Um herbicida altamente tóxico, paraquate deverá passar por revisão na Califórnia

paraquate

Por Carey Gillam para o “The New Lede”

Os esforços de alguns legisladores da Califórnia para proibir o controverso herbicida paraquate terminaram esta semana com a aprovação de uma lei que mantém o produto químico em uso, mas exige uma reavaliação pelos reguladores nos próximos cinco anos.

Os defensores da proibição citaram evidências científicas que ligam o paraquate a uma série de problemas de saúde, incluindo a doença cerebral incurável conhecida como Mal de Parkinson, como uma das principais razões para proibir o uso do paraquate no estado.

No início deste ano, a Assembleia Estadual da Califórnia aprovou o que foi chamado de “moratória” sobre o paraquate, que entraria em vigor em janeiro de 2026 e previa um processo que daria aos reguladores estaduais a oportunidade de reavaliar o paraquate e potencialmente reaprovar o produto químico com ou sem novas restrições.

Mas as emendas do Senado estadual eliminaram qualquer moratória ou restrição ao uso. O projeto de lei, conforme aprovado, agora exige apenas que os reguladores estaduais de agrotóxicos concluam uma reavaliação do paraquate até janeiro de 2029.

A deputada da Califórnia, Laura Friedman, disse que o fato de a legislatura ter aprovado requisitos para uma reavaliação regulatória ainda é uma vitória.

“Com a crescente evidência médica indicando que o paraquate é simplesmente muito tóxico para permanecer em uso amplo, estou muito confiante de que [os reguladores estaduais] não apenas farão uma reavaliação completa do paraquate, mas também o proibirão completamente ou colocarão maiores restrições ao seu uso”, disse Friedman em uma declaração.

“A legislatura falou alto e claro”, disse Bill Allayaud, vice-presidente de assuntos governamentais do Environmental Working Group (EWG), em um comunicado à imprensa . O EWG foi um dos principais apoiadores do projeto de lei. “Eles querem que a ciência sobre o paraquate seja considerada agora, enquanto os trabalhadores rurais e os moradores próximos são expostos – não mais para frente.”

Houve forte oposição à proibição do paraquate. Uma análise legislativa da lei cita uma “coalizão de oponentes, incluindo fabricantes de agrotóxicos, associações comerciais da indústria química e organizações comerciais agrícolas”, opondo-se à lei.

Os oponentes da indústria também se opõem a uma reavaliação regulatória do paraquate, dizendo que isso “constituirá um impacto fiscal significativo” sobre os reguladores estaduais que poderiam estar revisando outros produtos, de acordo com a análise.  

O governador da Califórnia, Gavin Newsom, tem até o final de setembro para assinar ou vetar a lei.

Neste verão, os legisladores estaduais aprovaram um projeto de lei relacionado que aumenta as taxas sobre vendas de pesticidas para ajudar a financiar programas aprimorados de supervisão regulatória dentro do estado.

O paraquate tem sido usado há décadas como um herbicida amplamente utilizado. Mas um grande corpo de evidências científicas vinculou o uso crônico do produto químico à doença de Parkinson, que se tornou uma das principais causas de morte nos Estados Unidos.

Vários milhares de agricultores, trabalhadores agrícolas e outros estão processando a fabricante de paraquate, Syngenta, alegando que desenvolveram Parkinson devido aos efeitos crônicos de longo prazo do paraquate e alegando que a Syngenta escondeu os riscos do público e dos reguladores.

O New Lede revelou anteriormente que a pesquisa interna da Syngenta encontrou efeitos adversos do paraquate no tecido cerebral décadas atrás, mas a empresa escondeu essa informação dos reguladores, trabalhando em vez disso para desacreditar a ciência independente que liga o produto químico a doenças cerebrais e desenvolvendo uma “equipe SWAT” para combater as críticas.  

“É simplesmente inconcebível que esse herbicida ainda exista e seja amplamente usado nos Estados Unidos”, disse o membro da Assembleia da Califórnia Rick Zbur em uma coletiva de imprensa em abril, discutindo os esforços para proibir o paraquate. “Não deveríamos pulverizar amplamente um herbicida conhecido por causar pressão alta, insuficiência cardíaca, insuficiência renal, doença de Parkinson, leucemia infantil e câncer.” 


Fonte: The New Lede

Governo federal se reuniu com lobistas e empresas de agrotóxicos ao menos uma vez a cada 5 horas entre 2022 e 2024

lobby

Por Fiquem Sabendo

Durante as tramitações de novas regras de uso, fiscalização, tributação e liberação dos agrotóxicos, o governo federal teve ao menos 752 compromissos registrados com participação de lobistas e representantes de empresas relacionadas a agrotóxicos. Isso significa que ocorreu pelo menos 1 reunião de autoridades do governo com o lobby dos agrotóxicos a cada 4 horas e 48 minutos entre outubro de 2022 e agosto de 2024 – considerando horas úteis da jornada de trabalho e excluindo fins de semana, feriados e pontos facultativos nacionais. 

A maioria dos compromissos ocorreu no gabinete da Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), local que sediou 56 encontros com lobistas ou representantes de empresas do setor. Já no gabinete do ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, foram ao menos 12 reuniões. A maior parte dos encontros foi realizada por videoconferência (232 registros, cerca de 30% do total).

Os meses que tiveram maior frequência de registros de reuniões foram maio e abril de 2024 – 1 a cada 5 compromissos levantados no período aconteceram nesses meses. Em maio foram 70 agendas e em abril foram 67. Nessa época, o Ministério da Fazenda enviou o projeto de regulamentação da Reforma Tributária sem incluir os agrotóxicos no Imposto Seletivo. Também foi nesse período que o Congresso Nacional derrubou metade dos vetos do presidente Lula (PT) à Nova Lei dos Agrotóxicos, tirando Ibama e Anvisa do processo de aprovação de novos produtos. 

Em 2023, os meses com maior ocorrência de encontros do governo federal com lobistas dos agrotóxicos foram agosto (52 registros) e setembro (48 registros), época em que tramitava no Senado a Reforma Tributária, em que se discutia justamente o “Imposto Seletivo” para sobretaxar produtos nocivos à saúde. 

Levantados utilizando a Agenda Transparente, ferramenta gratuita desenvolvida pela Fiquem Sabendo (FS) que permite monitorar as agendas oficiais do Executivo federal, os dados fazem parte do terceiro relatório do projeto Lobby na Comida, produzido pela FS em parceria com o site O Joio e O Trigo, com apoio dos institutos Ibirapitanga e Serrapilheira. Na publicação, analisamos o trânsito dos lobistas que atuam em prol dos agrotóxicos no Executivo federal ao longo das discussões sobre o Imposto Seletivo da Reforma Tributária e o PL do Veneno, que se tornou a Nova Lei dos Agrotóxicos (Lei 14.785 de 2023). 

Leia o relatório na íntegra 

Acesse a planilha completa com as agendas analisadas

Confira no gráfico os meses com mais compromissos registrados

Saiba o que estava em discussão enquanto lobby dos agrotóxicos se reunia com o governo

As 752 agendas do governo federal com lobistas dos agrotóxicos aconteceram durante mudanças regulatórias relevantes para o setor, como a Nova Lei dos Agrotóxicos – decorrente do PL do Veneno – e a Reforma Tributária. Em uma série de reportagens do site O Joio e O Trigo, produzida em parceria com a Fiquem Sabendo, mostramos o papel do lobby nos rumos dessas decisões.

Em “Agrotóxico, o assunto ignorado pela reforma tributária”, foi revelado que o governo federal ignorou as recomendações da sociedade civil e de órgãos orientados para a saúde coletiva ao não incluir os produtos químicos no Imposto Seletivo da Reforma Tributária. Enquanto isso, durante o período de discussão da Reforma, o governo federal realizou dezenas de reuniões com o lobby dos agrotóxicos. 

A reportagem “Ministério da Agricultura boicota programa de redução de agrotóxicos há dez anos” expõe como o órgão tem atuado para impedir o avanço do programa que propõe maior controle sobre o uso dos agrotóxicos. E por fim, a reportagem “Nova Lei de Agrotóxicos: Como funciona? Ninguém sabe” traz os bastidores da regulamentação das novas regras, mostrando as reuniões do Mapa com entidades representantes dos agrotóxicos para tratar do assunto.

Como adiantamos na Don’t LAI to Me #129, 2022 foi o ano em que o Brasil bateu recorde no registro de agrotóxicos, com 652 produtos liberados pelo Mapa. Syngenta, Bayer, Adama e Basf estão entre as empresas que mais pediram liberação de agrotóxicos em toda a série histórica disponibilizada, e também estão entre as que mais conseguiram registros por ação judicial no período de 2019 a 2023, segundo os dados do Ibama. Essas empresas também se destacam nos encontros mapeados no estudo.

Esses destaques estão no relatório “Regulamentação de agrotóxicos: o trânsito de lobistas no Executivo federal em meio à definição de novas regras”, o terceiro que compõe o projeto Lobby na Comida, realizado pela Fiquem Sabendo, com apoio dos institutos  Ibirapitanga e Serrapilheira. 


🟦 Reforma Tributária, Consea, agrotóxicos: relatórios analisam encontros do governo federal com lobistas em pautas ligadas à alimentação

Iniciado em agosto de 2023, o projeto Lobby na Comida teve como propósito demonstrar como os registros oficiais dos compromissos de autoridades públicas podem ser uma fonte de estudo científico e investigação jornalística sobre a atuação de lobistas frente a importantes momentos decisórios. 

No primeiro relatório, lançado em novembro de 2023, monitoramos 1.810 compromissos das autoridades do governo federal com o tema da Reforma Tributária e analisamos como a indústria de ultraprocessados se mobilizou ao longo da tramitação da PEC da Reforma no Legislativo. 

Já no segundo relatório, lançado em maio de 2024, mostramos as principais políticas de combate à fome adotadas pelo governo federal a partir das recomendações do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), além dos compromissos das autoridades do Executivo federal com representantes da indústria alimentícia para tratar da agenda de insegurança alimentar.

Fechando a trilogia do projeto, lançamos em primeira mão nesta edição da Don’t LAI to Me um relatório feito em parceria com O Joio e O Trigo, com a análise dos mais de 700 compromissos que indicam como o lobby atua para influenciar a regulação, fiscalização e tributação dos agrotóxicos no país. 

Acesse aqui a íntegra dos relatórios do Lobby na Comida

O projeto Lobby na Comida conta com o apoio dos institutos Ibirapitanga e Serrapilheira para mapear eventuais conflitos de interesse em políticas públicas de alimentação.


Fonte: Fiquem Sabendo

AGU pede bloqueio milionário contra Syngenta por adulteração de agrotóxicos

A AGU baseia sua atuação em uma fiscalização do Ibama em uma fábrica da Syngenta em Paulínia (SP)

syngenta

Por Leonardo Gottems para o Agrolink

A Advocacia-Geral da União (AGU) moveu uma ação civil pública por dano ambiental contra a Syngenta na Justiça Federal de São Paulo. A multinacional de defensivos agrícolas é acusada de supostamente produzir e comercializar agroquímicos adulterados de forma irregular. A AGU quer que a Syngenta seja responsabilizada pela reparação de possíveis danos ambientais, além de pagar indenização por danos morais coletivos devido à exposição indevida da população aos produtos tóxicos.

A AGU requereu também o bloqueio de R$ 90 milhões da empresa para assegurar futuras reparações, caso a Syngenta não apresente garantias suficientes. Além disso, solicitou a suspensão do acesso da empresa a financiamentos em instituições de crédito públicas. A ação pede medidas urgentes para que a Syngenta recolha e dê destino adequado aos produtos adulterados que podem estar em circulação. A empresa deve apresentar um plano de integridade ambiental em 90 dias e divulgar informações sobre o processo judicial e suas decisões em seus canais digitais. Adicionalmente, a Syngenta deve incluir detalhes sobre a adulteração em seus relatórios e programas de sustentabilidade.

A entidade baseia sua atuação em uma fiscalização do Ibama que apontou um suposto uso irregular do conservante bronopol em níveis quase três vezes acima do permitido na produção do Engeo Pleno pela Syngenta. Além disso, o bronopol teria sido adicionado ilegalmente aos produtos Karate Zeon 250 CS e Karate Zeon 50 CS, que não possuíam autorização para essa substância em suas fórmulas. Estes agrotóxicos são amplamente utilizados em várias culturas agrícolas. Segundo registros de infração do Ibama apresentados na ação judicial, a Syngenta teria produzido um total de 4,7 milhões de litros desses produtos, dos quais pelo menos 4,4 milhões foram vendidos. 

Durante fiscalização, de acordo com a AGU, na fábrica da Syngenta, foi descoberto que funcionários receberam ordens para remover insumos da linha de produção de agrotóxicos para evitar detecção durante a visita do Ibama, tentando burlar a fiscalização. Em nota, a empresa se manifestou sobre o assunto negando prejuízos.


Fonte: Agrolink

Proibição do paraquat permanece viva e avança na Califórnia

parkinson-disease-syngenta-Paraquat

Por Carey Gillamo

Uma proposta para proibir o paraquat, um produto químico que mata ervas daninhas, foi aprovada na Assembleia do Estado da Califórnia na semana passada e agora enfrenta uma briga no Senado Estadual sobre o que seria a primeira proibição desse tipo no país.  

A proibição  entraria em vigor em 1º de janeiro de 2026, proibindo o “uso ,  fabricação, venda, entrega, detenção ou oferta para venda no comércio” de qualquer produto pesticida que contenha paraquat. O projeto de lei prevê um processo que permite aos reguladores estaduais reavaliar o paraquat e potencialmente reaprová-lo com ou sem novas restrições.

A principal preocupação citada pelos defensores do projeto de lei é a pesquisa que liga a exposição crônica ao paraquat à doença de Parkinson, uma doença cerebral incurável e debilitante considerada uma das principais causas de morte nos Estados Unidos.

A votação final na Assembleia foi de 46-16 a favor do projeto, mas espera-se que a oposição seja mais forte no Senado, de acordo com funcionários do gabinete da deputada Laura Friedman, que introduziu a medida. Espera-se que o Comitê de Política do Senado da Califórnia aborde o assunto antes de 4 de julho, disseram eles.

Friedman fez parceria com o  Grupo de Trabalho Ambiental  (EWG) para introduzir a proibição proposta. Uma análise do EWG  descobriu que o paraquat é pulverizado desproporcionalmente em áreas da Califórnia habitadas em grande parte por trabalhadores rurais latinos e suas famílias.

A ação para proibir o paraquat na Califórnia ocorre no momento em que vários milhares de agricultores, trabalhadores agrícolas e outros estão processando a fabricante de paraquat Syngenta, alegando que desenvolveram Parkinson devido aos efeitos crônicos de longo prazo do paraquat.

O paraquat é um dos produtos químicos para matar ervas daninhas mais amplamente utilizados no mundo. Os agricultores utilizam-no tanto para controlar ervas daninhas antes de plantar as suas culturas como para secar as culturas para a colheita. Nos EUA, o produto químico é usado em pomares, campos de trigo, pastagens onde o gado pasta, campos de algodão e outros lugares.

A Syngenta fabrica e vende paraquat há mais de 50 anos e afirma em seu site que se os usuários seguirem as instruções e usarem roupas de proteção adequadas “não há risco para a segurança humana”. O paraquat “não representa um risco de neurotoxicidade” e “ não causa a doença de Parkinson ”, afirma a empresa.

O paraquat foi proibido na União Europeia em 2007 depois que um tribunal concluiu que os reguladores erraram ao descartar preocupações de segurança, incluindo evidências científicas que ligavam o Parkinson ao paraquat. Também é proibido no Reino Unido, embora seja fabricado lá. O produto químico foi proibido na Suíça, país de origem da Syngenta, em 1989. E é proibido na China, sede da ChemChina, que  comprou a Syngenta há vários anos.

A Agência de Proteção Ambiental assumiu a posição  de que as evidências são “insuficientes para vincular a exposição ao paraquat proveniente do uso de pesticidas de produtos de paraquat registrados nos EUA à DP em humanos”.


color compass

Fonte: The New Lede

Para tristeza da Syngenta, Califórnia avança com planos para proibir o Paraquat

parkinson-disease-syngenta-Paraquat

Por Carey Gillamo para o “The New Lede”

A Califórnia deu um passo mais perto de proibir o polêmico paraquat, uma grotóxico que mata ervas daninhas, depois que um importante comitê legislativo estadual permitiu na quinta-feira que a medida prosseguisse.

A proibição entraria em vigor em 1º de janeiro de 2026, proibindo o “uso , fabricação, venda, entrega, detenção ou oferta para venda no comércio” de qualquer agrotóxico que contenha paraquat. O projeto de lei prevê um processo que permite aos reguladores estaduais reavaliar o paraquat e potencialmente reaprová-lo com ou sem novas restrições.

A principal preocupação citada pelos defensores do projeto de lei é a pesquisa que liga a exposição crônica ao paraquat à doença de Parkinson, uma doença cerebral incurável e debilitante considerada uma das principais causas de morte nos Estados Unidos.

Vários milhares de agricultores, trabalhadores agrícolas e outros estão processando a fabricante de paraquat Syngenta, alegando que desenvolveram Parkinson devido aos efeitos crônicos de longo prazo do paraquat.

“A Califórnia é o celeiro da nação. Os trabalhadores agrícolas colocam comida na nossa mesa e devemos fazer tudo o que pudermos para tornar os seus empregos mais seguros”, disse Laura Friedman, deputada da Califórnia. “Ninguém deve correr o risco de exposição química no trabalho, levando à contração da doença de Parkinson.”

Friedman, que fez parceria com o Grupo de Trabalho Ambiental (EWG) para introduzir a medida, disse que ela foi aprovada “não apenas porque proibir o paraquat é a coisa certa a fazer”, mas também porque existem “alternativas prontamente disponíveis, mais seguras e acessíveis”.

A retirada do projeto de lei do comitê de dotações esta semana agora o prepara para votação pelo plenário da Assembleia na próxima semana. A votação deve ser concluída até sexta-feira, 24 de maio, para que a medida seja encaminhada ao Senado estadual para apreciação. É necessária uma maioria de 80 membros da Assembleia para manter o projeto de lei vivo.

Registros secretos da Syngenta  

O paraquat é um dos herbicidas mais amplamente utilizados no mundo. Os agricultores utilizam-no tanto para controlar ervas daninhas antes de plantar as suas culturas como para secar as culturas para a colheita. Nos EUA, o paraquat é usado em pomares, campos de trigo, pastagens onde o gado pasta, campos de algodão e outros lugares.

A Syngenta fabrica e vende paraquat há mais de 50 anos e afirma que as evidências científicas não apoiam uma ligação causal entre o paraquat e a doença de Parkinson.

A Syngenta afirma em seu site que se os usuários seguirem as instruções e usarem roupas de proteção adequadas, incluindo luvas e botas, “não há risco para a segurança humana”. O paraquat “não representa um risco de neurotoxicidade” e “ não causa a doença de Parkinson ”, afirma a empresa.

Ao defender o projeto de lei, no entanto, o gabinete de Friedman citou documentos internos da Syngenta descobertos pelo The New Lede em colaboração com  o The Guardian, mostrando que a Syngenta tem conhecimento há muito tempo de pesquisas científicas que mostram ligações entre o paraquat e a doença de Parkinson. Esses documentos, relatados numa série de artigos, revelaram anos de esforços empresariais para encobrir provas de que o paraquat pode causar a doença de Parkinson. 

Os  documentos  obtidos pelo The New Lede também mostraram evidências de esforços para manipular e influenciar a EPA, bem como a publicação de literatura científica que apoia a segurança do paraquat. Os documentos também mostram como a empresa trabalhou para enganar o público sobre os perigos do paraquat, entre outras estratégias secretas.

Taxas de Mal de Parkinson estão subindo

Aproximadamente 60.000 americanos são diagnosticados todos os anos com o Mal de Parkinson e, nos últimos anos, esta doença  foi classificada  entre as 15 principais causas de morte nos Estados Unidos, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Além disso, a taxa de mortalidade por Mal de Parkinson aumentou mais de 60% nos Estados Unidos nas últimas duas décadas,  segundo pesquisas . 

Apesar das alegações de segurança da empresa, dezenas de países proibiram o paraquat, tanto por causa dos perigos agudos como devido às evidências crescentes de ligações a riscos para a saúde, como o Mal de Parkinson, decorrentes da exposição crónica a longo prazo. Atualmente, a Syngenta ainda vende produtos de paraquat em mais de duas dúzias de países . 

O paraquat foi proibido na União Europeia em 2007 depois que um tribunal concluiu que os reguladores erraram ao descartar preocupações de segurança, incluindo evidências científicas que ligavam o Mal de Parkinson ao paraquat.  O paraquat também é proibido no Reino Unido, embora seja fabricado lá. O produto químico foi proibido na Suíça, país de origem da Syngenta, em 1989. E é proibido na China, sede da ChemChina, que  comprou a Syngenta há vários anos.

O especialista em neurologia Timothy Greenamyre , que dirige o Instituto de Doenças Neurodegenerativas de Pittsburgh, disse acreditar que “não há dúvida” de que o paraquat causa Parkinson e que o paraquat deveria “ser absolutamente banido” nos Estados Unidos.

Existem fortes dados de estudos em animais e fortes evidências epidemiológicas que apoiam a associação causal, bem como o mecanismo de ação relevante, disse ele.

“O paraquat causa degeneração seletiva precisamente daqueles neurônios que degeneram no Mal de Parkinson (dentre bilhões de outros neurônios); não causa neurodegeneração aleatória ou não seletiva”, disse Greenamyre. “Da mesma forma, a exposição ao paraquat causa acúmulo e agregação da proteína exata (entre milhares de outras), a alfa-sinucleína, que define a patologia do Mal de Parkinson. Neste contexto, a capacidade do paraquat, em qualquer dose, de modelar estas características da doença fornece um apoio convincente para o seu papel na ocorrência do Mal de Parkinson

A Califórnia tem um histórico de agir mais rapidamente do que a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) na restrição de agrotóxicos que têm sido associados a sérios problemas de saúde no processo de investigação científica.

Depois que a EPA não conseguiu seguir os planos de proibir o inseticida clorpirifós em 2017, por exemplo, a Califórnia anunciou sua própria proibição em 2019. O estado citou evidências de que o clorpirifós “está associado a graves efeitos à saúde em crianças e outras populações sensíveis em níveis mais baixos”. de exposição do que o anteriormente compreendido, incluindo comprometimento do desenvolvimento cerebral e neurológico”.

A EPA assumiu a posição de que as evidências são “insuficientes para vincular a exposição ao paraquat proveniente do uso de agrotóxicos aprovados nos EUA ao Mal de Parkinson em humanos”.


color compass

Fonte: The New Lede

Apocalipse anunciado: Syngenta volta a vender o Tiametoxam, conhecido por exterminar abelhas

tiametoxam

Ibama havia proibido a pulverização do tiametoxam por considerá-lo uma ameaça potencial a abelhas e a outros insetos polinizadores — Foto: Divulgação

Graças a uma decisão obtida no dia 24 de abril na justiça do Rio Grande do Sul, a multinacional suiço/chinesa Syngenta voltou a comercializar o agrotóxico neonicotinóide Tiametoxam que é conhecido por exterminações massivas de polinizadores, incluindo as abelhas.

Lembremos que a Syngenta conseguiu reverter na justiça as restrições que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) impôs, em fevereiro, sobre a produção, a venda e a aplicação do Tiametoxam no Brasil. O IBAMA havia proibido a pulverização do insumo por considerá-lo uma ameaça potencial a abelhas e a outros insetos polinizadores. O processo de reavaliação do defensivo no Ibama estendeu-se por quase dez anos quando, finalmente, houve a proibição para o uso de Tiametoxam.

O caso do Tiametoxam é apenas o primeiro exemplo dos efeitos danosos da aprovação do Pacote do Veneno que foi sancionado pelo presidente Lula no dia 28 de dezembro. Com isso, a Syngenta poderá continuar vendendo esse assassino de abelhas.

Arroz dourado geneticamente modificado é suspenso nas Filipinas: o engano do desenvolvimento e a política do progresso como ferramentas de dominação

stop gmo

Por Sustainable Pulse

Em 19 de abril de 2024, a Suprema Corte das Filipinas emitiu uma  ordem de cessar e desistir da propagação comercial de arroz dourado geneticamente modificado (GM) e de uma espécie de berinjela geneticamente modificada no país, informou recentemente a Countercurrents .

A  Stop Golden Rice Network afirma  que a decisão judicial é uma vitória para agricultores e consumidores em todo o mundo, uma vez que a decisão vai além do Arroz Dourado e da berinjela resistente à inseticida e abrange “qualquer aplicação para uso contido, testes de campo, uso direto como alimento ou ração ou processamento, uso comercial propagação e importação de OGM.”

O tribunal reconheceu que as agências governamentais e outros proponentes do arroz dourado e da berinjela geneticamente modificados “não apresentaram provas de segurança e conformidade com todos os requisitos legais”. A ordem permanece indefinida até que os proponentes dos OGM possam cumprir todas as etapas obrigatórias e fornecer provas concretas de que estes produtos são realmente seguros.

Uma rede de agricultores, consumidores e organizações da sociedade civil, a Stop Golden Rice enfatiza a necessidade de combater a fome e a desnutrição através da garantia do controlo dos pequenos agricultores sobre recursos como sementes, tecnologias apropriadas, água e terra.

O grupo de campanha diz:

“Acreditamos que as culturas geneticamente modificadas são impulsionadas principalmente pelos capitalistas monopolistas globais na alimentação e na agricultura… já existem provas irrevogáveis ​​do fracasso das culturas geneticamente modificadas e de como isso contribuiu para um maior endividamento, falhas nas colheitas, fome e perda de biodiversidade.”

Afirma que a decisão do tribunal mostra que as pessoas comuns podem prevalecer face ao poder corporativo.

A história do Arroz Dourado 

A deficiência de vitamina A é um problema em muitos países pobres do Sul Global e deixa milhões de pessoas em alto risco de infecção, doenças e outras doenças, como a cegueira.

A indústria agrotecnológica há muito que argumenta que o Arroz Dourado é uma forma prática de fornecer aos agricultores pobres em áreas remotas uma cultura de subsistência capaz de adicionar a tão necessária vitamina A às dietas locais. Os lobistas dizem que o Arroz Dourado, desenvolvido com financiamento da Fundação Rockefeller, poderia ajudar a salvar a vida de cerca de 670 mil crianças que morrem todos os anos por deficiência de vitamina A e de outras 350 mil que ficam cegas.

Tais alegações, no entanto, baseiam-se mais em distorções do que na realidade e, ao longo dos anos, os interesses por trás do Arroz Dourado não perderam tempo em atacar quem o questionasse.

Como Secretário do Ambiente da Grã-Bretanha em 2013, o agora desonrado  Owen Paterson afirmou  que os oponentes da GM estavam “lançando uma sombra negra sobre as tentativas de alimentar o mundo”. Ele apelou à rápida implantação do arroz enriquecido com vitamina A para ajudar a prevenir a causa de até um terço das mortes infantis no mundo. Ele alegou:

“É simplesmente nojento que crianças pequenas possam ficar cegas e morrer por causa do bloqueio de um pequeno número de pessoas em relação a esta tecnologia. Eu me sinto muito forte sobre isso. Acho que o que eles fazem é absolutamente perverso.”

No Twitter, Nick Cohen do The Observer concordou com seu apoio twittando:

“Não há maior exemplo de privilégio ocidental ignorante que causa miséria desnecessária do que a campanha contra o arroz dourado geneticamente modificado.”

A retórica dos defensores dos OGMs  adotou a linha de relações públicas bem desgastada e cinicamente concebida  de que os ativistas anti-GM e os ambientalistas são pouco mais do que pessoas privilegiadas e ricas que residem em países ricos e estão a negar aos pobres os supostos benefícios das culturas GM.

Apesar destas difamações e chantagem emocional, num artigo de 2016 na revista  Agriculture & Human Values,  Glenn Stone e Dominic Glover encontraram poucas provas de que os ativistas fossem culpados pelas promessas não cumpridas do Golden Rice.

Os pesquisadores ainda tiveram problemas para desenvolver cepas enriquecidas com beta-caroteno que produzissem tão bem quanto cepas não transgênicas já cultivadas pelos agricultores. Era questionável se o beta-caroteno do Arroz Dourado poderia ser convertido em vitamina A nos corpos de crianças gravemente desnutridas. Também houve pouca investigação sobre a eficácia do beta-caroteno no Arroz Dourado quando armazenado durante longos períodos entre as épocas de colheita ou quando cozinhado utilizando métodos tradicionais comuns em zonas rurais remotas.

Entretanto, Glenn Stone observou que, à medida que o desenvolvimento do Arroz Dourado avançava, as Filipinas conseguiram reduzir a incidência da deficiência de vitamina A através de métodos não-GM.

Então, quais interesses estavam realmente sendo atendidos na campanha pelo Arroz Dourado?

Em 2011, Marcia Ishii-Eiteman, cientista sênior com experiência em ecologia de insetos e manejo de pragas, respondeu a esta pergunta:

“Um chamado Conselho Humanitário de elite onde a Syngenta tem assento – juntamente com os inventores do Arroz Dourado, a Fundação Rockefeller, a USAID e especialistas em relações públicas e marketing, entre um punhado de outros. Nem um único agricultor, indígena ou mesmo ecologista ou sociólogo para avaliar as enormes implicações políticas, sociais e ecológicas desta experiência massiva. E o líder do projeto Golden Rice do IRRI não é outro senão Gerald Barry, ex-Diretor de Pesquisa da Monsanto.”

Sarojeni V Rengam, diretor executivo da Pesticide Action Network Asia and the Pacific, apelou aos doadores e cientistas envolvidos para acordarem e fazerem a coisa certa:

“O Golden Rice é realmente um ‘cavalo de Tróia’; um golpe de relações públicas realizado pelas corporações do agronegócio para obter aceitação de culturas e alimentos geneticamente modificados (GM)… dinheiro e esforços seriam mais bem gastos na restauração da biodiversidade natural e agrícola, em vez de destruí-la através da promoção de plantações de monoculturas e culturas alimentares geneticamente modificadas.”

Para combater as doenças, a subnutrição e a pobreza, é necessário primeiro compreender as causas subjacentes – ou mesmo querer compreendê-las.

O renomado acadêmico  Walden Bello observa  que o complexo de políticas que empurrou as Filipinas para um atoleiro económico ao longo das últimas décadas se deve ao “ajustamento estrutural” que incluiu a reestruturação da agricultura e da produção orientada para a exportação.

E essa reestruturação da economia agrária é algo abordado por Claire Robinson da GMWatch, que observa que os vegetais de folhas verdes costumavam ser cultivados em quintais, bem como em campos de arroz (arrozais) nas margens entre as valas inundadas onde o arroz crescia.

As valas também continham peixes, que comiam pragas. As pessoas tiveram assim acesso a arroz, vegetais de folhas verdes e peixe – uma dieta equilibrada que lhes proporcionou uma mistura saudável de nutrientes, incluindo bastante beta-caroteno.

Mas as culturas e os sistemas agrícolas indígenas foram substituídos por monoculturas dependentes de factores de produção químicos. Vegetais de folhas verdes foram eliminados com pesticidas, fertilizantes artificiais foram introduzidos e os peixes não puderam viver na água quimicamente contaminada resultante. Além disso, a diminuição do acesso à terra significou que muitas pessoas já não tinham quintais contendo vegetais de folhas verdes.

A cegueira nos países em desenvolvimento poderia ter sido erradicada há anos se apenas o dinheiro, a investigação e a publicidade investidos no Arroz Dourado ao longo dos últimos 20 anos tivessem sido canalizados para formas comprovadas de resolver a deficiência de vitamina A. Contudo, em vez de procurar soluções genuínas, o que temos visto é  uma atitude pró-OGM,  numa tentativa de encerrar o debate.

Tecnologia e desenvolvimento

Se a discussão até agora nos diz alguma coisa é que a tecnologia não é neutra. É desenvolvido e promovido por pessoas que pretendem consolidar o seu controlo sobre um sector e obter ganhos financeiros com a sua implementação.

Com demasiada frequência, os políticos, as empresas e os meios de comunicação social equiparam as novas tecnologias ao “progresso”. E aqueles que a questionam, como vemos no caso dos OGM, são chamados de luditas ou anti-ciência, a fim de impedir um debate adequado sobre as preocupações sociais, económicas e éticas da implementação de uma determinada tecnologia.

Veja a Revolução Verde, por exemplo. Não havia nada de progressista, inevitável ou neutro na sua tecnologia de sementes, produtos químicos e infra-estruturas relacionadas.

Apesar de ter sido implementado sob a bandeira do “progresso”, teve um desempenho inferior, foi explorador e teve impactos sociais, ecológicos e ambientais devastadores (ver os escritos de  Glenn Stone ,  Vandana Shiva  e  Bhaskar Save ). Serviu os interesses geopolíticos, financeiros e do agronegócio dos EUA e priorizou a expansão urbano-industrial em detrimento das comunidades rurais e de uma agricultura mais diversificada, saudável e suficiente em nutrientes.

Mas a Revolução Verde tornou-se parte integrante da agenda do “desenvolvimento”.

Em um artigo recente  no site Winter Oak, Paul Cudenec diz que “desenvolvimento”:

“… é a destruição da natureza, agora vista como um mero recurso a ser utilizado para o desenvolvimento ou como um espaço vazio e não desenvolvido no qual o desenvolvimento poderia, deveria e, em última análise, deveria ocorrer. É a destruição das comunidades humanas naturais, cuja auto-suficiência impede o avanço do desenvolvimento, e da cultura humana autêntica e dos valores tradicionais, que são incompatíveis com o dogma e o domínio do desenvolvimento.”

Cudenec argumenta que aqueles que estão por trás do “desenvolvimento” têm destruído tudo o que tem valor real no nosso mundo natural e nas nossas sociedades humanas na busca de riqueza e poder pessoal. Além disso, ocultaram este crime por trás de toda a retórica positiva associada ao desenvolvimento a todos os níveis.

Em nenhum lugar isso é mais aparente do que na Índia.

O Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio, o agronegócio global e o capital financeiro  estão trabalhando para corporatizar  o setor agrícola da Índia. Esta política e processo de “ajustamento estrutural” envolve a substituição do actual sistema de produção alimentar por uma agricultura contratual e um modelo industrial de agricultura e retalho alimentar que sirva os interesses acima mencionados.

O plano é deslocar o campesinato, criar um mercado fundiário e fundir propriedades fundiárias para formar explorações agrícolas maiores, mais adequadas aos investidores internacionais em terras e à agricultura industrial orientada para a exportação.

A exigência é que a Índia sacrifique os seus agricultores e a sua própria segurança alimentar em benefício de um punhado de multimilionários. Tudo isto é considerado “desenvolvimento”.

Envolve o Estado facilitando o enriquecimento de uma elite rica e privilegiando um certo modelo de desenvolvimento social e económico baseado na expansão urbana, no poder centralizado e na dependência das finanças globais, das empresas, dos mercados e das cadeias de abastecimento. Tudo legitimado sob as bandeiras da inovação, do progresso tecnológico e do “desenvolvimento”.

Existem outros caminhos que a humanidade pode seguir. O antropólogo Felix Padel e a pesquisadora Malvika Gupta  oferecem alguns insights  (com base em seu trabalho com as comunidades Adivasi da Índia) sobre como poderiam ser as soluções ou alternativas para o “desenvolvimento”:

“A democracia como política de consenso, em vez do modelo ocidental de democracia liberal que perpetua a divisão e a corrupção nos bastidores; troca de trabalho em vez da lógica implacável e anti-vida do “mercado”; a lei como reconciliação, em vez de julgamentos que dependem de honorários advocatícios exorbitantes e dividem as pessoas em vencedores e perdedores… e a aprendizagem como algo a ser partilhado, e não disputado.”

No entanto, vemos mais “desenvolvimento” a ser proposto: mais deslocamento da população rural e deslocação humana, mais desenvolvimentos mineiros, portuários e outros grandes desenvolvimentos de infra-estruturas e um maior fortalecimento dos interesses corporativos e dos seus projectos.

Embora muitos tenham uma visão diferente para o futuro, o interesse próprio e o consumismo sustentados pelo dogma económico neoliberal continuam a seduzir as massas a aceitarem a agenda de “desenvolvimento” prevalecente.

A agricultura industrial corporativa é parte integrante dessa agenda. Um modelo que se consolidou há meio século nas nações ocidentais e que resultou em alimentos deficientes em nutrientes, dietas mais restritas, uso massivo de agrotóxicos, alimentos contaminados por hormônios, esteróides, antibióticos e uma ampla gama de aditivos químicos, a erradicação de muitos pequenos agricultores, taxas crescentes de problemas de saúde, solo degradado e fontes de água contaminadas e esgotadas.

Isso é ‘progresso’? Bem, deixando de lado os interesses do agronegócio, talvez o mesmo aconteça com as muitas clínicas de saúde privadas que surgiram na Índia nos últimos anos.

A introdução dos OGM representa um reforço adicional da agenda de “desenvolvimento” prevalecente.

A decisão do Supremo Tribunal das Filipinas acusou as agências governamentais e aqueles que estão por trás da agenda do Arroz Dourado de falhas importantes. Isto é importante para a Índia, cujo Supremo Tribunal está prestes a decidir se deve ou não sancionar o cultivo comercial de mostarda geneticamente modificada. Seria a primeira cultura alimentar geneticamente modificada da Índia (da qual há muitas mais em preparação).

Será que o Supremo Tribunal da Índia ficará do lado da razão e acabará com a mostarda geneticamente modificada com base no facto de  não haver necessidade  de OGMs na agricultura indiana e na bem documentada  fraude e delinquência regulamentar  que tem rodeado esta questão há muitos anos?

Isso ainda está para ser visto.


color compass

Fonte: Sustainable Pulse

Lobby do agro consegue liberar agrotóxico letal a abelhas e enfraquece Ibama

Decisão da 9ª Vara Federal de Porto Alegre afirma que Ibama não tem competência para restringir sozinho uso do tiametoxam; Medida deve ser usada por ruralistas no Congresso para retomar “PL do Veneno” e derrubar vetos de Lula, dizem fontes ouvidas pela Repórter Brasil

Abelha_Rafa_-Neddermeyer_Agencia_Brasil

Por Hélen Freitas, edição de Carlos Juliano Barros para a Repórter Brasil 

Atendendo a um dos principais pleitos do lobby do agronegócio, uma decisão liminar da Justiça Federal de Porto Alegre derrubou, no final de abril, uma medida do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) que restringia o uso do tiametoxam, agrotóxico tido como letal para abelhas e banido na Europa desde 2018.

A Repórter Brasil identificou ao menos quatro ações judiciais de conteúdo similar em todo o país. Com textos parecidos e datas próximas, elas solicitam que a palavra final sobre o registro do inseticida fique a cargo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

A batalha na Justiça é o mais recente capítulo de uma longa disputa entre setores do agro e o Ibama. Em fevereiro, o órgão ambiental federal impôs restrições ao uso do tiametoxam, por causa de evidências científicas sobre o risco de morte para abelhas, essenciais à polinização e à reprodução de diversas espécies de plantas.

Dentre outras limitações, o Ibama vetou a chamada “pulverização aérea” — a aplicação por meio de aeronaves que, com o impulso do vento, pode ampliar o alcance do produto e contaminar abelhas. Na consulta pública aberta pelo Ibama para a reavaliação do tiametoxam, que culminou com as restrições, o Ministério da Agricultura chegou a se manifestar, mas proibiu a divulgação do seu parecer.

A Repórter Brasil tentou obter o documento por meio da Lei de Acesso à Informação, mas teve o pedido negado. Procurada mais de uma vez, a pasta não respondeu se tornará público o posicionamento sobre a restrição ao inseticida. O espaço segue aberto para a manifestação do Mapa.

Ruralistas querem concentrar poder no Ministério da Agricultura

A autora da ação na 9ª Vara Federal de Porto Alegre é a Associação Brasileira de Direito e Administração. A juíza Maria Isabel Pezzi Klein acatou o pedido da entidade e afirmou que os resultados da análise científica realizada pelo Ibama deveriam ter sido encaminhados à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e ao Ministério da Agricultura, para que a pasta bata o martelo sobre eventuais restrições e faça um plano de transição, indicando um substituto para o tiametoxam.

O efeito da decisão é imediato — órgãos estaduais de agropecuária já publicaram nota técnica informando sobre a queda das restrições ao inseticida.

Essa não é a primeira vez que a Associação Brasileira de Direito e Administração fica ao lado do agronegócio, em um processo judicial envolvendo agrotóxicos. Em 2023, a entidade entrou como parte em uma ação do Ministério Público do Trabalho que pedia o banimento de outra substância, a atrazina, devido a riscos à saúde de trabalhadores rurais. Procurada pela reportagem, a associação não respondeu às perguntas enviadas. O texto será atualizado, caso um posicionamento seja enviado.

Decisão da 9ª Vara Federal de Porto Alegre permite volta da pulverização aérea de tiametoxam, em decisão que pode afetar a regulação nacional de agrotóxicos (Foto: Jan Amiss/Pixabay)

Na avaliação de especialistas ouvidos pela Repórter Brasil, a decisão judicial da 9ª Vara Federal de Porto Alegre atende ao principal pleito de setores do agronegócio sobre a Lei de Agrotóxicos, aprovado pelo Congresso Nacional em novembro do ano passado, mas vetado por Lula no mês seguinte: a garantia de palavra final ao Ministério da Agricultura sobre a autorização de pesticidas. O parlamento ainda pode derrubar o veto do presidente e retomar esse dispositivo.

Originalmente, o Projeto de Lei 1.459/22, apelidado de “Pacote do Veneno”, conferia ao Mapa o poder de aprovação de novos produtos e de reanálises de agrotóxicos, caso do tiametoxam. Em dezembro, Lula vetou esse e mais 16 artigos da nova lei.

Na justificativa, o Planalto argumentou que o veto “evita a transferência da reanálise toxicológica (por riscos à saúde) e ecotoxicológica (por riscos ambientais) para um único órgão, garantindo a manutenção do modelo tripartite”. De acordo com esse sistema, atualmente em vigor,  as decisões devem ser tomadas em conjunto por Ibama, Mapa e Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Logo no início do ano, porém, a bancada ruralista anunciou que derrubaria os vetos e a questão entrou no pacote de negociações que tem marcado a disputa de forças entre Legislativo e Executivo.

A decisão da Justiça Federal de Porto Alegre dá munição aos ruralistas que defendem a concentração de poder nas mãos do Ministério da Agricultura, afirmam fontes ouvidas pela Repórter Brasil.

“Essas liminares judiciais serão utilizadas junto aos gabinetes parlamentares e publicamente para mostrar que os vetos precisam ser derrubados”, afirma Leonardo Pillon, advogado do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Em sua avaliação, as ações movidas por representantes do agronegócio fazem uma interpretação “extremamente elástica” da lei para “manter trechos que foram vetados pelo presidente e atropelar o processo legislativo”.

Como Lula não tinha poder de alterar a redação da lei aprovada pelo Congresso, mas apenas de vetar o projeto por completo ou trechos, alguns artigos que restaram após a sua sanção têm sido evocados nos processos de autoria dos ruralistas para recuperar a interpretação que concentra poderes no Ministério da Agricultura, analisa o advogado Emiliano Maldonado, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos.

Um exemplo é o artigo 31. O texto afirma que, ao final do processo de reanálise, “o órgão federal registrante” poderá proibir, suspender ou restringir o uso de agrotóxicos. Na decisão, a juíza cita justamente esse trecho para argumentar que essas medidas só poderiam ser tomadas pelo “órgão federal registrante” — em sua avaliação, o Ministério da Agricultura.

Porém, segundo Maldonado e o próprio Ibama, ao fazer essa interpretação, a juíza ignora o fato de que o artigo 28, que aponta o Mapa como responsável final pelas reavaliações, acabou vetado por Lula.

Por meio de sua assessoria de imprensa, o Ibama informou que ainda não foi notificado sobre a decisão judicial. Em manifestação anexada ao processo da Vara Federal de Porto Alegre, o órgão argumentou que “uma eventual decisão do Mapa sobre os riscos de natureza ambiental, desconsiderando – ainda que parcialmente – os resultados e conclusões emanados por este Instituto, resultaria em uma clara invasão de mérito técnico, privativo da autarquia ambiental”.

“Se há indícios de que substâncias possam provocar graves riscos ao meio ambiente, causando inclusive danos ecológicos significativos, com a dizimação de polinizadores, é dever do órgão ambiental lançar esse comunicado e estabelecer restrições para a aplicação. E é isso o que o Ibama fez”, afirma Maldonado.

Em pesquisas realizadas na Europa e também no Brasil, o uso da substância foi relacionado à mortandade em massa de abelhas. Durante o processo de reanálise da substância no país, documentos do Ibama sustentaram que o tiametoxam é “400 vezes mais tóxico do que o limite necessário para enquadrar esse agente como altamente tóxico às abelhas”.

Pesquisas brasileiras e internacionais mostram que tiametoxam afeta sistema nervoso central das abelhas, em muitos casos, provocando a morte (Foto:Ted Erski/Pixabay)

Fabricante contratou ex-funcionário do Mapa para atuar em lobby

A revisão do tiametoxam no Brasil se arrasta há mais de uma década. Em 2012, o Ibama chegou a proibir a aplicação deste químico por avião. Mas, à época, as empresas reverteram a decisão rapidamente.

O órgão abriu, então, uma consulta pública, que reuniu mais de 1500  manifestações. De um lado, cientistas, técnicos e ambientalistas apresentaram pesquisas sobre os efeitos da substância no sistema nervoso central das abelhas e o alto potencial de morte. De outro, as fabricantes Syngenta e Ourofino, junto a associações do agronegócio, basearam grande parte de seus argumentos nos virtuais impactos econômicos de uma eventual proibição.

Como revelado com exclusividade pela Repórter Brasil, a Ourofino chegou a contratar um ex-funcionário do Mapa, no início do governo Lula, para representar a empresa em reuniões com órgãos públicos durante o processo de reavaliação do tiametoxam, conduzido por Ibama, Anvisa e Ministério da Agricultura.

Hoje, a batalha está no campo judicial. A brasileira Ourofino e a multinacional Syngenta também entraram com ações pedindo a suspensão das restrições ao tiametoxam na 9ª Vara Federal Cível do Distrito Federal, mas tiveram o pedido negado.

A Syngenta recorreu e obteve decisão favorável no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). A Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho) também entrou com pedido de suspensão, negado pela 2º Vara Federal Cível da Seção Judiciária do Mato Grosso.

Para o advogado do Idec, Leonardo Pillon,  as ações judiciais movidas para derrubar as restrições ao uso do tiametoxam servem de alerta para os grupos que defendem o controle de pesticidas. “Todas as discussões de reavaliações de agrotóxicos em curso vão ser afetadas por esse mesmo mecanismo”, avalia.

Nota da redação: o texto foi alterado às 12h50 para incluir informações sobre os poderes de Lula ao sancionar a Lei de Agrotóxicos em dezembro de 2023.


color compass

Fonte: Repórter Brasil

Ibama restringe uso do tiametoxam, agrotóxico letal a abelhas e outros polinizadores

abelhas-mortas2

Hélen Freitas para a Repórter Brasil

Após dez anos em reavaliação, o Ibama decidiu restringir o uso do tiametoxam, um dos agrotóxicos mais letais às abelhas. Em comunicado publicado nesta quinta-feira (22), o órgão ambiental proibiu o uso de aviões agrícolas e tratores para a aplicação do produto.

O processo de revisão da substância foi alvo de lobby da fabricante brasileira Ourofino e da multinacional de origem suíça Syngenta, conforme mostrou a Repórter Brasil. O principal argumento utilizado pelas empresas em prol do agrotóxico era o risco de perda econômica dos produtores rurais. 

A pressão do agro incluiu também a contratação de um ex-servidor do Ministério da Agricultura (Mapa) para ajudar nas negociações com órgãos públicos, além de uma campanha online que se baseou em um estudo limitado para defender a substância.

Apesar do lobby, o Ibama manteve a posição de restringir a substância. Diversas pesquisas científicas relacionam o uso do tiametoxam com a mortandade em massa de abelhas. Em 2018, a União Europeia proibiu o seu uso com o objetivo de proteger os insetos polinizadores, que são essenciais à reprodução de diversas espécies de plantas.

Os neonicotinóides, agrotóxicos feitos à base de nicotina, como o tiametoxam, atingem o sistema nervoso central das abelhas, fazendo com que fiquem desorientadas. Trazem ainda sequelas ao seu sistema de aprendizagem, digestão e imunológico, em muitos casos levando à morte.

A restrição da pulverização aérea e tratorizada é uma tendência mundial, afirma Rosangela Muniz, diretora substituta de Qualidade Ambiental do Ibama. “A aplicação foliar na área total está sendo muito restringida por conta do fenômeno da deriva”, diz ela, citando o fenômeno que dispersa resíduos do agrotóxico pelo ar.

“Esse trabalho envolveu uma análise técnico-científica rigorosa de uma grande quantidade de estudos produzidos nas condições da agricultura brasileira. É um estudo pioneiro”, afirma Alan Ferro, coordenador-geral de avaliação e controle de substâncias químicas do Ibama.

Abelhas são insetos polinizadores essenciais ao ecossistema, mas suas populações estão em queda no mundo (Foto: Pixabay)

Como fica agora?

A partir de agora, produtos contendo tiametoxam só podem ser usados em 25 cultivos diferentes, como café, soja e cana-de-açúcar, mas somente para aplicação direta no solo ou no tratamento de sementes. 

Segundo o Ibama, os agricultores e lojas agropecuárias poderão utilizar os produtos até o fim do estoque ou da validade. Já as empresas fabricantes deverão comunicar seus clientes sobre as mudanças e alterar as bulas até 20 de agosto.

A decisão impacta uma indústria bilionária. A comercialização de produtos com tiametoxam no Brasil atingiu a marca de 4.800 toneladas em 2022, segundo dados do Ibama obtidos pela Repórter Brasil. 

Por isso, o defensor público do Estado de São Paulo, Marcelo Novaes, prevê uma intensa batalha judicial agora com a indústria na tentativa de reverter a decisão. “O tiametoxam era a galinha dos ovos de ouro da Syngenta, ela não vai querer perder esse mercado”, afirma.

Ferro, coordenador-geral de avaliação do Ibama, afirma que o órgão continuará recebendo novas pesquisas sobre a substância, o que pode alterar a decisão. “A gente tomou como dado o conhecimento técnico disponível no momento, então a gente também já deixa claro que é possível o aposto [apresentação] de novas informações”.

Por meio de nota, a Syngenta afirmou que discorda da decisão do Ibama. “Estamos analisando a publicação no Diário Oficial e compreendendo as medidas cabíveis para minimizar o impacto para os agricultores brasileiros.”. A empresa disse ainda que garante a segurança de seus produtos e que “o posicionamento da companhia é alicerçado em fundamentos científicos sólidos que foram apresentados ao Ibama ao longo do processo de reavaliação”.

A Ourofino não se posicionou até o momento.

Alguns pesquisadores ouvidos pela Repórter Brasil consideraram que a decisão foi muito branda, e que o produto deveria ter sido totalmente banido do país. Esse resultado é insuficiente para a proteção dos polinizadores e do meio ambiente”, diz Leonardo Melgarejo, membro do grupo de trabalho agrotóxicos e transgênicos da Associação Brasileira de Agroecologia.

O agrônomo Gabriel Fernandes, pesquisador do Centro de Tecnologias Alternativas (CTA), critica também o longo período até o governo decidir pela restrição. “Foram necessários 10 anos para o Ibama chegar a essa decisão, e não por problema do órgão, mas pela judicialização feita pelas empresas interessadas em continuar vendendo esses produtos que sabidamente causam problemas ambientais”.

Lobby

Uma das estratégias das empresas para impedir as restrições foi realizar encontros de forma constante com o governo federal na reta final do processo de reavaliação. Levantamento exclusivo da Repórter Brasil, em parceria com a agência de jornalismo de dados Fiquem Sabendo, mostrou que as fabricantes estiveram em 16 compromissos com autoridades em datas que coincidem com decisões importantes do Ibama sobre o inseticida. 

A Ourofino chegou a contratar um ex-servidor do Ministério da Agricultura (Mapa) para representar a companhia em parte dessas reuniões. Fabiano Maluf Amui abriu uma empresa de consultoria quando ainda ocupava o cargo de assessor especial do ministério, em dezembro de 2022, e foi contratado pela companhia poucas semanas depois, após deixar o cargo público.

Antes de ocupar o cargo no órgão federal, Maluf já tinha sido assessor do presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, a bancada ruralista.

A lei sobre conflito de interesses define um período de seis meses em que um ex-servidor público não pode trabalhar em empresas privadas, para impedir que elas sejam favorecidas com informações sensíveis.

Segundo Bruno Morassutti, advogado da Fiquem Sabendo, há a possibilidade de não realizar o período de afastamento, desde que a Comissão de Ética Pública da Presidência seja consultada. Procurada pela reportagem, o órgão não respondeu se o ex-servidor entrou com pedido de dispensa.

Pulverização aérea de tiametoxam com uso de aviões agrícolas passa a ser proibido no Brasil com a decisão do Ibama (Foto: Fernando Martinho)

Pesquisa encomendada

Em 2021, mais de 6.000 toneladas de tiametoxam foram exportadas pela Syngenta ao Brasil, segundo dados da organização suíça Public Eye e da agência de jornalismo Unearthed, e revelados pela Repórter Brasil.

Durante três anos, a Syngenta financiou um estudo da Embrapa que concluiu que as abelhas não morriam com o uso do produto, desde que aplicado conforme a bula.

A multinacional aproveitou a conclusão para iniciar uma campanha online em prol do tiametoxam, porém, a companhia ignorou o fato de que os resultados se restringiam apenas ao cultivo de café. Além disso, não informa que a pesquisa foi realizada em fazendas certificadas pela Syngenta, o que na avaliação de especialistas deixa o estudo limitado.

“Você desenha o estudo, escolhe uma metodologia que nem sempre é a mais correta a ser utilizada e o seu resultado vai dar do jeito que você quer. Você está criando um ambiente perfeito para o seu estudo chegar nos seus interesses”, afirma a nutricionista e pesquisadora Vitória Moraes, analista técnica da organização ACT Promoção da Saúde. 

O pesquisador da Embrapa Cristiano Menezes, coordenador do estudo, admite que a realidade do campo é diferente da testada, já que na vida real, segundo ele, os agrotóxicos são aplicados além do permitido, em áreas proibidas e utilizando métodos danosos aos insetos polinizadores. “Nós trabalhamos especificamente com essas fazendas certificadas, que têm todo esse processo muito profissional, mas a gente sabe que a realidade da agricultura é diferente

Em conversa com a Repórter Brasil, o pesquisador afirmou que a escolha do café favorece as conclusões obtidas, e que os resultados não serão os mesmos caso sejam avaliadas outras plantações. “O café tem uma situação muito favorável para esse resultado. É uma floração muito concentrada num período específico do ano, por poucos dias, então a exposição [das abelhas] ao produto é curta”, diz ele.

Card de campanha da Syngenta adota estudo restrito ao café para defender que tiametoxam é seguro para todas as lavouras (Foto: Reprodução)

Nova Lei dos Agrotóxicos

A reavaliação do tiametoxam pode ser uma das últimas seguindo as regras atuais. O Congresso aprovou em dezembro a nova lei dos agrotóxicos, que concede ao Ministério da Agricultura a palavra final no que se refere à aprovação de pesticidas.

Historicamente liderada por empresários do agronegócio, a pasta tende a se manifestar favoravelmente aos pleitos do setor.

Ao sancionar a nova lei, o presidente Lula vetou o trecho que concede ao Mapa a palavra final, restituindo o poder do Ibama e da Anvisa.

“O presidente Lula acatou a maior parte dos vetos que a gente como Ministério do Meio Ambiente propôs, e agora nós estamos trabalhando na regulamentação da lei”, diz Rosangela Muniz, diretora do Ibama.

Contudo, a bancada ruralista já afirmou ter os votos necessários para reverter a decisão presidencial. Caso isso aconteça, o Ibama e a Anvisa, que fazem análises técnicas do ponto de vista ambiental e de saúde, perderiam poder de influência nas decisões envolvendo agrotóxicos.


compass black

Este texto foi originalmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].

Fabricantes de venenos agrícolas fazem lobby para impedir banimento de agrotóxico letal às abelhas

Syngenta e Ourofino colocam evidências de lado para garantir vendas do tiametoxam, agrotóxico fatal para abelhas

abelhas fipronil

Por Helen Freitas para a Repórter Brasil

O governo está prestes a decidir se restringe ou não o uso de um dos piores inimigos das abelhas no Brasil, o tiametoxam. Esse agrotóxico é considerado por ambientalistas e cientistas uma ameaça à biodiversidade, razão pela qual foi proibido na Europa e restringido no Canadá.

As fabricantes, porém, deixam de lado pesquisas científicas sobre o impacto às abelhas e pressionam órgãos reguladores para manter o uso no Brasil, alegando riscos econômicos ao agronegócio.

Aplicado para o controle de pragas em diversas lavouras, o tiametoxam está em reavaliação no país há dez anos. Esse período ficou marcado pelo lobby das fabricantes em várias frentes em Brasília, e também pelas discussões sobre a nova lei dos agrotóxicos, que pode mudar as regras do jogo e reduzir o peso do Ibama nas decisões sobre agrotóxicos.

A pressão é liderada pelas duas fabricantes no país, a multinacional de origem suíça Syngenta e a brasileira Ourofino, com apoio de associações do agronegócio e da Frente Parlamentar da Agropecuária, a chamada “bancada ruralista” do Congresso.

Só a Syngenta anexou mais de 30 estudos ao processo de reavaliação, na tentativa de comprovar a segurança do produto aos insetos. A empresa argumenta que o tiametoxam não representa risco se aplicado conforme a bula, e diz que as fabricantes têm se empenhado na capacitação de aplicadores.

Mas o Ibama diz que esses estudos não afastaram todas as suspeitas envolvendo o tiametoxam. Para o órgão ambiental, os treinamentos e as orientações contidas em bula são insuficientes para proteger as abelhas

Em dezembro passado, o Ibama manifestou-se a favor de restringir o tiametoxam em 25 cultivos diferentes, como cana-de-açúcar, soja e milho. Na decisão, o Ibama diz que a substância “representa um alto nível de preocupação aos polinizadores”, sendo “400 vezes mais tóxico do que o limite necessário para enquadrar esse agente como altamente tóxico às abelhas”.

A decisão final fica a cargo de uma comissão formada por Ibama, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e Anvisa. Os três órgãos têm até 22 de fevereiro para bater o martelo.

Abelhas desorientadas

A pressão da indústria vai na contramão do que vem sendo decidido em outros países. Em 2018, o tiametoxam foi proibido na União Europeia, após pesquisas comprovarem sua letalidade para as abelhas. Esses insetos atuam como agentes polinizadores e são essenciais à reprodução de diversas espécies de plantas.

Após a proibição na Europa, o Brasil virou um dos principais mercados para a Syngenta, a maior fabricante mundial. Só em 2021, mais de 6 mil toneladas foram exportadas ao país, segundo dados da organização suíça Public Eye e da agência de jornalismo Unearthed.

Mas no Brasil, os efeitos dos pesticidas seriam ainda piores. De acordo com um estudo feito por três universidades brasileiras – Ufscar, Unicamp e Unesp –, as abelhas nativas brasileiras são mais sensíveis ao tiametoxam do que as espécies adotadas nas pesquisas encomendadas pela indústria.

“A agricultura é uma riqueza brasileira, mas a biodiversidade também. É preciso harmonizar isso”, defende a bióloga Roberta Nocelli, pesquisadora da Ufscar e uma das responsáveis pelo estudo. “As restrições [ao tiametoxam] são adequadas, porque esse é um produto tóxico”, afirma.

O tiametoxam faz parte de um grupo de inseticidas à base de nicotina, conhecidos como neonicotinóides. Segundo Nocelli, a substância atinge o sistema nervoso central das abelhas, fazendo com que elas fiquem desorientadas. Causa também sequelas ao sistema imunológico, digestivo e de aprendizagem das abelhas, em muitos casos levando à morte.

A substância é suspeita ainda de causar problemas no sistema reprodutivo humano e no desenvolvimento de fetos, segundo a Agência Europeia dos Produtos Químicos.

Bula e treinamentos

Não é a primeira vez que o Ibama tenta restringir o uso do tiametoxam. Em 2012, o órgão ambiental proibiu a aplicação do pesticida por meio de aviões agrícolas. Chamada de pulverização aérea, essa técnica é a mais danosa às abelhas, já que dispersa resíduos do agrotóxico pelo ar, a longas distâncias.

Na época, as empresas conseguiram reverter a decisão do órgão ambiental. Mas a aplicação aérea voltou a ser permitida apenas para algumas plantações.

A indústria defende como solução o treinamento para quem aplica agrotóxicos, além da criação de zonas de segurança onde o produto não poderia ser aplicado.

“Acreditamos que, por meio de treinamentos realizados no campo e de cursos online gratuitos, é possível disseminar boas práticas e orientar sobre a adequada utilização dos produtos”, diz a Syngenta, em nota enviada à Repórter Brasil.

A empresa declara que “gerou e aportou no processo de reavaliação do tiametoxam resultados de anos de estudos, que tiveram a participação de diversos pesquisadores que trouxeram bases científicas sólidas para demonstrar a segurança do produto”. Leia a resposta completa.

Já a Ourofino não atendeu a reportagem. Em seu site, a empresa argumenta que o tiametoxam pode ser considerado seguro para os insetos polinizadores com a implementação de medidas de mitigação de risco, mas isso “depende também da cooperação ativa dos agricultores”.

Para o Ibama, as bulas e os treinamentos são importantes, mas não afastam o risco às abelhas. “As informações em bula podem não ser suficientes para o uso seguro dos produtos, tanto pela ausência de especificações detalhadas, como por possível dificuldade dos aplicadores em compreender seu conteúdo”, diz o órgão no parecer em que recomenda a restrição ao tiametoxam.

Culpar os agricultores pelos efeitos dos agrotóxicos é uma estratégia da indústria de minimizar sua responsabilidade, avalia a nutricionista e pesquisadora Vitoria Moraes, analista técnica da organização ACT Promoção da Saúde. “O que elas mais fazem é tentar colocar a culpa no indivíduo, usando estudos com metodologias questionáveis e que não representam a vida real”, diz ela, a respeito das condições de aplicação de agrotóxicos no dia-a-dia dos agricultores.

“Mesmo utilizando adequadamente o tiametoxam, com todas as regras, você não pode afirmar que não vai haver mortalidade de abelhas”, afirma Nocelli, da Ufscar.

Impactos ao agro

Após ser publicado em setembro, o parecer do Ibama foi submetido a consulta pública, o que movimentou o lobby do agro em Brasília. As duas fabricantes criaram páginas específicas sobre o agrotóxico, incluindo orientações para pessoas físicas se manifestarem no processo.

Havia até a sugestão de uma frase comum para ser incluída nas manifestações: “Em atenção às conclusões da ARA [Avaliação de Risco Ambiental] contidas na Tabela 1 para a cultura xxx”. A Repórter Brasil identificou 633 respostas (40% do total) contendo exatamente as palavras propostas pelas empresas.

Embora a análise do Ibama se concentre nas abelhas, o principal argumento das empresas é o impacto econômico de uma eventual proibição. Elas dizem que o agronegócio brasileiro poderá sofrer uma queda de até 30% na produtividade.

A restrição também acarretaria, segundo as companhias, em aumento de custos para agricultores, perda de empregos no campo e queda na arrecadação de impostos da ordem de R$ 44 bilhões por ano.

O roteiro foi o mesmo utilizado nos debates envolvendo o paraquate — agrotóxico proibido pela Anvisa em 2020 pelo risco de causar mutações genéticas e doença de Parkinson.

Na época, a indústria também apresentou estimativas de queda na produção de soja. Mas a realidade foi outra, com a safra batendo recorde no ano passado.

Para Nocelli, os números do setor estão superestimados. “As empresas estão puxando a sardinha, porque têm uma postura comercial sobre o assunto”.

Moraes, da ACT, lembra ainda que os dados não consideram os impactos econômicos ao Sistema Único de Saúde e previdenciário, em razão do uso de agrotóxicos. “A longo prazo, essa cadeia produtiva pode sobrecarregar o sistema de saúde e gerar o afastamento do agricultor, aumentando o orçamento público para cobrir custos de doenças que poderiam ser evitadas”.

Nova Lei dos Agrotóxicos

A reavaliação do tiametoxam pode ser uma das últimas seguindo as regras atuais. O Congresso aprovou em dezembro a nova lei dos agrotóxicos, que concede ao Ministério da Agricultura a palavra final no que se refere à aprovação de pesticidas.

Historicamente liderada por empresários do agronegócio, seja em governos considerados de direita ou de esquerda, a pasta é vista como complacente aos argumentos da indústria e, por isso, tende a se manifestar favoravelmente aos pleitos do setor.

Ao sancionar a nova lei, o presidente Lula vetou o trecho que concede ao Mapa a palavra final, restituindo o poder do Ibama e da Anvisa. Mas a bancada ruralista já afirmou ter os votos necessários para reverter a decisão presidencial.

Caso isso aconteça, o Ibama e a Anvisa, que fazem análises técnicas do ponto de vista ambiental e de saúde, perderiam poder de influência nas decisões envolvendo agrotóxicos. E as abelhas ficariam sem aliados importantes para sua proteção.


compass black

Este texto foi publicado pelo jornal “Brasil de Fato” [Aqui!].