O CCH como canário da mina: incêndio é alerta para a Uenf adotar medidas de segurança básicas

fogo cch

Incêndio em sala de secretaria causou pânico e danos materiais no CCH/Uenf

Passei quase 7 anos em espaços de ensino e pesquisa nos EUA onde os cuidados com a segurança dos prédios era muito forte. No Laboratório Nacional de Oak Ridge que realizava pesquisas até com radiação nuclear tinhamos que passar por treinamentos rotineiros de saída organizada dos prédios para casos de incêndios e acidentes químicos.  Na Virginia Tech onde realizei o meu doutorado havia uma brigada de incêndio que tinha capacidade superior à da cidade de Blacksburg onde fica o campus principal da universidade.

Passados mais de 26 anos desde que cheguei na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), eis que ao longo do tempo cumpri o papel de Cassandra, oferecendo avisos que na maioria dos casos são solenemente ignorados, pois tal como a Cassandra original sou visto com um profeta das coisas em que ninguém acredita.

Pois bem, uma das coisas que sempre me vem à cabeça é que na Uenf somos todos muito sortudos porque vivemos riscos diários como se eles não existissem, nos tornando naquele violanista que insistia em tocar seu instrumento enquanto o Titanic afundava. Por exemplo, a instituição, ao contrário da Virginia Tech, não possui nem uma brigada de incêndios ou uma Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA). Além disso, há alguns anos, após o roubo de algumas mangueiras de incêndio, algum sábio dirigente decidiu que o problema seria resolvido retirando todas as que sobraram dos locais em que deveriam estar.  Além disso, há alguns atrás constatei que a maioria dos extintores estava vencida e que ninguém havia sido treinado para fazer uso daqueles que ainda estivessem funcionais.

Não posso esquecer da instalação de grades de ferro após alguns furtos pontuais de computadores em que um diretor do Centro de Ciências do Homem (CCH) decidiu instalar grades de ferro nos dois andares para impedir que os computadores roubados pudessem ser movidos sem que isso fosse percebido. Na época disse ao emérito dirigente que ele estava nos condenando a não estar vias de escapa caso um incêndio acontecesse no prédio.  Como uma boa Cassandra, fui ignorado e as grades permaneceram e acabaram normalizadas como se não oferecessem qualquer risco para a segurança de professores, estudantes, servidores técnicos e trabalhadores terceirizados.

O problema é que na mitologia grega, como na vida real, algumas profecias funestas acaba trazendo um quê de acerto. E eis que na noite de ontem, um incêndio destruiu completamente a sala que abriga a secretaria do Laboratório de Estudos da Educação e Linguagem (LEEL), responsável principal pelo funcionamento do curso de Pedagogia, cujas aulas são majoritariamente oferecidas no período norturno.  A falta de alarmes e a inexistência de sinalização para a evacuação do prédio acabou resultando em um cenário caótico em que professores estudantes acabaram saindo de forma completamente desorganizada do andar onde o incêndio ocorreu, mostrando um despreparo que poderia ter sido fatal (ver vídeo abaixo).

Uma rápida visita à sala incendiada me deixou com a impressão de que a Uenf ontem passou muito perto de uma tragédia, pois felizmente o fogo não se espalhou e a ação do Corpo de Bombeiros foi rápida e eficiente, contendo o incêndio no seu ponto de origem. Mas uma rápida olhada no que sobrou do que estava na sala incendiada indica que realmente passamos muito perto de algo muito sério, especialmente em função do despreparo institucional com o quesito segurança (ver imagens abaixo).

Há ainda que se observar que o CCH é o prédio de menor risco, pois não possuímos produtos químicos capazes de gerar explosões, como é o caso de diversos prédios que abrigam laboratórios que utilizam esses insumos em suas pesquisas Nesse sentido, esse incêndio tornou o CCH uma espécie de canário na mina, pois mostra que a possibilidade de grandes incêndios não se trata apenas de uma profecia de Cassandra.

E agora, o que fazer?

Certos acontecimentos servem como alertas para que medidas procrastinadas por uma mensuração equivocada dos riscos sejam finalmente adotadas.  Como já conversei informalmente com a reitora da Uenf, professora Rosana Rodrigues, esse incêndio coloca a instituição diante da necessidade de ações emergenciais, a começar pela criação de uma brigada de incêndios devidamente equipada e treinada.  Além disso, há que se retomar o funcionamento efeito de uma CIPA, de forma a que se identifiquem as áreas de maior necessidade para ações preventivas.

Mas há também que se instalar sistemas de alarme e orientação para todos os prédios, de modo a que na repetição do que aconteceu no CCH, a resposta seja mais rápida e efetiva, de modo a que se evite o pior cenário que envolveria grande destruição de estruturas e mortes de membros da comunidade universitária.

Recentemente, a Assessoria de Comunicou divulgou e a mídia corporativa campista repercutiu uma nota em que a reitoria da Uenf divulgava gastos de R$ 30 milhões com equipamentos de pesquisa. Se tivéssemos veículos de imprensa de verdade, a pergunta que teria sido feita à reitora da Uenf é de qual teria sido o investimento em medidas de segurança que haviam sido adotadas para proteger esse patrimônio e aqueles que realizam suas pesquisas neles. A resposta mais provável é que o gasto na área de segurança teria sido zero, o que explicitaria o desequilíbrio de investimentos. Afinal, como dizia Darcy Ribeiro, o que faz uma universidade ser grande não são prédios novos ou equipamentos caros, mas as pessoas que trabalham nela. Nesse sentido, a proteção das pessoas deveria ser, e claramente não tem sido, a prioridade máxima.

A minha expectativa é que as ações necessárias recebam o grau de urgência que elas exigem. Do contrário, não me restará nada a mais a fazer a não ser continuar cumprindo o papel de Cassandra. Pelo menos assim, ninguém poderia fingir ignorância.

Estudo do DIEESE mostra que perdas salariais dos professores da UENF foi de 42% entre 2014 e 2023

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Um estudo encomendado pela diretoria do sindicato dos professores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), a Aduenf, junto ao Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) revelou que entre julho de 2014 e dezembro de 2023, as perdas salariais acumuladas pela categoria foram de 42% (ver estudo aqui!).

Eu já andava sentindo essa depreciação salarial nas minhas idas aos supermercados e hortifrutis da vida, mas agora com os números nas mãos, ficou mais claro que a política de destruição do serviço público estadual encaminhada pelo governo do dublê de cantor e político Cláudio Castro está atingindo em cheio o processo instrumento de desenvolvimento econômico e social implantado no interior do Rio de Janeiro nos últimos 30 anos, a Uenf.

Para piorar a situação, a extinção dos triênios para os docentes que ingressaram na universidade desde que a Alerj decidiu seguir as ordens do Ministério da Fazenda, piora em muita a condição de atração de novos quadros para a Uenf, em um momento em que muitos que ingressaram no concurso de 1999 já se encaminham para a aposentadoria.

A verdade é que com esse quadro de depreciação salarial que não possui sequer o incentivo do tempo de serviço, muitos jovens doutores que poderiam querer vir para Campos dos Goytacazes ou Macaé para trabalhar na Uenf vão preferir seguir outros caminhos, especialmente porque aqui a dedicação é exclusiva.

Um dos maiores riscos que a Uenf corre neste momento de salários pouco atrativos é de que apenas seus próprios formandos queiram trabalhar na instituição, o que certamente diminuiria o grau de inovação das pesquisas que são realizadas, na medida em que se consolidarão apenas pesquisas que já estão em curso. Essa endogenia do quadro docente já não é pequena, e tenderá a aumentará caso não haja uma reversão nos salários pagos na Uenf.

Uma coisa curiosa que está acontecendo neste momento é que dada a presença de doutorandos que já estão empregados e aproveitam a qualidade da Uenf para alcançarem melhores titulações acadêmicas é o fato de que já tem aluno ganhando mais do que o seu orientador.  Aliás, eu mesmo tenho ex-alunos que estão em instituições federais que se penalizam com o meu salário quando comparam os contracheques.

No meio disso tudo, muitos podem se perguntar o que irá acontecer se a Uenf, a começar pela sua reitoria, não começar a se mexer para pelo menos começar a tramitação do novo Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) que se encontra trancado em alguma gaveta empoeirada no Palácio Guanabara. Eu diria que nada de bom. 

Há que se lembrar que já se avança pelo mês de abril de 2024, e a carestia, especialmente a dos preços dos alimentos, continue avançando de forma inclemente.

Finalmente, como diria o meu falecido pai, há que se lembrar aos professores da Uenf que “jacaré parado vira bolsa”.

Aula inaugural na UENF abordará os impactos do Neoliberalismo sobre a atuação do Estado no Brasil e na América Latina

A aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais (PGPS) da UENF de 2024 terá a presença do professor Carlos Eduardo Rosa Martins do Instituto de Relacões Internacionais e Defesa na UFRJ (ver cartaz abaixo).

O tema da palestra além de ir diretamente ao encontro das pesquisas em curso no PGPS/UENF resulta de um extenso trabalho intelectual que vem sendo realizado pelo professor Rosa Martins que é um dos principais estudiosos dos impactos das reformas neoliberais sobre a atuação do Estado na América Latina.  A extensa produção intelectual do professor Carlos Eduardo Rosa Martins representa uma importante reflexão sobre os impactos socioeconomicos e culturais das reformas neoliberais em países da periferia capitalista, onde o Brasil está incluso.

A aula inaugural do PGPS/Uenf irá ser realizada no dia 27 de março a partir das 15:00 h na Sala de Multimídia do Centro de Ciências do Homem. A entrada a esta atividade acadêmica estará aberta a todos os interessados.

As andanças da reitora da Uenf mostram bússula quebrada: a curiosa troca de uma ida ao Palácio Guanabara por uma reunião com petistas em Brasília

A imagem abaixo sintetiza bem a situação de bússola quebrada que impera já faz algum momento na reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), pois mostra uma reunião que teria ocorrido entre a reitora Rosana Rodrigues, o reitor do IFF Jeferson Manhães e o deputado federal do PT/RJ, o paraibano Lindbergh Farias.

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O problema é que ao contrário do IFF que sim é uma instituição de ensino federal, a Uenf é uma universidade estadual que recebe parte significativa das verbas que necessita para funcionar do cofres estaduais do Rio de Janeiro cuja caneta repousa na mão do governador Cláudio Castro. Assim, ao ir até Brasília para sabe-se lá fazer o que, Rosana Rodrigues está longe do endereço que realmente interessa em questões cruciais que é o Palácio da Guanabara, localizado na Avenida Pinheiro Machado S/N no charmoso bairro de Laranjeiras na capital fluminense.

Um exemplo de algo que é de crucial importância para a Uenf é retirar da dormência o novo Plano de Cargos e Vencimentos que se encontra firmemente depositado no Palácio Guanabara e não em gabinetes de deputados federais em Brasília.

Além disso, ao voar para Brasília em vez pegar a BR-101 na direção da capital fluminense, a reitora da Uenf ainda se coloca em uma situação curiosa que é de servir de escada para um encontro entre petistas que estariam articulando uma vinda do presidente Lula a Campos dos Goytacazes para apoiar a chapa do PT às eleições municipais deste ano que potencialmente colocará juntos a deputada estadual Carla Machado e o reitor do IFF, Jefferson Manhães.  Como desconheço a filiação da reitora da Uenf ao PT, ela me lembra aquele personagem daquela música dos Paralamas do Sucesso, a “Melô do Marinheiro” (ver abaixo).

O pior que ao visitar e se deixar fotografar ao lado de Lindbergh Farias, Rosana Rodrigues certamente diminuiu a vontade (já muito pequena) de Cláudio Castro de recebê-la para discutir a implantação do novo PCV da Uenf.

Governo Castro retira disciplinas chaves e as substitui por bizarrices na rede estadual

A imposição do NEM reduz drasticamente as chances de acesso dos  estudantes pobres às universidades públicas

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Uma das grandes expectativas que acompanharam a chegada de Luís Inácio Lula da Silva ao seu terceiro mandato na presidência da república era que ele anularia o horroso “Novo Ensino Médio” (NEM)imposto pelo governo de facto de Michel Temer. Mas até agora, Lula e o seu ministro da Educação, Camilo Santana (PT/CE), não mostraram a real disposição de anular a reforma do ensino médio que veio na esteira do golpe parlamentar de 2016.

Um dos maiores problemas do NEM é que ele criou uma separação concreta entre o que pode ser oferecido no ensino médio que é uma espécie de antessala da entrada nas universidades. Enquanto as escolas de ensino privada continuam ofertando disciplinas estruturantes como Física, Química, Biologia, Geografia, História e Filosofia, na rede pública elas desaparecem no terceiro ano e são substituídas por puras bizarrices sob a desculpa de oferecer mais espaço para a escolha dos estudantes. Aí aparecem coisas como  “Corpo e mente saudáveis”, “Projeto de vida”, “Tempo, Espaço e Movimento” e “Direito à Saúde” surgem para preencher tempos que poderiam e deveriam estar sendo usados com as disciplinas chaves que continuarão sendo oferecidas nas escolas privadas.

O que essa diferença faz é desprover que estudantes da rede pública concluam o ensino médio em pé de igualdade em termos de acesso a conteúdos que serão demandados nas provas do ENEM que definem atualmente se alguém acessará ou não as melhores universidades brasileiras. Na prática, ocorre a criação de um processo de profunda desigualdade em termos de formação que ameaça gravemente o direito dos pobres (imensa maioria dos que usam a rede de ensino pública) em acessar cursos de ensino superior.

Assim, o fato de que o NEM está sendo imposto a todo vapor pelo governo de Cláudio Castro na rs escolas da rede pública estadual deveria gerar alarde e preocupação entre estudantes, professores e gestores das universidades públicas. A mídia corporativa campista até abriu espaço para noticiar esse problema, oferecendo a oportunidade para as universidades públicas locais usarem o início do primeiro semestre letivo de 2024 para abordar as graves distorções que o NEM está gerando para os estudantes mais pobres.

O curioso, para não dizer outra coisa, é que na recepção aos calouros que está sendo promovida pela reitoria da Uenf ao longo da semana que se inicia, não há qualquer evento relacionado à necessária discussão sobre a imperiosa necessidade de se revogar urgentemente o NEM em nome do oferecimento de um ensino de qualidade aos pobres. Pelo contrário, quem vê a programação oficial da UENF vai ficar achando que o NEM nem existe, e que existem outras coisas mais importantes para “desenrolar” e se “orgulhar”.  O governo Castro agradece!

UENF ou “Dr. CAR”? Façam sua escolha…

A UENF de Darcy Ribeiro e Leonel Brizola ameaça repetir Greta Garbo e acabar no Irajá?

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Por Douglas Barreto da Mata

Eu falo com toda sinceridade que carrego em minha alma:

Gostaria muito de resgatar o respeito e a admiração que tive um dia pela UENF.

Eu sempre invejei muito o debate acadêmico, ainda que tenha sempre expressado isso de forma ácida, e nem sempre polida.

Até com os meninos que acompanhei desde a formação/pós graduação, que chamo de “os que falam javanês”, um grupo das ciências sociais e políticas que fariam Karl Marx pedir para retornar ao útero de sua mãe, para ser abortado.

Não consigo  entender a incapacidade deles não enxergarem aspectos cruciais da realidade que os cercam, e as tolices que veiculam em seus textos, as baboseiras da “busca pela democracia”, ou “patrimonialismo”. 

Afinal, que porcaria é essa? 

Não seríamos tudo e todos nós, imersos no capitalismo, desde a versão Revolução Industrial I até a versão 4.0, um patrimonialismo universal, universalidade essa que não comporta a menor sombra de Democracia, embora dela mimetize aspectos formais de representação e concessões individuais de “direitos”, onde aos mais ricos cabem tais “prerrogativas de cidadania” e aos pobres as obrigações?

Por aqui somos livres (?) para gritarmos em alto e bom som que morremos de fome, como não?

Quando é que a superestrutura, ou como gostam alguns, extra estrutura, de um sistema que reifica (“coisifica”) o trabalho e todas as sócio reproduções daí advindas, poderia não ser patrimonialista, ou por outro lado, poderia ser democrática?

Mais ou menos como buscar um tigre vegetariano, essa é a essência da “sociologia” e da ciência política atuais, e talvez, desde sempre.

Enfim, mesmo assim, admiro a incansável fé que eles portam, adorando a “ciência” como fim, e não como meio, procurando teses de (auto) justificativa e legitimação para suas existências acadêmicas e da própria cátedra de escolha.

Dá medo ir além, eu sei, porque no fim você pode descobrir que tudo pelo que você viveu não faz o menor sentido, ou pior, você passou toda a vida desafiando o óbvio (o óbvio aqui tem nome, materialismo dialético), e chegou a lugar algum, ou pior ainda, serviu a quem dizia combater.

Valha-me Santa Ellen Meiksins Wood, valha-me.

Mas tudo isso é papo para outra hora.

Na verdade, o que me move aqui é outra coisa, mas tem tanta ligação com o ocaso da UENF, como o “javanês” falado por alguns de seus próceres.

Eu diria que foi justamente esse processo de indigência intelectual (vejam bem, não acadêmica, mas intelectual, que é instância bem mais ampla), daqueles que deveriam pensar a Universidade e fazer a Universidade, é que possibilitou que a UENF virasse uma franquia de “social-green washing”.

Ao ler o texto do Marcos Pedlowski (Aqui!) imediatamente pensei nesse termo.

Já disse antes, em outros textos, que as universidades, dentro do sistema capitalista, são estuários de conhecimento para reposição tecnológica necessária aos arranjos econômicos, e talvez, uma construção de uma estrutura teórica que diz desafiar o estamento, mas o revalida, pois que sempre é consentida.

Quando há qualquer perigo nessa relação de compadrio, chamam-se tipos como os que controlam a UENF há algum tempo.

Nestes casos (como da UENF) se transformam em descaradas correias de transmissão do capitalismo mais porco e periférico, aquele que nos devora sem talheres ou serviços de prata, mas com as mãos e unhas sujas, levando nossas vísceras às bocas fétidas de dentes afiados.

É como se disséssemos, exagerando, que a Harvard  University e a UENF fossem a mesma coisa federonta no sistema capitalista, só que a Harvard University o é em sanitário de ouro, ducha climatizada e toalhinhas de linho egípicio 1000 fios, enquanto a UENF é depositada em uma moita do V Distrito de São João da Barra, e para a higiene, folhas de urtiga que sobraram da devastação causada pelo Porto do Açu.

A forma subalterna como se comporta as representações institucionais da UENF, seguido do silêncio omisso da quase totalidade dos seu pares, e por final, o amordaçamento das vozes dissidentes, não permite outra postura senão a que tem desempenhado a atual reitoria:

– Procurar um caraminguá na “pilantropia” empresarial, e assim, oferecer-se para “lustrar” a “biografia corporativa” dos “engolidores de mundos”.

Quem tem carro e já procurou local para lavagem do bólido, com certeza conhece, ou deveria, porque são bons, a franquia “Dr. CAR”.

Nada mais apropriado para associar à nossa ex-Universidade:

DR. SOCIAL & GREEN WASHING.

Tudo é questão de marketing e “brand working” (ops, desculpem, não é trocadilho com o ex-secretário de educação de javanês que saiu dos bancos da UENF para integrar o pior governo da história da cidade).

A reitoria da Uenf, o Porto do Açu, e os escombros

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Agricultor desapropriado para a implantação do Porto do Açu posa ao lado dos escombros de sua casa no V Distrito de São João da Barra. Fonte: Mateus Gomes

Que a reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) tem tentado estabelecer uma inexplicável proximidade com o Porto do Açu é um fato que está claro desde a gestão do loquaz ex-reitor, professor Raúl Palacio. Eis que agora em sua velha/nova face, a reitoria da Uenf, comandada pela dupla Rosana Rodrigues e Fábio Olivares acaba de realizar uma “oficina de integração” com o Porto do Açu no histórico edifício que abriga a Casa de Cultura Villa Maria. Pelo que se depreende do texto repercutido pela Assessoria de Comunicação da Uenf, esta oficina foi uma oportunidade para que o linguajar empreendedor disseminado durante a campanha eleitoral ocorrida em 2023 saia do papel para a prática.hall of shame
Uma primeira observação é que em se tratando do Porto do Açu, a reitoria da Uenf está como dizem os estadunidenses “barking up the wrong tree“, na medida que se o que espera é algum tipo de aporte econômico na universidade, dificilmente isto ocorrerá. É que tudo o que se analisa sobre as práticas do Porto do Açu desde o seu nascedouro em 2006 mostra que o empreendimento não está aqui para colocar, mas para tirar. Nas palavras do professor Roberto Moraes, os donos estrangeiros do Porto do Açu tratam nossa região como um mero “território de passagem” de onde tudo se tira, e muito pouco se coloca. Barking up the wrong tree – Museum of Psychology – Illustrations about us
Mas se é assim, por que o Porto do Açu se dispõe a realizar este tipo de atividade para o qual seus donos não pretendem investir? É que de forma consciente ou não, a reitoria da Uenf ofereceu um excelente momento de uma “photo op” gratuita que poderá ser replicado para os investidores que detém ações ou títulos no Porto do Açu por meio da disseminação da ideia de que o empreendimento atua dentro dos melhores conceitos e métodos da chamada “governança sócio-corporativa”. Em outras palavras, essa oficina representou uma chance do porto se promover junto aos seus investidores, tendo como cenário um dos principais patrimônios arquitetônicos de Campos dos Goytacazes. Para o Porto do Açu isso é perfeito, já para a reitoria da Uenf isso é apenas mais uma demonstração de que estamos entregues a amadores que não têm o mínimo de entendimento das tarefas que nos foram deixadas por Darcy Ribeiro e Leonel Brizola.

Esse episódio lamentável me faz pensar naquela sugestão dada por Chico Buarque ao presidente Lula em 2003 para que ele criasse o ministério do “Vai dar Merda”. A sugestão foi dada no sentido de que se tivesse um assessor que dissesse ao presidente (no caso a reitora) sobre quando não fazer alguma coisa. É que ao receber o Porto do Açu na Villa Maria, o que se fez, na prática, foi demonstrar total desprezo pelo destino dado a centenas de famílias de agricultores e pescadores artesanais do V Distrito de São João da Barra que tiveram suas vidas reduzidas a escombros para a implantação de um enclave portuário que tirou suas terras, removeu o acesso a áreas tradicionais de pesca, salinizou terras e causou erosão costeira.

E falando em escombros…escombros
Como sei que existe uma forte preocupação com aqueles que a reitoria da Uenf opta por ignorar em suas buscas por oportunidades de “empreendedorismo”, aproveito informar aos leitores que a  Casa Criativa Santa Paciência, no dia 22 de fevereiro, abrirá seu espaço para a abertura da mostra “Escombros”, trabalho do fotógrafo campista Mateus Gomes que mostra a destruição das habitações pertencentes aos agricultores familiares que tiveram suas terras tomadas pelo (des) governo de Sérgio Cabral.

No mesmo dia, às 19h, acontecerá uma roda de conversa com o tema Fotografia, pesquisa e ativismo: 15 anos do Porto do Açu e seu impacto socioambiental. Esta mesa terá a participação da Dona Noêmia Magalhães, liderança dos agricultores familiares do Açu, da professora, pesquisadora e diretora da UFF Campos Ana Costa, do artista e fotógrafo Mateus Gomes, e deste blogueiro.

A Rosa de Hiroshima uenfiana…. daí florescerá algo?

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Por Douglas Barreto da Mata

Sempre fui um crítico ácido das publicações da Drª Luciane Soares da Silva.

Digamos que ela é portadora de uma ingenuidade antropológica antiga e típica da esquerda, refratária ao marxismo, e seduzida a um tipo de “behaviorismo de ciência social”, que não raro desemboca em identitarismos, culturalismos e outras bobagens comportamentais.

São passagens  como esta abaixo que me fizeram tão cético ao que ela escreve, bem como as suas tentativas de analisar contextos complexos, como segurança pública, com jargões antropológicos e morais….

Eis o resumo do texto da Doutora Luciane, que em seu preâmbulo, apresenta suas “armas”:

“Importante esclarecer que não estudo economia, sistemas bancários, transações globais, golpes dados por grandes bancos ou inflação. O que me interessa é o aspecto antropológico da circulação de pessoas, mercadorias e crenças sociais sobre valor. Estudo mudança social e trânsitos. Em alguns momentos podem ser possessões e transes dependendo da ótica adotada.”

Porém, como ela mesmo disse lá no fim do texto dela, às vezes, da terra arrasada brota alguma coisa…

Se em terra arrasada pode nascer algo, teremos de observar. Por aqui o terreno recente foi arado para plantar um estranho tipo de negacionismo. (…)”

 É o caso…

Pois o seu texto (Aqui!) atinge com precisão a tarefa de descrever o processo eleitoral recente da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), mergulhada no maior lodaçal institucional desde sua criação, e infelizmente, resultante de um processo de acúmulos de iniquidades, como cabe a todo caminhar histórico…

Uma fresta de luz da Idade das Trevas da Uenf? Tomara…

Apesar do desconhecimento e/ou da rejeição (que no fim, dão no mesmo) da Professora Doutora sobre economia, e que tais, é bom avisar:

É Marx, Doutora, é Marx…

A suposta desintegração do mundo, literal e metaforicamente, naquilo que chamam de distopia ou liquidez, ou pós realidade, nada mais é que o momento que todos da esquerda esperamos, quer dizer, pelo menos os verdadeiramente de esquerda:

– O fim do capitalismo!

O problema, Doutora, é que o fim não veio pela esquerda, mas pela  reciclagem do capitalismo em um modelo ainda mais excludente, ainda mais cruel, e pasme, que não tem mais na mais valia (a verdade do Capital) sua mola mestra…

Não há mais acumulação pela expropriação do trabalho, que se vende ao capitalista, mas apenas reprodução simulada (pós verdade?) de capitais (anti-valores), que para acontecer não precisa, de forma central, de uma sociedade estruturada institucionalmente para garantir o ambiente produtivo e a propriedade privada, com separação de poderes constitucionais, modelos representativos, estruturas de mídia corporativas e sujeitas à regulação…

Se eu fosse chegado a neologismos (e eu sou) diria que estamos a caminho do anarco-liberal-comunismo, passando agora pela ditadura digital do rentismo…

Se as universidades, via de regra, no arranjo e ideário capitalista, tão caro a certos círculos acadêmicos que hegemonizaram tais entidades, eram estuários científicos para associação com o capital e reprodução de novas tecnologias e avanços de produtividade, o que fazer quando a Era Industrial (Capitalismo) acaba, e pior, em uma zona de periferia ainda sub industrializada?

É isso, Doutora, que atropelou sua universidade, e vai atropelar tantas outras, diante da completa incapacidade de ler e enxergar os sinais, que já estavam aí há muito…

Enquanto os anarco-liberal-comunistas estudaram Marx até a medula, nos importamos com as perfumarias antropológicas…

Este texto da Doutora, como disse, é um tratado, um libelo que descortina e que clareia pontos obscuros, até certo ponto, ou até onde a antropologia e os “transes e possessões” permitem…

Assim, em uma alegoria “literária”, temos o ex reitor, um dos que criou enormes dificuldades (sabe-se lá porquê) para reforma do Arquivo Público Municipal, e agora é o fiscal da obra…

Como uma inversão ou uma adaptação d’O Processo, de Franz Kafka, outro clássico que tenho sérias reservas políticas (e não estéticas, por favor), que junto com George Orwell, é um dos precursores da crítica anti marxiana via “costumes” e “liberdades individuais”, os donos d’Processo da Uenf ou os Grandes Irmãos da Uenf não querem convencer ninguém da veracidade das suas versões da realidade, para eles, a realidade sequer importa, muito menos uma versão dela…

As eleições foram o apogeu do “pós existencialismo pragmático uenfiano”, para agradar a Academia que adora esse prefixo “pós”…

Mergulhemos em outra obra-prima conservadora, o conto Cabeça de Papelão, João do Rio, para ilustrarmos como andam as coisas na Uenf…

E olhem que por lá já tivemos quem “falasse javanês”…

A realidade atual, Doutora, é real sim, apesar da Uenf e, porque não dizer, também por ela, não há uma pós verdade ou uma ilusão…há, sim, distopia, mas é a distopia de sempre, que agora é distopia pós capitalista, ou, como dissemos, ditadura digital do rentismo…

Não é economia, não é transe, não são possessões, é a História, e seu inexorável materialismo dialético…

Vivemos agora no estado da arte da fetichização (da riqueza), que se antes era um meio para que o capital ideologicamente convencesse que todo mundo poderia ser bem sucedido, ao mesmo tempo que convertia todas as sócio reproduções em coisas (bens), em hoje nos convence a todos que vale a pena não sermos nada além de um clique, um “láique”, uma lacração, todas monetizáveis…

Será que dessa hecatombe florescerá a Rosa de Hiroshima?

Tenho cá minhas dúvidas….

Ciência, pós -verdade e as eleições na UENF

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Por Luciane Soares da Silva

Importante esclarecer que não estudo economia, sistemas bancários, transações globais, golpes dados por grandes bancos ou inflação. O que me interessa é o aspecto antropológico da circulação de pessoas, mercadorias e crenças sociais sobre valor. Estudo mudança social e trânsitos. Em alguns momentos podem ser possessões e transes dependendo da ótica adotada.

Minha curiosidade endereçada aos meus alunos, ao mundo universitário, ao sistema político do qual participo e aos meus pares é objetiva mas exige o cruzamento de dois temas que podem frequentemente estar relacionados: a pós verdade e as fake news. Seria possível que pessoas aparentemente comuns, com condições de discernimento e em processo de formação aderissem ativamente a esquemas de pirâmide, golpes afetivos e mentiras capazes de alterar eleições e a vida política de instituições acadêmicas?

Algo que me interessa em pesquisa é “abrir as tripas” de fenômenos largamente comentados, transformados em conceitos e cujas consequências têm implicações concretas na vida de terceiros. Podem levar a demissões, separações, instaurar julgamentos cibernéticos, ameaças físicas e em casos raros, violência física e morte.

Temos visto isto em sites de fofoca, em montagens para redes sociais, denúncias mal apuradas. Estranhamente, não deveria ocorrer, mas vimos isto recentemente em nossa Universidade. E após seis meses, é importante que os registros sejam feitos. Eles não alterarão os resultados mas mostrarão em que poço nos enfiamos nestas últimas décadas. E colocam uma questão importante para os alunos que receberemos em março. Falhamos em mostrar métodos de pesquisa capazes de evitar narrativas inconsistentes e julgamentos apressados? Perdemos para uma rede subterrânea sem face e condenamos pessoas e processos democráticos à mesma lama na qual mergulham milhares de pessoas diariamente ao consumirem fake News? Não há nenhuma instância que proteja minimamente nosso espaço de produção das mesmas regras que regem as ações de mercados que apostam na tragédia como forma lucrativa de atividade? Quem permite que seja assim? Falamos em regulação da mídia. Mas o que fazemos nas instituições de ensino superior? Creio que absolutamente nada.

Não estamos diante de novidade alguma quando tratamos do uso de notícias falsas como instrumento político. Lembremos do objetivo de incriminar a esquerda no caso Rio Centro, da tentativa de ligar Lula ao sequestro de Abílio Diniz nas eleições de 1989. Convivemos com a imprensa marrom e recentemente sabemos do poder global de Steve Banon. Abertamente agindo como uma máquina industrial de mentiras viaja pelo mundo colaborando com golpes brancos. Os sistemas religiosos não poderiam ficar de fora desta nova era. Onde reside a novidade? Creio que talvez na escala e na velocidade e na porosidade com que invadem todos os espaços privados e públicos.

Aqui temos nossa própria contribuição para o mundo das moedas falsas e da pós-verdade. Vamos tratar de um caso real, alterando personagens e mantendo as consequências para todos os envolvidos. A síntese da cena é a seguinte: estamos em um grupo de pessoas tendo uma conversa com universitários. Um dos candidatos ali presente (em um ano de eleição) expressa sua opinião sobre concursos com ações afirmativas. É uma opinião carregada de fatos, avaliações e nenhuma delas determina uma posição desfavorável. Apenas apresenta ponderações importantes para ampliação de um debate.  Naquele grupo, um dos seus opositores percebe que aquela opinião pode ser base para um ataque eleitoral. Edita o que ouve, aproveita esta habilidade crescente de selecionar qual parte de uma narrativa interessa e como em um passe de mágica a torna pública em menos de 24 horas. Na mesma noite, fora de qualquer contexto, em 150 palavras de uma rede social, o conteúdo é repercutido sem nomes, com referência a um certo candidato e este incidente recebe mais atenção da comunidade científica que a ausência concreta de política estudantil, banheiros sem funcionamento, crise institucional, problemas para acesso a diplomas. E perde-se a rara oportunidade de construção coletiva.

A era da pós-verdade: a distopia do mundo contemporâneo - O Pedreirense

Nesta eleição alguns descem à um nível de desagregação completa na qual os boatos ganham a centralidade tóxica. Julgamento feito, os ativos do ódio se espalham repudiando as tentativas de diálogo com o argumento de que se tenta “limpar a barra de alguém”. Ou seja, servidores públicos com vinte anos de carreira agora são igualados aos grupos de fofoca do zap. Vejam que temos um terrível cruzamento aí entre má fé, questões cognitivas sobre moral, populismo e eleição. Banon sorri ao olhar para o caso e pensa: “wonderful”. Uma instituição gratuita de estudo. Fica realmente animado com o Rio de Janeiro.

Quando olhamos a situação de fora, pensamos em 1984. Em sistemas distópicos. A crença nas habilidades mágicas de indivíduos dotados do desejo de varrer o passado, varrer os caciques. Uma estranha macheza tão distante dos ideais de nossos eleitores juvenis que apostam em outro perfil. Mas que soltam um cão raivoso para fazer um papel conhecido. Aquele homem cordial que se agarra as grades do salão para que possa beber até cair, admirado por sua simpatia e leveza. Mas que mostra os punhos fechados quase disposto a desferir um soco no adversário quando contrariado. Leve, popular, jovem. E profundamente violento. O vencedor dos tempos atuais. O rei da popularidade. Escolhido a dedo para dar cor a uma campanha cujas propriedades lembram a água. O que dizer? Genial. E claro que temos o coroamento desta união. Quem nunca ousou defender o direito das docentes, acorda com todo o ideário de Simone de Beauvoir na cabeça. Aplausos para uma caixinha de música que repete ad nauseaum o discurso sobre mulheres na ciência aprendido ontem. Comovente, merece mesmo a vitória. Como dizia meu professor de história no segundo ano da faculdade, “ah, ela é tão esforçada”.

O quadro se completa com a crença que aposta em um empreendedorismo grotesco. Quase um quem quer dinheiro no meio do saguão. Assim, explícito, uniformizado, exuberante nas propostas. Trumps brasilis, um novo tipo de liderança que seduz ouvidos pouco comprometidos com Paulo Freire, Darcy Ribeiro ou uma educação transformadora. Tudo é utilizado como bravata mas com uma encenação digna de Oscar. E o sorriso do talentoso Ripley.

talentoso

Vemos uma turba comemorar a democracia como se assistisse ao fim de Apocalipse Now. E passado o momento de império do ódio, quando todos precisam voltar ao trabalho, percebemos que seguimos sem luz, sem administração, sem sistemas modernos de conexão. Sem saúde mental. Estranhamente não é possível explicar facilmente como ocorrem fenômenos coletivos desta ordem. Alguns falam em ondas. O fato é que seria impossível negar um sentimento comum aos vencedores e perdedores: a frustração e o desânimo.

Podemos pensar na imagem de um balão em noite escura. Seu brilho fustiga os cegos, alimenta os míopes e dá alguma importância aos que podem seguir o balão, até que ele cai no meio do Paraíba e durante o seu resgate, fica tomado de lama. Alguns o abandonam sentindo que foram enganados. Outros se agarram ao resto de brilho, sonhando com cargos de importância. Há os que sempre aceitando pouco, querem manter alguns benefícios, uma viagem, um carro novo. Há mesmo quem se venda por pouco.

Sem conseguir explicar a perda de excelência, vemos avançar a perda de sentido, de discernimento, de vontade, e começam a ocorrer situações próprias de um passeio de trem fantasma. A mudança de escala está completa. As salas são violadas, as violências perpetuadas, as reuniões, mero arremedo democrático. Os alunos antes confiantes, perdem o interesse no voto depositado. E quem desejava o poder abre a mão deixando escorregar pepitas escada abaixo.

Não havia nobreza no ato de quem meses antes acusara um inocente. Só havia ódio ativo, desinformação e interesses inconfessáveis. Canetas em mãos sem coragem podem ser perigosas. Sumiram no anonimato os que ontem faziam a festa da diversidade, baixaram a cabeça os que enviaram as mensagens de ódio. Negaram aqueles que os formaram para aderir aos novos saqueadores. Ninguém mais queria ver-se no espelho. Ah, não existem mais espelhos por aqui. Aliás, parece que teremos apenas sombras até o Carnaval. É certo que teremos o baile de máscaras. Na verdade, já foi bailado.

Se em terra arrasada pode nascer algo, teremos de observar. Por aqui o terreno recente foi arado para plantar um estranho tipo de negacionismo. Aquele que de dentro dos laboratórios nega a própria vocação e vende por pouco o que custou o trabalho duro de gerações.

UENF aos 30: um carinhoso abraço tardio na celebração de 3 décadas de muitos desafios

uenf 30 anos

Por Carlos Eduardo de Rezende*

A Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) celebrou, em agosto de 2023, três décadas de contribuição significativa para o ensino superior no Brasil. A visão utópica idealizada pelo Prof. Darcy Ribeiro resultou em uma instituição inovadora que, ao longo dos anos, demonstrou seu compromisso com a excelência acadêmica e a promoção do conhecimento.

O ano de 1992 marcou um ponto crucial na história da UENF. Na época, após retornar de uma experiência na Universidade de Washington em Seattle, onde estive na Escola de Oceanografia, fui informado pelo meu orientador de doutorado, o Prof. Wolfgang Christian Pfeiffer, a criação de uma nova universidade na cidade de Campos dos Goytacazes sobre a liderança do Prof. Wanderley de Souza que na ocasião era Diretor do Instituto de Biofísica da UFRJ. Este último, se tornaria o primeiro reitor da UENF, estava à frente da formação de grupos para a constituição da instituição.

Nesse contexto, fui convidado a participar ativamente desse processo. Meu orientador, o Prof. Wolfgang, decidiu não se envolver diretamente, mas ofereceu todo o suporte necessário para a criação do Laboratório de Ciências Ambientais, do qual passei a fazer parte e onde estou até hoje.

A iniciativa de formar grupos para compor a UENF revelou-se não apenas como uma oportunidade para o estabelecimento de uma nova instituição de ensino superior, mas também como um marco na minha trajetória acadêmica. A visão e o comprometimento da equipe fundadora, aliados ao suporte irrestrito do Prof. Wolfgang, foram fundamentais para o sucesso do empreendimento.

Assim, ao completar três décadas, a UENF não apenas celebra sua existência, mas também a riqueza de suas contribuições para o cenário educacional brasileiro. O Laboratório de Ciências Ambientais, resultado desse esforço conjunto, destaca-se como um exemplo concreto do impacto positivo que a visão de Darcy Ribeiro trouxe para a comunidade acadêmica e para o país como um todo.

Destaco o ano de 1992 como um marco significativo, uma vez que a Constituição promulgada em 1989 estipulava que a Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) deveria iniciar suas atividades nos próximos 3 anos. Desta forma, e graças à participação ativa de diversos jovens doutores que conseguimos inaugurar diversos cursos na UENF, estabelecendo parcerias fundamentais, como aquela com a Fundação Norte Fluminense de Desenvolvimento Regional (FUNDENOR).

Vale ressaltar que cursos importantes, a exemplo de Medicina Veterinária, tiveram seu início nas instalações dessa fundação. Ao longo de muitos anos, o setor administrativo da Fundação Estadual Norte Fluminense (FENORTE) também operou nesse ambiente. Este cenário alinhava-se com uma das utopias do saudoso Chanceler Prof. Darcy Ribeiro, que idealizou a colaboração entre a UENF e a FENORTE. Conforme essa visão, a UENF se beneficiaria do suporte administrativo da FENORTE, proporcionando aos professores todo o respaldo necessário para a gestão de seus projetos e aquisição de materiais para suas pesquisas.

Lamentavelmente, ao longo do tempo, essa relação não se concretizou conforme planejado, e, por diversos motivos, os quais não serão abordados neste momento, a FENORTE foi extinta em fevereiro de 2016. Essa realidade evidencia parte dos desafios enfrentados e as transformações ao longo da trajetória da UENF, marcando um capítulo importante em sua história institucional.

Na fundação da UENF, contamos com a significativa contribuição de vários membros da Academia Brasileira de Ciências e pesquisadores estrangeiros. Esses profissionais foram fundamentais durante o período inicial da instituição, e muitos deles permaneceram por anos. A experiência acumulada por esses cientistas foi essencial para consolidar diversos grupos de pesquisa que continuam contribuindo de maneira essencial para a UENF.

O modelo institucional da UENF estabeleceu um marco ao ser a primeira instituição de ensino superior no Brasil a contar com 100% do seu quadro docente permanente composto por doutores dedicados exclusivamente à pesquisa e ao ensino, e hoje, com atuação na extensão. Este modelo possibilitou o início simultâneo dos cursos de graduação e pós-graduação. Apesar de debates ocorridos nos conselhos superiores da instituição, nos quais a alteração desse modelo foi pautada, acredito não apenas na sua defesa, mas também na conexão direta entre esse modelo e os inúmeros resultados positivos experimentados por nossa instituição. Esse é um ponto que considero uma cláusula pétrea institucional e se tornou um alicerce fundamental para o crescimento e a qualidade da UENF.

Diferentemente de outras instituições, na UENF não adotamos uma estrutura departamental convencional. Nossos laboratórios buscam operar de maneira horizontal, abrangendo diversas áreas do conhecimento. Essa abordagem visa evitar a sobreposição excessiva de profissionais com formação semelhante. Embora reconheçamos a complexidade dessa abordagem, essa estruturação me parece adequada para os enfrentamentos necessários da ciência contemporânea. Além disso, a estrutura física de laboratórios compartilhados visa não apenas evitar a replicação desnecessária de infraestrutura analítica, mas também expandir as possibilidades de aquisição de novos equipamentos. Acreditamos que a multidisciplinaridade é a essência dessa abordagem, estimulando a interação entre diferentes áreas da ciência, enriquecendo as possibilidades de avanço nas pesquisas. Ao enfrentar os desafio e as resistências pela busca da horizontalidade nos laboratórios entendemos que este é o caminho que favorece a excelência acadêmica e a inovação.

Este não será meu último escrito sobre a instituição que moldou a maior parte da minha carreira acadêmica. Ao longo dos últimos anos, tenho testemunhado situações em que a história desta instituição é negligenciada. Com o início de uma nova administração em 2024, expresso minha sincera esperança de que conduzam a UENF com o devido cuidado para superar os desafios que persistem ao longo da rica trajetória desta instituição.

Dedico este texto a todos que, diariamente, contribuem para o crescimento da UENF, dedicando-se a respeitar o nome da nossa universidade e a sociedade que possibilitou sua criação por meio de uma mobilização significativa, agradeço.

Feliz Ano Novo


Carlos Eduardo de Rezende é  PQ 1B do CNPq, CNE da FAPERJ e Professor Titular da UENF, Fundador do Laboratório de Ciências Ambientais do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB). Na UENF foi Vice-Reitor, Pró-Reitor de Graduação e Diretor do CBB.