Miguel Nicolelis debate destruição da soberania e da ciência no Brasil

nicolelis calé

Neurocientista mundialmente reconhecido, Miguel Nicolelis visita o Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, em São Paulo, na próxima terça-feira (25). Em debate, a destruição da soberania nacional e do futuro dos brasileiros. A atividade ocorre no auditório da entidade, situado na Rua Rego Freitas, 454, sala 83, próximo ao metrô República. Nicolelis contará com a companhia de Flávia Calé, presidenta da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG).

Professor titular da Duke University (EUA), Nicolelis foi considerado um dos 20 maiores cientistas em sua área pela revista Scientific American e pela revista Época. Também foi o primeiro cientista a receber dois prêmios dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH) no mesmo ano, além de ser o primeiro brasileiro a ter um artigo de capa na revista Science. Na Duke University, atua como pesquisador do Instituto Internacional de Neurociências Edmond & Lilly Safra (IIN-ELS). Nicolelis lidera o consagrado projeto Walk Again – “Andar de novo”.

Apesar do eixo “Ciência e Tecnologia”, o bate-papo com Nicolelis e Calé deve abranger não somente os ataques ao setor, mas também ao desmonte institucional, a destruição e o entreguismo praticados pelo governo Bolsonaro. A entrada é livre, bastando preencher o formulário através deste link: clique aqui.

Para quem não puder comparecer, haverá transmissão online na página do Barão de Itararé (clique aqui).

Com informações da assessoria de imprensa do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo [Aqui!].

A soberania e a crise na ciência: o começo do fim

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Por Isaac Roitman*

 

Estamos formando um exército de doutores para ficarem desempregados”, alerta Isaac Roitman, professor emérito da UnB, em artigo para o Correio Braziliense

Nelson Rodrigues introduziu a expressão complexo de vira-lata quando, na decisão da Copa do Mundo, fomos derrotados pelo Uruguai. Ele apontava que o complexo de inferioridade não se limitava ao campo futebolístico. A herança deixada pelo processo de colonização refletiu também no aspecto cultural, educacional e científico. A preocupação de explorar as riquezas da terra conquistada definiu as bases do que somos hoje: país exportador de suas riquezas naturais e com injustiças sociais.

A institucionalização da ciência no Brasil foi feita na década de 1950, com a criação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento do Ensino Superior (Capes). A partir da década de 1960, bem-sucedido sistema de pós-graduação foi implantado no Brasil. Atualmente, mais de 16 mil doutores são formados por ano.

A criação, em 1985, do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT), depois MCTI, foi também marco importante. Nos últimos 20 anos, a ciência brasileira se consolidou com secretarias de C&T nos estados e suas fundações de amparo à pesquisa. Nesse período, nossa produção científica tem crescido com taxas superiores à média mundial. Uma rede de institutos nacionais de ciência e tecnologia (INCT) foi criada e políticas de integração academia-empresa foram implantadas. Tudo apontava para um desenvolvimento científico como base da era do conhecimento. Ledo engano.

O primeiro sinal da crise da ciência brasileira foi a fusão do MCTI com o Ministério de Comunicação, no início de 2016, com um argumento não convincente de que o governo necessitava enxugar a máquina administrativa. Daí para frente, testemunhamos grandes cortes em bolsas e em projetos. Uma emenda constitucional limitou os gastos federais a aumentos no nível da inflação por 20 anos. Em março de 2017, o governo anunciou redução de 44% no orçamento federal de ciência.

O orçamento do MCTIC será o mais baixo em pelo menos 12 anos, com apenas R$ 2,8 bilhões. A redução de investimentos alcançou também as fundações estaduais de fomento à pesquisa. A Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj) apresenta calote de R$ 470 milhões, que está interrompendo as atividades de pesquisas, principalmente nas universidades estaduais do Rio de Janeiro. As universidades federais, entre elas a Universidade de Brasília, estão à beira do colapso. O CNPq anuncia a suspensão de bolsas de estudos. É o início do caos.

A fragilização do nosso sistema nacional de ciência e tecnologia terá implicações graves para o desenvolvimento social e econômico brasileiro. Estamos formando um exército de doutores para ficarem desempregados. Os investimentos na formação de recursos humanos, nas últimas décadas, serão desperdiçados. O desperdício da inteligência é atitude de burrice plena. Se o processo de desmonte não for interrompido, teremos um êxodo de cientistas brasileiros para países avançados, onde a ciência é valorizada.

A inserção do Brasil na era do conhecimento é questão de soberania. A reversão do presente quadro deve ser rápida, pois grupos de pesquisas que levaram anos para serem construídos serão desativados. É pertinente que nossos governantes lembrem o pensamento de Winston Churchill: “Construir pode ser a tarefa lenta e difícil de anos. Destruir pode ser o ato impulsivo de um único dia”.

A restauração do MCTI deve ser imediata. Os investimentos em ciência e tecnologia devem ser incrementados. A burocracia para a aquisição de insumos e equipamentos deve ser simplificada. Projetos de parceria com o setor privado devem ser estimulados para obtenção de novas patentes e produtos. As pesquisas que visam à solução de problemas demandados pela sociedade devem ser valorizadas.

O Brasil precisa, urgentemente, tratar a educação e a ciência e tecnologia com seriedade, pois são pilares fundamentais para nosso desenvolvimento como nação. Caso contrário, continuaremos à mercê de tecnologia externa, comprometendo a nossa soberania e o fracasso da nossa missão geracional de legarmos para as próximas gerações um país soberano sem injustiças sociais, onde todos poderão conquistar a felicidade.

*Isaac Roitman é professor emérito da Universidade de Brasília (UNB) onde atua como Coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro. O Professor Roitman também foi o diretor do Centro de Biociências e Biotecnologia da Universidade Estadual do Norte Fluminense entre 1995 e 1996.

Correio Braziliense – DF – 25/09/2017 – página A09

FONTE: http://jcnoticias.jornaldaciencia.org.br/22-a-soberania-e-a-crise-na-ciencia-o-comeco-do-fim/