Um dia depois, a fumaça continua e um silêncio sepulcral envolve os responsáveis por combatê-la

As imagens registradas nesta sexta-feira (24) mostram que as queimadas seguem consumindo áreas de Campos dos Goytacazes e mantêm uma espessa camada de fumaça sobre a cidade. A repetição do problema apenas um dia após a informação publicada neste blog revela a incapacidade — ou a falta de disposição — dos órgãos públicos para enfrentar uma situação que já ultrapassou os limites de uma questão ambiental e assumiu contornos evidentes de uma crise de saúde pública

Ontem publiquei neste espaço o texto Quando a fumaça domina o horizonte, o problema já deixou de ser apenas ambiental com o objetivo de chamar atenção para um fenômeno que se repete todos os anos, mas que em 2026 atingiu uma intensidade particularmente preocupante. As fotografias divulgadas naquele momento mostravam grandes colunas de fumaça cercando Campos dos Goytacazes e indicavam que a população estava submetida a uma deterioração significativa da qualidade do ar. A expectativa mais modesta seria que a ampla visibilidade do problema estimulasse uma resposta rápida dos órgãos encarregados da fiscalização e da proteção ambiental.

As imagens registradas nesta sexta-feira demonstram, entretanto, que praticamente nada mudou. Novos focos de queimadas continuam ativos em diferentes pontos do município, enquanto extensas massas de fumaça permanecem cobrindo o horizonte e reduzindo a visibilidade em diversos bairros. A população continua respirando material particulado e outros poluentes produzidos pela combustão da vegetação, situação que aumenta os riscos para crianças, idosos e pessoas acometidas por doenças respiratórias e cardiovasculares, ao mesmo tempo em que compromete a qualidade de vida de todos os moradores. 

A persistência desse cenário evidencia que o problema não decorre apenas das condições climáticas típicas do inverno no Norte Fluminense, caracterizadas por baixa umidade relativa do ar, vegetação ressecada e ventos que favorecem a propagação do fogo. Esses fatores são conhecidos há décadas e deveriam orientar ações preventivas permanentes por parte do poder público. Quando as queimadas continuam ocorrendo sucessivamente e a fumaça permanece encobrindo a cidade por vários dias,  é inevitável concluir que as medidas de prevenção, monitoramento e fiscalização têm sido insuficientes para impedir que a situação se agrave.

Também não faz sentido restringir essa responsabilidade a um único órgão. A proteção da população exige atuação coordenada da administração municipal, do Instituto Estadual do Ambiente (INEA), do IBAMA, do Corpo de Bombeiros e das demais instituições responsáveis pela fiscalização ambiental e pela repressão aos responsáveis pelas queimadas. Diante da gravidade do quadro, a população tem o direito de conhecer quais operações foram realizadas, quantos autos de infração foram lavrados, quantos responsáveis foram identificados e quais providências concretas estão sendo adotadas para interromper uma sequência de eventos que já não pode mais ser considerada excepcional.

As fotografias obtidas hoje reforçam ainda mais a gravidade da situação porque documentam uma realidade impossível de ocultar. A fumaça permanece visível a grandes distâncias, altera completamente a paisagem urbana e demonstra que a poluição atmosférica deixou de ser um problema localizado para atingir uma parcela expressiva do território municipal. Trata-se de uma evidência objetiva de que milhares de pessoas continuam expostas diariamente a um ambiente degradado, enquanto as respostas institucionais permanecem praticamente invisíveis.

Nesse contexto, é razoável esperar que o Ministério Público e a Defensoria Pública já estejam adotando as medidas cabíveis para apurar responsabilidades e exigir providências imediatas dos órgãos competentes. Os danos produzidos pelas queimadas ultrapassam claramente a esfera ambiental e atingem direitos difusos relacionados à saúde pública, ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e à qualidade de vida da população. As imagens produzidas ao longo de dois dias consecutivos constituem um registro eloquente dessa realidade e oferecem elementos suficientes para justificar a abertura de procedimentos destinados a identificar tanto os responsáveis pelos incêndios quanto eventuais omissões do poder público.

Infelizmente, a sucessão de fotografias produzidas ontem e hoje transmite uma mensagem que nenhuma cidade deveria aceitar com naturalidade. Enquanto a fumaça continua dominando o horizonte de Campos dos Goytacazes, cresce a percepção de que os órgãos responsáveis pela proteção ambiental e pela defesa da saúde coletiva permanecem incapazes de oferecer uma resposta compatível com a gravidade do problema. A população já fez sua parte ao denunciar aquilo que qualquer pessoa pode ver a olho nu; agora cabe às instituições demonstrar que ainda são capazes de cumprir a missão para a qual foram criadas.

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