim da Barra.

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Sete substâncias potencialmente cancerígenas foram encontradas em 12 produtos pulverizados nos canaviais. Em grande parte dos casos, o câncer só aparece depois de anos de exposição aos venenos, sendo difícil fazer a correlação direta entre a aplicação e a intoxicação. “Não posso afirmar que a pulverização está causando câncer nessas regiões, mas o que a nossa análise mostra é que esse é um fator de risco e que existe câncer acima da média nessas regiões”, afirma a engenheira química e professora aposentada da UFSC Sônia Hess, uma das responsáveis pela pesquisa.

A Basf é a fabricante do agrotóxico associado ao desenvolvimento de câncer mais aplicado sobre a área em questão. Com nome comercial de Opera, o epoxiconazol é proibido na União Europeia devido a evidências de que pode provocar câncer no fígado, problemas para o sistema reprodutivo e no desenvolvimento do feto. Desde 2020, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reavalia a permissão para uso desse agrotóxico no país devido aos seus riscos para a saúde. 

A empresa, entretanto, garante que seus produtos são seguros e que realiza testes e avaliações, além disso afirma que são aprovados pelas autoridades competentes. “Seguindo estas premissas, o epoxiconazol continua sendo usado com segurança desde 1993 em mais de 60 países e contribui com sucesso para manter o potencial produtivo dos cultivos recomendados”, destacou a Basf. Veja a resposta.

Outros agrotóxicos, como o glifosato e o 2,4-D, também aparecem na lista de químicos potencialmente carcinogênicos pulverizados no céu paulista. Classificados pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer como “provavelmente” e “possivelmente” cancerígenos, respectivamente, foram os agrotóxicos mais vendidos no Brasil em 2020, segundo o Ibama.

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Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que 10% das substâncias vendidas no Brasil são utilizadas na cana-de-açúcar, estando esse cultivo atrás somente da soja e do milho. A aplicação desses agrotóxicos acontece, prioritariamente, por meio aéreo.

 Alternativas mais seguras, como uso de tratores vedados, são descartadas pelo grupo que representa o setor da cana. “Seria absolutamente inviável a aplicação de defensivos agrícolas por meio manual, com equipamentos costais, ou mesmo por tratores com braços extensores, uma vez que o canavial é um extenso e denso maciço vegetativo, o que impede o acesso de pessoas e equipamentos agrícolas”, afirma a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) por meio de sua assessoria de imprensa. Confira aqui a resposta.

Aumento de câncer

Os casos de câncer nas cinco microrregiões têm crescido ao longo dos anos. Barretos é a que mais registrou mortes por câncer. De 2010 para 2019, houve um aumento de 63% dos casos entre os homens e de 28% entre as mulheres. Além disso, enquanto 120 homens a cada 100 mil habitantes morreram por câncer no Brasil em 2019, o número de óbitos salta para 214 nessa microrregião.

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O estudo aponta três fabricantes que detêm 41% dos produtos utilizados na pulverização aérea de cana nas regiões: Syngenta, Bayer e FMC, multinacionais europeias e norte-americana que têm o Brasil como um dos maiores compradores de pesticidas proibidos em seus países de origem.

A Anvisa questiona o critério usado pelos pesquisadores para classificar agrotóxicos associados ao câncer. A agência afirma que tanto o glifosato quanto o 2,4-D foram reavaliados recentemente e não foram encontradas evidências suficientes que associam essas substâncias ao desenvolvimento de câncer. Confira a resposta na íntegra.

O Ministério da Agricultura diz que “se forem atendidas as normas e recomendações constantes nas bulas dos produtos, as atividades aeroagrícolas são seguras para a população”.

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As empresas e sua principal representante, a CropLife, seguem a linha de argumentação da Anvisa e do Ministério da Agricultura. Segundo elas, seus produtos são seguros para a população e meio ambiente, caso a bula seja respeitada. Confira as respostas na íntegra,

Regras desrespeitadas

A pulverização aérea de agrotóxicos pode ser um risco para as pessoas e para o meio ambiente. Por isso o Ministério da Agricultura define regras que proíbem o uso de avião na aplicação de agrotóxicos em áreas a menos de 500 metros de distância de cidades, povoados e mananciais utilizados pela população, ou de 250 metros de moradias isoladas. Caso não seja possível respeitar essas distâncias, o aplicador é obrigado a comunicar previamente aos moradores da área e não pode passar por cima das casas.

Mas há diversas denúncias de descumprimento, afirma Diógenes Rabello, pesquisador da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e morador de assentamento na região de Presidente Prudente. Ele relata que as pessoas sentem o cheiro forte dos agrotóxicos e depois têm dores de cabeça e coceiras pelo corpo.

Estudo conduzido pela Unesp registrou ainda os impactos nas plantações dos assentamentos próximos. Dias após a pulverização aérea, é possível perceber o apodrecimento das frutas ainda no pé, um dos primeiros sinais de contaminação, segundo os pesquisadores. “É um trabalho de meses perdido”, afirma Rabello.

A mortandade de abelhas é outro sinal da contaminação. 17 produtos utilizados na cana possuem ingredientes tóxicos para esses insetos, de acordo com a análise da Defensoria Pública e UFSC. 

O Altacor foi o mais usado pelos produtores. Esse inseticida da FMC Química do Brasil é feito à base de clorantraniliprole, ingrediente classificado como “muito perigoso ao meio ambiente”. Estudos apontam efeitos de longa duração sobre a capacidade locomotora de abelhas, danos ao sistema imunológico e efeitos nocivos sobre o desenvolvimento de larvas. Questionada, a empresa afirmou que “este produto foi considerado apto para uso nos cultivos registrados, seguindo as recomendações da bula”, entretanto, não respondeu sobre a relação do agrotóxico produzido por ela com a mortandade de insetos.

Segundo a Unica, as empresas buscam constantemente atualizar sua base cartográfica para definição das zonas em que serão aplicados os agrotóxicos. A entidade afirma que a falta de formalização da apicultura impossibilita que “as usinas tenham conhecimento de sua existência e localização, portanto, impedindo que sejam determinadas como zonas de restrição no momento da aplicação”.  

Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Pública [Aqui!].