A era dos fungos

Por Monica Piccnini para “The Ecologist” 

Profissionais de saúde e acompanhantes de pacientes na enfermaria oncologista do Hospital Santa Rita de Cássia, em Vitória, capital do estado do Espírito Santo, começaram a relatar doenças respiratórias em outubro de 2025: tosse, febre, fadiga, falta de ar.

Tratamentos que normalmente funcionavam falhavam, e a recuperação era lenta ou ausente. À medida que mais pessoas adoeciam, ficou claro que o problema não era individual, algo circulava pelo próprio hospital.

Após semanas de investigação, as autoridades estaduais de saúde confirmaram 33 casos de histoplasmose, uma infecção causada pelo fungo Histoplasma capsulatum. O organismo, comumente encontrado em solo enriquecido com fezes de aves e morcegos, havia entrado em um ambiente clínico considerado selado contra exposição ecológica.

Ecossistemas

Isso não foi só uma falha de higiene. Era um sinal de mudança ambiental que chegava a lugares feitos para mantê-las afastadas. Era um organismo mais antigo que a própria humanidade, um que aprendeu a sobreviver em um mundo que estamos mudando rapidamente, superaquecendo.

“Esse fungo faz parte do meio ambiente”, disse Tyago Hoffmann, secretário de saúde do Espírito Santo. “Mas a exposição ambiental pode alcançar lugares que acreditamos serem controlados.”

O surto não foi uma anomalia; era um aviso.

Os fungos são essenciais para a vida em terra. Eles decompõem matéria orgânica, ciclam nutrientes e sustentam os ecossistemas vegetais. Sem eles, os solos falhariam e as florestas desavariam. Ainda assim, eles continuam entre os organismos menos estudados e menos compreendidos da Terra.

Cientistas estimam que pode haver entre 1,5 e 3,8 milhões de espécies fúngicas e menos de 10% já foram formalmente descritas. Ainda menos são estudados quanto ao seu impacto na saúde humana.

Floreio

O que está mudando não é o comportamento fúngico, mas as condições ecológicas que antes o limitavam. A mudança climática não cria doenças fúngicas do nada. Ela remodela as condições em que os fungos vivem, se espalham e persistem.

Historicamente, essa lacuna de conhecimento não foi particularmente perigosa, pois nossos corpos foram protegidos pelo calor. A temperatura média humana, em torno de 37 graus centígrados, cria uma barreira biológica natural, que a maioria dos fungos simplesmente não conseguiria sobreviver.

À medida que a temperatura global sobe, essa barreira está enfraquecendo. Os fungos estão se adaptando, espécies antes restritas a ambientes mais frios agora evoluem para tolerar calor mais alto. Alguns agora são capazes de sobreviver em temperaturas mais próximas às do corpo humano.

“Patógenos fúngicos representam uma séria ameaça à saúde humana”, disse Viv Goosens, do Wellcome Trust. “As mudanças climáticas vão agravar esses riscos.”

Temperaturas mais quentes expandem a área geográfica de muitas espécies. Por exemplo, mudanças na chuva alteram a umidade do solo, ajudando os fungos a prosperar em lugares onde antes não podiam. Enchentes transportam esporos através das paisagens, e secas secam o solo, permitindo que partículas microscópicas entrem em edifícios que nunca foram projetados para mantê-los afastados.

O surto não foi uma anomalia; era um aviso.

Surgimento

Os fungos são excepcionalmente bons sobreviventes, pois seus esporos são leves, duráveis e capazes de viajar longas distâncias. Em um clima desestabilizado, essas características de sobrevivência tornam-se um risco à saúde pública.

Pesquisadores médicos reconhecem cada vez mais a mudança climática como um fator que impulsiona o surgimento de doenças fúngicas. Uma revisão publicada na Therapeutic Advances in Infectious Disease alerta que o aumento das temperaturas e a perturbação ecológica estão redesenhando o mapa global das doenças.

Já vimos como isso se manifesta com Candida auris. Identificado pela primeira vez em 2009, o fungo multirresistente a medicamentos foi detectado em hospitais de mais de 50 países em seis continentes.

Muitos pesquisadores acreditam que o aumento das temperaturas ambientais pode ter ajudado a superar as barreiras térmicas que antes impediam os fungos de infectar os humanos.

O Dr. Norman van Rhijn, da Universidade de Manchester, disse: “Já vimos o surgimento do fungo Candida auris devido ao aumento das temperaturas, mas, até agora, tínhamos pouca informação sobre como outros fungos poderiam responder a essa mudança no ambiente.

Vulnerável

“Os fungos são relativamente pouco pesquisados em comparação com vírus e parasitas, mas esses mapas mostram que patógenos fúngicos provavelmente impactarão a maioria das regiões do mundo no futuro.”

Histoplasma capsulatum está presente há muito tempo em toda a América. A infecção ocorre quando esporos são inalados, muitas vezes após o solo ser perturbado por obras, vento ou mudanças na ventilação.

Em Vitória, os investigadores acreditam que esporos entraram no Hospital Santa Rita de Cássia através do sistema de ar-condicionado ou de outras vulnerabilidades estruturais. Uma vez dentro, encontraram pessoas menos capazes de resistir à infecção: pacientes imunocomprometidos com câncer e profissionais de saúde sobrecarregados.

A histoplasmose frequentemente se assemelha à gripe ou pneumonia, atrasando o diagnóstico. Em indivíduos saudáveis, pode se resolver sem tratamento, mas em pessoas vulneráveis, pode se espalhar além dos pulmões e se tornar fatal.

Resistência

Padrões semelhantes estão surgindo em outros lugares. Doenças fúngicas estão surgindo em novas regiões, ligadas ao aumento das temperaturas, perturbações ecológicas e infraestrutura falhante.

Os mais expostos raramente são os mais responsáveis. Profissionais de saúde, faxineiros, funcionários juniores e acompanhantes de pacientes são frequentemente os primeiros afetados e os últimos protegidos. Muitos vivem em bairros mais quentes, dependem de sistemas públicos de saúde subfinanciados e não têm acesso a diagnóstico precoce ou licença remunerada.

As comunidades menos responsáveis pelas emissões de combustíveis fósseis estão sendo forçadas a aceitar as consequências primeiro. Isso é injustiça climática, acontecendo no nível microbiano.

Apesar das evidências crescentes de risco, a doença fúngica permanece negligenciada. Existem poucos antifúngicos, resistência crescente e vigilância limitada. O financiamento para pesquisa e a atenção política continuam mínimos, especialmente quando comparados às ameaças virais que afetam populações mais ricas.

Isolado

O surto no Hospital Santa Rita de Cássia não é apenas uma história médica – é uma história ecológica. Isso mostra como a perturbação ambiental não fica fora dos muros do hospital. Ele entra nos edifícios por meio de sistemas de ar, fraquezas da infraestrutura e suposições de separação entre a saúde humana e o mundo natural.

As mudanças climáticas são frequentemente discutidas em termos distantes, como o derretimento das calotas polares, a queima de florestas e o aumento do mar, mas seus efeitos já estão presentes em hospitais, locais de trabalho e pulmões.

A saúde humana depende de ecossistemas estáveis e, quando esses sistemas se desestabilizam, os padrões das doenças mudam. Os esporos que circularam por um hospital no Brasil carregavam uma mensagem que não podemos ignorar.

As mudanças climáticas estão remodelando doenças, e as instituições criadas para nos proteger não estão mais protegidas das consequências.

Este Autor

Monica Piccinini é colaboradora regular do The Ecologist e escritora freelancer focada em questões ambientais, de saúde e direitos humanos.


Fonte: The Ecologist

As análises de IA da Google colocam as pessoas em risco com conselhos de saúde enganosos

Investigação do Guardian revela informações imprecisas em resumos

Homem olhando para o smartphone na cama

O jornal The Guardian revelou diversos casos de informações de saúde imprecisas nos Resumos de IA do Google. Fotografia: Caia Image/Alamy

Por Andrew Gregory para “The Guardian” 

Uma investigação do jornal The Guardian revelou que as pessoas estão sendo expostas a riscos devido a informações de saúde falsas e enganosas nos resumos de inteligência artificial do Google.

A empresa afirmou que seus Resumos de IA, que usam IA generativa para fornecer instantâneos de informações essenciais sobre um tópico ou questão, são úteis ” e “confiáveis ”.

No entanto, alguns dos resumos, que aparecem no topo dos resultados de pesquisa, forneciam informações de saúde imprecisas e colocavam as pessoas em risco de sofrer danos.

Em um caso que especialistas descreveram como “realmente perigoso”, o Google aconselhou erroneamente pessoas com câncer de pâncreas a evitarem alimentos ricos em gordura. Especialistas afirmaram que isso era exatamente o oposto do que deveria ser recomendado e pode aumentar o risco de morte dos pacientes pela doença.

Em outro exemplo “alarmante”, a empresa forneceu informações falsas sobre testes cruciais de função hepática, o que poderia levar pessoas com doenças hepáticas graves a acreditarem erroneamente que estão saudáveis.

As buscas no Google por respostas sobre exames de câncer em mulheres também forneceram informações “completamente erradas”, o que, segundo especialistas, pode levar as pessoas a ignorar sintomas reais.

Um porta-voz do Google afirmou que muitos dos exemplos de saúde compartilhados com eles eram “capturas de tela incompletas”, mas, pelo que puderam avaliar, continham links “para fontes conhecidas e confiáveis ​​e recomendavam a busca por aconselhamento especializado”.

A investigação do The Guardian surge em meio à crescente preocupação de que os dados de IA possam confundir os consumidores, que podem presumir que sejam confiáveis. Em novembro do ano passado, um estudo descobriu que chatbots de IA em diversas plataformas forneciam conselhos financeiros imprecisos , enquanto preocupações semelhantes foram levantadas em relação a resumos de notícias .

Sophie Randall, diretora do Patient Information Forum, que promove informações de saúde baseadas em evidências para pacientes, público em geral e profissionais de saúde, afirmou que os exemplos mostram que “os Resumos de IA do Google podem colocar informações de saúde imprecisas no topo das buscas online, representando um risco para a saúde das pessoas”.

Stephanie Parker, diretora da área digital da Marie Curie, uma instituição de caridade que oferece cuidados paliativos, afirmou: “As pessoas recorrem à internet em momentos de preocupação e crise. Se as informações que recebem forem imprecisas ou estiverem fora de contexto, isso pode prejudicar seriamente a sua saúde.”

O jornal The Guardian revelou diversos casos de informações de saúde imprecisas nos Resumos de IA do Google, após várias organizações de saúde, instituições de caridade e profissionais expressarem preocupação.

Anna Jewell, diretora de apoio, pesquisa e influência da Pancreatic Cancer UK, afirmou que aconselhar pacientes a evitarem alimentos ricos em gordura é “completamente incorreto”. Fazer isso “pode ​​ser muito perigoso e comprometer as chances de uma pessoa estar bem o suficiente para receber tratamento”, acrescentou.

Jewell afirmou: “A resposta da IA ​​do Google sugere que pessoas com câncer de pâncreas evitem alimentos ricos em gordura e fornece uma lista de exemplos. No entanto, se alguém seguisse o que o resultado da pesquisa indica, poderia não ingerir calorias suficientes, ter dificuldade para ganhar peso e não tolerar a quimioterapia ou uma cirurgia que poderia salvar sua vida.”

Digitar “qual é a faixa normal para exames de sangue do fígado” também forneceu informações enganosas, com uma grande quantidade de números, pouco contexto e sem levar em consideração a nacionalidade, o sexo, a etnia ou a idade dos pacientes.

Pamela Healy, diretora executiva da British Liver Trust, afirmou que os resumos gerados por IA são alarmantes. “Muitas pessoas com doenças hepáticas não apresentam sintomas até os estágios avançados, por isso é tão importante que façam exames. Mas o que as análises de IA do Google consideram ‘normal’ pode variar drasticamente do que é realmente considerado normal.”

“É perigoso porque significa que algumas pessoas com doenças hepáticas graves podem achar que têm um resultado normal e, portanto, não se preocuparem em comparecer a uma consulta de acompanhamento com o profissional de saúde.”

Uma busca por “sintomas e exames para câncer vaginal” listou o exame de Papanicolau como um exame para detectar câncer vaginal, o que está incorreto.

Athena Lamnisos, diretora executiva da instituição de caridade para o câncer Eve Appeal, disse: “Não é um teste para detectar câncer e certamente não é um teste para detectar câncer vaginal – essa informação está completamente errada. Receber informações erradas como essa pode levar alguém a não procurar atendimento médico para sintomas de câncer vaginal por ter tido um resultado negativo em um exame preventivo recente de câncer do colo do útero.”

“Também nos preocupou o fato de o resumo da IA ​​mudar quando realizávamos exatamente a mesma pesquisa, apresentando uma resposta diferente a cada vez, baseada em fontes distintas. Isso significa que as pessoas recebem uma resposta diferente dependendo de quando pesquisam, e isso não é aceitável.”

Lamnisos disse estar extremamente preocupada. “Alguns dos resultados que vimos são realmente preocupantes e podem potencialmente colocar as mulheres em perigo”, afirmou.

O jornal The Guardian também descobriu que o Google AI Overviews fornecia resultados enganosos para pesquisas sobre transtornos mentais. “Isso é extremamente preocupante para nós como instituição de caridade”, afirmou Stephen Buckley, chefe de informações da Mind.

Alguns dos resumos de IA para condições como psicose e distúrbios alimentares ofereciam “conselhos muito perigosos” e eram “incorretos, prejudiciais ou poderiam levar as pessoas a evitar procurar ajuda”, disse Buckley.

Alguns também deixaram de considerar contextos ou nuances importantes, acrescentou. “Eles podem sugerir o acesso a informações de sites inadequados e sabemos que, quando a IA resume informações, muitas vezes pode refletir preconceitos, estereótipos ou narrativas estigmatizantes preexistentes.”

O Google afirmou que a grande maioria de seus Resumos de IA eram factuais e úteis, e que realiza melhorias contínuas na qualidade. A taxa de precisão dos Resumos de IA estava em pé de igualdade com seus outros recursos de busca, como os snippets em destaque, que já existiam há mais de uma década, acrescentou a empresa.

A empresa também afirmou que, quando o AI Overviews interpretasse erroneamente o conteúdo da web ou ignorasse o contexto, tomaria as medidas cabíveis de acordo com suas políticas.

Um porta-voz do Google afirmou: “Investimos significativamente na qualidade das Visões Gerais de IA, principalmente em tópicos como saúde, e a grande maioria fornece informações precisas.”


Fonte: The Guardian

Não é notícia velha: Brasil bate novo recorde de autorizações de agrotóxicos em 2025

Leonardo Fernandes para “Brasil de Fato”  

Parece notícia requentada, mas não é. Em 2025, o Brasil bateu um novo recorde na liberação de agrotóxicos para uso agrícola. A apuração exclusiva do Brasil de Fato mostra que foram 725 novos produtos liberados de fevereiro ao início de dezembro deste ano, o que representou um aumento de quase 10% em relação a 2024, quando o país já havia batido o recorde de liberação até aquele momento, com o ingresso de 663 novos produtos no mercado brasileiro.

Jaqueline Andrade, assessora jurídica da organização Terra de Direitos, lembra que o mercado de agrotóxicos no Brasil movimenta bilhões de reais com a colaboração do Estado, enquanto a população amarga as duras consequências dessa política.

“Isso significa que a gente tem mais água contaminada, a gente tem mais alimento contaminado e a gente tem mais pessoas diretamente intoxicadas, seja de forma aguda ou de forma crônica pelos agrotóxicos”, pontua Andrade.

“Nosso país é uma verdadeira lixeira química, nosso país está envenenado. E todas as estruturas estão caminhando em prol do agronegócio, seja em torno de subsídio, seja em torno de lei, seja em torno da permissividade que o governo dá para arrecadação bilionária dessas empresas no ramo dos agrotóxicos, em detrimento do ônus sofrido por toda a sociedade brasileira e dos impactos que isso tem causado”, afirma Andrade, que atribui esse alto volume de liberações à aprovação da Lei 14.785/2023, conhecida como o pacote do veneno”, que flexibilizou as normas e enfraqueceu o papel da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), no procedimento para o registro dos venenos.

Diante do empoderamento do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) promovido pela lei, Jakeline Pivato, integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, considera que o Mapa se tornou um “cartório de venenos”.

“O aumento contínuo nos registros de agrotóxicos no Brasil mostra que o Mapa virou um verdadeiro cartório de venenos. Basta um carimbo, e está aprovado. É impensável que estes agrotóxicos estejam sendo submetidos de fato aos estudos necessários para garantir a sua segurança. Se estivéssemos tratando de novas substâncias, menos tóxicas e mais eficientes, seria um esforço louvável; porém, o que vemos são novos registros de velhas moléculas, inclusive de glifosato e atrazina, já comprovadamente cancerígenos de acordo com a Organização Mundial da Saúde”, aponta Pivato.

Mas não era para reduzir?

O novo recorde ocorre no mesmo ano em que foi assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), que estabelece diretrizes para políticas públicas na direção de reduzir o uso dessas substâncias químicas tóxicas na agricultura brasileira, o que despertou questionamentos das organizações da sociedade civil.

“O que a gente questiona é: qual é o compromisso do governo brasileiro na redução no uso de agrotóxicos que deveria ser institucionalizada pelo Pronara, que inclusive está sob ameaça do Congresso Nacional de ser revogado”, questiona Andrade, em referência à aprovação, no final de novembro deste ano, na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, do Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 443/2025, de autoria do deputado federal Rodolfo Nogueira (PL/MS), que busca sustar o decreto presidencial de criação do Pronara.

Por outro lado, Pivato lembra que o programa foi construído com a participação dos movimentos e organizações sociais, que trabalharam pela assinatura do decreto em julho passado, e cobra sua implementação. “É urgente que o Pronara comece a funcionar de fato, e que possa colocar um freio nesta festa do agronegócio”, defende.

Brasil: lixão tóxico do mundo

Entre os dez agrotóxicos mais utilizados no Brasil, sete são proibidos em outros países por comprovada relação com doenças graves, como distúrbios neurológicos, má-formação fetal, abortos espontâneos e vários tipos de câncer.

Entre os mais utilizados, está a atrazina, herbicida amplamente usado em plantações de cana-de-açúcar, soja e milho, que agora é objeto de uma Ação Civil Pública do Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul (MPF-MS), que busca a proibição de seu uso e a reavaliação imediata pelos órgãos de controle.

A ação foi movida a partir de estudos que comprovaram a contaminação por atrazina em dois rios importantes que cortam o Mato Grosso do Sul: o rio Dourados e o rio Paraguai. A substância foi identificada em águas superficiais, de chuva e, inclusive, nas torneiras de comunidades ribeirinhas e indígenas.

Procurado pelo Brasil de Fato para comentar os dados recentes de liberação de agrotóxicos, o procurador federal Marco Antonio Delfino, autor da ação no Mato Grosso do Sul, alertou para o fato de que grande parte dos produtos liberados são genéricos, sobre os quais há pouca fiscalização.

“A produção de genéricos não vem acompanhada de um incremento no processo de fiscalização. Tanto dos produtos produzidos quanto dos insumos utilizados”, afirma o procurador, fazendo referência em seguida ao famoso “Agente Laranja”, substância química utilizada pelo exército dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã (1964-1975) e posteriormente aplicada como herbicida para uso agrícola.

“É importante recordar que o Agente Laranja, o principal efeito dele não foi o efeito da junção de dois agrotóxicos, mas justamente os resíduos tóxicos advindos do processo de fabricação. Então, uma liberação massiva de genéricos desacompanhada de uma fiscalização presente pelo Estado brasileiro é muito provavelmente um indício de muitos agrotóxicos com um alto nível de resíduos tóxicos, que vão causar danos tanto à saúde quanto ao meio ambiente”, comenta o procurador.

O Brasil de Fato entrou em contato com o Ministério da Agricultura e Pecuária, solicitando a comparação dos dados da pesquisa com os computados pelo ministério, além de uma posição da pasta em relação ao recorde de liberações de agrotóxicos em 2025. O MAPA apenas confirmou o recebimento da demanda, informando que foi encaminhada à área responsável, e que daria retorno assim que possível. No entanto, a resposta não foi recebida até o momento desta publicação. As informações serão agregadas à matéria tão logo sejam recebidas.


Fonte: Brasil de Fato

Observatório dos Agrotóxicos: governo Lula libera mais agrotóxicos proibidos na Europa para abastecer o latifúndio agro-exportador

Warning Signs: How Pesticides Harm the Young Brain - Cornucopia Institute

Enquanto a região do sul do Brasil se prepara para mais uma situação de evento meterológico extremo e tem-se a confirmação de que estamos vivendo um período de aquecimento agravado da atmosfera da Terra, o governo Lula continua tocando o barco e liberando mais agrotóxicos para venda e consumo em território nacional. É que hoje o Diário Oficial da União trouxe a publicação do Ato Nº 58, de 3 de dezembro de 2025, liberando mais 22 agrotóxicos do tipo “produto técnico” que são a versão concentrada que antecede a formulação dos produtos que serão vendidos. 

Uma primeira análise da lista de 22 agrotóxicos, um padrão comum em todo o ciclo de autorizações que o Blog do Pedlowski acompanha desde 2019 se confirma: 19 desses produtos são fabricado na China, o que mantém o principal comprador das commodities brasileiras na posição de maior fornecedor de venenos agrícolas.

Outro elemento comum que já mostrado em outras publicações neste blog é que a maioria dos produtos liberados (pelo menos 14) são de produtos que foram proibidos ou sequer autorizados para uso pela União Europeia (UE).  No caso do herbicida Clorfenapir a proibição na UE se deu em 2001 em função dos problemas ambientais e para a saúde humana, sendo que para outro herbicida, o Ciproconazol, a proibição é de 2004.  E não podemos esquecer do Imazetapir, herbicida que foi proibido na UE em 2002 por causa da sua toxicidade para o desenvolvimento ou reprodutiva, carcinogenicidade, etc.), e por sua alta persistência ambiental e periculosidade. Outros dois herbicidas, Diclosulam e Fomesafen, sequer chegaram a ser autorizados para uso na UE, mas estão sendo liberados para venda e consumo no Brasil.

O moral da história é o seguinte: por detrás dos discursos de responsabilidade e de compromisso com a agroecologia, o que temos na prática é uma enxurrada de aprovações que aumentam a exposição dos brasileiros a poderosos venenos agrícolas que adoecem os brasileiros via contato direto, consumo de alimentos e ingestão de água contaminados por um complexo coquetel de substâncias químicas banidas em outras partes do planeta.

País da COP30: Vítimas das pulverizações de agrotóxicos enfrentam obstáculos nos tribunais brasileiros

Pesquisa mostra tendências processuais seletivas, que pesam em decisões e barram reparação na Justiça comum e do Trabalho. Há até aquelas que consideram as pessoas culpadas por terem “baixa tolerância” aos agrotóxicos

Pulverização próxima a moradias no Mato Grosso. Foto: Arquivo Brasileducom

Por Cida de Oliveira*

Resultados preliminares de uma pesquisa em andamento na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) indicam que os tribunais impõem dificuldades para que as pessoas expostas às pulverizações de agrotóxicos obtenham reparação. E a outra parte, diretamente envolvida na prática agrícola com potencial de causar impactos à saúde humana e ao meio ambiente, geralmente acaba levando a melhor.

Para se ter uma ideia, em um conjunto de 27 acórdãos (resultados de julgamento) proferidos em tribunais regionais do Trabalho de segunda instância em todo o país, 10 processos contém o chamado rigor ou viés processual, com seletividade da prova (35% do total). Ou seja, foi alegada uma suposta insuficiência de provas, que normalmente o trabalhador tem dificuldade de juntar.

“Em alguns casos colocam em dúvida filmes e fotos apresentados. É um contexto de dificuldades para o trabalhador comprovar o nexo causal em seus pedidos individuais. Em geral, o desafio é comprovar que os problemas de saúde foram causados pela exposição aos agrotóxicos. Uma das principais estratégias de defesa da indústria é justamente colocar em xeque o nexo causal, atribuindo outras causas às eventuais doenças”, disse o procurador do Trabalho Leomar Daroncho, que pesquisa o tema na Fiocruz de Brasília, onde faz mestrado em políticas públicas em saúde. Integrante do Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, ele participou de debate no final da tarde desta quinta (13), na Casa Sustentabilidade Brasil. O espaço de discussão de iniciativas voltadas à ciência, inovação e ação climática foi instalado em Belém para atividades durante a COP30. Embora poucos se deem conta, os agrotóxicos estão entre as causas das mudanças climáticas principalmente devido ao seu processo produtivo, conforme este Blog já havia informado.

Como resumido no quadro a seguir, Daroncho identificou também quatro casos nos quais pesou contra as vítimas a alegada falta de frequência nas pulverizações de agrotóxicos. “Relativiza-se, então, o dano sofrido, alegando que não era algo tão frequente assim. Em três processos, o trabalhador foi responsabilizado por ter uma resistência muito baixa aos produtos, que não resistiria aos agrotóxicos. Ou seja, o problema seria do trabalhador, e não do agrotóxico”, disse.

Justiça comum

O levantamento encontrou ainda 9 acórdãos sobre o tema na justiça comum (Tribunal Regional Federal). Neles, as decisões foram motivadas por referências que desprotegem as vítimas, conforme mais adiante. É o caso da exigência de que o avião usado na pulverização deveria ter sobrevoado estritamente a propriedade afetada. E que não fosse ocasional nem intermitente. O magistrado não levou em conta a deriva, quando o vento leva partículas dos agrotóxicos para até 40 quilômetros do ponto de aplicação.

Mas não é só. “Tem outro que invoca a parcimônia no princípio da precaução, para não inviabilizar a atividade econômica. Um clássico do senso comum”, disse. “Ou seja, nós não podemos exigir demais porque não podemos inviabilizar a atividade econômica”. Ou seja, em nome do lucro de uns, a doença e morte de outros.

Isonomia do mal

“Chega a ser tragicamente engraçado o caso de uma propriedade vizinha de onde se fazia a pulverização aérea. O pedido foi negado com o argumento de que, como outros também pulverizavam, o réu seria prejudicado em relação aos demais proprietários, que poderiam continuar pulverizando. Então é a isonomia do mal. Já que um faz errado, por que o outro não pode fazer? Embora seja um acordão só, cheio de referências à relevância da vida, do meio ambiente, ainda nega a liminar com argumento bastante problemático”, criticou.

Segundo o procurador, a pesquisa não detectou nessas decisões de segundo grau o princípio da vedação ao retrocesso socioambiental-sanitário. “De forma compreensível ele normalmente é invocado para fazer frente a inovações normativas, para se evitar que se legisle ou se normatize de forma a retroceder àquela norma existente anteriormente. É mais provável encontrar esses princípios em decisões do STF”, disse. Tal princípio é um conceito jurídico que impede o Poder Público (Legislativo, Executivo e Judiciário) de abolir ou reduzir, de forma injustificada, o nível de proteção e concretização de direitos fundamentais já alcançados. Entre eles o direito à vida e ao meio ambiente equilibrado.

Mesmo assim, a avaliação é que os acórdãos selecionados pela pesquisa demonstram que há decisões em harmonia com o entendimento precaucionista do Supremo Tribunal Federal (STF). E que dessa maneira assumem a relevância dos princípios do direito ambiental, da prevenção e da precaução, como instrumentos de vigilância sanitária e proteção do direito à saúde no tema da pulverização de agrotóxicos. “Tanto é que o reconhecimento de risco, danos ou sequelas decorrentes da exposição às pulverizações está em mais de um terço das referências protetivas que motivaram a decisão em 27 acórdãos dos tribunais regionais do Trabalho”.

Tais conclusões foram permitidas pela análise do conteúdo de acórdãos que discutem a pulverização a partir da perspectiva precaucionista. E não aqueles que discutem exclusivamente o pecuniário, como disputa por adicional de insalubridade ou questões previdenciárias, que ocorrem com frequência na Justiça Federal. “Pesquisamos aqueles com busca do direito à saúde, de não ser exposto às pulverizações. E não a ressarcimento pecuniário, que no caso de adicional de insalubridade é muito baixo, e cuja base de cálculo faz com que o valor seja quase irrisório”, explicou Daroncho.

Ainda no debate, ele destacou que a dificuldade dos trabalhadores na Justiça é fortalecida também pelo afrouxamento do regime jurídico. A Lei nº 14.785 / 2023, mais conhecida como Pacote do Veneno, concentrou na Agricultura a decisão sobre agrotóxicos. A Saúde, por meio da Anvisa, e o Meio Ambiente, por meio do Ibama, que tinham voz quanto aos pedidos das indústrias, passaram a ter função secundária, “podendo vir a ser consultados”. Além disso, o critério do perigo, que vedava a análise de produtos causadores de câncer, aborto, malformação e desregulação hormonal, foi substituído pelo impreciso conceito de “risco inaceitável”.  “Qual seria o percentual aceitável para malformação em crianças? Ou para o câncer?”, questionou o procurador.

Além disso, medidas protetivas aos trabalhadores também foram flexibilizadas com a adoção da Nova Norma Regulamentadora 31. E com a Lei nº 14.515 / 2022, do autocontrole dos agentes privados da defesa agropecuária.

Desigualdade jurídica

Enquanto as vítimas da exposição às pulverizações têm dificuldades na Justiça brasileira, a gigante do setor de agrotóxicos Bayer é alvo de 160 mil ações sobre o glifosato só nos Estados Unidos. No Brasil são apenas seis, segundo a organização Repórter Brasil. Por lá, a empresa de origem alemã, que comprou a Monsanto, já pagou US$ 11 bi, equivalente a R$ 59 bilhões, para colocar fim a cerca de 100 mil processos. Outras 61 mil ações aguardam julgamento.

A exposição às pulverizações no Brasil, que é o maior mercado consumidor mundial de agrotóxicos, é uma questão grave. Isso porque está associada ao desenvolvimento de diversas doenças, como câncer, linfomas, leucemia, hipotireoidismo, Parkinson e depressão, especialmente entre trabalhadores. E também à infertilidade, impotência, abortos, malformações congênitas, neurotoxicidade, neuropatia, desregulação hormonal e outros transtornos mentais. Não por acaso o Ministério da Saúde baixou portaria em novembro de 2024, atualizando a lista de doenças relacionadas ao trabalho para incluir males dos venenos agrícolas.

Para Leomar Daroncho, as pulverizações confrontam a defesa da Agenda 2030 da ONU, que remete à ideia da Terra como casa comum. “Isso está muito presente em agrotóxicos e muito mais em pulverização aérea, que não respeita limite, não respeita limite geográfico, administrativo. Tem casos inclusive passando de um país para outro, que virou contencioso internacional”, ressaltou. Em 2008, o Equador apresentou petição à Corte Internacional de Justiça contra as pulverizações da Colômbia em locais próximos à fronteira entre ambos os países. A queixa, motivada por sérios danos à saúde das pessoas, às plantações, animais e ao meio ambiente no lado equatoriano, foi retirada em 2013, após um acordo entre ambos fora do tribunal.

Embora o STF tenha declarado a constitucionalidade da lei estadual que proibiu a pulverização no Ceará, em maio de 2023, há ainda espaço para o aprimoramento dos processos decisórios, na busca por maior sintonia com o entendimento precaucionista do Supremo. Isso porque “reverencia e dá concretude aos princípios do direito ambiental”. “Essa evolução haverá por que o STF tem decido com firmeza nesse sentido. E o nosso papel, nós que atuamos no meio jurídico, na academia, cientistas, é acelerar esse processo, sintonizar as instâncias inferiores da Justiça com entendimento do STF.”

Passividade social

Mas não quer dizer que o Judiciário deve ter de resolver tudo. Estão no STF diversos questionamentos, como o do Pacote do Veneno, do uso de drones da agricultura, dos incentivos fiscais, do uso de venenos nas margens dos rios. Tem ainda a defesa da democracia, a pauta moral. “O STF fica muito pressionado. Há um problema, que é acharmos que o Supremo é o salvador da pátria, mas não é”, disse o procurador do Trabalho.

Para ele, é preocupante a passividade dos brasileiros diante da grave situação dos agrotóxicos no país. “A gente, como sociedade, aguarda tudo do STF. Como se pode permitir a contaminação da água potável por agrotóxicos? Não conheço se existe norma que determine percentual limite para agrotóxicos no leite materno. O fato é que, com ou sem uma norma sobre isso, é um absurdo pensar que o leite materno contenha resíduo de agrotóxico”. E mais: “A gente tem lei que registra agrotóxicos apesar de seu percentual de possibilidade para malformações em crianças e de casos de câncer. E mesmo assim autoriza o produto. A sociedade assiste a tudo passivamente, esperando tudo do STF, que por definição é lento porque tem de ser provocado, tem o contraditório; não é ‘just in time’. Mas sou otimista porque que já vi muitas batalhas e vitórias”.

Para assistir à integra, clique aqui.


*Cida de Oliveira é jornalista

‘Eu estava contaminado’: estudo revela o quão difícil é evitar a exposição a agrotóxicos

Pulseiras de silicone usadas por voluntários na Holanda capturaram 173 substâncias em uma semana

O estudo descobriu que os agrotóxicosda pulverização de plantações podem acabar longe das áreas agrícolas. Fotografia: Dewald Kirsten/Shutterstock

Por Ajit Niranjan, correspondente ambiental da Europa, para o “The Guardian” 

Durante décadas, Khoji Wesselius notou o cheiro oleoso de agrotóxicos durante os períodos de pulverização, quando o vento soprava em sua pequena vila agrícola em um canto rural da Holanda.

Agora, depois de se voluntariar em um experimento para contar a quantas dessas substâncias as pessoas são submetidas, Wesselius e sua esposa estão um passo mais perto de entender as consequências de viver em campos de batata-semente, beterraba, trigo, centeio e cebola pulverizados com produtos químicos.

“Ficamos chocados”, disse Wesselius, um funcionário aposentado do governo provincial, que foi exposto a oito agrotóxicos diferentes através da pele, com ainda mais produtos químicos encontrados em exames de sangue, urina e fezes. “Fui contaminado por 11 tipos de agrotóxicos. Minha esposa, que é mais rigorosa com sua alimentação orgânica, tomou sete tipos de agrotóxicos.”

Os órgãos reguladores monitoram de perto a ingestão alimentar de pesticidas para decidir se eles são seguros o suficiente para o mercado, mas pouca atenção tem sido dada aos efeitos da inalação ou absorção pela pele. De acordo com um novo estudo , mesmo pessoas que vivem longe de fazendas estão expostas a diversos tipos de pesticidas de fontes não alimentares – incluindo substâncias proibidas.

“O mais surpreendente é que não podemos evitar a exposição a agrotóxicos: eles estão em nosso ambiente direto e nosso estudo indica contato direto”, disse Paul Scheepers, epidemiologista molecular da Universidade Radboud e coautor do estudo. “A verdadeira questão é quanto é absorvido [pelo corpo], e isso não é tão fácil de responder.”

Os pesquisadores fizeram com que 641 participantes em 10 países europeus usassem pulseiras de silicone continuamente por uma semana para registrar a exposição externa a 193 agrotóxicos. Em testes de laboratório, eles detectaram 173 das substâncias testadas, com agrotóxicos encontrados em todas as pulseiras e uma média de 20 substâncias para cada participante.

Agricultores não orgânicos apresentaram o maior número de agrotóxicos em suas pulseiras, com uma mediana de 36, seguidos por agricultores orgânicos e pessoas que moram perto de fazendas, como Wesselius e sua esposa. Consumidores que moram longe de fazendas apresentaram o menor número, com uma mediana de 17 agrotóxicos.

“Eu me perguntei se valia a pena saber de tudo isso”, disse Wesselius, que conta que alguns prestadores de serviços para os agricultores perto de sua aldeia parecem não levar em consideração a direção do vento ao aplicar agrotóxicoscomo glifosato e neonicotinoides. “Isso fica na minha cabeça. Toda vez que vejo um trator [com um sistema de pulverização], tenho uma sensação estranha de que estou sendo envenenado.”

Os agrotóxicos ajudaram o mundo a produzir mais alimentos em menos espaço – poluindo as regiões onde são pulverizados e reduzindo a área de terra que precisa ser explorada para produção de alimentos –, mas têm preocupado médicos que apontam para um crescente conjunto de evidências que os associam a doenças. A UE descartou uma meta proposta no ano passado para reduzir pela metade o uso e o risco de pesticidas até 2030, após pressão de lobbies agrícolas e de alguns Estados-membros, que argumentaram que os cortes eram muito profundos.

Bartosz Wielgomas, chefe do departamento de toxicologia da Universidade Médica de Gdansk, que não participou do estudo, disse que os resultados foram de “grande valor”, mas podem até subestimar a exposição a agrotóxicos. As pulseiras de silicone não absorvem todas as substâncias na mesma proporção, disse ele, e os pesquisadores testaram menos da metade dos agrotóxicos aprovados na UE.

“As conclusões deste estudo são altamente significativas: os agrotóxicos são onipresentes, não apenas em áreas agrícolas, mas também em ambientes distantes dos campos de cultivo”, disse ele.

Os pesquisadores descobriram que os participantes do estudo também foram expostos a agrotóxicos que foram retirados do mercado, com produtos de decomposição do DDT (diclorodifeniltricloroetano), proibido há décadas por questões de saúde, comumente encontrados nas pulseiras. Eles também detectaram alguns inseticidas proibidos, como dieldrin e propoxur.

Embora a presença de agrotóxicos nas pulseiras não indique efeitos diretos à saúde, os autores expressaram preocupação com a quantidade de diferentes tipos. Pesquisadores sugeriram que algumas misturas de diferentes produtos químicos amplificam seus efeitos no corpo humano além do que estudos de exposição isolada constataram.

Wesselius, cujos resultados o motivaram a consumir mais alimentos orgânicos, disse: “Não é algo agradável de se saber. Mas é ainda pior continuar com essa prática.”


Fonte: The Guardian

Sonia Corina Hess dá depoimento esclarecedor sobre a transformação do Brasil em lixeira química por agrotóxicos banidos na União Europeia

A professora titular aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sonia Corina Hess, dá um depoimento esclarecedor sobre a transformação do Brasil em destino preferencial de agrotóxicos banidos pela União Europeia em função de sua alta periculosidade ambiental e para a saúde humana.

Assista ao vídeo e reflita: como podemos ter tantas benesses para os fabricantes desses venenos altamente poderosos?

Observatório dos Agrotóxicos: Governo Lula continua chuva de liberações de agrotóxicos proibidos na Europa

No dia de ontem, o Blog do Pedlowski publicou uma lista compilada pela professora Sonia Corina Hess com centenas de agrotóxicos proibidos na Europa e vendidos legalmente no Brasil. Eis que hoje, o Diário Oficial da União publicou o Ato Nº 50,  de 17 de outubro de 2025 que traz a liberação de mais 33 agrotóxicos para comercialização no território brasileiro.

Para confirmar o que a professora Sonia Hess já havia observado em sua lista, esse novo ato adiciona diversas novas formulações contendo ingridientes ativos proibidos na União Europeia. Com isso, os que têm acompanhado desde 2019 as publicações do Obsevatório dos Agrotóxicos do Blog do Pedlowski poderão verificar quais agrotóxicos liberados hoje estão proibidos na União Europeia e quais são as principais consequências deletérias que eles trazem para diversos organismos vivos, incluindo seres humanos.

Posso adiantar que neste ato foram liberados agrotóxicos cujos ingridientes ativos que a literatura científica já apontou serem, entre outras coisas,  neurotóxicos, desreguladores endócrinos, tóxicos para abelhas, causadores de danos ao sistema imunológico de recém nascidos, causadores de danos nos rins, genotóxicos, além de estarem associados danos metabólicos e serem indutores de diabetes. 

A questão é que essa não é a primeira vez que o Blog do Pedlowski traz informações sobre a liberação de agrotóxicos proibidos na Europa, já que recentemente uma reportagem assinada pela jornalista Cida de Oliveira havia mostrado a mesma situação em relação ao Ato Nº 46,  de  29  de setembro de 2025. Estamos assim diante de uma prática regular de liberar no Brasil, os agrotóxicos que agricultores europeus não podem mais usar por causa da sua alta periculosidade ambiental e para a saúde humana.

Esta situação é grave demais para ser ignorada, pois não podemos aceitar que o Brasil seja transformada na lixeira química das multinacionais europeias que continuam colocando os seus lucros acima da segurança dos trabalhadores rurais e de quem consome os alimentos contendo resíduos de seus agrotóxicos ultraperigosos.

O plástico dentro de nós: como os microplásticos podem estar remodelando nossos corpos e mentes

As partículas estão no nosso sangue, cérebros e intestinos – e os cientistas estão apenas a começar a aprender o que elas fazem

Linda Geddes está sentada à mesa com o kit de teste de sangue para microplásticos Plastictox, entre pilhas de recipientes plásticos para alimentos.

Linda Geddes com o kit de exame de sangue Plastictox. “É difícil não olhar ao redor da minha vida revestida de plástico e me perguntar como eu poderia começar a desembrulhá-la.” Fotografia: Adrian Sherratt/The Guardian

Por Linda Geddes para o “The Guardian”

Microplásticos foram encontrados em quase todos os lugares: no sangue, na placenta, nos pulmões – até mesmo no cérebro humano . Um estudo estimou que somente nossos órgãos cerebrais podem conter 5 g dessa substância, ou aproximadamente uma colher de chá. Se for verdade, o plástico não está apenas enrolado em nossos alimentos ou tecido em nossas roupas: ele está alojado profundamente dentro de nós.

Agora, pesquisadores suspeitam que essas partículas também possam estar interferindo na microbiota intestinal. Quando o Dr. Christian Pacher-Deutsch, da Universidade de Graz, na Áustria, expôs bactérias intestinais de cinco voluntários saudáveis ​​a cinco microplásticos comuns, as populações bacterianas se alteraram – juntamente com as substâncias químicas que elas produziam. Algumas dessas mudanças refletiram padrões associados à depressão e ao câncer colorretal.

“Embora seja muito cedo para fazer alegações definitivas sobre a saúde, o microbioma desempenha um papel central em muitos aspectos do bem-estar, da digestão à saúde mental”, afirma Pacher-Deutsch, que apresentou seu trabalho na recente conferência United European Gastroenterology, em Berlim. “Reduzir a exposição ao microplástico sempre que possível é, portanto, uma precaução sensata e importante.”

Tais descobertas levantam questões inquietantes: quanto plástico cada um de nós carrega, isso realmente importa e podemos fazer algo a respeito?

Microplásticos são liberados de embalagens, roupas , tintas, cosméticos, pneus de carros e outros itens. Alguns são minúsculos o suficiente para atravessar o revestimento dos nossos pulmões e intestinos e penetrar no sangue e nos órgãos internos – até mesmo nas nossas células. O que acontece a seguir ainda é em grande parte desconhecido.

Detalhe da mão mostrando microplásticos.
Os microplásticos vêm em diferentes tipos e formatos, o que pode influenciar seus efeitos nocivos. Fotografia: Maxshoto/Alamy

“Projetar um experimento definitivo é difícil, porque estamos constantemente expostos a essas partículas”, afirma o Dr. Jaime Ross , neurocientista da Universidade de Rhode Island, nos EUA. “Mas sabemos que os microplásticos estão presentes em quase todos os tecidos analisados, e estudos recentes sugerem que estamos acumulando muito mais plástico agora do que há 20 anos.”

Ross começou a se interessar por plásticos quando era adolescente, observando os potes de molho de espaguete da mãe corroerem. “Muitos de nós presumimos que o plástico era inerte – que não se desprenderia nem reagiria – mas eu percebi que não”, diz ela.

Algumas décadas depois, ela começou a estudar o que os microplásticos poderiam estar fazendo com o cérebro dos mamíferos. Seu primeiro estudo, publicado em 2023 , ofereceu uma pista: camundongos que bebiam água contaminada com partículas de microplástico começaram a se comportar de maneira diferente.

Normalmente, se você colocar camundongos em uma caixa bem iluminada, eles se agarram às paredes defensivamente. Mas aqueles expostos a plásticos se aventuram inquietos em ambientes abertos – um comportamento mais comum com o envelhecimento e doenças neurológicas.

Quando os ratos foram dissecados, foi encontrado plástico em todos os órgãos, incluindo o cérebro, onde uma proteína essencial ligada à saúde cerebral, a GFAP, estava esgotada — refletindo um padrão observado na depressão e na demência.

Desde então, estudos em humanos aumentaram a inquietação. Microplásticos foram detectados no cérebro de pacientes com demência e em placas arteriais de pessoas com doenças cardíacas. Aqueles com placas carregadas de plástico tinham quase cinco vezes mais probabilidade de sofrer um derrame, ataque cardíaco ou morrer em três anos.

Tais descobertas me fizeram refletir. Assim como Ross, eu sempre presumi que plásticos eram inofensivos, sem muita consideração por mastigar pontas de caneta esferográfica, usar roupas sintéticas e reaquecer sobras em recipientes para viagem. Então, quando ouvi falar de um teste de £ 144 da Plastictox que prometia revelar quantos microplásticos estavam circulando no meu sangue, furei o dedo e mandei uma gota.

Alan Morrison, diretor executivo da Arrow Lab Solutions , a empresa americana responsável pelo teste, disse que o objetivo era fornecer às pessoas uma estimativa de sua exposição ao microplástico, permitindo que elas fizessem mudanças no estilo de vida, se assim o desejassem. “Às vezes, esse teste é o empurrãozinho que elas precisam para tirar um pouco desse material [plástico] de casa e reduzir sua exposição”, diz ele.

Meu teste detectou quatro partículas microscópicas – o equivalente a cerca de 40 por mililitro de sangue. Com base no tamanho, uma provavelmente chegou lá pelo meu intestino, enquanto as outras três provavelmente foram inaladas, segundo o laboratório. Embora isso me coloque no quarto mais baixo dos cerca de 4.000 testes realizados até agora, “ainda representa cerca de 200.000 partículas de plástico na sua corrente sanguínea”, diz Morrison. “Mas considerando que uma pessoa média tem mais de um milhão, você está se saindo relativamente bem.”

No entanto, como apontam outros especialistas, ninguém sabe realmente qual é o nível “seguro” de microplástico. O campo de pesquisa é extremamente jovem e os testes com consumidores são “muito prematuros”, afirma a Profa. Stephanie Wright , pesquisadora de microplásticos do Imperial College London: “Os resultados dos seus testes sugerem que você tem 40 partículas por ml de sangue – mas não sabemos se isso é bom ou ruim, que tipo de plástico, de onde vieram, o que estão fazendo ou para onde estão indo.”

Estudos científicos têm utilizado uma variedade de métodos, dificultando comparações entre eles. Algumas técnicas – incluindo a usada para quantificar microplásticos em estudos humanos sobre demência e doenças cardíacas – podem sofrer interferência de tecidos biológicos. Por isso, seus resultados estão longe de ser conclusivos e devem “ser encarados com cautela”, diz Wright.

Mesmo que seja possível quantificar com precisão as partículas no sangue ou em outros tecidos, não se sabe se todos os microplásticos representam o mesmo nível de risco.

“Os plásticos são bastante heterogêneos. Existem diferentes tipos, mas também têm formatos diferentes, o que pode influenciar seus efeitos nocivos”, afirma a Dra. Vahitha Abdul Salam, da Universidade Queen Mary de Londres. O tamanho das partículas também importa: quanto menores, maior a probabilidade de atravessarem barreiras biológicas e entrarem em órgãos ou células.

Gráfico de resultados do kit de teste de sangue microplástico Linda Geddes Plastictox.
O exame de sangue Plastictox mostrou que Linda Geddes apresentou baixa concentração de partículas plásticas, mas ainda havia cerca de 200.000 em sua corrente sanguínea. Fotografia: Adrian Sherratt/The Guardian

Há outros desafios antes de sabermos com certeza se os microplásticos estão nos prejudicando: estudos com roedores podem não ser aplicáveis ​​aos humanos; como são muito menores, as partículas de plástico do mesmo tamanho podem ser absorvidas e processadas de maneiras muito diferentes, diz Salam.

Então, onde isso nos deixa? Estamos continuamente expostos a essas partículas e, “historicamente, sabemos que a exposição a muitas partículas é ruim”, diz Wright, citando a poluição do ar como exemplo. “Só precisamos entender se há algo nessas partículas que as torna desproporcionalmente prejudiciais.”

Outra questão urgente é se alguns indivíduos podem ser mais vulneráveis ​​do que outros. Um estudo de acompanhamento recente de Ross sugeriu que camundongos portadores do gene APOE4 associado ao Alzheimer apresentaram declínio cognitivo mais grave em resposta à exposição ao microplástico do que aqueles com genes menos arriscados.

Apesar dessas lacunas, muitos pesquisadores estão mudando discretamente seus próprios hábitos. “Minimizar a exposição provavelmente trará benefícios gerais”, diz Wright.

Se há um lado positivo, é que, embora pesquisas sugiram que os níveis de microplásticos em nossos corpos parecem ter aumentado acentuadamente nos últimos anos , pessoas mais velhas não parecem conter mais do que as mais jovens. “Achei isso positivo, porque me diz que podemos ser capazes de eliminá-los de nossos corpos”, diz Ross. Identificar maneiras de acelerar esse processo natural – se ele existir – provavelmente será um foco significativo de pesquisa nos próximos anos.

Quanto a mim, não consigo deixar de ver essas 200.000 partículas. Seja esse número exato ou não, é difícil não olhar ao redor da minha vida revestida de plástico e me perguntar como eu poderia começar a desembrulhar tudo. Reaquecer sobras em vidro em vez de plástico é um bom começo. E definitivamente vou parar de mastigar canetas esferográficas.

Como reduzir sua exposição

Embora seja impossível evitar completamente os microplásticos, os cientistas dizem que existem maneiras práticas de reduzir sua exposição pessoal.

Comece pela cozinha. “O que você definitivamente deve evitar é o calor com plástico”, diz Ross. “Portanto, não cozinhe sua comida com utensílios de plástico, nem coloque bebidas ou alimentos quentes em plástico.”

Picando cebolas roxas em uma tábua de corte.
Evite que microplásticos entrem em contato com os alimentos usando uma tábua de corte de madeira em vez de plástico. Fotografia: fotostorm/Getty Images/iStockphoto

Salam diz que parou de aquecer alimentos em recipientes de plástico no micro-ondas: “Quando você expõe polímeros plásticos ao calor ou à luz solar direta, isso os transforma ou degrada em microplásticos”.

Ross sugere examinar rituais cotidianos, como preparar uma xícara de chá ou picar cebolas: “Saquinhos de chá podem liberar muitos nano e microplásticos. Mesmo que o saquinho seja de papel, ele pode ser selado com cola plástica, então talvez você possa experimentar folhas de chá soltas. Você está cortando em uma tábua de plástico? Porque isso também pode contaminar alimentos.”

Opte por recipientes, utensílios e utensílios para café de vidro ou aço inoxidável e, em vez disso, use tábuas de corte de madeira.

Embora a água da torneira contenha alguns microplásticos, a água da torneira do Reino Unido é tratada para remover quase todos eles e estudos sugerem que muitas marcas de água engarrafada contêm muito mais.

Além da cozinha, Ross recomenda pensar em roupas de cama e produtos de higiene pessoal. “Tente usar mais fibras naturais, especialmente nos itens com os quais você dorme – lençóis, cobertores e travesseiros, porque você pode inalar nano e microplásticos”, diz ela.

Verifique os rótulos de produtos de higiene pessoal e cosméticos: embora as microesferas de plástico, presentes em sabonetes faciais, por exemplo, estejam proibidas, alguns cosméticos e itens como loções, batons e sombras ainda podem conter nano ou microplásticos, com nomes como polietileno, polipropileno, poliuretano ou acrilatos. Procure também por plásticos ocultos em produtos menstruais e opte por aqueles feitos de 100% algodão ou copos de silicone.

Plásticos em suspensão no ar são outra preocupação. Embora ambientes internos geralmente apresentem níveis mais elevados devido a tecidos e móveis sintéticos, “o desgaste dos pneus em ambientes de alto tráfego é outra fonte de exposição a microplásticos”, diz Wright. “Da mesma forma que você evitaria a poluição do ar caminhando por ruas tranquilas, evitando andar próximo ao trânsito e mantendo as janelas do carro fechadas, isso teoricamente minimizaria a exposição a microplásticos.”

Por fim, pense na sua pegada ambiental. Plásticos jogados em aterros sanitários se degradam lentamente, liberando mais microplásticos. “Se você tiver itens de plástico em casa, como recipientes de plástico, reaproveite-os para armazenar materiais de costura e outros itens não alimentícios”, diz Ross. “Se você os colocar na reciclagem, eles podem não ser reciclados e você estará apenas agravando o problema.”


Fonte: The Guardian

Flores (agro) tóxicas: sem limite de agrotóxico, cultivo de flores põe em risco saúde de produtores e clientes

Produção de flores ornamentais não é monitorada quanto à aplicação correta de agrotóxicos e dispensa análise de resíduos químicos no produto final; falta de normas leva ao uso excessivo de pesticidas, segundo pesquisadores 

Mercado de flores ornamentais não passa por controle de resíduos de agrotóxicos no mercado, o que é visto como um risco à saúde (Ilustração: Rodrigo Bento/Repórter Brasil) young beautiful couple happy man and woman with bouquet of flowers smiling cheerfully embracing happy in love celebrating international women's day march 8 standing over orange background

Por Adriana Amâncio | Edição Diego Junqueira para “Repórter Brasil”

Quem visita uma unidade de produção de plantas ornamentais, como as usadas em festas de casamento, pode se deparar com impressões conflitantes. Por um lado, a inegável beleza das flores. Por outro, o forte cheiro dos agrotóxicos — responsáveis por náusea e dores de cabeça em quem lida diariamente com a atividade. 

Em 2024, o setor empregou 265 mil trabalhadores e movimentou mais de R$ 21 bilhões. Apesar da escala, o cultivo de plantas ornamentais não é monitorado em relação à aplicação correta de agrotóxicos e está sujeito a regras mais brandas que as exigidas nas lavouras de alimentos. 

Órgãos competentes, como Anvisa e Ministério da Agricultura, não estabelecem, por exemplo, limites de segurança de resíduos dessas substâncias para o cultivo desse tipo de planta. Estudos recentes, porém, têm mostrado que a falta de normas e de fiscalização coloca em risco não só a saúde dos trabalhadores, mas também a dos clientes. 

“Já tive dor de cabeça, enjoo, tontura. Mesmo com o EPI [equipamento de proteção individual], a gente sente”, conta um produtor de Nova Friburgo (RJ), um dos polos de produção no país, que prefere não se identificar. 

Aos 27 anos, o produtor mantém um hectare de flores como boca-de-leão, áster mariana e tango, comumente usadas em buquês, arranjos e decoração de eventos.

Com poucos agrotóxicos com aplicação indicada para esses tipos de flores, o agricultor recorre a produtos de outras culturas. É o caso do Verango, fabricado pela Bayer e recomendado para frutas, grãos e legumes.

O fungicida é um dos mais usados pelo produtor, cujo trabalho é em boa parte manual. “A aplicação é feita com um jato conectado a um motor, que suga a mistura de agrotóxico com água direto da bomba até a copa das flores”, descreve.

Ele aplica 1 litro por hectare. Essa é a dose máxima indicada na bula do Verango para a maioria das frutas, mas está acima do prescrito para culturas como algodão e soja. Como o produto não é indicado para flores, o floricultor de Nova Friburgo (RJ) não conta com nenhuma orientação precisa sobre a forma correta de uso do Verango.

“Eu aplico semanalmente, sempre às sextas, e realizo a colheita nas segundas. Tem produtor que pulveriza, já colhe e leva para o consumidor final”, conta. Em dias de pouca ventilação, as gotículas de agrotóxico não se disseminam bem e formam “uma névoa branca sobre as flores que demora a sair”, detalha o produtor. 

A bula do Verango recomenda para algumas frutas o intervalo de segurança de três dias entre a última aplicação e a colheita. No caso do tomate, o período de carência é de 30 dias. Como não há indicação para flores, o produto sequer foi testado para plantas ornamentais.

A falta de opções de agrotóxicos para esse tipo de atividade é explicada pelo fato de as flores integrarem a categoria de Cultura com Suporte Fitossanitário Insuficiente (CSFI), explica o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente Robson Barizon. Trata-se de um grupo de cultivos para o qual há poucos agrotóxicos registrados pelas indústrias, por serem considerados de pequeno porte. 

“As indústrias priorizam produtos destinados a culturas maiores, com maior retorno financeiro”, afirma Barizon. Com isso, os agricultores acabam recorrendo a produtos registrados para outras lavouras, como a soja. A praga pode até ser a mesma que afeta as flores, explica o pesquisador, mas as diretrizes de segurança não foram testadas para a espécie.

O uso irregular de agrotóxicos revela também falhas na fiscalização pelo poder público, afirma Luiz Cláudio Meirelles, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e ex-gerente da área de toxicologia da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

“Os agrotóxicos só podem ser vendidos com receitas agronômicas. Se o agrônomo sabe que o produtor está comprando um produto sem registro para usar em flores, ele precisa ser responsabilizado. Se o agricultor adquire um agrotóxico sem receita, a fiscalização precisa atentar para isso”, resume.

Cultivo de flores faz parte do grupo de culturas com poucos agrotóxicos disponíveis no mercado por desinteresse da indústria (Foto: Arquivo pessoal)
Cultivo de flores faz parte do grupo de culturas com poucos agrotóxicos disponíveis no mercado por desinteresse da indústria (Foto: Arquivo pessoal)

Setor não monitora limites de agrotóxicos no produto final

Apesar do número insuficiente de agrotóxicos, o cultivo de flores deveria ter regras mais claras para o uso dos químicos, de acordo com especialistas consultados pela Repórter Brasil. 

O setor deveria, por exemplo, passar por controle de resíduos de agrotóxicos no produto final. Mas como se trata de um item “não alimentar”, a legislação dispensa a definição do LMR (Limite Máximo de Resíduo).

Esse parâmetro define a quantidade máxima aceitável de resíduos que pode ser encontrada em determinado produto. O objetivo é evitar a aplicação em excesso dos agrotóxicos e reduzir o risco de contaminação. “Se o produto final é analisado e têm uma quantidade acima do permitido, pode indicar que o produtor aplicou mais vezes do que o indicado ou colheu antes do prazo”, explica Barizon. 

A falta de limites de segurança é considerada “alarmante” pela cientista ambiental Patrícia Pereira, do Instituto de Biofísica da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). “Cria muitos pontos nebulosos”, avalia.

“O produtor rural em campo está mais exposto à contaminação dérmica, pela pele. E o consumidor final também pode ter contato com os agrotóxicos residuais nas flores. Mas ninguém sabe a quantidade”, alerta Patrícia.

A pesquisadora é uma das autoras de um estudo publicado em 2021 sobre os riscos de exposição humana e contaminação ambiental na floricultura. A pesquisa concluiu que a falta de limites de agrotóxicos para as flores de uso ornamental pode levar ao uso excessivo de químicos no plantio.

O estudo fez uma revisão bibliográfica de pesquisas realizadas em várias partes do mundo e identificou 201 químicos adotados na produção de flores. Quase metade deles (94) é proibida na Europa, região com regras rigorosas para uso de agrotóxicos. Na Bélgica, um dos maiores produtores globais, resíduos tóxicos foram encontrados em amostras de flores e nas luvas usadas pelos trabalhadores.

Sobre o impacto à saúde, as pesquisas analisadas indicavam alterações no desenvolvimento neurocomportamental, disfunções endócrinas, distúrbios reprodutivos e malformações congênitas em trabalhadores e moradores de áreas produtivas. “No entanto, há pouca informação sobre a exposição por via oral e inalatória”, diz o estudo. 

Para a pesquisadora, o Brasil deveria definir limites de agrotóxicos no cultivo de ornamentais. “O LMR vai obrigar o registro adequado dos produtos para este tipo de cultura, criar parâmetros para coibir o uso excessivo e estabelecer o intervalo de segurança, evitando que o produtor defina esse prazo por conta própria”, explica.

“É fundamental estabelecer LMR específicos para o setor ornamental e criar incentivos para o registro de pesticidas adequados”, concorda o engenheiro agrônomo Márcio Godoi, pesquisador do Centro de Energia Nuclear na Agricultura, ligado à Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo). “Essas medidas são essenciais para garantir maior segurança ao consumidor, proteger o meio ambiente e promover uma produção de flores e plantas ornamentais mais sustentável”, afirma.

Um representante dos produtores ouvido pela reportagem reconhece os riscos na cadeia produtiva. “Temos poucos produtores associados, mas eles estão cientes que o uso de agrotóxicos é prejudicial à saúde. Mas sem agrotóxicos eles não conseguem colher um produto de qualidade”, diz Amauri Verly, presidente da Associação de produtores da Vargem Alta (Afloralta), de Nova Friburgo.

Nova Friburgo registrou 15 intoxicações exógenas por agrotóxico agrícola desde 2021, segundo o painel VSPEA. Em Holambra foram 11 casos oficiais, mas especialista apontam subnotificação (Foto: Arquivo Pessoal)
Nova Friburgo registrou 15 intoxicações exógenas por agrotóxico agrícola desde 2021, segundo o painel VSPEA. Em Holambra foram 11 casos oficiais, mas especialista apontam subnotificação (Foto: Arquivo Pessoal)

Uso de agrotóxicos potencialmente cancerígenos

Um dos motivos de preocupação é o fato de o setor usar agrotóxicos ligados a graves problemas de saúde, como o mancozebe e a abamectina, conforme contaram à Repórter Brasil produtores de Nova Friburgo e Holambra (SP), maior produtora nacional.

O mancozebe, ingrediente usado em produtos como o Ridomil, está associado a casos de câncer de tireoide. E a abamectina é investigada pela relação com infertilidade e baixa qualidade do sêmen.

A abamectina já passou por duas reavaliações da Anvisa, nos anos de 2008 e  2018. Na primeira, a Fiocruz emitiu uma nota técnica considerando que o produto provoca “toxicidade para o sistema nervoso, endócrino, reprodução e desenvolvimento”. Já em 2018, também optou-se por mantê-lo no mercado “com adoção de medidas de mitigação de riscos à saúde e necessidade de alterações no registro, monografia e bulas.”

O pesquisador da Fiocruz Luiz Cláudio Meirelles considera “perigoso destinar agrotóxicos carcinogênicos e com alta toxicidade para o cultivo de flores”. A solução mais viável, diz ele, seria os órgãos de registro priorizarem produtos biológicos, com baixa toxicidade. “Mais do que registrar, [é preciso] garantir o acesso, pois muitos agricultores sequer sabem que esses produtos existem e podem ser usados”, afirma.

“O cenário estufa, que é um ambiente fechado, aumenta os riscos [de contaminação] e precisa ser considerado para determinar medidas adequadas”, continua Meireles. 

Outro aspecto que levanta preocupação é a dependência do trabalho manual para o cultivo. Por se tratar de um produto sensível, isso ocorre em todas as etapas de produção, desde a colheita, pós colheita, embalagem e até a organização de arranjos e buquês. “É onde o funcionário da indústria floral tem o maior contato com esses produtos”, afirma o engenheiro agrônomo Márcio Godói, pesquisador da Esalq/USP.

“Essa exposição prolongada pode provocar a contaminação pela pele, que tem potencial de 10% de levar o agrotóxico à corrente sanguínea”, explica Godoi. “E as mãos, assim como a inalação, têm 100% de potencial de levar o produto à corrente sanguínea”, continua.

Mas os mais expostos são os produtores de flores, “pela demanda por aplicações sequenciais na alta temporada de vendas”, finaliza.

O que dizem Ibraflor e Anvisa?

Procurado pela Repórter Brasil, o Ibraflor (Instituto Brasileiro de Floricultura) afirmou que já existem no mercado opções de produtos registrados para as plantas ornamentais. “Além disso, muitos produtores não usam mais defensivos agrícolas e preferem optar por controle biológico”, diz a nota enviada à reportagem.

A Anvisa afirmou que “as flores não são consideradas culturas de uso alimentar e, de acordo com a legislação vigente, não são exigidos estudos de resíduos para tais culturas (RDC 4/2012, Art. 7º, § 4º).”

Ainda segundo o órgão, “as flores se enquadram no tipo de cultivo de plantas ornamentais, para o qual foi estabelecido regramento específico”, por meio de uma instrução normativa de 2019, assinada conjuntamente por Anvisa, Mapa e Ibama. “Este ato estabelece diretrizes para o registro de agrotóxico e afins destinados ao uso agrícola em cultivos de plantas ornamentais, bem como para inclusão desses usos em produtos já registrados”, diz a nota.


Fonte: Repórter Brasil