Sínodo da Amazônia: não é fácil passar pela selva

O Sínodo Amazônico no outono promete debates controversos: luta pelos direitos indígenas e contra uma economia exploradora, novas formas de organização interna da igreja, possivelmente padres casados.

DschungelwegOs bispos discutirão questões polêmicas no Sínodo da Amazônia, como o casamento de homens casados. Foto (trilha pela selva peruana): Circulação Adveniat / Tina Umlauf

É um “Sínodo Especial para a Amazônia”, diz Fabio Fabene, subsecretário do Sínodo dos Bispos, e não é de modo algum uma questão de impor uma “aparência amazônica” a toda a Igreja Católica. A Cúria quer diminuir as esperanças de uns e o temor de outros. Indiretamente, ele admite, no entanto, que a reunião do bispo de 6 a 27 de outubro pode ser mais explosiva do que a do Vaticano.

Proteção ambiental e dos povos indígenas

Com a publicação do documento de trabalho do Sínodo na segunda-feira, 17 de junho de 2019, o conteúdo das deliberações é relativamente claro. O original espanhol do chamado “Instrumentum laboris” tem o tamanho de um pequeno livro de bolso de 140 páginas e é dividido em três partes principais com os conceitos centrais da “voz da Amazônia”, “ecologia holística” e uma “igreja profética”. De acordo com o secretário-geral do Sínodo, cardeal Lorenzo Baldisseri, o documento tem como objetivo delinear as vidas de pessoas que são frequentemente vítimas de exploração e destruição ambiental, e de “desenvolver novas formas de promover a fé de forma mais eficaz”. Relacionada a isso está a questão de até que ponto a Igreja pode assimilar elementos ancestrais na pregação e adoração. Os bispos não podem evitar lidar com a superexploração na região rica em recursos, segundo a encíclica “Laudato si” (2015). Além de proteger os direitos dos povos indígenas, fenômenos sociais como migração, urbanização, mudança familiar e corrupção também estão na agenda.

Processo de consulta envolveu 78.000 pessoas

O presente documento de trabalho baseia-se em um processo de consulta mais longo. Por cerca de um ano, de acordo com Baldisseri em cooperação com a REPAM Rede do Panamá em 260 eventos no local, as questões e preocupações foram exploradas. Segundo o cardeal peruano e vice-presidente da REPAM, Pedro Barreto Jimeno, 87 mil pessoas participaram desse parecer. Expectativas de resultados concretos e declarações claras devem ser igualmente amplas. O documento de trabalho fala da necessidade de enfrentar o “problema do poder” como igreja. Os povos da região amazônica “não têm oportunidade de afirmar seus direitos em relação às grandes empresas e instituições políticas”. Este ponto também deve ser lido contra o pano de fundo que o presidente populista de direita do Brasil, Jair Bolsonaro, considerou a floresta amazônica principalmente como um recurso econômico e liberalizou a lei de armas. Veio antes de Bolsonaro entre 2002 e 2017 no Brasil segundo dados católicos 1.119 índios na defesa de seus direitos na vida. A Igreja, por outro lado, não pode ficar indiferente, diz o documento do sínodo.

Discussão sobre os ministérios eclesiásticos para casados ​​e mulheres

O anúncio fornece interesse que deve ser debatido no sínodo sobre os padres casados ​​e papéis de liderança para leigos católicos. A subsecretária Fabene enfatizou, por precaução, que o papa Francisco havia excluído a abolição geral do celibato obrigatório para os padres. “Ninguém quer questionar o celibato”, diz Fabene. No entanto, a falta de celebrações eucarísticas devido à falta de padres é percebida como um “estado de emergência”. O Sínodo está agora considerando a possibilidade de permitir que pais idosos e respeitados se consagrem em áreas remotas, a fim de garantir o cuidado sacramental. Neste “momento histórico” novos espaços para escritórios eclesiásticos se abrem, diz no jornal – também para mulheres. O diaconado não é mencionado, enfatiza Fabene.

Enquanto isso, observadores conservadores católicos temem que, com uma apreciação maior das culturas indígenas, talvez práticas questionáveis ​​ou até crenças alienígenas possam entrar na igreja. Para estes, em vez de expandir os ofícios eclesiásticos, é melhor rezar pelas vocações. Um jornalista também perguntou na apresentação do documento de trabalho se a Teologia da Libertação aumentaria novamente. De qualquer forma, o sínodo pode contar com juros.

Amazon Adveniat Latin America Synod Repam
A organização de ajuda à América Latina Adveniat faz parte da rede eclesiástica Repam especialmente para o futuro dos povos ameaçados e da criação na Amazônia. Mais informações e projetos sob este link

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pela Adveniat [Aqui!]

Governo Bolsonaro: depois da espionagem da Igreja Católica virá o quê?

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General Augusto Heleno que colocou agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para espionar os preparativos do Sínodo da Amazônia convocado pelo Papa Francisco.

A língua inglesa tem ótimas palavras para expressar situações e casos que a portuguesa precisa de mais palavra para explicar.  Uma dessas palavras do Inglês é “disbelief” que vem a ser a falta de habilidade ou recusa de aceitar que alguma coisa é verdadeira ou real. 

Pois bem, “disbelief” foi a sensação que se apossou de mim quando li a notícia dando conta que o governo Bolsonaro está espionando a Igreja Católica em função da realização do Sínodo da Amazônia que foi convocado pelo Papa Francisco em 2017, e que ocorre sob acontece sob o lema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.  

O Sínodo na forma que foi convocado pelo Papa Francisco deverá realizar discussões essenciais para o Brasil, a começar pela situação dos povos indigenas da Amazônia, as mudanças climáticas causadas pelo desmatamento e a condição dos quilombolas amazônicos.

Segundo relatou a experiente jornalista Tânia Monteiro do “ESTADÃO”, para o ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, essa é uma agenda que visa interferir em um assunto interno do Brasil, e que seria “preciso entrar fundo nisso”.

Afora a clara intenção de interferir num Sínodo convocado por um Papa, revelando um pendor para o autoritarismo, essa predisposição de neutralizar uma agenda que claramente está revestida de elementos positivos para os interesses estratégicos do Brasil mostra uma falta de entendimento da natureza da própria Igreja Católica. É que, apesar de ser uma instituição que permite nuances ideológicas, a Igreja Católica é provavelmente a instituição que possui uma hierarquia que tolera isso em nome da centralidade da autoridade papal, Em outras palavras, querer interferir na dinâmica política da Igreja Católica é equivalente a tentar parar uma avalanche no peito: pode ser até corajoso, mas completamente inútil e mortal.

Não sou grande entendedor dos caminhos políticos que a Igreja Católica trilha, mas o reconhecimento de que o governo Bolsonaro está espionando bispos no Brasil e pretende fazê-lo também fora de nossas fronteiras nacionais vai acabar trazendo consequências salgadas para sua sustentação política junto a uma fração nada desprezível da população brasileira que segue as orientações emanadas do Vaticano.  Assim vamos ver como se darão as próximas liturgias nas milhares de igrejas católicas que existem no Brasil, já que elas refletem o que pensa o Papa.

Mais incrível ainda é a informação de que o governo Bolsonaro pretende acionar o da Itália para  interceder junto à Santa Sé para evitar ataques diretos à política ambiental e social do governo brasileiro durante o Sínodo sobre Amazônia.Eu sei que com o atual ministro das Relações Exteriores tudo é possível em termos de ignorância em relação aos protocolos diplomáticos, mas esperar que o governo italiano entre nesse tipo de briga é, no mínimo, pouco sagaz.

bolsonaro italia

Mas é provável que o próximo a se sentir tomado pela condição de “disbelief” seja o General Augusto Heleno. É que o Papa Francisco não vem sendo conhecido por ser um pontífice acomodador em questões que ele julga essenciais para os caminhos da Igreja Católica deve trilhar.