A forte chance de que a ainda senadora Simone Tebet possa ocupar o cargo de ministra do Meio Ambiente do terceiro mandato do presidente Lula é uma indicação de que, se confirmada, haverá um giro ainda mais à direita do que muitos esperavam do novo governo federal. É que se Tebet for confirmada, isso sem nenhuma dúvida será um aceno para o latifúndio agro-exportador do qual ela é uma das expoentes políticos.
Ainda que a trajetória recente da outra candidata, Marina Silva, para ocupar o Meio Ambiente não seja exatamente de uma pessoa de esquerda, não há como negar que sua indicação representaria um sinal mais claro de que haveria um giro em relação ao que foi praticado nos últimos quatro anos. É queTebet seria uma espécie de garantidora dos interesses do latifúndio agro-exportador, o que Marina Silva não seria, apesar de todas as suas contradições recentes.
Mas o simples fato de que se está tentando colocar Simone Tebet em um cargo para o qual ela nunca mostrou qualquer inclinação já é um sinal claro de que a política de frente ampla (amplíssima eu acrescentaria) está indo além muito além do que se anunciou durante a campanha eleitoral.
Resta saber o que Marina Silva irá fazer, caso ela seja mesmo preterida em favor de Tebet. Mas é bem possível que ela encare isso como mais uma traição cometida contra quem prometeu um novo tipo de relação política.
E não nos enganemos, o destino desta cadeira ministerial vai nos dizer muito mais sobre o futuro governo do que a de outras que são tidas como mais importantes.
As senadoras pelo Mato Grosso do Sul, Simone Tebet e Soraya Thronicke, enfatizaram identidade feminista em debate eleitoral de presidenciáveis, mas esqueceram de dizer que na hora “H” se alinharam com as pautas do governo Bolsonaro no Senado Federal
O desempenho das senadoras pelo Mato Grosso do Sul, Simone Tebet (MDB) e Soraya Thronicke (União Brasil) no debate eleitoral de ontem (28/08) deixou muita gente na mídia corporativa animada em face do que está sendo apresentado, ao longo das linhas de um identitarismo de ocasião, como a atuação de duas mulheres corajosas em um ambiente essencialmente misógino e radical (o que é relativamente verdadeiro, pelo menos na parte da misoginia).
Mas ao se concentrar nas falas revestidas de um identitarismo feminista (o ápice disso foi a menção de Thronicke à personagem Juma Marruá do novela Pantanal quando do ataque realizado pelo presidente Jair Bolsonaro contra a jornalista Vera Magalhães), a mídia corporativa propositalmente deixou de lado o fato de que as duas senadoras têm votado consistentemente em propostas apresentadas pelo governo Bolsonaro, com Simone Tebet tendo votado consistentemente na pauta econômica do governo Bolsonaro(incluindo votos favoráveis à reforma da Previdência, à autonomia do Banco Central, ao Novo Marco Legal do Saneamento Básico e à Lei da Liberdade Econômica). Além disso, Tebet se alinhou à maioria do seu partido no golpe parlamentar que ocorreu em 2016 para tirar do poder outra mulher, a presidente Dilma Rousseff.
Por outro lado, Soraya Thronicke que se apresentou ontem como uma espécie de vertente racional da direita brasileira se tornou senadora em 2018 surfando na mesma onda que elegeu o presidente Jair Bolsonaro (ver imagem abaixo).
Como advogada Thronicke entrou no Senador Federal e ocupou logo o importante cargo de presidente da Comissão de Agricultura e Reforma Agrária (CRA) por onde parte da boiada do governo Bolsonaro passou com grande desenvoltura. Em um dos seus mais lamentáveis embates na CRA, uma fala de Soraya Thronicke foi frontalmente desmontada de forma lapidar pela líder indígena Sonia Guajajara que a caracterizou como racista, alienada e preconceituosa (ver vídeo abaixo).
Outro aspecto que coloca em xeque a fachada de identitarismo feminista abraçado de forma oportuna por Tebet e Thronicke teve a ver com a ênfase no combate à corrupção. É que, apesar de Simone Tebet ter tocado de passagem no envolvimento do seu partido, o MDB, em casos de corrupção, ela deixou de apontar que nos casos do “Mensalão” e do “Petrolão”, diversos correligionários dela estavam entre os principais operadores dos esquemas de corrupção. Ao enfatizar o problema no PT, Tebet teve que se valer de uma amnésia seletiva já que não poderia mesmo lembrar de políticos arrolados no Mensalão e no Petrolão que continuam como figuras de proa dentro do MDB. No caso de Thronicke que se elegeu pelo PSL e migrou para o União Brasil, a quantidade de figuras de proa implicadas em casos de corrupção tampouco é desprezível. Aliás, uma pergunta que deveria ter sido feita a elas se refere à possível participação de parlamentares do MDB e do União Brasil no recolhimento de verbas via o chamado “Orçamento Secreto” que cedo ou tarde vai render problemas sérios a quem está envolvido no mesmo.
A verdade é que o identitarismo feminino (até porque Thronicke rejeita as teses feministas) das duas senadoras do Mato Grosso do Sul foi uma fachada útil para que elas não tivessem que se explicar em termos do alinhamento que tiveram até aqui com a implementação das pautas do governo Bolsonaro no Senado Federal. Aos candidatos que foram pressionados pelas duas senadoras faltou a disposição de cobrar maiores explicações, provavelmente porque não possuem interesse em alienar possíveis aliadas em um eventual segundo turno. Já no caso da mídia corporativa, a quase absoluta falta de checagem dos votos das suas senadoras soa como um ato de poupar quem tem sido tão útil para a implementação de programas que interessam aos segmentos que controlam a distribuição da informação no Brasil.
É por essas questões que penso que é muito fácil para determinadas figuras abraçar identidades ocasionais para tentar vender o seu peixe, pois lhes é permitido fazer isso. Mas basta dar uma examinada nas suas práticas e voto enquanto senadoraspara a imagem se desfazer como a fumaça que corre no mesmo Pantanal da imaginária Juma Marruá citada por Thronicke no debate de ontem.