Jair Bolsonaro e sua estranha pirosoberania

bolso piroJair Bolsonaro inova e cria a “pirosoberania”. O problema será convencer os parceiros comerciais a aceitarem tanta inovação.

O presidente Jair Bolsonaro usou hoje sua página oficial na rede social Twitter para rebater uma manifestação do seu congênere francês Emmanuel Macron que está querendo uma reunião do G-7 nas próximas 48 horas para discutir medidas para combater os devastadores incêndios que estão ocorrendo na Amazônia brasileira.

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Segundo Jair Bolsonaro, o presidente francês estaria possuindo de uma mentalidade “colonialista” ao querer discutir medidas para impedir que o holocausto amazônico continue (ver imagem abaixo).

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Jair Bolsonaro foi seguido nesse discurso pseudamente pró-soberania por vários de seus ministros, incluindo o negacionista das mudanças climáticas, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Segundo Araújo, o Brasil está sofrendo “uma campanha embalada por falsidades ambientais” por ter supostamente acordado do sono de algumas décadas.

As falas combinadas do presidente Jair Bolsonaro e do ministro Ernesto Araújo representam para mim uma inovação na argumentação em prol de devastar impunemente a Amazônia para ali implantar o reinado de uma modalidade da “economia de fronteira” apoiado em um conceito curioso que parecer ser o da “pirosoberania” (liberdade para tocar fogo). 

O problema é que a aplicação desta pirosoberania já está colocando em xeque a capacidade do agronegócio brasileiro continuar acessando mercados importantes como o da União Europeia.  E aí caímos em uma situação curiosa, pois em tese a liberdade geral, ampla e irrestrita  que Bolsonaro e Araújo parecem querer ter em transformar as florestas amazônicas em cinzas com o apoio da pirosoberania esbarra na óbvia dificuldade de que importantes parceiros comerciais do Brasil não vai aceitar isso calados. 

Um complicador que existe para o governo Bolsonaro é que a inclinação de existir um alinhamento total ao presidente Donald Trump esbarra no fato de que Brasil e EUA competem pela hegemonizar determinados mercados com as mesmas commodities. Este fato limita objetivamente a aplicação da pirosoberania. 

A verdade é que Jair Bolsonaro e Ernesto Araújo podem até espernear contra as manifestações de Emmanuel Macron contra a devastação da Amazônia, mas não tem como ignorar que os franceses têm nas mãos a possibilidade, por exemplo, de impedir a ratificação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia. E isto efetivamente ocorrer,  é bem provável que os barões do agronegócio brasileiro comecem a repensar a sustentação que dão a Jair Bolsonaro no congresso nacional, apenas para começo de conversa.

Estou cada vez mais curioso para saber quando o ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, vai iniciar o prometido tour por capitais europeus para tentar mostrar que a coisa não está tão feia no Brasil. É que se ele demorar muito a ir, vai correr o risco de ser convidado a não fazer isso até que alguma medida comece a ser tomada para apagar os milhares de pontos de incêndio que está acesos na Amazônia brasileira. O presidente da Bolivia, Evo Morales, já deu mostras de ser mais atento aos humores dos seus parceiros comerciais europeus, pois contratou um avião supertanque para apagar os focos de incêndio que estão consumindo cerca de 500 mil hectares do lado boliviano da Amazônia.

Finalmente, há que se ver até onde Jair Bolsonaro irá levar a aplicação da sua pirosoberania. Se demorar a mudar de posição, é bem provável que se confirmem os piores medos de líderes do latifúndio agro-exportador como Blairo Maggi que já disse que agronegócio brasileiro será levado à estaca zero por causa do discurso anti-ambiental do governo Bolsonaro.