Exploração de lítio amplia contaminação do solo e da água em Minas Gerais

Pesquisadores alertam para o risco de consumo excessivo de alumínio entre os moradores do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais

Mina de extração de lítio operada pela Sigma Lithium, próxima à comunidade Piauí Poço Dantas, em Itinga (MG). Rebeca Binda 

Por Enrico Di Gregorio para “Revista Pesquisa Fapesp”

Os municípios de Araçuaí, com 35 mil habitantes, e Itinga, com 15 mil, ambos no Vale do Jequitinhonha, nordeste de Minas Gerais, vivem a perspectiva de aumento de empregos e de renda, mas também de contaminação do solo e da água. Tanto o desenvolvimento econômico quanto os problemas ambientais estão associados à exploração do lítio, elemento químico estratégico para a produção de baterias e para a transição energética (ver Pesquisa FAPESP nº 285).

Em 2023, o governo de Minas Gerais lançou o programa Vale do Lítio, para promover a exploração do mineral. Até aquele ano, uma empresa privada nacional, a Companhia Brasileira de Lítio (CBL), era a única a operar na região. Depois, a mineradora canadense Sigma Lithium iniciou a produção. A também canadense Lithium Ionic, a norte-americana Atlas Lithium, a australiana Latin Resources e a chinesa BYD adquiriram áreas para pesquisa mineral na região.

No Brasil, o lítio é extraído principalmente do espodumênio, mineral encontrado em rochas chamadas pegmatitos. O problema é que a exploração química e mecânica das rochas e minerais para a retirada do lítio libera nanopartículas minerais com alumínio, elemento químico potencialmente tóxico que compõe o espodumênio.

“Os resíduos descartados contendo alumínio ficam empilhados em montes de rejeitos a céu aberto e, quando chove, são levados pela água superficial e se infiltram no solo”, conta o engenheiro-agrônomo Alexandre Sylvio Costa, da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Com seus colegas da universidade, ele percorreu a região e buscou formas de resolver o problema.

O grupo da UFVJM examinou as possibilidades de uso do silicato de alumínio, resíduo gerado após o espodumênio passar por um aquecimento a altas temperaturas, a chamada calcinação, e por uma solução com ácido sulfúrico, formando sulfato de lítio. Em parceria com a CBL, os pesquisadores desenvolveram um silicato de alumínio não reativo, que, por causa de suas propriedades iônicas, atrai partículas dispersas na água, em um processo chamado floculação, ajudando a purificá-la, como detalhado em um estudo publicado em outubro no International Journal of Geoscience, Engineering and Technology.

A mineração do lítio amplia a liberação de elementos químicos e, portanto, os riscos de contaminação ambiental”, reforça o geólogo Edson Mello, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele e o geólogo Cássio Silva, da Companhia de Recursos em Pesquisas Minerais (CRPM), coletaram amostras de solo, vegetais e água nos arredores das cidades de Araçuaí e Itinga em 2008 e 2009 e, em todas, identificaram teores de alumínio acima do recomendado.

Os resultados das amostras próximas à mina apresentaram valores de alumínio similares aos regionais. Em pouco mais da metade (60%) das amostras coletadas, a concentração média era de 30,7 miligramas (mg) de alumínio por quilograma (kg) no solo, quase o dobro dos 17,7 mg por kg de áreas sem exploração de lítio. Na água, a média é de 0,405 mg por litro (L), bem acima dos limites de 0,05 mg/L a 0,2 mg/L de água potável recomendados pelo Ministério da Saúde, como detalhado em um artigo publicado em agosto de 2025 na Journal of Geological Survey.

Pegmatito, rocha da qual é extraído o mineral que contém lítioLéo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

Silva estimou que cerca de 50 mil moradores da região estão expostos ao risco de contaminação por alumínio, cujo excesso prejudica o funcionamento dos ossos, músculos e do sistema nervoso central. Preocupado com a situação, ele enviou os resultados para as empresas e órgãos públicos de Minas Gerais. As prefeituras de Araçuaí e Itinga e a Sigma não responderam às reiteradas solicitações de entrevistas de Pesquisa FAPESP.

Outras áreas do Vale do Jequitinhonha também apresentam sinais de impacto social e ambiental. Em novembro de 2024, ao percorrer o Vale do Jequitinhonha, a socióloga brasileira Elaine Santos, do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), em Portugal, também deu razão aos protestos dos moradores, expressos em uma reportagem da Agência Brasil, de outubro de 2025. “Nas paredes das casas, vi rachaduras que os moradores diziam ser causadas pelas explosões das mineradoras”, afirma. “Eles relatavam que, o tempo todo, havia poeira e barulhos de máquinas.”

Na província de Yichun, na China, a maior produtora mundial de lítio, além da contaminação da água, a mineração aumentou a concentração de partículas com diâmetro de até 2,5 micrômetros na atmosfera para mais que o dobro dos níveis recomendados naquele país, concluíram pesquisadores do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG). As análises foram detalhadas em um artigo publicado em abril de 2025 na revista EixosTech.

Problemas semelhantes inquietam os habitantes no noroeste da Argentina. Nessa região, o problema é a retirada de grandes quantidades de água, reduzindo o fluxo dos aquíferos subterrâneos que abastecem os moradores, alertaram pesquisadores das universidades nacionais de Salta (UNSa) e de La Plata (UNLP) em um artigo publicado em fevereiro de 2025 na revista Heliyon. De acordo com esse trabalho, uma das minas, na província de Jujuy, consome cerca de 51 metros cúbicos (m³) de água por tonelada de carbonato de lítio. Esse volume corresponde a 30% da água doce do complexo de salinas conhecido como Salar de Olaroz-Cauchari, de onde se extrai o lítio.

O que fazer?
“Simplesmente parar de usar lítio não é uma opção”, antecipa Santos. A partir de 2011, a extração do mineral ganhou importância em todo o mundo ao ser amplamente usado em baterias que duram mais tempo e em fontes renováveis de energia. Para ela, não se deveria criar grandes empreendimentos sem investir em serviços de saúde e agentes de fiscalização: “É preciso desenvolver uma infraestrutura que possa suportar as consequências da mineração”.

Mello, da UFRJ, ressalta a necessidade de mais transparência, audiências públicas, estudos de impacto ambiental e acompanhamento da mineração. “Precisamos mostrar claramente os riscos ao ambiente e aos moradores, que raramente são ouvidos”, diz. “Os estudos geológicos prévios também precisam ser debatidos com as comunidades para que possamos ter uma mineração com o mínimo possível de impactos ambientais.”

As resoluções nº 001/1986 e nº 237/1997 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) definem a participação popular no licenciamento ambiental de atividades de mineração como princípio fundamental e instrumento jurídico obrigatório. O artigo da EixosTech, porém, observa que a escassez de fiscais e de recursos da Agência Nacional de Mineração (ANM) dificulta a implementação dessas leis.

Em setembro de 2025, o procurador Helder Magno da Silva, do Ministério Público Federal (MPF), recomendou formalmente à ANM a suspensão e revisão de todas as autorizações de pesquisa e extração de lítio no Vale do Jequitinhonha e solicitou “uma consulta prévia, livre, informada e de boa-fé” das populações locais antes de qualquer nova concessão para exploração de lítio.

Artigos científicos


ANDRADE, G. S. et alImpactos da mineração de lítio: Análise comparativa entre Vale do Jequitinhonha e YichunEixosTech. v. 12, n. 2. abr-jun. 2025.

HERON, T. et alValuation of lithium mining waste for water treatment: An experimental study and broader implications of residual aluminum silicate (Al2SiO5) as an artificial zeolite. International Journal of Geoscience, Engineering and Technology. v. 12, n. 1. 31 out. 2025.
PAZ, W. F. D. et alThe water footprint of lithium extraction technologies: Insights from environmental impact reports in Argentina’s salt flatsHeliyon. v. 11, n. 4. 28 fev. 2025.
SILVA, C. et al. Exposure of aluminum in the Araçuaí-Itinga Lithium Pegmatite District, Minas Gerais, Brazil: Contaminant and toxicological effects on populations established nearby mining activities. Journal of Geological Survey. v. 8, n. 2. 7 mar. 2025.


Fonte:  Revista Pesquisa Fapesp

A vida do microplástico: como os fragmentos se movem através de insetos, plantas, animais, e de você

The Microplastics Scourge | Hopkins Bloomberg Public Health Magazine
Por Phoebe Weston  & Tess McClure para o “The Guardian” 

Microplásticos foram encontrados em placentas de bebês em gestação, nas profundezas da Fossa das Marianas, no cume do Everest e nos órgãos de pinguins-da-antártida. Mas como eles viajam pelo mundo e o que fazem com as criaturas que os carregam? Aqui está a história de como o plástico contamina ecossistemas inteiros – e até mesmo os alimentos que comemos. Ilustrações de Claire Harrup

O começo: um único fio

Imagem sobreposta mostrando plásticos passando pelo cano de esgoto e acabando misturados ao fertilizante pulverizado no solo. Imagem sobreposta mostrando plásticos nos peixes, no pão e no leite que apareceram na ilustração anterior.

A história começa com um único fio de poliéster, desprendido da trama de um suéter de acrílico rosa barato enquanto ele gira em uma máquina de lavar. Essa lavagem descarta centenas de milhares de minúsculos fragmentos e fios de plástico – até 700.000 em um único ciclo de lavagem .

Junto com bilhões de outras fibras sintéticas microscópicas, nosso fio percorre os canos de esgoto doméstico. Muitas vezes, acaba como lodo de esgoto, sendo espalhado nos campos dos agricultores para ajudar no crescimento das plantações. O lodo é usado como fertilizante orgânico nos EUA e na Europa , transformando inadvertidamente o solo em um enorme reservatório global de microplásticos. Uma estação de tratamento de águas residuais no País de Gales descobriu que 1% do peso do lodo de esgoto era plástico.

A partir daí, ele sobe pela cadeia alimentar, passando por insetos, pássaros, mamíferos e até humanos. Talvez a vida do nosso suéter como peça de roupa acabe em breve, durando apenas algumas saídas antes de sair da lavagem encolhido e com bolinhas, para ser descartado. Mas a vida do nosso fio será longa. Ele pode ter sido parte de um suéter por apenas algumas semanas, mas pode viajar pelo mundo natural por séculos.

No mundo do solo e das minhocas

Imagem sobreposta mostrando plásticos no solo e na minhoca, no besouro e na borboleta

Espalhados pelos campos como água ou lodo, nossos minúsculos filamentos se entrelaçam na estrutura dos ecossistemas do solo. Uma minhoca que vive sob um campo de trigo cava seu caminho através do solo, confundindo o fio com um pedaço de folha ou raiz velha. A minhoca o consome, mas não consegue processá-lo como matéria orgânica comum.

A minhoca se junta a quase uma em cada três minhocas que contêm plástico, de acordo com um estudo publicado em abril , bem como a um quarto das lesmas e caracóis que ingerem plástico enquanto pastam no solo. Lagartas de borboletas pavão, azul-claro e almirante-vermelha também contêm plástico, talvez por se alimentarem de folhas contaminadas com ele, mostram pesquisas.

Com o plástico no intestino, a minhoca escavadora terá mais dificuldade para digerir nutrientes e provavelmente começará a perder peso . Os danos podem não ser visíveis, mas, para os insetos, a ingestão de plástico tem sido associada a crescimento atrofiado , fertilidade reduzida e problemas no fígado, rins e estômago. Mesmo algumas das menores formas de vida em nosso solo, como ácaros e nematoides – que ajudam a manter a fertilidade da terra – são afetadas negativamente pelo plástico .

A poluição plástica no ambiente marinho tem sido amplamente documentada, mas um relatório da ONU constatou que o solo contém mais poluição microplástica do que os oceanos. Isso importa não apenas para a saúde dos solos, mas também porque insetos rastejantes como besouros, lesmas e caracóis formam os blocos de construção das cadeias alimentares. Nosso verme agora está permitindo que essa fibra plástica se torne um viajante internacional.

Na cadeia alimentar, em mamíferos e aves

Imagem sobreposta de plásticos no pássaro, nas vacas, na minhoca e nas plantas Imagem sobreposta mostrando plásticos no peixe, no pão e no leite que foram apresentados na ilustração anterior.

Em um jardim suburbano, um ouriço fareja uma dúzia de invertebrados em uma noite, consumindo fibras plásticas dentro deles. Um deles é a nossa minhoca.

Um estudo que analisou as fezes de sete ouriços descobriu que quatro delas continham plástico, um dos quais continha 12 fibras de poliéster, algumas das quais eram rosa. Se ouriços não vivem em seu país, substitua-os por outro pequeno mamífero ou pássaro apressado: o mesmo estudo descobriu que camundongos, ratazanas e ratos também estavam comendo plástico, diretamente ou por meio de presas contaminadas.

Aves que se alimentam de insetos, como andorinhões , tordos e melros, também estão ingerindo plástico por meio de suas presas. Um estudo realizado no início deste ano descobriu pela primeira vez que as aves têm microplásticos nos pulmões porque também os inalam. “Os microplásticos estão agora onipresentes em todos os níveis da cadeia alimentar”, afirma a Professora Fiona Mathews, bióloga ambiental da Universidade de Sussex. A carne, o leite e o sangue de animais de fazenda também contêm microplásticos.

No topo da cadeia alimentar, os humanos consomem pelo menos 50.000 partículas de microplástico por ano . Elas estão presentes em nossos alimentos , na água e no ar que respiramos . Fragmentos de plástico foram encontrados no sangue , no sêmen , nos pulmões , no leite materno , na medula óssea , na placenta , nos testículos e no cérebro .

Lavando nos rios e soprando no vento

Imagem sobreposta mostrando plásticos no rio, no mar e nos peixes Imagem sobreposta mostrando plásticos nos peixes, no pão e no leite que apareceram na ilustração anterior.

Mesmo ao subir na cadeia alimentar animal, nossa fibra de poliéster não se decompõe. Em algum momento, o fio retorna à terra quando a criatura que consumiu seu hospedeiro morre, e uma nova aventura começa. O corpo se decompõe, mas a fibra de poliéster perdura. Uma vez no solo, ela é arada pelo agricultor antes da semeadura. Mas pode não permanecer lá por muito tempo – ventos fortes sopram o solo seco e degradado para o ar, levando consigo um fragmento rosado de plástico. Em chuvas fortes, a fibra pode ser arrastada para um rio que deságua no mar: uma das principais fontes de contaminação marinha é o escoamento da terra.

Esse processo de movimentação pelos sistemas naturais ao longo dos anos é chamado de “espiral plástica”. Cientistas descobriram que microplásticos equivalentes a 300 milhões de garrafas plásticas de água caíram no Grand Canyon, em Joshua Tree e em outros parques nacionais dos EUA. Até mesmo os lugares mais remotos estão contaminados. Um cientista encontrou 12.000 partículas de microplástico por litro em amostras de gelo marinho do Ártico, arrastadas pelas correntes oceânicas e trazidas pelo vento.

Infiltração em plantas, flores e plantações

Imagem sobreposta mostrando plásticos no trigo e no solo Imagem sobreposta mostrando plásticos no peixe, no pão e no leite que apareceram na ilustração anterior.

Com o passar do tempo, nosso fio de plástico ainda não apodreceu, mas se quebrou em fragmentos, deixando pequenos pedaços de si mesmo no ar, na água e no solo. Ao longo dos anos, ele pode se tornar tão pequeno que se infiltra na parede celular da raiz de uma planta enquanto suga nutrientes do solo. Nanoplásticos foram encontrados nas folhas e frutos de plantas e, uma vez dentro, podem afetar a capacidade da planta de fotossíntese, sugere a pesquisa . Aqui, dentro dos sistemas microscópicos da planta, os pedaços de nossa fibra rosa causam todos os tipos de estragos  bloqueando os canais de nutrientes e água, danificando as células e liberando substâncias químicas tóxicas . Alimentos básicos como trigo, arroz e alface demonstraram conter plástico, que é uma maneira pela qual eles entram na cadeia alimentar humana.

Oito bilhões de toneladas de plástico e contando

Imagem sobreposta mostrando plásticos no peixe, no pão e no leite que apareceram na ilustração anterior.

Desde suas origens humildes, nossa fibra pode ter viajado pelo mundo, desprendendo-se ao longo do caminho e penetrando em quase todas as camadas de diferentes ecossistemas e nos confins do mundo natural. Extraí-la depois de iniciada essa jornada é extremamente difícil. A melhor maneira de prevenir sua disseminação é detê-la desde o início – antes da minhoca, antes do solo, antes da máquina de lavar, até mesmo antes da fabricação do suéter.

Desde a década de 1950, a Humanidade produziu mais de 8,3 bilhões de toneladas de plástico – o equivalente ao peso de um bilhão de elefantes. Ele está presente em embalagens, tecidos, materiais agrícolas e bens de consumo. Optar por viver sem ele é quase impossível.

Empresas de fast fashion, gigantes de bebidas, redes de supermercados e grandes empresas agrícolas não se responsabilizaram pelos danos que isso causou, afirma Emily Thrift, pesquisadora de plástico no meio ambiente na Universidade de Sussex. Ela afirma que os consumidores individuais podem reduzir seu consumo, mas não devem sentir que isso é inteiramente sua responsabilidade. “Se você produz esse nível de desperdício, precisa haver alguma forma de penalização por isso”, afirma. “Eu realmente acredito que, até que haja políticas e maneiras de responsabilizar as grandes corporações, não vejo muita mudança nisso.”


Fonte: The Guardian

Bioplásticos podem ser tóxicos para organismos do solo, estudo pede mais testes

bioplástico

Por Douglas Main para o “The New Lede” 

Os bioplásticos, frequentemente considerados uma alternativa mais segura aos plásticos sintéticos, podem, em alguns casos, ser tóxicos para organismos do solo, uma descoberta preocupante que indica a necessidade de testes mais completos, de acordo com um novo estudo.

O trabalho se soma a um crescente conjunto de pesquisas que sugerem que os bioplásticos, que são derivados de materiais vegetais ou outras matérias-primas biológicas, não são necessariamente mais seguros do que os plásticos provenientes do petróleo.

O novo estudo, publicado este mês na Environmental Science and Technology, descobriu que dois tipos de fibras bioplásticas eram mais tóxicas para minhocas do que pedaços de poliéster convencional. Embora promovidos como “ecologicamente corretos”, os materiais alternativos podem, na verdade, ser mais prejudiciais em alguns aspectos do que o plástico convencional, determinou o estudo.

“Precisamos de testes mais abrangentes desses materiais antes que eles sejam usados ​​como alternativas aos plásticos”, disse a pesquisadora da Universidade de Bangor, Winnie Courtene-Jones , principal autora do estudo.

Fibras de base biológica como viscose e liocel são usadas em roupas, especialmente na fast fashion, mas também em lenços umedecidos e uma variedade de outros produtos. O estudo disse que mais de 320.000 toneladas métricas foram produzidas na indústria têxtil em 2022 e espera-se que isso continue a aumentar. Quando essas roupas são lavadas, elas podem liberar fibras em águas residuais. Milhares de toneladas de lodo de esgoto são adicionadas a terras agrícolas ao redor do mundo, o que pode transmitir diretamente essas fibras para o solo.

Os autores do estudo disseram que expuseram vermes a fibras de poliéster, assim como viscose e liocel, que são feitos de celulose e usados ​​em tecidos “naturais”. Eles descobriram que, após três dias, 30% do primeiro grupo morreu, enquanto o número de mortos foi de 60% para viscose e 80% para liocel.

Os efeitos de vários produtos sobre os vermes são importantes para estudar, já que esses animais vivem em grande parte do mundo revolvendo e arejando o solo, fornecendo serviços ecológicos vitais. Além disso, se os vermes forem afetados negativamente, o mesmo provavelmente será verdade para centenas de outras espécies negligenciadas que vivem no solo.

No estudo, os cientistas também analisaram os impactos de longo prazo de todas as três fibras para minhocas em concentrações provavelmente encontradas em solos onde tal lodo é aplicado. Eles descobriram que minhocas expostas aos materiais de base biológica tiveram fertilidade prejudicada em comparação a animais em contato com fibras de poliéster.

“Este estudo nos mostra que as fibras de origem biológica não são inerentemente melhores do que as fibras sintéticas”, disse Bethanie Carney Almroth , ecotoxicologista da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, que não estava envolvida no artigo.

Neste artigo, as fibras foram colocadas em solos no laboratório sem quaisquer aditivos, e os efeitos tóxicos parecem ter algo a ver com a natureza estrutural ou química dos próprios materiais, disse Courtene-Jones. Os bioplásticos também podem lixiviar aditivos tóxicos ou produtos de decomposição, assim como os plásticos convencionais.

Bioplásticos e os chamados plásticos biodegradáveis ​​não necessariamente se decompõem rapidamente, ou de forma alguma, em condições encontradas em solos ou no ambiente. Plásticos biodegradáveis ​​e “compostáveis” frequentemente precisam ser expostos a condições muito específicas, como calor alto, para se desintegrarem.

Ao tentar reduzir a poluição plástica e torná-los mais seguros, devemos ter cuidado para não substituir produtos à base de petróleo por produtos de origem biológica, que podem ser ainda piores, em alguns casos, disse Almroth.

Será particularmente importante ter isso em mente na última das cinco reuniões programadas para criar um tratado global para acabar com a poluição por plástico, um processo convocado pelas Nações Unidas, que ocorrerá no final deste mês na Coreia do Sul.

Imagem em destaque de Julian Zwegel via Unsplash.)


Fonte: The New Lede

Sementes tratadas com agrotóxicos prejudicam a saúde das minhocas, segundo estudo

minhocas

Por Shannon Kelleher para o “The New Lede”

Os agrotóxicos comumente usados ​​representam uma ameaça tóxica para as minhocas, criaturas consideradas cruciais para a saúde do solo usado para o cultivo, de acordo com um novo estudo publicado nesta quarta-feira.

O estudo baseia-se em evidências de que uma classe de inseticidas chamados neonicotinóides, ou neônicos, está prejudicando uma série de espécies importantes para a saúde planetária. Os neonicotinóides foram proibidos em muitos países, mas são populares entre os agricultores nos Estados Unidos.

Os autores do novo estudo afirmaram ter descoberto que quando as minhocas foram expostas a quatro tipos diferentes de neonicotinóides, bem como ao fungicida difenoconazol, sofreram danos no seu ADN mitocondrial e ganharam significativamente menos peso do que as minhocas não expostas aos produtos químicos. Os agrotóxicos foram especialmente prejudiciais quando os vermes foram expostos a uma combinação de neonicotinóide e um fungicida.

As descobertas foram publicadas na revista Environmental Science & Technology Letters.

“Precisamos reavaliar a toxicidade dos neonicotinóides e seus efeitos sinérgicos nesses organismos não-alvo quando aplicados ao solo simultaneamente”, disse Chensheng (Alex) Lu, professor da Southwest University em Chongqing. China e autor do estudo.

“A contribuição das minhocas para o rendimento das culturas é tão essencial como a polinização feita pelas abelhas”, acrescentou. “Um solo saudável simplesmente não é possível sem a presença de minhocas.”

Para compreender como os neonicotinóides e o difenoconazol afetam as minhocas, Lu e colegas expuseram grupos de minhocas jovens em um ambiente de laboratório a agrotóxicos de forma individual e combinados em concentrações equivalentes a resíduos de sementes tratadas com princípios ativos que encontrariam em um campo agrícola.

Após 30 dias, os cientistas pesaram as minhocas e avaliaram os danos ao seu DNA mitocondrial. Como o DNA não consegue se reparar tão bem quanto o DNA do núcleo de uma célula, ele forneceu uma imagem reveladora de como os  agrotóxicos afetaram as minhocas que entraram em contato com eles, afirmaram os pesquisadores.

As minhocas juvenis no solo tratado com um único agrotóxicos ganharam 30-80% menos peso em comparação com um grupo de controle no solo não tratado, enquanto as minhocas expostas tanto ao neonicotinóide como ao difenoconazol acabaram ainda mais magros no final do estudo. Os investigadores observaram consistentemente danos no ADN mitocondrial em vermes expostos a um único pesticida ou a combinações de pesticidas.

A maior limitação do estudo foi o facto de ter sido realizado num laboratório e não na natureza, reconheceu Lu, que disse que era necessário confinar os vermes em pequenas caixas para medir os efeitos tóxicos dos produtos químicos a que foram expostos.

As descobertas apoiam pesquisas anteriores que sugerem que a exposição aos neônicos pode danificar o DNA das minhocas e que as minhocas tendem a evitar solo contaminado por neonicotinóides , com consequências reprodutivas negativas. A exposição aos neonicotinóides também danifica o ADN mitocondrial nas abelhas, potencialmente ajudando a explicar um fenômeno chamado “distúrbio do colapso das colónias”, no qual as abelhas desaparecem das suas colmeias no inverno, de acordo com um estudo de 2020 . Os neonicotinóides também impactam negativamente o DNA mitocondrial humano, de acordo com um estudo publicado no outono passado .

Tanto o difenoconazol quanto os neonicotinóides atraíram um exame minucioso recentemente. Na sequência de uma ação judicial do Centro de Segurança Alimentar (CFS), a Agência de Protecção Ambiental dos EUA (EPA)  retirou em Julho passado a sua aprovação provisória do difenoconazol enquanto conclui avaliações adicionais do fungicida, que é pulverizado em muitas culturas de frutas e vegetais.

O CFS alegou que a decisão inicial da EPA não protegeu espécies ameaçadas, incluindo o condor da Califórnia e o grou.

Foi demonstrado que os neônicos prejudicam polinizadores, como as abelhas melíferas, bem como vários organismos responsáveis ​​pela saúde do solo , incluindo insetos, nematóides e bactérias benéficas. No ano passado, mais de 60 grupos sem fins lucrativos  submeteram uma petição  à EPA apelando à agência para reconsiderar a forma como regula estes agrotóxicos.

Em outubro,  a Califórnia se tornou o 11º estado  a  aprovar leis que restringem parcialmente o uso de neonicotinóides. Leis mais rígidas em Nevada, Nova Jersey e Maine proíbem totalmente o uso desta classe de agrotóxicos em ambientes externos.


compass black

Este texto escrito originalmente publicado pelo “The New Lede” [Aqui!].

A Terra está ficando sem solos, conclui estudo da ONU

De acordo com um relatório recente da ONU, 40% da área de terra foi danificada

solos secosCampo seco na Somália: Consequência da terceira seca severa em uma década. Foto: dpa/XinHua

Por Christoph Müller para o Neues Deutschland

A menor das três convenções do Rio apresentou seu relatório de status nesta quarta-feira. Estamos falando da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), que, como a Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas e a Convenção das Nações Unidas para a Proteção das Espécies, foi estabelecida em 1992 na Cúpula da Terra no Rio de Janeiro. A UNCCD foi assinada em Paris em 1994. O principal objetivo é combater a desertificação e mitigar os efeitos da seca nos países severamente afetados pela seca e/ou desertificação , particularmente em África , através de medidas eficazes a todos os níveis, de forma a contribuir para alcançar o desenvolvimento sustentável nas áreas afetadas. .

À semelhança das outras duas convenções, a UNCCD está em má situação na sua área temática. O novo relatório, intitulado “Global Land Outlook”, mostra que 70% da área terrestre da Terra já foi modificada por humanos e 40% da área terrestre foi degradada e, portanto, não é tão fértil quanto era originalmente. Metade da humanidade é agora afetada por este problema.

O principal culpado pelo mau estado do solo é a agricultura, diz o chefe da UNCCD, Ibrahim Thiaw. “Precisamos urgentemente repensar nossos sistemas alimentares globais, que são responsáveis ​​por 80% do desmatamento e 70% do consumo de água doce e são a maior causa de perda de biodiversidade em terra”. Se isso acontecesse, disse Thiaw, outros 12% do solo do mundo seriam degradados até 2050, uma área do tamanho da América do Sul. Além disso, até então outros 253 bilhões de toneladas de CO2 seriam emitidos pela perda de carbono do solo, desmatamento e drenagem de áreas úmidas. Isso corresponde às emissões atuais do mundo em cinco anos e meio.

O relatório descreve duas alternativas para esse cenário: Na primeira, a qualidade do solo é especificamente melhorada em uma área de 50 milhões de quilômetros quadrados. Isso corresponde a um bom terço da área terrestre do nosso planeta e é cinco vezes a área que os países querem reparar de acordo com seus planos anteriores. Isso é possível sem arar, árvores nos campos e pastagens, melhor gestão das pastagens e medidas para prevenir a erosão do solo. Isso melhoraria a fertilidade do solo em cinco a dez por cento na maioria dos países em desenvolvimento. Além disso, o solo e seu uso se tornariam um sumidouro líquido de CO2. Apesar de uma nova diminuição na cobertura florestal, mais 62 bilhões de toneladas de carbono são armazenadas no solo e na vegetação. No entanto, devido à expansão das terras agrícolas e das cidades, a biodiversidade ainda diminuiria.

Na segunda alternativa, mais quatro milhões de quilômetros quadrados são colocados sob proteção – áreas com biodiversidade particularmente alta e áreas de especial importância para a regulação da água ou outros “serviços ecossistêmicos”. No entanto, essa expansão das áreas protegidas na área da Índia e do Paquistão seria à custa da produção de alimentos. Nas terras agrícolas restantes, os rendimentos teriam, portanto, de ser aumentados em nove por cento, e os alimentos provavelmente se tornariam mais caros. Para o clima, por outro lado, seria uma grande vantagem, pois permitiria ligar o equivalente a 304 bilhões de toneladas de carbono adicional. Isso corresponde às emissões globais atuais de quase sete anos. No entanto, a biodiversidade ainda diminuiria, embora em um terço a menos do que com “mantenha-o”.

No entanto, as duas alternativas não são baratas. A restauração de apenas dez milhões de quilômetros quadrados custa cerca de 160 bilhões de dólares por ano. Uma estimativa para os custos de um aumento de cinco vezes nesta área não está disponível. Ainda assim, seria um dinheiro bem gasto: os autores estimam que, para cada dólar investido, haverá um benefício entre US$ 7 e US$ 30. Thiaw disse: “Investir na restauração de terras em grande escala é uma solução vantajosa para todos. É uma vitória para o meio ambiente, para o clima, para a economia e para a subsistência das comunidades locais.”


compass black

Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Árvores nativas protegem pastos da Amazônia contra a seca e aumentam nutrientes do solo

floresta pasto

Foto: Cecília Bastos/Imagens USP

bori conteudo

Em busca de alternativas para o controle do desmatamento sem prejuízos à produção agropecuária, pesquisadores da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e do Instituto Ouro Verde (IOV) demonstraram que o uso de espécies de árvores nativas em áreas de pastagem na Amazônia não só preserva a vegetação local como beneficia a atividade, protegendo contra a seca, aprimorando assim a renovação de nutrientes e aumentando a proteção do solo. Os resultados foram publicados na última sexta-feira (17) na revista “Acta Amazonica”.

Os pesquisadores coletaram amostras de solo e forragem – plantas utilizadas para proteção e fornecimento de palha para o plantio direto e alimento para o consumo animal – sob a copa e arredores de 25 árvores pertencentes a cinco espécies. O trabalho foi feito durante uma estação seca e outra chuvosa, em áreas de assentamentos rurais nos municípios de Nova Canaã do Norte e Nova Guarita, no nordeste do estado de Mato Grosso, parte da Bacia Amazônica.

“Essas paisagens são caracterizadas por grandes extensões de pasto intercaladas com soja e vegetação nativa, o que nos levou a compreender melhor as interações entre as espécies e a atividade agropecuária”, conta Alexandre de Azevedo Olival, professor e pesquisador da UNEMAT e coautor do estudo. De acordo com Olival, ter espécies de árvores nativas como aliadas nos pastos traz múltiplos benefícios, diante da importância do controle do desmatamento, uma das fontes de emissão de gases de efeito estufa para a atmosfera.

“Além do efeito positivo frente às mudanças climáticas, é preciso considerar que a demanda mundial por alimentos vem crescendo e ampliando o domínio da agricultura sobre as paisagens vegetais tropicais, que já possuem 50% de seu território tomados pela atividade”, alerta. As pastagens são a causa final do desmatamento de dois terços das terras nos neotrópicos, região que abrange a América Central, o sul da Flórida, nos Estados Unidos, todas as ilhas do Caribe e a América do Sul. “Nosso estudo demonstra que não precisa ser assim”, avalia. Ainda de acordo com o pesquisador, o trabalho será expandido a novas espécies, em diferentes territórios.

blue compass

Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Solos do mundo ‘sob grande pressão’, diz relatório da ONU

Os solos fornecem 95% de todos os alimentos, mas são danificados pela poluição industrial, agrícola, da mineração e urbana

glyphosate spray

O herbicida glifosato é pulverizado em um campo de milho no noroeste da França. Fotografia: Jean-François Monier / AFP / Getty

Por Damian Carrington, editor de Meio Ambiente do “The Guardian”

Os solos do mundo, que fornecem 95% dos alimentos da humanidade, estão “sob grande pressão”, de acordo com um relatório da ONU sobre a poluição dos solos.

soil seed

Os solos também são o maior estoque ativo de carbono, depois dos oceanos, e, portanto, cruciais no combate à crise climática. Mas o relatório disse que a poluição industrial, mineração, agricultura e gestão deficiente de resíduos estão envenenando os solos, com o princípio do “poluidor pagador” ausente em muitos países.

Os poluentes incluem metais, cianetos, DDT e outros agrotóxicos e produtos químicos orgânicos de longa duração, como PCBs, disse o relatório, tornando os alimentos e a água inseguros, reduzindo a produtividade dos campos e prejudicando a vida selvagem. No entanto, ele disse que a maioria das emissões de poluentes que acabam nos solos não são facilmente quantificadas e, portanto, o verdadeiro dano permanece altamente incerto.

A produção global de produtos químicos industriais a cada ano dobrou desde 2000 para 2,3 bilhões de toneladas, disse o relatório, e está projetada para quase dobrar novamente até 2030, o que significa que a poluição do solo deve aumentar ainda mais. A ONU também alerta sobre contaminantes emergentes, incluindo produtos farmacêuticos, antimicrobianos que levam a bactérias resistentes a medicamentos e plásticos.

“Os solos globais estão sob grande pressão”, disse Qu Dongyu, chefe da organização de alimentos e agricultura da ONU. “Esta fina crosta da superfície da Terra, o solo, sustenta toda a vida terrestre e está envolvida em muitos serviços ecossistêmicos essenciais para o meio ambiente e para a saúde e o bem-estar humanos.”

Inger Andersen, chefe do programa ambiental da ONU (Unep), disse: “A poluição do solo pode ser invisível aos olhos humanos, mas compromete os alimentos que comemos, a água que bebemos e o ar que respiramos. A poluição não conhece fronteiras – os contaminantes se movem pelo solo, pelo ar e pela água.

“É hora de nos reconectarmos com nossos solos, pois é aí que começa a nossa alimentação”, disse ela. “A poluição do solo não deveria mais ser uma realidade oculta. Vamos todos ser parte da solução para a poluição do solo. ”

O futuro dos solos parece “sombrio” e seu estado é pelo menos tão importante quanto a emergência climática e a destruição do mundo natural acima do solo, de acordo com os cientistas por trás de outro relatório da ONU sobre a biodiversidade do solo , publicado em dezembro. Desde a Revolução Industrial, cerca de 135 bilhões de toneladas de solo foram perdidas em terras agrícolas e, uma vez que leva milhares de anos para os solos se formarem, é necessária a proteção e restauração urgente dos solos restantes, disseram os cientistas.

O novo relatório da ONU conclui: “Os contaminantes do solo podem ter consequências irreparáveis ​​para a saúde humana e do ecossistema”. A maior fonte de poluição do solo varia por região, concluiu. O maior problema é a poluição industrial na Europa Ocidental e América do Norte, agricultura na Ásia, América Latina e Europa Oriental, e mineração na África Subsaariana. No norte da África e no próximo leste, a poluição urbana é a maior fonte de contaminação.

“A etapa fundamental para identificar o responsável pela poluição ainda está faltando em muitos estados”, disse o relatório. “Espera-se que a poluição do solo aumente, a menos que haja uma rápida mudança nos padrões de produção e consumo e um compromisso político em direção a uma gestão sustentável real onde a natureza seja totalmente respeitada.”

“É necessário um maior compromisso político, empresarial e social para buscar alternativas ao uso de contaminantes altamente tóxicos e para aumentar o investimento em pesquisa, prevenção e remediação”, disse o relatório, observando que limpezas após a poluição podem custar centenas de milhões de dólares . Os solos do mundo também estão sendo danificados por outros fatores, incluindo erosão, acidificação, contaminação por sal e compactação.

Um relatório de 2017 descobriu que um terço das terras do planeta está gravemente degradado e que o solo fértil estava sendo perdido a uma taxa de 24 bilhões de toneladas por ano. O secretário de meio ambiente do Reino Unido disse em 2017 que o país estava de 30 a 40 anos longe da “ erradicação fundamental da fertilidade do solo ” em alguns lugares.

fecho

Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Pesquisa paulista explica como a produtividade de cana varia no mesmo tipo de solo

Estudo do IAC mostram as interferências das condições climáticas no resultado toneladas por hectare

cana

São muitas as tecnologias que fazem do Brasil o maior produtor de cana-de-açúcar e de etanol do mundo, competência recentemente ressaltada no cenário em que a Índia anunciou o uso do etanol puro nos postos de combustíveis daquele país. Para alcançar os três dígitos de produtividade, o pacote tecnológico gerado pela pesquisa brasileira é complexo e cada fator determina índices para cima ou para baixo. Conhecer os diversos componentes que definem os números da produção é essencial para desperdiçar energia e recursos. No universo dos ambientes da canavicultura, destaca-se o fato de exatamente o mesmo tipo de solo se enquadrar em ambiente de produção diferente, desde que as condições climáticas sejam também diversas. Assim, lavouras instaladas em um mesmo tipo de solo, porém com condições de temperaturas e disponibilidade hídrica diversas, terão produtividades variadas. Pesquisas do Instituto Agronômico (IAC), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, mostram que é importante conhecer a produtividade do ambiente de produção para saber qual é o ponto de partida, isto é, o mínimo que é possível produzir em determinada localidade.

“Por exemplo: o Nitossolo eutrófico, textura argilosa, enquadra-se no ambiente A1, onde a produtividade média é de cinco cortes é de 100 toneladas por hectare, no manejo convencional e na colheita do meio de safra”, explica o pesquisador do Instituto Agronômico (IAC), Hélio do Prado.

Esse mesmo solo, em Goianésia, Goiás, onde ocorre seca durante cinco meses seguidos, o ambiente de produção muda para o chamado C1, com produtividade média de cinco cortes de 84 a 87 toneladas por hectare, também no manejo convencional e na colheita do meio de safra. “A maior deficiência hídrica em Goiás é responsável pela menor produtividade”, resume.

Outro exemplo que comprova esse fenômeno: o Latossolo com teor de argila relativamente baixo atinge cinco cortes de cana no estado de São Paulo. Porém, o mesmo solo na Paraíba atinge apenas dois cortes. “No terceiro corte nem compensa insistir porque nada produz”, garante o pesquisador da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA).
Segundo Prado, se o ambiente for restritivo, a produtividade é tão baixa que, para alcançar produtividade a partir de 100 toneladas, por hectare, será preciso muito investimento. “No entanto, se o ambiente de partida for favorável, com pouco recurso já é possível atingir os três dígitos”, diz.

No estado de São Paulo existem locais com clima muito diferentes. Considerando as regiões paulistas canavieiras de Assis e Ribeirão Preto, na primeira a distribuição da chuva é bem melhor do que na segunda. Nessas condições, são diferentes as interações entre solo e clima.

“A região de Piracicaba possui área representativa com solo originado da rocha folhelho, muito pobre em cálcio, elemento que estimula o crescimento radicular. Além disso, esse solo é naturalmente muito duro, o que dificulta a exploração radicular em profundidade”, explica.

Por esse motivo, os ambientes de produção paulistas mais restritivos estão em Piracicaba, exceto nos locais geograficamente direcionados para Campinas e para Rio Claro, que correspondem a 25% da região, no máximo.

O pesquisador relata que em suas pesquisas já encontrou o solo mais rico do mundo, chamado Vertissolo, em Juazeiro, na Bahia. Lá, a cana-de-açúcar com manejo de irrigação por gotejamento atinge quase 200 toneladas, por hectare. “Na nova edição do meu livro Pedologiafacil – Aplicações em Solos Tropicais mostrarei as produtividades de 17 cortes, normalmente o que existem são cinco a dez cortes, no máximo”, diz. A nova edição estará disponível em julho de 2021, nas versões online e impressa.

Em Goiás, na usina Jalles Machado, onde o solo é tipo Latossolo acrico, tem-se produtividade média de cinco cortes de 68 a 71 toneladas, por hectare, na colheita de meio de safra. Este mesmo solo, na usina Santa Juliana, em Minas Gerais, tem produtividade média de cinco cortes de 84 a 87 toneladas, por hectare, também com colheita no meio de safra.
Prado explica que isso ocorre porque na Jalles Machado a altitude é de 780m, já na Santa Juliana é de 1.100m. De novo é o clima mudando um ambiente de produção. “Em Goianésia, na usina Jalles Machado esse solo enquadra-se no ambiente E2, mas na Santa Juliana enquadra-se no ambiente C1, ambas no manejo convencional, com colheita no meio de safra”, complementa.

O pesquisador classificou os ambientes por letras: G2, G1, F2, F1, E2, E1, D2, D1, C2, C1, B2, B1, A2, A1, A+1, A+2, A+4 , A+5. São muito favoráveis os ambientes A+1, A+2, A+3, A+4, A+5; favoráveis A1, A2, B1, B2; médios C1, C2, D1; desfavoráveis D2, E1, E2, muito desfavoráveis os ambientes F1, F2, G1 e G2.

No G2 a produtividade média é inferior a 52 toneladas, por hectare, no A+4 é próxima de 200 toneladas, por hectare. “Um solo muito rico pode ser ambiente G2, isto é, muito desfavorável, se a deficiência hídrica for extrema, tal como em Juazeiro, na Bahia, onde não chove durante oito meses do ano”, explica.

No México, Peru e Guatemala existem locais com deficiência hídrica muito grande. Essa condição torna seus ambientes muito mais restritivos, de acordo com Prado, que palestrou sobre Produção de cana-de-açúcar no Brasil e países da América Latina e Central, 2° Fórum Latino-Americano do Agronegócio, evento online e gratuito, em 25 de março de 2021.

Variedades exigentes devem ser alocadas nos melhores ambientes. As menos exigentes, nos ambientes mais restritivos

O Programa Cana IAC estabeleceu ao longo dos últimos 20 anos uma grande rede experimental, apoiado principalmente por empresas do setor sucroenergético da região Centro-Sul: São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Paraná, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Essa ação permitiu identificar variedades IAC com excelente adaptação e performance em outros estados. É o caso da IAC91-1099, muito adaptada a Goiás e a outros estados do Centro-Oeste brasileiro. Destaca-se também a IACSP95-5094 com grandes performances no Paraná, Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. “Nesta network estamos tendo oportunidade de identificar variedades de excepcional desempenho para nichos específicos”, resume o líder do Programa Cana IAC, Marcos Guimarães de Andrade Landell.

Assim acontece com as variedades que estão em processo de lançamento: a IACCTC05-9561, muito adaptada a Goiás, e a IACSP04-6007, desenvolvida inicialmente na região de Assis e que se encontra em franca expansão nos estados do Paraná e Mato Grosso do Sul.

“O desenvolvimento de micro redes regionais, em nichos extremos, como é o caso do “site” de seleção que temos há 20 anos no norte de Goiás, em Goianésia, nos permitiu, identificar genótipos de acentuada tolerância à seca, como a IACCTC07-8008″, explica Landell. As informações geradas nessa localidade possibilitam prever quais as variedades apresentam maior tolerância ao estresse hídrico. Dessa forma é possível indicá-las para outras regiões do Brasil. “O uso dessas variedades poderia contribuir para a sustentabilidade econômica e ambiental da atividade”, afirma.

Como funciona a metodologia IAC em relação aos ambientes de produção
Segundo o pesquisador do IAC, Hélio do Prado, o ponto de partida de produção da cana-de-açúcar é o ambiente de produção nas condições naturais da interação solo e clima, considerando o manejo convencional. O ponto de chegada é ter manejo avançado, com adoção das tecnologias geradas pelo Instituto Agronômico, como Terceiro Eixo, irrigação, efeitos da vinhaça e da torta, adubação foliar, além de resíduos nutricionais deixados pela cultura anterior, que pode ser soja ou frutíferas.

O cientista desenvolveu a metodologia para classificar os ambientes de produção de cana-de-açúcar atribuindo-lhes letras, que os classificam conforme a condição favorável ou desfavorável de produção. Até 2006, o método contava com cinco letras: A, B, C, D e E, em que era feito o enquadramento de cinco tipos de solos em cinco ambientes. “Notei que precisava aumentar a quantidade de letras porque uma grande usina possui 20 a 30 tipos de solos, ficando impossível enquadrá-los em só cinco letras”, comenta.

Assim surgiu a classificação A1, A2, B1, B2, C1, C2, D1, D2, E1, E2, F1, F2, G1 e G2, que reúnem os possíveis ambientes no manejo convencional. Para atingir ambientes A+1, A+2, A+3, A+4, A+5 é preciso fazer algumas combinações de manejos avançados e saber qual é o ambiente no ponto de partida, ou seja, nas condições de manejo convencional no clima local.

Em resumo: no manejo convencional é possível atingir baixas produtividades, podendo ser desde G2, se for solo pedregoso, e também alcançar altas produtividades, chegando ao topo ao atingir A1, no melhor solo, na região mais chuvosa, como no Paraná.

O pesquisador relata exemplos de ambientes que se deslocaram do ponto de partida, no manejo convencional, para ambientes mais favoráveis no manejo avançado, como ocorreu em Taquaritinga, interior paulista, com Argissolo eutrófico, que representa o ambiente A1. “Porém, esta mesma região deslocou-se para o ambiente A+2 pelos benefícios proporcionados pela tecnologia do Terceiro Eixo e pela adubação foliar”, comenta.

Na usina Agrovale, em Juazeiro, na Bahia, com Vertissolo no ambiente G2, no manejo convencional, houve mudança para o ambiente A+1 pelo efeito da irrigação por gotejamento, mais vinhaça e compostagem. A Agrovale é a única no mundo que irriga 17 mil hectares ao mesmo tempo, segundo Prado. Os dados sobre as produtividades obtidas nessa área estarão na nova edição do livro de autoria do pesquisador do IAC.

Na região Centro-Sul a produtividade aumenta, pois chove mais e os solos são melhores. “O melhor solo no manejo convencional, na região do Paraná atinge o ambiente A1, o recordista sem o citado manejo avançado”, diz o pesquisador. As produtividades mencionadas referem-se às obtidas na colheita no meio de safra, no manejo convencional.

A nova classificação de ambientes de produção tornou possível usar a mesma referência para todo Brasil. “Desde a região Nordeste, onde a produtividade histórica, na média de cinco cortes, é de 60 toneladas, por hectare, no citado manejo convencional, ambiente F1, até o ambiente A1, com produtividade média de 5 cortes, no melhor solo do Paraná”, complementa. Esses dados foram reunidos em uma única régua, em que é possível consultar todas essas informações.

Anglo American sofre processo na Zâmbia por causa do envenenamento em massa de crianças

Processo afirma que a mineradora Anglo Americana  falhou em evitar a poluição em Kabwe, afetando várias gerações

escoriaMais de 6 milhões de toneladas métricas de escória de chumbo formam a Black Mountain, uma pilha de resíduos tóxicos de chumbo. Fotografia: Larry C Price

Por Damian Carrington Editor de Meio Ambiente do “The Guardian”

Uma ação coletiva foi movida contra a empresa de mineração Anglo American por sua alegada falha em prevenir a poluição generalizada de chumbo na cidade zambiana de Kabwe. A cidade abrigou uma das maiores minas de chumbo do mundo por muitas décadas e os cientistas relataram níveis “alarmantes” de chumbo no sangue das pessoas.

“O desastre de saúde pública ambiental deixado pelo Anglo American significa que há mais de 100.000 crianças e mulheres em idade reprodutiva em Kabwe que provavelmente sofreram envenenamento por chumbo como resultado da poluição causada pelo Anglo”, de acordo com os documentos legais arquivados .

Os advogados argumentam que a subsidiária sul-africana da Anglo American é responsável, uma vez que foi responsável pela mina de 1925 a 1974 e que foi quando a maior parte da poluição foi causada. A Anglo American tinha “o dever de zelar pela proteção das gerações existentes e futuras de residentes de Kabwe”, de acordo com os documentos legais.

chumboOs níveis de chumbo em Kabwe são até 100 vezes os níveis de segurança recomendados. Fotografia: Larry C Price for the Guardian

ecido por ser altamente tóxico e “ nenhum nível de exposição ao chumbo é conhecido por não ter efeitos os nocivos” à saúde humana, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Um estudo científico com 1.190 pessoas em Kabwe publicado em 2019 chamou os níveis de exposição lá de “alarmantes”. Ele concluiu: “Este é o primeiro estudo que revelou a verdadeira extensão da exposição ao chumbo em toda a cidade de Kabwe, que representa um sério risco público e deve receber atenção urgente.”

“O envenenamento por chumbo na infância tem efeitos devastadores no desenvolvimento neurológico e causa sinais clínicos evidentes, incluindo convulsões e coma”, disseram os cientistas. Eles descobriram que os níveis médios de chumbo no sangue estavam acima dos classificados como altos pelas autoridades americanas em todos, exceto em um dos 13 distritos da cidade. No distrito mais afetado, o nível médio foi nove vezes acima do limite dos EUA.

A poluição por chumbo está no solo e na poeira em que as crianças brincam, e as crianças de dois anos apresentam os níveis sanguíneos mais elevados. Algumas crianças pequenas apresentam níveis mais de 20 vezes maiores do que o limite dos EUA, o que pode causar danos cerebrais graves ou morte, de acordo com a OMS.

O caso foi apresentado por 13  pessoas, e  algumas são crianças com níveis muito elevados de chumbo no sangue e outras são mulheres, pois a poluição por chumbo apresenta grandes riscos para os fetos durante a gravidez.

A ação coletiva alega que a Anglo America é responsável por emissões substanciais de chumbo no meio ambiente local devido a deficiências na operação da mina e por não garantir a limpeza de terras contaminadas. A mina foi transferida para uma empresa estatal zambiana em 1974 e fechada em 1994.

política de direitos humanos da Anglo American declara : “Onde tivermos causado ou contribuído para impactos adversos sobre os direitos humanos, contribuíremos para sua reparação, conforme apropriado.”

Richard Meeran, da Leigh Day, um escritório de advocacia com sede no Reino Unido que atua em nome dos demandantes, disse que operar uma grande mina perto das comunidades era um risco claro: “Infelizmente, parece que o Anglo não conseguiu garantir que medidas suficientes estivessem em vigor.”

Zanele Mbuyisa, do escritório de advocacia Mbuyisa Moleele em Joanesburgo, que também está representando os demandantes, disse que um estudo dos anos 1970 mostrou níveis elevados de chumbo no sangue: “O mesmo envenenamento por chumbo que estava acontecendo naquela época continua acontecendo agora.”

Outro estudo científico, publicado em 2018 , concluiu que a cidade de Kabwe “pertence aos distritos mais contaminados de África” e que “o desenvolvimento de um programa de cuidados de saúde… é de extrema importância”. A ação legal visa a disponibilização de um programa de triagem, tratamento, limpeza da poluição e indenização aos envenenados.

“[A Anglo American] precisa fazer algo a respeito porque eles destruíram nossos corpos e as vidas de nossos filhos, bem como seus cérebros”, disse o pai de uma das crianças anônimas demandantes, em um vídeo gravado pelos escritórios de advocacia .

Os escritórios de advocacia apresentaram evidências de especialistas de toxicologistas clínicos e especialistas em mineração e meio ambiente. O caso está sendo financiado pela Augusta Ventures, o maior fundo de litígios do Reino Unido.

“A Anglo American relata que um processo legal foi aberto na África do Sul em relação ao suposto envenenamento por chumbo na Zâmbia”, disse um porta-voz da empresa. “Nenhuma reclamação desse tipo foi apresentada à Anglo American. Assim que a reclamação for recebida, a empresa analisará as reclamações feitas pela empresa e tomará todas as medidas necessárias para defender vigorosamente sua posição. ” Leigh Day disse que a empresa foi atendida.

“A título de contexto, a Anglo American foi um dos vários investidores na empresa que possuía a mina Kabwe até o início dos anos 1970”, disse o porta-voz. “A Anglo American esteve, no entanto, em todos os momentos, longe de ser a proprietária majoritária.”

O Guardian esteve em Kabwe em 2017 e encontrou pessoas coletando sucata de chumbo em pilhas de lixo gigantes, onde os níveis de chumbo no solo são extremamente altos. Uma jovem, Debola Kunda, estava sendo ajudada por seu filho de quatro anos. Ela estava preocupada com a saúde dos filhos, mas disse: “Como vamos comer se ficarmos em casa?

fecho

Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo “The Guardian” [Aqui!].

Larissa Bombardi e a comparação do uso de agrotóxicos entre Brasil e a União Europeia

larissa bombardi

Série de entrevistas com a professora Larissa Mies Bombardi esclarece a grave situação dos agrotóxicos no Brasil.

A professora da Universidade de São Paulo (USP) Larissa Mies Bombardi é hoje uma das principais experts na questão do uso de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do planeta, na agricultura brasileira. É dela a obra “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia” que compara a situação comparada entre o uso de agrotóxicos do Brasil e na União Europeia.

Abaixo posto o primeiro vídeo de uma série produzida pelo jornalista Bob Fernandes com a professora Larissa Bombardi sobre a crítica situação que está ocorrendo no Brasil em função do vício da agricultura brasileira, principalmente naquelas propriedades destinadas às monoculturas de exportação, por compostos altamente tóxicos.

Não nos enganemos, como bem diz a professora Larissa Miers Bombardi a situação causada pelos agrotóxicos no Brasil é gravíssima. E é preciso tratar a situação pelo que ela é em função dos graves danos ambientais e sociais que a dependência da agricultura brasileira em relação a essas substâncias altamente perigosas que hoje contaminam águas, solos e os alimentos que os brasileiros e as populações dos parceiros comerciais do Brasil consomem.