Os efeitos dos 2 anos da pandemia da COVID-19 na Uenf

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Por Carlos Eduardo de Rezende*

A Pandemia de COVID-19 trouxe muitos desafios para todos os países e isso não foi diferente para as instituições de ensino superior no Brasil e no mundo. Os países passaram por uma reorganização de procedimentos coletivos na área de saúde para enfrentar um vírus que se espalhou com grande velocidade. Neste mesmo período surgiu um forte movimento negacionista e contra o conhecimento científico em pleno Século XXI. No Brasil, não foi nada diferente, pois à frente do país tivemos vários políticos e médicos pregando o uso de um medicamento que a ciência não aprovava, mas, por fim, a vacinação foi a única saída e a mais correta para controlar a disseminação do vírus. Aliás, cabe ressaltar que esta prática sempre foi muito comum em nosso país, e, por várias gerações, eficaz no controle de outras doenças. Ainda no Brasil, presenciamos, com muita tristeza, a drástica redução nos investimentos na área de ciência e tecnologia.

Na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), o primeiro movimento institucional foi o anúncio do reitor informando que faria uma parceria com a prefeitura para implantar o Laboratório de Referência Regional no Hospital Geral de Guarus (HGG) para emitir diagnósticos do Coronavírus, prevendo inicialmente 56 testes por dia (abril de 2020 Aqui!). Em maio de 2020, nova nota da reitoria dava conta da inauguração do laboratório e o número de análises passava para 100 por dia (Aqui!).

No mês de junho, durante a visita de um parlamentar à UENF, o Reitor solicita recursos para o que chamou de “Povoamento da UENF através da Inclusão Digital”. Embora a matéria enalteça as atividades da reitoria, fica a pergunta, porque as cidades da região não usavam a estrutura do Laboratório de Referência Regional do HGG e outras demandas que foram apresentadas e continuam na mesma? (Aqui!). Continuamos aguardando muitas respostas e resultados por parte desta reitoria. Para nossa surpresa, em setembro a reitoria divulga uma nota sobre o Laboratório Regional de Diagnóstico da COVID-19 onde informa que em agosto as atividades foram interrompidas por falta de material, mas também informa que foram feitos atendimentos no Norte e Noroeste Fluminense.

A informação é um pouco confusa, porque segundo a nota acima, as prefeituras não estavam enviando as amostras para os exames e depois informa que foram feitos vários atendimentos (Aqui!). Eu diria que falta uma última matéria dando conta de quantos atendimentos foram feitos por cidade, quantos projetos científicos foram realizados, se houve captação de recursos financeiros e, finalmente, se o Laboratório Regional de Diagnóstico da COVID-19 continua em pleno funcionamento no Hospital Geral de Garus (HGG). Todas essas informações são importantes para a sociedade e a parte relativa aos resultados é imprescindível para quem faz pesquisa sobre o tema. Acredito que seria de grande valia para a comunidade universitária e a sociedade regional tomar conhecimento sobre o que foi realizado neste projeto de cooperação que foi anunciado inúmeras vezes pelo Reitor.

Na nossa região, precisamente em Macaé, cientistas do Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NUPEM/UFRJ) durante o ano de 2020 realizaram mais de 15 mil testes. Este estudo acabou gerando um artigo no ano de 2021 na influente revista internacional Scientific Reports (Aqui!) do grupo de publicações científicas da Nature. Maiores detalhes sobre esta ação podem ser obtidos a partir desta página (Aqui!). Outro aspecto que chamou atenção foi a capacidade do grupo do Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade se mobilizar junto à sociedade para viabilizar o projeto e estabelecer um mecanismo de transparência na prestação de contas dos quase 820 mil reais que foram captados através de diferentes doadores. Este procedimento, por sua vez, gera muita credibilidade pública principalmente em um momento em que as universidades têm sido duramente questionadas e atacadas de diferentes formas. Por este motivo faço questão de deixar aqui o reconhecimento público destas ações (Ver Aqui!) dentro da nossa região.

Escrevi esta introdução porque muito me preocupo com a Uenf e várias exposições públicas têm me incomodado durante este período de 2 anos com a Pandemia de COVID-19 e agora com o retorno presencial às atividades de ensino, pesquisa e extensão, e, administrativas. Primeiro o corpo docente não teve o espaço adequado, e necessário, para discutir sobre as aulas remotas quando foram implantadas e fomos surpreendidos por uma nota conjunta da Reitoria com o DCE (Aqui!). Outro ponto que preciso deixar claro é que passado todo este tempo, muitos dos direitos dos servidores permanecem não implementados (ex.: enquadramentos, progressões, insalubridade), o auxílio tecnológico foi transformado em auxílio retorno, colocando na responsabilidade do servidor a aquisição de material de proteção individual.

Os mais otimistas podem considerar que estamos no fim da pandemia, e, portanto, não seria um problema, mas o fato é que todo material de proteção é de responsabilidade da instituição. Ressalto ainda que, por mais que os indicadores, a redução nas internações e as mortes estejam caindo, a Pandemia ainda não terminou, segundo a Organização Mundial de Saúde. Assim, a instituição deveria ter sido preparada para um retorno seguro. E o que encontramos? A mesma situação de 2 anos atrás, agravada pela falta de cuidados e ajustes durante todo este período em que a instituição esteve sob regime de atividade remota.

O reitor e todos os seus assessores fazem parte de um projeto de continuidade da administração anterior, apenas mudaram suas cadeiras, conhecem, ou deveriam conhecer, os problemas que têm sido expostos sistematicamente pela comunidade universitária, principalmente pela ADUENF, inclusive em relação às salas de aula. Torno a dizer, estes problemas antecedem à Pandemia de COVID-19. Ao longo destes 2 últimos anos percebemos que o gramado da instituição estava cortado e foram instalados um sistema de iluminação com pequenos postes. Ainda neste período, foram comprados alguns equipamentos e realizados contratos de manutenção para vários equipamentos, este movimento é muito importante para nossas pesquisas, mas a instituição não funciona apenas com esses itens.

O mais precioso de uma instituição de ensino, pesquisa e extensão, são as instalações onde formamos os nossos estudantes, ou seja, as salas de aulas e estas precisam ser tratadas de forma adequada. Embora o Reitor tenha vindo a público dizer que a instituição estava totalmente preparada para o retorno, esta afirmativa carece de razoabilidade. As salas não possuem uma ventilação adequada, parte dos equipamentos está sucateada, as carteiras não possuem espaçamento de segurança devidamente marcado, o restaurante universitário ainda não funciona e várias disciplinas têm sido oferecidas em auditórios com um número excessivo de estudantes. A situação se arrastou por 2 anos sem qualquer melhoria das condições das salas aulas e se considerarmos que tivemos uma redução de custos (ex.: telefonia, água, energia, limpeza, no mínimo) com os servidores em casa, encontrar este cenário no retorno as atividades presenciais não é nada agradável e, diria mais, é uma falta de respeito com estudantes e todos os servidores técnicos e docentes.

Concluindo, sei que muitos dos colegas da Uenf não gostam que os problemas da instituição venham a público e que devemos tratar das nossas mazelas internamente, mas no momento isso me parece necessário tendo em vista o descaso e desrespeito perpetuados durante esses últimos anos.


*Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais do Centro de Biociências e Biotecnologia da Universidade Estadual do Norte Fluminense.

Evento para marcar o centenário de Darcy Ribeiro começa na segunda-feira

 

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Universidade, Sociedade e Projeto Nacional no Contexto da Redemocratização Brasileira

07 DE MARÇO DE 2022

Mesa De Abertura – 10:00 ÀS 12:00 H “Do projeto à realidade: o processo de formação da Uenf como uma Universidade do Terceiro Milênio

  • Dr. Carlos Eduardo Rezende (PPG-ERN): professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA), vinculado ao Programa de Pós-graduação em Ecologia e Recursos Naturais; Cientista do Nosso Estado (FAPERJ) e Bolsista de Produtividade (CNPq) e ocupante de vários cargos dirigentes desde a criação da Uenf
  • Dr. Isaac Roitmann: professor emérito da Universidade Brasília (UNB), ex-diretor do CBB, pesquisador emérito do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências

Mediadora: Profa. Dra. Simonne Teixeira – PPGPS/PPGCN

LINK DA TRANSMISSÃO

Mesa 2 – 14:00 ÀS 16:30 H “Experiências e trajetórias no processo de construção de um centro de ciências humanas na Uenf”

  • Dr. Sérgio Arruda de Moura (PPGCL/LEEL): professor associado do Laboratório de Estudos da Educação e da Linguagem (LEEL)
  • Dra. Sônia Martins de Almeida Nogueira (PPGPS/LEEL): professora aposentada do LEEL e do PPGPS, e ex-diretora do CCH
  • Dra. Paula Mousinho Martins, professora associada do Laboratório de Cognição e Linguagem, (PPGPS/LCL)

Mediador: Victor Rizo Schiavo (Doutorando – PPGPS)

LINK DA TRANSMISSÃO

08 DE MARÇO DE 2022

Mesa 3 – 10:00 ÀS 12:00 H “ A concepção de universidade em Darcy  Ribeiro e os desafios encontrados no momento da criação da Uenf”

  • Dr. Glauber Rabelo Matias (UFRRJ): professor adjunto do Departamento de Ciências Sociais; pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas Urbanas e Regionais; o Núcleo de Pesquisa em Ativismos, Resistências e Conflitos e Núcleo de Estudos em Transculturação, Identidade, Reconhecimento.
  • Roberto Henriques: Historiador, gestor público e dirigente partidário

Mediador: Prof. Dr. Giovane do Nascimento (PPGPS/PPGCL/LEEL)

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Mesa 4 – 14:00 ÀS 16:30 H “O projeto educacional em Darcy Ribeiro e os desafios na consolidação da proposta de universidade”

  • Profa. Dra. Libânia Nacif Xavier (UFRJ): professora titular da UFRJ, membro do Programa de Pós-Graduação em Educação e sócia fundadora da Sociedade Brasileira de História da Educação
  • Prof. Dr. Wanderley de Souza (UFRJ): Primeiro reitor da Uenf, ex-secretário estadual de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, membro da Academia Brasileira de Ciências.

Mediador: Prof. Dr. Marcos A. Pedlowski (PPGPS/PGERN/LEEA)

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Programa de Políticas Sociais da Uenf celebra Centenário de Darcy Ribeiro com jornada sobre “Universidade, Sociedade e Projeto Nacional no Contexto da Redemocratização Brasileira”

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Para marcar o Centenário do nascimento de Darcy Ribeiro, o Programa de Pós Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) irá realizar uma jornada para não celebrar a efeméride, mas principalmente refletir sobre o contínuo impacto do pensamento de uma das mentes mais inquietas do Brasil contemporâneo.

Esta jornada que marcará a retomada das aulas presenciais no âmbito do Programa de Políticas Sociais no após dois anos de atividades remotas também fará um esforço para refletir sobre os impactos de Darcy Ribeiro na constituição de um novo modelo institucional para instalar a Uenf na região Norte Fluminense.

Para levar estes objetivos a cabo, a Coordenação do Programa de Políticas Sociais definiu a realização de quatro mesas de debate cujos objetivos é refletir sobre a influência de Darcy Ribeiro sobre a criação não apenas da Uenf, mas da luta pela democratização do acesso à educação para todos os brasileiros, mas principalmente para aqueles segmentos que estiveram historicamente impedidos de acessar as escolas e, principalmente, universidades.

Abaixo a programação completa desta jornada que reúne diferentes personagens da luta pela consolidação da Uenf desde o momento em que a população de Campos dos Goytacazes se mobilizou para obter a criação de uma universidade pública e gratuita que garantisse que a juventude do Norte Fluminense pudesse ter acesso a um ensino universitário de alta qualidade.

Universidade, Sociedade e Projeto Nacional no Contexto da Redemocratização Brasileira

07 DE MARÇO DE 2022

Mesa De Abertura – 10:00 ÀS 12:00 H “Do projeto à realidade: o processo de formação da Uenf como uma Universidade do Terceiro Milênio

  • Dr. Carlos Eduardo Rezende (PPG-ERN): professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA), vinculado ao Programa de Pós-graduação em Ecologia e Recursos Naturais; Cientista do Nosso Estado (FAPERJ) e Bolsista de Produtividade (CNPq) e ocupante de vários cargos dirigentes desde a criação da Uenf
  • Dr. Isaac Roitmann: professor emérito da Universidade Brasília (UNB), ex-diretor do CBB, pesquisador emérito do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências

Mediadora: Profa. Dra. Simonne Teixeira – PPGPS/PPGCN

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Mesa 2 – 14:00 ÀS 16:30 H “Experiências e trajetórias no processo de construção de um centro de ciências humanas na Uenf”

  • Dr. Sérgio Arruda de Moura (PPGCL/LEEL): professor associado do Laboratório de Estudos da Educação e da Linguagem (LEEL)
  • Dra. Sônia Martins de Almeida Nogueira (PPGPS/LEEL): professora aposentada do LEEL e do PPGPS, e ex-diretora do CCH
  • Dra. Paula Mousinho Martins, professora associada do Laboratório de Cognição e Linguagem, (PPGPS/LCL)

Mediador: Victor Rizo Schiavo (Doutorando – PPGPS)

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08 DE MARÇO DE 2022

Mesa 3 – 10:00 ÀS 12:00 H “ A concepção de universidade em Darcy  Ribeiro e os desafios encontrados no momento da criação da Uenf”

  • Dr. Glauber Rabelo Matias (UFRRJ): professor adjunto do Departamento de Ciências Sociais; pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas Urbanas e Regionais; o Núcleo de Pesquisa em Ativismos, Resistências e Conflitos e Núcleo de Estudos em Transculturação, Identidade, Reconhecimento.
  • Roberto Henriques: Historiador, gestor público e dirigente partidário

Mediador: Prof. Dr. Giovane do Nascimento (PPGPS/PPGCL/LEEL)

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Mesa 4 – 14:00 ÀS 16:30 H “O projeto educacional em Darcy Ribeiro e os desafios na consolidação da proposta de universidade”

  • Profa. Dra. Libânia Nacif Xavier (UFRJ): professora titular da UFRJ, membro do Programa de Pós-Graduação em Educação e sócia fundadora da Sociedade Brasileira de História da Educação
  • Prof. Dr. Wanderley de Souza (UFRJ): Primeiro reitor da Uenf, ex-secretário estadual de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, membro da Academia Brasileira de Ciências.

Mediador: Prof. Dr. Marcos A. Pedlowski (PPGPS/PGERN/LEEA)

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A internet, os idiotas da aldeia e o debate sobre as condições mínimas necessárias para a volta das aulas presenciais na Uenf

umberto eco

Ao receber o título de doutor honoris causa em Comunicação e Cultura, na Universidade de Turim, o escritor e filólogo italiano Umberto Eco vaticinou que o “drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade. Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel. Antes, os idiotas da aldeia tinham direito à palavra em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade“.  Morto em 2016, Eco nem chegou a ver a ascensão ao poder de figuras como Donald Trump e Jair Bolsonaro que bem representam o resultado político da internet sobre o sistema político e, pior, sobre a vida política cotidiana em um sistema capitalista cada vez mais anti-democrático e injusto.

A lembrança a Umberto Eco me veio à cabeça assim que li alguns comentários postados em redes sociais sobre um assunto que virou matéria jornalística na cidade de Campos dos Goytacazes a partir das ações da Associação dos Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Aduenf) para denunciar a falta de condições para um retorno seguro às atividades presenciais (incluindo aulas) naquela que Darcy Ribeiro gostava de chamar de “Universidade do Terceiro Milênio”.

O aparecimento do assunto na forma de matéria jornalística foi o que bastou para uma pequena legião de “idiotas da aldeia” se pusesse em movimento para atacar os professores da Uenf com adjetivos pouco lisonjeiros, a começar por “vagabundos”.   E o pior que alguns desses que se deram ao trabalho de dirigir esses ataques foram ou ainda são estudantes da instituição, o que evidencia que não estamos fazendo o nosso trabalho de criar os profissionais com consciência cidadã que Darcy Ribeiro tanto desejou que a universidade do Terceiro Milênio formasse.

A questão é que se esses “idiotas da aldeia” se dessem ao trabalho de minimamente se informar sobre o que aconteceu dentro da Uenf desde o início da pandemia da COVID-19, eles saberiam que ao contrário do que eles andaram escrevendo, os professores da Uenf ralaram muito para manter a instituição funcionando remotamente.  A quantidade de aulas dadas, o número de reuniões de realizadas, as bancas de mestrado e doutorado realizadas? Nada disso interessa aos “idiotas da aldeia”, pois nada disso lhes interessa, pois o que vale mesmo é descarregar sua ira para os que são percebidos como “vagabundos”.

Entretanto, não culpa os “idiotas da aldeia” por serem tão assim, digamos, idiotas. Na verdade, a culpa é dos professores da Uenf que bancaram com seus salários corroídos pela inflação os custos de energia elétrica e serviços de internet que, ressalte-se, são inexistentes dentro da Uenf. É que dentro do campus Leonel Brizola, o que continua existindo é uma rede interna que não passa de uma “lesma lerda” quando comparada com aquelas que os professores contrataram a custo pessoal para seguirem pesquisando, orientando e dando aulas desde as suas casas. Tivessem eles se recusando a bancar os custos de trabalhar em suas casas, o mais provável é que os idiotas da aldeia os rotulassem da mesma forma que estão agora. 

Finalmente, não me preocupam os ataques dos idiotas da aldeia, pois estes refletem o ambiente de hostilidade política criada pelos que comandam o Brasil neste momento, e que se revezam em ataques cotidianos a tudo que lhes parece diferente. O que me preocupa é que passados dois anos de pandemia, e com muito trabalho duro realizado, os professores da Uenf não tenham conseguido expor tudo o que foi feito para que a instituição possa voltar a ter aulas presenciais como se nada tivesse feito para evitar a descontinuidade de nossas atividades essenciais.

 

O centenário de Leonel Brizola passou em meio a um curioso silêncio no campus da Uenf

MVC-066FLeonel Brizola visitou o campus da Uenf em junho de 2001 para prestar solidariedade à luta da autonomia universitária da universidade que havia criado em 1993

Por Carlos Eduardo de Rezende*

O ano de 2022 carrega uma responsabilidade sobre a história de criação para a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, a Uenf, ou Universidade do Terceiro Milênio como seu idealizador, o professor Darcy Ribeiro, sempre a tratou. Exatamente neste ano, dois dos principais responsáveis pela criação da UENF completariam 100 anos. Em 22 de janeiro, Leonel Brizola, e, em 26 de outubro, Darcy Ribeiro. Estes dois grandes personagens da História Política Brasileira, sempre lideraram grandes projetos educacionais e entre eles a criação da Uenf, em Campos e em Macaé. Hoje, a UENF está presente em vários municípios do Estado do Rio de Janeiro através do Consórcio CEDERJ e nossos alunos precisam conhecer a trajetória institucional com exatidão, por isso, a importância dos registros históricos.

Esperei até o dia 31 de janeiro de 2022 para escrever alguma coisa pela celebração dos 100 anos do Leonel de Moura Brizola por entender que a Uenf deveria se manifestar através da sua reitoria (Reitor, Vice-Reitora, Pró-Reitores ou Chefe de Gabinete). A história de uma instituição, no meu entendimento, tem muita importância para o seu futuro e o silêncio do grupo que compõe esta Reitoria, diante de uma data que considero relevante para nossa instituição, me causou tremendo desconforto.

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Leonel Brizola assiste ao lado de Oscar Niemeyer a uma explanação de Darcy Ribeiro sobre o projeto da Uenf

A Uenf necessita realmente que registros fidedignos sejam estabelecidos, pois ao longo destes 28 anos, percebo tentativas equivocadas de escrever passagens sobre a criação da UENF.  A celebração dos 25 anos de existência da UENF não foi publicada até hoje e considerando a possibilidade de publicações de documentos na forma de E-Book não existe razão para que este material ainda não esteja disponível.

Retomando o início da Uenf, a mobilização da sociedade regional pela criação de uma universidade foi um sucesso e foi incluída na constituição estadual onde dizia que “O estado criará a Universidade Estadual do Norte Fluminense, com sede em Campos dos Goytacazes, no prazo máximo de três anos a partir da promulgação da Constituição”. A Constituição foi promulgada em 1989 e o prazo para criação da Uenf seria até 1992, mas apenas em agosto de 1993 iniciamos as atividades na instituição. Abaixo selecionei algumas passagens na trajetória inicial da Uenf e Leonel Brizola, pois são muitos e não seria possível em uma curta nota abordar a todas.

– Em um primeiro momento e através do Decreto 16.357/91 criou o estatuto inicial da  Uenf que previa a incorporação das instituições de ensino superior vinculadas à Fundação Cultural de Campos e à Fundação Benedito Pereira Nunes;

– Leonel Brizola coloca Darcy Ribeiro à frente do Programa dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEP) e também da criação da Uenf. Neste momento, tudo começou a mudar com Darcy Ribeiro liderando o projeto da Uenf. Brizola sempre foi considerado um centralizador, mas a Darcy e Niemeyer ele sempre depositou total confiança e liberdade para todas as ações. Este trio foi o alicerce fundamental para a materialização da Uenf, mas a área de educação sempre obteve um tratamento muito especial por parte do Brizola sendo iniciada no Rio Grande do Sul passando por inúmeros cargos políticos até a chegada ao Governo do Estado do Rio de Janeiro. 

– O uso dos CIEPS foi um fator determinante assim como a liberação de recursos do governo estadual para a construção da Uenf, em tempo recorde, foi uma das experiências mais incríveis que pude presenciar. A cada visita que fazíamos a Campos, tínhamos uma evolução da construção e o pátio de obras funcionava 24h por dia.

– Leonel Brizola através da Faperj liberava recursos financeiros para grupos de pesquisa e todos vinham com pacotes para compra de equipamentos e todas as condições necessárias para realizar pesquisas. Esta política pública atraiu inúmeros pesquisadores estrangeiros e brasileiros, inclusive vários membros a Academia Brasileira de Ciências. A vinda destes profissionais propiciou que a UENF iniciasse os cursos de graduação e pós-graduação simultaneamente.

– O prestígio e confiabilidade política de Brizola, assim como algumas lideranças acadêmicas que estava a frente do projeto Uenf, foram fundamentais para a atrair cientistas, jovens e sêniores, assim como sua credibilidade política na região. Em uma das vindas a Campos paramos em Macaé para o almoço e na comitiva estava o Prof. Carlos Alberto Dias que escolheu a cidade de Macaé para instalar o Laboratório de Engenharia e Produção de Petróleo e o primeiro curso de graduação de Engenharia e Produção de Petróleo do Brasil.

– As boas relações políticas de Leonel Brizola em Campos proporcionaram que a UENF iniciasse suas atividades, em 1992, na Fundação Norte Fluminense de Desenvolvimento Regional (FUNDENOR) que nos abrigou por muitos anos, inclusive possibilitando o início do Curso de Medicina Veterinária e experimentos com animais de biotério. Nossas relações institucionais permanecem e devem continuar sendo fortalecidas.  

– Em 1992, a cidade do Rio de Janeiro abrigou a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO 92) e foi exatamente nesta reunião que Leonel Brizola assinou acordos comerciais com a Alemanha liderada pelo Chanceler Helmut Kohl. A partir deste acordo vários equipamentos alemães foram adquiridos possibilitando vários grupos iniciarem suas pesquisas com o que havia de melhor, por exemplo, na área de microscopia convencional e eletrônica.

Existem muitas passagens de Leonel Brizola na UENF, mas teríamos que transformar uma nota muito maior, mas sua importância não pode jamais ser negligenciada e por isso me chamou atenção a falta de uma manifestação formal por parte da administração da instituição para toda comunidade universitário assim como para a regional.

Concluindo, deixo registrado o texto que marca a entrada da UENF: O Governador Leonel Brizola fez erguer esta Universidade Estadual do Norte Fluminense, para que no Brasil floresça uma civilização mais bela, uma sociedade mais livre e mais justa, onde viva um povo mais feliz.

Salve Leonel Brizola!!!

*Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB) da Uenf e esteve entre o grupo de profissionais que deram inicio ao funcionamento da instituição em 1993.

O silêncio da Uenf sobre o centenário de Darcy Ribeiro como síntese e oportunidade

darcy-ribeiroO antropólogo, historiador, sociólogo, escritor Darcy Ribeiro (Foto: Divulgação/Fundação Darcy Ribeiro)

Em 2022 será celebrado o centenário de uma das mentes mais profícuas e irrequietas da historia recente do Brasil, o antropólogo, historiador, e escritor mineiro Darcy Ribeiro.  Para celebrar essa efeméride, várias instituições já começaram a organizar celebrações, a começar pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) que fez de 2022 um ano de celebração da obra e do pensamento de Darcy.

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Curiosamente a última das universidades criadas por Darcy Ribeiro, a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) se mantém até aqui em relativo silêncio (para não dizer absoluto silêncio) sobre o que fará ao longo de 2022 para celebrar a obra do homem que esteve no centro da criação de um modelo institucional que se tem provado revolucionário, ainda que adotado muito aquém do planejado.

Atribuo esse esquecimento não a um simples lapso de memória, mas a um grande desconhecimento por parte da atual reitoria da Uenf de quem foi Darcy Ribeiro, e do significado da herança posta por ele na forma de um marco que repousa relativamente discreto na entrada do campus Leonel Brizola em Campos dos Goytacazes.  Neste marco está escrito que “o governador Leonel Brizola fez erguer esta Universidade Estadual do Norte Fluminense para que no Brasil floresça uma civilização mais bela, uma sociedade mais livre e mais justa, onde vive um povo mais feliz“. É esse destino manifesto ensejado por Darcy Ribeiro que esse esquecimento do seu centenário mais afronta, o que, me acreditem, não chega a ser surpreendente por ser “distraída”.

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A minha expectativa é que defrontada com o anúncio da celebração que a Uerj fará pela vida e obra de Darcy Ribeiro, a reitoria da Uenf se mova para tardiamente e coloque algo no calendário para marcar o centenário do fundador da universidade que nasceu após intensa mobilização da população de Campos dos Goytacazes.  Entretanto, ainda que isso ocorra, penso que os que entendem minimamente a importância da Uenf para a educação dos filhos da classe trabalhadora devam se organizar para realizar atividades que celebrem não o Darcy Ribeiro morto, mas esmiuçar as causas de sua infindável inquietação, que estão mais vivas do que nunca em uma sociedade brasileira que é ainda menos livre, mais injusta e infeliz do que quando Darcy Ribeiro ainda estava vivo em 1997.

De forma objetiva, é preciso celebrar o Darcy Ribeiro irrequieto e explosivo que, em vida, criou não apenas a Uenf, mas também os CIEPS e a Universidade Nacional de Brasília (UNB). É desse Darcy que precisamos neste momento agudo da história brasileira. Certamente ele não estaria “batendo pau” para governantes que agem conscientemente para destruir a parte revolucionária do seu legado.

Viva o centenário de Darcy Ribeiro! Viva a Uenf! Viva a universidade pública, gratuita e democrática!

A Uenf promove o lema “Aqui é Ciência”, mas sem oferecer as condições financeiras para seus jovens cientistas sobreviverem com dignidade

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Por Carlos Eduardo de Rezende*

A Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) tradicionalmente sempre foi inovadora em vários pontos acadêmicos e científicos. Quando iniciamos nossas atividades em 1993 tínhamos um salário diferenciado; os bolsistas de doutorado que aqui estiveram também recebiam um adicional de bolsa e, portanto, aquele momento foi altamente atrativo para doutorandos, recém-doutores e para professores seniores. Aliás, temos hoje na Uenf vários professores que chegaram aqui como doutorandos e poderiam atestar esta política, mas conhecendo alguns, sei que não irão de pronunciar e mais, vão justificar que era outro momento. Porém, sou a favor de valores que respeitem minimamente o profissional ao invés de aderir a política de precarização do trabalhador. Enfim, cada um deve respeitar sua trajetória com a verdade, e não fazer com terceiros o que não gostaria que fosse feito com ele próprio.

A bolsa de Pós-Doutorado, e todas as outras formas de fomento acadêmico, deveriam respeitar alguns princípios básicos quanto à dignidade e respeito ao profissional que possui graduação, mestrado e doutorado. Ninguém está fazendo favor para ninguém, espero que entendam isso, mas, a princípio, esta parece a lógica do status quo. Por mais de uma vez, expressei que um dos problemas que temos atualmente na pós-graduação da UENF, e no país, é tratar nossos mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos como alunos de graduação. Não podemos continuar com esta postura, pois não são mais alunos, mas profissionais em fase de aprimoramento dos seus conhecimentos, e responsáveis juntamente com seus/suas orientadores/as ou supervisores/as por uma parcela apreciável da geração de conhecimento no país (~ 95%). Inclusive, tenho estado junto com o presidente da Comissão de Educação da Alerj, Deputado Flavio Serafini (PSOL), discutimos para que o tempo de pós-graduação e pós-doutorado seja computado, assim como o tempo de escolas militares e agrícolas.

Na UENF, de uns tempos para cá,  esse problema foi aprofundado nas duas últimas gestões, ou seja, a atual e anterior, se optou por uma política institucional casuística e  com viés autoritário. A UENF diferente de muitas instituições brasileiras têm um grande número de bolsas a partir de um recurso descentralizado oriundo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), um importante recurso e diferencial na política institucional. Estes recursos proporcionaram a criação de bolsas, como de pós-doutorado e professor visitante nos moldes de instituições de fomento, assim como uma farta modalidade de bolsas para os programas da Pró-Reitoria de Extensão. Tudo isso seria excelente se tivéssemos realmente uma política científica competitiva para atrair profissionais, e não simplesmente instituir uma política de sub-valorização dos profissionais que visa aparentemente ampliar números e explorar a falta de oportunidades para pesquisadores brasileiros de terem empregos em regime de estabilidade.

Na Uenf, por vários semestres temos recebido editais para bolsa de pós-doutorado, mas é importante ressaltar que  os valores que estão sendo praticados são totalmente divergentes do valores das agências estaduais e do CNPq (Tabela 1). 

Tabela 1: Valores comparativos de diferentes modalidades de bolsas a partir do doutorado

UENF PD – R$ 3.300,00

FAPERJ e as várias modalidades de bolsas

PD (FAPERJ/CAPES) Recém Doutor – R$ 4.100,00 mais R$ 1.000,00 de taxa de bancada

PD Recém Doutor – R$ 4.100,00

PD Nota 10 – R$ 5.200,00 mais R$ 1.000,00 de taxa de bancada PD Sênior – R$ 4.700,00

CNPq e as várias modalidades de bolsas

Pós-Doutorado Sênior – R$ 4.700,00

Pós-Doutorado Júnior – R$ 4.100,00

Professor Visitante – R$ 5.200,00

Professo Visitante Especial – R$ 14.000,00

FAPESP e as modalidades de bolsas

 

PD – R$ 7.373,10

 

Jovem Pesquisador – R$ 8.377,50

FUNCAP e as várias modalidades de bolsas e com uma definição bem interessante.

Pesquisador Sênior (≥ 10 anos) – Tempo Parcial (R$ 7.000,00 a R$ 8.000,00)  e Tempo Integral (R$ 12.000,00 a R$ 14.000,00)

Pesquisador Pleno (≥ 5 anos) – Tempo Parcial (R$ 6.000,00 a R$ 7.000,00)  e Tempo Integral (R$ 8.000,00 a R$ 10.000,00) 

Pesquisador Junior (Recém Doutor) – Tempo Parcial (R$ 4.000,00 a R$ 5.000,00)  e Tempo Integral (R$ 6.000,00 a R$ 8.000,00)

Não precisa ser muito atento para ver que as bolsa  distribuídas a partir da política estabelecida pela Reitoria da Uenf e aplicada pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação está abaixo da linha de dignidade, sendo totalmente incompatível com a prática de várias agências que financiam pesquisa no nosso país.

A minha consideração sobre este tema é que perdemos, institucionalmente, a noção de uma política que possa manter o que esta universidade sempre pregou, desde que iniciamos nossas atividades há 28 anos.  Todas as fundações, sem exceção, possuem valores mais atrativos do que a bolsa ofertada pela UENF através desta verba descentralizada, e que poderia ser usada de forma mais responsável para retomarmos um Programa de Excelência para atração de Recém Doutores e também para Pesquisadores Visitantes (Brasileiros e Estrangeiros).

Finalmente, ainda que a UENF possua possibilidade financeira, hoje está nas mãos de uma liderança apequenada, voltada para o assistencialismo e que se distancia de uma política institucional para indução e fortalecimento da ciência. Portanto, o lema “Aqui é Ciência” está comprometido diante do momento que vivemos no país e na Uenf, e o preço  das opções do presente será pago mais adiante. A única forma de mudar esse estado de coisas será os colegiados e conselhos institucionais atuaem de forma mais incisiva.

Carlos Eduardo de Rezende é Professor Titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB), Pesquisador IB do CNPq e Cientista do Nosso Estado da FAPERJ. Ex Vice-Reitor e Pró-Reitor de Graduação da UENF, Ex Diretor do Centro de Biociências e Biotecnologia, Ex Chefe do LCA e membro do Grupo de Docentes Fundadores da Uenf.

Associação de docentes faz plenária virtual para lançar campanha em defesa da Uenf

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A Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), fundada por Darcy Ribeiro sob o governo de Leonel Brizola, tem cumprido ao longo destes 27 anos um importante papel na região norte fluminense. Ao unir ensino, pesquisa e extensão na cidade de Campos dos Goytacazes, Macaé e polos espalhados pelo Rio de Janeiro, a UENF formou alunos em nível de graduação e pós-graduação com excelência reconhecida nacionalmente.

No entanto, desde 2016, nossa comunidade enfrenta dificuldades que comprometem este projeto. Não só as crises orçamentárias, mas as condições de trabalho docente são elementos centrais para a campanha que iniciamos neste mês de novembro.

A campanha “Em defesa da Uenf” é uma iniciativa da ADUENF e objetiva questionar a precariedade vivida em nossa Universidade, construir coletivamente saídas a curto prazo e chamar atenção para defesa dos direitos de docentes, técnicos e demais categorias na Uenf durante o período pandêmico e na transição para um possível retorno presencial. Além disso, evidenciar como os cortes na ciência e tecnologia afetam a Universidade realizando um debate aberto sobre democracia interna e isonomia entre as instituições de ensino superior.

Saídas deste porte devem ser construídas coletivamente e por esta razão convidamos todos associados e todas associadas para participarem de nossa Plenária Virtual em Defesa da Uenf a ser realizada no dia 23 de novembro às 16 horas.

 

Mesa de abertura da VIII Jornada de Políticas Sociais da UENF aponta para os grandes desafios que estão diante dos brasileiros

abertura viii jornada

Começou em grande estilo a VIII Jornada de Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) que teve como participantes a professora Eblin Joseph Farage (UFF), ex-presidente do ANDES-N, e pelo professor Ildeu de Castro Moreira (UFRJ), ex-presidente da SBPC, e que teve a mediação da professora Ana Lúcia Sousa (UFRR) (ver vídeo completo abaixo).

A importância dessa mesa foi que seus componentes se esmeraram em apresentar uma visão crítica acerca da realidade em que estamos envolvidos neste momento, sem que isso significasse a perda da perspectiva de que existem caminhos para superar os efeitos dramáticos trazidos pela vigência de um governo, no caso o de Jair Bolsonaro, que se esmera em destruir um sistema mínima de proteção aos brasileiros mais afetados pela longa crise econômica em que estamos mergulhados, a qual foi aprofundada pela vigência da pandemia da COVID-19 e a forma desastrosa pela qual este mesmo governo vem tratando.

Como docente do Programa de Políticas Sociais da Uenf, tenho que enfatizar que gerar debates embasados e críticos sobre a realidade brasileira é uma das contribuições que a universidade pública pode dar para que consigamos superar um contexto tão difícil como o que enfrentamos neste momento.

Uma palavra específica de agradecimento ao professor Ildeu Castro Moreira que gentilmente atendeu um convite para estar nesta mesa, já que ele é uma pessoas particularmente atarefada, mas que nunca se furta dar a sua contribuição para a construção do processo de construção de uma nova sociedade.

A VIII Jornada de Políticas Sociais da Uenf continua até amanhã via o canal oficial do PGPS/Uenf no Youtube.

Wladimir Garotinho e a miragem da “faculdade pública” na Baixada Campista

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Li com um misto de curiosidade e incredulidade uma notícia bem documentada do site “Campos 24 horas na qual o prefeito Wladimir Garotinho e o secretário estadual de Ciência e Tecnologia, o ilustre desconhecido “Doutor” Serginho (PSL), na qual é anunciada a criação de uma tal “faculdade pública” (na verdade um “Centro de Inovação Tecnológica”),  nas dependências  de uma fábrica de macarrão, que foi construída pela empresa Duvenêto Indústria de Alimentos Ltda com  recursos do Fundo de Desenvolvimento de Campos (Fundecam), e que fechou as portas deixando uma dívida de R$ 95 milhões para os cofres públicos municipais (ver vídeo abaixo).

Ainda que as intenções propaladas pelo prefeito de Campos dos Goytacazes façam sentido, alguém precisa informar a ele duas coisas básicas. A primeira é que asfixiada pelo administração estadual da qual o Dr. Serginho faz parte, a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) mal consegue pagar suas contas com as obrigações que já tem, o que só não é mais grave porque boa parte dos custos com energia, água e internet foram internalizadas pelos servidores que estão trabalhando em casa.  Essa crise financeira ficará explícita em breve, pois a reitoria da Uenf está impondo uma volta ao trabalho presencial sem a garantia do oferecimento de equipamentos de proteção individual (EPIs) aos servidores e professores da instituição.

A segunda é que adiantar a participação da Uenf em uma empreitada obscura como a criação dessa “faculdade pública” sem consulta prévia é o caminho mais rápido para isso não dar em nada. É que a a reitoria da Uenf pode até aparecer em fotos promocionais com os tradicionais apertos de mão (o atual reitor, aliás, se mostrou um expert nesse tipo de ação promocional), mas vai ficar nisso mesmo, pois objetivamente quem decide se haverá participação são servidores que acumulam perdas salariais de quase 50% só nos últimos sete anos, e que estão para ter tolhidos uma série de direitos graças ao pacote de maldades enviado à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALerj) pelo governo acidental Cláudio Castro. Daí que trabalhar mais sob essas condições só na base do chicote. Como o governo Bolsonaro, do qual a família Garotinho é aliada, ainda não conseguiu abolir a Lei Áurea, eu diria que anunciar a participação da Uenf dá alguma legitimidade ao anúncio, mas não garantirá absolutamente nada.

Há que se dizer que a necessidade de se oferecer formação profissional para jovens campistas, especialmente os que vivem na Baixada Campista, é fundamental para melhorar a situação dos quase 190 mil campistas que vivem em condições de pobreza ou extrema pobreza, segundo dados do governo federal. Mas não será oferecendo miragens que isso será feito. E da forma que está posto, esse anúncio de uma “faculdade pública” não passa disso, uma miragem que a realidade irá rapidamente desmanchar.

Finalmente, uma dica positiva para o prefeito Wladimir Garotinho. A Uenf,  após razoável negociação na Alerj, assimilou em 2019 a Escola Técnica Estadual Agrícola Antônio Sarlo (ETEAAS), instituição de trajetória fundamental na cidade de Campos dos Goytacazes. Entretanto, a prometida parceria com a Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes nunca saiu do papel, o que já era esperado já que o ex-prefeito Rafael Diniz não era muito amigo da educação pública.  A dica é a seguinte: que tal apoiar o projeto de recuperação da Antonio Sarlo? Seria bem menos miragem e mais realidade ancorada na história da educação campista.