Carta de Rondônia: denúncias sobre a grave situação vivida pelos camponeses e suas lideranças

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Recebi hoje e posto abaixo uma correspondência vinda da Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia onde são narrados vários fatos graves que vêm afetando seus membros, incluindo o extermínio físico de dirigentes.  A mensagem veio acompanhada de uma série de documentos políticos que estão disponíveis no link que foi fornecido no corpo do texto.

Como estive nos campos de Rondônia realizando pesquisas científicas de forma continuada entre 1991 e 2005, sei que por lá os conflitos são reais e perigosos. Por isso, não tenho porque duvidar da narrativa que me foi enviada. Essa situação, lamentavelmente, tem sido negligenciada pela grande mídia corporativa e pelo Estado brasileiro.

E uma coisa é certa: o espaço deste blog foi criado exatamente para dar espaço para assuntos que são corriqueiramente empurrados para fora da cobertura da mídia corporativa.

Carta de Rondônia

lcp ro

Caro Professor Marcos Pedlowski,

Encaminhamos a Carta Aberta escrita pelo Companheiro José Pereira Gonçalves, integrante da , com denúncias sobre a grave situação vivida pelos  camponeses e suas lideranças e sobre a brava luta pela terra para quem nela vive e trabalha.

Ameaças, perseguições e covardes execuções, perpetradas por bandos de pistoleiros e policiais a serviço do latifúndio, são parte do dia a dia da luta pela terra em Rondônia. Porém, os camponeses não se abatem com o terror imposto pelos latifundiários, seu Estado e gerentes de turno, e seguem lutando e levantando bem alto a bandeira da destruição desse injusto, caduco e secular podre sistema latifundiário. Mais informações sobre estas importantes lutas das Ligas de Camponeses Pobres podem ser acessadas através da página Resistência Camponesa: http://resistenciacamponesa.com/

Encaminhamos, em anexo, nota da Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres condenando o massacre de camponeses no Paraná, e uma nota da Frente Revolucionária de Defesa dos Direitos do Povo sobre o dia 9 de abril, celebrado como uma data em homenagem aos heróis e heroínas do povo brasileiro, quando completaram-se quatro anos da infame emboscada, tortura e assassinato do companheiro Renato Nathan, perpetrado em Jacinópolis, Rondônia, pela ação combinada de forças policiais do velho Estado genocida e pistoleiros do latifúndio.

Renato Nathan e todos heróis e heroínas do povo brasileiro, Presentes nas lutas!!!

Conclamamos a todas entidades sindicais, pessoas e entidades progressistas e democráticas, a integrarem-se ativamente nas campanhas de apoio a luta pela terra e de defesa do movimento camponês combativo.

Agradecemos o apoio militante nesta fundamental luta e a ampla divulgação deste material. Para a verdadeira democracia e justiça para os pobres do campo e da cidade se efetivar no Brasil é imprescindível a defesa e avanço da luta camponesa e a destruição do opressor, criminoso e apodrecido sistema latifundiário.

Viva a aliança operário-camponesa!

Saudações classistas,

LCP

No embalo do impeachment está declarada a temporada de caça aos pobres que ousam resistir

cacaulandia

A morte de dois trabalhadores sem terra no município de Quedas do Iguaçu, no extremo oeste do Paraná (Aqui!), é apenas mais um episódio de um processo da temporada de caça aos pobres que ousam resistir que está ocorrendo no Brasil.  Há poucos dias, capangas haviam colocado fogo num acampamento em Cacaulândia em Rondônia (Aqui!). Enquanto isso na Bahia, um líder indígena da etnia Tupinambá foi preso numa reintegração de posse promovida numa área que foi designada como terra indígena, mas que ainda aguarda ação do governo federal para sua demarcação (Aqui!).

Esses três casos são apenas a ponta de um imenso iceberg de repressão e violência contra setores organizados da maioria pobre da população brasileira.  E a violência vem pelas mãos de jagunços ou por agentes do próprio Estado.  A marca que unifica essas ações de truculência explícita é a negação do direito dos pobres à condições minimamente dignas de existência. E não é à toa que a violência que ocorre no campo sempre cai sobre “sem terras” ou índios. É que nesses dois grupos está concentrada a disputa pela propriedade da terra no Brasil.

Qual é a ligação imediata entre a violência que grassa nos campos e florestas com o impeachment (quer dizer golpe institucional) que se quer promover contra Dilma Rousseff? Eu diria que é o fato de que, apesar de todas as suas contradições e omissões, o governo Dilma ainda não faz o trabalho completa de eliminar fisicamente os que ousam demandar seus direitos. Dai para a ação de jagunços ou do braço armado do Estado é um passo. E tudo isso colocado, podemos entender a sanha de tirar Dilma Rousseff da presidência custe o que custar.

E que ninguém se engane. A violência que está aparecendo agora nas áreas rurais é a mesma que floresce a olhos vistos há bastante tempo nas principais cidades brasileiras. A diferença é que a explicitação e o aprofundamento da crise sistêmica por que passa neste momento o capitalismo mundial, e que possui particularidades ainda mais drásticas no Brasil, torna a eliminação dos pobres uma necessidade para aqueles que querem continuar se apropriando de toda a riqueza, de forma a torná-la ainda mais concentrada. É por isso que nunca ouviremos ninguém batendo panelas nas áreas mais abastadas quando for para denunciar a morte de trabalhadores de sem terra ou a repressão à lideranças indígenas. 

Sem Terra são assassinados no Paraná

Até o momento existe a confirmação de dois mortos e aproximadamente seis feridos.

Da Página do MST 

sem terra

Na tarde dessa quinta-feira (7), duas equipes da Polícia Militar do Paraná, acompanhadas de seguranças da empresa Araupel atacaram o acampamento Dom Tomás Balduíno, na região de Quedas do Iguaçu, Centro do estado.

Até o momento existe a confirmação de dois mortos e aproximadamente seis feridos – o número exato ainda não foi confirmado -, pois a polícia militar está, nesse momento, impedindo a aproximação de integrantes do Movimento no local. 

Histórico

O acampamento, localizado em uma área pertencente a empresa Araupel, está organizado com 2500 famílias, cerca de sete mil pessoas.

Os Sem Terra do local sofrem com constantes ameaças por parte de seguranças e pistoleiros da empresa, ameaças essas que contam com a conivência do governo e da Secretária de Segurança Pública do Estado. 

Conflitos agrários no estado

Este cenário reflete parte do clima de tensão que nasce na luta pelo acesso à terra e contra a grilagem na região. O conflito tem relação com o surgimento de dois acampamentos do MST na região centro-sul do Paraná, construídos nas áreas em que funcionam as atividades da empresa Araupel, exportadora de pinus e eucalipto.

O primeiro acampamento, Herdeiros da Terra, está localizado no município de Rio Bonito do Iguaçu. A ocupação aconteceu em 1º de maio de 2014 e hoje abriga mais de mil famílias. Ali, elas possuem aproximadamente 1,5 mil hectares para a produção de alimentos.

O segundo acampamento, Dom Tomás Balduíno, cuja ocupação teve início em junho de 2014, possui 1500 famílias e fica na região de Quedas do Iguaçu. Ao contrário da outra ocupação, esta possui 12 alqueires de área aberta, sendo apenas 9 – cerca de 30 hectares – utilizados para o plantio.

Procurado, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) informou não poder se posicionar sobre o caso, já que trata-se de um acampamento, e não assentamento. Já a Ouvidoria Agrária Nacional informou que não tem informações sobre o caso, mas que está verificando o ocorrido.

FONTE: http://www.mst.org.br/2016/04/07/sem-terra-sao-assassinados-no-parana.html

Conflito agrário e vítima inesperada: prefeito-latifundiário morre dando rasantes com seu avião sobre acampamento de sem terra

Confira nota do MST sobre o acidente de avião do prefeito Genil Mata da Cruz

Após uma hora de rasantes sobre as famílias Sem Terra, avião em que Gentil estava caiu próximo ao acampamento, no município de Tumiritinga (MG)

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Da Página do MST

Ao longo da tarde desta terça-feira (14), dois aviões atacaram o acampamento montado por cerca de 200 famílias Sem Terra na Fazenda Casa Branca, no município de Tumiritinga (MG).

Segundo o relato dos Sem Terra, durante uma hora os aviões deram rasantes sobre o acampamento e soltaram rojões sobre as famílias acampadas. Um dos aviões acabou caindo numa área próxima ao acampamento. Ainda não se sabe os motivos reais da queda. Uma das pessoas que estava na aeronave era o prefeito do município Central de Minas, Genil Mata da Cruz, que também se dizia dono da propriedade.

Os trabalhadores rurais ocuparam a fazenda de 420 alqueires no último dia 5 de julho. A área, considerada improdutiva, pertencia à empresa Fíbria, mas foi adquirida por Genil Mata da Cruz.

No entanto, o suposto proprietário disse não possuir nenhum documento relativo à propriedade do imóvel, o que o impossibilita de solicitar a reintegração de posse. Segundo relatos dos Sem Terra, ao não poder despejar as famílias, Genil da Cruz disse que resolveria a situação à sua maneira.

Esta não é a primeira vez que as famílias acampadas na área sofrem ataques.

Na madruga da última sexta-feira (10), cerca de 12 pistoleiros em dois veículos invadiram o acampamento e soltaram fogos de artifício contra as barracas. Uma pessoa foi atingida e sofreu pequenas queimaduras no corpo.

Dois tratores blindados acompanhavam a ação. Durante a fuga, um dos tratores atolou e foi deixado para trás.

Nos dias anteriores, rondas noturnas já estavam sendo feitas na área. Diante das ameaças, os Sem Terra fizeram um boletim de ocorrência na delegacia local.

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Durante a fuga um dos tratores que acompanhava a ação atolou e foi deixado para trás
Quem é Genil Mata da Cruz?

Além de ser prefeito da cidade Central de Minas, Gentil Mata da Cruz é dono de uma das maiores redes de posto de combustível na região, a Rede Gentil.

Seu currículo, entretanto, é repleto de acusações. Em 2013, o prefeito foi acusado de tráfico de combustível. Em 2006, Gentil também foi suspeito de envolvimento com o tráfico internacional de pessoas. Na época, a Polícia Federal investigou a participação do empresário no financiamento de viagens a brasileiros para entrar ilegalmente nos Estados Unidos.

Em 2001, o prefeito foi denunciado criminalmente pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) por ter construído um posto de gasolina sem licença ou autorização do órgão ambiental competente, e desobedecer o Departamento de Estradas e Rodagem de Minas Gerais (DER).

Abaixo, segue a nota da direção estadual do MST

Na madrugada do dia 5 de julho de 2015, 300 famílias da região do Vale do Rio Doce ocuparam a fazenda Casa Branca, no município de Tumiritinga – MG, à 50 Km de Gov. Valadares, região leste do estado.

A Fazenda, com aproximadamente 1.500 hectares, pertence à empresa Fíbria Celulose. Após a ocupação compareceu a fazenda o Sr. Genil Mata da Cruz, prefeito de Central de Minas e proprietário da Rede de Posto de Combustíveis Gentil, alegando que está negociando a compra da fazenda junto a Fíbria e reivindicando a posse da área. Na ocasião, a Polícia Militar estava presente e orientou o Sr. Genil a reivindicar seu direito de posse junto à justiça.

No dia 9 de Julho, ao final da tarde, fomos informados de que o então suposto proprietário estava disposto a fazer, ele mesmo, o despejo das famílias, uma vez que ele não poderia recorrer à justiça pelo fato de não possuir nenhum documento da área. Nessa mesma tarde, caminhões foram à fazenda e retiraram duas famílias de funcionários que moravam na área. Na madrugada do dia 10, as famílias foram surpreendidas com cerca de 12 pistoleiros, dois veículos e dois tratores. Os pistoleiros efetuaram vários disparos de balas e foguetes sobre as famílias acampadas. Os tratores foram blindados, preparados para guerra.

As famílias conseguiram pedir socorro policial e os pistoleiros, ao perceberem a aproximação da polícia fugiram. Na fuga um trator caiu em uma vala.

No dia 11 último, representantes do governo do Estado de Minas, através da mesa de conflitos agrários, e o superintendente regional do INCRA-MG, preocupados com a situação de conflitos e tensão, estiveram na região e se reuniram com o suposto proprietário, com a Polícia Militar e com a Coordenação dos Trabalhadores Sem Terra. Foi o início de um importante diálogo, onde poderia culminar em uma negociação. Porém, na segunda-feira (13) recomeçaram os boatos de que o fazendeiro iria realizar o despejo.

Na tarde desta terça-feira (14), por volta das 16h, o fazendeiro começou a cumprir a promessa. Dois aviões começaram sobrevoar o acampamento efetuando disparos sobre as centenas de pessoas acampadas, entre elas mulheres, jovens, crianças e idosos. As famílias viveram momentos de terror. Em meios aos ataques um avião caiu e pegou fogo. A informação é que duas pessoas morreram carbonizadas.

Não sabemos as circunstâncias de tal acidente e nem quem são as vítimas. Isso cabe as autoridades investigar. O que nós do MST temos feito é nos colocar a disposição para o diálogo para fazer avançar a Reforma Agrária, mesmo que esta esteja praticamente paralisada. Essa disposição nunca nos faltará, mesmo com vários tipos de violência que temos sofrido, como o massacre de Felizburgo, Eldorado dos Carajás, entre outros.

14/07/2015
Direção estadual do MST-MG

FONTE: http://www.mst.org.br/2015/07/15/confira-nota-do-mst-sobre-o-acidente-de-aviao-do-prefeito-genil-mata-da-cruz.html

Ururau: acampamento de Sem Terra é desmontado pela justiça com apoio da PM

Justiça e Polícia Militar cumprem reintegração de posse na Sapucaia

Polícia Militar e Corpo de Bombeiros foram acionados para darem apoio à ação

Carlos Grevi, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros foram acionados para darem apoio à ação

A justiça cumpre desde as primeiras horas da manhã desta quinta-feira (24/07) uma ordem de reintegração de posse no acampamento Eraldo Lírio, no km 130 da BR-356 e no acampamento Manoel Barbosa, no km 134 da mesma rodovia. Os dois acampamentos estão situados em terras da Usina Sapucaia, que teriam sido arrendadas pela Cooperativa Agroindustrial do Rio de Janeiro (Coagro). A ordem foi expedida pela juíza da 3ª Vara Cível de Campos, Flávia Justus.

De acordo com o oficial de Justiça, César Manhães, os dois acampamentos são originários do Tabatinga, que fica próximo à sede da Usina. Mais tarde parte dos acampados se deslocaram e formaram o Eraldo Lírio que era muito extenso e ficava muito à margem da BR, por isso o acampamento foi dividido e cerca de 54 famílias formaram o acampamento Manoel Barbosa, no km 130, no Parque Aldeia.

Ainda segundo o oficial de justiça a área a ser integrada se estende por cerca de 800m².

A Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros Militar foram acionados para apoio à ação de reintegração.

FONTE: http://ururau.com.br/cidades47234_Justi%C3%A7a-e-Pol%C3%ADcia-Militar-cumprem-reintegra%C3%A7%C3%A3o-de-posse-na-Sapucaia

Marketing acadêmico: artigo publicado sobre a importância dos acampamentos na formação da identidade Sem Terra

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Em colaboração com o meu ex-orientando Diego Carvalhar Belo, hoje doutorando do Programa de Sociologia e Política da UENF, acabo de publicar o artigo “Acampamentos do MST e sua importância na formação da identidade do Sem Terra” que usa a experiência de acampamentos transformados em assentamentos de reforma agrária no Norte Fluminense para refletir sobre a experiência de ser acampado do MST no desenvolvimento de uma nova forma de consciência política.

O artigo foi publicado pela Revista NERA, criada em 1998, é uma publicação do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária (NERA), vinculado ao Departamento de Geografia da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Estadual Paulista (UNESP), Campus de Presidente Prudente.  Quem quiser acessar o artigo gratuitamente basta clicar Aqui!