Estudo de Paulo Lindesay mostra como trilhões de reais são direcionados ao serviço da dívida pública enquanto investimentos em educação e outras políticas sociais permanecem subexecutados no Brasil
Há certas ideias que se repetem tanto no debate público brasileiro que acabam sendo aceitas como verdades incontestáveis. Uma delas é a de que o Estado brasileiro gasta demais com servidores públicos, educação e políticas sociais, razão pela qual não haveria recursos suficientes para garantir serviços públicos de qualidade ou reajustar salários corroídos pela inflação. O trabalho de Paulo Lindesay, diretor da ASSIBGE-SN e coordenador da Auditoria Cidadã da Dívida no Rio de Janeiro, oferece uma contestação vigorosa a essa narrativa e recoloca no centro da discussão uma questão frequentemente ocultada pelos grandes meios de comunicação: a prioridade absoluta conferida ao pagamento da dívida pública em detrimento das necessidades sociais da população brasileira.
A principal contribuição do estudo é demonstrar que a disputa fundamental não ocorre entre gasto social e responsabilidade fiscal, como frequentemente se pretende fazer crer, mas entre duas formas distintas de utilização do fundo público. De um lado estão os investimentos em educação, saúde, ciência, infraestrutura e remuneração dos servidores. De outro, há a crescente transferência de recursos para os detentores de títulos da dívida pública, alimentando um sistema de rentismo que se reproduz independentemente dos resultados econômicos ou sociais produzidos para a sociedade.
Os números apresentados por Lindesay são bastante eloquentes. Entre 2016 e abril de 2026, os juros nominais pagos pelo setor público consolidado alcançaram aproximadamente R$ 5,9 trilhões. Ao mesmo tempo, Lindesay demonstra que parcelas significativas dos recursos autorizados para a educação jamais chegaram a ser efetivamente executadas. Entre 2016 e maio de 2026, cerca de R$ 275 bilhões autorizados para a área educacional permaneceram sem execução orçamentária. Em outras palavras, o problema não é a falta de dinheiro, mas a forma como ele é distribuído e priorizado.
Essa constatação é particularmente relevante para quem acompanha a situação das universidades públicas brasileiras. No caso das universidades estaduais do Rio de Janeiro, por exemplo, os sucessivos governos têm recorrido sistematicamente ao argumento da escassez fiscal para justificar arrochos salariais, congelamentos de carreira e insuficiência de investimentos. Entretanto, se há recursos para assegurar a remuneração dos rentistas e dos grandes agentes financeiros, é legítimo perguntar por que não existem recursos para garantir condições dignas de funcionamento das instituições responsáveis pela produção de conhecimento, formação profissional e desenvolvimento científico.
Outro aspecto importante do texto é a crítica ao discurso segundo o qual o funcionalismo público seria responsável pelo desequilíbrio das contas governamentais. Lindesay demonstra que os gastos federais com pessoal permaneceram muito abaixo dos limites estabelecidos pela própria Lei de Responsabilidade Fiscal, desmontando um dos principais pilares ideológicos utilizados para justificar políticas de austeridade e reformas administrativas.
O que emerge do estudo é a constatação de que a dívida pública não pode ser analisada apenas como um instrumento financeiro. Ela se converteu em um poderoso mecanismo de orientação das prioridades do estado brasileiro. Quando a maioria do debate econômico se concentra em cortes de gastos sociais enquanto o serviço da dívida permanece praticamente intocável, estamos diante de uma escolha política e não de uma necessidade técnica inevitável.
A consequência desse modelo é visível em todos os níveis da federação. Escolas sem recursos adequados, universidades com orçamentos comprimidos, hospitais públicos enfrentando dificuldades operacionais e servidores com salários corroídos convivem com um sistema que assegura pagamentos bilionários ao setor financeiro. Esta dinâmica ajuda a explicar por que o Brasil continua figurando entre as maiores economias do mundo ao mesmo tempo em que convive com níveis persistentes de desigualdade social, precarização dos serviços públicos e déficits estruturais em áreas essenciais.
Ainda que se possa concordar ou não com todas as interpretações apresentadas por Paulo Lindesay (eu particularmente assino embaixo), seu trabalho presta um serviço fundamental ao trazer para o debate público uma questão frequentemente tratada como tabu. Afinal, qualquer discussão séria sobre educação, ciência, saúde ou desenvolvimento nacional precisa começar por uma pergunta elementar: quem se beneficia das prioridades inscritas no orçamento público brasileiro?
Enquanto essa questão permanecer fora do centro do debate, continuaremos assistindo à repetição de um roteiro conhecido: faltam recursos para professores, pesquisadores, técnicos administrativos e estudantes, mas não faltam recursos para alimentar a engrenagem do rentismo financeiro.










