Pesquisa de mestrado da UENF vira cartilha de boas práticas para o manejo de recursos hídricos

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Atualmente vê-se muita crítica acerca de uma suposta incapacidade das universidades públicas de gerarem conhecimento que seja útil à sociedade em geral e, mais especificamente, para aqueles que mais precisam de formas adequadas de gestão de recursos ambientais estratégicos como é o caso da água.

É preciso que se reconheça que parte dessas críticas é bastante razoável, já que a forma pela qual as universidades são obrigadas a funcionar para garantir a sua sobrevivência acaba sendo um impeditivo para que haja a necessária transposição entre o conhecimento básico e aplicado que a comunidade científica produz e a sociedade que precisa estabelecer novas formas de uso e gestão de recursos cada vez mais demandados.

Por isso, quando determinadas iniciativas são realizadas a importância que elas assumem vão muito além dos seus idealizadores e até do público alvo inicial das mesmas.  É por isso que tenho uma a imensa satisfação de disseminar a cartilha de boas práticas ambientais que foi produzida com base no esforço do meu ex-orientando no Programa de Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Estadual do Norte Fluminense, Guilherme Campos Valvasori, que concluiu com êxito sua dissertação de mestrado em Março de 2018.

Agora, com base nas pesquisas realizadas em seu mestrado, Guilherme Valvasori e  Daniel Morris lançam esse trabalho que mistura informações científicas em linguagem acessível a todo tipo de público e belas ilustrações como a da capa que aparece logo abaixo.

cartilha belisário

Esse tipo de esforço deixa evidente os riscos que correremos se a guerra já declarada às universidades públicas não for enfrentada com o devido vigor. É que sem universidades públicas não haverá nada em termos de conhecimento que possa ser difundido, pois simplesmente não haverá geração de conhecimento.

Quem desejar ter acesso ao conteúdo completo da cartilha “Belisário: em busca de harmonia entre o homem e a Serra do Brigadeiro”, basta clicar [Aqui!]

Reitoria emite comunicado à comunidade universitária após “visita” à minha sala na UENF

Informei neste blog de uma inspeção que ocorreu na minha sala de trabalho no campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense por pessoas que se apresentaram como sendo membros da fiscalização do Tribunal Regional Eleitoral  (TRE) em Campos dos Goytacazes [1].  Os que leram a postagem onde informei de tal “inspeção” notaram que houve uma série de comentários por parte do Sr. Matheus Machado, que se apresentou como fiscal do próprio TRE,  negando que qualquer operação de fiscalização oficial tivesse ocorrido no meu local de trabalho, e que eu estarei propagando uma “fake news“.

Pois bem, dado a gravidade do ocorrido, já que agora está clara a hipótese de que quem inspecionou a minha sala não estavam realizando uma operação oficial do TRE,  o reitor da Uenf, Prof. Luís Passoni, divulgou um comunicado à toda comunidade universitária da Uenf indicando o procedimento que deverá ser adotado na ocorrência de visitas de pessoas que se apresentem como “fiscais eleitorais” (ver documento abaixo).

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Como já disse de forma repetida, não tenho como prática a produção de “fake news” e não teria porque começar agora. Desta forma, vou aguardar os procedimentos que a Uenf adotará para apurar o que de fato ocorreu no meu espaço de trabalho e quem foram os responsáveis pelo fato.

Mais informações sobre esta situação inusitada serão oferecidas assim que forem obtidas.


[1] https://blogdopedlowski.com/2018/10/19/fiscais-do-tre-inspecionaram-minha-sala-na-uenf-vao-agora-nas-igrejas-e-templos/

Alô TRE! Propaganda eleitoral no campus da UENF pode ou não?

Na semana passada o veículo transportando o deputado federal Chico Alencar, candidato ao senado pelo PSOL, foi impedido de entrar no campus Leonel Brizola sob a alegação de que está proibida a entrada de veículos om propaganda eleitoral dentro de instituições públicas. Além disso, ouvi pelo menos um relato de professor da própria universidade que foi proibido de entrar com seu veículo no pátio do campus de Macaé por estar portando propaganda eleitoral. 

Pois bem, hoje (11/09) um veículo com placa de Bom Jesus do Norte (ES), não só pode entrar no campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense, mas como pode permanecer estacionado, enquanto portava uma propaganda do candidato a deputado federal pelo DEM do Rio de Janeiro (ver imagem abaixo).

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A questão que se coloca para os sempre atentos juízes e fiscais do TRE/RJ:  propaganda eleitoral no campus da UENF pode ou não? Ou a restrição é apenas para candidatos de esquerda e a coisa pode correr livre, leve e solta para quem é apoiado, por exemplo, pelo Pastor Silas Malafaia?

Mas como as discrepâncias estão ocorrendo no campus da UENF, a reitoria da instituição também poderia se manifestar sobre essa situação.

Que o lamento pelo Museu Nacional se transforme em cuidado com a Casa de Cultura Villa Maria

Por Simonne Teixeira*– João Pessoa, setembro de 2018.

Domingo à noite entrei numa espécie de torpor, numa atmosfera nublada, da qual ainda não consegui sair completamente. As imagens do Museu Nacional ardendo em chamas abrasou meus olhos e chorei. O Museu Nacional é (porque ainda não assimilei seu desaparecimento) uma referencia na minha formação: estágio e pesquisas; colegas professores, antes estudantes. Partilhei as angustias cotidianas de saber e reconhecer o valor material e imaterial desde que seria o maior e mais importante patrimônio cultural e cientifico da nação, ao mesmo tempo que via o deterioro do edifício e das coleções, apesar dos esforços ciosos dos professores, estudantes e alunos para garantir sua integridade. Uma luta sem trégua, resistência persistente daqueles que zelavam pelo patrimônio de todos.

Na noite de domingo recebi inúmeras mensagens de amigos, alunos e ex-alunos chocados  diante daquelas imagens. Não sei se buscavam consolo ou queriam me consolar. Em realidade, estávamos todos nos sentido atacados por alguma coisa que não eram apenas aquele fogo que levava consigo parte da historia do mundo. Muitos vinham me lembrar das aulas, dos debates e discussões que tivemos ao longo destes 22 anos em que sou professora na Universidade Estadual do Fluminense (Uenf). Era para me sentir orgulhosa. Me sentia envergonhada.

Olhando aquelas imagens na TV não podia deixar de pensar nos riscos que nossas instituições centenárias estão expostas pelo descaso e pela falta de investimento. Não seria a primeira vez que tive sobressaltos com a possibilidade ver a Casa de Cultural Villa Maria da Uenf Darcy Ribeiro, ardendo em chamas. Mas naquele momento elas assumiam uma concretude dolorosa, cheguei a ver nas ruínas do Museu Nacional as da Villa Maria.

O dia-a-dia como gestora da Casa de Cultura Villa Maria exige uma espécie de cegueira consciente aos inúmeros problemas que enfrentamos devido à falta de recursos para uma restauração adequada ou mesmo para acudir aos pequenos reparos. Depois de dois anos e nove meses como gestora na Casa, vamos nos acostumando a ver os buracos no teto; as peças dos mosaicos do piso soltas, assim como os tacos de madeira; as infiltrações e as paredes manchadas; aos arbustos que brotam no telhado, assim como os problemas estruturais no telhado do anexo construído mais recentemente, sem os cuidados e os materiais de qualidade; dentre tantos outros. A lista é grande e os recursos inexistem. Nossa resistência tem sido, apesar dos problemas, dar vida à Casa, conhecer os problemas e buscar soluções que permitam o desenvolvimento das atividades fins.

Que bom seria neste ano em comemoramos o seu centenário, termos os recursos, para garantir que a Villa Maria possa comemorar o seu bicentenário, e outros tantos centenários! O espectro do incêndio do Museu Nacional deveria se configurar como alerta a todos nós, gestores da universidade, do município, do estado e dos órgãos de cultura. É preciso um esforço consciente e poderoso, com apoio da sociedade civil no sentido de tratar a cultura e a ciência como um elemento fundamental em nossa existência. O que podem tirar nós para que deixemos de ser nós mesmos? A resposta é curta: nossa memória. A memória deve ser como um farol, iluminando nosso passado para sabermos quem somos e podermos construir o nosso futuro, ou quem queremos ser. Defender nosso patrimônio, é defender nossa memória, é construir o futuro.

Desejo à Villa Maria um futuro longevo (milenar, se acaso não estou exagerando), reafirmando a importância cultural e científica da UENF no norte fluminense, resguardando a memória local. Que sua presença no Quadrilátero Histórico, seja para nós, sempre um inspiração à generosidade, a mesma que Maria de Queiróz, a Finazinha, teve como sua cidade e com sua gente. Desejo que o único fogo seja o de nossos corações, ardendo em júbilo por sermos capazes de garantir às futuras gerações nosso legado cultural, científico, cultural.

*Simonne Teixeira é professora associada do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico, bolsista de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e diretora da Casa de Cultura Villa Maria.

Em visita surpresa, Eduardo Paes e Comte Bittencourt vêem de perto o caos criado pelo (des) governo Pezão na UENF

O campus Leonel Brizola da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) foi hoje palco de uma inesperada (e não comunicada) visita da chapa ao governo do Rio de Janeiro formada por Eduardo Paes (DEM) e Comte Bittencourt (PPS) (ver imagem abaixo).

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Essa visita é daquele tipo do carrasco que visita a vítima, já que Eduardo Paes esteve até recentemente no PMDB de Sérgio Cabral e Pezão que colocaram a Uenf na maior crise financeira e acadêmica da sua jovem história de 25 anos. Já Comte Bittencourt, presidente da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, passou ao comportamento “tô vendo, mas finjo que não” desde que o seu partido, o PPS, o mesmo do prefeito Rafael Diniz, entrou para a base do (des) governo Pezão.

A coisa foi tão de sopetão (providencialmente, aliás) que a reitoria da Uenf nem usou a intranet da universidade para informar sobre a presença dos “ilustres visitantes”. Talvez para evitar algum tipo de manifestação desairosa por parte da comunidade universitária.

Mas como desse mato não deverá sair coelho caso os dois sejam, sabe-se lá como, eleitos para governar o Rio de Janeiro, fica o registro da presença que certamente foi autorizada pelo Tribunal Regional Eleitoral, sempre tão cioso da presença de políticos em repartições públicas durante campanhas eleitorais.

O oráculo de Tuffani: reagir ou perecer

No dia 21 de Novembro de 2017, a Associação de Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Aduenf) realizou um debate intitulado “O Futuro da Ciência no Brasil em Debate”, e que contou com a presença do professor e pesquisador do Instituto de Biofísica da UFRJ,  Jean Remy Davée Guimarães , e do jornalista Maurício Tuffani, do Direto da Ciência.

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Note-se que o evento era promovido pelo sindicato dos docentes e não pela reitoria da Uenf que à primeira vista deveria estar liderando as reflexões que ocorreram naquele dia em face dos crescentes ataques que estavam sendo realizados contra as universidades públicas e, por extensão, ao sistema nacional de ciência e tecnologia.

Uma das passagens mais memoráveis daquele encontro entre dois grandes conhecedores do funcionamento da ciência brasileira foi quando Maurício Tuffani revelou sua incredulidade com a condição de passividade que parecia dominar  as instituições públicas de ensino superior.  Para Tuffani, tal passividade era difícil de entender dada envergadura do retrocesso que estava sendo arquitetado a partir de Brasília, mais precisamente do interior do governo “de facto” de Michel Temer. E nessa condição ele ainda vaticinou que se a pasmaceira não fosse quebrada, coisas ainda piores poderiam acontecer.

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Agora que a vaca parece estar sendo solenemente para o brejo com os anunciados cortes orçamentários que afetarão gravemente o sistema nacional de ciência e tecnologia, ainda não vejo o tipo de reação que foi demandada por Maurício Tuffani quase um ano depois do evento promovido pela Aduenf.

Aparentemente  há um dissintonia cognitiva dentro das universidades públicas entre a realidade que se imagina dentro dos muros e aquilo que está efetivamente ocorrendo no mundo externo.  Lamento ter que fazer esta constatação, mas me parece que ainda não há um entendimento do projeto estratégico que se está executando no Brasil,  especialmente no tocante ao fato de que esse projeto dispensa totalmente a existência de centros de excelência como os hoje existentes em dezenas de universidades e institutos de pesquisa públicos. 

E, pior, não vejo as reitorias da maioria das universidades tomando para si o papel estratégico de combater o desmanche que está se avizinhando. São raros os reitores e demais dirigentes universitários que aceitam cumprir o papel de denunciar publicamente o amplo alcance das medidas de desconstrução do sistema nacional de ciência e tecnologia. A maioria dos reitores tem preferido utilizar a tática do avestruz, enterrando a cabeça na areia em nome de procedimentos mais pragmáticos para barganhar migalhas.

Desta forma, que ninguém que se surpreenda se virem os sindicatos representativos de professores, servidores e estudantes liderando o processo de resistência ao que o pesquisador Miguel Nicolelis denominou de “dia do juízo final das universidades brasileiras”. É que até agora é por aí que a resistência tem passado, e não vejo nada que indique que algo novo vá acontecer.

Por ora, a comunidade científica continua devendo a Maurício Tuffani e à maioria da população brasileira o tipo de reação que se espera dela em face dos graves riscos que estão aparecendo todos os dias no horizonte da ciência brasileira. Esperemos que o “wake up call” de Tuffani seja ouvido antes que estejam sob os escombros daquilo que ainda não foi destruído pelo governo Temer.

 

 

Alcimar das Chagas Ribeiro é o quinto entrevistado da série “Campos dos Goytacazes: entre becos e saídas”

O economista e professor do Laboratório de Engenharia de Produção da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Alcimar das Chagas Ribeiro, vem realizando um esforço analítico importante no sentido de gerar alternativas econômicas de médio e longo prazo para a região Norte Fluminense. 

Na quinta entrevista da série “Campos dos Goytacazes: entre becos e saídas”, o prof. Alcimar das Chagas Ribeiro aborda alguns dos elementos que vem estudando e reflete sobre as respostas que estão (ou não estão) sendo produzidas pela gestão do jovem prefeito Rafael Diniz (PPS) para responder aos desafios estratégicos que serão colocados pelo fim do ciclo das rendas do petróleo.

Entre uma das afirmações mais contundentes da entrevista está a que refuta a tão decantada tese da “herança maldita” para explicar as contradições encontradas entre promessa eleitoral e prática de governo por parte do prefeito Rafael Diniz.

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BLOG DO PEDLOWSKI (BP): Uma parte significativa da sua produção acadêmica tem a ver com as políticas econômicas desenvolvidas em nível municipal na região Norte Fluminense, bem como as modificações que nelas ocorreram em função do advento dos royalties do petróleo. Em suas pesquisas, o que lhe pareceu mais relevante em termos do uso dos royalties para garantir a melhoria da condição de vida para aqueles segmentos que necessitam da intervenção direta do Estado para acessar este direito?

ALCIMAR DAS CHAGAS RIBEIRO (ACR): Olhando com cuidado a trajetória temporal das receitas de royalties de petróleo e seus reflexos na economia regional e, sobretudo, em Campos dos Goytacazes, podemos afirmar, claramente, que a gestão dos mesmos recursos tem sido um desastre. A cidade de Campos dos Goytacazes até sofreu uma certa transformação em termos de modernidade, entretanto a sociedade não avançou a sua condição de bem-estar. No período de 2000 a 2004 o esforço de investimento, oriundo das transferências correntes, alcançou o seu melhor momento com a utilização média de 60% desses recursos. Importante observar que as receitas de royalties de petróleo ainda eram muito pequenas. Contraditoriamente, o período de 2005 a 2014 representou uma década de opulência, onde as transferências constitucionais ultrapassavam a casa dos 80% das receitas correntes e as rendas do petróleo tinham grande relevância. Nesse momento, os gestores perderam a grande oportunidade de potencializar o investimento público e o bem-estar da população, lançando mão desses mesmos recursos para infraestrutura social e econômica. Ao contrário, mantiveram o investimento em uma média de 20% dessas transferências, priorizando o aumento do custeio e da máquina pública. Claramente um projeto de poder. Não observaram sequer que a partir de 2009 a Bacia de Campos começou a perder produtividade, fato que iria refletir futuramente nas receitas orçamentária do município. O biênio de 2014 e 2015 foi afetado pela crise do setor de petróleo e gás, impactando seriamente o munícipio, em função da sua dependência frente o setor. A fragilidade econômica do município é tão grave que, mesmo com a retomada dos investimentos no setor de petróleo, ainda patina sem perspectiva de melhoria da sua economia.   

(BP): O senhor acaba de terminar o seu pós-doutoramento cujo foco foi analisar a capacidade de absorção de externalidades positivas geradas por grandes projetos no estado do Rio de Janeiro por parte dos municípios influenciados pela presença destes megaempreendimentos. Quais foram suas principais descobertas neste seu pós-doutorado?

(ACR):  Acredito que uma verificação importante e que vai no sentido inverso do senso comum, é de que o desenvolvimento socioeconômico no território não depende, necessariamente, de grandes empresas e grandes volumes de recursos financeiros. Megas projetos, especialmente de base em recursos naturais, definitivamente, não garantem a inserção da sociedade local aos seus benefícios. Ao contrário, observamos uma efetiva fuga da riqueza gerada. Esses projetos têm natureza muito diversa da realidade dos espaços periféricos receptores. Eles exigem um padrão de conhecimento não presente nessas localidades, daí a não absorção de trabalhadores e de fornecedores locais. Por outro lado, as lideranças políticas por não entender bem o processo e, naturalmente, por privilegiar estratégias de poder, abre mão de direitos pactuados referentes as medidas mitigatórias que poderiam beneficiar a população. Os resultados quantitativos da pesquisa mostraram uma realidade de baixa produtividade do trabalho e baixo nível de investimento público nesses municípios, apesar do avanço no estoque de emprego, receitas próprias, transferências constitucionais e depósito à vista privado e valor adicionado fiscal. Esse quadro ratifica a fuga de parte relevante da riqueza gerada

(BP): Após 1,5 ano de existência, como o senhor avalia o desempenho do governo comandado pelo prefeito Rafael Diniz em termos da entrega da sua principal promessa de campanha que era melhorar a eficiência da máquina pública do município de Campos dos Goytacazes?

(ACR):  Infelizmente os vícios da velha política não permitem mudanças mais efetivas. Mudam as figuras, mas as práticas são as mesmas. A gestão do atual governo não apresentou nenhuma mudança significativa. A máquina pública continua inchada, as negociações de favorecimento com o Legislativo continuam, a incapacidade de gerenciar as operações terceirizadas são reais, inexiste planejamento de médio e longo prazo e é acentuada a incapacidade de investimento público. Por outro lado, a promessa de aproximação com a universidade e a intenção de apoio ao fomento as atividades tradicionais com alternativa a dependência do petróleo não passam de discurso. Os governantes ouviram falar de certas termologias, mas não tem ideia de como devem implementadas. Portanto, eu diria que o governo não cumpriu com as suas promessas

(BP): Ao longo desse período inicial do governo Rafael Diniz, temos ouvido e lido diversas declarações do prefeito e de alguns de seus principais secretários sugerindo que o município de Campos dos Goytacazes vive a maior crise econômica de sua história, e que eles têm nas mãos uma espécie de “herança maldita” deixada pela administração da prefeita Rosinha Garotinho. Em sua opinião, a tese da herança maldita explica o descompasso que estamos presenciando entre as promessas de campanha e as práticas de governo? Por favor elabore.

(ACR):  Não acredito em herança maldita, o governo passado até imprimiu um nível de investimento público muito interessante, se destacando no país com uma alocação média anual de 18% das receitas correntes. O problema é que junto com o investimento também cresceu o custeio, sem observar a perspectiva de queda dos royalties no tempo. Isso culminou com os déficits orçamentários e, consequente, empréstimos garantidos com royalties futuros. Já o governo atual nada apresentou de solução e, somente, gastou energia identificando culpados, o que não resolve o problema. De fato, não identifico nada de novo

(BP): Como o senhor vê o processo de descontinuação das políticas sociais herdadas de administrações anteriores, e mais especificamente aquelas voltadas para fomentar a geração de renda e empregos? Até que ponto a interrupção dessas políticas serviu para melhorar a eficiência do uso de recursos públicos em Campos dos Goytacazes?

(ACR): Realmente a atuação mais forte do governo foi no corte orçamentário dirigidos para benefícios socias. Evidente que esses programas precisam de auditoria permanente para evitar ralos, mas a decisão pura e simples de corte é contraditória, quando a estrutura de custeio permanece. Conforme já relatado, o governo foi ineficiente na gestão das atividades terceiradas e na implementação do investimento público. A parcela relativa do investimento sobre as receitas correntes caiu de 24,6% em 2016 (último ano do governo anterior) para 0,4% em 2017, evidenciando a manutenção da estrutura de custeio.

(BP): Um dos grandes desafios que o município de Campos dos Goytacazes vem enfrentando desde a promulgação da chamada Lei do Petróleo é usar de forma efetiva os recursos bilionários aportados no tesouro municipal via o pagamento de royalties e participações especiais.  No tocante à atual administração, o senhor tem visto alguma mudança qualitativa no uso destes recursos em relação a outras administrações?

(ACR):  Não, a oportunidade para tal já foi perdida pela inobservância do ponto de inflexão da participação relativa da produção da Bacia de Campos em relação a produção do país em 2009. A Bacia de Campos continuará sua trajetória de declínio da produtividade e, portanto, não garantirá no futuro as rendas presentes. Por outro lado, a ineficácia da gestão pública não permite o equilíbrio das contas pública, em função da substancial estrutura de custeio. No curto prazo não existe solução e, portanto, as expectativas não são das melhores. O discurso sobre pensar a agricultura como alternativa a atual dependência do petróleo é bastante vaga e exige uma visão sistêmica que não é muito comum na esfera pública.

(BP): Tenho notado um grande desapontamento em muitos cidadãos que optaram por votar no prefeito Rafael Diniz e na sua promessa de mudança. Em sua opinião, existe mesmo esse desapontamento? E se sim, este desapontamento é justo ou vivemos uma situação de cobrança exagerada sobre um governo que nem chegou na metade da sua duração?  Em sua opinião, quais têm sido até aqui os principais defeitos e qualidades do governo Rafael Diniz?

(ACR):  Tenho observado um certo desapontamento, especialmente, das lideranças empresariais, em função da fragilidade do comércio da indústria e dos negócios de maneira geral. Mesmo o país atravessando uma situação difícil, o município é produtor de petróleo e sua proximidade com o porto do Açu é uma vantagem potencialmente competitiva que pode ser melhor explorada. Nesse aspecto o poder público tem um papel fundamental que não tem exercido. Apesar de pouco tempo na gestão do município, o governo atual não ousou e optou pelas práticas convencionais, o que foi um grande erro. Com isso, ficam acentuados problemas como: discurso sem prática, não saber ouvir, prioridades das ações no campo político, visão de curto prazo e uso exagerado de culpabilidade ao antecessor.

(BP): O nosso município vive um momento muito delicado da sua história com altos níveis de desemprego e violência. Em sua opinião, quais passos deveriam ser adotados pelo prefeito Rafael Diniz para que possamos iniciar o processo de superação desse momento?

(ACR):  Acredito que uma ação inicial seria se abrir para um processo de governança includente, ou seja, convocar a sociedade civil para um amplo debate sobre os problemas. Descer da condição do todo empoderado e ouvir com comprometimento os interessados. Implementar um planejamento de médio e longo prazo sem medir os riscos políticos em relação ao próximo pleito eleitoral. Entender que as estratégias consideradas de atração de grandes empresas ou do ingresso de investimentos exógenos motivados por grandes estoques de recursos naturais, não resolvem os problemas de desenvolvimento do município. Imagino que a saída tem contornos endógenos, porém é necessário reconstruir confiança entre os principais atores. Um passo adiante diz respeito a construção de diagnósticos mais qualificados que permitam um planejamento de ações que atuem nas questões mais críticas do município, tais como: produção concentrada, baixa escala, altos custos de transação, baixo padrão de produtividade, dificuldade da ação coletiva. Em suma, o município precisa de mais ações privadas e menos governo, ou seja, precisa de atividades produtivas que absorva o trabalho e gere renda capaz de sustentar o ciclo econômico produtivo de longo prazo. Esse processo desafoga o orçamento governamental que passará a cuidar do investimento em infraestrutura social e econômica e da assistência social verdadeira e não populista

(BP): Há algo que o senhor gostaria de abordar que não foi perguntado por mim?

(ACR):  Finalizo com a indicação de que as práticas políticas, de cunho populista, como as observadas, representam o grande entrave para o desenvolvimento em territórios periféricos como a nossa região. Vejo o quadro como consequência do processo de dominância das forças políticas sobre a sociedade, cujas mudanças talvez não ocorram tão rapidamente. Se por esse caminho está complicado, a alternativa de mobilização das lideranças empresárias, culturais, religiosas, intelectuais, dentre outras, precisa acontecer rapidamente. Essa articulação teria um papel ativo na discussão com as lideranças políticas, sobre as estratégias mais viáveis para o desenvolvimento local sustentável. Assim, condições como despir-se das vaidades, comprometimento, coragem, reconhecimento da importância do conhecimento científico e sensibilidade para ação coletiva, precisam ser materializadas no contexto de um projeto para a modernização do município.

No mais, agradeço a oportunidade, esperando ter contribuído para a reflexão sobre o momento atual do município de Campos dos Goytacazes.