Deus, o diabo e o sorvete

sorvere

Por Guilherme Pedlowski

Há alguns dias que minha tia (irmã de minha mãe) havia começado com essa ideia estúpida de salvar a minha alma. “É uma legião” dizia ela, afirmando que eu estava encapetado. “Por isso essa criança vê e ouve coisas” ela justificava o argumento. Meus pais não demonstraram o mínimo interesse em me levar para a Igreja Universal do Reino de Deus assim como minha tia recomendara, e então ela, a funcionária do mês de Deus, sentiu que era sua missão me levar até lá, mesmo que fosse à força. Tentou me persuadir de diversas maneiras, mas nada adiantou. Até o dia em que, numa estratégia sagaz, falou-me sobre a tal festa do sorvete. Uma festa, que segundo ela acontecia todos os meses na igreja e que era destinada especialmente às crianças. Sorvetes à vontade, e todos os sabores incluindo melancia ela me prometeu. Tudo o que eu tinha a fazer era ir lá com ela. E é claro que eu fui, poxa vida, sorvete de melancia? Vejam só, não deu para resistir.

E lá estávamos nós na igreja. Eu buscando sorvetes, e minha tia buscando sabe-se lá o quê. Um dos homens de terno preto, que ficavam parados nas portas de entrada nos recebeu, e após isto, descemos por uma rampa que cortava longas fileiras de bancos e fomos nos sentar lá em baixo, bem próximos do altar. Um murmurinho de risadas e conversas ia crescendo no templo gigantesco em que eu me encontrava à medida em que as pessoas iam chegando e se acomodando nos lugares que escolhiam. O pastor subiu no altar e todos fizeram silêncio. A pregação havia começado. Eu não compreendia muito bem as coisas que o pastor dizia, de modo que não tardou para que eu ficasse entediado. Cutuquei minha tia e cochichei:

– Onde estão os sorvetes ?

– Silêncio menino, é depois do culto – Ela cochichou de volta.

– E quanto tempo leva?

– Duas horas.

Me arrependi de ter aceitado o convite na mesma hora. Tentava matar o tempo, de várias formas, mas ele simplesmente estava passando mais devagar. Notei que o homem sentado a meu lado, parecia mais impaciente do que eu. Passava a mão nos cabelos, resmungava e se virava no banco constantemente. Ele estava passando mal. Mesmo a criança que era eu, foi capaz de perceber. Cutuquei minha tia pela segunda vez, um pouco encabulado, com medo de represálias:

Tia, o homem tá passando mal. – Falei.
-Cala a boca menino, e presta atenção – Ela falou, de olhos vidrados, na direção do altar.
-Mas tia, o homem tá passando…

E então o terror começou pra valer. O homem se jogou no chão gritando, gargalhando. Debatia-se violentamente. Eu que neste ponto de minha vida já havia assistido ao exorcista na TV, compreendi a merda toda. “Pronto, só falta ele ficar com a cara verde e fazer giralelê com a cabeça”, pensei. A cena ficava cada vez mais assustadora. O homem gritando com voz gutural, os homens de terno ao redor dele, gritando tanto quanto. Eu estava apavorado e não quis esperar para ver o desfecho da história. Saí correndo, subindo a rampa que levava para a saída. O capeta também quis fugir, escapou dos homens de preto e para meu desespero, veio correndo utilizando justamente o mesmo caminho que eu. Gritei, e corri mais ainda. A situação era mais ou menos essa: Eu gritando, fugindo com medo do capeta, o capeta gritando fugindo com medo do pastor. O pastor gritando correndo atrás do capeta, e minha tia logo atrás, gritando e correndo atrás de mim. Uma puta bagunça! Quando ela me alcançou, eu já estava no meio da rua, na calçada, longe do castelo dos horrores, com o coração batendo desesperado. Segurou-me pela mão, e me impediu de ir mais longe. Implorei, para que ela não me fizesse voltar lá, mas ela não estava disposta a desistir de mim assim tão fácil. Disse-me que Deus é poderoso e que ele não deixaria nada de ruim acontecer comigo, que eu não precisava ter medo do diabo, e que se eu tivesse a fé do tamanho do grão de sei lá o quê, eu faria algo nas montanhas. Ela me mostrou a palma da mão:

– Tá vendo aqui? Todas as águas do planeta cabem na mão de Deus. Ele é grande.
– Ele é grande – Concordei com ela, repetindo o gesto com a palma da mão de forma semiautomática.

E dizendo coisas assim, ela me convenceu a voltar com ela. Subimos de volta a grande escadaria da entrada da igreja. Ela tinha orgulho de mim. “Vai pisotear demônios”, ela falava enquanto caminhávamos. Porém, mal chegamos de volta à porta, e percebi que varias outras pessoas haviam se juntado ao primeiro homem possuído. O cenário lá dentro era caótico: Pessoas gritavam e se contorciam no altar, outras ainda corriam pelos corredores da igreja com os homens de terno correndo atrás. Gargalhadas, gemidos, gritos, lamentos ecoavam por todo o lugar. Um verdadeiro show de horrores. E desta vez eu tive certeza que deveria ir para longe dali o quanto antes. Pisotear demônios é o caralho, prefiro eles lá e eu aqui. Tentei fugir de novo, mas minha tia foi mais esperta. Me segurou com força pela mão, e tentou me fazer entrar à força na igreja. Agarrei-me de forma desesperada ao batente de uma das portas e consegui arrastar minha tia para longe, assemelhando-me a um cachorro grande que arrasta o dono pela coleira. Nada, nem ninguém me faria voltar ali. E desta vez ela sabia disso. Só parei de arrasta-la quando estávamos a uma distância segura. Ela me xingou todo o caminho de volta, é claro. Mas graças a Deus nunca mais tentou me levar lá. E os sorvetes? Pura cascata. Festa do sorvete porra nenhuma. Era o dia da caça ao demo. Não havia sorvete algum, e de qualquer modo, se houvesse, o capeta tomava tomava tudo!