Observatório dos Agrotóxicos: com mais 51 liberações, governo Bolsonaro já despejou 1.316 agrotóxicos no mercado brasileiro

agrotoxicos na mesaUm agricultor pulverizando pesticidas usando um pulverizador de mochila.  Lucas Lacaz Ruiz / Fotoarena / Folhapress

Como venho notando, a persistente crise sanitária que se mistura a uma crescente deterioração do ambiente político brasileiro não está impedindo que o governo Bolsonaro continue com sua tsunami de liberações de agrotóxicos, muito deles banidos em outras partes do mundo.  Com o Ato No. 32 de 16 de julho, o governo Bolsonaro liberou mais 51 agrotóxicos (sendo 35 deles agroquímicos e 16 agrotóxicos de base biológica).

Entre os agrotóxicos liberados, e que são proibidos na União Europeia, estão velhos conhecidos como a Atrazina (disruptor endócrino),  o Metomil (considerado agudamente tóxico pela agência regulatória europeia) e o Tiram (também um disruptor endócrino).  No caso da Atrazina, a nova classificação toxicológica adotada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) coloca essa substância altamente perigosa para a saúde humana como sendo de Categoria 5 (Improvável de causar dano agudo).

Anvisa faz revisão toxicológica de mais de 1.900 agroquímicos

Com a “nova” classificação toxicológica da Anvisa, a maioria dos agrotóxicos altamente perigosos vendidos no Brasil passaram a ser de Categoria 5

Outro aspecto que se repete no Ato No. 32 de 16 de julho é que ele traz a aprovação de mais produtos contendo princípios ativos que já estão amplamente presentes no mercado brasileiro. Parte desses produtos já atingiu a condição de pós-patente, o que implica na sua fabricação fora dos países onde foram originalmente desenvolvidos, principalmente na China cujas empresas se especializaram na produção deste tipo de agrotóxico. Com isso, a China é a origem de 20 dos 35 agrotóxicos de base química, o que reforça a dependência do Brasil em relação ao seu principal parceiro comercial no fornecimento de venenos agrícolas.

Disruptor endócrino

A ingestão de alimentos contaminados por resíduos de agrotóxicos tem causado várias doenças nos brasileiros, a começar pela interrupção do sistema endócrino

Todos esses aspectos da tsunami de agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro desmentem as falas iniciais da ministra da Agricultura Tereza Cristina (DEM/MS) no sentido de que essas aprovações permitiriam o uso de agrotóxicos menos nocivos à saúde e ao meio ambiente.  O jeito encontrado para mascarar para os inevitáveis danos acarretados pelo uso de substâncias altamente perigosos foi, como em outros casos no governo Bolsonaro, foi mudar o sistema de classificação toxicológica. Tampouco a promessa de barateamento está sendo cumprida, pois a aquisição de agrotóxicos continua sendo uma das principais fontes de custos dos agricultores brasileiros, principalmente dos que participam do comércio global de commodities. 

Em outras palavras, na economia global dos agrotóxicos, o Brasil está na ponta daqueles que só perdem, apesar do avanço do vício crônico da agricultura de exportação em substâncias que outros países já baniram por causa das consequências desastrosas que acarretam.

Para quem desejar baixar o arquivo contendo a lista de agróxicos liberados pelo Ato No. 32, basta clicar [Aqui!]. Já para baixar a base contendo os 1.316 liberados entre janeiro de 2019 e julho de 2019, basta clicar [Aqui!].

Velhos venenos indesejados são liberados no Brasil: Governo Bolsonaro autoriza agrotóxicos banidos há 20 anos na União Europeia

Estudo mostra que a maioria dos produtos liberados tem ingredientes ativos proibidos nos países europeus, devido à toxicidade. E que muitos deles foram aprovados no Brasil anos após o banimento por lá

pulverização

Contaminação: avião agrícola pulveriza agrotóxicos em lavouras próximas ao rio

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – A política de Jair Bolsonaro em relação aos agrotóxicos causa indignação não só pelo número recorde de produtos autorizados desde que assumiu, em janeiro de 2019. De lá para cá foram liberados 1.257 no total, dos quais apenas 160 de ação biológica. É como se um produto químico diferente chegasse ao mercado a cada dia.

O problema é que muitos desses “novos” produtos já foram proibidos em países da União Europeia há 20 anos. Uma proibição, aliás, decidida a partir de políticas baseadas em estudos científicos sobre os impactos trazidos à saúde humana e a outros organismos. Mas que são desprezados por órgãos do governo brasileiro.É o caso do herbicida Ametrina, banido em 2002. De 2019 para cá foi liberado para 20 “novos” produtos. Diretamente associado ao surgimento de câncer na próstata e no ovário, causa alterações nos organismos dos peixes. A Anvisa e o Ministério da Agricultura entendem que apesar disso vale a pena autorizar seu uso contra plantas invasoras em lavouras de abacaxi, algodão, banana, café, cana-de-açúcar, citros, mandioca, milho e uva, entre outras.

Agrotóxico contra a saúde

E também do herbicida Tebutiurom, banido na União Europeia no mesmo ano. Estudos mostram que a molécula deixa resíduos persistentes na água e em organismos em geral. Ou seja, segue causando danos por anos e anos. Mais recentemente, foi descoberto que a produto se acumula em peixes, nos quais causa alterações no sistema endocrinológico. Ou seja, tem ação sobre hormônios e pode prejudicar todo o funcionamento do organismo. Mesmo assim, de 2019 para cá, foi liberado como ingrediente ativo de 23 produtos ou em combinações, para cultivos de cana e as pastagens.

Sem contar o inseticida e acaridicida Clorfenapir, proibido em 2001. O mais velho da lista foi liberado para compor dez “novos” produtos destinados a culturas de acerola, algodão, alho, amora, amendoim, batata, cebola, citros, couve, crisântemo, eucalipto, feijão, framboesa, maracujá, mamão, melancia, melão, milho, morango, pimentão, pitanga, repolho, rosa, soja e tomate. Itens muito presentes na alimentação dos brasileiros.

“São moléculas muito antigas, que correspondem a 70% do total liberado. E muitos foram autorizados no Brasil depois de terem sido banidos em outros países. É uma vergonha um país fazer papel de lixeira”, disse à RBA Sonia Corina Hess, professora aposentada do curso de Engenharia Florestal e Agronomia do campus Curitibanos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Juntamente com o professor e pesquisador Rubens Onofre Nodari, do Centro de Ciências Agrárias da mesma universidade, e a pesquisadora Mônica Lopes Ferreira, do Instituto Butantan, ligado ao governo estadual paulista, Sonia analisou as autorizações para a comercialização e o consumo de agrotóxicos no país na última década.

Liberações no governo Bolsonaro

E com olhos mais atentos sobre as liberações nos três primeiros semestres do governo Bolsonaro. Os resultados foram publicados no último dia 30, em artigo na revista Desenvolvimento e Meio Ambiente, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A edição foi toda dedicada à discussão do agronegócio em tempos de colapso planetário.

Diante dos dados encontrados, a professora passou a analisar o conjunto das autorizações recorde do Ministério da Agricultura, comandado pela ruralista Tereza Cristina, a “musa do veneno”. O apelido foi dado em 2018, quando a ainda deputada federal, então presidente de comissão especial, conseguiu aprovar o substitutivo para o PL 5.622 – o Pacote do Veneno –, que está pronto para ser votado pelo plenário. Se for aprovado, a importação, produção, rotulagem, venda, distribuição, uso e armazenamento de agrotóxicos ficarão facilitados. Por isso o tema desperta o interesse de todos.

Do total de “novos” produtos autorizados recentemente, há 522 (41,5%) contendo 153 ingredientes ativos, dos quais 53 banidos ou sequer registrados nesses países, conforme apurou Sonia Hess. Mas isso não foi motivo suficiente para serem excluídos.

A tabela a seguir mostra quais são os principais ingredientes banidos, o ano da proibição e em quantos “novos” produtos são utilizados. Repare os danos à saúde humana e ambiental atribuídos ao seu contato.

“E ainda autorizam produto ‘venenosíssimo’, proibido na União Europeia, para ser usado em alface, repolho, couve”, disse a professora, referindo-se à Bifentrina. O ingrediente ativo banido há 11 anos está em 22 dos “novos” produtos, para uso nas culturas de acelga, agrião, alface, almeirão, brócolis, centeio, cevada, chicória, couve, couve-chinesa, couve-flor, couve-de-bruxelas, espinafre, repolho, rúcula e tomate, entre outros.

E também ao inseticida e acaricida Tolfenpirade, autorizado no final de dezembro passado. Muito perigoso ao meio ambiente e altamente tóxico, é autorizado para o cultivo de brócolis, mandioca, alface, couve, couve-de-Bruxelas, couve-flor, repolho e tomate.

A produção de hortaliças, entretanto, não está entre os principais alvos dos agrotóxicos, e sim às lavouras de soja, milho, algodão e cana-de-açúcar, que se estendem por latifúndios. Essas culturas consomem 80% de todo o agrotóxico vendido no Brasil, conforme o atlas Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia, de Larissa Bombardi.

Pulverizações aéreas

Embora esses produtos sejam de exportação no mercado de commodities, o Brasil sofre com as consequências do uso desses produtos. As pulverizações aéreas de misturas de venenos contaminam o solo, os rios e lençóis freáticos a quilômetros de distância da aplicação, sem contar os impactos à saúde das populações atingidas.

Mais de 60% das empresas que têm obtido registros no Brasil estão sediadas na China, que por sua vez é o maior comprador da soja brasileira produzida sob banhos de agrotóxicos. Para o agrônomo Leonardo Melgarejo, coordenador-adjunto do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, esses empresários estariam se aproveitando de vantagens.

Por um lado usufruem das facilidades para despejar aqui esses produtos todos. “É uma enxurrada de venenos proibidos na União Europeia que vão sendo produzidos com outros nomes, em combinações com outros nomes, sem submeter a análises. Então, sem ser avaliados, estes antigos aparecem aqui como ‘novidade’, de ‘ficha limpa’. Uma vergonha com articulação internacional para ‘lavagem’”, disse.

Lucros com agrotóxicos

Por outro lado lucram com a soja comprada. “Até porque o volume de veneno aplicado supera em milhares de vezes o que retorna, dentro dos grãos. E em todas as nações, mesmo no socialismo chinês, a morte de pessoas por sequelas dos agrotóxicos não é considerada problemática. Afeta especialmente os mais pobres e idosos”, disse à RBA.

Entre 2010 e 2018 a venda de agrotóxicos no Brasil aumentou 43%. Partiu de 384.501,28 toneladas para 549.280,44 em 2018. No mesmo período, porém, a área cultivada para as culturas temporárias e permanentes cresceu apenas 20%, passando de 65.374.591 hectares para 78.502.422 hectares em 2018, conforme o IBGE.

O sinal verde de Bolsonaro aos agrotóxicos banidos na União Europeia já era comum em outros governos, mas não com a mesma intensidade. Em 2003 foram aprovados dez produtos, dos quais sete banidos no ano anterior. E sete banidos em 2009 foram autorizados no Brasil em 2010, 2013, 2014, 2015, 2016 e 2017, conforme o gráfico.

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Este texto foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: governo Bolsonaro libera mais 93 agrotóxicos e chega a 1.265 liberações em 30 meses

Aumento das fabricantes chinesas e o uso de agrotóxicos altamente perigosos são marcas da tsunami de aprovações do governo Bolsonaro

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Em que pese a crise política, econômica e sanitária que o Brasil atravessa neste momento, o governo Bolsonaro continua com a tsunami de liberações de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo.   Em apenas dois atos publicados em maio e junho (Atos 26 e 29, respectivamente) foram liberados mais 93 agrotóxicos, o que implica em um “grande total” de 1.265 agrotóxicos liberados sob a batuta de Jair Bolsonaro e da ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS). 

Essa verdadeira tsunami tóxica visa basicamente acelerar a compra de agrotóxicos por grandes latifundiários que estavam envolvidos com as monoculturas de exportação que incluem a soja, o milho, o algodão e a cana-de-açúcar. Em uma análise rápida dos 93 agrotóxicos aprovados é possível verificar que a maioria dos agrotóxicos liberados (seja para uso imediato por agricultores ou para fabricação de produtos pela indústria do veneno instalada no Brasil) é a persistência de produtos antigos (os chamados pós-patente) e a hegemonia de empresas chinesas em seu fornecimento.  Essas características estão certamente relacionadas a um aperto das regras de fabricação e uso em mercados mais exigentes, a começar pela União Europeia, e o envio desses produtos antigos para regiões cujos governos são mais dependentes das renda gerada pela exportação de commodities agrícolas, como é o caso do Brasil.

Produtos altamente venenosos classificados como pouco danosos à saúde humana e ao meio ambiente

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Outra característica que está presente na tsunami tóxica do governo Bolsonaro é a liberação de produtos banidos por terem sido identificados como altamente nocivos à saúde humana e ao meio ambiente, e ainda por cima com definições de risco baixo. Exemplos gritantes disso são os agrotóxicos Ametrina, Atrazina e o exterminador de abelhas Fipronil. Aliás, com os produtos liberados pelo Ato No. 26, o governo Bolsonaro liberou o incrível total de 34 produtos formulados ou técnicos contendo o Fipronil. Como esse produto é conhecido por causar o extermínio de polinizadores benignos como é o caso das abelhas, os riscos ambientais que estão sendo impostos ao meio ambiente são altíssimos apenas quando se considera o Fipronil.  Mas como o Fipronil não é o único exterminador de abelhas que está sendo liberado, que ninguém se surpreenda se em breve tivermos uma série falta de mel e quebra de safras de culturas que dependam de polinizadores para suas floradas.

O avanço da indústria chinesa no mercado de agrotóxicos brasileiros

Outra característica marcante dos Atos 26 e 29 é a confirmação de que o Brasil se tornou um mercado preferencial para a crescente indústria chinesa de agrotóxicos. No caso do Ato No. 29 que liberou 29 produtos, o predomínio de empresas chineses ficou mais do que evidente, já que estas são as fabricantes de 24 dos agrotóxicos liberados (82,7%). Mas outro fenômeno aparente é a instalação de subsidiárias das indústrias chinesas que estão dispensado os intermediários para obter a autorização para a venda de seus produtos no mercado brasileiro. Com a velocidade de liberação que está sendo propiciada pelo governo Bolsonaro, não será de se estranhar que a influência da indústria chinesa de venenos agrícolas comece em breve a colocar em xeque a hegemonia das gigantes europeias e estadunidenses como Basf, Bayer e DowDupont.

O Brasil como zona de sacrifício de agrotóxicos altamente perigosos

Ainda que não haja a devida cobertura jornalística, o Brasil está imerso em uma combinação perversa que mistura o avanço do desmatamento na Amazônia com o aumento da demanda por agrotóxicos naquela onde as condições climáticas aceleram o processo de regeneração primária e o aumento de populações de insetos e de doenças causadas por fungus e vírus. Em certo sentido, o avanço do desmatamento na Amazônia está sendo um forte vetor para o consumo de agrotóxicos, o que em face dos últimos dados de remoção total das áreas florestas amazônicas deverá aumentar exponencialmente a demanda por venenos agrícolas.

O problema é que ao contrário do prometido não está havendo nenhuma modernização dos agrotóxicos, o que nem interessa aos fabricantes desses produtos que ganham rios de dinheiro sem que tenham que efetivamente buscar qualquer tipo de inovação no seu portfólio de produtos, já que a demanda tende apenas a crescer.

No final o que estamos nos defrontando é a transformação do Brasil em uma zona de sacrifício capitalista, onde a geração de margens espremidas de lucros pelo latifúndio agro-exportador força o avanço da franja de desmatamento dentro da Amazônia com base em sistemas agrícolas altamente dependentes do consumo de agrotóxicos. 

Quem desejar as planilhas do Ato No. 26, basta clicar [Aqui!], e a do Ato No. 29 [Aqui! ]. Já os interessados em baixar a planilha contendo a descrição completa dos 1.265 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro desde janeiro de 2019, basta clicar [Aqui!]. 

 

Live do lançamento do livro “Geografia da Assimetria: o ciclo vicioso dos agrotóxicos e colonialismo entre o Mercosul e a União Europeia” de Larissa Bombardi

larissa bombardi

Como anunciado aqui no blog, hoje ocorreu o lançamento no Parlamento Europeu do livro “Geografia da Assimetria: o ciclo vicioso dos agrotóxicos e colonialismo entre o Mercosul e a União Europeia” de autoria da professora Larissa Bombardi, do Departamento de Geografia da USP, e que atualmente se encontra exilada na Bélgica em função de ameaças sofridas por causa da publicação de sua obra anterior, o “Atlas Geográfico do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia“.

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Ainda que o evento de lançamento tenha durado em torno de 2 horas, disponibilizo abaixo dois vídeos que mostram a apresentação feita pela professora Larissa Bombardi do seu novo livro.

Quem desejar baixar a obra “Geografia da Assimetria: o ciclo vicioso dos agrotóxicos e colonialismo entre o Mercosul e a União Europeia” em sua versão em inglês, basta clicar  [Aqui!]

Exilada por causa das suas pesquisas sobre agrotóxicos no Brasil, Larissa Bombardi lança novo livro no Parlamento Europeu

Agrotóxicos e  relações comerciais assimétricas entre a UE e o Mercosul. Pesquisadora exilada discute a circulação de agrotóxicos. Próximos padrões coloniais. Parlamentares de esquerda da UE e ONGs participarão de evento no Parlamento Europeu

larissa bombardi

Por Ulrike Bickel para o Amerika21

Bruxelas . Amanhã a professora de geografia brasileira Larissa Bombardi apresentará seu novo estudo sobre política de agrotóxicos nas relações comerciais entre a União Européia (UE) e a aliança econômica Sul-americana Mercado do Sul (Mercosul). No evento organizado pelo grupo de esquerda no Parlamento Europeu, parlamentares e organizações não-governamentais das duas regiões farão comentários sobre a situação. Eles também discutirão abordagens para combater o uso indevido de pesticidas.

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Empresas químicas se beneficiam da redução tarifária planejada de 14 a zero por cento nas exportações de pesticidas para o Mercosul.  FONTE:BILATERAIS

Participantes: Lilian Galán, membro da Frente Amplio do Uruguai, Nilto Tatto,  deputado federal do Partido dos Trabalhadores Brasileiros (PT) e presidente da frente parlamentar ambiental, da Alemanha Peter Clausing da Rede de Ação de Pesticidas (PAN) e da França Arnaud Apoteker da Justice Pesticides e Sara Lickel do Veblen Institute.

No estudo, que estará online em breve, Bombardi explica como o planejado acordo de livre comércio UE-Mercosul aumentará o comércio desigual entre as duas regiões e prejudicará ainda mais o clima e os ecossistemas. Organizações como o Greenpeace já demonstraram que as empresas químicas europeias se beneficiam enormemente das reduções tarifárias planejadas de 14 a zero por cento nas exportações de agrotóxicos para o Mercosul. Algumas delas são substâncias químicas proibidas na UE, como os inseticidas altamente perigosos para as abelhas Fipronil da BASF, Tiametoxam da Syngenta, Clotianidina e Imidaclopride da Bayer.

Continuaram as críticas de que os cortes tarifários sobre produtos agrícolas sul-americanos, como carne bovina e de frango, açúcar e bioetanol, acelerariam o desmatamento e consolidariam o modelo agrícola industrial que depende de monoculturas e safras geneticamente modificadas de alto desempenho. Por sua vez, as empresas químicas se beneficiam disso.

As aplicações corriqueiros de agrotóxicos em enormes plantações por avião também destruíram biomas ricos em espécies florestas e savanas, povos indígenas e agricultores foram deslocados, e os serviços de saúde da população local ficaram sobrecarregados. Com a exportação de produtos agrícolas sul-americanos, as substâncias perigosas voltaram aos pratos dos consumidores europeus: dentro e em restaurantes locais . Além disso, o acordo UE-Mercosul dá continuidade ao papel da América Latina como exportador de commodities agrícolas, como mostram os mapas do estudo da Bombardi.

Em termos puramente monetários, um certo equilíbrio foi estabelecido no comércio. Em 2018, a UE exportou bens no valor de cerca de 41 bilhões de euros para o Mercosul, enquanto os países do bloco sul americano exportaram bens no valor de cerca de 43 bilhões de euros para a UE. A Alemanha domina as importações do Mercosul com uma participação de 20 % das exportações totais, seguida pelos Países Baixos com 17% e França com 14%. O principal exportador do Mercosul para a UE é o Brasil, com mais de 70% do volume total de exportação. A Argentina tem 20%, Paraguai e Uruguai, 5%.

No entanto, segundo Bombardi, a aparente igualdade de valores financeiros das exportações esconde a subordinação dos ecossistemas, dos direitos humanos e das necessidades humanas no Mercosul. Enquanto as principais exportações da UE são produtos processados, como máquinas, veículos, reatores nucleares, produtos farmacêuticos e equipamentos eletrônicos, os principais produtos de exportação do Mercosul permaneceram principalmente matérias-primas, como farelo de soja, ração animal, minérios, grãos, celulose, óleos vegetais, frutas e café.

Oito dos doze produtos mais exportados do Mercosul para a UE vieram do setor agrícola, três da mineração e apenas um era um produto industrial. Por outro lado, dos doze produtos mais exportados da UE para o Mercosul, onze estavam relacionados com tecnologias de alto valor agregado: por exemplo, veículos, máquinas, aparelhos eletrônicos, produtos farmacêuticos e químicos, peças de aeronaves, aço. Apenas a décima segunda categoria de produtos continha matérias-primas.

Segundo Bombardi, isso reproduz o modelo comercial colonial de uma divisão internacional assimétrica do trabalho que as potências coloniais europeias estabeleceram há 500 anos.

Uma aliança de mais de 450 organizações sociais e ambientais da América Latina e da Europa está agora protestando contra o acordo comercial UE-Mercosul . De acordo com um parecer jurídico recente do Greenpeace e Misereor, as melhorias com uma cláusula adicional sobre proteção ambiental e florestal, propostas pelo Comissário de Comércio da UE Dombrovskis, são completamente inadequadas para garantir a sustentabilidade e os direitos humanos.

Quem desejar se inscrever para participar deste evento, basta clicar [Aqui!]

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo Amerika21 [Aqui!].

O veneno chega pela torneira: Ministério da Saúde aumenta de 27 para 40 agrotóxicos a serem monitorados na água consumida pelos brasileiros

torneira

Em meio ao avanço da pandemia da COVID-19, o Ministério da Saúde fez publicar sem muito alarde a Portaria GM/MS No. 888 de 04 de maio de 2021 cujo objetivo primário foi alterar o Anexo XX da Portaria de Consolidação GM/MS nº 5, de 28 de setembro de 2017 que dispõe sobre os procedimentos de controle e de vigilância da qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade no Brasil.

Na prática a Portaria GM/MS No. 888 atualiza uma série de parâmetros que devem ser monitorados para que, em tese, se garanta que a água consumida pelos brasileiros em suas casas não causa danos à saúde deles.  Pois bem, mas um dos itens “atualizados” deveria ou deverá receber grande atenção dos responsáveis por garantir que a água que é consumida pelos brasileiros não vai causar doenças graves em vez de apenas matar a sede deles.

Falo aqui da Tabela de Padrão de Potabilidade para substâncias químicas que representam risco à saúde, especificamente aquelas que são usadas na agricultura, os chamados agrotóxicos.  É que na Portaria de Consolidação, o número de monitoramento eram 27, o que já foi motivo de uma postagem neste blog sobre a presença de todas as substâncias listadas pelo Ministério da Saúde na água consumida pelos habitantes de Campos dos Goytacazes, sendo que 9 delas estavam acima dos limites considerados como seguros.  Eis que agora o número de substâncias a serem monitoradas passou para 40 agrotóxicos, muitos dos quais amplamente usados na produção de commodities agrícolas voltadas para exportação como soja, milho e algodão (ver Aqui! as substâncias alvo para monitoramento em 2017 e em 2021).

Campos agrotóxicos

Na prática o que a elevação de 27 para 40 agrotóxicos a serem monitorados na água de consumo por causa do risco que causam à saúde humana é um reconhecimento tácito é de que uso intensivo e praticamente sem qualquer controle de substâncias altamente perigosas está chegando nos torneiras dos brasileiros. E, pior, sem que as empresas públicas ou privadas que fornecem essa água estejam fazendo qualquer movimento para estabelecer métodos de remoção desses poluentes no seu processo de tratamento, o qual permanece basicamente removendo material biológico e material particulado.

O pior é que dentre os agrotóxicos que passam a ser monitorados estão alguns que são apontados por estudos científicos como causadores de doenças graves tais como o Acefato, o Paraquate, a Ametrina e a Simazina, que têm sido consistentemente ligados à ocorrência de diversos tipos de câncer, além de doenças do sistema nervoso, sendo ainda disruptores endocrinos.

Apenas para se ter uma ideia da gravidade do avanço do processo de contaminação da água consumida por brasileiros por agrotóxicos, fiz uma checagem de quantas das 40 substâncias incluídas na Portaria GM/MS No. 888 de 04 de maio de 2021 estão proibidas na União Europeia (ver Aqui!) e o total foi de 26 (ou seja 65%!). 

status eu agrotóxicos na água

O problema é que como já foi mostrado pela professora Larissa Miers Bombardi no seuAtlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Européia“, os limites máximos de resíduos tolerados no Brasil estão, em alguns casos, em diversas ordens de grandeza daquilo que é tolerado pela Comissão Europeia. Assim, os brasileiros estarão sob um risco cada vez mais grave de estarem consumindo água com níveis de resíduos de agrotóxicos produzidos por multinacionais europeias, mas que aqui não obedecem os critérios de segurança impostos aos agricultores europeus.

No caso de Campos dos Goytacazes onde a Câmara de Vereadores pode ter brevemente uma Comissão Parlamentar de Inquérito para averiguar a qualidade dos serviços prestados pela concessionária “Águas do Paraíba”, um ponto que poderia ser arguida pelos vereadores poderia ser acerca dos métodos de remoção de micropoluentes como os agrotóxicos listados pelo Ministério da Saúde na água servida aos campistas.

Finalmente, não há como deixar de associar a necessidade de aumentar o número de substâncias sendo monitoradas na água servida pelas redes oficiais de fornecimento à política de “passa boiada” que foi adotada pelo governo Bolsonaro em substâncias que estão proibidas para uso justamente nos países que as fabricam.  O resultado dessa política de porteira aberta agora está aí para todos verem, qual seja, a grande possibilidade de que estamos ingerindo um alto número de resíduos de agrotóxicos altamente tóxicos não apenas para seres humanos, mas para os sistemas aquáticos que fornecem a água que precisamos para viver.

“Bee killers”: Corte Europeia mantém banimento de agrotóxicos neonicotinóides amplamente usados na Brasil

abelhas-mortas2Abelhas mortas por contato com agrotóxicos

O Tribunal Superior da União Europeia manteve a proibição parcial da UE de três agrotóxicos neonicotinóides que têm sido ligados ao extermínio de abelhas, impedindo seu uso em certas plantações. Esta decisão abrange três   três produtos ativas – a Imidacloprida, desenvolvida pela Bayer CropScience, a Clotianidina, desenvolvida pela Takeda Chemical Industries e Bayer CropScience, e o Tiametoxam  que é produzido pela Syngenta.

Curiosamente, dois desses agrotóxicos- a Imidacloprida e o Tiametoxam não só continuam sendo bastante vendidos, como foram beneficiados pela tsunami de aprovações realizada pelo governo Bolsonaro. No caso da Imidacloprida, o número de novos produtos aprovados foram 13, enquanto no caso do Tiametoxam o número aprovações chegou a 12. Há ainda que se notar que no caso da Imidacloprida as aprovações foram todas dos chamados produtos técnicos que são a matéria bruta do qual são produzidos os chamados produtos formulados que são efetivamente vendidos nas lojas de varejo. Já a Imidacloprida teve 6 produtos técnicos liberados, enquanto que os 6 produtos formulados foram autorizados para diversas culturas, incluindo o Algodão.

Com essa decisão, a multinacional alemã Bayer que teve o seu pedido rejeitado pelo Tribunal Superior da União Europeia certamente olhará para o mercado brasileiro com ainda mais sofreguidão, pois terá aqui caminho livre para escoar a sua produção que está sendo banida na União Europeia. Este padrão de “dupla moral” da União Europeia precisa ser claramente repudiado, na medida em que permitem a continuidade da venda de produtos que se sabe serem nocivos à saúde de insetos polinizadores, como é o caso das abelhas.

No caso do governo Bolsonaro e da Anvisa, o que mais essa caso deixa evidente é um padrão dúbio de preocupação com a saúde dos brasileiros, pois enquanto se impede o uso de vacinas contra a COVID-19 sob o desígnio de proteger a saúde dos brasileiros, quando se trata de agrotóxicos a coisa corre solta.

 

Europeus querem diplomacia climática com a China, indica pesquisa

climate diplomacyUma tela mostra imagens de notícias do presidente chinês Xi Jinping participando de uma cúpula em vídeo sobre mudança climática com a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês Emmanuel Macron, em uma rua comercial de Pequim na sexta-feira, © REUTERS

O público em seis países europeus quer que seus governos priorizem a mudança climática nas relações com a China, indica uma nova pesquisa do Instituto YouGov. A pesquisa foi encomendada pelo think tank E3G e foi realizada na Alemanha, Dinamarca, França, Itália, Polônia e Reino Unido em abril de 2021.

Em média, nos seis países pesquisados, 7 em cada 10 (72%) pessoas acreditam que abordar a mudança climática deveria ser uma prioridade muito ou bastante alta na política externa de seu país em relação à China.

Mesmo nos países em que foram identificadas opiniões predominantemente negativas sobre a China (Alemanha, Dinamarca, França e Reino Unido), o público sente que a mudança climática deveria ser uma alta prioridade para o envolvimento de seu país com o gigante asiático.

No total, mais pessoas indicaram que a mudança climática é uma prioridade muito alta (40%) do que aqueles que veem a criação de novos acordos comerciais como uma prioridade muito alta (18%). 
 
A pesquisa chega em um momento em que a cooperação sobre o clima com a China – maior emissor do mundo com uma participação de 27% nas emissões globais – é percebida como estando encolhendo.
 
“Esta pesquisa fornece provas claras de que, apesar das tensões emergentes entre a União Europeia e a China, a maioria dos europeus acredita que o clima deve ser uma das prioridades na agenda de política externa com a China, juntamente com as preocupações sobre direitos humanos e o desenvolvimento de uma resposta global à COVID-19”, afirmou Nick Mabey, Chefe Executivo do E3G.

“Embora o público europeu pense que a diplomacia climática com a China é importante, eles também esperam que a China produza mais para cumprir suas ambiciosas metas climáticas” diz Byford Tsang, Assessor Sênior de política do E3G. “A União Européia, os Estados-Membros e o governo do Reino Unido devem continuar engajados com a China na implementação de ações climáticas de curto prazo, incluindo uma moratória sobre a construção de usinas elétricas a carvão no país e no exterior”.

Relação China-EUA

A China foi o primeiro país, após os Estados Unidos, a falar durante a Cúpula de Líderes Climáticos convocada pelo presidente Joe Biden. Embora nenhuma nova meta formal tenha sido anunciada, Xi Jinping disse que a China “limitaria estritamente o aumento do consumo de carvão no 14º período do plano quinquenal e o reduziria gradualmente no 15º período do plano quinquenal”.

Dias antes, em 18 de abril, EUA e China divulgaram uma declaração conjunta sobre suas metas climáticas. Nela, a China concorda em trabalhar metas mais ambiciosas nesta década e em entregar planos de descarbonização de longo prazo em linha com a neutralidade de carbono líquido zero na COP26, que será realizada em novembro, na Escócia.

Os resultados da pesquisa realizada com os europeus estão alinhados com os dados de outra pesquisa de opinião , feita nos EUA, em dezembro do ano passado pelo Asia Society Policy Institute. O estudo indicou que a maioria dos americanos apoia a cooperação com a China para enfrentar a mudança climática e reduzir as emissões.

Genocídio uigur?

A disputa pela província de Xinjiang faz parte de uma estratégia para impedir ou desacelerar a ascensão da China

uigurBase e superestrutura na província chinesa de Xinjiang: abaixo do transporte de crianças em idade escolar, acima de um cartaz de propaganda com o presidente Xi e dignitários uigur

Por UWE BEHRENS para o Neues Deutschland

O governo Biden, os holandeses e o parlamento da UE estão acusando o governo chinês de genocídio contra o grupo étnico uigur na província de Xinjiang. Eles impuseram sanções contra líderes individuais, bem como contra empresas. A República Popular da China respondeu com contra-sanções contra parlamentares da UE e institutos de pesquisa especializados na China.

Em contraste, a Organização para a Cooperação Islâmica saudou as condições em que os muçulmanos vivem na China em 2019, o que também foi confirmado pela visita do ministro das Relações Exteriores chinês à Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Omã, Bahrein e Irã em março deste ano. fui.

Para compreender que, por um lado, os Estados ocidentais condenam a China pelas condições de vida de um grupo étnico islâmico e, por outro lado, os Estados islâmicos elogiam a China por essas condições, é necessário olhar para os antecedentes e os detalhes.

Existem dois grandes grupos étnicos muçulmanos na China: os hui, a maioria dos quais se estabeleceu na província de Ninxia, ​​e os uigures, a maioria dos quais vive em Xinjiang. Ambos os grupos gozam de proteção e privilégios garantidos por lei a todas as 55 minorias nacionais na República Popular da China. Eles tiveram e terão acesso preferencial a instituições de ensino, incentivos fiscais e a não aplicação da política do filho único, que já terminou, com renúncia às restrições de nascimento.

Em Ningxia, consegui me convencer das visitas regulares às mesquitas e do livre exercício das tradições muçulmanas. Os conflitos na província de Xinjiang obviamente não são sobre o Islã, mas sobre os esforços separatistas, que ressurgiram por mais de 20 anos, para separar a região autônoma de Xinjiang da China e convertê-la em um califado islâmico. Tais estruturas já existiam, embora não fossem reconhecidas internacionalmente, de 1865 a 1877, de 1933 a 1934 e de 1944 a 1949.

As razões para o ressurgimento dessas aspirações de independência política e territorial podem ser encontradas na própria província autônoma de Xinjiang e – e na campanha com pressão política inadequada e aberta – fora da China.

A província de Xinjiang é caracterizada por pastagens escassamente povoadas, desertos e montanhas com um uso agrícola tradicionalmente modesto. Como consequência, a prosperidade e o nível de educação da população são muito inferiores aos de outras regiões da China, especialmente quando comparados com as províncias industriais do leste e nas costas do país. Durante minhas muitas estadias profissionais e turísticas na província nos últimos 30 anos, fiquei surpreso ao ver tanto atraso na China nos anos 90.

A fim de equilibrar essas diferenças de prosperidade, mas também de ser capaz de usar os diversos recursos, investimentos têm sido feitos no desenvolvimento da indústria, infraestrutura e agricultura desde os anos 80 e 90, o que levou a um forte influxo de não Os uigures, especialmente Han, estavam ligados à província. Os novos residentes possuíam ensino superior e também ocupavam os cargos mais bem remunerados. Uma lacuna de prosperidade se desenvolveu entre os uigures e os chineses han, o que se refletiu no aumento das tensões.

A organização do exílio do grupo étnico, o Congresso Mundial Uigur, com sede em Munique e apoiado por um think tank estadunidense financiado pelo Estado, se considera uma espécie de governo no exílio e clama por um Turquestão Oriental independente. Ao mesmo tempo, este congresso mundial mantém uma organização militar, o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, que em última instância é responsável pelos ataques terroristas, mas foi retirada da lista de organizações terroristas pelos EUA em 2020.

Esta situação foi alimentada adicionalmente pelos conflitos militares nos vizinhos Paquistão e Afeganistão. No Corredor Wakhan, na fronteira com a China, violentos uigures foram treinados junto com o Taleban para a luta religiosa. Posteriormente, grupos uigures entraram em contato com organizações terroristas em outros países, inclusive ingressaram no EI e lutaram na Síria e na Líbia, entre outros.

Já nos anos entre 2000 e 2010, ataques terroristas foram perpetrados em território chinês, nas províncias e nas cidades por uigures de influência islâmica. Centenas de civis e forças de segurança foram mortas.

Em Xinjiang, a questão não é a supressão do Islã ou da etnia uigur em bloco, mas a luta contra as tendências separatistas, que são apoiadas por forças estrangeiras por meio de uma ideologia islâmica política, que não deve ser confundida com a prática usual da religião de Islamismo. As ações terroristas planejadas pelos separatistas para desestabilizar a situação, especialmente nas áreas afetadas, devem ser descobertas e prevenidas neste contexto pelas forças de segurança chinesas.

O governo central chinês está tentando neutralizar a ameaça latente do terrorismo com um pacote completo de medidas: aumento do investimento em infraestrutura e no desenvolvimento industrial e agrícola, expansão do sistema educacional e, assim, superação da pobreza. Além disso, foi estabelecido um sistema de controle e vigilância para prevenir quaisquer atividades separatistas e terroristas, das quais, sem dúvida, também sofre a pacífica população civil. Existem postos de controle fortemente armados nas entradas e saídas de cada vila e cidade, e dentro das cidades há uma delegacia de polícia a cada 500 metros. Câmeras de vigilância para reconhecimento facial são onipresentes. Isso não é bom e não parece tranquilo, relaxado e assustador para os visitantes ocidentais.

A industrialização e a modernização da agricultura devem ser vistas, acima de tudo, no contexto dos esforços do governo para erradicar a pobreza. Acordos de parceria foram feitos entre as cidades da província de Xinjiang e as províncias mais ricas, que prevêem a colocação de gerentes experientes, conhecidos no Ocidente como quadros. O mesmo princípio foi aplicado em outras províncias como Guizhou ou Sichuan. Recebeu muitos elogios na mídia internacional.

Além de estabelecer uma indústria de pequena escala com suporte digital nas aldeias, esses projetos de desenvolvimento também incluem a instalação de instalações de produção modernas para as indústrias têxtil, automotiva e eletrônica. As empresas das regiões parceiras estão investindo em Xinjiang, construindo novas instalações de produção para sua indústria. A mão-de-obra necessária para isso é recrutada entre a população local, ou seja, o povo uigur, que inevitavelmente tem de ser combinada com uma formação prévia. Ao mesmo tempo, esta industrialização implica a deslocalização para os novos centros industriais. Cerca de três milhões de uigures que viviam em mais de 3.500 aldeias foram tiradas da pobreza, incluindo a realocação de 170.000 pessoas.

A agricultura também foi transformada industrialmente. Os exportadores americanos de maquinário agrícola, em particular, fizeram o negócio do século fornecendo máquinas de colheita para a indústria de algodão. Hoje, cerca de 70 a 80 por cento das colheitas de algodão são mecanizadas. Isso levou a um declínio acentuado no número de trabalhadores da colheita. Enquanto cerca de 700.000 trabalhadores da colheita de toda a China ainda eram necessários em 2008, o número era de apenas 100.000 em 2018; no entanto, agora eles são fornecidos apenas pela província de Xinjiang, ou seja, pela população uigur.

Todas essas medidas permitiram superar a pobreza absoluta entre os uigures até 2020. Durante minha última viagem por Xinjiang, pouco antes da crise de Corona, pude ver tudo isso por mim mesmo em 2019.

Os acontecimentos na província de Xinjiang entraram em conflito entre os EUA e a China desde a política de contenção do governo Trump. Eles são avaliados de acordo com os interesses dos EUA e de seus aliados. Novos complexos industriais com instituições educacionais são reinterpretados como campos de internação.

O número de aproximadamente um milhão de uigures internados na mídia ocidental é baseado em uma estimativa da rede chinesa de defensores dos direitos humanos, apoiada pelo Fundo Nacional de Empoderamento dos Estados Unidos, que perguntou a oito pessoas em oito aldeias se e quantas pessoas eles conheciam estavam internadas campos ser. Verificou-se que cerca de dez por cento da população da aldeia estava internada. Essa porcentagem foi então extrapolada para toda a população e o número um milhão nasceu. Até onde sei, não há nenhuma evidência adicional ou mais substancial. A situação é semelhante com o número de acampamentos. A BBC avaliou as imagens de satélite e identificou os complexos murados recém-construídos como possíveis campos.

Um estudo publicado recentemente pelo Newlines Institute for Strategy and Policy nos Estados Unidos, baseado nos mesmos dados originais e similares, concluiu que a China estava cometendo genocídio.

Este estudo é uma série de informações secundárias não verificadas e declarações de uigures que vivem no exterior e é, em última análise, baseado na pesquisa na Internet do antropólogo Adrian Zenz, que trabalha no ambiente de cristãos evangélicos de direita e trabalha para um think tank conservador de direita em os Estados Unidos.

O estudo, que teria exigido a confirmação de cientistas independentes, aguarda ainda a assinatura de 33 dos 66 cientistas interrogados, que não deram o seu parecer por legítimas dúvidas. Em uma entrevista no “Neue Zürcher Zeitung” em março de 2021, Zenz admitiu que as evidências para a alegação de genocídio eram “muito frágeis”, mas achou “de um ponto de vista simbólico” usar o termo de qualquer maneira porque “alcançou um forte efeito psicológico “e, portanto, levar a” consequências econômicas “.

Tudo isso questiona a credibilidade das acusações, mas mostra claramente a intenção por trás delas: desestabilizar a China com o objetivo declarado de impedir a ascensão bem-sucedida da China, ou pelo menos desacelerá-la.

O que mais assusta é o facto de os factos construídos e os casos suspeitos apresentados serem assumidos pelos meios de comunicação ocidentais sem serem examinados e servir de base às decisões políticas.

Uwe Behrens, é doutor em Economia, nasceu em 1944 e trabalhava no sistema de transporte da RDA. De 1990 a 2017, ele morou e trabalhou na China – primeiro para uma empresa de agenciamento de carga alemã, depois para uma joint venture germano-chinesa e uma franco-indiana. Ele visitou a China pela última vez em 2019, incluindo a província de Xinijang. Seu livro “Feindbild China. O que não sabemos da República Popular «(224 pp., Fr. 15 €).

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal Neues Deutschland [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: com mais 27 liberações, governo Bolsonaro chega a 1.127 agrotóxicos liberados em 26 meses

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Enquanto o Brasil segue distraído pelas idas e vindas do presidente Jair Bolsonaro no combate à crise sanitária criada pela pandemia da COVID-19, o seu governo continua ampliando a enxurrada de liberações de agrotóxicos, muitos deles banidos pela União Europeia.

Com a promulgação do Ato 13 de 26 de Fevereiro, o governo Bolsonaro autorizo o uso de mais 27 agrotóxicos em sua forma industrial (o chamado produto técnico) que depois serão transformados em produtos formulados que poderão ser vendidos a varejo ou no atacado.

Dentre os produtos aprovados, a carga habitual de produtos que já estão proibidos pela União Europeia, incluindo os já conhecidos Atrazina, Dibrometo de Diquate, Glufosinato e Hexazinona, todos conhecidos por causarem algum tipo de dano à saúde humana e a outros seres vivos, e também nas águas e solos (ver figura abaixo).

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Status na União Europeia dos agrotóxicos liberados pelo Ato No. 13 de 26 de fevereiro de 2021

É interessante notar que nessa leva também foi feita a aprovação de mais um agrotóxico baseado no Fipronil, conhecido por causa de sua letalidade contra polinizadores. Com isso, o governo Bolsonaro já liberou um total de 23 agrotóxicos com base no Fipronil, sendo que 10 deles são produtos técnicos que poderão gerar sabe-se lá quantos produtos formulados.  O resultado disso é que temos em curso a massificação da venda de um produto conhecido por exterminar abelhas, o que, curiosamente, poderá causar perdas colossais à agricultura brasileira, especialmente naqueles segmentos que mais usam agrotóxicos que são os produtos de commodities agrícolas de exportação.

Empresas chinesas estão aumentando sua hegemonia no fornecimento de agrotóxicos no mercado brasileiro

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Outra característica marcante nos 27 agrotóxicos que foram liberados pelo Ato No. 13 é que 92% deles são fabricados por empresas chinesas, a maioria de forma exclusiva (ver figura abaixo).

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Países de origem das empresas fabricantes dos agrotóxicos liberados pelo Ato No. 13 de 26 de fevereiro de 2021

Mas além de participar intensamente do fornecimento, noto agora que empresas chinesas estão se estabelecendo em número cada vez maior no Brasil para passarem a vender diretamente seus produtos em vez de simplesmente entregá-los para empresas brasileiras fazerem o processamento de produto técnico para as diferentes formulações. Essa mudança tende a fortalecer a hegemonia das empresas chinesas no fornecimento de agrotóxicos que serão usados mais amplamente no cultivo daquelas commodities que a China mais importa do Brasil.  O problema aqui é agrotóxicos, como todo produto industrializado, sempre custará mais caro do que soja, por exemplo. E nisso fica uma troca desigual, pois enquanto os chineses compram soja e milho mais baratos dos exportadores brasileiros, o Brasil paga mais caro pelos agrotóxicos chineses, De quebra, por aqui ficam as consequências nefastas de alguns produtos que a própria China já baniu em seu território.

Governo Bolsonaro: vacina não, agrotóxico sim

Voltando ao governo Bolsonaro e sua postura de boicote à vacina Coronavac, fabricada pela  Sinovac, é sempre importante lembrar que a rejeição está longe de ocorrer com os agrotóxicos produzidos por dezenas empresas chinesas sobre as quais há pouca ou nenhuma informação, inclusive nos sites que estas possuem na rede mundial de computadores.

Mas, convenhamos, há extrema coerência nessa situação, pois o governo Bolsonaro além de ser representante direto dos interesses do latifúndio agro-exportador, é liderado por um presidente que até aqui mostrou pouquíssimo interesse em preservar a vida dos brasileiros, e os números de mortos pela COVID-19, quase 270 mil, estão aí para não me deixar falando sozinho.

Quem desejar baixar o arquivo contendo a descrição dos agrotóxicos liberados pelo Ato No. de 26 de fevereiro, vasta clicar [Aqui!]. Já para baixar a base completa contendo os 1.127 agrotóxicos liberados desde o início do governo Bolsonaro, basta clicar  [Aqui!].