Live do lançamento do livro “Geografia da Assimetria: o ciclo vicioso dos agrotóxicos e colonialismo entre o Mercosul e a União Europeia” de Larissa Bombardi

larissa bombardi

Como anunciado aqui no blog, hoje ocorreu o lançamento no Parlamento Europeu do livro “Geografia da Assimetria: o ciclo vicioso dos agrotóxicos e colonialismo entre o Mercosul e a União Europeia” de autoria da professora Larissa Bombardi, do Departamento de Geografia da USP, e que atualmente se encontra exilada na Bélgica em função de ameaças sofridas por causa da publicação de sua obra anterior, o “Atlas Geográfico do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia“.

geografia assimetria bombardi

Ainda que o evento de lançamento tenha durado em torno de 2 horas, disponibilizo abaixo dois vídeos que mostram a apresentação feita pela professora Larissa Bombardi do seu novo livro.

Quem desejar baixar a obra “Geografia da Assimetria: o ciclo vicioso dos agrotóxicos e colonialismo entre o Mercosul e a União Europeia” em sua versão em inglês, basta clicar  [Aqui!]

Exilada por causa das suas pesquisas sobre agrotóxicos no Brasil, Larissa Bombardi lança novo livro no Parlamento Europeu

Agrotóxicos e  relações comerciais assimétricas entre a UE e o Mercosul. Pesquisadora exilada discute a circulação de agrotóxicos. Próximos padrões coloniais. Parlamentares de esquerda da UE e ONGs participarão de evento no Parlamento Europeu

larissa bombardi

Por Ulrike Bickel para o Amerika21

Bruxelas . Amanhã a professora de geografia brasileira Larissa Bombardi apresentará seu novo estudo sobre política de agrotóxicos nas relações comerciais entre a União Européia (UE) e a aliança econômica Sul-americana Mercado do Sul (Mercosul). No evento organizado pelo grupo de esquerda no Parlamento Europeu, parlamentares e organizações não-governamentais das duas regiões farão comentários sobre a situação. Eles também discutirão abordagens para combater o uso indevido de pesticidas.

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Empresas químicas se beneficiam da redução tarifária planejada de 14 a zero por cento nas exportações de pesticidas para o Mercosul.  FONTE:BILATERAIS

Participantes: Lilian Galán, membro da Frente Amplio do Uruguai, Nilto Tatto,  deputado federal do Partido dos Trabalhadores Brasileiros (PT) e presidente da frente parlamentar ambiental, da Alemanha Peter Clausing da Rede de Ação de Pesticidas (PAN) e da França Arnaud Apoteker da Justice Pesticides e Sara Lickel do Veblen Institute.

No estudo, que estará online em breve, Bombardi explica como o planejado acordo de livre comércio UE-Mercosul aumentará o comércio desigual entre as duas regiões e prejudicará ainda mais o clima e os ecossistemas. Organizações como o Greenpeace já demonstraram que as empresas químicas europeias se beneficiam enormemente das reduções tarifárias planejadas de 14 a zero por cento nas exportações de agrotóxicos para o Mercosul. Algumas delas são substâncias químicas proibidas na UE, como os inseticidas altamente perigosos para as abelhas Fipronil da BASF, Tiametoxam da Syngenta, Clotianidina e Imidaclopride da Bayer.

Continuaram as críticas de que os cortes tarifários sobre produtos agrícolas sul-americanos, como carne bovina e de frango, açúcar e bioetanol, acelerariam o desmatamento e consolidariam o modelo agrícola industrial que depende de monoculturas e safras geneticamente modificadas de alto desempenho. Por sua vez, as empresas químicas se beneficiam disso.

As aplicações corriqueiros de agrotóxicos em enormes plantações por avião também destruíram biomas ricos em espécies florestas e savanas, povos indígenas e agricultores foram deslocados, e os serviços de saúde da população local ficaram sobrecarregados. Com a exportação de produtos agrícolas sul-americanos, as substâncias perigosas voltaram aos pratos dos consumidores europeus: dentro e em restaurantes locais . Além disso, o acordo UE-Mercosul dá continuidade ao papel da América Latina como exportador de commodities agrícolas, como mostram os mapas do estudo da Bombardi.

Em termos puramente monetários, um certo equilíbrio foi estabelecido no comércio. Em 2018, a UE exportou bens no valor de cerca de 41 bilhões de euros para o Mercosul, enquanto os países do bloco sul americano exportaram bens no valor de cerca de 43 bilhões de euros para a UE. A Alemanha domina as importações do Mercosul com uma participação de 20 % das exportações totais, seguida pelos Países Baixos com 17% e França com 14%. O principal exportador do Mercosul para a UE é o Brasil, com mais de 70% do volume total de exportação. A Argentina tem 20%, Paraguai e Uruguai, 5%.

No entanto, segundo Bombardi, a aparente igualdade de valores financeiros das exportações esconde a subordinação dos ecossistemas, dos direitos humanos e das necessidades humanas no Mercosul. Enquanto as principais exportações da UE são produtos processados, como máquinas, veículos, reatores nucleares, produtos farmacêuticos e equipamentos eletrônicos, os principais produtos de exportação do Mercosul permaneceram principalmente matérias-primas, como farelo de soja, ração animal, minérios, grãos, celulose, óleos vegetais, frutas e café.

Oito dos doze produtos mais exportados do Mercosul para a UE vieram do setor agrícola, três da mineração e apenas um era um produto industrial. Por outro lado, dos doze produtos mais exportados da UE para o Mercosul, onze estavam relacionados com tecnologias de alto valor agregado: por exemplo, veículos, máquinas, aparelhos eletrônicos, produtos farmacêuticos e químicos, peças de aeronaves, aço. Apenas a décima segunda categoria de produtos continha matérias-primas.

Segundo Bombardi, isso reproduz o modelo comercial colonial de uma divisão internacional assimétrica do trabalho que as potências coloniais europeias estabeleceram há 500 anos.

Uma aliança de mais de 450 organizações sociais e ambientais da América Latina e da Europa está agora protestando contra o acordo comercial UE-Mercosul . De acordo com um parecer jurídico recente do Greenpeace e Misereor, as melhorias com uma cláusula adicional sobre proteção ambiental e florestal, propostas pelo Comissário de Comércio da UE Dombrovskis, são completamente inadequadas para garantir a sustentabilidade e os direitos humanos.

Quem desejar se inscrever para participar deste evento, basta clicar [Aqui!]

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo Amerika21 [Aqui!].

O veneno chega pela torneira: Ministério da Saúde aumenta de 27 para 40 agrotóxicos a serem monitorados na água consumida pelos brasileiros

torneira

Em meio ao avanço da pandemia da COVID-19, o Ministério da Saúde fez publicar sem muito alarde a Portaria GM/MS No. 888 de 04 de maio de 2021 cujo objetivo primário foi alterar o Anexo XX da Portaria de Consolidação GM/MS nº 5, de 28 de setembro de 2017 que dispõe sobre os procedimentos de controle e de vigilância da qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade no Brasil.

Na prática a Portaria GM/MS No. 888 atualiza uma série de parâmetros que devem ser monitorados para que, em tese, se garanta que a água consumida pelos brasileiros em suas casas não causa danos à saúde deles.  Pois bem, mas um dos itens “atualizados” deveria ou deverá receber grande atenção dos responsáveis por garantir que a água que é consumida pelos brasileiros não vai causar doenças graves em vez de apenas matar a sede deles.

Falo aqui da Tabela de Padrão de Potabilidade para substâncias químicas que representam risco à saúde, especificamente aquelas que são usadas na agricultura, os chamados agrotóxicos.  É que na Portaria de Consolidação, o número de monitoramento eram 27, o que já foi motivo de uma postagem neste blog sobre a presença de todas as substâncias listadas pelo Ministério da Saúde na água consumida pelos habitantes de Campos dos Goytacazes, sendo que 9 delas estavam acima dos limites considerados como seguros.  Eis que agora o número de substâncias a serem monitoradas passou para 40 agrotóxicos, muitos dos quais amplamente usados na produção de commodities agrícolas voltadas para exportação como soja, milho e algodão (ver Aqui! as substâncias alvo para monitoramento em 2017 e em 2021).

Campos agrotóxicos

Na prática o que a elevação de 27 para 40 agrotóxicos a serem monitorados na água de consumo por causa do risco que causam à saúde humana é um reconhecimento tácito é de que uso intensivo e praticamente sem qualquer controle de substâncias altamente perigosas está chegando nos torneiras dos brasileiros. E, pior, sem que as empresas públicas ou privadas que fornecem essa água estejam fazendo qualquer movimento para estabelecer métodos de remoção desses poluentes no seu processo de tratamento, o qual permanece basicamente removendo material biológico e material particulado.

O pior é que dentre os agrotóxicos que passam a ser monitorados estão alguns que são apontados por estudos científicos como causadores de doenças graves tais como o Acefato, o Paraquate, a Ametrina e a Simazina, que têm sido consistentemente ligados à ocorrência de diversos tipos de câncer, além de doenças do sistema nervoso, sendo ainda disruptores endocrinos.

Apenas para se ter uma ideia da gravidade do avanço do processo de contaminação da água consumida por brasileiros por agrotóxicos, fiz uma checagem de quantas das 40 substâncias incluídas na Portaria GM/MS No. 888 de 04 de maio de 2021 estão proibidas na União Europeia (ver Aqui!) e o total foi de 26 (ou seja 65%!). 

status eu agrotóxicos na água

O problema é que como já foi mostrado pela professora Larissa Miers Bombardi no seuAtlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Européia“, os limites máximos de resíduos tolerados no Brasil estão, em alguns casos, em diversas ordens de grandeza daquilo que é tolerado pela Comissão Europeia. Assim, os brasileiros estarão sob um risco cada vez mais grave de estarem consumindo água com níveis de resíduos de agrotóxicos produzidos por multinacionais europeias, mas que aqui não obedecem os critérios de segurança impostos aos agricultores europeus.

No caso de Campos dos Goytacazes onde a Câmara de Vereadores pode ter brevemente uma Comissão Parlamentar de Inquérito para averiguar a qualidade dos serviços prestados pela concessionária “Águas do Paraíba”, um ponto que poderia ser arguida pelos vereadores poderia ser acerca dos métodos de remoção de micropoluentes como os agrotóxicos listados pelo Ministério da Saúde na água servida aos campistas.

Finalmente, não há como deixar de associar a necessidade de aumentar o número de substâncias sendo monitoradas na água servida pelas redes oficiais de fornecimento à política de “passa boiada” que foi adotada pelo governo Bolsonaro em substâncias que estão proibidas para uso justamente nos países que as fabricam.  O resultado dessa política de porteira aberta agora está aí para todos verem, qual seja, a grande possibilidade de que estamos ingerindo um alto número de resíduos de agrotóxicos altamente tóxicos não apenas para seres humanos, mas para os sistemas aquáticos que fornecem a água que precisamos para viver.

“Bee killers”: Corte Europeia mantém banimento de agrotóxicos neonicotinóides amplamente usados na Brasil

abelhas-mortas2Abelhas mortas por contato com agrotóxicos

O Tribunal Superior da União Europeia manteve a proibição parcial da UE de três agrotóxicos neonicotinóides que têm sido ligados ao extermínio de abelhas, impedindo seu uso em certas plantações. Esta decisão abrange três   três produtos ativas – a Imidacloprida, desenvolvida pela Bayer CropScience, a Clotianidina, desenvolvida pela Takeda Chemical Industries e Bayer CropScience, e o Tiametoxam  que é produzido pela Syngenta.

Curiosamente, dois desses agrotóxicos- a Imidacloprida e o Tiametoxam não só continuam sendo bastante vendidos, como foram beneficiados pela tsunami de aprovações realizada pelo governo Bolsonaro. No caso da Imidacloprida, o número de novos produtos aprovados foram 13, enquanto no caso do Tiametoxam o número aprovações chegou a 12. Há ainda que se notar que no caso da Imidacloprida as aprovações foram todas dos chamados produtos técnicos que são a matéria bruta do qual são produzidos os chamados produtos formulados que são efetivamente vendidos nas lojas de varejo. Já a Imidacloprida teve 6 produtos técnicos liberados, enquanto que os 6 produtos formulados foram autorizados para diversas culturas, incluindo o Algodão.

Com essa decisão, a multinacional alemã Bayer que teve o seu pedido rejeitado pelo Tribunal Superior da União Europeia certamente olhará para o mercado brasileiro com ainda mais sofreguidão, pois terá aqui caminho livre para escoar a sua produção que está sendo banida na União Europeia. Este padrão de “dupla moral” da União Europeia precisa ser claramente repudiado, na medida em que permitem a continuidade da venda de produtos que se sabe serem nocivos à saúde de insetos polinizadores, como é o caso das abelhas.

No caso do governo Bolsonaro e da Anvisa, o que mais essa caso deixa evidente é um padrão dúbio de preocupação com a saúde dos brasileiros, pois enquanto se impede o uso de vacinas contra a COVID-19 sob o desígnio de proteger a saúde dos brasileiros, quando se trata de agrotóxicos a coisa corre solta.

 

Europeus querem diplomacia climática com a China, indica pesquisa

climate diplomacyUma tela mostra imagens de notícias do presidente chinês Xi Jinping participando de uma cúpula em vídeo sobre mudança climática com a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês Emmanuel Macron, em uma rua comercial de Pequim na sexta-feira, © REUTERS

O público em seis países europeus quer que seus governos priorizem a mudança climática nas relações com a China, indica uma nova pesquisa do Instituto YouGov. A pesquisa foi encomendada pelo think tank E3G e foi realizada na Alemanha, Dinamarca, França, Itália, Polônia e Reino Unido em abril de 2021.

Em média, nos seis países pesquisados, 7 em cada 10 (72%) pessoas acreditam que abordar a mudança climática deveria ser uma prioridade muito ou bastante alta na política externa de seu país em relação à China.

Mesmo nos países em que foram identificadas opiniões predominantemente negativas sobre a China (Alemanha, Dinamarca, França e Reino Unido), o público sente que a mudança climática deveria ser uma alta prioridade para o envolvimento de seu país com o gigante asiático.

No total, mais pessoas indicaram que a mudança climática é uma prioridade muito alta (40%) do que aqueles que veem a criação de novos acordos comerciais como uma prioridade muito alta (18%). 
 
A pesquisa chega em um momento em que a cooperação sobre o clima com a China – maior emissor do mundo com uma participação de 27% nas emissões globais – é percebida como estando encolhendo.
 
“Esta pesquisa fornece provas claras de que, apesar das tensões emergentes entre a União Europeia e a China, a maioria dos europeus acredita que o clima deve ser uma das prioridades na agenda de política externa com a China, juntamente com as preocupações sobre direitos humanos e o desenvolvimento de uma resposta global à COVID-19”, afirmou Nick Mabey, Chefe Executivo do E3G.

“Embora o público europeu pense que a diplomacia climática com a China é importante, eles também esperam que a China produza mais para cumprir suas ambiciosas metas climáticas” diz Byford Tsang, Assessor Sênior de política do E3G. “A União Européia, os Estados-Membros e o governo do Reino Unido devem continuar engajados com a China na implementação de ações climáticas de curto prazo, incluindo uma moratória sobre a construção de usinas elétricas a carvão no país e no exterior”.

Relação China-EUA

A China foi o primeiro país, após os Estados Unidos, a falar durante a Cúpula de Líderes Climáticos convocada pelo presidente Joe Biden. Embora nenhuma nova meta formal tenha sido anunciada, Xi Jinping disse que a China “limitaria estritamente o aumento do consumo de carvão no 14º período do plano quinquenal e o reduziria gradualmente no 15º período do plano quinquenal”.

Dias antes, em 18 de abril, EUA e China divulgaram uma declaração conjunta sobre suas metas climáticas. Nela, a China concorda em trabalhar metas mais ambiciosas nesta década e em entregar planos de descarbonização de longo prazo em linha com a neutralidade de carbono líquido zero na COP26, que será realizada em novembro, na Escócia.

Os resultados da pesquisa realizada com os europeus estão alinhados com os dados de outra pesquisa de opinião , feita nos EUA, em dezembro do ano passado pelo Asia Society Policy Institute. O estudo indicou que a maioria dos americanos apoia a cooperação com a China para enfrentar a mudança climática e reduzir as emissões.

Genocídio uigur?

A disputa pela província de Xinjiang faz parte de uma estratégia para impedir ou desacelerar a ascensão da China

uigurBase e superestrutura na província chinesa de Xinjiang: abaixo do transporte de crianças em idade escolar, acima de um cartaz de propaganda com o presidente Xi e dignitários uigur

Por UWE BEHRENS para o Neues Deutschland

O governo Biden, os holandeses e o parlamento da UE estão acusando o governo chinês de genocídio contra o grupo étnico uigur na província de Xinjiang. Eles impuseram sanções contra líderes individuais, bem como contra empresas. A República Popular da China respondeu com contra-sanções contra parlamentares da UE e institutos de pesquisa especializados na China.

Em contraste, a Organização para a Cooperação Islâmica saudou as condições em que os muçulmanos vivem na China em 2019, o que também foi confirmado pela visita do ministro das Relações Exteriores chinês à Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Omã, Bahrein e Irã em março deste ano. fui.

Para compreender que, por um lado, os Estados ocidentais condenam a China pelas condições de vida de um grupo étnico islâmico e, por outro lado, os Estados islâmicos elogiam a China por essas condições, é necessário olhar para os antecedentes e os detalhes.

Existem dois grandes grupos étnicos muçulmanos na China: os hui, a maioria dos quais se estabeleceu na província de Ninxia, ​​e os uigures, a maioria dos quais vive em Xinjiang. Ambos os grupos gozam de proteção e privilégios garantidos por lei a todas as 55 minorias nacionais na República Popular da China. Eles tiveram e terão acesso preferencial a instituições de ensino, incentivos fiscais e a não aplicação da política do filho único, que já terminou, com renúncia às restrições de nascimento.

Em Ningxia, consegui me convencer das visitas regulares às mesquitas e do livre exercício das tradições muçulmanas. Os conflitos na província de Xinjiang obviamente não são sobre o Islã, mas sobre os esforços separatistas, que ressurgiram por mais de 20 anos, para separar a região autônoma de Xinjiang da China e convertê-la em um califado islâmico. Tais estruturas já existiam, embora não fossem reconhecidas internacionalmente, de 1865 a 1877, de 1933 a 1934 e de 1944 a 1949.

As razões para o ressurgimento dessas aspirações de independência política e territorial podem ser encontradas na própria província autônoma de Xinjiang e – e na campanha com pressão política inadequada e aberta – fora da China.

A província de Xinjiang é caracterizada por pastagens escassamente povoadas, desertos e montanhas com um uso agrícola tradicionalmente modesto. Como consequência, a prosperidade e o nível de educação da população são muito inferiores aos de outras regiões da China, especialmente quando comparados com as províncias industriais do leste e nas costas do país. Durante minhas muitas estadias profissionais e turísticas na província nos últimos 30 anos, fiquei surpreso ao ver tanto atraso na China nos anos 90.

A fim de equilibrar essas diferenças de prosperidade, mas também de ser capaz de usar os diversos recursos, investimentos têm sido feitos no desenvolvimento da indústria, infraestrutura e agricultura desde os anos 80 e 90, o que levou a um forte influxo de não Os uigures, especialmente Han, estavam ligados à província. Os novos residentes possuíam ensino superior e também ocupavam os cargos mais bem remunerados. Uma lacuna de prosperidade se desenvolveu entre os uigures e os chineses han, o que se refletiu no aumento das tensões.

A organização do exílio do grupo étnico, o Congresso Mundial Uigur, com sede em Munique e apoiado por um think tank estadunidense financiado pelo Estado, se considera uma espécie de governo no exílio e clama por um Turquestão Oriental independente. Ao mesmo tempo, este congresso mundial mantém uma organização militar, o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, que em última instância é responsável pelos ataques terroristas, mas foi retirada da lista de organizações terroristas pelos EUA em 2020.

Esta situação foi alimentada adicionalmente pelos conflitos militares nos vizinhos Paquistão e Afeganistão. No Corredor Wakhan, na fronteira com a China, violentos uigures foram treinados junto com o Taleban para a luta religiosa. Posteriormente, grupos uigures entraram em contato com organizações terroristas em outros países, inclusive ingressaram no EI e lutaram na Síria e na Líbia, entre outros.

Já nos anos entre 2000 e 2010, ataques terroristas foram perpetrados em território chinês, nas províncias e nas cidades por uigures de influência islâmica. Centenas de civis e forças de segurança foram mortas.

Em Xinjiang, a questão não é a supressão do Islã ou da etnia uigur em bloco, mas a luta contra as tendências separatistas, que são apoiadas por forças estrangeiras por meio de uma ideologia islâmica política, que não deve ser confundida com a prática usual da religião de Islamismo. As ações terroristas planejadas pelos separatistas para desestabilizar a situação, especialmente nas áreas afetadas, devem ser descobertas e prevenidas neste contexto pelas forças de segurança chinesas.

O governo central chinês está tentando neutralizar a ameaça latente do terrorismo com um pacote completo de medidas: aumento do investimento em infraestrutura e no desenvolvimento industrial e agrícola, expansão do sistema educacional e, assim, superação da pobreza. Além disso, foi estabelecido um sistema de controle e vigilância para prevenir quaisquer atividades separatistas e terroristas, das quais, sem dúvida, também sofre a pacífica população civil. Existem postos de controle fortemente armados nas entradas e saídas de cada vila e cidade, e dentro das cidades há uma delegacia de polícia a cada 500 metros. Câmeras de vigilância para reconhecimento facial são onipresentes. Isso não é bom e não parece tranquilo, relaxado e assustador para os visitantes ocidentais.

A industrialização e a modernização da agricultura devem ser vistas, acima de tudo, no contexto dos esforços do governo para erradicar a pobreza. Acordos de parceria foram feitos entre as cidades da província de Xinjiang e as províncias mais ricas, que prevêem a colocação de gerentes experientes, conhecidos no Ocidente como quadros. O mesmo princípio foi aplicado em outras províncias como Guizhou ou Sichuan. Recebeu muitos elogios na mídia internacional.

Além de estabelecer uma indústria de pequena escala com suporte digital nas aldeias, esses projetos de desenvolvimento também incluem a instalação de instalações de produção modernas para as indústrias têxtil, automotiva e eletrônica. As empresas das regiões parceiras estão investindo em Xinjiang, construindo novas instalações de produção para sua indústria. A mão-de-obra necessária para isso é recrutada entre a população local, ou seja, o povo uigur, que inevitavelmente tem de ser combinada com uma formação prévia. Ao mesmo tempo, esta industrialização implica a deslocalização para os novos centros industriais. Cerca de três milhões de uigures que viviam em mais de 3.500 aldeias foram tiradas da pobreza, incluindo a realocação de 170.000 pessoas.

A agricultura também foi transformada industrialmente. Os exportadores americanos de maquinário agrícola, em particular, fizeram o negócio do século fornecendo máquinas de colheita para a indústria de algodão. Hoje, cerca de 70 a 80 por cento das colheitas de algodão são mecanizadas. Isso levou a um declínio acentuado no número de trabalhadores da colheita. Enquanto cerca de 700.000 trabalhadores da colheita de toda a China ainda eram necessários em 2008, o número era de apenas 100.000 em 2018; no entanto, agora eles são fornecidos apenas pela província de Xinjiang, ou seja, pela população uigur.

Todas essas medidas permitiram superar a pobreza absoluta entre os uigures até 2020. Durante minha última viagem por Xinjiang, pouco antes da crise de Corona, pude ver tudo isso por mim mesmo em 2019.

Os acontecimentos na província de Xinjiang entraram em conflito entre os EUA e a China desde a política de contenção do governo Trump. Eles são avaliados de acordo com os interesses dos EUA e de seus aliados. Novos complexos industriais com instituições educacionais são reinterpretados como campos de internação.

O número de aproximadamente um milhão de uigures internados na mídia ocidental é baseado em uma estimativa da rede chinesa de defensores dos direitos humanos, apoiada pelo Fundo Nacional de Empoderamento dos Estados Unidos, que perguntou a oito pessoas em oito aldeias se e quantas pessoas eles conheciam estavam internadas campos ser. Verificou-se que cerca de dez por cento da população da aldeia estava internada. Essa porcentagem foi então extrapolada para toda a população e o número um milhão nasceu. Até onde sei, não há nenhuma evidência adicional ou mais substancial. A situação é semelhante com o número de acampamentos. A BBC avaliou as imagens de satélite e identificou os complexos murados recém-construídos como possíveis campos.

Um estudo publicado recentemente pelo Newlines Institute for Strategy and Policy nos Estados Unidos, baseado nos mesmos dados originais e similares, concluiu que a China estava cometendo genocídio.

Este estudo é uma série de informações secundárias não verificadas e declarações de uigures que vivem no exterior e é, em última análise, baseado na pesquisa na Internet do antropólogo Adrian Zenz, que trabalha no ambiente de cristãos evangélicos de direita e trabalha para um think tank conservador de direita em os Estados Unidos.

O estudo, que teria exigido a confirmação de cientistas independentes, aguarda ainda a assinatura de 33 dos 66 cientistas interrogados, que não deram o seu parecer por legítimas dúvidas. Em uma entrevista no “Neue Zürcher Zeitung” em março de 2021, Zenz admitiu que as evidências para a alegação de genocídio eram “muito frágeis”, mas achou “de um ponto de vista simbólico” usar o termo de qualquer maneira porque “alcançou um forte efeito psicológico “e, portanto, levar a” consequências econômicas “.

Tudo isso questiona a credibilidade das acusações, mas mostra claramente a intenção por trás delas: desestabilizar a China com o objetivo declarado de impedir a ascensão bem-sucedida da China, ou pelo menos desacelerá-la.

O que mais assusta é o facto de os factos construídos e os casos suspeitos apresentados serem assumidos pelos meios de comunicação ocidentais sem serem examinados e servir de base às decisões políticas.

Uwe Behrens, é doutor em Economia, nasceu em 1944 e trabalhava no sistema de transporte da RDA. De 1990 a 2017, ele morou e trabalhou na China – primeiro para uma empresa de agenciamento de carga alemã, depois para uma joint venture germano-chinesa e uma franco-indiana. Ele visitou a China pela última vez em 2019, incluindo a província de Xinijang. Seu livro “Feindbild China. O que não sabemos da República Popular «(224 pp., Fr. 15 €).

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal Neues Deutschland [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: com mais 27 liberações, governo Bolsonaro chega a 1.127 agrotóxicos liberados em 26 meses

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Enquanto o Brasil segue distraído pelas idas e vindas do presidente Jair Bolsonaro no combate à crise sanitária criada pela pandemia da COVID-19, o seu governo continua ampliando a enxurrada de liberações de agrotóxicos, muitos deles banidos pela União Europeia.

Com a promulgação do Ato 13 de 26 de Fevereiro, o governo Bolsonaro autorizo o uso de mais 27 agrotóxicos em sua forma industrial (o chamado produto técnico) que depois serão transformados em produtos formulados que poderão ser vendidos a varejo ou no atacado.

Dentre os produtos aprovados, a carga habitual de produtos que já estão proibidos pela União Europeia, incluindo os já conhecidos Atrazina, Dibrometo de Diquate, Glufosinato e Hexazinona, todos conhecidos por causarem algum tipo de dano à saúde humana e a outros seres vivos, e também nas águas e solos (ver figura abaixo).

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Status na União Europeia dos agrotóxicos liberados pelo Ato No. 13 de 26 de fevereiro de 2021

É interessante notar que nessa leva também foi feita a aprovação de mais um agrotóxico baseado no Fipronil, conhecido por causa de sua letalidade contra polinizadores. Com isso, o governo Bolsonaro já liberou um total de 23 agrotóxicos com base no Fipronil, sendo que 10 deles são produtos técnicos que poderão gerar sabe-se lá quantos produtos formulados.  O resultado disso é que temos em curso a massificação da venda de um produto conhecido por exterminar abelhas, o que, curiosamente, poderá causar perdas colossais à agricultura brasileira, especialmente naqueles segmentos que mais usam agrotóxicos que são os produtos de commodities agrícolas de exportação.

Empresas chinesas estão aumentando sua hegemonia no fornecimento de agrotóxicos no mercado brasileiro

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Outra característica marcante nos 27 agrotóxicos que foram liberados pelo Ato No. 13 é que 92% deles são fabricados por empresas chinesas, a maioria de forma exclusiva (ver figura abaixo).

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Países de origem das empresas fabricantes dos agrotóxicos liberados pelo Ato No. 13 de 26 de fevereiro de 2021

Mas além de participar intensamente do fornecimento, noto agora que empresas chinesas estão se estabelecendo em número cada vez maior no Brasil para passarem a vender diretamente seus produtos em vez de simplesmente entregá-los para empresas brasileiras fazerem o processamento de produto técnico para as diferentes formulações. Essa mudança tende a fortalecer a hegemonia das empresas chinesas no fornecimento de agrotóxicos que serão usados mais amplamente no cultivo daquelas commodities que a China mais importa do Brasil.  O problema aqui é agrotóxicos, como todo produto industrializado, sempre custará mais caro do que soja, por exemplo. E nisso fica uma troca desigual, pois enquanto os chineses compram soja e milho mais baratos dos exportadores brasileiros, o Brasil paga mais caro pelos agrotóxicos chineses, De quebra, por aqui ficam as consequências nefastas de alguns produtos que a própria China já baniu em seu território.

Governo Bolsonaro: vacina não, agrotóxico sim

Voltando ao governo Bolsonaro e sua postura de boicote à vacina Coronavac, fabricada pela  Sinovac, é sempre importante lembrar que a rejeição está longe de ocorrer com os agrotóxicos produzidos por dezenas empresas chinesas sobre as quais há pouca ou nenhuma informação, inclusive nos sites que estas possuem na rede mundial de computadores.

Mas, convenhamos, há extrema coerência nessa situação, pois o governo Bolsonaro além de ser representante direto dos interesses do latifúndio agro-exportador, é liderado por um presidente que até aqui mostrou pouquíssimo interesse em preservar a vida dos brasileiros, e os números de mortos pela COVID-19, quase 270 mil, estão aí para não me deixar falando sozinho.

Quem desejar baixar o arquivo contendo a descrição dos agrotóxicos liberados pelo Ato No. de 26 de fevereiro, vasta clicar [Aqui!]. Já para baixar a base completa contendo os 1.127 agrotóxicos liberados desde o início do governo Bolsonaro, basta clicar  [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: com mais 32 agrotóxicos, governo Bolsonaro fez de 2020 um ano recorde de aprovações

Nem a pandemia da COVID-19 serviu para brecar o ímpeto pró-venenos agrícolas, e o total liberado em 2020 chegou a 530 agrotóxicos. Em dois anos, a liberação foi de 1033 agrotóxicos, 34% de todos os produtos em circulação no Brasil

tereza cristinaSob a batuta da ministra Tereza Cristina (DEM/Ms), governo Bolsonaro liberou quantidade recorde de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo

Ainda que estejamos em meados de janeiro de 2021, o governo Bolsonaro continuou com sua enxurrada de agrotóxicos aprovados em 2020. É que em no dia 14 o Diário Oficial da União trouxe a publicação do Ato No. 71 de 28 de Dezembro onde foram liberados mais 32 agrotóxicos, todos produtos técnicos, o que totaliza para 2020 o valor de 530 agrotóxicos liberados, elevando para 1033 agrotóxicos liberados em dois anos de governo Bolsonaro.

Essa verdadeira tsunami de aprovações acontece em meio à mudanças feitas pelo governo Bolsonaro não apenas para agilizar o processo de aprovação, mas também para relaxar os critérios de definição de risco para a saúde humana, o que se reflete em uma curiosa contradição entre as definições de toxicidade ambiental e sobre a saúde humana, visto que os produtos via de regra tiveram seu risco humano baixado, sendo o de ambiental normalmente mais elevado.

A geopolítica da vacina e dos agrotóxicos

china brasil

Um detalhe que saltas aos olhos quando se analisa a origem dos agrotóxicos aprovados é que China e Índia, justamente os países que estão no cerne das dificuldades para o Brasil produzir vacinas contra a COVID-19, são os principais fornecedores de agrotóxicos com que o latifúndio agroexportador está se refastelando em seu esforço de auferir cada vez mais lucros com a exportação de commodities agrícolas.

O caso dos agrotóxicos produzidos por empresas chinesas em território chinês é o mais gritante, visto que eles representam 61% de todos os agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro. Já as empresas da Índia participam com 8%, à frente de países tradicionalmente no mercado internacional de agrotóxicos como EUA (6%), Japão (3%) e Alemanha (2%) (ver gráfico abaixo).

agrotoxicos total 2019-2020

Essa mudança de origem dos produtos sendo aprovados pelo governo Bolsonaro reflete um movimento mais geral da indústria de produção de venenos agrícolas, e que curiosamente aparece no Brasil (que participa do “bolo” com 13% dos produtos aprovados) que é a mudança em curso para o combate biológico das ditas pragas agrícolas.

Mas no frigir dos ovos, o que fica claro é que se o governo Bolsonaro fez todo um teatro para frear a aprovação e uso da Coronavac, produzida pela empresa chinesa Sinovac, o tratamento dispensado às empresas chinesas produtoras de agrotóxicos é de um verdadeiro “mar de almirante”.

Por outro lado, o fato que China e Índia continuam vendendo agrotóxicos para o Brasil sem se importarem com as desfeitas do presidente Jair Bolsonaro, seus filhos e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Assim, a alegada “vendetta” que a mídia corporativa vem divulgando em relação ao envio de vacinas e dos insumos básicos para sua produção em solo brasileiro, se real, deve ter outros motivos.

Em vez da modernização prometida, agrotóxicos banidos por serem perigosos demais

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Um dos pontos basilares da política de aprovação de agrotóxicos do governo Bolsonaro seria o abandono de produtos teoricamente ultrapassados por outros mais modernos. Mas um rápido exame dos 1033 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro mostra que em média 30% estão banidos na União Europeia por causarem danos ao meio ambiente e a saúde humana.  Dentre os produtos aprovados e banidos pela UE (UE) podem ser citados a Acefato, a Ametrina, a Atrazina, o Fipronil, o Glufosinato e o Tiametoxam, entre tantos outros.

O fato é que esse uso amplo, e que deve se estar se ampliando em face das aprovações, está gerando um desastre sanitário de grandes proporções no Brasil, e que não está sendo identificado em função do desastre corrente que é o da pandemia da COVID-19.

Não há como negar que ao autorizar a ampliação do uso de agrotóxicos com reconhecida capacidade de causar graves danos à saúde humana, e apenas para apoiar o latifúndio agroexportador, o governo Bolsonaro está gerando um legado de envenenamento com o qual o Brasil terá dificuldades de se confrontar em um futuro não muito distante.

A coisa é tão descabido é que segundo “Robotox“, projeto conjunto da Agência Pública e da ONG Repórter Brasil, o mercado brasileiro possui atualmente com 3064 agrotóxicos em circulação, o que torna o governo Bolsonaro responsável por cerca de 34% dos agrotóxicos liberados pelo uso no Brasil, e isto em apenas dois anos de governo.

Acesso às bases de dados do “Observatório dos Agrotóxicos”

Um primeiro elemento das planilhas que o “Observatório dos Agrotóxicos” do Blog do Pedlowski vem divulgando é que todos os dados foram adquiridos a partir da extração manual das informações contidas em cada ato oficial de liberação.  Com isso, pode ser que outras fontes mostrem valores ligeiramente diferentes para o governo Bolsonaro, mas considero que os valores aqui apresentados estão corretos.

Ao longo de 2021, o “Observatório dos Agrotóxicos” continuará fornecendo informações sobre novos atos e apresentando as planilhas respectivas.  Como no caso do Ato No. 71, os interessados em verificar as informações dos agrotóxicos aprovados, basta clicar [Aqui!]. Já os interessados em verificar todos os 1.033 agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro em 2019-2020, basta clicar [Aqui!].

Soja da Amazônia não é “livre de desmatamento”

Abiove e Ministério da Agricultura divulgam informação falsa após ameaça do presidente francês

pulverizadoraMáquina pulveriza agrotóxico sobre plantação de soja na Amazônia Foto: © Bruno Kelly / Greenpeace

20% da soja dos biomas Amazônia e Cerrado foi produzida em imóveis rurais que desmataram, aponta estudo

Em resposta ao presidente da França, Emmanuel Macron, que ameaçou boicotar a soja brasileira em razão do desmatamento da Amazônia, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) afirmou em nota nesta terça-feira (12/01) que “a soja produzida no bioma Amazônia no Brasil é livre de desmatamento desde 2008 graças à Moratória da Soja, iniciativa internacionalmente reconhecida que monitora, identifica e bloqueia a aquisição de soja produzida em área desmatada no bioma, garantindo risco zero do envio de soja de área desmatada (legal ou ilegal) deste bioma para mercados internacionais”.

No mesmo tom, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) afirmou, em nota divulgada no dia seguinte, que “a soja brasileira não exporta desmatamento”.

A Moratória da Soja, uma iniciativa de ONGs ambientais com participação da Abiove e da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), tem de fato contribuído para reduzir a pressão sobre a floresta amazônica, mas isso não significa soja “livre” de desmatamento, nem que há “risco zero” de exportação de soja de áreas desmatadas no bioma ou que “a soja brasileira não exporta desmatamento”.

Segundo pesquisa publicada recentemente na Science, uma das mais importantes revistas científicas, cerca 20% da soja dos biomas Amazônia e Cerrado exportada para a União Europeia foi produzida em imóveis rurais que desmataram entre 2008 e 2018, desrespeitando o código florestal. O levantamento foi feito com base em informações declaradas no Cadastro Ambiental Rural (CAR) e dados de exportação de soja.

Além disso, o estudo indica que 0,5 milhão de tonelada de soja da Amazônia é exportada para países europeus, contra 1,4 milhão de tonelada do Cerrado, embora esse bioma seja cinco vezes menor que a Amazônia. Isso reforça um problema que vem se agravando: o desmatamento no Cerrado, que em 2020 aumentou 13%segundo o Inpe, totalizando quase 50% de eliminação da vegetação nativa do bioma.

A manifestação da Abiove ocorreu logo após Macron afirmar, no Twitter, que “continuar a depender da soja brasileira seria o mesmo que apoiar o desmatamento da Amazônia”. Em seguida, ele completou: “Somos coerentes com nossas ambições ecológicas, estamos lutando para produzir soja na Europa”. O presidente francês tem mantido posição contrária ao acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, sob alegação de que o Brasil precisa cumprir o Acordo de Paris e reduzir o desmatamento, gerando pressão sobre o governo Bolsonaro e acenando para agricultores locais.

Em 2019, o Brasil produziu 114 Mton de soja, das quais 28 Mton no bioma Amazônia e 40 Mton na Amazônia Legal (o que inclui o Cerrado de MT, MA e TO), aponta o professor da UFMG Raoni Rajão, um dos autores do estudo da Science, com dados do IBGE. Ou seja, a região é responsável por 25% a 35% da produção nacional, dependendo da definição territorial utilizada.

A exemplo da moratória da soja na Amazônia, ONGs têm pressionado as indústrias por um acordo para o Cerrado, com o objetivo de barrar a expansão da soja sobre a vegetação nativa. No entanto, após um longo período de tratativas, nenhum resultado concreto foi atingido. O governo, que participava dos grupos de trabalho e endossava a iniciativa voluntária, retirou-se das negociações na gestão Bolsonaro, sinalizando o desinteresse pelo combate ao desmatamento.

A moratória da soja começou a funcionar a partir de 2006, após forte pressão de ONGs sobre compradores internacionais, com o argumento de que eles estimulavam o desmatamento na Amazônia ao produzir a oleaginosa.

Para resolver o embate foi criado um grupo de trabalho e pactuado, entre as ONGs e a Abiove, que as indústrias não comprariam mais soja de produtores cuja área para produção no bioma Amazônia tenha sido desmatada após 2008, mesmo com autorização.

Foi criado um sistema de monitoramento privado com imagens de satélite nos principais municípios produtores de soja, que identifica quem descumpre as regras e bloqueia a compra por parte das indústrias.

De acordo com o último relatório sobre a moratória, divulgado em abril de 2020 (safra 2018/2019) pelo Grupo de Trabalho da Soja, 1,8% dos produtores de soja no bioma Amazônia estariam em desacordo, ou seja, desmataram após 2008. O documento também considera que após a implementação do acordo houve uma redução de 4,6 vezes da taxa média de desmatamento na Amazônia, atribuindo parte desse resultado à iniciativa. No entanto, segundo dados do Inpe, o desmatamento na Amazônia aumentou 34,5% em 2019 e 8,5% em 2018.

Na quinta-feira (14/1), Bolsonaro atacou o presidente francês, classificando suas declarações de “politicalha” e “campanha contra o Brasil”: “(…) Quanto de floresta tem a França? Porque eles falam tanto em reflorestamento, em dar dinheiro pra nós. Não tem que dar dinheiro pra nós, não, nós vamos dar mudas de árvores para você replantar, reflorestar aí (…)”. Ao contrário do Brasil, a França tem recuperado suas florestas desde o início da revolução industrial: em 1800 elas cobriam menos de 15% do território, hoje se aproximam dos 30%, mostrou o professor da UFMG.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo site Fakebook.eco [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos disponibiliza a lista completa dos 1001 agrotóxicos liberados nos dois anos do governo Bolsonaro

Agenda tóxica do governo Bolsonaro continua favorecendo a aprovação de agrotóxicos proibidos e altamente perigosos para a saúde humana e o ambiente. Empresas chinesas estão entre as principais fornecedoras

agrotoxicos

Com a publicação atrasada do Ato No. 70 de 23 de Dezembro de 2020, o governo Bolsonaro alcançou um novo patamar na verdadeira avalanche de agrotóxicos iniciada desde os primeiros dias da atual administração. É que, ao contrário do que este blog havia divulgado anteriormente, o total de agrotóxicos liberados no biênio 2019-2020 alcançou os quase inacreditáveis 1001 produtos.

A novidade no Ato No. 70 veio por uma participação relativamente alta do Brasil que teve empresas sediadas no próprio país respondendo por 36% dos produtos, muito em parte por causa da liberação de 19 agrotóxicos da modalidade de controle biológico. Entretanto, a China se destacou novamente, com participação superior ao Brasil por causa do controle de empresas sediadas em outros países, como é o caso da Syngenta, que apesar de sediada na Suíça é de propriedade da estatal chinesa ChemChina (ver figura abaixo). 

país origem

O Ato No. 70 trouxe dois casos interessantes: o do “inédito” Tolfenpirade, inseticida do grupo químico Pirazol que, além de proibido em todos os países da União Europeia (EU), jamais foi obteve liberação para uso pela Comissão Europeia.  Outro caso de um agrotóxico proibido em todos os países da EU e que agora começará a ser comercializado no Brasil é o Trifloxissulfuron sódico, herbicida do grupo químico Sulfoniluréias. 

Aliás, o Ato No. 70 traz um total de  18 agrotóxicos químicos proibidos (total ou parcialmente) pela EU, o que apenas confirma a tendência de que o Brasil foi transformado em uma espécie de zona de sacrifício para onde são enviados produtos que não podem mais ser utilizados nos países que originalmente os desenvolveram. 

Quem desejar acessar o arquivo contendo a base de dados contendo apenas os 56 agrotóxicos liberados por meio do Ato No. 70, basta clicar [Aqui!]. Já quem desejar acessar a base de dados completa para o biênio 2019-2020, basta clicar [Aqui!] .