Observatório dos Agrotóxicos: com mais 28 agrotóxicos liberados, a tsunami tóxica do governo Bolsonaro avança

tsunami toxica

Apesar da saída (silenciosa é preciso que se diga) da ministra Teresa Cristina, a tsunami de liberações de agrotóxicos continua ocorrendo no Ministério da Agricultura, para completa alegria do latifúndio agro-exportador cujo modelo de agricultura é fortemente dependente do uso de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo por serem extremamente perigosos para o ambiente e os seres humanos.

Assim, no dia de hoje o Diário Oficial da União traz a liberação de mais 28 agrotóxicos, o que resulta em “um grande total” de 1.880 agrotóxicos liberados em 1.203 dias de (des) governo, ou seja, uma média diária de 1,56, o que representa um número efetivamente espantoso, especialmente se levarmos em conta que este total representa 50% de tudo o que está disponível no mercado brasileiro de venenos agrícolas.

O Ato No. 18 é um museu de velhas novidades tóxicas

Uma primeira análise dos 28 agrotóxicos liberados pelo Ato No. 18 de 14 de abril de 2022 mostra a presença da mesma proporção de produtos proibidos na União Europeia (em torno de 30%), e a presença de velhos conhecidos como os herbicidas Glifosato e Dicamba e os inseticidas Imidacloprido e Fipronil, estes dois últimos considerados como ameaças expressivas às populações de abelhas, tendo sido por isso banidos na União Europeia. Mas a lista dos chamados “proibidões”  não para por ai, o que apenas reforça que o discurso da ministra Tereza Cristina de que essa tsunami de aprovações resultaria em produtos mais novos e seguros não passava de propaganda enganosa.

Agrotóxicos com uso preferencial nas commodities agrícolas de exportação

Observatório dos Agrotóxicos: a tsunami de agrotóxicos do governo Bolsonaro  não para e mais 25 produtos foram liberados hoje |

Outro aspecto que salta aos olhos é que a imensa maioria dos agrotóxicos aprovados estão voltados para uso em monoculturas voltadas para exportação, tais como soja, algodão e milho.  Essa característica é dominante no destino dado à maioria dos agrotóxicos comercializados no Brasil, o que desmente o discurso de que a forte dependência em venenos agrícolas seria uma necessidade para impedir que a fome reinante no mundo (e no Brasil) não aumente.

O fato é que as commodities agrícolas produzidas com o amplo uso de venenos agrícolas não tem muito a ver com o combate à fome, já que se destinam a servir como ração animal na União Europeia e na China, de modo a garantir um padrão de consumo de alimentos centrado no uso excessivo de proteínas animais.  Enquanto isso, os brasileiros experimentam preços caríssimos nos itens de sua dieta básica, enquanto são expostos a grandes quantidades de resíduos de agrotóxicos em sua alimentação e até na água de torneira.

A dependência da indústria chinesa de venenos agrícolas como outra marca persistente

Uma rápida análise da lista de 28 agrotóxicos liberados pelo Ato No. 18 mostrará que 64% dos agrotóxicos liberados têm seus ingredientes técnicos produzidos por empresas chinesas, o que evidencia um forte grau de dependência do principal parceiro comercial brasileiro. O problema é que enquanto o Brasil vende commodities agrícolas, a China está vendendo produtos relativamente mais caros, o que reforça um padrão de trocas desiguais, o qual torna os supostos feitos comerciais do agronegócio uma espécie de tigre de papel, dado que além de requer subsídios governamentais para produzir, o setor ainda causa desmatamento e poluição ambiental.

Para o Brasil esse é um verdadeiro jogo de soma zero, pois para os latifundiários e as corporações produtoras de agrotóxicos ganharem, todos os demais brasileiros têm que perder.

Acesso às bases de dados

Como sempre ocorre, o “Observatório dos Agrotóxicos” do Blog do Pedlowski está disponibilizando duas planilhas de dados que contém a lista de agrotóxicos liberados pelo Aro No. 18 [Aqui!], e outra que traz todos os 1.880 liberados pelo governo Bolsonaro [Aqui! ].

Gotas no oceano

Liberação de reservas de petróleo: governo dos EUA quer amortecer as repercussões de sua política de embargo anti-Rússia com medidas inadequadas

gasolina pontoSem consequências práticas: a ordem do governo dos EUA só levou a uma ligeira queda nos preços do petróleo

Por Knut Mellenthin para o JungeWelt

O movimento foi descrito por muitos meios de comunicação como “histórico”. No entanto, as últimas ordens do governo dos EUA para aliviar a pressão no mercado internacional de petróleo resultaram apenas em uma ligeira queda nos preços. O índice de referência mais importante, o Brent, foi cotado a 106 dólares por barril na tarde de segunda-feira. Antes do início da guerra na Ucrânia, em 24 de fevereiro, o barril era de US$ 95. Especialistas também duvidam do efeito a médio e longo prazo das medidas. Vincular a União Europeia (UE) à proibição total de importação de petróleo e gás natural russos pelos EUA, de que se fala cada vez mais agressivamente, teria previsivelmente as consequências econômicas mais sérias que não poderiam mais ser compensadas.

O presidente dos EUA, Joseph Biden, anunciou na quinta-feira que um total de 180 milhões de barris de petróleo da Reserva Estratégica de Petróleo dos EUA (SPR) serão colocados à venda nos próximos seis meses – um milhão de barris para cada dia. Este é o maior acesso à SPR desde que foi criada em 1975 em resposta ao embargo petrolífero dos estados árabes. Biden já havia iniciado duas retiradas menores da reserva estratégica: 50 milhões de barris foram liberados em novembro de 2021, e em março deste ano os EUA participaram com 30 milhões de barris na ação de cerca de 30 países, o mercado mundial totalizou 60 milhões barris disponíveis de suas reservas.

O SPR está armazenado em aproximadamente 60 cavernas de sal nos estados do sul do Texas e Louisiana. A capacidade máxima é de 714 milhões de barris. Antes do pedido recente de Biden, a reserva era de pouco mais de 580 milhões de barris. Mais cedo ou mais tarde, os saques da SPR terão que ser substituídos. Os especialistas não descartam que o governo dos EUA possa ter que pagar um preço mais alto do que o preço atual.

180 milhões de barris não é muito. O consumo diário nos EUA foi de 20,54 milhões de barris em 2019, o último ano antes da crise da coroa. O consumo global de petróleo é estimado em cerca de 100,6 milhões de barris por dia para o ano em curso. De acordo com isso, o mercado global, calculado para todo o ano, receberá apenas 0,5% a mais da demanda do governo dos EUA. É óbvio que isso não pode ir longe.

Deve-se notar que o impacto do embargo de petróleo e gás nos EUA e em alguns outros países sobre as exportações russas ficou muito aquém das expectativas. Em primeiro lugar, os contratos celebrados anteriormente estão a ser processados. Em segundo lugar, as vendas de petróleo russo para a Índia, em particular, dispararam nas últimas semanas. O mesmo é esperado para as exportações para a China. Supõe-se geralmente que a Rússia concede aos seus clientes reduções de preços de 20 a 30 por cento – e, portanto, ganha tão bem quanto no outono de 2021. Nessas circunstâncias, uma recusa geral da UE em importar petróleo russo provavelmente causaria muito menos danos à Rússia do que o Oeste.

Biden salpicou seu discurso na quinta-feira passada sobre a liberação dos 180 milhões de barris da SPR com uma repreensão populista capitalista. Graças à “guerra de Putin” e aos altos preços resultantes, as petrolíferas norte-americanas teriam os maiores lucros em muitos anos, acusou-os. O “patriotismo” agora exige que eles invistam seus lucros de forma produtiva, aumentem drasticamente a produção de petróleo e assim garantam preços mais baixos, especialmente “nos postos de gasolina”. Em vez disso, alguns deles “aproveitariam a situação, sentariam, jogariam os lucros em seus investidores enquanto as famílias americanas lutavam para sobreviver”. Bilden ameaçou que o Congresso teria que decidir sobre penalidades financeiras contra eles.


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Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pelo jornal JungeWelt [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: com liberação de mais 25 agrotóxicos, governo Bolsonaro totaliza 1.660 liberações em 39 meses e 1,4 por dia

tereza bolsonaro

Jair Bolsonaro e Tereza Cristina seguem com a marcha desenfreada de liberações de venenos agrícolas altamente tóxicos

Em uma demonstração óbvia de que não está esperando pela aprovação do Pacote do Veneno também no Senado Federal, o governo Bolsonaro liberou por meio do Ato No. 14 de 07 de março um total de 25 agrotóxicos do tipo “produto técnico”, levando seu “grand total” a 1.660 venenos agrícolas liberados em 1.169 dias de governo, o que dá a média de 1,4 agrotóxicos liberados por dia. Até para um país cuja agricultura de exportação está firmemente aprisionada na dependência química, esses números são de assombrar qualquer um que se preocupa com os ecossistemas nacionais e a saúde dos brasileiros.

Agrotóxicos proibidos na União Europeia circulam livremente no Brasil

Brasil é 2º maior comprador de agrotóxicos proibidos na Europa, que importa  alimentos produzidos com estes químicos

Um aspecto repetitivo de toda essa onda de aprovações é a presença de produtos banidos na União Europeia cuja legislação pode ser considerada mais rígida do que a brasileira. A “estrela” do Ato No. 14, com 7 produtos liberados, é o Espirodiclofeno, um acaricida que foi proibido na União Europeia (UE) em julho de 2020. Mas além desse, esse ato mais recente também liberou o fungicida Epoxiconazol que está proibido na UE desde abril de 2020.

De quebra, outro “proibidão” liberado foi o fungicida Carbendazim que está proibido desde 2014 após ter sido relacionado a uma ampla gama de doenças que incluem embriotoxicidade, apoptose, teratogenicidade, infertilidade, disfunção hepatocelular, efeitos de desregulação endócrina, interrupção de funções hematológicas, anomalias do fuso mitótico, efeito mutagénico e aneugênico.

Mas apesar de todos esses efeitos, o governo Bolsonaro liberou 10 agrotóxicos contendo o princípio ativo do Carbendazim, uma substância pertencente ao grupo químico Benzimidazol.

A predominância da China como principal fornecedora de agrotóxicos para o Brasil

Agrotóxicos produzidos na China são maioria no pacote de venenos aprovado  pelo governo Bolsonaro |

Outra característica de liberações anteriores que se repetiu no Ato No. 14 foi a forte presença de empresas chinesas no fornecimento de venenos agrícolas para a agricultura nacional, na medida que 24 dos agrotóxicos serão produzidos por empresas sediadas na China. Entretanto, a única exceção que foi o fungicida Pidiflumetofem é produzido na Suiça pela Syngenta, que também é uma empresa chinesa.

Um dado expressivo sobre a dependência brasileira da indústria chinesa de agrotóxicos é que dos 1.660 agrotóxicos liberados nos 39 meses de governo Bolsonaro, 1.001 são “Made in China”, um número que ainda não representa a totalidade do impacto chinês, na medida em que empresas sediadas em países como a Suiça (Syngenta) e Israel (Adama) são de fato propriedade da ChemChina, fundada em 1984, que é um empresa química estatal chinesa que atua nos segmentos de produtos agroquímicos,  borracha, materiais químicos e especialidades químicas, equipamentos industriais e processamento petroquímico para os setores civil e militar.

Com uma 1,4 agrotóxico liberado por dia, governo Bolsonaro deverá ultrapassar 2.000 agrotóxicos liberados em 4 anos de mandato, um verdadeiro recorde mundial

Transgênicos e agrotóxicos: dois “temperos” ocultos na comida do brasileiro  |

Se o governo Bolsonaro mantiver sua média diária de liberações de venenos agrícolas  é de 1,42 por dia, o mais provável é que a dupla Jair Bolsonaro e Tereza Cristina coloquem mais de 2.000 agrotóxicos em um mercado já saturado deste tipo de produto altamente tóxico, o que invariavelmente nos levará a uma crise sanitária em alguns anos, dada a toxicidade de muitos dos produtos que estão sendo liberados, digamos, com sofreguidão.

Por isso tudo é que repito ser fundamental que haja um amplo debate em torno do modelo de agricultura viciada em agrotóxicos que hoje é hegemônica. O fato é que além de ser altamente poluentes e tóxicos, os agrotóxicos são hoje protegidos por uma série de benesses fiscais, causando fortes perdas financeiras a economia brasileira.

É passada a hora de se deixar de premiar o latifúndio agro-exportador e as corporações químicas às custas da degradação ambiental e do envenenamento da água e dos alimentos que os brasileiros consomem.

Quem desejar baixar a planilha contendo os 25 agrotóxicos liberados pelo Ato No. 14, basta clicar [Aqui!]. Para os interessados em baixar a planilha contendo os 1.660 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro, basta clicar [Aqui!].

Carta Capital desnuda padrão de dupla moral dos países ricos: intensa pressão para abrir mineração em áreas indígenas da Amazônia brasileira

duplo padrão

(…) A despeito da necessária pressão da comunidade internacional para que o Brasil cuide melhor de suas florestas, os governos de alguns desses países atuam, nos bastidores, para liberar a mineração em terras indígenas, com inevitáveis e irreversíveis impactos sobre os biomas brasileiros.

Embaixadores, empresários e lobistas, principalmente da Austrália, do Canadá, dos EUA e do Reino Unido, pressionam pela aprovação do Projeto de Lei 191/20 no Congresso, que pode resultar na ­perda de 160 mil quilômetros quadrados de cobertura vegetal na Amazônia, área superior ao território da Inglaterra.

Representantes da UE chegaram a participar de um encontro promovido pelo ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, para debater a liberação de atividades econômicas em terras indígenas. *Em relatório produzido em parceria com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a ONG Amazon Watch denuncia o lobby de embaixadas e megaempresas do setor de mineração em favor da legislação mais permissiva.

Por meio da Lei de Acesso à Informação, o Observatório da Mineração conseguiu mapear por dois anos a participação de governos estrangeiros na elaboração das regras e “como as políticas públicas minerais” devem ser tocadas.

(…) A OCDE, que impôs uma série de exigências ambientais para a entrada do Brasil no clube das nações ricas, elaborou uma série de recomendações para a Associação Nacional de Mineração, visando “desburocratizar” as regras minerais no Brasil, com ênfase no licenciamento dos projetos, sugestões já acatadas pela agência reguladora.

O Canadá é outro entusiasta da mineração em terras indígenas. Nos últimos anos, as parcerias entre canadenses e brasileiros avançaram, e o Brasil chegou a ampliar a sua participação no maior evento minerário do mundo, realizado em Toronto, o Prospectors & ­Developers Association of Canada.”

✓ Leia matéria completa  [Aqui!]

Gigantes do agronegócio tentaram frustrar plano anti-desmatamento da UE após promessa feita na COP26

As empresas tentaram enfraquecer o projeto de lei da UE que proíbe a importação de alimentos ligada ao desmatamento oito dias depois de prometer acelerar a ação

desmatamento

O objetivo do projeto de lei da UE é proibir as importações de alimentos relacionadas ao desmatamento. Fotografia: Evaristo Sa/AFP/Getty Images

Por Arthur Neslen para o “The Guardian”

Cinco das maiores empresas de agronegócio do mundo tentaram enfraquecer um projeto de lei da UE que proíbe a importação de alimentos ligados ao desmatamento , oito dias depois de prometer acelerar seus esforços de proteção florestal na COP26, mostram documentos vistos pelo The Guardian.

As esperanças de proteção florestal aumentaram quando os CEOs de 10 empresas de alimentos com uma receita combinada de quase US$ 500 bilhões (£ 373 bilhões) prometeram “acelerar a ação em todo o setor” para eliminar o desmatamento causado por commodities quando a cúpula do clima começou em 2 de novembro.

A agricultura é responsável por um quarto das emissões mundiais de gases de efeito estufa, e as empresas prometeram um plano de reforma da cadeia de suprimentos para atrelar o aquecimento global a 1,5°C até novembro de 2022.

Mas em 10 de novembro, associações comerciais que representam cinco das empresas – ADM, Bunge, Cargill, LDC e Viterra – alertaram o chefe do acordo verde da UE, Frans Timmermans, sobre preços crescentes e escassez de alimentos se a UE prosseguisse com seu próprio plano.

O plano da Comissão Europeia, que agora está sendo considerado pelos ministros da UE, forçaria as empresas a segregar commodities como café, soja, carne bovina ou cacau, supostamente ligadas ao desmatamento, e impediria que elas entrassem no mercado da UE.

No entanto, isso é “técnica e efetivamente inviável”, de acordo com a carta da indústria obtida pelo Greenpeace Unearthed e compartilhada com o The Guardian.

A proposta da UE pode causar “grandes aumentos de preços e problemas de disponibilidade”, diz a carta, enquanto “reduz a oferta de alimentos acessíveis, aumentando os custos para agricultores e indústrias baseadas na UE e ampliando os riscos de escassez de fornecimento de material com alto teor de proteína”. .

Em vez disso, as três associações comerciais – Coceral, Fediol e Fefac – pediram um sistema de balanço de massa para monitorar e certificar “volumes sustentáveis” de commodities ao longo das cadeias de suprimentos.

Sini Eräjää, ativista de alimentos e natureza do Greenpeace UE, disse que as exigências teriam tornado a lei de desmatamento “sem sentido”.

“Por exemplo, os sistemas de balanço de massa permitem a mistura de bens que atendem aos critérios legais de sustentabilidade com aqueles que não atendem”, disse ela. “Eles conduziriam uma carruagem e cavalos no meio da proposta de due diligence da UE, através da qual poderiam seguir grandes quantidades de bens insustentáveis ​​e ilegais.”

A eurodeputada verde Anna Cavazzini disse ao Guardian: “É muito decepcionante que algumas das mesmas empresas que se comprometeram na COP26 a agir contra o desmatamento estejam [pedindo] à Comissão Europeia que diminua as ambições legislativas nesta área. A mudança real só pode acontecer se as empresas praticarem em particular o que pregam em público.”

Os signatários da carta insistem que continuam comprometidos em conter o desmatamento.

Um porta-voz da Viterra disse que a carta pretendia “criar consciência sobre possíveis desafios que podem afetar negativamente as importações para a Europa”.

A Bunge, cujo executivo Jordi Costa ocupa atualmente a presidência da Fediol, disse que a missiva “faz parte de um processo de consulta aberta que visa apoiar o desenho de uma estrutura eficaz para alcançar uma transformação sustentável”.

A ADM, que detém a vice-presidência da Fediol, disse que o problema é que a atual proposta da UE “criaria um mercado de dois níveis, um para a Europa e outro para o resto do mundo”.

A Cargill, que também está representada no conselho da Fediol, estava trabalhando com associações do setor para encontrar a maneira mais eficaz de eliminar o desmatamento de uma maneira “economicamente viável” para os agricultores, disse um porta-voz.

Uma segunda carta, em coautoria de grupos industriais, incluindo as três associações comerciais, em 3 de fevereiro, argumentou que os pequenos agricultores pobres seriam “afetados negativamente” pela nova lei.

O uso de “dados de geolocalização” para rastrear as origens das commodities seria um problema particular para os pequenos agricultores, disse a missiva à ministra francesa de transição ecológica, Barbara Pompili, que o The Guardian viu.

Grupos que representam mais de 34.000 produtores de cacau da Costa do Marfim rejeitaram essa alegação em uma carta aos ministros e deputados da UE datada de 1º de março.

A rastreabilidade digital oferece uma “oportunidade única” para abordar questões de equidade social, como respeito aos preços oficiais do cacau, o não pagamento de prêmios de sustentabilidade prometidos e repressão a intermediários da cadeia de suprimentos e cooperativas ilegais em florestas protegidas, argumentaram.

“Os players do setor que estão tentando impedir um sistema de rastreabilidade envolvendo a geolocalização das parcelas e a identificação de cada produtor, estão na realidade fazendo campanha para que nada mude”, disse a carta, vista pelo Guardian.

Bakary Traoré, diretor da Idef , uma ONG da Costa do Marfim, acrescentou que o lobby da indústria foi mais para “salvaguardar o domínio das grandes empresas no setor, do que para melhorar a vida dos pequenos proprietários”.

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Conflito na Ucrânia coloca agronegócio brasileiro em uma encruzilhada espinhosa

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A ação militar da Rússia está causando uma inquietação incomum nas lideranças do agronegócio brasileiro, especialmente naqueles setores que pensam estrategicamente ação do latifúndio agro-exportador. Ainda que as primeiras sinalizações sejam em torno do encarecimento do preço de fertilizantes, essas lideranças devem saber que existem coisas ainda mais graves fermentando enquanto as bombas caem em Kiev. 

Uma questão essencial tem a ver mais do que a compra de insumos, mas fundamentalmente do destino da produção. É que o alinhamento do Brasil (ainda que extra-oficial do presidente Jair Bolsonaro) à Rússia certamente terá consequências no mercado europeu, na medida em que neste momento a opção da União Europeia e dos EUA é usar uma mão pesada contra aqueles que forem vistos como lenientes com as ações do governo de Vladimir Putin.

Há que se lembrar que as commodities agrícolas brasileiras já vinham enfrentando problemas por causa do avanço do desmatamento na Amazônia, com uma série de grandes empresas optando por retirar produtos brasileiros de suas prateleiras por causa da pressão de uma clientela cada vez mais alarmada com a devastação promovida pelo agronegócio brasileira. Entretanto, agora o buraco, digamos assim, é mais embaixo porque as razões postas tem a ver mais com os esforços para conter o giro estratégico que os russos estão forçando nas relações comerciais e financeiras em escala global.

Por isso, todo o discurso que sendo alardeado de preocupação com o potencial aumento dos preços dos alimentos no Brasil por causa da falta dos fertilizantes fornecidos pela Rússia e pela Bielo Rússia não passam de uma cortina de fumaça, na medida em que a produção de alimentos no Brasil depende diretamente da agricultura familiar onde o uso de fertilizantes sintéticos ocorre em menor escala do que nos grandes latifúndios cuja produção é voltada primariamente para a exportação.

O erro estratégico da desnacionalização e privatização do setor de produção de fertilizantes

A ministra Tereza Cristina reconheceu ontem (2/3) um dos erros estratégicos mais óbvios que o governo Bolsonaro, do qual ela é uma das líderes ideológicas, cometeu desde que tomou o poder em janeiro de 2019. É que desde 2016, a Petrobras (já soube os desígnios de Michel Temer e Jair Bolsonaro) fechou três fábricas de fertilizantes, sendo caso da  Fertilizantes Nitrogenados do Paraná (Fafen-PR) que foi fechada em fevereiro de 2020.

Com todos esses fechamentos, o Brasil precisa hoje importar 80% dos fertilizantes que utiliza na sua agricultura, o que com a atual situação na Ucrânia se mostrou um erro gravíssimo, na medida em que a Rússia não deverá voltar a exportar até que haja uma correção do sistema de pagamentos após a sua expulsão do chamado sistema “Swift“.

Desta forma, como não há uma fonte interna de produção, o que deverá ser um processo de escassez que, consequentemente, aumentará os custos de produção, contribuindo assim para uma perda de competitividade das commodities agrícolas brasileiras em um processo que poderá ser agravado pela diminuição da demanda.

A encruzilhada adiante é de natureza essencialmente estratégica

Um problema especialmente agudo que afeta o latifúndio agro-exportador brasileira tem pouco a ver com fertilizantes. Na verdade, como o que está ocorrendo na Ucrânia neste momento é apenas a ponta do iceberg de um movimento de reorganização do funcionamento da economia global, o agronegócio brasileiro (como o resto do mundo) vai ter que aguardar o final do conflito armado para ver qual será o rumo geopolítico das grandes forças envolvidas no processo.

É que tudo indica que estaremos entrando em um novo status quo geopolítico, com a ordem de Bretton Woods sendo enterrada para que se veja o nascimento de outra que será marcada pela justaposição ocidente-oriente. Como o Brasil, por sua natureza de economia dependente, tem os pés (e mãos) amarrados nesses dois polos, qualquer opção de alinhamento mais específico trará implicações políticas e econômicas.

A corrida da sueca Ikea pela última floresta antiga da Europa

A gigante sueca de móveis está faminta pelas famosas árvores da Romênia. Pouco fica no caminho da sua fome por árvores.

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Por Alexandre Sammon para a “The New Republic”

A temporada de extração de madeira na Romênia dura sete meses, de meados de setembro a abril, um frenesi de motosserras mastigando milhões de abetos, pinheiros, carvalhos, bordos, faias e abetos. Parte da madeira é cortada legalmente; a maioria não é, e a violência entre a indústria madeireira e seus oponentes ocorre com frequência. No início desta temporada, dois documentaristas sediados em Bucareste, trabalhando em um projeto sobre o comércio ilícito de madeira, partiram para encontrar um grande corte raso de aparência traiçoeira em Suceava, um município do norte onde estão localizadas algumas das maiores serrarias do país e onde a Ikea possui milhares de hectares .

Os cineastas – Mihai Dragolea, diretor, e Radu Mocanu, cinegrafista – estavam acompanhando um ambientalista local, Tiberiu Bosutar. Um ex-triturador de madeira que se tornou ativista, Bosutar não era estranho à madeira ilegal. Ao longo de cinco anos, ele construiu uma reputação como um vigilante da floresta, abordando madeireiros envolvidos em atividades questionáveis ​​ou seguindo caminhões cheios de contrabando de madeira, depois transmitindo os encontros no Facebook Live. Apenas algumas semanas antes, ele se tornou viral transmitindo uma tentativa de deter um caminhão que transportava toras ilegais; quando seu SUV branco ficou sem gasolina, ele chamou uma ambulância e continuou a perseguição.

Mas a viagem dos cineastas não era para ser uma façanha. O grupo pegou o veículo pessoal de Bosutar, bem conhecido na área, e se demorou para tomar um café em um posto de gasolina próximo para dar a conhecer a sua presença e provar que não tinham vindo para antagonizar. Então, com Bosutar ao volante, a pessoa que os havia avisado sobre o corte andando de espingarda, e os cineastas atrás, eles pegaram a estrada, viraram à esquerda por uma estrada de terra e começaram a subir.

Não demorou muito para que eles vissem o que procuravam: tocos. “A floresta foi fodida até os ossos”, Dragolea me disse. “Foi realmente danificado.” Nenhuma surpresa, realmente, e em qualquer outro dia, Bosutar poderia ter entrado no Facebook. Em vez disso, ele escolheu ligar para o escritório do guarda florestal. Era uma oportunidade ideal, pensou ele, para mostrar o potencial de comunicação entre ativistas, policiais e madeireiros, e cumprir a resolução de Ano Novo de tentar uma abordagem menos combativa. “Foi um bom momento para mostrar que estamos abertos ao diálogo.”

Não muito tempo depois, eles ouviram o zumbido dos motores; logo, dois SUVs chegaram. Fora saltou não a polícia local, mas uma horda: 15 homens armados com bastões e machados. A equipe de documentários foi buscar o carro de Bosutar, mas não conseguiu fechar as fechaduras a tempo. Os atacantes arrombaram as portas, quebraram a chave, furaram os pneus e destruíram o equipamento da câmera. Eles espancaram Mocanu, preso entre o carro e a encosta da montanha, inconsciente. Eles bateram no rosto de Dragolea. O diretor mergulhou na ravina próxima, onde se escondeu sob as raízes de uma árvore caída e chamou a polícia, implorando que viesse com as sirenes ligadas. “Eu disse: ‘Eles estão matando os jornalistas na floresta e estão me rastreando’”, contou. “Conheci casos em que pessoas morreram na floresta, vi machados ao meu redor. Se alguém não ligasse, com certeza morreríamos.”

Enquanto isso, com Bosutar ainda no carro, os atacantes tentavam empurrar o veículo para fora da montanha, içando o chassi em duas rodas. Quando ele concordou em sair, eles o espancaram, o despiram e postaram fotos dele online, com sangue escorrendo pelo rosto, com a legenda, em romeno: “Para as florestas virgens, eu tiro minha camisa”. Eles o orientaram a descer a colina até encontrar um segundo grupo de atacantes.

Mas a polícia chegou primeiro, junto com as ambulâncias, que levaram os três homens, dois dos quais desmaiaram em trânsito, para o hospital. Não muito tempo depois, o incidente foi notícia internacional por meio de um fio da Associated Press . O espancamento foi até divulgado nos Estados Unidos pelo The Washington Post .

A partir da esquerda: em 2021, o cinegrafista Radu Mocanu, o diretor Mihai Dragolea e o ativista Tiberiu Bosutar foram atacados enquanto filmavam um documentário sobre extração ilegal de madeira na Romênia.

IOANA MOLDAVAN PARA GREENPEACE (X3)

Não havia muito mais ajuda no caminho. Um porta-voz da polícia disse à AP que a polícia trataria o ataque com “a maior atenção”; menos de uma semana depois, apenas quatro dos 15 assaltantes foram acusados, não de tentativa de homicídio, mas da acusação mais leve de briga. Todos estavam fora da prisão, aguardando julgamento. Temendo por sua vida e sua família, Bosutar fugiu de Suceava para Bucareste. “Esta não é a primeira vez que tenho um atentado contra minha vida”, ele me disse do lado de fora do hotel onde estava escondido. “Já foram três ou quatro vezes que fui atacado. Eu simplesmente admito que este é um estado falido, que não tenho um aliado dentro dele?”

“Não sei o que devo fazer”, acrescentou, e começou a chorar.


Em um acidente geográfico e histórico, a Romênia abriga uma das maiores e mais importantesflorestas antigas do mundo. Sua cadeia montanhosa dos Cárpatos, que envolve como um cinto de segurança o ombro médio e superior do país, abriga pelo menos metade da vegetação antiga remanescente da Europa fora da Escandinávia e cerca de 70% da floresta virgem do continente. Tem sido chamada de Amazônia da Europa, uma comparação adequada e sinistra em igual medida, por causa da velocidade com que, como a própria Amazônia, está desaparecendo.

A maior parte da Europa foi rapidamente desmatada durante a era industrial; menos de 4% das florestas da UE permanecem intactas. A Romênia, longe o suficiente dos centros industriais do continente e por muito tempo um membro fechado do bloco soviético, permaneceu uma exceção brilhante. Durante o período comunista do país, o governo converteu as florestas em propriedade pública e as manteve fora dos mercados globais de exportação, consagrando as tendências de manejo florestal de um antigo regime. O resultado é que a Romênia mantém algumas das raras florestas de abetos, faias e carvalhos que se qualificam como de crescimento antigo ou primário, nunca tendo sido excessivamente exploradas, alteradas pela atividade humana ou replantadas artificialmente.

Mas a queda do comunismo em 1989 dissolveu uma camada de proteção para essas florestas, e a onda subsequente de privatização inaugurou a corrupção generalizada. Em 2007, a entrada da Romênia na União Européia criou um mercado enorme e liberado para a madeira barata e abundante do país e a mão de obra barata necessária para extraí-la, condições que incentivaram as madeireiras austríacas e as empresas de móveis suecas a se estabelecerem. Sucedentes regimes fragilizados e ineficazes promulgaram mais reformas pró-mercado e pouco fizeram para conter a corrupção; nos meses finais de 2021, o primeiro-ministro designado do país se viu incapaz de formar um governo. Acrescente a isso o crescimento astronômico da indústria moveleira rápida, que depende particularmente dos abetos e faias que povoam essas florestas, e o resultado tem sido um delírio de desmatamento.

Há um beneficiário óbvio e notável dessa situação: a Ikea. A empresa é hojeo maior consumidor individual de madeira do mundo, com apetite crescendo em dois milhões de árvores por ano. De acordo com algumas estimativas, ela obtém até 10% de sua madeira do país relativamente pequeno da Romênia e há muito tempo desfruta de relacionamentos com usinas e fabricantes da região. Em 2015, começou a comprar terras florestais a granel ; em poucos meses tornou-se, e continua sendo, o maior proprietário de terras privado da Romênia.

A ousadia do mercado global de madeira, talvez previsivelmente, foi muito além dos limites legais estabelecidos por um estado já permissivo. De acordo com um relatório de 2018, inicialmente suprimido pelo governo romeno e vazado no final daquele ano, o país viu 38,6 milhões de metros cúbicos de madeira sair de suas florestas anualmente durante o período de quatro anos anterior; o governo havia licenciado apenas 18,5 milhões de metros cúbicos. Ou seja, sem sequer contabilizar possíveis violações com base no método de extração, mais da metade da madeira do país é extraída ilegalmente. Mesmo a extração legal de madeira, que em terras públicas e privadas deve ser precedida por um plano de manejo florestal aprovado pelo governo, pode estar repleta de corrupção e abuso. Desde aproximadamente a data da adesão da Romênia à UE, entre metade e dois terços da floresta virgem do país foi perdida.

Como costuma acontecer em negócios dominados pela ilegalidade, a violência nunca fica muito atrás e, na época das compras da Ikea, começou uma onda de ataques de alto nível relacionados à extração de madeira. Em 2015, o ambientalista romeno Gabriel Paun foi espancado até ficar inconsciente por madeireirosem uma emboscada capturada pela câmera; ele finalmente fugiu do país e passou anos vivendo na clandestinidade. Doina Pana, ex-ministra de águas e florestas, anunciou que havia sido envenenada com mercúrio em 2017 após tentar reprimir a extração ilegal de madeira. No final de 2019, dois guardas florestais, Raducu Gorcioaia e Liviu Pop, foram assassinados em ataques separados em apenas algumas semanas.

“Passamos tantos anos olhando para a Amazônia e a Indonésia, a bacia do Congo e a Rússia, todos esses lugares que são muito mais famosos por coisas realmente ruins acontecendo nas florestas”, disse David Gehl, da Agência de Investigação Ambiental , que rastreia questões ambientais. criminalidade em todo o mundo. Quando a agência começou a olhar para a Romênia, Gehl me disse, seus membros ficaram “chocados” ao ver o mesmo tipo de coisa acontecendo dentro dos confins da União Europeia, onde marcas internacionais voltadas para o consumidor como a Ikea prosperam.

Com tão pouca aplicação formal da lei – a Guarda Florestal da Romênia foi criada em 2015 como uma unidade de 617 pessoas que não trabalha à noite ou nos fins de semana – a tarefa de proteger as florestas muitas vezes recaiu sobre ativistas e voluntários, uma responsabilidade que se mostrou traiçoeira. Ao todo, pelo menos seis patrulheiros foram mortos nos últimos anos; em outros 650 incidentes registrados, pessoas foram espancadas, baleadas ou atacadas de outra forma em relação à extração ilegal de madeira. Nenhum dos casos de 2019 foi a julgamento; Os agressores de Paun, capturados em filme, permanecem livres.

“Eu me senti mais seguro no Iraque, em Mosul, em 2016”, disse Mircea Barbu, ex-correspondente estrangeiro que agora trabalha como investigador da ONG ambiental romena Agent Green . “No Iraque, é apenas uma questão de azar se eles te pegarem – se você sair de lá, eles não vão te seguir de volta para casa.”


Então, quando me encontrei com Andrei em setembro passado para investigar o corte de árvores antigas protegidas, sabíamos que teríamos que tomar precauções. Identificado aqui por um pseudônimo para sua proteção, Andrei estava na última etapa de uma viagem de 17 dias que o levou aos confins do país. Para um relatório à Comissão Europeia, ele estava documentando a extração de madeira que havia ocorrido durante os 12 meses anteriores em locais protegidos da rede Natura 2000 , examinando locais onde os satélites indicavam perda conspícua contínua de florestas e evidências de degradação de habitat. Ele concordou em me deixar acompanhá-lo nos últimos três dias de sua viagem. Atarracado como um jogador de rugby, sua barba começando a ficar grisalha, Andrei parecia alguém que se sairia bem em uma luta – uma impressão compensada por seu comportamento jovial.

O programa Natura 2000, estabelecido pela UE, protege uma rede de áreas naturais pelo seu valor excepcional como habitats, especialmente para animais como ursos, linces e pássaros. As normas aplicam-se a terras públicas e privadas e regem a Romênia por força da admissão do país na UE. Os sítios Natura 2000 desempenham um papel crucial na Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030, para a qual existe uma norma jurídica aplicável, e são igualmente importantes para as ambições climáticas da UE, para as quais não existe. As florestas antigas absorvem 70% mais carbono do que as árvores cortadas e replantadas, tornando-as o método de captura de carbono mais eficaz do planeta; quando uma única faia atingir 150 anos de idade, ela terá absorvido nove toneladas de CO2, o equivalente a 35.000 milhas percorridas de carro, sua taxa de sequestro acelerando à medida que envelhece.

Por razões óbvias, Andrei trabalha disfarçado. Se alguém perguntar, ele diz que é um turista em busca de fotos da natureza. Ele trabalha nos fins de semana, quando os sites de registro são menos propensos a serem ativos, para evitar desentendimentos e minimizar a chance de ser reconhecido. Ele usa um drone para capturar grande parte de suas imagens; pairando a 300 metros, ele zumbe fora do alcance da voz e é invisível do solo. Não faz mal que o carro dele seja alugado, cujo número da placa não seja facilmente rastreado até ele. Geralmente ele viaja sozinho ou com um amigo. “Para mim, é muito raro sair com jornalistas”, disse ele.

Em uma rodovia empoeirada, traçamos o plano do dia: dirigiríamos até as montanhas do sul de Fagaras, onde tentaríamos acessar alguns locais que – de acordo com um amálgama de imagens de satélite do Google Earth e de baixa resolução, imagens atualizadas com mais frequência de um servidor chamado Sentinel Playground – parecia conter cortes claros recentes. Eu seguia em meu Toyota Corolla alugado até onde ele aguentasse as condições, então eu me empilhava em seu Dacia Duster branco, um pequeno SUV 4×4 comum na Romênia, e nós pegamos estradas madeireiras pelo resto do caminho . Desde que o Duster não parasse mais cedo (nas últimas duas semanas, o pneu traseiro havia travado, o freio de mão falhou e o motor estava vazando óleo), caminhávamos a perna final a pé, na esperança de obtenha provas incontestáveis ​​de fotos e vídeos da condição da floresta.

Andrei documenta o desmatamento em florestas protegidas na Romênia. Para sua segurança, ele é identificado nesta história por um pseudônimo.

FOTOGRAFIA DE IOANA MOLDOVAN PARA A NOVA REPÚBLICA

A extração ilegal de madeira vem em várias formas. O mais comum é o corte em excesso da quantidade permitida (cortes rasos maiores que três hectares, por exemplo, violam as regulamentações romenas), mas qualquer método que danifique cursos d’água, cause erosão ou deixe sujeira para trás também pode infringir a lei . Apenas alguns minutos depois que deixei meu carro em um aglomerado de buracos, tivemos nosso primeiro encontro. Contornando uma curva da estrada, encontramos nosso caminho bloqueado por dois caminhões, um sendo despejado de toras recém cortadas, o outro sendo carregado para trânsito, provavelmente para um depósito, de onde a madeira é vendida. Grandes toras também foram empilhadas ao longo da estrada, aguardando exportação. “Ainda há algumas filiais anexadas”, apontou Andrei. “É ilegal derrubá-los assim porque você está danificando o solo quando os arrasta.” Muitas vezes,

Enquanto esperávamos, Andrei montou sua câmera e, mantendo-a baixa no painel, tirou fotos da cena. “Normalmente, quando tiro fotos, certifico-me de que eles não me vejam”, ele me disse. “Só quero ter certeza de que estou pegando as placas desses caminhões, porque podemos verificá-las mais tarde.”

Uma vez que a carga foi liberada, continuamos, encontrando mais um equipamento madeireiro antes de finalmente chegarmos a uma represa e ficarmos sem estrada. Depois de estacionarmos, subimos um caminho íngreme de terra batida que havia sido substancialmente erodido – também, tecnicamente, uma infração legal.

Da beira da estrada, a área parecia densamente arborizada e praticamente intocada, e poucos minutos depois de entrar, vimos evidências de seu status de vegetação antiga: abetos, faias e bordos de vários tamanhos e idades cresciam entremeados, seus troncos cheios de musgos, líquenes , fungos. O solo estava macio com matéria orgânica podre; arbustos de bagas silvestres, colhidos, sugeriam ursos. Algumas das árvores maiores atingiam bem mais de 30 metros de altura; numerosos gigantes tinham facilmente 300 anos. A diversidade de idade, tipo e densidade provou que esta região nunca havia sido substancialmente explorada ou replantada. Mesmo para um amador, a diferença entre esta floresta e o bosque uniforme e compacto visível em um pico oposto, um trecho replantado de árvores de idade e tamanho idênticos, era óbvia.

Subimos ainda mais, até chegarmos a uma clareira de onde poderíamos lançar o drone. Uma vez no ar, a câmera deu uma revelação gritante. O matagal pelo qual caminhávamos era ladeado por madeireiras comerciais por todos os lados. Enquanto o drone fazia uma panorâmica, manchas carecas se revelavam no monitor: novos cortes claros. As manchas se espalharam pelo topo da montanha. Em outro lugar, vimos o que pareciam marcas de garras, os cortes onde as árvores haviam sido puxadas montanha abaixo por cabos. Em muitos lugares, o que restava era apenas terra marrom; os cortes eram novos o suficiente para que nem a grama ou as ervas daninhas tivessem tido tempo de crescer. A visão de estradas recém-construídas indicava que mais atividades madeireiras começariam em breve. Enquanto isso, nos cachos que permaneceram intocados, o vento começou a derrubar e arrancar as árvores expostas.

“Este é um dos piores”, disse Andrei quando perguntei como a área se comparava ao que ele tinha visto até agora em sua pesquisa. “É muito raro ver tantos cortes claros.” Entre danos causados ​​pelo vento, erosão e besouros, ele estimou, em breve não haveria “nada mais”. Baixamos o drone, subimos para um segundo ponto e o lançamos novamente. O trabalho foi metódico: Registre a filmagem, marque a localização no mapa. Quando a bateria acabou, começamos nossa descida para o carro.

Como prova de que estão cumprindo a lei, os caminhoneiros são obrigados a enviar fotos de suas cargas para um banco de dados online chamado SUMAL, que mantém as permissões de registro ativas. Mas há soluções alternativas. Às vezes, os caminhoneiros não se entregam até serem detidos pelas autoridades, momento em que oferecem a documentação e alegam que estavam fora do alcance do serviço de celular. Outras vezes, eles colocam água na lente da câmera ou fotografam apenas metade de seu transporte. Embora os transportes ilegais em plena luz do dia sejam incomuns, Andrei e eu procuramos os números das placas que vimos. A maioria fez check-out conforme o esperado. Mas um dos motoristas, que havia enviado uma foto com apenas metade da carga no quadro, alegou estar carregando apenas sete metros cúbicos de madeira, um quarto do que os outros caminhões desse porte relataram. Infelizmente, a madeira há muito havia sido deixada em um depósito, misturada com toras legais, possivelmente até vendida para uma serraria. Era tarde demais para fazer qualquer coisa.


No início de 2020, a Comissão Europeia anunciou processos de infração contra a Romêniapor permitir a extração de madeira sem uma avaliação ambiental nas zonas Natura 2000. Alguns meses depois, a comissão escalou o caso emitindo um “parecer fundamentado”, o último passo antes de levar o país ao Tribunal de Justiça Europeu. Apesar de deliberar sobre a legislação nacional que estaria em conformidade com os padrões da UE, o governo romeno ainda implementou pouco além de aumentar as penalidades criminais para o roubo de madeira.

Pode-se pensar que o processo de infração retardaria o desmatamento; se alguma coisa, o oposto tem sido verdade. A ameaça de uma nova legislação que protegeria florestas antigas de propriedade privada e pública desencadeou uma corrida para extrair madeira dessas áreas o mais rápido possível. Em 2018, uma audiência de infração da comissão encerrou toda a extração de madeira na floresta de Bialowieza, na Polônia, também um local antigo da Natura 2000, depois que surgiram evidências de derrubada de árvores de 100 anos. “Obviamente, agora há um aumento da pressão”, disse-me Andrei. “Se você deseja remover grandes volumes de madeira sem fazer perguntas, faça isso agora. Se você esperar até o ano que vem, talvez não consiga fazer isso.” A extração de madeira em uma determinada área pode degradar a floresta circundante o suficiente para torná-la inelegível para proteção, e isso adiciona mais motivação.

Uma antiga faia cresce em um local protegido nas montanhas dos Cárpatos, na Romênia.

ANTJE HELMS/GREENPEACE

Partiríamos naquela manhã de uma hospedaria em Curtea de Arges, uma cidade tão grande e tão distante da floresta que ninguém suspeitaria de nossa presença. No café da manhã, Andrei carregou as imagens do drone do dia anterior. Precisávamos visitar vários locais, desta vez na área da Barragem de Vidraru, para cumprir o cronograma.

Novamente dirigimos até que meu carro alugado não pudesse atravessar os buracos. Mais uma vez, fomos confrontados com evidências de extração de madeira imediatamente depois – desta vez, o zumbido plangente de motosserras. Poucos minutos depois, encontramos um silvicultor que, ao saber que éramos turistas, recomendou um local pitoresco para tirar fotos. Como garantia, Andrei me lembrou que era sábado e que a maioria dos madeireiros terminaria de trabalhar às 13h. Em apenas algumas horas, não teríamos nada com que nos preocupar.

Dirigimos até encontrarmos uma estrada madeireira que parecia que nos levaria a um local que analisamos por satélite naquela manhã. A estrada já estava bastante erodida, com canais mais profundos do que eu. Dirigir era impossível, então nós caminhamos.

Imediatamente, Andrei me disse que aquela parecia ser uma floresta virgem ainda mais rara; algumas de suas árvores ele estimou em 500 anos, impressionantes o suficiente em estatura para ele parar e tirar fotos para seu próprio rolo de câmera. Estradas transitáveis ​​podem ser mais difíceis de encontrar do que os próprios locais de extração de madeira, o que se tornou dolorosamente óbvio à medida que nosso caminho continuava a se desviar do nosso destino. Logo estávamos escalando e descendo uma série de ravinas íngremes, verificando inutilmente o rastreador GPS; nosso destino ficava a apenas algumas centenas de metros de distância, mas parecia inalcançável. A densa cobertura florestal mantinha o ar fresco, mas úmido, e eu estava encharcado de suor. Quando finalmente atingimos uma linha de cume, o corte raso estava longe de ser encontrado. É possível, admitiu Andrei, que o satélite estivesse apenas mostrando danos causados ​​pelo vento.

Mas quando ele lançou o drone, ele o viu abaixo de nós, um trabalho apressado que havia deixado para trás não apenas tocos antigos, mas muitos dos próprios troncos. Madeira morta e cinzenta cobria o solo de tal forma que nada, nem mesmo ervas daninhas, cresciam novamente. Andrei filmou um pequeno vídeo e começamos nossa caminhada de volta pela montanha.

Passamos o resto da tarde assim — lançando o drone, filmando, andando a pé. Assim que o sol de meados de setembro começou a se pôr, partimos para nosso último local, na direção que o silvicultor havia recomendado e de onde ouvimos as motosserras na chegada.

Passando por uma cabana de pastor, começamos a subir estradas de qualidade deteriorada, com o carro batendo não raramente em buracos, pedras e escombros. Depois de um tempo, encontramos algo que não esperávamos: um cartaz anunciando o desmatamento na área. A licença, lemos, havia expirado quase dois meses antes, em 30 de julho. “Tente tirar uma foto desse painel”, Andrei me instruiu. “Eu já não gosto disso.”

Paramos o carro e saí para remover um galho que estava bloqueando a estrada. Andrei apontou rastros de trator profundos e aparentemente recentes na lama. Alguns minutos depois, paramos novamente para que eu pudesse deixar de lado outro galho bloqueando nosso caminho. Andrei me disse para fazer isso em silêncio; era possível que esses impedimentos fossem deixados para sinalizar aos madeireiros à frente que alguém estava chegando.

Nós avançamos pela estrada até que finalmente vimos troncos, grandes e recém-cortados. Eles foram derrubados com galhos ainda presos, uma infração muito menos significativa do que o fato de que este local estava protegido e semanas fora da licença.

Então vimos fumaça. Mais adiante na estrada, logo após as toras que estávamos examinando, ela saía da chaminé do trailer de um lenhador do tamanho de uma caixa de fósforos. “Ah, porra”, disse Andrei. “Vamos tirar uma foto disso e depois voltar lentamente.” Silenciosamente, viramos o carro e começamos a descer a montanha, tentando manter o mínimo de ruído do motor.

A Ikea é agora o maior consumidor individual de madeira do mundo, seu apetite crescendo em dois milhões de árvores por ano.

Assim que recuamos o suficiente para ficarmos fora de vista, Andrei estacionou o carro e lançou o drone. Traçando uma fenda estéril montanha acima, ele gravou um vídeo do local de extração de madeira claramente ativo, que nem estava em seu radar; o local que estávamos mirando ainda estava a quilômetros de distância. Fiquei de vigia para ter certeza de que não estávamos sendo perseguidos. “Você tem algum sinal de telefone aqui?” ele perguntou. Eu não. “Boa. Isso significa que mesmo que os madeireiros nos ouçam, eles não podem ligar para ninguém.” E depois, menos animador: “Aqui estamos um pouco expostos”.

Naquele momento, vi alguém se aproximando rapidamente a pé. “Tem alguém vindo,” eu soltei. Ele estava perto demais para que pudéssemos baixar o drone e escapar. Andrei me entregou os controles e mergulhou no banco do motorista, enfiando a chave na ignição e engatando a marcha. Se eu voasse com o drone para um local à frente, disse ele, poderíamos colocar alguma distância entre nós e nosso perseguidor e ter a chance de pegar o dispositivo. O carro apitou objeções enquanto passávamos pelos buracos, e tentei manter o drone no rumo acima.

Depois de alguns minutos, o madeireiro estava fora de vista e Andrei estacionou o carro. A seu pedido, monitorei meticulosamente a estrada atrás. “Vou terminar em 10 segundos”, ele me assegurou. Não muito tempo depois, vi o madeireiro novamente, aproximando-se de nós. “Ele está vindo, ele está vindo,” eu disse. Andrei voltou para o carro e partimos novamente. Qualquer um que entrasse nos teria bloqueado; qualquer problema com o Duster nos deixaria abandonados. Fiquei vigiando pelo para-brisa traseiro, mas não vimos mais ninguém; ninguém se aproximou da frente.


Rastrear qualquer árvore individual do chão da floresta ao showroom apresenta um desafio quase impossível. À medida que a madeira se move pela cadeia de suprimentos, torna-se cada vez mais difícil definir. Os donos de uma floresta leiloam suas árvores para serem cortadas por uma empresa madeireira, após o que a madeira é levada para um depósito, vendida para uma serraria que a transforma em madeira, cavacos ou aglomerado, e depois vendida novamente para um fabricante, que transforma-o em uma cadeira, ou os pedaços de uma cadeira, em nome de empresas de móveis como a Ikea, que compram, marcam, enviam e vendem para instalação em casa. Cada elo dessa cadeia torna o ponto de origem da madeira mais difuso. Os depósitos, em particular, são famosos por empilhar toras ilegais e legais atrás de cercas ou dentro de armazéns, onde se tornam indistinguíveis.

Se o problema de rastreamento torna quase impossível provar que um determinado log é ilegal, pode tornar igualmente difícil provar que um determinado log é legal. A extração duvidosa que nunca chega ao nível de ilegalidade pode ser tão ruim quanto a formalmente ilegal, e as duas geralmente tendem uma para a outra. Muita madeira, como a carga de caminhão informada incorretamente que vi no meu primeiro dia, seria considerada ilegal se houvesse recursos para revisá-la. Embora se saiba que mais da metade da madeira do país, em média, é extraída sem permissão, apenas 1% dessa madeira ilegal é contabilizada oficialmente.

Imagens de drones, fotografadas em 2021, mostram o desmatamento em florestas antigas na Romênia. No sentido horário a partir do canto inferior esquerdo: Cortes rasos em sítios Natura 2000 protegidos nas montanhas de Fagaras demonstram evidências de degradação do habitat. Inferior direito: Ikea registrou esta área, que faz fronteira com um local protegido, no final de 2020; ele alega que não foi claro.

FOTOGRAFIAS FORNECIDAS (X4)

Essa realidade é crítica para a indústria de móveis, que deve crescer de US$ 564 bilhões em 2020 para US$ 850 bilhões em 2025. É especialmente importante para a Ikea, que não é apenas a maior empresa de móveis do mundo, mas a maior compradora e varejista de Madeira. Tendo dobrado seu consumo nos últimos 10 anos, agora devora anualmente 1% da madeira do mundo, com uma dependência regional particular da Romênia e seus arredores. “O crescimento da Ikea anda de mãos dadas com o setor florestal na Europa Oriental e na Rússia”, disse Tara Ganesh, chefe de investigações de madeira da ONG Earthsight, sediada no Reino Unido . Ganesh trabalhou em várias investigações da empresa, cuja presença na região, segundo ela, é “massiva”.

A demanda insaciável por árvores significa que quase não há como a empresa ter largura de banda para fazer o que os governos estrangeiros não conseguem nem controlar e rastrear toda a madeira que entra e sai de sua boca. Quando o relatório de 2018, que indicava que mais da metade da madeira do país foi extraída ilegalmente, vazou, a Ikea se esquivou. “Todas as grandes empresas saíram e disseram: não é nossa culpa. Recebemos o material legal. Todos aqueles romenos, queimando lenha, e é para lá que as coisas ilegais estão indo”, disse Gehl do EIA. Que 55% da madeira do país esteja alimentando as lareiras de uma população que encolheu no mesmo período e diminuiu em quatro milhões desde 1990, é, obviamente, uma sugestão inconcebível.

A Ikea, por sua vez, ostenta uma excelente reputação por sua boa fé ambiental. De acordo com o site da empresa, mais de 98% de sua madeira é extraída de forma sustentável, ou seja, reciclada ou certificada pelo Forest Stewardship Council ; pretende atingir 100% em breve. “Sob nenhuma circunstância permitimos práticas florestais irresponsáveis”, disse-me um porta-voz. E, no entanto, pelo menos 60% de sua oferta de madeira vem da Europa Oriental e da Rússia, cerca de 10% da Romênia em particular. Como as alegações da Ikea podem ser conciliadas com sua presença descomunal em uma região atormentada por escândalos?

A confiança da empresa na certificação FSC como sinônimo de sustentabilidade ajuda a explicar. Uma pequena ONG internacional, o FSC estabelece um padrão baseado em seus 10 princípios – por exemplo, conformidade com as leis nacionais, compromisso de melhorar o bem-estar dos trabalhadores, plano de manejo florestal atualizado – que é então conferido às operações florestais por , auditores independentes, contratados pelas empresas madeireiras e fabricantes para realizar revisões pré-anunciadas e programadas. Se esses grupos se recusarem a conceder a certificação, as operações madeireiras podem simplesmente pesquisar até encontrar um auditor disposto a receber o cheque e conferir o selo. Talvez seja desnecessário dizer que tal sistema inicia uma corrida para o fundo. Desde que o FSC surgiu em 1993, tem provocado críticas entre os ambientalistas; em 2018, O Greenpeace chamou a organização de “uma ferramenta para silvicultura e extração de madeira”. Não ajuda o fato de a Ikea ser a maior consumidora de madeira da rede FSC e ter sido membro fundadora do conselho. (A Ikea “é apenas um dos mais de 1.000 membros”, um porta-voz do FSC me escreveu. “Nossos padrões globais são discutidos e acordados por nossos membros globalmente.”)

Problemas semelhantes aparecem para cima e para baixo na cadeia de suprimentos. A Ikea contrata fabricantes, que precisam adquirir madeira suficiente para transformar em peças de móveis para cumprir seus contratos. Os fabricantes solicitam serrarias, que precisam produzir madeira suficiente para abastecer as fábricas. “Uma vez que eles assumem esse compromisso, eles precisam encontrar a madeira para a Ikea por bem ou por mal”, disse Ganesh. “Isso muitas vezes pode resultar em cortes no meio ambiente ou na legalidade.”

Quando alguém da cadeia é preso por usar fontes ilícitas ou insustentáveis ​​– digamos, se uma fábrica que fabrica cadeiras dobráveis ​​para a Ikea for acionada por comprar madeira de uma floresta legalmente protegida na Polônia – a Ikea pode simplesmente se distanciar e alegar ignorância, um grampo de subcontratação em qualquer setor. A estratégia contribui para o PR adequado, mas desmorona sob o menor escrutínio. Essas empresas contratadas, pelo menos na Romênia, geralmente ostentam as cores amarelo e azul ou trabalham exclusivamente com a empresa; alguns até arvoram a bandeira sueca. Em 2020, a fábrica romena Plimob foi flagrada por usar madeira ilegal em suas cadeiras ; ele ostenta o azul e o dourado em seu portão, visível até no Google Street View. A Plimob vende 98% de seus produtos para a Ikea.

Uma investigação da Earthsight, a organização do Reino Unido, descobriu que madeira de faia ilegal da Ucrânia, colhida pela empresa de processamento de madeira VGSM, estava sendo usada na produção de cadeiras Ikea fabricadas pela Plimob, bem como enviadas diretamente para a Ikea. Juntos, Plimob e Ikea receberam 96% da faia da VGSM, aceitando remessas quase todos os meses entre 2018 e 2020. Egger, outro fornecedor romeno da Ikea, também foi preso por importar madeira ilegal. Uma investigação descobriu que a linha de móveis infantis da empresa, Sundvik, foi feita com pinho ilegal da Rússia siberiana. Uma equipe da Al Jazeera na Romênia seguiu um caminhão cheio de madeira ilegal até um pátio de toras que abastece a Kronospan, um fornecedor da Ikea que produz grandes volumes de aglomerado, um elemento-chave dos móveis da Ikea. Todas essas empresas – VGSM, Plimob, Egger e Kronospan – são certificadas pelo FSC. Em um caso infame de 2015, a HS Timber certificada pelo FSC (então chamada Schweighofer), a principal processadora de abetos da Romênia, foi flagrada em uma câmera escondida prometendo não apenas comprar madeira ilegal, mas também pagar um bônus por isso. Em 2016, o FSC suspendeu provisoriamente a certificação da empresa e cortou os laços um ano depois; A Ikea esperou até a decisão final do conselho de se dissociar.

Pode ser mais fácil para a Ikea patrulhar sua ingestão se usar sua própria madeira, mas afirma que poucas das florestas que possui na Romênia acabam em sua produção de móveis. Em vez disso, a empresa tem vendido concessões madeireiras para empresas que ostensivamente extraem lenha, uma empresa inteiramente separada. Mas essas propriedades também pairam no interstício entre o legal e o ilegal.

A Ikea comprou suas terras de uma fonte improvável: a doação da Universidade de Harvard, que arrebatou propriedades romenas depois que uma lei pós-comunista de restituição de terras deixou um antiquíssimo sistema de privatização em seu rastro, entregando metade das florestas públicas do país a interesses privados. A partir de 2004, a universidade, usando várias conchas e formações sem fins lucrativos, começou a comprar grandes com a ajuda de um empresário romeno, Dragos Lipan. Várias dessas participações eram vendas incendiárias de reivindicações duvidosas de restituição, e Harvard logo se viu em apuros legais. Em 2015, Lipan recebeu uma sentença suspensa de três anos por suborno e lavagem de dinheiro relacionados a esses acordos, e Harvard estava no tribunal lutando pela legitimidade de suas reivindicações. No mesmo ano, a universidade, pronta para lavar as mãos do negócio, encontrou um comprador disposto na Ikea. Com um braço de investimento, a empresa comprou quase 34 mil hectares de Harvard. Em 2016, acrescentou mais 12,46.700 hectares no total . Hoje, o maior proprietário e operador de lojas de varejo da Ikea, a Ingka Investments, tem cerca de 50.000 hectares em seu portfólio. À medida que as propriedades mudaram de mãos, a mancha de ilegalidade foi ficando cada vez mais fraca. A empresa não corre nenhum risco sério de perder essas participações no tribunal.

As florestas da Ikea também são certificadas pelo FSC; essas florestas também têm sido locais de abuso. Pouco antes de eu chegar à Romênia, uma equipe da BBC encontrou um corte raso – não necessariamente ilegal, mas certamente não ambientalmente correto – em uma floresta da Ikea na província de Maramures, no norte. E apesar de ter se dissociado formalmente da HS Timber, descobriu-se que a Ikea estava vendendo concessões a essa empresa para cortar também suas próprias florestas.


Eu sabia que tinha que ver pessoalmente uma floresta da Ikea; o desafio era encontrar um para visitar com segurança. Qualquer uma das vastas participações da empresa em Suceava parecia imprudente após o ataque; no condado vizinho de Maramures, onde o guarda florestal Pop havia sido assassinado menos de dois anos antes, eu tinha certeza de ver o corte raso, mas continuava perigoso demais em um dia de trabalho.

Resolvi, finalmente, ir para Focsani, perto de uma floresta de baixa altitude onde a Ikea possui cerca de 5.000 hectares, em uma região onde a empresa também enfrenta seus maiores problemas legais. Barbu, o investigador, concordou em se juntar a mim, assim como Andrei, como parte de sua própria pesquisa. Apenas alguns meses atrás, Agent Green, a ONG romena, identificou o que disse ser um corte raso sem licença e sem uma avaliação de impacto ambiental em uma floresta antiga de propriedade da Ikea, adjacente ao local Valea Neagra Natura 2000 , que abrigava árvores de 130 a 150 anos. Eu tinha visto as fotos das consequências marcianas. O grupo apresentou uma queixa; os resultados tinham chegado recentemente.

No caminho, revisamos as descobertas do auditor, compiladas pela British Soil Association, uma certificadora do FSC. Apesar da evidência fotográfica e da falta de uma avaliação de impacto ambiental, a revisão considerou a empresa impecável. Andrei leu em voz alta, incrédulo. “Eles começaram a cortar aqui há dois anos e ainda não têm a licença. OK. E o FSC não tem problema com isso, não menciona que eles estão infringindo a lei. Eles estão apenas dizendo que fizeram ‘esforços’ para cumprir a legislação.”

Atravessamos colinas marcadas não apenas pela extração de madeira, mas também pelos deslizamentos de terra. O solo aqui é espesso com argila, que desliza quando sua vegetação é removida, dificultando a extração de madeira futura e a regeneração de qualquer tipo ainda mais difícil, uma “surpresa desagradável” para os projetos da Ikea na área. Andrei riu sombriamente. “Eles não fizeram a lição de casa.”

Quando chegamos ao local, estava mais verde do que eu esperava. Ervas daninhas e arbustos haviam quebrado as partes mais áridas do terreno. Uma árvore solitária sobrevivente apareceu. Contamos um punhado de mudas de carvalho, nenhuma mais alta que a canela. O crescimento mais impressionante veio na forma de uma planta de tomate que começou a frutificar, provavelmente um vestígio do almoço de um madeireiro.

Por causa da reclamação, havia muita atenção pública para a área, o que, segundo me disseram, significava que o local estaria inativo. Mas enquanto caminhávamos, ouvimos o ruído distante e familiar de motosserras. Mais alarmante, quando as serras pararam, ouvimos o baque das árvores batendo no chão da floresta, uma evidência mais forte de atividade madeireira em algum lugar próximo. Andrei lançou o drone e avistou a operação do outro lado da estrada de onde estacionamos. “De jeito nenhum”, disse Barbu. “Muitos jornalistas estão cobrindo isso e estão vindo para a área, então acho que seria tolice tentar algo totalmente ilegal.”

Andamos até encontrar o serviço de telefone e corremos nossas coordenadas através do SUMAL, o banco de dados on-line, para obter permissões de registro ativo. Uma licença veio à tona: para rarituri – a palavra romena para “desbaste” – emitida para a Ingka Investments, o braço de propriedade de varejo da Ikea. A licença permitiria aos madeireiros remover pequenas mudas, crescimento que poderia impedir o bem-estar geral da floresta, bem como árvores doentes ou mortas. Mas mesmo a centenas de metros acima do solo, podíamos dizer que não era isso que estava saindo. “Estes também são grandes, grandes troncos. Estes são bons logs comerciais. Isso não é coisa que você pegaria de rarituri ”, disse Barbu.

Deliberando, chegamos a uma decisão: entraríamos no local, registraríamos a atividade e enfrentaríamos os madeireiros, com Barbu filmando. Andrei mandou uma mensagem de nossa localização para um colega fora do local como parte de um protocolo de segurança. Para proteger seu status de infiltrado e ajudar a facilitar uma saída mais rápida em caso de emergência, ele permaneceria no carro; Barbu — e pelo processo de eliminação eu também — lidaria com o confronto. Obter imagens de extração ilegal de madeira como essa reforçaria um caso futuro contra as práticas de manejo florestal da Ikea, mas com algum risco. “Foda-se”, Barbu murmurou, carregando cartões de memória em sua câmera. “Não sinto vontade de apanhar.”

Entramos no carro e descemos até a clareira onde os troncos derrubados estavam sendo empilhados. Uma pedra estava bloqueando o caminho. Saí do carro e o joguei para fora da estrada.

Do lado de fora, Barbu começou a filmar, narrando em romeno e explicando em inglês para meu benefício. Grandes toras recentemente cortadas foram empilhadas atrás de um trailer. “Corte horas atrás”, acrescentou. Do outro lado da clareira, encontramos uma estação onde aquelas toras estavam sendo cortadas em cordões para lenha. Na entrada da floresta, uma grande placa anunciava a operação. Assim como o banco de dados havia indicado, ele dizia RARITURI e INGKA INVESTMENTS. Em nenhum lugar vimos troncos ou mudas de aparência doente; colocando em prática um pouco da sabedoria da escola primária, contei anéis que colocam as árvores em algum lugar na faixa de 80 a 100 anos. Também estavam ausentes os madeireiros que tínhamos visto no drone e que esperávamos encontrar.

Então ouvi um motor vindo não da direção da floresta, mas da estrada atrás de nós. Um SUV prateado parou na clareira e Barbu foi falar com o motorista. O homem alegou não estar associado à operação madeireira, disse-me Barbu. Mas, preocupantemente, ele também se recusou a mover seu carro quando Barbu apontou que ele estava obstruindo o único caminho do local de extração de madeira para a estrada. A partir daí, fomos bloqueados.

Alguns minutos depois, um trator vermelho emergiu da floresta, arrastando três grandes toras. “Você está pronto para isso?” Barbu me perguntou. Seguimos o madeireiro a pé até a pilha, onde ele desligou o motor, saiu da cabine e começou a soltar as novas toras. Câmera rodando, Barbu apontou para a licença, a estação de corte de lenha e as toras que tinham acabado de ser derrubadas. O madeireiro gritou de volta. O aldeão saiu de seu Toyota e veio filmar a conversa também. Procurei uma pedra para pegar no caso de as coisas mudarem. Mas os números estavam do nosso lado – o resto da equipe madeireira permaneceu na floresta – e a conversa nunca ficou violenta. Depois de alguns minutos, o madeireiro voltou para o trator e saiu. Nós também voltamos para o carro.

“Ele estava tentando me dizer que mesmo para desbaste, você ainda pode cortar árvores grandes e saudáveis ​​acidentalmente”, Barbu contou para mim. “E eu disse: ‘Olha, mas isso é uma grande pilha de acidentes.’ Ele disse: ‘Sim, bem, isso é permitido. E se você precisar de mais respostas, vá para o escritório da administração.’” “O que é justo,” Andrei acrescentou, “porque ele só corta o que está marcado.” O escritório de administração, é claro, é o escritório regional de Ingka.


No meu último dia na Romênia, parei na loja da Ikea em Bucareste, curioso para saber se haveria alguma indicação do investimento da empresa no meio ambiente local, qualquer demonstração de seus compromissos de sustentabilidade em um país onde eles pudessem realmente ser visíveis. Armado com o aplicativo de tradução do Google, eu andei pelo chão do showroom, encontrando conjuntos de jantar de madeira de faia, aglomerado de abeto e muito mais, mas nenhuma menção à herança da cidade natal dos móveis. No saguão, uma tela dizia: USAMOS MADEIRA COM RESPONSABILIDADE. Saí de mãos vazias, sem intenção de voltar.

A Ikea dificulta o rastreamento da proveniência de seus móveis. Muitas vezes, uma caixa da Ikea reivindica um país de origem que indica apenas o último elo da cadeia de fabricação: MADE IN VIETNAM, por exemplo. Às vezes, dirá ainda menos: FEITO NA UNIÃO EUROPEIA. Internamente, porém, a empresa acompanha de perto os pontos de origem. Uma sequência de números na caixa, inescrutável para o leigo, pode indicar um determinado fabricante ou contrato dentro de um país. Esses códigos permanecem ferozmente guardados e são frequentemente alterados, mas no decorrer da minha reportagem, fui avisado com a cifra da Plimob, o fabricante da Ikea na Romênia que foi recentemente exposto por usar madeira extraída ilegalmente em várias lojas de baixo custo da Ikea , cadeiras emblemáticas. Resolvi voltar ao Ikea mais uma vez, desta vez em Nova York,

A área de carga do armazém do Brooklyn estava escassa quando cheguei lá. Particularmente para itens populares e de baixo preço, o estoque geralmente é difícil de encontrar nesta loja, que atende grande parte da cidade de Nova York. Era final de novembro, e os emaranhados da crise da cadeia de suprimentos ainda eram evidentes nas prateleiras vazias.

Ainda assim, encontrei móveis feitos na Bulgária e na Polônia e, finalmente, na Romênia. Em uma pilha de cadeiras verdes Rönninge, uma das marcas mais sofisticadas, vi o código Plimob. A cadeira custou R$ 484,50.


Este artigo foi publicado na 
edição impressa de março de 2022 com o título “Crime e Silvicultura”.

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pela revista The New Republic  [Aqui!].

UE planeja proibir uso de agrotóxicos em parques e outros espaços públicos

Reino Unido instado a seguir o exemplo enquanto Bruxelas elabora proposta para reduzir o uso geral dos produtos químicos em 50%

parks pesticidesA Comissão Europeia diz que vários estados membros da UE não cumpriram as orientações anteriores sobre a redução do uso de controle químico de pragas. Fotografia: Martin Jenkinson/Alamy

Por Daniel Boffey em Bruxelas, para o “The Guardian”

O uso de agrotóxicos sintéticos em parques e outros espaços públicos verdes em áreas urbanas deve ser proibido na União Europeia (UE), com os estados membros obrigados a reduzir o uso geral em 50%, de acordo com um projeto de regulamento vazado.

A medida é considerada necessária pela Comissão Europeia devido ao fracasso de vários estados membros da UE em agir de acordo com as orientações anteriores sobre a redução do uso de controle químico de pragas.

As autoridades dizem no projeto de regulamento que, como resultado das propostas, “os consumidores da UE podem ver o aumento dos preços dos alimentos, o que pode levar ao aumento das importações de países terceiros com regulamentação menos rigorosa do uso de agrotóxicos”.

Mas as autoridades disseram que examinarão maneiras de mitigar o impacto, acrescentando que a UE precisa “mudar para um sistema alimentar justo, saudável e ecológico”. Sob o regulamento, os agrotóxicos também seriam proibidos em áreas de proteção da natureza.

Cerca de 70 cidades do Reino Unido estão tomando medidas para reduzir o uso de agrotóxicos, mas não há proibição legal. Um porta-voz da Pesticide Action Network UK (PAN UK) pediu ao governo britânico que siga o exemplo de Bruxelas.

Ele disse: “A PAN UK vem pedindo essa medida há muitos anos e ver a Comissão Europeia apresentar planos para acabar com o uso desnecessário de agrotóxicos em áreas urbanas é muito bem-vindo. Será um enorme benefício para os cidadãos e o ambiente da UE. A PAN UK gostaria de ver o Reino Unido seguir o exemplo e acabar com o uso de pesticidas em nossas cidades.”

O projeto de regulamento da UE, que precisará ganhar o apoio dos Estados membros e do Parlamento Europeu, recebeu uma reação mista de ativistas ambientais na Europa continental.

Preocupações foram levantadas sobre a falta de restrições impostas aos agricultores para usar métodos como rotação de culturas e capina mecânica. Potenciais lacunas em torno da meta de 50% também foram identificadas, relacionadas à falta de confiança na coleta de dados precisos.

Sarah Wiener, uma eurodeputada dos Verdes, disse temer que o regulamento se traduza em promessas vazias. Ela disse: “A proposta da comissão sobre o uso sustentável de agrotóxicos na UE é tudo menos estanque. Por um lado, a comissão reconhece que a antiga diretiva dá muita margem de manobra aos Estados membros e, consequentemente, quer transformá-la em regulamento. Por outro lado, a comissão enumera apenas medidas insuficientes para implementar essa ideia basicamente boa.

“Não apenas isso, mas a comissão não quer nem mesmo tornar obrigatório o básico do manejo integrado de pragas, que seria o mínimo absoluto para alcançar um menor uso de agrotóxicos e proteger a saúde humana e a biodiversidade”.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui! ].

Brasil bate recorde de aprovação e uso de agrotóxicos em 2021

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” Agronegócio Tóxico”. Cartaz da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. FONTE:@CONTRAOSAGROTOXICOS

Por Ulrike Bickel para o Amerika21

Brasília. O governo do presidente de ultradireita Jair Bolsonaro, que está no cargo desde 2019, bateu recorde em seus 36 meses de mandato: 474 agrotóxicos foram aprovados no primeiro ano de seu mandato, 493 em 2020 e um total de 1.558 pelo final de 2021. Os dados são baseados nos arquivos divulgados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Um total de cerca de 3.618 agrotóxicos está atualmente aprovado (em 21 de janeiro de 2022). Isso torna o Brasil o líder global. Muitos desses “novos” produtos foram proibidos na UE há 20 anos com base em evidências científicas de seus efeitos nocivos para os seres humanos e a natureza.

Desde o golpe parlamentar de 2016 contra a então presidente Dilma Rousseff, o país é palco de uma onda de novas aprovações de agrotóxicos: em 2016, foram aprovados 277 produtos, no ano seguinte, 2017, foram aprovados 404 novos venenos agrícolas, e em 2018, o governo registrou mais 449 (relatado Amerika21 ).

Entre doze e 16 quilos de agrotóxicos por hectare são usados nos campos do Brasil , segundo o pesquisador Prof. Larrisa Bombardi em seu atlas de 2021 “Geografia do Uso de Pesticidas no Brasil e Conexões com a União Europeia“. Ela teve que deixar o país em 2021 por causa de ameaças relacionadas à sua pesquisa.

O agrônomo Leonardo Melgarejo, do Movimento pela Ciência Cidadãalerta que todos sofrem com o uso descontrolado desses agrotóxicos. Segundo o pesquisador, as consequências estão se espalhando por todas as regiões do país, por mais distantes que estejam as pessoas.

Segundo Melgarejo, um bilhão de litros desses agrotóxicos são usados ​​no Brasil a cada ano, muitos dos quais são tóxicos para os polinizadores e muitos deles vazam para a água, onde prejudicam os organismos aquáticos e contaminam a água potável. Segundo Melgarejo, estudos de qualidade da água descobriram que pelo menos 25% das comunidades pesquisadas têm até 27 tipos de toxinas na água. Então a possibilidade de contaminação é grande, mesmo estando longe das culturas.

Movimentos sociais, incluindo a “Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida” e o ministério ecumênico rural CPT , documentam continuamente a intoxicação por agrotóxicos em áreas rurais.

A agroindústria e os grandes produtores que utilizam as toxinas, por sua vez, disfarçam seus efeitos tóxicos ambientais e à saúde por trás de termos como “defensivos agrícolas”, “produtos fitossanitários” ou “produtos de proteção agrícola”.

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Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pelo Amerika21 [Aqui!].

Em Davos, rolaram as lágrimas de crocodilo do capital

Fórum Econômico Mundial: líderes ocidentais lamentam o aumento da desigualdade. Continua o curso de exploração e isolamento contra os mais pobres

cercas ueOs líderes da UE consideram a pobreza lamentável, mas fornecer ajuda está fora de questão (fronteira externa da UE na Polônia, 13 de dezembro de 2021)

Por Joerg Kronauer para o JungeWelt

Houve tons sombrios no final da versão online do Fórum Econômico Mundial, que terminou na sexta-feira passada nos espaços virtuais da Internet e não em Davos. Os participantes debateram a pandemia de COVID-19 em andamento, as mudanças climáticas e as tensões políticas perigosamente crescentes entre as potências ocidentais e a Rússia. “Vemos desafios crescentes”, disse Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial, de 83 anos, “desde interrupções nas cadeias de suprimentos até mudanças tectônicas nos mercados de trabalho e níveis de inflação que estão levantando preocupações entre políticos e indivíduos. ” Políticos importantes, do presidente da China, Xi Jinping, ao chanceler Olaf Scholz (SPD) e à secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, passaram uma semana comentando sobre o “estado do mundo” com focos diferentes. O resultado, como Schwab deixou bem claro, foi preocupante.

Por um lado, havia a crescente desigualdade entre ricos e pobres, que o secretário-geral da ONU, António Guterres, já havia lamentado no primeiro dia do Fórum Econômico Mundial. Guterres não apenas apontou que as taxas de vacinação nos países ricos eram “vergonhosamente” muitas vezes maiores do que no continente africano. Ele também mencionou que 80% dos fundos disponibilizados em todo o mundo para a recuperação econômica após a pandemia de COVID-19 estavam disponíveis em países industrializados desenvolvidos: os países mais pobres também estão em enorme desvantagem nesse aspecto; eles estão atualmente experimentando o menor crescimento em décadas e também estão tendo que tentar desesperadamente sair da crise “com orçamentos nacionais lamentavelmente inadequados”. O mundo “não pode pagar

O secretário-geral da ONU também quis dizer a União Europeia (UE), que – como os EUA– está construindo muros, desculpe: cercas de fronteira contra refugiados miseráveis ​​de três continentes. Seja qual for o caso, a UE está a fazer tudo o que pode para se isolar do mundo exterior. Embora ela acumule interminavelmente as vacinas que faltam nos países mais pobres, as aparições online da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e da presidente do BCE, Christine Lagarde, por exemplo, não deram a impressão de que tudo estava indo bem para ela. Lagarde, por exemplo, comentou a forte subida dos preços da energia e da inflação: disse que o BCE “assume que os preços da energia vão estabilizar ao longo de 2022” e que “as taxas de inflação vão diminuir gradualmente”. No entanto, ela reconheceu francamente que tudo isso estava “afligido por muita incerteza”. Von der Leyen, por sua vez, comentou sobre uma área de preocupação para a indústria: a produção de semicondutores, dos quais há uma grave escassez, principalmente na UE. No início de fevereiro, von der Leyen quer apresentar um “European Chips Act” para remediar a situação: “Até 2030, um quinto da produção global de microchips deve ocorrer na Europa”.

Além das crescentes tensões com a Rússia, que foram repetidamente discutidas, as tensões entre o Ocidente e a China também brilharam repetidamente. No primeiro dia do evento, o presidente da China, Xi, promoveu a abertura – não apenas na economia global, mas também na política: é importante abandonar a “mentalidade da Guerra Fria e buscar a coexistência pacífica”, enfatizou. Ironicamente, no último dia do evento, um político que os alimentou como nenhum outro nos últimos anos também lamentou as tensões: o primeiro-ministro da Austrália, Scott Morrison. Morrison, que disponibilizou seu país como um aríete para todos os tipos de agressão contra a China desde o início dos ataques de  Donald Trump contra Pequim, lamentou as contramedidas chinesas, A Austrália “manteve nossos valores”, embora isso não tenha ocorrido “sem custo”. Nas disputas que agora surgiram, ninguém provavelmente vencerá. “O mundo não pode se dar ao luxo de marchar nessa direção.” Estranha lamentação: afinal, Morrison teria o poder de se afastar do grande conflito com Pequim.

Surpreendentemente, pelo menos, Chido Munyati, um especialista em África do Fórum Económico Mundial, previu uma perspectiva ligeiramente mais positiva para o continente africano. Embora o fornecimento de vacinas Covid-19 esteja atualmente desolado e a pandemia possa causar sérios danos na África, Munyati estava surpreendentemente otimista com o tempo depois. Não só a economia da África está crescendo atualmente em torno de 3,8%, muito mais rápido do que no sul da Ásia (1,2%) e na América Latina (0,9%). Além disso, a população africana está crescendo mais rapidamente do que a de qualquer outro continente. Enquanto a população trabalhadora está diminuindo em geral – inclusive na Europa – está aumentando na África. Munyati extraiu esperança do crescimento econômico e populacional que ambos poderiam “dar ao continente um papel maior na política global e na economia mundial”. Mesmo se você for cético, há pelo menos esperança.

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Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].