Sebastião Salgado capturou o mundo como nenhum outro fotógrafo

A morte do estimado fotógrafo do “preto e branco” deixa para trás uma rica biblioteca com mais de 500.000 imagens que mostram a Terra em toda a sua beleza e escuridão.

Sebastião Salgado em 2014. Fotografia: Wong Maye-E/AP

Por Verônica Esposito para o “The Guardian”

É um testemunho da carreira épica do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, falecido esta semana aos 81 anos , que este ano já viu centenas de suas fotos expostas na Cidade do México, França e sul da Califórnia. Salgado, que em vida produziu mais de 500.000 imagens enquanto documentava meticulosamente todos os continentes da Terra e muitos dos principais eventos geopolíticos desde a Segunda Guerra Mundial, será lembrado como um dos cronistas mais prodigiosos e implacavelmente empáticos da condição humana.

Economista de formação, Salgado só começou a fotografar aos 29 anos, após assumir a câmera da esposa, Lélia. Começou a trabalhar como fotojornalista na década de 1970, construindo rapidamente uma reputação impressionante que o levou à prestigiosa Magnum Photos em 1979. Passou três décadas fotografando pessoas em sociedades modernas em todo o mundo antes de se retirar em 2004 para iniciar o projeto Genesis, com duração de sete anos – lá, dedicou-se a paisagens intocadas e comunidades humanas pré-modernas, um projeto que guiaria o restante de sua carreira. Seu último projeto, Amazônia, o levou a passar nove anos preparando um olhar profundo sobre o terreno e os povos da floresta amazônica.

Em 2014, o diretor alemão Wim Wenders uniu-se ao filho do fotógrafo, Juliano Ribeiro Salgado, para coproduzir um documentário que celebra a obra de Salgado, intitulado “ O Sal da Terra . Ao mesmo tempo em que abrange 40 anos da produção criativa de Salgado, o filme também gira em torno de sua decisão de abandonar temporariamente a fotografia após testemunhar em primeira mão os horrores do genocídio de Ruanda. Em meio a essa crise, ele fundou seu Instituto Terra em 1998 – plantando centenas de milhares de árvores em um esforço para ajudar a reflorestar o vale do Rio Doce, no Brasil – e, por meio de sua comunhão com a terra, aos poucos reconstituiu seu caminho de volta à fotografia.

Salgado dedicou-se incansavelmente, e provavelmente também de forma imprudente, ao seu trabalho – enquanto documentava a guerra civil de Moçambique em 1974, foi atingido por uma mina terrestre e, mais tarde, na Indonésia, na década de 1990, contraiu malária, o que lhe causou problemas médicos recorrentes pelo resto da vida. Passou quase dois meses caminhando pela Rússia Ártica com os indígenas Nenets, enfrentando temperaturas de até -45°C, e também relatou ter caminhado quase 1.000 km pela Etiópia devido à falta de estradas. Mais tarde, Salgado foi forçado a fazer uma cirurgia de implante para manter o uso do joelho durante a execução de seu projeto Amazônia.

Sebastião Salgado em 2022. Fotografia: Mario Tama/Getty Images

Suas paisagens bíblicas são frequentemente fotografadas a milhares de metros de altura – podemos imaginá-lo debruçado sobre um helicóptero, buscando o enquadramento perfeito. Ele era conhecido por utilizar praticamente todos os meios de transporte disponíveis em busca do novo e do desconhecido – carro, caminhão, navio, helicóptero, avião, até mesmo canoa, balão de ar quente, barco fluvial amazônico e outros.

As impressões da obra de Salgado – sempre em preto e branco, geralmente impressas com um contraste estonteante – eram tão volumosas quanto sua ambição, conquistando presenças avassaladoras em galerias e museus. Ele era conhecido por pretos tão escuros quanto possível, e suas paisagens também demonstram uma notável obsessão por raios de luz brilhando através de nuvens de chuva, ao redor de montanhas e na água. Ele adorava a granulação que vinha do filme – tanto que, quando finalmente trocou sua confiável Leica por uma câmera digital, frequentemente manipulava digitalmente suas imagens para obter uma granulação que lembrasse o filme real.

Por mais que Salgado fosse um fotógrafo de extremos, ele também sabia fazer nuances tonais — muitas de suas paisagens só são capazes de capturar a imensidão do terreno devido ao uso cuidadoso de tons médios, e os retratos humanos de Salgado frequentemente abandonavam o alto contraste em favor de uma rica sutileza.

Por maiores que fossem seus temas, ele sempre manteve um notável toque humano. Ao fotografar a mina de ouro de Serra Pelada, no Brasil, ele fez imagens mostrando os trabalhadores como milhares de formigas escalando perigosamente paredes íngremes de terra, mas também capturou expressões indeléveis de esforço e orgulho nos rostos de trabalhadores individuais encharcados de lama. Sua imagem da estação de trem Churchgate em Bombaim, Índia, mostra milhares de passageiros em movimento, parecendo uma onda literal de humanidade surgindo em torno de dois trens à espera. Uma foto de um bombeiro no Kuwait trabalhando para tampar os poços de petróleo que Saddam Hussein incendiou mostra um homem curvado em uma postura de exaustão total, um dos inúmeros exemplos da incrível habilidade de Salgado de delinear a forma humana por meio de filme.

Considerando tudo o que Salgado fotografou ao longo de suas incríveis seis décadas de trabalho, é difícil imaginar o que mais ele poderia ter feito. Ao completar 80 anos no ano passado, ele declarou sua decisão de se afastar da fotografia para gerenciar seu enorme arquivo de imagens e administrar exposições mundiais de sua obra. Ele também demonstrou sua visão pessimista da humanidade, dizendo ao Guardian: “Estou pessimista em relação à humanidade, mas otimista em relação ao planeta. O planeta vai se recuperar. Está se tornando cada vez mais fácil para o planeta nos eliminar.”

Provavelmente, serão necessárias décadas para apreciar e exibir plenamente as fotografias restantes de Salgado, sem falar na dificuldade em lidar com as imagens que ele exibiu em vida. Espera-se que, em meio a um período de crescente conflito global, colapso ambiental e ameaças à mera noção de verdade, esta notável produção permaneça um farol de decência e humanidade – e nos ajude a traçar um caminho de volta à beira do abismo.


Fonte: The Guardian

Por mais Augusto Ruschi e menos Sebastião Salgado

Por   Roberto José Hezer Vervloet

RUSCHI

É comemorado neste mês de dezembro o centenário de nascimento do cientista Augusto Ruschi, capixaba, ambientalista, naturalista, nascido no município de Santa Tereza e uma das maiores referências mundiais em estudos ornitológicos de beija-flores e da ecologia da Mata Atlântica. A celebração de sua memória e da dimensão política e ecológica de sua concepção ambientalista de mundo torna-se primordial nestes tempos de tragédia socioambiental, como a da Samarco no Rio Doce e de crises sofisticamente pré-fabricadas. Além, é claro, de demarcação do tipo de convicção ética que deve ser aplicado à luta socioambiental na dimensão do debate político acerca da relação sociedade-natureza.

Nestes tempos de acirrado debate socioambiental sobre a forma como a sociedade se projeta sobre os espaços herdados da natureza, a recuperação do legado de Augusto Ruschi traz consigo a recapitulação da ética necessária como critério de demarcação dos limites que devem ser aceitáveis no campo da luta socioambiental; onde nem tudo é permitido, nem tudo deve ser aceitável e nem tudo é recomendável.

Ao mesmo tempo, tem aflorado, neste debate, condutas e posturas políticas que ensejam exatamente outra dimensão da ação política que evidencia a forte relativização de uma ética que consagra e valida as ações indiscriminadas sobre a natureza. Refiro-me a ausência, no discurso e conduta de Sebastião Salgado, da demarcação e identificação dos atores responsáveis pela degradação dos recursos naturais que seu “ambientalismo” almeja recuperar, bem como uma postura mais crítica com relação a eles.

O ambientalismo de Augusto Ruschi é absolutamente diferente do praticado pelo fotógrafo Sebastião Salgado, que, embora tenha um importante legado de iniciativa socioambiental em favor da proteção da natureza, o faz por métodos e instrumentos que refletem o forte relativismo presente neste ambientalismo contemporâneo. Ou seja, o de se ver refém de mecanismos pseudo institucionais (compensações ambientais, doações e convênios) relacionados a atores (empresas) que são os verdadeiros responsáveis pela manutenção da racionalidade capitalista empresarial que não enxerga nada além do lucro oriundo da exploração dos recursos naturais.

Embora Augusto Ruschi seja muito conhecido pelo seu legado ambiental, pelas suas pesquisas ornitológicas e ecológicas é pouco conhecido por suas posições políticas e postura crítica. O pouco que conheço desse cientista foi por meio do estudo de seus textos e artigos científicos publicados no Boletim do Museu de Biologia Prof. “Mello Leitão”. É impressionante! Lá, é possível encontrar um acervo que demonstra não somente o eminente cientista da ecologia, ornitologia e climatologia ecológica, mas o ser político, o homem de personalidade forte que defendia a proteção à natureza a partir de uma concepção ética de denúncia e protesto diante da relação promíscua que se estabelecia entre Estado e grupos empresariais retrógrados que se instalavam no Espírito Santo, nos idos dos anos 1950.

Ruschi denunciou, também, o descaso com os grupos indígenas por parte do governo do Estado e Federal; enfrentou a política florestal arcaica do governador Elcio Álvares (presente e praticada até hoje em órgãos do Estado) em pleno período ditatorial militar; denunciou a tragédia socioambiental que seria a instalação do complexo siderúrgico da Vale na ponta de Tubarão, próximo a uma metrópole em processo de expansão como Vitória; a invasão exótica da monocultura de eucalipto pela Aracruz Celulose (Fibria) e os agrônomos que a defendiam e clamou ao mundo a necessidade de criar espaços naturais mínimos de preservação da biota nativa, como reservas de florestas, culminando na criação da Reserva Biológica Augusto Ruschi, em Santa Tereza. Ah, se ele estivesse vivo!! Com certeza, seria uma voz de forte resistência ao projeto empresarial desenvolvimentista de Paulo Hartung e usaria os fóruns internacionais para denunciar o que acontece na política ambiental do Espírito Santo e na tragédia previamente anunciada da Samarco no Rio Doce.

De Sebastião Salgado, além das suas exposições e livros publicados, conheço a sua principal iniciativa socioambiental, o Instituto Terra. Foi lá que fiz o meu primeiro trabalho de geomorfologia, quando o instituto estava começando, na antiga Fazenda Bulcão. O título do trabalho era “Impactos geomorfológicos da ocupação humana no município de Aimorés – uma análise por fotos” e foi publicado nos Anais do III Encontro Estadual de Geografia de Colatina, em 2001, organizado pela Associação dos Geógrafos Brasileiros, seção Espírito Santo. Na época, e neste encontro, questionávamos sobre a legitimidade e a ética de projetos ambientais financiados ou patrocinados por empresas como a Vale e Samarco, e convidamos os membros do Instituto Terra para debater o tema com os pesquisadores da geografia. Ninguém compareceu e, desde então, o que se viu foi a efetivação de uma entidade com patrocínios e convênios (como se observa nos demonstrativos financeiros publicados no site do instituto) firmados com empresas que são hoje as principais responsáveis pela degradação ambiental que o próprio instituto, por meio de seus projetos, procurar recuperar, tais como Vale e Samarco. Sebastião Salgado não tem formação técnica na área de ciências da natureza, mas é economista. Sabe como é a organização econômica de um aparato industrial como o da Vale, Samarco, Fibria, etc., tendo clara noção do quanto a forma de produzir dessas empresas poluidoras responde pela degradação dos recursos naturais, sem falar das mazelas sociais, como baixo índice de emprego gerado, concentração da renda e financiamento privado de grupos políticos.

Ruschi não se furtava em identificar os atores responsáveis pela degradação dos recursos naturais. Em sua ética e visão política ambiental a ecologia não era uma questão de caridade e de ajuda humanitária. Era uma questão de justiça ambiental e de ação política. Difícil acreditar em Ruschi fazendo convênios com empresas e/ou se reunindo com governadores para tratar de seus projetos ambientais. Assim como seria muito difícil imaginar Sebastião Salgado denunciando publicamente as ações da Samarco e da Vale. Imagina!? Sebastião Salgado protestando contra os projetos desenvolvimentistas de grupos empresariais que financiam a política de Paulo Hartung!? Protestando nos fóruns internacionais sobre a poluição atmosférica da Vale na Grande Vitória e os rejeitos da Samarco no Rio Doce!? Seria um grande ganho para a sociedade.

As concepções de luta ambiental presentes em Sebastião Salgado e Augusto Ruschi são distintamente diferentes e refletem o quanto essa dimensão política da nossa realidade mudou nos últimos anos, visto que ambos, embora tenham pontos comuns de convergência, divergem totalmente no método e postura. Acredito que na esfera da atuação política, tanto ambiental, quanto social, econômica e cultural, devemos sempre distanciar das condutas que degeneram em posições dissimuladas da realidade concreta dos fatos, resultado da distância que separa a nossa consciência do problema das ações necessárias para sua solução; o que resulta sempre em hipocrisia. Neste sentido, sou bastante sincero, por mais Augusto Ruschi e menos Sebastião Salgado.

* Geógrafo e geomorfólogo – doutor em Geografia Física pela USP.

FONTE: http://www.bancarios-es.org.br/comunicacao/artigos/1703-artigo-por-mais-augusto-ruschi-e-menos-sebastiao-salgado