Estudo revela dados inéditos sobre alimentação infantil no Brasil

Resultados mostram que 80% das crianças brasileiras até 5 anos consomem ultraprocessados, inclusive bebês

alimentação infantil

A arquiteta Adriana Romero é mãe de dois filhos pequenos. Gabriel, de 3 anos, e Sofia, de apenas 3 meses.  A menina alimenta-se exclusivamente de leite materno e o cardápio de Gabriel  é rico em legumes, verduras, frutas e cereais, sem alimentos ultraprocessados. A família segue as recomendações do Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, lançado pelo Ministério da Saúde em 2019 – uma realidade que é exceção no país. Dados inéditos do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019) mostram que, em 2019, 80% das crianças brasileiras até 5 anos já consumiam alimentos ultraprocessados, como biscoitos, farinhas instantâneas, refrigerantes e bebidas açucaradas, dentre outros produtos nocivos à saúde. A prática é comum inclusive entre bebês menores de 2 anos, o que pode trazer consequências ao longo de toda a vida, como obesidade, diabetes e problemas cardiovasculares.

Os resultados do ENANI-2019 mostram que, em geral, a alimentação das crianças brasileiras está distante das recomendações do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OMS). As prevalências dos indicadores estudados – consumo de ultraprocessados; de frutas e hortaliças; e de água pura – variam entre as macrorregiões e de acordo com o Indicador Econômico Nacional (IEN), salientando as grandes desigualdades sociais do Brasil. Esperamos que os novos resultados possam ajudar a planejar estratégias de promoção da alimentação saudável, bem como o monitoramento da evolução desses indicadores ao longo do tempo”, afirma o coordenador nacional do ENANI-2019, Gilberto Kac, que é pesquisador do Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Natural x industrializado

O quadro de alta prevalência de consumo de ultraprocessados é agravado pela baixa ingestão de frutas e hortaliças, que deveriam compor a base da alimentação infantil. “No dia anterior à realização da entrevista com as famílias, 22,2% dos bebês de 6 meses a 2 anos e 27,4% das crianças de 2 a 5 anos não haviam consumido nem frutas nem hortaliças. A situação é mais preocupante na região Norte, onde, na véspera da entrevista, um terço (29,4%) dos bebês de até 2 anos não havia comido nem frutas nem hortaliças e a maioria deles (84,5%) tinha consumido ultraprocessados”, alerta Kac.

Nesse cenário, o coordenador nacional do ENANI-2019 destaca a alta prevalência do consumo de temperos industrializados, como caldos em cubo e molhos prontos. “Um quinto (20,9%) das crianças brasileiras de até 5 anos consome esses produtos em seu dia a dia, o que é preocupante porque são itens ricos em sódio, conservantes e outras substâncias perigosas. Os maiores índices estão nas regiões Nordeste (31,1%) e Sudeste (27,2%) e os menores nas regiões Centro-Oeste (19,7%) e Norte (20,6%). O ideal é preferir temperos naturais, frescos ou secos, como salsinha, coentro, manjericão, orégano, tomilho, dentre tantos outros”, orienta o pesquisador.

Consumo de água pura

O consumo de água pura, que é indicado a partir dos seis meses, no início da introdução alimentar, também chama atenção dos pesquisadores do ENANI-2019. O estudo aponta que a prevalência do consumo de água pura entre crianças de até 5 anos no dia anterior ao do estudo foi de 72,1% no país. “Isso significa que um quarto  (27,9%) das crianças brasileiras nessa faixa etária não consumiu água pura no dia anterior à entrevista”, aponta Kac. As menores prevalências estão nas regiões Sul (47,4%) e Norte (49,1%) e as maiores nas regiões Sudeste (80,4%), Nordeste (79,8%) e Centro-Oeste (77,1%).

Sobre o ENANI-2019

O ENANI-2019 é a primeira pesquisa com representatividade nacional a avaliar, simultaneamente, em crianças menores de 5 anos, práticas de aleitamento materno, alimentação complementar e consumo alimentar individual, estado nutricional antropométrico e deficiências de micronutrientes, incluindo as deficiências de ferro e vitamina A. Foram realizadas visitas domiciliares em 123 municípios brasileiros entre fevereiro de 2019 e março de 2020, totalizando 14.558 crianças menores de 5 anos. O ENANI-2019 foi encomendado pelo Ministério da Saúde e coordenado pelo Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e a Universidade Federal Fluminense (UFF), com financiamento da Coordenação Geral de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

SERVIÇO

Webinar ENANI-2019: indicadores de alimentação da criança

7 de dezembro, das 15h às 17h

Assista em www.youtube.com/injcufrj

Tereza Cristina: de “musa do veneno” a “rainha dos ultraprocessados”

Governo tenta incluir ultraprocessados em guia de alimentação saudável

tereza-cristina-600x387Não contente ser apenas a “Musa do Veneno”, a ministra Tereza Cristina (DEM/MS) também quer ser a “Rainha dos Ultraprocessados”

Por Guilherme Mendes para o Congresso em Foco

O Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens/USP) publicou uma nota nesta quinta-feira (17) em que acusa os ministérios da Saúde e da Agricultura de promoverem uma pressão pela alteração do Guia Alimentar para a População Brasileira.

O documento de referência, editado pelo Ministério da Saúde em parceria com o Nupens, tem diretrizes para incentivar a alimentação saudável e, segundo a universidade, tem aclamação mundial por parte de organismos internacionais de combate à fome. O guia, em sua edição mais recente, está disponível aqui.

Segundo o Nupens, o ofício encaminhado pela ministra Tereza Cristina veio acompanhado de uma nota técnica, contestando informações presentes no Guia. O documento foca as críticas na definição que os autores do manual fazem aos alimentos ultraprocessados – comidas com alto número de ingredientes e conservantes químicos, e baixíssimo valor nutricional.

Estes produtos, como bolachas, refrigerantes, salgadinhos e macarrão instantâneo, fazem mal à saúde humana e devem ser evitados em dietas saudáveis, segundo o Guia. Agora, o Ministério da Agricultura contesta esta conceituação.

hipermercadoAlimentos ultraprocessados causam vários males à saúde dos consumidores. Mesmo assim, Tereza Cristina quer incluí-los no guia alimentar dos brasileiros

O ofício é assinado pelo Coordenador-Geral do Departamento de Análise Econômica e Políticas Públicas do Ministério da Agricultura, Eduardo Mello Mazzoleni. O representante do ministério argumenta que o guia alimentar induz a população brasileira a uma limitação da autonomia das escolhas alimentares, e que o critério para se apontar uma comida como ultraprocessada  seria cômico.

“As receitas domésticas que utilizam vários ingredientes não podem em hipótese alguma serem rotuladas dessa forma, o que demonstra um evidente ataque sem justificativa a industrialização”, compara a nota. “Pesquisas demonstram que não existem evidências de que o valor nutricional e a saudabilidade de um alimento estejam relacionados aos níveis de processamento, uma vez que existem alimentos processados que contribuem com uma ampla variedade de nutrientes em todos os níveis de processamento.”

Mazzoleni também fez críticas gerais ao documento – definido por ele como um dos “piores” do planeta em sua área. A nota técnica recomenda à ministra que ordene a sua imediata e urgente revisão.

O Nupens alega que a nota técnica omite a vasta literatura científica nacional e internacional acumulada desde 2009, quando a classificação e o conceito de alimentos ultraprocessados foi por ela proposta.

Ainda na nota (disponível aqui), o núcleo de pesquisas alega que as alegações para a alteração apresentadas pelos ministérios são frágeis e inconsistentes, e que o Guia brasileiro é reconhecido internacionalmente por sua qualidade científica por órgãos internacionais. “Confiamos que o Ministério da Saúde e a sociedade brasileira saberão responder à altura o que se configura como um descabido ataque à saúde e à segurança alimentar e nutricional do nosso povo”, afirmou.

fecho

Este texto foi originalmente publicado pelo site Congresso em Foco [Aqui!].