Sérgio Sá Leitão Filho, o ministro que é a cara do governo Temer

Sa Leitao, the new Minister of Culture gestures during his inauguration ceremony, at the Planalto Palace, in Brasilia

Estou atualmente em Portugal para um período de pesquisas no Centro de Pesquisas em Ecologia, Evolução e Mudanças Ambientais da Universidade de Lisboa. Nessa condição fui hoje inquirido pela supervisora sobre como o dito ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão Filho, não ter sido imediatamente demitido após o incêndio que devorou mais de 90% do acervo do Museu Nacional. 

Esse tipo de pergunta está sendo feito por todos os cantos da Europa, na medida em que parece impensável por aqui que um ministro não seja demitido depois de um incidente tão grave como o que acometeu o Museu Nacional.

Mas ainda bem que não havia ainda lido a entrevista publicada pela rede inglesa BBC onde o ministro Sá Leitão Filho não só se exime das suas responsabilidades, como joga o problema para os anos de governo do PT e para a reitoria da UFRJ [1]. 

ministro

Não fosse Sá Leitão Filho um quadro egresso PT,  o qual ascendeu ao cargo muito em função trajetória que lhe foi construída nos anos dourados de Lula no Palácio Planalto, a coisa já seria feia. Mas o fato é que os dados apresentados pelo ainda ministro para defender sua gestão são tão frágeis que não resistem a um exame que seja minimamente crítico. Teria sido mais honesto e corajoso dizer que ele dirige um ministério de fachada e que nessa condição ele apenas cumpre a parte ritualística do cargo, não tendo capacidade real de resolver qualquer problema que seja.

Entretanto, honestidade e coragem não são definitivamente características fáceis de serem encontradas dentro do governo “de facto” de Michel Temer.  Aliás, muito pelo contrário. O que transparece na fala de cada componente desse governo ilegítimo é a capacidade para fazer troça com a desgraça estabelecida no Brasil.  Nesse sentido, Sérgio Sá Leitão Filho é mais do que ninguém a cara do governo Temer. Sem tirar, nem por.


[1] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45398965

Museu Nacional e o incêndio que é a cara do Brasil

museu

Estive incontáveis vezes no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista nos anos em que morei na cidade do Rio de Janeiro. Para mim aquele local sempre trazia descobertas incríveis em cada uma das visitas, e na minha memória estão fixadas imagens e aromas das coleções que viraram cinza na noite deste domingo (02/09) (ver vídeo abaixo).

A culpa por este incêndio é de tantas pessoas que não dá para apontar o dedo apenas para o atual ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão Filho, ainda que ele tenha o seu quinhão de responsabilidade. Aliás, pensando bem, a culpa por este incêndio que extermina coleções inteiras e transforma em cinzas um rico patrimônio histórico e cultural do povo brasileiro não é apenas de pessoas, mas também de instituições e empresas.

temer

Agora que tudo foi transformado em cinza, aparecerão políticos de diferentes matizes para nos oferecer um lamento cínico. Mas os deputados federais e senadores do Rio de Janeiro que votaram na chamada PEC dos gastos têm uma parcela não desprezível de culpa nessa catástrofe para a memória nacional. E o “ainda (des) governador” Luiz Fernando Pezão e seus (des) governo mambembe que torraram bilhões em isenções fiscais, mas que nunca se lembraram de, por exemplo, exigir contrapartidas das empresas beneficiadas com a farra feita com o dinheiro do povo do Rio de Janeiro para a conservação dos diversos museus existentes no território fluminense?

Mas não nos esqueçamos dos ultrarricos brasileiros que vivem pedindo “estado mínimo” enquanto acumulam fortunas imensas, mas que nunca se deram ao trabalho de oferecer doações para o Museu Nacional conduzir as reformas que estão bloqueadas pela asfixia financeira imposta à Universidade Federal do Rio de Janeiro por seguidos governos e suas agendas neoliberais.  A começar pelas “fundações” mantidas por banqueiros, que acumulam bilhões de reais em fortunas apenas para fazer projetos pontuais e insignificantes, os ultrarricos brasileiros adoram pisar e se deixarem fotografar em museus europeus, mas abominam a possibilidade de que os pobres do Rio de Janeiro possam ter a mesma possibilidade em sua própria cidade. 

A verdade é que o incêndio que acaba de destruir o Museu Nacional é ao mesmo um tempo uma síntese de tudo o que está acontecendo de errado neste momento no Brasil, mas também uma espécie de janela para o futuro que queremos.  Em função disso, não há como ficar calado diante da enormidade do crime que acaba de ser cometido contra a cultura e a ciência no Brasil (sim, porque o Museu Nacional também era um ponto focal para a pesquisa antropológica no nosso país). 

Diante do tamanho do desastre que foi criado, temos não apenas que protestar, mas também exigir recursos não apenas para reconstituir o prédio e as coleções do Museu Nacional mas, mais importante ainda,  para evitar que outros casos se repitam, já que outros museus federais correm o mesmo risco neste momento em todo o Brasil, a começar pelos que ainda estão em pé na cidade do Rio de Janeiro (por ex: Museu Histórico Nacional, o Museu da República, o Museu de Belas Artes, a Casa de Rui Barbosa, Museu de Ciências da Terra).

E antes que eu me esqueça: Fora Temer!