Plantadores de soja adotam posturas obstrutivas, escapistas, e reacionárias contra as políticas de conservação ambiental, revela estudo

Um artigo que acaba de ser publicado pela revista Forest Policy and Economics revela como grandes plantadores de soja (os sojeiros) em Tocantins, um estado onde o Cerrado se encontra sob forte pressão por causa do desmatamento para expansão das monoculturas de soja, se posicionam em relação às políticas de conservação ambiental, especialmente a do chamado Desmatamento Zero.

O estudo que utilizou um grupo focal com sojeiros buscou avaliar 3 cenários:   (1) acesso a uma tecnologia de aumento de produtividade condicionado à abstenção de abertura de novas fazendas em áreas com vegetação nativa; (2) uma política europeia menos flexível que limita as importações à soja sem conversão, independentemente do ecossistema; e (3) um fortalecimento das política ambientais brasileiras que tendem a aumentar a quantidade de terras que os agricultores devem reservar para conservação ambiental.

A pesquisa mostra que os produtores de soja são altamente céticos em relação às regulamentações ambientais e desconfiam de  atores estrangeiros. Ao mesmo tempo que lutam por uma maior autonomia para realizar suas atividades, os sojeiros rejeitam as tentativas de controlar as suas práticas habituais de (agro)negócios e rejeitaram esses esforços políticos como sendo, em última análise, conduzidos por agendas ocultas. Segundo os autores do artigo, os resultados da pesquisa mostram uma forte inclinação por parte dos plantadores de soja de recorrer à teorias da conspiração, entendidas como explicações alternativas que atribuem eventos determinados a atores poderosos.

A pesquisa mostra ainda que os plantadores de soja possuem uma mentalidade de fronteira que é marcada pela presença valores libertários que são aliados a uma  desconfiança explícita nas instituições estatais, ou nos motivos dos reguladores estrangeiros interessados em conter o processo de desmatamento.

Esse cenário todo serviria para criar uma postura obstrutiva e reacionária face aos esforços em prol do Desmatamento Zero no Brasil. Este comportamento reacionário pode se manifestar na forma de medidas preventivas, tais a relutância em adotar práticas ou tecnologias agrícolas vinculados aos requisitos de Desmatamento Zero ou ao boicote aos esforços de governança ambiental. Em sintonia com uma preferência por um status quo ante – ou, simplesmente, pelo business as usual – tais atores escolhem recorrer a compradores de commodities que, na percepção dos sojeiros, não colocarão em prática as exigências ambientais, resultando numa forma de fuga. Finalmente, tal rejeição dos controles ambientais torna-se enredada na negação da ciência e no endosso de teorias da conspiração que, por sua vez, são disseminadas por associações setoriais e grupos de WhatsApp.

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