UENF ou “Dr. CAR”? Façam sua escolha…

A UENF de Darcy Ribeiro e Leonel Brizola ameaça repetir Greta Garbo e acabar no Irajá?

car uenf

Por Douglas Barreto da Mata

Eu falo com toda sinceridade que carrego em minha alma:

Gostaria muito de resgatar o respeito e a admiração que tive um dia pela UENF.

Eu sempre invejei muito o debate acadêmico, ainda que tenha sempre expressado isso de forma ácida, e nem sempre polida.

Até com os meninos que acompanhei desde a formação/pós graduação, que chamo de “os que falam javanês”, um grupo das ciências sociais e políticas que fariam Karl Marx pedir para retornar ao útero de sua mãe, para ser abortado.

Não consigo  entender a incapacidade deles não enxergarem aspectos cruciais da realidade que os cercam, e as tolices que veiculam em seus textos, as baboseiras da “busca pela democracia”, ou “patrimonialismo”. 

Afinal, que porcaria é essa? 

Não seríamos tudo e todos nós, imersos no capitalismo, desde a versão Revolução Industrial I até a versão 4.0, um patrimonialismo universal, universalidade essa que não comporta a menor sombra de Democracia, embora dela mimetize aspectos formais de representação e concessões individuais de “direitos”, onde aos mais ricos cabem tais “prerrogativas de cidadania” e aos pobres as obrigações?

Por aqui somos livres (?) para gritarmos em alto e bom som que morremos de fome, como não?

Quando é que a superestrutura, ou como gostam alguns, extra estrutura, de um sistema que reifica (“coisifica”) o trabalho e todas as sócio reproduções daí advindas, poderia não ser patrimonialista, ou por outro lado, poderia ser democrática?

Mais ou menos como buscar um tigre vegetariano, essa é a essência da “sociologia” e da ciência política atuais, e talvez, desde sempre.

Enfim, mesmo assim, admiro a incansável fé que eles portam, adorando a “ciência” como fim, e não como meio, procurando teses de (auto) justificativa e legitimação para suas existências acadêmicas e da própria cátedra de escolha.

Dá medo ir além, eu sei, porque no fim você pode descobrir que tudo pelo que você viveu não faz o menor sentido, ou pior, você passou toda a vida desafiando o óbvio (o óbvio aqui tem nome, materialismo dialético), e chegou a lugar algum, ou pior ainda, serviu a quem dizia combater.

Valha-me Santa Ellen Meiksins Wood, valha-me.

Mas tudo isso é papo para outra hora.

Na verdade, o que me move aqui é outra coisa, mas tem tanta ligação com o ocaso da UENF, como o “javanês” falado por alguns de seus próceres.

Eu diria que foi justamente esse processo de indigência intelectual (vejam bem, não acadêmica, mas intelectual, que é instância bem mais ampla), daqueles que deveriam pensar a Universidade e fazer a Universidade, é que possibilitou que a UENF virasse uma franquia de “social-green washing”.

Ao ler o texto do Marcos Pedlowski (Aqui!) imediatamente pensei nesse termo.

Já disse antes, em outros textos, que as universidades, dentro do sistema capitalista, são estuários de conhecimento para reposição tecnológica necessária aos arranjos econômicos, e talvez, uma construção de uma estrutura teórica que diz desafiar o estamento, mas o revalida, pois que sempre é consentida.

Quando há qualquer perigo nessa relação de compadrio, chamam-se tipos como os que controlam a UENF há algum tempo.

Nestes casos (como da UENF) se transformam em descaradas correias de transmissão do capitalismo mais porco e periférico, aquele que nos devora sem talheres ou serviços de prata, mas com as mãos e unhas sujas, levando nossas vísceras às bocas fétidas de dentes afiados.

É como se disséssemos, exagerando, que a Harvard  University e a UENF fossem a mesma coisa federonta no sistema capitalista, só que a Harvard University o é em sanitário de ouro, ducha climatizada e toalhinhas de linho egípicio 1000 fios, enquanto a UENF é depositada em uma moita do V Distrito de São João da Barra, e para a higiene, folhas de urtiga que sobraram da devastação causada pelo Porto do Açu.

A forma subalterna como se comporta as representações institucionais da UENF, seguido do silêncio omisso da quase totalidade dos seu pares, e por final, o amordaçamento das vozes dissidentes, não permite outra postura senão a que tem desempenhado a atual reitoria:

– Procurar um caraminguá na “pilantropia” empresarial, e assim, oferecer-se para “lustrar” a “biografia corporativa” dos “engolidores de mundos”.

Quem tem carro e já procurou local para lavagem do bólido, com certeza conhece, ou deveria, porque são bons, a franquia “Dr. CAR”.

Nada mais apropriado para associar à nossa ex-Universidade:

DR. SOCIAL & GREEN WASHING.

Tudo é questão de marketing e “brand working” (ops, desculpem, não é trocadilho com o ex-secretário de educação de javanês que saiu dos bancos da UENF para integrar o pior governo da história da cidade).

A reitoria da Uenf, o Porto do Açu, e os escombros

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Agricultor desapropriado para a implantação do Porto do Açu posa ao lado dos escombros de sua casa no V Distrito de São João da Barra. Fonte: Mateus Gomes

Que a reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) tem tentado estabelecer uma inexplicável proximidade com o Porto do Açu é um fato que está claro desde a gestão do loquaz ex-reitor, professor Raúl Palacio. Eis que agora em sua velha/nova face, a reitoria da Uenf, comandada pela dupla Rosana Rodrigues e Fábio Olivares acaba de realizar uma “oficina de integração” com o Porto do Açu no histórico edifício que abriga a Casa de Cultura Villa Maria. Pelo que se depreende do texto repercutido pela Assessoria de Comunicação da Uenf, esta oficina foi uma oportunidade para que o linguajar empreendedor disseminado durante a campanha eleitoral ocorrida em 2023 saia do papel para a prática.hall of shame
Uma primeira observação é que em se tratando do Porto do Açu, a reitoria da Uenf está como dizem os estadunidenses “barking up the wrong tree“, na medida que se o que espera é algum tipo de aporte econômico na universidade, dificilmente isto ocorrerá. É que tudo o que se analisa sobre as práticas do Porto do Açu desde o seu nascedouro em 2006 mostra que o empreendimento não está aqui para colocar, mas para tirar. Nas palavras do professor Roberto Moraes, os donos estrangeiros do Porto do Açu tratam nossa região como um mero “território de passagem” de onde tudo se tira, e muito pouco se coloca. Barking up the wrong tree – Museum of Psychology – Illustrations about us
Mas se é assim, por que o Porto do Açu se dispõe a realizar este tipo de atividade para o qual seus donos não pretendem investir? É que de forma consciente ou não, a reitoria da Uenf ofereceu um excelente momento de uma “photo op” gratuita que poderá ser replicado para os investidores que detém ações ou títulos no Porto do Açu por meio da disseminação da ideia de que o empreendimento atua dentro dos melhores conceitos e métodos da chamada “governança sócio-corporativa”. Em outras palavras, essa oficina representou uma chance do porto se promover junto aos seus investidores, tendo como cenário um dos principais patrimônios arquitetônicos de Campos dos Goytacazes. Para o Porto do Açu isso é perfeito, já para a reitoria da Uenf isso é apenas mais uma demonstração de que estamos entregues a amadores que não têm o mínimo de entendimento das tarefas que nos foram deixadas por Darcy Ribeiro e Leonel Brizola.

Esse episódio lamentável me faz pensar naquela sugestão dada por Chico Buarque ao presidente Lula em 2003 para que ele criasse o ministério do “Vai dar Merda”. A sugestão foi dada no sentido de que se tivesse um assessor que dissesse ao presidente (no caso a reitora) sobre quando não fazer alguma coisa. É que ao receber o Porto do Açu na Villa Maria, o que se fez, na prática, foi demonstrar total desprezo pelo destino dado a centenas de famílias de agricultores e pescadores artesanais do V Distrito de São João da Barra que tiveram suas vidas reduzidas a escombros para a implantação de um enclave portuário que tirou suas terras, removeu o acesso a áreas tradicionais de pesca, salinizou terras e causou erosão costeira.

E falando em escombros…escombros
Como sei que existe uma forte preocupação com aqueles que a reitoria da Uenf opta por ignorar em suas buscas por oportunidades de “empreendedorismo”, aproveito informar aos leitores que a  Casa Criativa Santa Paciência, no dia 22 de fevereiro, abrirá seu espaço para a abertura da mostra “Escombros”, trabalho do fotógrafo campista Mateus Gomes que mostra a destruição das habitações pertencentes aos agricultores familiares que tiveram suas terras tomadas pelo (des) governo de Sérgio Cabral.

No mesmo dia, às 19h, acontecerá uma roda de conversa com o tema Fotografia, pesquisa e ativismo: 15 anos do Porto do Açu e seu impacto socioambiental. Esta mesa terá a participação da Dona Noêmia Magalhães, liderança dos agricultores familiares do Açu, da professora, pesquisadora e diretora da UFF Campos Ana Costa, do artista e fotógrafo Mateus Gomes, e deste blogueiro.

A Rosa de Hiroshima uenfiana…. daí florescerá algo?

rosa

Por Douglas Barreto da Mata

Sempre fui um crítico ácido das publicações da Drª Luciane Soares da Silva.

Digamos que ela é portadora de uma ingenuidade antropológica antiga e típica da esquerda, refratária ao marxismo, e seduzida a um tipo de “behaviorismo de ciência social”, que não raro desemboca em identitarismos, culturalismos e outras bobagens comportamentais.

São passagens  como esta abaixo que me fizeram tão cético ao que ela escreve, bem como as suas tentativas de analisar contextos complexos, como segurança pública, com jargões antropológicos e morais….

Eis o resumo do texto da Doutora Luciane, que em seu preâmbulo, apresenta suas “armas”:

“Importante esclarecer que não estudo economia, sistemas bancários, transações globais, golpes dados por grandes bancos ou inflação. O que me interessa é o aspecto antropológico da circulação de pessoas, mercadorias e crenças sociais sobre valor. Estudo mudança social e trânsitos. Em alguns momentos podem ser possessões e transes dependendo da ótica adotada.”

Porém, como ela mesmo disse lá no fim do texto dela, às vezes, da terra arrasada brota alguma coisa…

Se em terra arrasada pode nascer algo, teremos de observar. Por aqui o terreno recente foi arado para plantar um estranho tipo de negacionismo. (…)”

 É o caso…

Pois o seu texto (Aqui!) atinge com precisão a tarefa de descrever o processo eleitoral recente da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), mergulhada no maior lodaçal institucional desde sua criação, e infelizmente, resultante de um processo de acúmulos de iniquidades, como cabe a todo caminhar histórico…

Uma fresta de luz da Idade das Trevas da Uenf? Tomara…

Apesar do desconhecimento e/ou da rejeição (que no fim, dão no mesmo) da Professora Doutora sobre economia, e que tais, é bom avisar:

É Marx, Doutora, é Marx…

A suposta desintegração do mundo, literal e metaforicamente, naquilo que chamam de distopia ou liquidez, ou pós realidade, nada mais é que o momento que todos da esquerda esperamos, quer dizer, pelo menos os verdadeiramente de esquerda:

– O fim do capitalismo!

O problema, Doutora, é que o fim não veio pela esquerda, mas pela  reciclagem do capitalismo em um modelo ainda mais excludente, ainda mais cruel, e pasme, que não tem mais na mais valia (a verdade do Capital) sua mola mestra…

Não há mais acumulação pela expropriação do trabalho, que se vende ao capitalista, mas apenas reprodução simulada (pós verdade?) de capitais (anti-valores), que para acontecer não precisa, de forma central, de uma sociedade estruturada institucionalmente para garantir o ambiente produtivo e a propriedade privada, com separação de poderes constitucionais, modelos representativos, estruturas de mídia corporativas e sujeitas à regulação…

Se eu fosse chegado a neologismos (e eu sou) diria que estamos a caminho do anarco-liberal-comunismo, passando agora pela ditadura digital do rentismo…

Se as universidades, via de regra, no arranjo e ideário capitalista, tão caro a certos círculos acadêmicos que hegemonizaram tais entidades, eram estuários científicos para associação com o capital e reprodução de novas tecnologias e avanços de produtividade, o que fazer quando a Era Industrial (Capitalismo) acaba, e pior, em uma zona de periferia ainda sub industrializada?

É isso, Doutora, que atropelou sua universidade, e vai atropelar tantas outras, diante da completa incapacidade de ler e enxergar os sinais, que já estavam aí há muito…

Enquanto os anarco-liberal-comunistas estudaram Marx até a medula, nos importamos com as perfumarias antropológicas…

Este texto da Doutora, como disse, é um tratado, um libelo que descortina e que clareia pontos obscuros, até certo ponto, ou até onde a antropologia e os “transes e possessões” permitem…

Assim, em uma alegoria “literária”, temos o ex reitor, um dos que criou enormes dificuldades (sabe-se lá porquê) para reforma do Arquivo Público Municipal, e agora é o fiscal da obra…

Como uma inversão ou uma adaptação d’O Processo, de Franz Kafka, outro clássico que tenho sérias reservas políticas (e não estéticas, por favor), que junto com George Orwell, é um dos precursores da crítica anti marxiana via “costumes” e “liberdades individuais”, os donos d’Processo da Uenf ou os Grandes Irmãos da Uenf não querem convencer ninguém da veracidade das suas versões da realidade, para eles, a realidade sequer importa, muito menos uma versão dela…

As eleições foram o apogeu do “pós existencialismo pragmático uenfiano”, para agradar a Academia que adora esse prefixo “pós”…

Mergulhemos em outra obra-prima conservadora, o conto Cabeça de Papelão, João do Rio, para ilustrarmos como andam as coisas na Uenf…

E olhem que por lá já tivemos quem “falasse javanês”…

A realidade atual, Doutora, é real sim, apesar da Uenf e, porque não dizer, também por ela, não há uma pós verdade ou uma ilusão…há, sim, distopia, mas é a distopia de sempre, que agora é distopia pós capitalista, ou, como dissemos, ditadura digital do rentismo…

Não é economia, não é transe, não são possessões, é a História, e seu inexorável materialismo dialético…

Vivemos agora no estado da arte da fetichização (da riqueza), que se antes era um meio para que o capital ideologicamente convencesse que todo mundo poderia ser bem sucedido, ao mesmo tempo que convertia todas as sócio reproduções em coisas (bens), em hoje nos convence a todos que vale a pena não sermos nada além de um clique, um “láique”, uma lacração, todas monetizáveis…

Será que dessa hecatombe florescerá a Rosa de Hiroshima?

Tenho cá minhas dúvidas….

Ciência, pós -verdade e as eleições na UENF

pos-verdade

Por Luciane Soares da Silva

Importante esclarecer que não estudo economia, sistemas bancários, transações globais, golpes dados por grandes bancos ou inflação. O que me interessa é o aspecto antropológico da circulação de pessoas, mercadorias e crenças sociais sobre valor. Estudo mudança social e trânsitos. Em alguns momentos podem ser possessões e transes dependendo da ótica adotada.

Minha curiosidade endereçada aos meus alunos, ao mundo universitário, ao sistema político do qual participo e aos meus pares é objetiva mas exige o cruzamento de dois temas que podem frequentemente estar relacionados: a pós verdade e as fake news. Seria possível que pessoas aparentemente comuns, com condições de discernimento e em processo de formação aderissem ativamente a esquemas de pirâmide, golpes afetivos e mentiras capazes de alterar eleições e a vida política de instituições acadêmicas?

Algo que me interessa em pesquisa é “abrir as tripas” de fenômenos largamente comentados, transformados em conceitos e cujas consequências têm implicações concretas na vida de terceiros. Podem levar a demissões, separações, instaurar julgamentos cibernéticos, ameaças físicas e em casos raros, violência física e morte.

Temos visto isto em sites de fofoca, em montagens para redes sociais, denúncias mal apuradas. Estranhamente, não deveria ocorrer, mas vimos isto recentemente em nossa Universidade. E após seis meses, é importante que os registros sejam feitos. Eles não alterarão os resultados mas mostrarão em que poço nos enfiamos nestas últimas décadas. E colocam uma questão importante para os alunos que receberemos em março. Falhamos em mostrar métodos de pesquisa capazes de evitar narrativas inconsistentes e julgamentos apressados? Perdemos para uma rede subterrânea sem face e condenamos pessoas e processos democráticos à mesma lama na qual mergulham milhares de pessoas diariamente ao consumirem fake News? Não há nenhuma instância que proteja minimamente nosso espaço de produção das mesmas regras que regem as ações de mercados que apostam na tragédia como forma lucrativa de atividade? Quem permite que seja assim? Falamos em regulação da mídia. Mas o que fazemos nas instituições de ensino superior? Creio que absolutamente nada.

Não estamos diante de novidade alguma quando tratamos do uso de notícias falsas como instrumento político. Lembremos do objetivo de incriminar a esquerda no caso Rio Centro, da tentativa de ligar Lula ao sequestro de Abílio Diniz nas eleições de 1989. Convivemos com a imprensa marrom e recentemente sabemos do poder global de Steve Banon. Abertamente agindo como uma máquina industrial de mentiras viaja pelo mundo colaborando com golpes brancos. Os sistemas religiosos não poderiam ficar de fora desta nova era. Onde reside a novidade? Creio que talvez na escala e na velocidade e na porosidade com que invadem todos os espaços privados e públicos.

Aqui temos nossa própria contribuição para o mundo das moedas falsas e da pós-verdade. Vamos tratar de um caso real, alterando personagens e mantendo as consequências para todos os envolvidos. A síntese da cena é a seguinte: estamos em um grupo de pessoas tendo uma conversa com universitários. Um dos candidatos ali presente (em um ano de eleição) expressa sua opinião sobre concursos com ações afirmativas. É uma opinião carregada de fatos, avaliações e nenhuma delas determina uma posição desfavorável. Apenas apresenta ponderações importantes para ampliação de um debate.  Naquele grupo, um dos seus opositores percebe que aquela opinião pode ser base para um ataque eleitoral. Edita o que ouve, aproveita esta habilidade crescente de selecionar qual parte de uma narrativa interessa e como em um passe de mágica a torna pública em menos de 24 horas. Na mesma noite, fora de qualquer contexto, em 150 palavras de uma rede social, o conteúdo é repercutido sem nomes, com referência a um certo candidato e este incidente recebe mais atenção da comunidade científica que a ausência concreta de política estudantil, banheiros sem funcionamento, crise institucional, problemas para acesso a diplomas. E perde-se a rara oportunidade de construção coletiva.

A era da pós-verdade: a distopia do mundo contemporâneo - O Pedreirense

Nesta eleição alguns descem à um nível de desagregação completa na qual os boatos ganham a centralidade tóxica. Julgamento feito, os ativos do ódio se espalham repudiando as tentativas de diálogo com o argumento de que se tenta “limpar a barra de alguém”. Ou seja, servidores públicos com vinte anos de carreira agora são igualados aos grupos de fofoca do zap. Vejam que temos um terrível cruzamento aí entre má fé, questões cognitivas sobre moral, populismo e eleição. Banon sorri ao olhar para o caso e pensa: “wonderful”. Uma instituição gratuita de estudo. Fica realmente animado com o Rio de Janeiro.

Quando olhamos a situação de fora, pensamos em 1984. Em sistemas distópicos. A crença nas habilidades mágicas de indivíduos dotados do desejo de varrer o passado, varrer os caciques. Uma estranha macheza tão distante dos ideais de nossos eleitores juvenis que apostam em outro perfil. Mas que soltam um cão raivoso para fazer um papel conhecido. Aquele homem cordial que se agarra as grades do salão para que possa beber até cair, admirado por sua simpatia e leveza. Mas que mostra os punhos fechados quase disposto a desferir um soco no adversário quando contrariado. Leve, popular, jovem. E profundamente violento. O vencedor dos tempos atuais. O rei da popularidade. Escolhido a dedo para dar cor a uma campanha cujas propriedades lembram a água. O que dizer? Genial. E claro que temos o coroamento desta união. Quem nunca ousou defender o direito das docentes, acorda com todo o ideário de Simone de Beauvoir na cabeça. Aplausos para uma caixinha de música que repete ad nauseaum o discurso sobre mulheres na ciência aprendido ontem. Comovente, merece mesmo a vitória. Como dizia meu professor de história no segundo ano da faculdade, “ah, ela é tão esforçada”.

O quadro se completa com a crença que aposta em um empreendedorismo grotesco. Quase um quem quer dinheiro no meio do saguão. Assim, explícito, uniformizado, exuberante nas propostas. Trumps brasilis, um novo tipo de liderança que seduz ouvidos pouco comprometidos com Paulo Freire, Darcy Ribeiro ou uma educação transformadora. Tudo é utilizado como bravata mas com uma encenação digna de Oscar. E o sorriso do talentoso Ripley.

talentoso

Vemos uma turba comemorar a democracia como se assistisse ao fim de Apocalipse Now. E passado o momento de império do ódio, quando todos precisam voltar ao trabalho, percebemos que seguimos sem luz, sem administração, sem sistemas modernos de conexão. Sem saúde mental. Estranhamente não é possível explicar facilmente como ocorrem fenômenos coletivos desta ordem. Alguns falam em ondas. O fato é que seria impossível negar um sentimento comum aos vencedores e perdedores: a frustração e o desânimo.

Podemos pensar na imagem de um balão em noite escura. Seu brilho fustiga os cegos, alimenta os míopes e dá alguma importância aos que podem seguir o balão, até que ele cai no meio do Paraíba e durante o seu resgate, fica tomado de lama. Alguns o abandonam sentindo que foram enganados. Outros se agarram ao resto de brilho, sonhando com cargos de importância. Há os que sempre aceitando pouco, querem manter alguns benefícios, uma viagem, um carro novo. Há mesmo quem se venda por pouco.

Sem conseguir explicar a perda de excelência, vemos avançar a perda de sentido, de discernimento, de vontade, e começam a ocorrer situações próprias de um passeio de trem fantasma. A mudança de escala está completa. As salas são violadas, as violências perpetuadas, as reuniões, mero arremedo democrático. Os alunos antes confiantes, perdem o interesse no voto depositado. E quem desejava o poder abre a mão deixando escorregar pepitas escada abaixo.

Não havia nobreza no ato de quem meses antes acusara um inocente. Só havia ódio ativo, desinformação e interesses inconfessáveis. Canetas em mãos sem coragem podem ser perigosas. Sumiram no anonimato os que ontem faziam a festa da diversidade, baixaram a cabeça os que enviaram as mensagens de ódio. Negaram aqueles que os formaram para aderir aos novos saqueadores. Ninguém mais queria ver-se no espelho. Ah, não existem mais espelhos por aqui. Aliás, parece que teremos apenas sombras até o Carnaval. É certo que teremos o baile de máscaras. Na verdade, já foi bailado.

Se em terra arrasada pode nascer algo, teremos de observar. Por aqui o terreno recente foi arado para plantar um estranho tipo de negacionismo. Aquele que de dentro dos laboratórios nega a própria vocação e vende por pouco o que custou o trabalho duro de gerações.

UENF aos 30: um carinhoso abraço tardio na celebração de 3 décadas de muitos desafios

uenf 30 anos

Por Carlos Eduardo de Rezende*

A Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) celebrou, em agosto de 2023, três décadas de contribuição significativa para o ensino superior no Brasil. A visão utópica idealizada pelo Prof. Darcy Ribeiro resultou em uma instituição inovadora que, ao longo dos anos, demonstrou seu compromisso com a excelência acadêmica e a promoção do conhecimento.

O ano de 1992 marcou um ponto crucial na história da UENF. Na época, após retornar de uma experiência na Universidade de Washington em Seattle, onde estive na Escola de Oceanografia, fui informado pelo meu orientador de doutorado, o Prof. Wolfgang Christian Pfeiffer, a criação de uma nova universidade na cidade de Campos dos Goytacazes sobre a liderança do Prof. Wanderley de Souza que na ocasião era Diretor do Instituto de Biofísica da UFRJ. Este último, se tornaria o primeiro reitor da UENF, estava à frente da formação de grupos para a constituição da instituição.

Nesse contexto, fui convidado a participar ativamente desse processo. Meu orientador, o Prof. Wolfgang, decidiu não se envolver diretamente, mas ofereceu todo o suporte necessário para a criação do Laboratório de Ciências Ambientais, do qual passei a fazer parte e onde estou até hoje.

A iniciativa de formar grupos para compor a UENF revelou-se não apenas como uma oportunidade para o estabelecimento de uma nova instituição de ensino superior, mas também como um marco na minha trajetória acadêmica. A visão e o comprometimento da equipe fundadora, aliados ao suporte irrestrito do Prof. Wolfgang, foram fundamentais para o sucesso do empreendimento.

Assim, ao completar três décadas, a UENF não apenas celebra sua existência, mas também a riqueza de suas contribuições para o cenário educacional brasileiro. O Laboratório de Ciências Ambientais, resultado desse esforço conjunto, destaca-se como um exemplo concreto do impacto positivo que a visão de Darcy Ribeiro trouxe para a comunidade acadêmica e para o país como um todo.

Destaco o ano de 1992 como um marco significativo, uma vez que a Constituição promulgada em 1989 estipulava que a Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) deveria iniciar suas atividades nos próximos 3 anos. Desta forma, e graças à participação ativa de diversos jovens doutores que conseguimos inaugurar diversos cursos na UENF, estabelecendo parcerias fundamentais, como aquela com a Fundação Norte Fluminense de Desenvolvimento Regional (FUNDENOR).

Vale ressaltar que cursos importantes, a exemplo de Medicina Veterinária, tiveram seu início nas instalações dessa fundação. Ao longo de muitos anos, o setor administrativo da Fundação Estadual Norte Fluminense (FENORTE) também operou nesse ambiente. Este cenário alinhava-se com uma das utopias do saudoso Chanceler Prof. Darcy Ribeiro, que idealizou a colaboração entre a UENF e a FENORTE. Conforme essa visão, a UENF se beneficiaria do suporte administrativo da FENORTE, proporcionando aos professores todo o respaldo necessário para a gestão de seus projetos e aquisição de materiais para suas pesquisas.

Lamentavelmente, ao longo do tempo, essa relação não se concretizou conforme planejado, e, por diversos motivos, os quais não serão abordados neste momento, a FENORTE foi extinta em fevereiro de 2016. Essa realidade evidencia parte dos desafios enfrentados e as transformações ao longo da trajetória da UENF, marcando um capítulo importante em sua história institucional.

Na fundação da UENF, contamos com a significativa contribuição de vários membros da Academia Brasileira de Ciências e pesquisadores estrangeiros. Esses profissionais foram fundamentais durante o período inicial da instituição, e muitos deles permaneceram por anos. A experiência acumulada por esses cientistas foi essencial para consolidar diversos grupos de pesquisa que continuam contribuindo de maneira essencial para a UENF.

O modelo institucional da UENF estabeleceu um marco ao ser a primeira instituição de ensino superior no Brasil a contar com 100% do seu quadro docente permanente composto por doutores dedicados exclusivamente à pesquisa e ao ensino, e hoje, com atuação na extensão. Este modelo possibilitou o início simultâneo dos cursos de graduação e pós-graduação. Apesar de debates ocorridos nos conselhos superiores da instituição, nos quais a alteração desse modelo foi pautada, acredito não apenas na sua defesa, mas também na conexão direta entre esse modelo e os inúmeros resultados positivos experimentados por nossa instituição. Esse é um ponto que considero uma cláusula pétrea institucional e se tornou um alicerce fundamental para o crescimento e a qualidade da UENF.

Diferentemente de outras instituições, na UENF não adotamos uma estrutura departamental convencional. Nossos laboratórios buscam operar de maneira horizontal, abrangendo diversas áreas do conhecimento. Essa abordagem visa evitar a sobreposição excessiva de profissionais com formação semelhante. Embora reconheçamos a complexidade dessa abordagem, essa estruturação me parece adequada para os enfrentamentos necessários da ciência contemporânea. Além disso, a estrutura física de laboratórios compartilhados visa não apenas evitar a replicação desnecessária de infraestrutura analítica, mas também expandir as possibilidades de aquisição de novos equipamentos. Acreditamos que a multidisciplinaridade é a essência dessa abordagem, estimulando a interação entre diferentes áreas da ciência, enriquecendo as possibilidades de avanço nas pesquisas. Ao enfrentar os desafio e as resistências pela busca da horizontalidade nos laboratórios entendemos que este é o caminho que favorece a excelência acadêmica e a inovação.

Este não será meu último escrito sobre a instituição que moldou a maior parte da minha carreira acadêmica. Ao longo dos últimos anos, tenho testemunhado situações em que a história desta instituição é negligenciada. Com o início de uma nova administração em 2024, expresso minha sincera esperança de que conduzam a UENF com o devido cuidado para superar os desafios que persistem ao longo da rica trajetória desta instituição.

Dedico este texto a todos que, diariamente, contribuem para o crescimento da UENF, dedicando-se a respeitar o nome da nossa universidade e a sociedade que possibilitou sua criação por meio de uma mobilização significativa, agradeço.

Feliz Ano Novo


Carlos Eduardo de Rezende é  PQ 1B do CNPq, CNE da FAPERJ e Professor Titular da UENF, Fundador do Laboratório de Ciências Ambientais do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB). Na UENF foi Vice-Reitor, Pró-Reitor de Graduação e Diretor do CBB.

EAD: depois da porta arrombada, a tramela

ead

Enquanto assiste às ações no congresso nacional de piorar o já horroroso “Novo Ensino Médio”, o governo Lula decidiu colocar “uma tramela” na situação dos chamados curso de “Ensino à Distância” (EAD) que proliferaram tal qual cogumelos em pastagens após chuvas intensas.  A primeira medida foi suspender o credenciamento de uma lista de cursos por um período de 90 dias, de modo a permitir elaboração de proposta de regulamentação de oferta de cursos de graduação na modalidade EAD.

A coisa estava tão fora de controle que se estava permitindo até a promulgação da Portaria 2.041 o credenciamento de cursos de Enfermagem, Psicologia e Medicina na forma de 100% EAD. Com isso, o risco de formação de profissionais com baixíssima competência prática para áreas em que qualquer erro pode resultar em graves consequências para os indivíduos por eles assistidos.

Mas a luz vermelha que acendeu no governo Lula também se estende aos cursos de licenciatura já que a proliferação de cursos EAD tem possibilitado a entrada de professores sem qualquer experiência em sala de aula e formados dentro de critérios extremamente baixos de qualidade. O que parece ter aumentado o senso de urgência de mudanças drásticas nas regras de autorização de cursos de licenciatura EAD foram os resultados obtidos pelo Brasil no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2022 que mostrou que menos de 50% dos alunos brasileiros sabem o básico em matemática e ciências.

Agora, o Ministério da Educação, segundo o próprio ministro Camilo Santana, estuda não permitir mais cursos 100% EAD, e a dúvida seria se o percentual de ensino presencial será de 50%, 30% [da carga horária total].

Camilo Santana comenta impactos dos ensinos EAD na formação e qualidade de  professores - YouTube

Mudanças deverão ter forte impacto na Uenf

Se concretizadas, estas possíveis mudanças na oferta de cursos EAD deverão ser uma fonte de dor de cabeça garantida para todas as instituições de ensino superior que participar do Consórcio Cederj. É que apesar dos cursos EAD deste consórcio serem apresentados como semipresenciais, na prática a coisa é diferente. Assim, se efetivamente a oferta de conteúdos tiver que passar a ser 30% ou 50% na forma presencial, o aumento da carga de trabalho será inevitável, principalmente para os professores.

No caso da Uenf, o problema poderá tomar proporções ainda mais graves, na medida em que atualmente o estoque total de estudantes de três cursos  de licenciatura na modalidade EAD  (Ciências Biológicas, Pedagogia e Química) já supera o existente para os 17 cursos na modalidade presencial.

O maior problema será garantir não apenas o espaço de sala de aula e de laboratórios de ensino, mas também o de professores doutores que atuem em regime de dedicação exclusiva.

Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF realiza sua X Jornada

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Com a temática Transversalidades em Políticas Sociais: Ciência, Cultura e Meio Ambiente , nossa jornada deste ano falará sobre as articulações publico-privadas na ciência e na cultura, trará propostas e debates sobre o conceito de desenvolvimento, falará sobre questões étnico raciais e suas relações com o meio ambiente, além de levantar questionamentos acerca da participação. 

Recomenda-se que seja feita inscrição prévia via link, contudo as inscrições para ouvintes poderão ser realizadas no dia, exceto quem for apresentar trabalho artístico e/ou acadêmico que terá obrigatoriamente que se inscrever previamente. Teremos emissão de certificados de apresentação e como ouvintes no evento.

Inscrições gratuitas podem ser feitas [Aqui!].

As armadilhas do empreendedorismo e seus ativos mais preciosos

armadilhas

Por Luciane Soares da Silva 

Em junho de 1994 uma colega de faculdade muito popular venho até mim com uma pergunta inusitada: qual era o meu maior sonho. Tinha uns 22 anos naquela época, estava cursando uma faculdade, era bolsista de iniciação científica, tinha uma banda e uma cidade inteira para andar com pranchetas e questionários. Creio que não nutria um sonho muito específico. Após ouvir isto, ela passou a me explicar as vantagens de um mundo no qual eu poderia realizar “todos os meus sonhos”. Todos?

Durante aquele ano, fui abordada por pessoas muito diferentes, em posições sociais e de bairros muito diferentes de Porto Alegre. Com a mesma pergunta. Naquela onda de realização, no final da década neoliberal, minha madrinha, fisgada pelo discurso da realização de “todos os seus sonhos” entrou para o que viria a ser minha experiência mais próxima de observação sobre o funcionamento de um grande esquema de pirâmide. Em uma reunião no famoso clube Farrapos, vídeos reproduziam uma vida de luxo longe do mundo de trabalho fordista e de qualquer obrigação. O único compromisso era vender mercadorias de limpeza importadas dos Estados Unidos pelo meio de venda direta, um setor em alto crescimento particularmente para mulheres com filhos pequenos que não poderiam cumprir uma jornada de oito horas diárias. Mas estas mulheres estariam no topo desta pirâmide com suas revistas de compra direta?

A vida de minha madrinha era bastante sólida como uma trabalhadora da área de saúde e em uma família de pessoas com ensino superior. Meu tio era advogado ligado a prefeitura e minha tia assistente social. Então, de onde viria aquele ávido desejo por riqueza? No meio do curso de ciências sociais não foi difícil perceber o que significavam os textos sobre fim da história, uma sociedade em pleno processo de liquefação e uma promessa de mudanças com base em vendas diretas em todas as áreas. Cosméticos, alimentos, utensílios de cozinha, tudo dentro de um grupo com uma  ideologia que exigia alta performance em diálogos, contatos sociais, capacidade de convencimento. Como seria possível este novo mundo para pessoas que saíam de uma longa jornada como assalariadas? Que não possuíam uma rede capaz de suportar os valores praticados por aquele grupo de consumo de bens importados? Pessoas que não possuíam os capitais de circulação necessários para estar no topo.

Parecia óbvia a diferença entre uma mulher de 40 anos, divorciada e com três filhos e um casal de engenheiros que trocou a “vida monótona” por um esquema de pirâmide no qual aparecia em vídeos exibindo carros e fotos de viagens. A base de “recrutamento” era semelhante a uma seita, tornando seus adeptos agressivos quando confrontados com qualquer crítica. Foram dois anos de perdas até que ela aceitasse que aquele negócio “não era tão bom assim”. Dois anos de aplicação do seu salário para cafés da tarde, viagens à São Paulo, compra de material que supostamente seria facilmente vendido. Mas não foi. Porque seu grupo de convivência era de outros assalariados. O que para mim serve como exemplo prático de uma pessoa alienada sobre sua posição social.

O documentário Betting on Zero de 2016, dirigido por  Ted Braun, registra como latinos aderiram à ideia do dinheiro fácil e viveram a tragédia de perder o ganho de uma vida inteira de trabalho. Perderam caminhão, casa, economias. Perderam a dignidade ao perceber o engano de vender um shake. Que estocado, tornava-se um pesadelo de proporções trágicas.

Recentemente o filme Crypto Boy dirigido por Shady El Hamus me fez lembrar do livro “A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo” de Richard Sennet publicado em 1999. Já faz algum tempo que observo o tema da aposentadoria. Não apenas por experiências familiares mas por ter vivido uma crise do funcionalismo público fluminense em 2017, que fez com que aposentados passassem a vender amendoins no centro do Rio de Janeiro para não perder as próprias casas. Muitos tiveram de entregar os apartamentos. Algo que vimos após a bolha de 2008 nos Estados Unidos. Crises em curso, crises radioativas se expandindo no tempo e no espaço. A corrosão da qual fala Sennet mostra diferentes gerações enfrentando as mudanças no mundo do trabalho. Do modelo fordista, da vida planejada, das economias que possibilitaram um sentido à experiência para o futuro dos filhos, passamos a viver os anos de risco. Risco pessoal, riscos afetivos, velocidades em todas as transações, uso tóxico de redes sociais vendendo estilos de vida de bilionários saídos do nada.

Transações afetivas, laborais ou religiosas vividas como um ativo na bolsa de valores. Mas com algo em comum: todas estas transações contam com a potência do indivíduo, vendendo aquele mesmo sonho no qual minha madrinha embarcou na década de 90, no Brasil. Um sonho importado dos Estados Unidos expandido  no governo de Fernando Collor de Mello como o caminho de modernização nacional. Privatizar e tornar o Estado mais leve eram lemas repetidos pelos empregados da Companhia Rio Grandense de Telecomunicações. Que viraram donos de towners de cachorro-quente após demissões voluntárias. Negócios que faliram em menos de um ano. Todos desempregados e com dívidas.

O mesmo ocorre com os discursos das criptmoedas. A falência do mundo do trabalho como o conhecemos até a década de 1970, produziu uma geração inflada por experiências rápidas. Não mais Wall Street (não apenas). Não mais as bolsas de valores ou os bancos. Nada visível, nada com fronteiras, nenhum limite. Propagam a morte das amarras e valorizam relações baseadas em esquemas de pirâmides. Só que agora, com a confiança em jovens milionários de 30 anos. Descolados. Que frequentemente “somem” na  Índia ou algum outro país distante com o dinheiro de seus “associados”. Esta é a geração que olha o trabalho realizado por seus pais e grita “fracassados”. Exibem um tipo de consumo ostentatório e o rompimento com projetos de longa duração.

No entanto e apesar desta bruma de positividade baseada em puro discurso de elixir mágico,  segue existindo uma gigantesca diferença não percebida pela minha madrinha: aqueles que têm uma rede de proteção e podem falir e a massa que sustenta esta possibilidade, a base da pirâmide que defende os ricos. A Betina, que nascendo rica, apresenta-se como alguém que “fez” um milhão antes do 30 anos. Mas se não me engano, este pessoal anda demitindo muita gente. Ela seria o tipo ideal de gente que pretende ganhar dinheiro sem fazer nada relevante no mundo a não ser ganhar dinheiro sem fazer nada. Parece que tornou-se um mantra poderoso. Produzir espertezas de como burlar o sistema. Mas a casa nunca perde.  É o que sempre dizem em cassinos. E ainda assim, eles atraem milhares de sonhadores a cada ano.

O mesmo ocorre com um tipo de empreendedorismo cujas as palavras de ordem são “cuidar do planeta”, “fazer as pessoas mais felizes”, “preservar as culturas”. Algumas das empresas mais rentáveis no Brasil atualmente, utilizam a floresta e seus povos como ativos de propaganda do que foi exposto acima.

É trágico observar como esta lógica se assemelha a uma pequena infiltração que se alastra pela casa. Expande-se por todas as esferas até que não exista mais uma contra-hegemonia. Até mesmo em espaço nos quais nosso principal ativo deveria ser o conhecimento, ocorre um rebaixamento das expectativas. Não há possibilidade de manutenção de instituições do Estado como as universidades quando estas passam a instrumento da mesma lógica dos projetos individuais, da meritocracia e da possibilidade de lucrar com a marca. Mas neste caso, no Brasil, a “marca” é pública, então a operação torna-se um pouco estranha.  Não faz muito sentido fazer pesquisa pública se nivelamos nossa ação pelo mercado travestido de investimento social em pessoas. Sempre vivemos ondas salvacionistas no Brasil.

Os índios, as crianças de rua, os pobres, os pescadores, os favelados, as mães solteiras. São o foco do terceiro setor, frequentemente atuando com uma mão no mercado e os pés na universidade que chancela suas intenções e assina os projetos. A verdade é que esta operação complexa transforma as pessoas naquilo que elas pensam vender. Trocando em miúdos, o que importa, o que é mais raro, é o indivíduo na ação crédula de que algum grande empreendedor vai torná-lo rico, viável, socialmente incluído, diplomado e pertencente à nova ordem mundial. 

O elemento trágico é que esta ação é mediada por grupos que submetem estas minorias à formas de dominação das quais elas raramente se libertam. Todos ganham dinheiro. Menos os contemplados desta política que não sendo pública, é um meio de caminho entre a publicidade e a futura frustração. Garantem minimamente um pequeno conforto incerto mas com alto custo: o trabalho duro de gerações anteriores.

Esta ausência de crítica produz ao fim do processo uma frustração de caráter difuso que precisa ser constantemente alimentada por consumo, sensualismo manifesto nas redes sociais, redes de ódio e dívidas. Muitas dívidas como herança às gerações futuras. Nada pior que fazer para outros este trabalho de graça não é mesmo? E literalmente usar uma camisa que ao fim do dia ainda tem de ser devolvida lavada e passada para o próximo. Que a universidade possa viver livre deste empreendedorismo que rouba o verdadeiro propósito da instituição: a formação crítica e a capacidade para pensar de forma autônoma que caracteriza nosso compromisso com a ciência.


Luciane Soares da Silva é professora do Laboratório de Estudos sobre Sociedade Civil e do Estado (Lesce) da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf)

Findadas as eleições na Uenf, como ficou o imbróglio da reforma do Solar do Colégio?

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Em algum lugar do passado, Bruno Dauaire, Raúl Palacio e Wladimir Garotinho seguram a planta do Solar do Colégio, sede do Arquivo Público Municipal

Ao longo de 2023 uma das muitas causas de vergonha interna em quem ainda alguma restante dentro da comunidade universitária da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) foi o imbróglio relativo à reforma do Solar do Colégio que abriga o Arquivo Municipal de Campos dos Goytacazes. Foram dezenas de matérias jornalísticas e ameaças por parte do prefeito Wladimir Garotinho por causa do ritmo de tartaruga de pata quebrada com que o ainda reitor da Uenf, prof. Raúl Palacio, tratou o uso de R$ 20 milhões destinados pela Alerj para a realização da obra.

O batom na cueca foi tão grande que durante as eleições para a reitoria da Uenf, a atual reitora em exercício e futura reitora, profa Rosana Rodrigues, finalmente deu o ar da graça nas carcomidas instalações do Arquivo Municipal para prometer que com ela as coisas seriam diferentes.

Agora, passadas e vencidas as eleições, o ainda reitor Raúl Palacio resolveu fazer uma espécie de tour de despedida às custas da viúva com visitas em universidades no Chile e Colômbia, deixando a administração nas mãos de Rosana Rodrigues.

Pois bem, e sobre as obras que deveriam ocorrer antes das próximas chuvas de verão? Ninguém fala, ninguém viu. O problema é que ninguém mais fala no assunto, incluindo aí o prefeito Wladimir Garotinho, o seu grande amigo Bruno Dauaire, e os próceres do prefeito na mídia corporativa local.

A única conclusão que posso chegar é que tudo foi resolvido e só nos esqueceram de nos avisar. O problema é que fazer e não avisar não tem sido a prática da reitoria da Uenf nos últimos anos. Dai que….

Obras de “acessibilidade” na UENF impedem acesso, contaminam ambiente e ameaçam integridade de equipamentos científicos

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Que o atual reitor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), Prof. Raúl Palacio, não primou em sua gestão por cuidar do andamento de obras, isso já era sabido desde a desastrosa troca do telhado do prédio que abriga o seu gabinete na reitoria. Há quem atribua esse descuido com a falta de uma pegada acadêmica por parte do ainda reitor da Uenf, na medida em que ele possui um portifólio bastante reduzido de publicações científicas.

Mas há que se lembrar que ele foi eleito por causa de sua suposta capacidade de gestão, algo que seus apoiadores apontavam como suficiente para compensar outros aspectos menos proeminentes do seu currículo acadêmico, digamos assim. 

Agora, o que não se pode aceitar é o que está ocorrendo neste momento dentro do campus Leonel Brizola com a realização de obras para assegurar a acessibilidade aos prédios e instalações. O exemplo mais crasso está ocorrendo no segundo andar do edifício P-5 que aloja equipamentos de altíssima precisão que deveriam estar imunes a qualquer tipo de contaminação, inclusive a da atmosfera. É que apenas na reforma dos banheiros todos os protocolos que deveriam ter sido considerados para minimizar a contaminação ambiental foram solenemente ignorados e estão tendo resultados  para lá de impactantes (ver vídeo abaixo).

Eu fico imaginando uma situação dessas acontecendo em uma universidade estrangeira que abrigue os mesmos tipos de equipamentos que existem no segundo andar do P-5. No mínimo, alguém já teria chamado a polícia para impedir o andamento de tamanho descalabro. Mas como é no Brasil, e na Uenf, a coisa segue de forma tranquila e pacífica.

Agora, como é que vão descontaminar todos os ambientes afetados por essa grossa camada de poeira, de forma a garantir que os equipamentos possam voltar a medir com algum nível de precisão e acurácia no nível, por exemplo, da parte por trilhão?

O mais curioso é que a reitora em exercício e futura reitora está em pleno exercício do cargo, enquanto essa situação inaceitável ocorre. Alguém me disse ontem que, independente da troca de guarda em janeiro, tudo continuará como dantes no Quartel de Abrantes uenfiano. Estou começando a achar que essa pessoa está sendo visionária.

Finalmente, há que se lembrar que a Uenf está neste momento em período letivo regular, mas agora, com essas obras, professores, estudantes e servidores estão tendo que realizar suas atividades fora do campus universitário Leonel Brizola. É muita capacidade de gestão, para não dizer o contrário.