Afinal, o que Ouvidoria da UENF ouve?

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Nas últimas semana, a “Ouvidoria da UENF” ganhou grande publicidade em função de não ter sido usada para a realização de uma denúncia sobre um suposto caso de assédio sexual contra uma estudante de graduação do curso de Ciências Sociais.  A grande reclamação da reitora da Uenf na reunião do Conselho Univeristário contra quem postou uma espécie de dazibao na porta de um banheiro  próximo de seu gabinete era de que a pessoa deveria ter procurado a Ouvidoria da Uenf em vez de usar, digamos assim, a via chinesa.

Rodrigo da Silva on X: "Em chinês se chama dazibao (大字報) e significa  “jornal mural afixado na rua”. Durante a Revolução Cultural, essa era a  rede social. Os chineses usavam esses murais

Em chinês se chama dazibao (大字報) e significa “jornal mural afixado na rua”

Pois bem, resolvi procurar a página da Ouvidoria da Uenf para saber mais das atividades desse que seria o mecanismo preferencial de encaminhamento de denúncias de supostos malfeitos que ocorram dentro da Universidade Estadual do Norte Fluminense.  Uma primeira coisa que me chamou a atenção na busca pela página da Ouvidoria é que não é uma coisa muito fácil encontrá-la, pois a mesma está depositada dentro do Portal da Transparência da Uenf, sem que esteja apartentemente visível em outros acessos.

Passada a fase do encontrar onde está, passei a analisar o que está informado na página da Ouvidoria. Uma primeira coisa é que a mesma está defasada, pois os últimos relatórios depositados se referem ao ano de 2022. Além disso, o mesmo ocorrendo com o montante de atendimentos feitos pela Ouvidoria que teria recebido 45 reclamações em 2022 (contra 44 em 2021, 35 em 2020, e 47 em 2019).

Os relatórios estatísticos  assinados pelo ouvidor da Uenf se mostram particularmente bastante opacos, pois apenas apresentam porcentagens dos tipos de reclamação, sem que haja, por exemplo, maiores explicaçõessobre o que seriam as reclamações, as razões para terem arquivadas ou atendidas, ou as questões objetivas que foram reclamadas, na medida em que só foram apontados os itens gerais em que as mesmas foram classificadas.

Uma curiosidade nos quatro relatórios disponibilizados, em um total de 181 reclamações não foi apontado de forma explícita que alguma delas tenha se referido a casos de assédio (moral ou sexual). A única indicação é de que em 2 dos 4 quatro quadrimestres de 2022, as reclamações teriam sido feitas contra posturas de docentes, sem que fosse explicitado quais. Mas nada nos relatórios aponta que tenham sido casos de assédio. Assim, das duas uma, ou na Uenf inexistem casos de assédio ou os que eventualmente ocorreram no período relatado não foram denunciados. 

Por outro lado, a não ser que os relatórios da Ouvidoria da Uenf estejam depositados fora da sua página oficial, o que fica demonstrado é que a Uenf não possui efetivamente o que canal que tem sido propalado, abrindo a hipótese de que o universo de problemas suscetíveis a serem apurados sejam bem maiores do que aqueles que viram reclamações.  Aliás, quem é o atual ouvidor da Uenf e qual é a duração, digamos, do seu mandato?

Finalmente, um problema com uma ouvidoria aquém da demanda existente é exatamente abrir caminho para que os eventuais malfeitos apareçam por outros canais, goste a reitoria da Uenf ou não. E, sim, que a atual conformação desse canal não o torna a panacéia que se andou apregoando desde que a notícia do dazibao foi divulgada no apagar das luzes da última reunião do Conselho Universitário da Uenf.

Uenf e a disseminação de fake news: o que há de novo sob o sol de Parador?

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Desde a última 6a. feira (13/7) a comunidade universitária da Uenf permanece imersa em um debate que foi iniciado por anúncio feito pela reitora Rosana Rodrigues de que uma denúncia anônima sobre um suposto caso de assédio sexual seria uma espécie de prova de que estamos sob a influência de uma campanha fake news (ou em português, notícias falsas). 

Essa associação entre uma denúncia anônima que teria sido colocada em um banheiro no andar em que a reitora possui seu gabinete e uma campanha de fake news contra a Uenf foi materializada pela apresentação de uma proposta de moção de repúdio proposta na reunião do Conselho Universitário, e que ainda está por ser tornada pública.

Particularmente mantenho reservas sobre a associação que está sendo feita pela reitoria da Uenf entre denúncia anônima e uma campanha orquestrada para a criação e disseminação de fake news. Por que digo isso? É que este blog foi o primeiro espaço público a tratar do uso de fake news dentro da Uenf, ainda no mês de abril de 2023. Logo no 1o. de abril,  escrevi uma postagem dando conta do risco de que as eleições que ocorreriam no segundo semestre para eleger o novo reitor da universidade fossem marcadas por uma intensa campanha de fake news.

A postagem de abril funcionou como uma espécie de premonição, pois a campanha eleitoral para a reitoria acabou efetivamente sendo maculada pelo uso explícito de fake news contra a chapa formada pelos professores Carlos Eduardo de Rezende e Daniela Barros. A situação chegou a tal ponto que o professor Rezende teve que produzir uma série de vídeos para explicar o que não pretendia fazer o que as “fake news” diziam que ele estaria pretendendo fazer, caso fosse eleito. Analisei aquela situação em nova postagem que foi publicada em agosto de 2023.

Há que se dizer que os membros da chapa derrotada foram ainda alvo de uma intensa campanha que grassou livre nas redes sociais e mais livremente ainda em grupos de Whatsapp que contribuíram diretamente para que eles tivessem que passar muito tempo se explicando em relação a uma série de mentiras deslavadas (ou seja, fake news) que implicaram em um forte desgaste pessoal para Carlos Rezende e Daniela Barros, e também, obviamente, em suas chances eleitorais.

Logo após as eleições vencidas pela chapa formada pelos professores Rosana Rodrigues e Fábio Olivares, voltei a abordar os problemas que marcaram as eleições para a reitoria da Uenf no dia 21 de setembro de 2023, quando analisei as atividades de um perfil na rede social Instagram que se intitula “Uenfspotted“. Naquela postagem em específico, tratei de uma “boca de urna” eletrônica que teria sido feita com indicações óbvias de que fora feita mais para influenciar do que para captar preferências.

Pois bem, como procurei demonstrar em minhas postagens ao longo de 2023 foi que eleições que deveriam ter sido marcadas por um debate calcado apenas em compromissos com a consolidação de uma universidade dentro de padrões democráticos foram, na verdade, mais um palco para o uso de ferramentas que utilizaram esquemas que visavam claramente manchar reputações a partir do uso explícito de fake news.

O curioso é que nem no momento ou depois das eleições se viu por parte da reitoria da Uenf, a denúncia de fake news como algo que estaria ameaçando a manutenção de um “ambiente universitário saudável, ético e baseado na verdade”. Em relação ao que ocorreu durante as eleições, o silêncio foi próprio daquele que ocorre em ambientes repletos de sepulcros.

Mas vá lá, como uma pessoa otimista que sou, a minha expectativa é que agora a reitora e o vice-reitor da Uenf tenham acordado para o risco posto pela disseminação de fake news em um ambiente universitário. E mais ainda que  também cuidem de apurar eventuais denúncias de assédio (em todas as suas formas) com o devido rigor e que punam os eventuais responsáveis nas formas previstas pela lei.

 

A Uenf sob o manto da confusão (II): antes da apuração, o veredito via mídia corporativa?

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Notei aqui neste blog uma situação esquisita que está ocorrendo neste momento no campus Leonel Brizola envolve a denúncia até agora anônima de um suposto caso de assédio sexual. Como escrevi, esse caso deveria ter sido cuidadosamente apurado pela reitoria antes que houvesse qualquer pronunciamento público ou publicização via a mídia corporativa local.

Eis que hoje o assunto continua sendo veiculado em um veículo da mídia corporativa campista com a apresentação de diversas manifestações sobre o caso, inclusive da reitora Rosana Rodrigues. No caso específico da reitora, ela não deveria estar se colocando em uma posição pública antes de ter sequer tomado a iniciativa básica de fazer instaurar uma comissão especial de sindicância. 

E pior, é que se alguém cometeu um delito e uma infração administrativa, ao caluniar alguém, a reitora incorreu em um grave erro, ao divulgar as diligências que eventualmente estejam em andamento, o que pode favorecer o(a) infrator (a). E mais ainda, se realmente houve um assédio, a ação da reitora é pior ainda porque o que está se fazendo é re-vitimizar a vítima, e coagir (o) a noticiante.

Por outro lado, uma coisa que salta aos olhos nessa cobertura continuada do caso é que não há uma apuração mínima em torno do objeto da denúncia anônima, que seria a ocorrência de um caso de assédio. Mais interessante ainda é que um dos citados na denúncia anônima é um frequentador assíduo da programação do referido veículo da mídia corporativa, o que deveria ter suscitado uma ação mais cuidadosa por parte dos seus proprietários, e principalmente algo que se assemelhasse a uma apuração imparcial dos fatos.

Há que se lembrar ainda que a Uenf está localizada na mesma cidade onde ocorreu o rumoroso caso das “Meninas de Gurarus, o que deveria ter acendido luzes de cuidado nas redações locais. Mas, pelo jeito, mais uma vez parece que não se aprendeu nada com a história. Mas, pensando bem, esperar o contrário seria demais em se tratando de quem se trata.

Uma coisa é certa: as possibilidades de apuração imparcial desse caso estão completamente contaminadas pela cobertura jornalística pobre de um caso que deveria ter ficado sigiloso. Com isso, a reitora Rosana Rodrigues está perdendo uma excelente oportunidade para mostrar que sua propaganda eleitoral virou prática de governo. E com isso,  perde a Uenf, mas principalmente suas estudantes e professoras que terão ainda mais dificuldade de expor casos de assédio dentro do campus Leonel Brizola.

Uenf sob o manto da confusão: a publicização precoce de fatos internos sem a devida apuração serve a quais propósitos?

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Estou na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) desde janeiro de 1998 e já presenciei vários eventos esquisitos, mas um que ganhou as manchetes da mídia corporativa local está no topo das esquisitices. Falo aqui de uma denúncia assédio sexual que foi divulgada de forma que eu considerei incorreta na última reunião do Conselho Universitário que ocorreu no dia 12 de julho.

A denúncia colocada de forma anônima nas paredes do prédio da reitoria da Uenf envolve dirigentes universitários e, por isso mesmo, já deveria ter resultado na abertura de uma comissão especial de sindicância (CES) que é o mecanismo institucional para apurar fatos e decidir pela tomada de uma série de medidas que podem resultar ou não em um inquérito administrativo.

Estranhamente, o fato foi divulgado pela reitora Rosana Rodrigues sem que ela nos informasse se já tinha determinado a abertura de uma CES. Ao verificar a edição desta segunda-feira (15/7) do Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, não verifiquei que uma CES tenha ainda sido aberta.

Por outro lado, o fato ainda sem apuração ganhou ares públicos com a publicação de um artigo de opinião em um veículo local com uma manchete que é, no mínimo, dúbia: “Denúncia de assédio na Uenf ou tentativa de difamação?“.

O problema de confundir denúncia com difamação, como faz a manchete deste artigo de opinião, é que o caso relatado agora na mídia corporativa pela reitoria da Uenf não é o único que emergiu na nossa comunidade universitária recentemente, sendo que uma delas foi feita de forma identificada por quem denunciou e disse estar disposto a ir até as últimas consequências para que o suposto assediador seja punido.

Mas mais importante ainda, a forma que a reitoria está divulgando o caso sem a devida apuração, mas colocando no campo das “fake news”  pode estar servindo como um indulto precoce de um possível assediador. Além disso, assumindo que é possível que alguém tenha sido efetivamente assediado, estaremos diante da possibilidade de que esteja não apenas se garantindo a impunidade, mas incorrendo em um evento de revitimização. 

Pessoalmente considero grave que a reitoria da Uenf tenha tornado essa situação pública, na prática emitindo um pré-julgamento sobre o mérito de uma denúncia que deveria ter sido tratada de forma muito cuidadosa, principalmente por causa da existência de uma possível vítima de assédio sexual, sem ter em mãos uma rigorosa apuraração dos fatos. Esse caso deveria ter ficado reservado aos limites do Conselho Universitário, onde o caso foi apresentado pela reitora Rosana Rodrigues, e não tornado público sem que qualquer apuração tenha sido aparentemente iniciada.

Agora que a situação está exposta de forma precoce, a reitora da Uenf acabou se colocando em uma exposição que nada serve aos interesses estratégicos da universidade. Não sei se essa era a intenção, mas é o que esta publicidade acabou fazendo foi fragilizar a figura da reitora. 

De toda forma, a minha expectativa é de que os instrumentos internos existentes sejam imediatamente acionados para que sejam feitas as devidas apurações, de modo a separar fato de fake news, e punir os eventuais responsáveis pelas ações que deverão ser meticulosamente investigadas, e da forma sigilosa que a situação requer.

Finalmente, eu espero que a Uenf passe a fortalecer a sua governança interna , visto que vivemos um período em que se exige cada vez mais a adoção de mecanismos internos  que fortaleçam integridade, ética e accountability.

Um mistério da meia noite: A Uenf e sua profusão de pré-candidatos a vereador para eleições municipais de 2024

misterio da meia noite

O Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro trouxe hoje a liberação de quatro servidores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf)  para participação da campanha eleitoral de 2024, incluindo aí um ex-reitor e um líder sindical em atividade. Mas além desses quatro servidores, já se tem notícia de pelo menos mais duas candidaturas de personagens ligados à universidade criada por Darcy Ribeiro (incluindo um ex-líder do DCE e ainda atual presidente da Associação de Pós-Graduando).

Em minha vivência de quase 27 anos dentro da Uenf, não me recordo de tantos candidatos associados de um jeito ou de outro à esta universidade.  Esse alto número de virtuais candidatos a vereador poderia indicar que vivemos uma espécie de ápice da mobilização política e que essas candidaturas refletem alguma decisão coletiva de colocar a Uenf em um novo patamar de abertura às coisas do mundo, em uma espécie de conversão a uma relação mais democrática com a população. Aliás, desconfio que vai ter candidato usando esse argumento como elemento programático.

Entretanto, como alguém que vivencia o cotidiano da instituição, penso que qualquer associação feita à Uenf por esses candidatos será algo que refletirá mais um ato de vontade do que uma expressão das relações políticas estabelecidas dentro da Uenf. 

O fato é que lembrando um discurso em que John F. Kennedy dizia para que os jovens estadunidenses parassem de perguntar o que o seu país poderia fazer por eles e começassem a se perguntar o que poderiam fazer por ele, eu diria que algumas dessas candidaturas refletem trajetórias de personagens que mais usaram a Uenf em benefício próprio do que contribuíram para a construção dela enquantoa universidade estratégica que Darcy Ribeiro e Leonel Brizola esperavam. 

Cabe lembrar que esse tipo de apropriação partidária da Uenf era um dos grandes temores de Darcy Ribeiro que postulava a necessidade da universidade brasileira se livrar do que ele entendia ser usos inapropriados para fins corporativos.  Felizmente o criador da Uenf não está mais entre nós para se certificar de que uns dos seus temores pode ter se confirmado de uma forma contundente.

Uma questão que inevitavelmente surgirá em relação a essa pleiade de candidatos e sua viabilidade eleitoral.  Se considerarmos o tamanho da comunidade universitária e aqueles aptos a votar, as chances serão baixas, especialmente porque uma parte significativa aparece como estando associada ao Partido dos Trabalhadores  (PT) que sabemos há muito tempo não elege um vereador que seja.

Mas se as chances de eleição são baixas, quais são as razões para tanta pré-candidatura? Esse é o que poderíamos chamar, lembrando de uma famosa música de Zé Ramalho, de um mistério da meia noite.

Na tesourada na extensão da Uenf, contas que não batem geram sentimento de “indigxidade” entre professores e estudantes

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Postei ontem um texto da lavra da professora Luciane Soares da Silva dando conta de uma tesourada que teria impactado uma série de projetos de extensão dentro da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), o que teria gerado algo que poderia ser classificado como “indigxidade”, que vem a ser uma mistura de indignação e perplexidade.  

A indignação viria com a aparente falta de divulgação de critérios que foram adotados para dar notas que terminaram decidindo quais projetos receberiam teriam ou não o aporte de recursos via a Pró-Reitoria de Extensão da Uenf.  Já a perplexidade se deu por conta dos óbvios impactos que o não financiamento terá sobre projetos de grande impacto social, bem como na capacidade dos estudantes sobreviverem sem suas bolsas de extensão.

Pois bem, hoje tive acesso aos editais de extensão de 2023 e 2024 onde pode ser visto algo no mínimo curioso em termos dos valores alocados para cada ano, sendo que de um para outro os projetos aprovados terão em torno de 14% a mais de recursos financeiros (ver imagem abaixo).

tetos extensão

Com isso, fica anulada qualquer explicação em torno da causa dos cortes, pois bastaria ter mantidos os valores de 2023 para que um número maior de projetos fosse aprovado, sem necessidade de criar a agora infame lista de espera por recursos que provavelmente nunca virão, visto que o cenário dominante não é favorável ao surgimento de mais recursos, dado o aperto financeiro que o estado do Rio de Janeiro vive. Como recursos adicionais terão de vir do tesouro estadual, é muito fácil ver que esperar por novos recursos seria, pelo menos um ato de fé, uma coisa que não coaduna com uma instituição que se gaba de fazer ciência.

Outro detalhe que tem causado farta “indigxidade” é o fato de que o projeto classificado em primeiro lugar para recebimento de verbas foi proposto pela reitora Rosana Rodrigues (ver imagem abaixo).

aprovados extensão

Aqui não cabe nenhum julgamento ao mérito do projeto, pois desconheço o conteúdo e seus objetivos. Mas o que deixou muita gente com altos graus de “indigxidade” é que em um momento em que se descontinuarão projetos de impacto social, ver que a reitora não só concorreu, mas como encabeça a lista dos aprovados está sendo visto com uma contrassenso, especialmente em uma instituição em que a transparência e a equidade de oportunidades deveria ser a pedra angular do processo de gestão.

Nesse caso específico, gostaria de lembrar do provérbio “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Esse provérbio teria nascido com a decisão do imperador romano Júlio César de se divorciar de sua segunda esposa, Pompéia, após um imbróglio envolvendo um jovem patrício chamado Clódio que conseguiu entrar disfarçado de mulher em uma festa que ela havia organizado, aparentemente com o objetivo de seduzi-la, mas que era proibida para homens. Apesar de Pompéia ser completamente inocente em relação à invasão e aos planos de Clódio,  Júlio César se divorciou dela, afirmando que: “minha esposa não deve estar nem sob suspeita”.

Em outras palavras, a reitora Rosana Rodrigues pode nem ter nada a ver com a colocação do seu projeto em primeiro lugar e que o feijão seja mesmo uma maravilha (eu particularmente sou fã), mas isso não resolve a cisma que assola as mentes dos que tiveram seus projetos preteridos e, em função disso, fadados à interrupção.  Afinal, como o caso de Pompéia bem demonstrou, não basta ser honesta, deve parecer honesta”. 

Por fim, o que me parece mais necessário é que haja a devida transparência não apenas acerca dos critérios utilizados para avaliar os projetos de extensão, mas, principalmente, sobre os mecanismos de distribuição de recursos que abarcam várias áreas importantes dentro da Uenf, incluindo a extensão, mas não apenas aí. Talvez seja a hora de acionar o Conselho Curador da instituição para que se tenha o devido controle sobre esses mecanismos.

Em meio ao XVI Confict, projetos de extensão sofrem tesourada, causando perplexidade e indignação na Uenf

Quem são os alunos da UENF  e como os cortes os projetos dextensão os afetam diretamente? Essa é a pergunta que não quer ser calada

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Luciane Silva e estudantes do projeto de web rádio Maíra: depois da tesourada, haverá futuro?

Por Luciane Soares da Silva

Neste ano completo 14 anos de docência, pesquisa e extensão na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Realizei minha graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e fui bolsista do CNPq desde os 18 anos de idade. A realização do doutorado no Rio de Janeiro, na Universidade Federal, só foi possível na mesma condição. Posso dizer que completei um trajeto longo de mobilidade social ascendente com o concurso público. Mas tenho absoluta clareza de que ser filha da classe trabalhadora urbana de Porto Alegre e pertencer a UFRGS possibilitou que eu fosse “elegível” para esta transição. E isto não é tão simples pois não estamos falando apenas de renda. Aprendi sobre capitais culturais absolutamente indisponíveis para aqueles que só puderam conhecer outro país através do pertencimento ao mundo acadêmico. Fui ao Congresso Anual da Sociede Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) realizado no Maranhão em 1994. Mas contei com a ajuda de amigos e do meu orientador. Este é um traço comum biografia de nossos alunos: o apoio emocional de colegas, as repúblicas e seus orientadores mais próximos. E em muitos casos, definidor do que chamamos de “êxito acadêmico”. Curiosamente ao final, desconhecemos o caminho.

Nesta semana assisti as sessões do XVI Congresso Fluminense de Iniciação Científica e Tecnológica. E observando a relação entre classe, região, família e desempenho, avaliei as fraturas que parte dos alunos trazem consigo ao ingressar na Universidade. Não estou observando uma variável isolada, mas experiências subjetivas e objetivas que produzem inseguranças, fobias e um desafio duplo. Além da formação curricular, a superação de um capital herdado em uma região desigual, as histórias familiares e seus traumas, as formas de preconceito. A transição que nossos alunos terão de fazer não é a mesmo que fiz. É bastante comum a emoção pública dos momentos de formatura nos quais nossos alunos são os primeiros de sua família a receber um título de graduado, mestre ou doutor. Esta variável, antes de ser observada com alegria deve nos servir como indicador para análise das formas que a desigualdade assume no norte noroeste fluminense.

A semana de iniciação, de pesquisa ou extensão, marca em detalhes este processo de mudança. Fazer uso da palavra em público, ser avaliado, reconhecido ou criticado. Estas operações antecipam a vida profissional mas também servem como demarcador de distinção. O nervosismo acima do comum explicita diferenças anteriores a entrada na Uenf. Que deverão ser convertidos em conhecimento ao longo de quatro anos.

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Projeto de web rádio Maíra, um dos projetos de extensão ameaçados pela tesoura na Uenf

Nossos alunos precisam dos auxílios que recebem. Não para complementar renda, mas em alguns casos, porque eles são um ponto de apoio familiar. Não se trata de fazer um discurso populista. Defendo a excelência com os mesmos critérios de exigência aos quais fui submetida. E ao mesmo tempo, devemos discutir coletivamente formas de avaliação, leitura e formação. São questões distintas.

O corte que será feito nas bolsas de extensão, com a exigência (implícita) de que os alunos façam extensão sem bolsa, cria um curto circuito que queima pontes de construção fundamentadas na confiança nesta instituição. Não se pode deixar estudantes sem previsão , não podemos deixar projetos sem previsão e este não é um erro aceitável.

Faço extensão desde 2011. Já levamos cinema aos internos do hospital João Vianna e dali saíram premiações, monografias e dissertações. Já percorremos  escolas de Campos mostrando aos alunos a importância das marchinhas de carnaval na década de 30. Já construímos tecnologias com fotografia, poesia, grafite e outros instrumentos junto a adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas. Já publicamos nossas experiências em revistas brasileiras, e, neste momento, estamos construindo oficinas de arte e memória na rede pública de Campos; além de montar uma rádio que toque música, faça divulgação científica e fale dos temas da cidade aos jovens. Por eles próprios. Assim como estes, tantos outros projetos incorporam temas fundamentais para construção de saberes críticos na região.

Eis que na semana em que deveríamos dar início a inscrição para os projetos de extensão, fomos surpreendidos com a seguinte mensagem; “divulgamos os resultados de análise dos projetos e programas de extensão submetidos ao edital PBEX-2024. A qualidade dos projetos apresentados foi excepcionalmente elevada […]No entanto, apesar da excelência dos projetos, enfrentamos uma limitação significativa em relação aos recursos financeiros disponíveis.”.

A divulgação com a nota de cada projeto estabeleceu aqueles  que terão recursos imediatos e os demais, que deverão esperar o recurso ou a abertura de editais na Pró Reitoria de Assuntos Comunitários. A indignação da comunidade com a descontinuidade de projetos que prestam serviços inestimáveis a cidade é compreensível. As duas categorias criadas, na prática, já prejudicam extensionistas que precisam de acompanhamento e previsibilidade. Neste momento sem a possibilidade prevista de recurso, sabendo que as avaliações foram feitas por pares de áreas muito distintas, todo o processo de seleção e classificação torna-se obscuro. Sequer sabemos se devemos realizar a seleção de projetos mal avaliados a considerar que deverão esperar recursos. O que devemos fazer sem a mínima previsibilidade?

Ao final, pensar que não seremos capazes de prover condições dignas de trabalho em extensão para estes alunos em uma semana tão importante para ciência fluminense, diz muito sobre tudo que tem ocorrido na  Uenf. Embora o lema seja “o futuro chegou”, para alunos da Uenf talvez ele tenha chegado com a cara do passado.

Em uma região na qual as heranças familiares seguem definindo o acesso ao poder, nada pode ser mais transformador do que a Universidade. Pública, de Excelência e socialmente referenciada

Finalizo indicando o livro de Paulo Freire, Extensão ou Comunicação. Freire escreve este livro no Chile, mirando o lugar do educador enquanto alguém capaz de educar e educar-se em processo de diálogo. O ano de 1968 marcou uma geração e devemos pensar se o que temos feito na UENF é extensão ou comunicação. Assumindo a postura de Freire, me desafio a pensar a Extensão como transformação social.


Luciane Soares da Silva é professora associada do Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado (Lesce) do Centro de Ciências do Homem da Uenf.

A Uenf está sendo corroída pela precarização e ficando muito aquém das tarefas deixadas por Darcy Ribeiro

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O incêndio que ocorreu no último 17/05 e consumiu a sala que abrigava uma secretaria no prédio do Centro de Ciências do Homem é apenas o sinal de uma profunda precarização que vem sendo imposta à universidade criada por Darcy Ribeiro e Leonel Brizola.  Nascida sob demanda da população de Campos dos Goytacazes, entretanto, é o principal instrumento de desenvolvimento econômico do interior do estado do Rio de Janeiro, tendo gerado um ciclo de formação de profissionais e dinamizado a economia do município de Campos dos Goytacazes em um patamar muito acima do que os bilhões produzidos pelos royalties do petróleo.

Mas se a Uenf é isso tudo, por que precarizá-la a ponto de inviabilizar sua capacidade criativa e de inovação e reduzi-la a mais uma instituição que não gera potencial de desenvolvimento? Uma explicação muito provável tem a ver com a indiferença dos governos estaduais com as necessidades das regiões Norte e Noroeste Fluminense, e também dos grupos de poderes locais que não querem que mais pessoas estejam capacitadas para articular novas formas de governança que possam abalar os arranjos oligárquicos que guiam a política em nível municipal.

Entretanto, o que vem afogando a Uenf é o uso abusivo do chamado Programa de Recuperação Fiscal que asfixia financeiramente a instituição ao não possibilitar, por exemplo, que salários altamente defasados sejam colocados em um patamar de competividade com o que é praticado em outras instituições universitárias. Como agora sequer se há o acréscimo por tempo de serviço, é quase impossível atrair professores doutores de outras partes do Brasil e, menos ainda, de outros países. Essa foi a fórmula que possibilitou que a Uenf funcionasse em nível de excelência em anos iniciais, a ponto de se tornar uma referência de qualidade para outras universidades brasileiras.

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Um problema que vem aprofundando o nível de desgaste do projeto revolucionário elaborado por Darcy Ribeiro é que tem faltado à Uenf a atuação de lideranças capacitadas para manter a respeitabilidade que foi obtida nos seus primeiros anos. As diferentes reitorias que foram se sucedendo desde 1999, quando foi eleito o primeiro reitor, terminaram possibilitando a ascensão de uma visão altamente populista de integração com a sociedade regional,  a qual pode ser sintetizada na ideia de que bastaria abrir os gramados do campus Leonel Brizola para a realização de confraternizações e atividades esportivas para que a Uenf cumpra seus desígnios históricos. Com isso, o máximo que se tem conseguido é difundir a ideia de que a Uenf seria uma espécie de “Ibirapuera dos campistas”, e não o poderoso motor de desenvolvimento científico e tecnológico que Darcy Ribeiro idealizou e colocou para funcionar com os recursos alocados pelo governo de Leonel Brizola.

Disse recentemente em uma assembleia dos professores que é urgentemente necessário que a categoria retome urgentemente a primazia da ação política que possibilitou que a Uenf tenha chegado até onde chegou. Sem a liderança de um grupo altamente capacitado não há como qualquer instituição universitária atingir seus objetivos estratégicos, e a Uenf não é exceção. Caberá aos seus quadros mais capacitados garantir que, entre outras coisas, o governo do Rio de Janeiro decida pagar salários que sejam compatíveis com o papel de liderança que a Uenf deve exercer para catapultar as regiões Norte e Noroeste para um ciclo de desenvolvimento que finalmente as faça superior décadas de atraso econômico e social.

E eu lamento dizer:  ou os docentes assumem o papel de liderança que o modelo institucional lhes exige ou a Uenf nunca chegará a cumprir a trajetória pensada por Darcy Ribeiro. É que não se cumpre desígnios mais desafiadores aceitando projetos de mediocridade e de subalternidade que podem até soar “moderninhos” e “antenados” com as modas do momento, mas que são intrinsecamente desprovidos de substância.  Ou alguém acha que um punhado mal arrumado de conversas ocas sobre o papel de start ups e do uso de inteligência artificial resolverão o abissal atraso econômico e social que envolve o Norte e Noroeste do Rio de Janeiro?

Na Uenf, a transparência colapsou: a ausência de atas comprova

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Um dos elementos basilares que deveria guiar a vida de qualquer universidade pública é o grau de transparência acerca das decisões tomadas por seus órgãos colegiados, especialmente os superiores. Mas esse parâmetro for utilizado para avaliar como andam as coisas na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), é fácil ver que as coisas vão muito mal, em que pese as juras de que entramos em um novo ciclo de gestão com a chegada da primeira mulher ao cargo máximo da instituição, no caso a reitora Rosana Rodrigues.

Nos dias atuais, os sítios oficiais que instituições públicas e empresas disponibilizam para informar o público sobre suas ativididades são, ou deveriam ser, a via preferencial para a criação de mecanismos de transparência. O sítio oficial da Uenf até possui uma aba rotulada de “transparência”, mas quando se chega nela, o que se vê é que de transparência só há mesmo o rótulo.

Um bom exemplo dessa opacidade é a disponibilização das atas das reuniões realizadas por três órgãos colegiados (Universitário, Acadêmico e Curador) e um próprio da reitoria da Uenf (o Executivo). Ao examinar as últimas atas disponibilizadas para cada um deles, o eventual visitante poderá notar a seguinte realidade:

Unidade Data da última data disponível
Conselho Universitário 06/11/2020
Colegiado Acadêmico 01/02/2021
Conselho Curador 29/08/2018
Colegiado Executivo Sem ata disponível

Uma consequência óbvia dessa opacidade é que nem a comunidade universitária ou a população em geral tem noção de como e quais decisões estão sendo tomadas nesse colegiados, o que impede que se possa saber quais são os rumos efetivos que a Uenf vem trilhando.  A questão democrática que pode passar despercebida em empresas que são governadas pela busca de lucros de seus donos e acionistas é algo fundamental em instituições públicas, especialmente universidades. 

Assim, ao não realizar o ato trivial de disponibilizar atas de seus colegiados superiores, o que as administrações recentes da Uenf têm feito é impedir que se tenha acesso às decisões que têm sido tomadas para gerir um dos principais patrimônios públicos do estado do Rio de Janeiro. E isso, convenhamos, não pode ser naturalizado. É que na ausência dos mecanismos de transparência o que acaba crescendo são práticas autoritárias e/ou burocráticas que comprometem a capacidade de gerar novos conhecimentos, algo fundamental para uma universidade pública.

ADUENF lança nota sobre incêndio no CCH e alerta para a “crônica de uma tragédia anunciada”

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O pequeno incêndio ocorrido na noite do dia 17 de maio no Centro de Ciências do Homem (CCH) serviu de alerta para um problema que a ADUENF vem denunciando à Reitoria da UENF há vários anos: as condições precárias das instalações da universidade. Falhas estruturais, combinadas à presença de agentes químicos e biológicos nos laboratórios, podem colocar em risco a saúde e a vida de estudantes, docentes e servidores administrativos.

A precariedade da estrutura física foi evidenciada em diversas ocasiões. No retorno presencial após a pandemia de COVID-19, por exemplo, a ADUENF denunciou a falta de condições adequadas para garantir a distância mínima entre as pessoas durante as atividades acadêmicas, assim como a existência de salas de aula sem janelas ou com ventilação inadequada. Diante do silêncio por parte da Reitoria, a Associação ingressou com um processo no Ministério Público do Trabalho (MPT) pedindo mediação sobre temas relacionados à saúde no ambiente de trabalho na universidade.

A ADUENF também moveu uma Ação Civil Pública em favor da realização periódica das perícias para correta verificação de agentes insalubres e/ou perigosos no ambiente de trabalho, fornecimento de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e elaboração de Perfis Profissiográficos Previdenciários (PPPs) e Laudos Técnicos das Condições do Ambiente de Trabalho (LTCATs). A ação foi julgada procedente pelo juiz da 4ª Vara Cível de Campos, Dr. Leonardo Cajueiro, em 21 de agosto de 2023. A Reitoria recorreu.

Conforme mapas de risco elaborados pelos chefes de laboratório e contidos no Processo SEI 260009/005365/2021, os espaços de pesquisa da UENF concentram uma série de agentes químicos e material biológico que, além de oferecem riscos à saúde, podem provocar uma catástrofe em caso de incêndio.

Diante dos fatos, o que ocorreu no CCH no dia 17 de maio não pode ser tratado como um incidente sem grandes consequências. Pelo contrário, pode configurar como a crônica de uma tragédia anunciada, caso não sejam adotadas providências.

Neste sentido, a ADUENF cobra que a Reitoria da UENF adote medidas urgentes para garantir a segurança das instalações da universidade e preservar a integridade da comunidade acadêmica.

É fundamental que a universidade continue produzindo e multiplicando saberes. Mas nunca é demais lembrar que, antes de tudo,  ela é feita de pessoas. Estamos falando em vidas. E vidas são prioridade.

DIRETORIA ADUENF-SESDUENF
Gestão União na Luta: Em Defesa da Universidade Pública e das Liberdades Democráticas
Biênio 2023/2025