Boom do eucalipto no Cerrado brasileiro seca nascentes e expulsa pequenos produtores

Por Shanna Hanbury para o “Mongabay”

Um boom de plantação de eucalipto no Cerrado brasileiro está secando terras e nascentes de água, dificultando a agricultura de subsistência, disseram autoridades locais e agricultores à Mongabay.

Adilso Cruz, um fazendeiro de 46 anos do assentamento Alecrim, no Mato Grosso do Sul, relata que a escassez de água começou por volta de 2013, coincidindo com o crescimento das plantações de eucalipto na região, e piorou desde então.

“Os riachos que costumavam funcionar o ano todo começaram a fluir menos, secando e depois levando muito tempo para encher novamente”, diz Cruz. “A grama está sofrendo porque a água está desaparecendo da camada superficial do solo.”

“Eu tinha 70 cabeças de gado. Agora tenho 42, e vou precisar vender mais”, acrescenta. À medida que fazendeiros vendiam suas terras para plantações de eucalipto, também vendiam seus rebanhos, fazendo com que o preço do gado despencasse. “Eu estimo uma queda de cerca de 45% na renda”, relata Cruz.

Um estudo liderado por Valticinez Santiago, vice-secretário de Meio Ambiente de Selvíria, um município com alta produção de eucalipto, descobriu que as nascentes localizadas a 50 metros das plantações, o mínimo legal, secaram ou foram severamente degradadas. Santiago relatou à Mongabay que eles usaram imagens de satélite para mapear 400 nascentes cercadas por fazendas de eucalipto e agora recomendam expandir a zona de amortecimento para 500 metros, para proteger melhor as fontes de água.

A extensão das fazendas de eucalipto no Mato Grosso do Sul quadruplicou em 15 anos, passando de pouco mais de 375 mil hectares em 2010 para 1,6 milhão de hectares em maio de 2025.

Mapa: Andrés Alegría/Mongabay.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou uma lei em maio de 2024 que elimina a necessidade de licenças ambientais para o eucalipto. Na prática, relata Santiago à Mongabay, as autoridades não podem mais acessar terras privadas para avaliar os impactos ambientais sem um mandado, o que é difícil de obter sem evidências no local.

Cerca de 90% das fazendas são de propriedade de grandes bancos de investimento.

Empresas como Apple, Meta e Microsoft investiram milhões em eucalipto para compensar suas emissões de carbono. No entanto, críticos dizem que o eucalipto não é eficaz no sequestro de carbono, pois as árvores são colhidas a cada seis anos e transformadas em celulose para papelão e papel higiênico, o que significa que qualquer carbono armazenado é facilmente liberado na atmosfera.

Cruz conta que cerca de metade das famílias já deixou seu assentamento. Os que restam estão lutando para sobreviver e muitas vezes precisam de trabalho extra com as empresas de eucalipto.

“Muitas pessoas aqui acabam fornecendo mão de obra para as mesmas pessoas que estão tirando sua capacidade de produzir alimentos e ter liberdade financeira”, diz Cruz. “Esta terra era algo pelo qual lutamos. Foi um sonho. Mas muitos estão vendo esse sonho desmoronar e se sentem forçados a se resignar”.

Imagem do banner: Vista aérea de toras de eucalipto. Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil


Fonte: MongaBay

Grande sertão, sem veredas: ‘aço verde’ que brilha na Europa seca o Jequitinhonha

Por Daniel Camargos e Simone Fant, de Turmalina (MG), e Emmanuelle Picaud, de Paris | Imagens Tamás Bodolay  para a Repórter Brasil

Aos 85 anos, João Gomes de Azevedo lembra do tempo em que as águas corriam fartas pelo Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Havia peixes no rio, o gado pastava livre pelas veredas e a terra dava mandioca, milho e feijão em abundância.

Hoje, ele olha para o chão seco ao redor de sua casa, na comunidade de Poço d’Água, em Turmalina (MG), e vê apenas poeira. “A água foi embora. E a gente foi ficando para trás”, lamenta. Diante da secura, o nome do povoado, distante 500 quilômetros de Belo Horizonte, tornou-se uma ironia.

Enquanto Seu João luta para encontrar água, na fazenda vizinha crescem florestas de eucalipto a perder de vista. A dona das terras é a Aperam, a maior produtora de aço inox da América Latina. A empresa ostenta certificados de boas práticas ambientais, ao produzir aço com carvão vegetal de “florestas renováveis”, como ela nomeia o cultivo. 

Quem discorda chama de “deserto verde”, pois as fazendas de eucalipto estão secando o solo, conforme relatam moradores de comunidades tradicionais e quilombolas. As denúncias são respaldadas por pesquisas científicas e levaram a uma revisão do selo de sustentabilidade da Aperam – o que pode virar um problema para os negócios da gigante europeia.

“Os eucaliptos secaram as nascentes. O que antes dava para plantar, agora virou terra morta”, conta João Batista, agricultor de Veredinha, município vizinho a Turmalina. Ao redor da casa dele, estendem-se plantações com árvores de 20 metros de altura.

João Batista da Silva, 65 anos e Maria Mercedes Cordeiro da Silva, 63 anos.

O casal João Batista e Maria Mercedes recorda da abundância de peixe nos rios. “Pegava lambari com a peneira”, lembra João. “Depois do eucalipto foi só ‘destruimento’. Ficamos sem água, sem terra e sem peixes” (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

A Aperam tem 124 mil hectares no Vale do Jequitinhonha, sendo 76 mil de eucalipto, uma área plantada equivalente à soma dos territórios de Porto Alegre (RS) e Belo Horizonte (MG). A maior parte dessas terras foi repassada na década de 1970 durante a ditadura militar para uma estatal, a Acesita. Nos anos 1990, a companhia foi  privatizada e comprada pelo grupo ArcelorMittal, maior acionista da Aperam.

Os militares consideravam as terras devolutas (sem uso) e desejavam desenvolver a região. Com isso, as chapadas que antes eram de uso comum, onde as comunidades criavam o gado solto, foram destinadas à monocultura de eucalipto.

A madeira obtida é queimada para produção de carvão vegetal, que abastece os altos-fornos da siderúrgica em Timóteo (MG), no Vale do Aço. A operação também possibilita a venda de créditos de carbono na Nasdaq (EUA), o segundo maior mercado de ações do mundo, a partir da produção do biochar – um subproduto do eucalipto capaz de sequestrar dióxido de carbono (CO2) da atmosfera.

A Aperam nega ser responsável pela escassez hídrica e diz que os eucaliptos consomem a mesma quantidade de água das árvores nativas. Porém, estudos demonstraram os impactos da floresta comercial. 

Um grupo de pesquisadores da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e do IFNMG (Instituto Federal do Norte de Minas Gerais) estimou o balanço hídrico da chamada “Chapada das Veredas”, localizada no Alto Jequitinhonha. 

A substituição da vegetação nativa pelo eucalipto reduziu a recarga dos lençóis freáticos em 31 milhões de metros cúbicos de água por ano, segundo o estudo. Notou-se ainda que o nível da água subterrânea baixou cerca de 4,5 metros em 45 anos, segundo o pesquisador Vico Mendez Pereira Lima, do IFNMG. “O problema não é a falta de chuva. O volume de precipitação na região praticamente não mudou nos últimos 70 anos. O que mudou foi o uso da terra”, explica. 

Chapada das Veredas fica na bacia do rio Fanado, um subafluente do rio Jequitinhonha (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)
 
Chapada das Veredas fica na bacia do rio Fanado, um subafluente do rio Jequitinhonha (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Originário da Austrália, o eucalipto cresce rapidamente e, além de ser usado na produção de carvão vegetal e biochar, é matéria-prima para a indústria de papel e celulose. “As plantações podem parecer belas florestas verdes, mas, ecologicamente, são como desertos”, afirma Daniel Montesinos, pesquisador da Universidade James Cook, na Austrália. Ele classifica a espécie como “altamente prejudicial” à biodiversidade, pois grandes áreas plantadas criam um ambiente hostil para a fauna e a flora locais.

Na Chapada das Veredas, os pesquisadores estimam que mais de 60% da área estejam cobertas por eucalipto. Eles destacam também grande impacto nas veredas – áreas úmidas das chapadas que recarregam os lençóis freáticos e estabilizam o fluxo dos rios. Com os ciclos naturais de água interrompidos, no entanto, várias nascentes da região secaram. 

Os moradores defendem a retirada das plantações de eucalipto das encostas das veredas, onde as nascentes se formavam. “Se plantarmos árvores nativas lá, a água pode voltar. Esse é o único recurso que temos”, afirma Salete Cordeiro, presidente da Associação de Mulheres Agricultoras do Córrego da Lagoa e Beira do Fanado, comunidades reconhecidas como quilombolas.

Enquanto isso não acontece, Salete usa água de um poço artesiano que vem da casa da irmã. Muitas outras famílias, porém, tiveram de abandonar a agricultura e migraram para a cidade. As que permaneceram passaram a depender de cisternas comunitárias e caminhões-pipa.

Nos últimos anos, o córrego que passava no fundo da horta de Salete secou. As águas corriam para o rio Fanado (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Nos últimos anos, o córrego que passava no fundo da horta de Salete secou. As águas corriam para o rio Fanado (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Nos últimos anos, o córrego que passava no fundo da horta de Salete secou. As águas corriam para o rio Fanado, um subafluente do rio Jequitinhonha (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Córrego seco na Chapada das Veredas, onde plantações de eucalipto são responsáveis pela escassez hídrica, segundo moradores e pesquisadores (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Certificação ambiental sob questionamento

Os impactos socioambientais colocaram a certificação da Aperam sob escrutínio. O selo FSC (Forest Stewardship Council), que atesta boas práticas florestais, está em revisão por uma auditoria internacional após denúncia do CAV (Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica), ONG que reúne agricultores da região desde 1994. 

A partir do questionamento, a ASI (Assurance Services International) – responsável pela fiscalização do selo – identificou falhas no processo. Um relatório da entidade afirma que a Aperam não comprovou que suas plantações não afetam a disponibilidade de água. O documento também sustenta que comunidades quilombolas da região não foram consultadas.

Depois da publicação do relatório, a certificadora inicial da operação foi afastada e o Imaflora assumiu a reavaliação. O novo certificador deve apresentar um plano de ação corretivo, além de evidências de sua implementação antes do fim do segundo trimestre de 2025, explica a ASI.

Se a Aperam não comprovar a sustentabilidade, a companhia pode perder o selo FSC. Isso pode dificultar suas exportações de aço para a Europa, onde as exigências ambientais são cada vez mais rigorosas.

Unidade de Produção de Carvao PALMARES

Imagem aérea mostra plantações de eucalipto da Aperam, em Turmalina. Ao fundo, a Unidade de Produção Palmeiras, que transforma a madeira em carvão (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Fornos artesanais para queima de carvão (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Fornos artesanais para queima de carvão (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Em nota enviada à Repórter Brasil, a Aperam diz que a ligação entre escassez hídrica e plantações de eucalipto foi descartada por diferentes pesquisas, como estudos da Embrapa e de uma revista jurídica da UFMG. “O eucalipto, quando gerenciado de forma responsável, não esgota os recursos hídricos. Pelo contrário, ele pode contribuir para a manutenção do equilíbrio hidrológico e para a proteção do solo contra a erosão”, diz a nota.

Na resposta de 12 páginas, a Aperam enfatiza que tem compromisso com a sustentabilidade na produção de aço, destacando a utilização de energia renovável e a preservação de 50 mil hectares de vegetação nativa. A empresa ressalta seu engajamento com as comunidades por meio de diversos programas e alega adotar medidas de mitigação de impactos, como reservatórios de coleta de chuva, e priorizar o plantio em períodos chuvosos. Leia a íntegra da resposta da Aperam.

“Enquanto viola um direito humano fundamental, que é o acesso à água, a empresa continua se promovendo como modelo sustentável. Isso é um selo de fachada”, critica o coordenador do CAV, Valmir Soares de Macedo. Na avaliação dele, a movimentação da Aperam é um exemplo de greenwashing (ou “lavagem verde”, expressão usada para denunciar operações falsamente sustentáveis).

Macedo, contudo, tem pouca esperança de uma mudança significativa: “Mal fomos envolvidos nas discussões. Esses relacionamentos são, antes de tudo, comerciais.

Monocultura de eucaliptos em Turmalina, no Alto Jequitinhonha (Foto: Tamás Bodolay)

Monocultura de eucaliptos em Turmalina, no Alto Jequitinhonha (Foto: Tamás Bodolay)

Fazendas de eucaliptos cobrem 60% da Chapada das Veredas (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

‘Ouro negro’ vai para Canadá, Suíça e Suécia

A revisão do selo de sustentabilidade tem grande potencial de impactos nos negócios da companhia. Isso porque, além de buscar o selo para tornar seu aço “verde” e palatável ao mercado europeu, a filial da Aperam no Brasil vendeu créditos de carbono associados ao biochar. 

De aparência semelhante à terra preta, esse subproduto do eucalipto sequestra dióxido de carbono (CO2) da atmosfera e melhora a qualidade do solo, segundo a Aperam. Chamado internamente de “ouro negro”, o biochar rendeu R$ 40 milhões à companhia em um ano.

A primeira venda de créditos de carbono foi para a canadense Invert Inc., seguida pela Nasdaq, que adquiriu mais de 7 mil toneladas em 2024 para compensar suas próprias emissões. Outras empresas também adquiriram esses créditos, como o grupo financeiro sueco Skandinaviska Enskilda Banken AB, a consultoria Bain & Company, e o banco suíço Banque Pictet também compraram os créditos. As negociações ocorreram no marketplace Puro.earth, controlado pela Nasdaq.

Em seu relatório de sustentabilidade, a Nasdaq destaca que o biochar ajuda a melhorar as propriedades do solo e a retenção de água, e que o projeto da Aperam apoia programas de desenvolvimento social para agricultores locais.

O selo de sustentabilidade é importante também para a Aperam se adequar à Regulação Europeia de Remoções de Carbono. Aprovada em fevereiro de 2024, ela exige que créditos de carbono sejam concedidos apenas a empresas que comprovem não prejudicar a biodiversidade nem os recursos hídricos.

A eventual perda de certificação pode afetar outros interesses na Europa. A Aperam solicitou isenção de um imposto que taxa produtos com base nas emissões de CO2. Se aceita, a isenção concedida pelo Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira reduziria as tarifas ambientais sobre seu aço na Europa, tornando-o mais competitivo.

Nas comunidades cercadas pelas plantações de eucalipto é comum ver casas fechadas, algumas abandonadas. São de famílias que não resistiram à falta de água e mudaram para as cidades (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Nas comunidades cercadas pelas plantações de eucalipto é comum ver casas fechadas, algumas abandonadas. São de famílias que não resistiram à falta de água e mudaram para as cidades (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Histórico de conflitos fundiários

A história da Aperam no Vale do Jequitinhonha remonta aos anos 1970, quando a siderúrgica Acesita, então estatal, recebeu terras da União e do governo mineiro para desenvolver a produção de aço com carvão vegetal. Com o tempo, a vegetação nativa do Cerrado, essencial para a regulação hídrica da região, foi gradativamente substituída por monoculturas de eucalipto.

Em 1992, a Acesita foi privatizada e, em 2002, comprada pela ArcelorMittal, a segunda maior produtora mundial de aço. Em 2011, a multinacional desmembrou sua divisão de aço inoxidável e criou a Aperam, hoje uma das maiores siderúrgicas da Europa, com cinco fábricas no continente e uma no Brasil, em Timóteo (MG).

Antes da chegada da empresa, as terras eram utilizadas comunitariamente por pequenos agricultores. “Originalmente, essa terra era para as pessoas, para alimentá-las, para permitir que vivessem com suas famílias. A natureza não é apenas um campo de produção”, recorda Valmir Macedo, diretor do CAV.

A empresa enfrenta há anos na Justiça diversos questionamentos sobre a posse das terras. Moradores afirmam que nunca assinaram documentos cedendo os territórios.

João Gomes de Azevedo, 85 anos e Santa Gomes de Azevedo, 70 anos.“A água foi embora e a gente foi ficando para trás”, diz João Gomes de Azevedo, que fez uma música narrando a mudança da paisagem e do modo de vida (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

A Aperam nega as alegações de expropriação de terras, afirmando que a aquisição pela Acesita na década de 1970 foi legal e autorizada pelas leis da época. A empresa sustenta que as terras eram originalmente do estado de Minas Gerais e estavam ocupadas ilegalmente. A empresa contesta a existência de expropriações generalizadas, mencionando apenas disputas isoladas.

“Era tudo do povo. Dependíamos da chapada para criar gado, colher frutos como pequi e jaca, e buscar ervas medicinais”, recorda João Batista da Silva. “Hoje, tudo isso acabou”, lamenta. 

Mais velho, João Gomes de Azevedo corrobora: “A água corria por valetas que fazíamos no chão, e assim chegava até as casas. Com o tempo, isso foi mudando. Quando a empresa chegou, a água ainda resistiu por um tempo, mas foi diminuindo até secar.” 

A história inspirou João a compor uma música, espécie de trova, em que narra a saga de quem resistiu na região e convive com a natureza se esvaindo e a água rareando nas chapadas e veredas.


Fonte: Repórter Brasil

Mineração ilegal e seca: uma combinação letal

garimpo ilegalA mineração ilegal de ouro causa danos irreversíveis aos ecossistemas onde ocorre. Crédito da imagem: Polícia Federal Brasileira 

Se o uso do mercúrio na mineração ilegal já causa efeitos devastadores ao meio ambiente e aos seres vivos, um estudo recente identificou um problema ainda mais sério: os níveis do metal disponível no solo podem aumentar em até 70% durante as estações secas.

O estudo , publicado na revista Science of the Total Environment , avaliou o impacto da mineração ilegal de ouro nas reservas de carbono, nitrogênio e mercúrio do solo em quatro biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica .

Um bioma é um conjunto de ecossistemas que compartilham clima, flora e fauna.

Matheus Soares, pesquisador da Faculdade de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo e principal autor do estudo, explica ao SciDev.Net que a matéria orgânica do solo, rica em carbono, retém mercúrio e ajuda a prevenir sua propagação.

No entanto, as temperaturas mais elevadas durante as secas aceleram a decomposição desta matéria orgânica, libertando dióxido de carbono para a atmosfera e reduzindo a capacidade do solo de capturar mercúrio. Resultado: O metal altamente tóxico torna-se mais disponível no meio ambiente e mais acessível aos organismos vivos.

As análises realizadas no âmbito da pesquisa indicaram uma redução de 50 por cento nos estoques de carbono do solo nas áreas de mineração em comparação com as áreas de pastagem, utilizadas pelos pesquisadores como referência para comparar os resultados. Esta perda está relacionada com um aumento de 70% na libertação de mercúrio.

No entanto, os resultados do estudo apontam para uma contaminação potencialmente muito maior . Isso ocorre porque os pesquisadores analisaram apenas a camada superior do solo.

“O mercúrio liberado na atmosfera pode percorrer longas distâncias, sendo transportado para áreas onde não há impacto direto da mineração ou de outras atividades que emitem mercúrio.”

Gabriela Arrifano, professora do Laboratório de Farmacologia Molecular da Universidade Federal do Pará, Brasil

“A atenção foi voltada para as primeiras camadas porque geralmente é onde ocorre a interação com o meio ambiente e onde os animais e outros seres vivos têm acesso a elas. Mas se considerarmos o impacto como um todo, estamos a falar de muito mais toneladas de carbono [perdidas] e provavelmente de muito mais quilogramas de mercúrio por hectare nestas áreas”, acrescentou Soares.

Segundo o pesquisador, embora os impactos tenham sido semelhantes nos quatro biomas analisados, a Amazônia e o Pantanal foram mais sensíveis às mudanças, principalmente por registrarem temperaturas mais elevadas.

Para a professora do Laboratório de Farmacologia Molecular da Universidade Federal do Pará (UFPA), Gabriela Arrifano – que não participou do estudo –, o aumento da disponibilidade de mercúrio no período de seca aumenta o impacto das mudanças climáticas .

“Já sabemos, por exemplo, que o aumento da temperatura no planeta fez com que o permafrost [camadas congeladas do solo] descongelasse, o que acaba liberando para o meio ambiente esse mercúrio que estava fixado no solo. O mercúrio liberado na atmosfera pode percorrer longas distâncias, sendo transportado para áreas onde não há impacto direto da mineração ou de outras atividades que emitem mercúrio”, acrescentou Arrifano.

Ameaça às comunidades indígenas

O mercúrio é utilizado na extração ilegal de ouro porque se amalgama com o metal precioso, facilitando sua separação de outros resíduos. O amálgama é aquecido para que o mercúrio evapore, restando apenas o ouro. O gás resultante também é extremamente tóxico.

Na região amazônica, a mineração ilegal é uma ameaça ao meio ambiente e às comunidades indígenas.

Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgado no início do ano, identificou a presença de mercúrio nas 293 amostras de cabelos e mucosa oral coletadas de indígenas da região do Alto Rio Mucajaí, na Terra Indígena Yanomami, estado de Roraima. O material foi coletado de homens e mulheres adultos, além de crianças e idosos.

Os pesquisadores também analisaram 47 exemplares de peixes, todos apresentando algum grau de contaminação por mercúrio .

Da mesma forma, as projeções de outro estudo , publicado recentemente na revista Toxics , indicam que, em média, 27% das 8.259 sub-bacias dos rios amazônicos analisadas estariam em descumprimento da legislação brasileira, que estabelece limites para a concentração de mercúrio nos alimentos. Nas bacias dos rios Branco e Tapajós esse número sobe para 52%.

“Os ambientes característicos do bioma amazônico, como os igapós , reúnem condições que favorecem a transformação do mercúrio em sua forma orgânica, ou do metilmercúrio, a forma mais tóxica do poluente”, diz o analista ambiental Vitor Domingues, um dos coautores. do estudo de tóxicos .

As florestas pantanosas da Amazônia sazonalmente inundadas por água preta e doce são chamadas de Igapó.

Segundo o analista, o metilmercúrio se acumula na cadeia alimentar, principalmente nos peixes, que são utilizados como fonte de alimento por animais e comunidades da região. A modelagem indica que quase metade das comunidades indígenas nas sub-bacias dos rios Mucajaí, Uraricoera e Branco estariam em risco muito elevado de contaminação, considerando os efeitos do mercúrio na saúde humana .

“O peixe é a principal fonte de proteína das comunidades tradicionais amazônicas, que apresentam os maiores índices de consumo de pescado do mundo. Portanto, mesmo que as concentrações de mercúrio nos peixes atendam aos padrões do Mercosul, as populações podem estar em risco, considerando as quantidades ingeridas na região”, acrescentou Domingues.

Esse risco alarmante também foi identificado no estudo da Fiocruz, que revelou que a ingestão média de mercúrio superou em três vezes a dose de referência estabelecida pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA).

Ao avaliar as condições de saúde dos indígenas, os pesquisadores observaram que aqueles com níveis mais elevados de mercúrio nas amostras de cabelo apresentavam déficits cognitivos e neurológicos. A exposição a metais também tem sido associada a doenças cardiovasculares e problemas de desenvolvimento em crianças.


Fonte: SciDev.Net

Amazônia Central perdeu 8% de cobertura de água nos últimos dois meses de 2023 em relação à média mensal

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Redução na cobertura da água traz dificuldade de acesso a alimentos e água potável na Amazônia. Na foto, Lago Tefé na seca de 2023. Foto: Ayan Fleischmann/Acervo Pesquisadores

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A região central da Amazônia enfrentou uma redução histórica na área de águas abertas entre 2023 e 2024. Segundo um estudo publicado na última quarta-feira (13/11) na revista “Environmental Research Letters”, a cobertura hídrica da região diminuiu 8% nos últimos dois meses de 2023 em relação à média mensal. O estudo, conduzido por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) em parceria com a instituições como a Universidade de Brasília (UnB), o Institut de Recherche pour le Développement (IRD), da França e a Universidade Tecnológica do Uruguai, alerta para um cenário crítico para 2024 e reforça a necessidade de medidas urgentes de mitigação.

O artigo alerta para uma estiagem ainda mais extrema em 2024. Os dados de outubro de 2024 já mostram uma diminuição de cerca de 18% na área de lagos maiores que 10 hectares em relação ao mesmo período do ano anterior. Setembro de 2023 registrou 57.624 km² de águas abertas na Amazônia Central, enquanto o mesmo mês de 2024 contabilizou apenas 51.775 km², uma diferença de quase 6 mil km².

Para investigar os efeitos da seca do último ano sobre a extensão das águas abertas na Amazônia, incluindo reservatórios, rios e áreas alagadas, a equipe utilizou dados de sensoriamento remoto captados por Radares de Abertura Sintética, ou SAR. Esses sensores coletam informações sob diferentes condições climáticas e mesmo na presença de nuvens, fornecendo retratos detalhados da região a cada 12 dias. Os pesquisadores analisaram mais de 1.500 imagens que abrangem o período entre 2017 a 2024 e observaram como as mudanças na cobertura de água se distribuíram e afetaram a área.

Algumas áreas experimentaram quedas ainda mais extremas, como o Rio Negro, que alcançou seu nível mais baixo em 120 anos. “A estiagem provém de uma combinação de fatores”, explica Daniel Maciel, autor do estudo. “Houve um aumento extremo de temperatura. Em alguns lagos, o calor superou os 40 graus Celsius. Isso, somado ao aumento do desmatamento e dos incêndios florestais, contribui para intensificar e prolongar a época de seca”, argumenta o pesquisador. Novembro e dezembro de 2023 registraram os menores valores da cobertura de água desde o início da coleta de informações, em 2017, e lagos isolados tiveram reduções de até 80% em comparação com a média geral da estação seca.

A redução da água disponível afeta gravemente a biodiversidade e a subsistência de mais de 30 milhões de pessoas na região amazônica. “A estiagem severa resulta em uma diminuição no acesso a alimentos, educação, remédios, transporte e água potável”, destaca Maciel. “Podemos ter uma mortalidade maior de peixes, a principal fonte de proteína animal nas comunidades mais remotas, e a seca também afeta a agricultura familiar, com a dificuldade de cultivar até a mandioca, cuja farinha é a base da alimentação de muitas pessoas”, continua o autor. Ele também explica que a diminuição do nível de água aumenta a ressuspensão de sedimentos pela ação do vento, o que pode ocasionar a floração de algas tóxicas.

O pesquisador Ayan Fleischmann, do Instituto Mamirauá, destaca que a seca extrema afeta grande parte da Bacia Amazônica em novembro de 2024, isolando milhares de ribeirinhos e exigindo ajuda humanitária emergencial. “Distribuição de kits de tratamento emergencial de água superficial, por exemplo, tem sido realizada para melhorar o acesso à água potável, mas ações como esta precisam ser alavancadas”, diz o cientista. “Além disso, é fundamental que se invista em medidas preventivas, como acesso permanente à água potável e a melhoria e descentralização de serviços de saúde”, completa Fleischmann.

Segundo Maciel, os resultados demonstram a urgência de medidas assertivas para redução de danos. “A redução do desmatamento, com controle, monitoramento e punição do desmatamento ilegal, o combate a incêndios florestais e o monitoramento em tempo real dessas ocorrências, o uso racional da água e a implementação de estratégias de longo prazo para combater as mudanças climáticas são algumas das ações importantes”, relata o autor. Os planos futuros da equipe incluem entender como a mudança na área alagada afeta a qualidade da água e como isso pode impactar a biodiversidade ao longo dos anos.


Fonte: Agência Bori

A Amazônia está morrendo de sede por causa das mudanças climáticas

Segundo a UNICEF, mais de 420 mil crianças são afetadas por uma seca recorde na região da floresta tropical sul-americana. Enquanto isso, uma tempestade tropical segue a outra

201862Crianças brincam em uma banco de areia no Rio Madeira, setembro de 2024. Foto: Bruno Kelly/Reuters

Por Wolfgang Pomrehn para o JungeWelt 

O fundo da ONU para a infância, UNICEF, está soando o alarme. Mais de 420 mil crianças no Brasil, na Colômbia e no Peru sofrem com uma grave seca que atinge a bacia amazônica pelo segundo ano consecutivo. Nunca antes os níveis de água no Rio Amazonas e seus afluentes estiveram tão baixos como agora. Na Colômbia, os níveis caíram 80%. Isto tem consequências dramáticas para os povos indígenas da região. Os rios fornecem-lhes peixe, água de irrigação para os seus pequenos campos, são fonte de água potável e uma via de transporte indispensável. Só no Brasil, 1.700 escolas e 760 centros de saúde tiveram que fechar ou ficaram pelo menos inacessíveis para a maioria das crianças. Num inquérito recente realizado pela UNICEF na parte brasileira da floresta tropical, metade das famílias afirmou que os seus filhos não podiam ir à escola por causa da seca.

A UNICEF também informa sobre o fechamento de postos de saúde no Peru. Além disso, o risco de desnutrição está aumentando significativamente em toda a região. As comunidades indígenas que já estão em risco são particularmente afetadas. Na preparação para a 29ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que começa na segunda-feira em Baku, no Azerbaijão, a UNICEF apela à disponibilização de um montante significativamente maior para as necessidades das crianças particularmente afectadas em tempos de alterações climáticas. Esta questão deve ser incluída nos processos de tomada de decisão relativos à protecção do clima a todos os níveis.

Vários estudos demonstraram nos últimos anos que o ecossistema da floresta amazónica já está à beira do colapso e poderá transformar-se em uma savana seca. Na sexta-feira, o secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou no jornal britânico The Guardian , tendo em vista a conferência sobre o clima, que o mundo está caminhando para vários pontos de viragem e cujos perigos ainda estão sendo subestimados.

Entretanto, duas semanas depois da primeira tempestade tropical atingir a ilha, Cuba sofria novamente a passagem de um furacão que agora ameaça a costa mexicana. Tufão após tufão também continuam passando nas Filipinas. A tempestade tropical “Yinxing” passou por ali na quinta-feira, a 13 deste ano e a terceira em menos de um mês. Em média, oito a nove deles passam sobre a ilha todos os anos, de acordo com o serviço meteorológico de Manila. Tufões e furacões – dois termos para o mesmo fenômeno em diferentes regiões do mundo – desenvolvem-se nos mares subtropicais quentes. As águas em torno das Filipinas e de Cuba registam atualmente temperaturas muito acima da média devido às alterações climáticas.

Na Alemanha o Serviço Meteorológico Alemão informou na sexta-feira que os últimos dez anos foram em média 2,3 graus Celsius mais quentes do que nas décadas de 1881 a 1910. Na Áustria e na Suíça foram até 2,9 e 2,8 graus Celsius, respetivamente, mais quentes. As consequências incluem um aumento drástico do stress térmico, menos neve a baixas altitudes, mais chuvas fortes e um maior risco de secas. Através de uma protecção climática global consistente, as temperaturas médias na Europa Central poderão situar-se ligeiramente acima dos níveis actuais. Caso contrário, poderão subir mais 1,5 a 4,5 graus Celsius.


Fonte: JungeWelt

Seca e queimadas no Brasil: entrevista no SBT News

entrevista SBT

Ontem tive a oportunidade de dar uma entrevista ao jornalista Léo Cavalcanti do SBT News sobre a situação da seca histórica e das queimadas que assolam o Brasil neste momento. Em que pesem eventuais erros que ocorrem neste tipo de interação ao vivo, penso que a mensagem foi passada com a devida correção.

O fato é que a situação está dramática e tende a piorar nos próximos anos e décadas se medidas concretas não forem tomadas para conter a destruição da Amazônia e do Cerrado. Agir com orçamento adequado será fundamental para impedirmos o avanço da catástrofe climática que está se colocando sobre o planeta, e em especial o Brasil.

Impacto da seca na contaminação da água potável nos EUA: disparidades de qualidade afetam comunidades latinas

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Um novo estudo sugere que os sistemas comunitários de água na Califórnia que atendem à maioria das comunidades latinas são mais suscetíveis à contaminação por nitrato. Crédito: Berkeley Lab da Openverse

Por Associação Americana de Saúde Pública

A exposição prolongada a contaminantes como arsênico e nitrato na água está ligada a um risco aumentado de várias doenças, incluindo câncer, doenças cardiovasculares, distúrbios do desenvolvimento e defeitos congênitos em bebês.

Nos Estados Unidos, há uma disparidade impressionante na exposição a contaminantes na  fornecida por sistemas comunitários de água (CWSs), com comunidades historicamente marginalizadas em maior risco em comparação com outras populações. Muitas vezes, os CWSs que distribuem água com níveis mais altos de contaminação existem em áreas que carecem de infraestrutura pública adequada ou recursos sociopolíticos e financeiros.

Em um estudo publicado no American Journal of Public Health, a Sra. Sandy Sum, candidata a Ph.D. na Bren School of Environmental Science & Management, UC Santa Barbara, investigou a qualidade da água potável nos CWSs da Califórnia que atendem à maioria das comunidades latinas.

Sum analisou as tendências nas concentrações de nitrato e  na água potável proveniente de águas superficiais e subterrâneas, usando um conjunto variado de dados, incluindo dados de amostragem de água, registros históricos de seca, características sociodemográficas das populações, medidas de intensidade agrícola e características CWS do período 2007-2020.

Seu estudo descobriu que esses sistemas exibem consistentemente níveis mais altos e variáveis de nitrato e arsênico em comparação com aqueles que atendem populações não majoritariamente latinas. Ela também descobriu que os casos de seca aumentaram a contaminação nos CWSs que atendem a essas comunidades.

“A seca aumentou as  na maioria das comunidades latinas, com o efeito dobrando para CWSs com mais de 75% das populações latinas atendidas. As concentrações de arsênio nas fontes superficiais também aumentaram durante a seca para todos os grupos”, explica a Sra. Sum.

As concentrações de nitrato na água potável proveniente de águas subterrâneas aumentaram de uma linha de base de 2,5 mg/L em 1998 para um pico de 3,1 mg/L em 2018 para a maioria dos CWSs latinos/a.

Em contraste, os níveis de nitrato em CWSs não majoritariamente latinos diminuíram de 2,1 mg / L para 1,8 mg / L no mesmo período. Essa disparidade crescente na exposição ao nitrato é particularmente pronunciada na água de origem superficial, onde os CWSs latinos / a majoritários mostram uma concentração média de nitrato de 2,2 mg / L, significativamente maior do que os 1,2 mg / L observados em CWSs latinos / a não majoritários em 2020.

As condições de seca exacerbaram essas disparidades, com um impacto notável na água potável de origem superficial. Para a maioria dos CWSs latinos, as  levaram a um aumento nos níveis de nitrato, com um aumento de 2 unidades no índice de seca normalizado, resultando em um aumento de 0,04 mg / L nas concentrações de nitrato para CWSs que atendem a mais de 25% das populações latinas / a.

O aumento é mais pronunciado em sistemas que atendem a mais de 75% das populações latinas, com um aumento de 0,16 mg/L. Este efeito é particularmente evidente em CWSs muito pequenos (<500 conexões) e operados de forma privada, onde as concentrações de nitrato são mais suscetíveis a condições de seca.

A água de origem superficial mostra um aumento relacionado à seca nos níveis de nitrato de 0,17 mg/L, mais que o dobro do aumento observado nas fontes de água subterrânea (0,07 mg/L).

“[As descobertas] são preocupantes quando consideramos que, embora mais CWSs, cerca de 77%, sejam abastecidos por águas subterrâneas, mais pessoas, quase 80%, são atendidas por CWSs que usam águas superficiais como fonte primária”, observa Sum.

“As secas iminentes impulsionadas pelas mudanças climáticas podem aumentar ainda mais as disparidades de água potável e as ameaças de arsênio. Isso ressalta a necessidade crítica de abordar as desigualdades existentes no planejamento de resiliência climática e na concessão de subsídios”, explica ela.

Além disso, as concentrações de arsênio na água potável também exibiram variabilidade em condições de seca. A seca aumenta as concentrações gerais de arsênico na água potável de origem superficial para CWSs latinos / a majoritários e não majoritários.

No entanto, para a maioria das comunidades latinas, a seca leva a uma diminuição estatisticamente insignificante nos níveis de arsênio na água potável proveniente de águas subterrâneas. Essa tendência contrasta com as descobertas recentes no Vale de San Joaquin, onde o bombeamento intensificado de águas subterrâneas agrícolas relacionado à seca aumentou significativamente a prevalência de nitrato em três a cinco vezes nos poços de abastecimento público, destacando uma questão regional mais ampla.

O estudo ressalta a necessidade de medidas aprimoradas de resiliência à seca, particularmente para CWSs muito pequenos e operados de forma privada que atendem comunidades latinas.

“Os efeitos [diferenciais] que encontrei sugerem que os CWSs que atendem às comunidades latinas não estão mitigando as concentrações elevadas de nitrato durante as condições de seca, o que exacerba as disparidades existentes. Isso pode refletir a falta de infraestrutura de tratamento, restrições de recursos ou outras diferenças operacionais ou técnicas”, diz a Sra. Sum.

“Embora eu tenha me concentrado apenas nas concentrações de arsênico e nitrato, esses CWSs vulneráveis também podem estar em maior risco de contaminação de outras fontes, como pesticidas, locais de descarte de resíduos e fábricas, sob estressores como secas, inundações e outros eventos naturais”, conclui Sum em uma nota de advertência.

Pesquisas futuras devem explorar como a seca afeta os níveis de arsênio e nitrato para ajudar a entender as implicações para a saúde pública e orientar iniciativas políticas para garantir o acesso seguro e equitativo à água potável.

Mais informações: Impacto das secas nas disparidades de água potável servida na Califórnia, 2007–2020, American Journal of Public Health (2024). DOI: 10.2105/AJPH.2024.307758.  


Fonte: Phys.org

Queimadas aumentam na Amazônia, apesar de queda no desmatamento

Área queimada chegou a 10 milhões de hectares em 2023, mesmo com redução da perda de vegetação nativa no Arco do Desmatamento, na porção sul do bioma Amazônico

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Por Lucas Guaraldo para o Ecodebate

Apesar da redução de 50% no desmatamento na Amazônia, a pior seca em 125 anos aumentou o fogo em outras áreas do bioma, elevando a área queimada total para 10 milhões de hectares, 36% a mais do que em 2022.

Dados foram publicados Nota Técnica Amazônia em Chamas nº 12, produzida por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e Nasa e publicada nesta sexta-feira, dia 28.

“Tivemos a redução do desmatamento e da área queimada nos municípios do chamado Arco do Desmatamento, mas houve um aumento no restante do bioma . A gente sempre pensa que reduzir o desmatamento vai ajudar a reduzir o fogo, mas os resultados deste estudo demonstram claramente os efeitos das condições climáticas nesse processo”, destaca Ane Alencar, diretora de Ciências do IPAM e uma das autoras da nota.

O estudo aponta que, dos 71 municípios considerados prioritários para ações ambientais do governo federal, todos localizados no Arco do Desmatamento, 62 viram uma redução na área desmatada, representando 88% de toda a redução no desmatamento em 2023. Além disso, dos 180 municípios amazônicos que conseguiram reduzir sua área queimada no ano passado, 47 eram prioritários e responderam por 68% da redução da área queimada registrada neste grupo.

Os dados confirmam uma redução do desmatamento e da área queimada na região do Arco, que vai do norte do Acre ao sudeste do Pará, passando pelo norte de Rondônia e sul do Amazonas. Ao todo, são cerca de 50 milhões de hectares de fronteira agrícola onde tipicamente encontram-se os maiores índices de desmatamento da Amazônia.

Apesar disso, a porção norte da floresta passou pelo caminho oposto: a área queimada aumentou em 245 dos municípios, sendo apenas 24 considerados prioritários pelo governo, totalizando um crescimento de 4 milhões de hectares nessa região. A mudança também pode ser percebida nos meses com mais alertas de fogo. Se em 2022 a floresta queimou principalmente nos meses de agosto e setembro, 2023 registrou uma área queimada maior em fevereiro e março, quando o norte da floresta está mais seco.

“Viemos de um ano com uma seca severa e estamos iniciando um ano mais seco do que o normal, anunciando que vamos ter dificuldades com o período de queimadas. Uma das recomendações é que prestemos atenção na geografia dos incêndios florestais e das áreas afetadas pela seca. A gente viu que teve essa diminuição no Arco do Desmatamento, mas uma outra região foi muito impactada e isso elevou bastante a área queimada”, alerta Ane.

Perfil das queimadas mudou

A combinação de redução do desmatamento e aumento da seca também trouxe mudanças nos perfis das queimadas, criando dificuldades para a estratégia de combate ao fogo. Em 2023, 57% do fogo atingiu áreas de vegetação nativa, principalmente campos e florestas, enquanto áreas de pastagem concentraram 43% da área queimada. O resultado é o inverso do registrado em 2022, quando 37% da área queimada era natural e 62% eram áreas de uso agropecuário. A mudança reflete as diferenças entre o norte da Amazônia, mais preservado e coberto por florestas, e o sul, com uma agricultura consolidada e mais áreas de pastagem.

Dentro dos incêndios florestais, a área queimada em florestas aumentou 123%, passando de 1,3 milhão de hectares em 2022 para 3 milhões em 2023.

Os campos naturais – que incluem campos alagados, campinaranas e lavrados – queimaram 93% a mais do que em 2022, passando de 2,3 milhões de hectares afetados pelo fogo para 4,5 milhões.

“É importante intensificar as medidas para conter o desmatamento na porção norte da Amazônia, de forma a reduzir as possíveis fontes de ignição para incêndios. Esse ponto de atenção se faz presente para a estação seca de 2024, em que a Amazônia, apesar da instalação do La Niña, que provoca mais chuvas na região, ainda apresenta riscos de sofrer com um meio de estação seca muito severa, devido ao estresse hídrico do ano anterior não ter sido suprido pelo período chuvoso no início de 2024, acendendo a luz crítica de alarme para a nova estação de fogo”, alertam os pesquisadores na nota.


Fonte: Ecodebate

Seca devastadora na Amazônia é resultado da crise climática, mostra estudo

Condições climáticas extremas ameaçam o maior reservatório de carbono do mundo, pois a floresta tropical já está perto do ponto de inflexão

droughtCasas flutuantes e barcos encalhados no leito seco do lago Puraquequara, no Brasil, em meio a uma forte seca em outubro de 2023. Foto: Edmar Barros/AP

Por Damian Carrington para o “The Guardian”

A crise climática transformou a seca que atingiu a floresta amazónica em 2023 num acontecimento devastador, concluiu um estudo.

A seca foi a pior registada em muitos locais e atingiu o nível máximo “excepcional” na escala científica. Sem as emissões que aquecem o planeta provenientes da queima de petróleo, gás e carvão, a seca teria sido muito menos extrema, concluiu a análise.

Também mostrou que a probabilidade de ocorrência da seca era 30 vezes maior devido ao aquecimento global. O regresso do fenómeno climático natural El Niño está associado a condições mais secas, mas desempenhou apenas um pequeno papel, disseram os cientistas.

crise climática está a sobrecarregar condições meteorológicas extremas em todo o planeta, mas a seca extrema na Amazónia é um exemplo gritante e preocupante porque já se pensa que a floresta tropical está perto de um ponto de inflexão para um estado mais seco. Isto resultaria numa morte em massa de árvores que constituem a reserva terrestre de carbono mais importante do mundo, libertando grandes quantidades de CO2 e elevando ainda mais as temperaturas globais.

Milhões de pessoas na Amazônia foram afetadas pela seca , com alguns rios em seus níveis mais baixos há mais de um século. Houve escassez de água potável, colheitas fracassadas e cortes de energia, à medida que as centrais hidroeléctricas secaram. A seca também agravou os incêndios florestais e as altas temperaturas da água foram associadas a uma mortalidade em massa da vida fluvial, incluindo a morte de mais de 150 botos cor-de-rosa ameaçados de extinção numa única semana.

“A Amazônia pode fazer ou quebrar a nossa luta contra as mudanças climáticas”, disse Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil, e parte da equipe da World Weather Attribution que fez a análise.

“Se protegermos a floresta, ela continuará a funcionar como o maior sumidouro de carbono terrestre do mundo”, disse ela. “Mas se permitirmos que as emissões induzidas pelo homem e a desflorestação a empurrem para o ponto de viragem, serão libertadas grandes quantidades de CO2 . Precisamos proteger a floresta tropical e abandonar os combustíveis fósseis o mais rápido possível.”

Simphiwe Stewart, pesquisadora do Centro Climático da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho na Holanda e também parte da equipe, disse: “Muitas comunidades que vivem na Amazônia simplesmente nunca viram uma seca como esta antes. As pessoas foram forçadas a fazer grandes viagens, arrastando barcos por trechos secos do rio, para ter acesso a alimentos, remédios e outros bens essenciais. É fundamental que as intervenções governamentais sejam orientadas para apoiar as comunidades a prepararem-se para a intensificação da seca à medida que o clima aquece.”

A análise utilizou métodos revistos por pares para comparar as secas no clima actual, que é 1,2ºC mais quente, com aquelas que teriam ocorrido num clima mais frio e pré-industrial. Os investigadores analisaram em particular a “seca agrícola”, que é responsável tanto pela baixa pluviosidade como pela evaporação da água dos solos e das plantas provocada pelas altas temperaturas.

Eles descobriram que o aquecimento global está diminuindo as chuvas e aumentando o calor na Amazônia, tornando a seca de junho a novembro de 2023 cerca de 30 vezes mais provável. O El Niño foi responsável por parte da redução das chuvas, mas as altas temperaturas foram quase inteiramente devidas às alterações climáticas, tornando-o o principal factor da seca.

A seca extrema de 2023 seria esperada cerca de uma vez a cada 50 anos no clima atual, estimou a análise. Mas se o aquecimento global atingir os 2ºC, seria de esperar uma seca tão severa a cada 13 anos.

Os cientistas disseram que a destruição em grande escala da floresta tropical para a produção de carne bovina e soja nas últimas décadas piorou a seca porque o desmatamento da vegetação significa que a terra retém menos água.

Dados recentes mostram que a floresta amazónica está se aproximando de um ponto de viragem, após o qual a floresta tropical seria perdida, com profundas implicações para o clima e a biodiversidade globais. Mais de 75% da floresta intocada perdeu estabilidade desde o início dos anos 2000, mostrou o estudo, o que significa que leva mais tempo para se recuperar após secas e incêndios florestais.

Gareth Redmond-King, da Unidade de Inteligência Energética e Climática do Reino Unido, disse: “A floresta amazónica é fundamental para regular o clima do nosso planeta, mas esta área da América do Sul também é crítica para o Reino Unido num sentido ainda mais imediato”.

“Cerca de metade das nossas importações de alimentos provém de pontos críticos de impacto climático, incluindo o Peru, a Colômbia e o Brasil, que são os nossos principais fornecedores de bananas, abacates, melões e outras frutas, bem como de soja para alimentação do gado britânico”, disse ele. “Portanto, os efeitos devastadores das alterações climáticas sobre os agricultores da América do Sul no ano passado podem muito bem traduzir-se em lacunas nas prateleiras dos nossos supermercados e em preços mais elevados para os nossos alimentos.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

A importância das áreas protegidas contra a seca e as mudanças climáticas na Amazônia

Terras indígenas e unidades de conservação desempenham um papel fundamental na preservação da biodiversidade

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A Amazônia enfrenta uma seca histórica de proporções alarmantes. Dados do porto de Manaus revelam que o Rio Negro, um dos principais rios amazônicos, alcançou o menor nível registrado em 121 anos de monitoramento. Fenômenos climáticos, como o El Niño, desempenham um papel crucial na redução das chuvas na região, resultando no esgotamento dos rios, no desaparecimento dos igarapés e na invasão de densas nuvens de fumaça decorrentes das queimadas.

Segundo Fabiana Prado, coordenadora do LIRA/IPÊ – Legado Integrado da Região Amazônica -, essa situação dramática tem efeitos devastadores. “A população local sofre com a escassez de água potável, enquanto a agricultura e a piscicultura enfrentam prejuízos significativos. As queimadas, agravadas pelo clima seco, aumentam a fumaça no ar, prejudicando a saúde das comunidades e levantando preocupações sobre a qualidade do ar”, diz. 

Em meio à crise, as áreas protegidas emergem como um contraponto essencial. “Terras indígenas e unidades de conservação desempenham um papel fundamental na preservação da biodiversidade, na mitigação dos impactos das mudanças climáticas e na promoção da resiliência da região”, afirma Fabiana. Funcionam como verdadeiros refúgios para a fauna e a flora amazônicas, contribuindo para a regulação do clima e a proteção do solo.

O LIRA, uma iniciativa do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, envolve uma rede de 116 organizações da sociedade civil, empresas, cooperativas, instituições de pesquisa e órgãos governamentais, cobrindo uma área de 58 milhões de hectares, com projetos dedicados à conservação de 55 Áreas Protegidas da Amazônia. “O propósito central do LIRA é transformar essas áreas em polos de desenvolvimento regional e territorial, fortalecendo as populações locais e reduzindo a pressão sobre a floresta”, diz Fabiana Prado. Ela destaca ainda a necessidade de ações efetivas para enfrentar essas adversidades.

A seca na Amazônia serve como um alerta urgente para a importância das áreas protegidas e iniciativas como o LIRA. Elas são cruciais para assegurar a sobrevivência da maior floresta tropical do mundo diante de desafios climáticos cada vez mais graves, além de desempenharem um papel fundamental na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas. “A conservação da Amazônia é uma causa global, e essas áreas desempenham um papel central na construção de um futuro sustentável”, afirma Fabiana.

Sobre o LIRA

O LIRA é uma iniciativa idealizada pelo IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, Fundo Amazônia e Fundação Gordon e Betty Moore, parceiros financiadores do projeto. Os parceiros institucionais são a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Amazonas – SEMA-AM e o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará – IDEFLOR-Bio. O projeto abrange 34% das áreas protegidas da Amazônia, considerando 20 UCs Federais, 23 UCs Estaduais e 43 Terras Indígenas, nas regiões do Alto Rio Negro, Baixo Rio Negro, Norte do Pará, Xingu, Madeira-Purus e Rondônia-Acre. O objetivo do projeto é promover e ampliar a gestão integrada para a conservação da biodiversidade, a manutenção da paisagem e das funções climáticas e o desenvolvimento socioambiental e cultural de povos e comunidades tradicionais. Mais informações: 

https://lira.ipe.org.br/