Peixes de recifes de até 150 m de profundidade desenvolvem funções ecológicas altamente especializadas para sobreviver

Peixe Tosanoides aphroditeTosanoides aphrodite, espécie endêmica do Brasil, foi registrada nos dois arquipélagos, onde habita recifes mesofóticos. Foto: Luiz Rocha / Acervo Pesquisadores

Peixes de recifes mesofóticos, que ocorrem entre 30 e 150 metros de profundidade, desenvolvem estratégias altamente especializadas para sobreviver em arquipélagos brasileiros, aponta um novo estudo publicado na revista Neotropical Ichthyology na segunda (27). A pesquisa foi conduzida por pesquisadores do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (CEBIMar/USP), em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e a California Academy of Sciences.

Enquanto Fernando de Noronha apresenta maior riqueza de espécies, com similaridade nos papéis ecológicos, o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, mais isolado, abriga menos espécies, mas que tendem a ser mais diferenciadas e especializadas.

A equipe realizou expedições científicas a Fernando de Noronha e ao Arquipélago de São Pedro e São Paulo entre 2017 e 2019. Para mapear 6.982 peixes de 95 espécies, os cientistas realizaram um Censo Visual Subaquático a até 120 metros de profundidade. Em áreas demarcadas de 40 metros quadrados, os pesquisadores anotaram visualmente a espécie, a quantidade e o tamanho de cada indivíduo. A contagem começava no fundo do oceano e continuava gradativamente enquanto eles subiam em direção à superfície.

“Estas amostragens foram realizadas com o uso de mergulho técnico utilizando rebreathers, um sistema de circuito fechado que nos permite mergulhar fundo e por mais tempo”, detalha Julia Marx, pesquisadora da USP e autora do estudo. Ela explica que a técnica exige mais de 100 horas de treinamento, pois requer o uso de misturas gasosas e protocolos rigorosos de paradas longas para descompressão.

Embora Fernando de Noronha seja muito maior e abrigue um número superior de espécies por estar associada à sua maior conectividade com áreas costeiras, foi o isolado conjunto de ilhas de São Pedro e São Paulo que apresentou uma maior riqueza funcional, ou seja, uma maior diversidade de papéis ecológicos exercidos pelas espécies em seu habitat.

A pesquisadora explica que os ambientes mesofóticos apresentam condições ambientais mais restritivas, com menor disponibilidade de luz e diferenças na estrutura do habitat em relação às áreas mais rasas. “Quando isso se soma ao isolamento extremo de São Pedro e São Paulo, apenas espécies com características muito específicas conseguem se estabelecer ali”, comenta.

Assim, as espécies desempenham papéis ecológicos mais diferenciados dentro da dinâmica dos recifes. “Se perdermos essas espécies mais especializadas, podemos perder funções inteiras do ecossistema”, alerta Marx. “Diferente de ambientes onde várias espécies têm papéis semelhantes, aqui essa similaridade parece ser menor, tornando o sistema mais sensível a mudanças na composição de espécies. Isso pode desencadear efeitos em cascata, como desequilíbrios na cadeia alimentar ou mudanças na estrutura do recife”, complementa.

Diante dessa fragilidade estrutural, os achados da pesquisa indicam que as diretrizes ambientais precisam ser atualizadas. Atualmente, a proteção de santuários ecológicos ainda foca predominantemente na biodiversidade visível das partes rasas, tratando as zonas mais profundas apenas como uma extensão do mesmo ambiente. Incorporar o gradiente de profundidade no planejamento e nas leis de Áreas Marinhas Protegidas é um passo decisivo para garantir que a resiliência dos oceanos continue funcionando frente aos desafios do futuro, apontam os autores.


Fonte: Agência Bori