A expansão silenciosa dos ramais revela como a infraestrutura precária, impulsionada por políticas públicas ambíguas e ocupações informais, reconfigura o território amazônico ao mesmo tempo em que aprofunda o desmatamento e fragiliza áreas protegidas
Na Amazônia, onde rios sempre foram caminhos e fronteiras, a abertura de estradas representa mais do que infraestrutura: é a materialização de um projeto histórico de ocupação. Desde a expansão promovida durante o regime militar brasileiro, entre 1964 e 1985, a malha viária na região tem avançado como instrumento de integração territorial, mas também como vetor de profundas transformações sociais e ambientais. No Acre, esse processo ganha contornos particularmente reveladores ao expor a tensão permanente entre políticas públicas, dinâmicas econômicas e a fragilidade dos mecanismos de controle territorial.
O mais recente mapeamento da rede de estradas e ramais no estado mostra que, entre 1989 e 2025, foram identificados mais de 24 mil quilômetros de vias. Trata-se de um crescimento contínuo, com acelerações em momentos específicos — como em 2006, 2019, 2020 e 2025 — que coincidem com ciclos de expansão da fronteira agrícola e aumento do desmatamento. Esses números não apenas dimensionam a extensão física da rede, mas revelam a persistência de um modelo de ocupação que se apoia na abertura de caminhos precários, muitas vezes fora de qualquer planejamento institucional.
A distinção entre estradas oficiais e ramais é central para compreender essa dinâmica. Enquanto as primeiras são registradas e, ao menos formalmente, monitoradas por órgãos públicos, os ramais — vias de terra batida, frequentemente abertas sem autorização — constituem uma malha capilar que escapa à regulação. São essas estradas invisíveis nos mapas oficiais que frequentemente sustentam o avanço de atividades ilegais ou informais, conectando áreas remotas a circuitos econômicos mais amplos.
Os dados indicam que 35% da extensão dessas vias se concentram em projetos de assentamento, o que não surpreende diante da necessidade de garantir acesso à produção agrícola familiar. No entanto, essa concentração também levanta questões sobre o papel do próprio Estado: ao mesmo tempo em que promove a ocupação por meio da reforma agrária, cria as condições para a fragmentação florestal e a intensificação de pressões ambientais. Em seguida aparecem propriedades privadas e terras públicas, reforçando a ideia de que a expansão viária não é apenas um fenômeno marginal, mas parte integrante das formas contemporâneas de apropriação do território.
Particularmente preocupante é a presença crescente de estradas em unidades de conservação, que já concentram cerca de 12% da malha identificada. A partir de 2018, observa-se uma intensificação desse processo, com mais da metade das novas aberturas ocorrendo nos anos recentes. Em áreas como as reservas extrativistas Chico Mendes e Cazumbá-Iracema, a abertura de ramais sinaliza a emergência de novas frentes de ocupação, frequentemente associadas ao desmatamento. Aqui, a contradição se explicita: territórios criados para proteger a floresta tornam-se, gradualmente, permeáveis a dinâmicas que a degradam.
Nos municípios, o avanço também segue padrões definidos. Rio Branco, Sena Madureira e Feijó concentram boa parte da expansão recente, com centenas de quilômetros de novos ramais abertos apenas em 2025. Esses movimentos indicam não apenas crescimento local, mas a reorganização de fluxos econômicos e populacionais que reposicionam o estado dentro da lógica da fronteira amazônica. Em Sena Madureira, por exemplo, a abertura de um ramal de mais de 20 quilômetros dentro de uma unidade de conservação evidencia a fragilidade dos mecanismos de fiscalização.
Se nas terras indígenas a presença de estradas ainda é relativamente baixa, o que se observa é um cerco progressivo em seu entorno. Essa pressão indireta tende a produzir impactos duradouros, seja pela intensificação de conflitos, seja pela introdução de novas dinâmicas econômicas que afetam modos de vida tradicionais. A baixa incidência interna, portanto, não deve ser interpretada como ausência de ameaça, mas como um estágio de um processo mais amplo de pressão territorial.
Por fim, as conexões regionais ampliam a escala do problema. A identificação de dezenas de pontos de ligação com estados vizinhos e países como Bolívia e Peru revela que os ramais não são estruturas isoladas, mas parte de uma rede transfronteiriça que pode facilitar tanto a circulação de mercadorias quanto a expansão de atividades ilegais. Nesse contexto, a estrada deixa de ser apenas um traço no mapa e se torna um dispositivo estratégico na reconfiguração da Amazônia contemporânea.
O que emerge desse panorama é menos uma narrativa de desenvolvimento e mais um retrato das ambiguidades do Estado e de seus instrumentos de intervenção. As estradas que prometem integração também abrem caminho para a degradação; os assentamentos que visam justiça social podem operar como vetores de pressão ambiental; e a ausência de regulação efetiva transforma a infraestrutura em um território de disputas. No Acre, como em grande parte da Amazônia, o avanço da malha viária não apenas acompanha a fronteira — ele a produz, redefine e, sobretudo, a expõe em suas contradições mais profundas.
Quem desejar baixar o arquivo contendo o relatório ” Expansão de estradas e ramais no Estado Acre -1989 a 2025″, basta clicar [Aqui!].
Pesquisadores analisaram sedimentos de lagos e áreas alagadas localizadas em dois parques nacionais brasileiros
Parque Nacional da Serra dos Órgãos, uma das áreas incluídas no estudo da UFRJ
Por Leonardo Fernandes para o “Brasil de Fato”
Nem os lugares mais protegidos estão livres dos impactos do uso extensivo de agrotóxicosno Brasil, que é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Um estudo que contou com a participação de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) identificou a presença de agrotóxicos em amostras de sedimentos de seis lagos e áreas alagadas de montanhas intocadas em dois parques nacionais brasileiros: o Parque Nacional do Itatiaia e o Parque Nacional da Serra dos Órgãos, ambos localizados no Rio de Janeiro.
Essas áreas estão sob responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).
Nas amostras, foram encontrados 17 tipos de venenos, incluindo herbicidas, inseticidas, fungicidas e acaricidas. Os produtos mais frequentemente detectados foram carbendazim e carbaryl, seguidos por acetochlor, clorpirifós, diuron, metolachlor e tebuconazole. O clorpirifósfoi o que apresentou as maiores concentrações e risco ecológico potencial. Esse inseticida, amplamente utilizado em lavouras, é apontado como altamente tóxico e relacionado a abortos espontâneos e problemas neurológicos em fetos e crianças.
Mas se esses lagos estão localizados em terrenos de altitude elevada, dentro de áreas protegidas e intocadas, onde não há aplicação direta de agrotóxicos, como esses produtos químicos foram parar lá? Cláudio Parente, um dos pesquisadores envolvidos explica.
“O que é mais interessante, e por isso é importante a gente levar para uma ampla discussão, é a capacidade dessas substâncias de percorrerem longas distâncias através de três formas: sendo volatilizadas, então em forma de gás, ou associadas a partículas, que podem ser sólidas ou aerossóis, que são pequenas gotículas. Então a gente tem essas três formas. E o que chama a atenção é isso: de que a gente está numa área de conservação e que está bastante distante de onde se espera que sejam aplicados esses produtos”, afirma o pesquisador.
“O que a gente mostra nesse trabalho é que os agrotóxicos não respeitam fronteiras. Então a gente tem uma fronteira de dois parques nacionais, que são áreas de controle do ICMBio, ou seja, de interesse público, mas os agrotóxicos não respeitam essas fronteiras”, completa.
“Esse estudo chama a atenção para o aspecto da poluição ambiental e que, como mostra a pesquisa, não está restrita às áreas diretamente afetadas pelos agrotóxicos, o que também nos leva a crer que a saúde humana e as pessoas estão expostas a esses agrotóxicos em áreas muito distantes de onde o veneno é utilizado”, afirma Tygel. “Às vezes, quem está na cidade, quem está em lugares protegidos, pensa que o problema não está diretamente relacionado consigo, e esse estudo traz essa dimensão universal do uso desses elementos químicos”, completa.
Além do fator distância, Tygel explica que uma das preocupações sobre o uso dessas substâncias é justamente a persistência da contaminação no tempo. “Os agrotóxicos englobam uma gama muito ampla de produtos químicos e cada um, cada grupo químico, vai ter suas próprias dinâmicas. Então, de fato, a gente tem alguns agrotóxicos que não são persistentes, que eventualmente não vão causar dano a longo prazo, mas a gente tem várias substâncias que são persistentes e que, inclusive, se diluem facilmente na água e permanecem na água”, alerta.
“Esse tema da contaminação da água é um tema fundamental porque é por onde chega em todo mundo. Ainda que você consiga, por exemplo, ter acesso a alimentos agroecológicos, não estando tão exposto aos agrotóxicos pela via da alimentação, pela via do consumo da água, realmente todo mundo vai estar exposto a essa contaminação”, disse o ativista, que completa afirmando que segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 25% dos municípios brasileiros têm detecção de agrotóxicos, em muitos casos acima dos níveis encontrados nos alimentos.
A pesquisa destaca a grande preocupação em relação ao comportamento dos agrotóxicos, sobretudo por sua “persistência ambiental e tendência de se espalhar além das áreas de aplicação ao longo do tempo”; e afirma objetivar “lançar luz sobre os desafios para a conservação da biodiversidade devido ao transporte de pesticidas ar longa distância para campos de altitude protegidos”.
Parque Nacional do Itatiaia, no Rio de Janeiro. Adriana Mattoso/ICMBio
De acordo com o relatório divulgado, “estudos em regiões montanhosas sugerem que temperaturas mais frias aumentam a precipitação, promovendo a deposição de agrotóxicos em altas altitudes”, ou seja, as substâncias são levadas às áreas mais altas por via aérea e depositados no solo e nas águas a partir das chuvas. “Áreas montanhosas podem servir como zonas de convergência para a dinâmica de agrotóxicos voláteis e semivoláteis”, destaca o estudo, apontando ainda que as montanhas representam mais de 30% da superfície da Terra e abrigam aproximadamente 23% das florestas do mundo.
Sobre o agrotóxico clorpirifós, principal substância identificada no estudo, os pesquisadores afirmam que ele “tem potencial para ser transportado por distâncias de 200 a 400 km através da atmosfera antes que ocorra deposição ou transformação”. Já sobre o acetochlor, o estudo indica que ele apresentou alto risco para a biota aquática e que estudos anteriores indicam que esse agrotóxico é altamente tóxico para peixes, “sendo associado a deformidades, disrupções hormonais, malformações neurológicas e mortalidade”. “Além disso, o acetochlor tem potencial para perturbar interações ecológicas e redes tróficas em ecossistemas de água doce”, diz o texto.
O relatório destaca ainda que que a toxicidade dos pesticidas “pode ser subestimada ao analisar compostos individuais”, sem considerar os efeitos da mistura dessas substâncias.
“Os valores de alto risco quociente observados para clorpirifós, acetochlor e outros compostos demonstram as potenciais ameaças ecológicas que essas substâncias representam aos ecossistemas sensíveis de água doce. As descobertas ressaltam a necessidade de ação urgente para mitigar o impacto da contaminação por pesticidas, particularmente em regiões de alta biodiversidade. Medidas regulatórias aprimoradas, juntamente com práticas agrícolas sustentáveis, são cruciais para proteger esses ecossistemas inestimáveis de maior degradação”, afirmam os pesquisadores na conclusão do estudo.
E o que fazer?
Segundo os pesquisadores envolvidos, esse monitoramento vem sendo realizado há mais de 15 anos, evidenciando a persistência do problema e até o seu agravamento. Para Parente, não há outra alternativa, senão a transição de para um modelo de produção agroalimentar sustentável.
“Não há como evitar que moléculas, ou seja, substâncias químicas, viagem pela massa de ar e cheguem até uma área de conservação. A única coisa que a gente pode fazer, de fato, é uma transição no nosso modo de produção”, diz o pesquisador.
Alan Tygel vai na mesma direção. “Não existe uma convivência possível, não existe um uso seguro possível, não existe usar um pouquinho, usar só quando precisa. Nada disso resolve o problema central que é o modelo de produção, que é essa forma em que o capitalismo se apropria da produção agrícola, dos espaços rurais e ao mesmo tempo, vai expulsando as comunidades, envenenando os locais e tornando o campo um lugar inóspito de se viver e contaminado por tudo que é lado”, avalia o ativista.
No entanto, Tygel destaca que pouco se tem avançado nessa pauta no último período. “Estamos numa situação muito difícil, porque por um lado, a gente vem tentando trazer todas as evidências, mostrar estudos, mostrar possibilidades, criar alternativas. Mas por outro lado, o que a gente vê a partir do governo federal é uma dificuldade muito grande de se encaminhar questões mínimas dentro dessa pauta”, disse Tygel, lembrando que ainda não foi publicado o decreto para a atualização do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), prometido pelo governo.
“Nós tivemos no ano passado, se não perdi a conta, seis adiamentos do lançamento do Pronara. E aí tivemos no final do ano, no dia 3 de dezembro, um lançamento que não lançou. Foi feito um seminário, foi feito tudo, mas o decreto mesmo não foi assinado. Nesse momento, o decreto está pronto. Havia uma expectativa de um lançamento agora em março, e também já não foi cumprido”, critica o ativista.
ICMBio critica Lei dos Agrotóxicos e defende restrições
Em resposta aos questionamentos do Brasil de Fato, o ICMBio afirmou que “os estudos da UFRJ sobre poluição foram autorizados e vêm sendo apoiados pelo Parque Nacional da Serra dos Órgãos há mais de 15 anos”. “Além de garantir a proteção física destes espaços e sua biodiversidade é fundamental entender os efeitos que as atividades usos industriais na região têm sobre o parque”, disse o instituto.
“O estudo reforça que a conservação ambiental precisa ir além da fronteira das áreas protegidas. Incentivamos práticas agrícolas sustentáveis no entorno do parque, mas se não houver controle de agrotóxicos e outros poluentes mesmo as paisagens mais intocadas serão contaminadas e ficarão comprometidas”, afirmou, em nota.
Segundo o Instituto Chico Mendes, as medidas necessárias para a garantia da proteção desses parques contra os efeitos do uso de agrotóxicos “não estão relacionados diretamente à gestão dos parques e envolvem a restrição ao uso de agrotóxicos e regulação das atividades industriais de forma a reduzir a liberação destes poluentes para a atmosfera”. “Infelizmente temos visto retrocessos legais, como aNova Lei dos Agrotóxicos, que facilitou a liberação de produtos tóxicos como os encontrados no estudo”, disse o órgão.
A Lei nº 14785, mencionada pelo ICMBio, foi aprovada pelo Congresso Nacional em novembro de 2023 e sancionada um mês depois pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O novo texto flexibilizou normas para o registro de novos agrotóxicos no Brasil, e retirou das autoridades ambientais e sanitárias o poder de veto sobre essas autorizações, que ficam concentradas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Dessa forma, as classificações realizadas pela Anvisa e pelo Ibama passaram a servir apenas para o estabelecimento de protocolos de uso desses produtos.
Em 2024, o Brasil bateu o recorde de liberação de agrotóxicos, segundo informações do próprio Mapa. Foram 663 produtos aprovados, um aumento de 19% em relação a 2023. Desses, apenas 106 produtos de origem biológica, os chamados “bioinsumos”.
O instituto disse que ainda que compete às unidades federativas, nos termos dos artigos 23 e 24 da Constituição Federal, “legislar supletivamente sobre o uso, a produção, o consumo, o comércio e o armazenamento dos agrotóxicos e dos produtos de controle ambiental, de seus componentes e afins, bem como fiscalizar o uso, o consumo, o comércio, o armazenamento e o transporte interno desses”.
Em suma, disse o órgão, “em um primeiro plano, cabe aos estados e ao Distrito Federal normatizar supletivamente e fiscalizar quanto ao uso desses produtos em suas respectivas jurisdições, podendo, com maior propriedade, averiguar in loco se a utilização desses agentes está sendo realizada em fiel cumprimento às condições aprovadas pelas autoridades estatais competentes, devendo a União prestar o apoio necessário”, finaliza.
O MMA não respondeu os questionamentos enviados pela reportagem.
Novembro teve alta de 41% nas áreas desmatadas e 84% nas degradadas
Sobrevoo no sul do Amazonas e no norte de Rondônia para monitorar o desmatamento e queimadas em 2024. Imagem: Marizilda Cruppe / Greenpeace
Por Imazon
A Amazônia teve em novembro o sexto mês consecutivo de aumento tanto no desmatamento, que é a remoção completa da vegetação, quanto na degradação florestal, que é o dano causado pelo fogo ou pela extração madeireira. Segundo o monitoramento por imagens de satélite Imazon, as áreas desmatadas passaram de 116 km² em novembro de 2023 para 164 km² no mesmo mês neste ano, uma alta de 41%. Já a as florestas degradadas passaram de 1.566 km² para 2.882 km², 84% a mais.
Com isso, o desmatamento acumulado de janeiro a novembro de 2024 chegou aos 3.654 km², apenas 7% a menos do que no mesmo período do ano passado. Além disso, foi a 7ª maior área desde 2008, quando o Imazon implementou seu sistema de monitoramento.
Enquanto isso, por causa do aumento expressivo nas queimadas, a degradação acumulada de janeiro a novembro de 2024 chegou aos 35.751 km², área sete vezes maior do que a registrada no mesmo período do ano anterior e a pior desde 2009. Já em comparação com o desmatamento registrado no período, a degradação foi quase 10 vezes maior.
“Esses aumentos consectivos mostram a necessidade de ações de prevenção mais efetivas tanto em relação ao desmatamento quanto à degradação. E principalmente a partir de maio, quando as chuvas na Amazônia deverão reduzir”, alerta o pesquisador do Imazon Carlos Souza Jr.
Pará lidera desmatamento e degradação
Sede da próxima Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP 30, o Pará liderou tanto o raking de desmatamento quanto o de degradação em novembro. O estado desmatou 95 km² de florestas (58% do detectado na Amazônia) e degradou 1.118 km² (39% do registrado na região).
Dos 10 municípios com as maiores áreas desmatadas em novembro, nove ficam no Pará: Uruará, Medicilândia, Pacajá, Portel, Prainha, Amajari, Placas, Nova Canaã do Norte, Porto de Moz e Monte Alegre. Além disso, o estado também tem nove assentamentos entre os 10 mais destruídos: Nova União, Surubim, Ouro Branco, Paraíso do Norte, Serra Azul, Paraíso, Ademir Fredericce, Renascer II e São Sebastião do Tutuí.
Estado
Desmatamento em novembro 2023 (km²)
Desmatamento em novembro 2024 (km²)
Variação
Pará
37
95
157%
Mato Grosso
18
23
28%
Roraima
19
21
11%
Amazonas
14
8
-43%
Maranhão
9
7
-22%
Acre
10
6
-40%
Rondônia
7
2
-71%
Amapá
–
1
–
Tocantins
2
1
-50%
Amazônia
116
164
41%
Mato Grosso fica em segundo
Em segundo lugar nos rankings de desmatamento e de degradação em novembro está Mato Grosso. O estado desmatou 23 km² de florestas (14% do detectado na Amazônia) e degradou 737 km² (26% do registrado na região). Em solo matogrossense, o destaque negativo foi para o município de Nova Canaã do Norte, o único fora do Pará no ranking dos 10 com as maiores áreas desmatadas.
Estado
Degradação em novembro 2023 (km²)
Degradação em novembro 2024 (km²)
Variação
Pará
1.093
1.118
2%
Mato Grosso
94
737
684%
Rondônia
67
545
713%
Maranhão
188
272
45%
Amazonas
121
152
26%
Amapá
1
30
2.900%
Tocantins
–
25
–
Roraima
–
2
–
Acre
2
1
-50%
Amazônia
1.566
2.882
84%
Rondônia tem quatro UCs entre as 10 mais degradadas
Especificamente em relação à degradação dentro de unidades de conservação, o destaque negativo foi para Rondônia, que possui quatro dos 10 territórios mais degradados em novembro nessa categoria. Juntos, eles somaram 274 km² de florestas degradadas, o que equivale a quase mil campos de futebol por dia.
Unidade de Conservação
Estado
Degradação em novembro 2024 (km²)
Resex do Rio Cautário
RO
130
Parna Serra da Cutia
RO
114
Rebio do Gurupi
MA
42
Resex do Rio Pacaás Novos
RO
22
Resex Riozinho do Anfrísio
PA
20
Resex do Rio Cajari
AP
18
FES do Paru
PA
15
Resex Verde para Sempre
PA
9
Resex Barreiro das Antas
RO
8
APA Upaon-Açu/Miritiba/Alto Preguiças
MA
8
Terra Indígena Alto Rio Guamá foi a mais degradada
Já entre as terras indígenas, a mais degradada em novembro foi a Alto Rio Guamá, no Pará. Somente esse território teve 192 km² afetados pelo dano ambiental, o equivalente a 640 campos de futebol por dia.
Terra Indígena
Estado
Degradação em novembro 2024 (km²)
Alto Rio Guamá
PA
192
Menkragnoti
PA/MT
128
Pacaás-Novas
RO
111
Rio Guaporé
RO
101
Alto Turiaçu
MA
98
Aripuanã
RO/MT
89
Nambiquara
MT
31
Apinayé
TO
25
Araribóia
MA
24
Kayabi
PA/MT
23
Veja os dados de novembro aqui Acesse aqui todos os boletins do SAD Saiba como funciona o sistema aqui
Acaba de ser liberado o terceiro “Relatório Anual de Desmatamento” produzido pelo projeto Mapbiomas, abrangendo todos os biomas brasileiros, com três objetivos manifestos:
◆ Apresentar um panorama consolidado sobre os alertas de desmatamento detectados em todos os biomas brasileiros ao longo do ano de 2021 e que foram validados e refinados com imagens de alta resolução pelo projeto MapBiomas Alerta
◆ Apresentar uma avaliação do grau de regularidade do desmatamento e uma estimativa do total de desmatamento com evidências de ilegalidade.
◆ Apresentar um panorama das ações realizadas pelos órgãos de controle ambiental e do setor privado para controlar e combater o desmatamento ilegal.
Os autores do RAD 2021 esclarecem que os dados de desmatamento processados e analisados neste relatório se limitam aos locais onde houve alertas de detecção de desmatamento pelos sistemas de monitoramento (ex. DETER/INPE, SAD/Imazon, GLAD/UMD, SAD Caatinga/Geodatin e SIRAD-X/ISA). E que, portanto, apesar dos números apresentados serem expressivos, os mesmos ainda subestimam, em algum grau, o desmatamento real, já que existem áreas desmatadas que não foram detectadas por esses sistemas.
Amazônia e Cerrado como foco do desmatamento no Brasil
Os dados do RAD 2021 mostram que cerca de 90% do desmatamento ocorrido estão situados nos biomas da Amazônia e do Cerrado, sendo que os 3 estados com maior nível de desmatamento (i.e., Amazonas, Mato Grosso e Pará) estão localizados dentro da Amazônia Legal. No entanto, há ainda um avanço considerável também na Caatinga, que está paulatinamente sendo desmatada (ver figura abaixo).
Os números em relação aos municípios onde o desmatamento está concentrado também indicam que dos 50 municípios mais desmatados, a imensa maioria está localizado nos estados amazônicos, o que explica que apenas 10 municípios pertencentes à região Norte concentrem 23% de todo o desmatamento realizado em 2021.
Além disso, o RAD 2021 aponta que houve um avanço significativo sobre unidades de conservação e terras indígenas (que são categorias de terras públicas), o que reforça o aspecto criminoso da destruição completa das florestas que estas áreas protegidas abrigam (ver figuras abaixo para visualizar a situação das unidades de conservação e terras indígenas).
Outro detalhe importante se refere ao papel central que a pecuária vem desempenhando na destruição das florestas brasileiras, na medida que 97% dos desmatamentos ocorridos em 2021 estão relacionados ao aumento da criação do gado bovino, reforçando a tese de que estamos trocando a rica biodiversidade existente nas florestas brasileiras pelo direito de comer hambúrger em alguma rede de fast food que termina amealhando fortunas em troca de uma pseudo comida turbinada com desmatamento.
De toda forma, os números gerais do RAD 2021 são dramáticos e, uma vez mais, expõe a situação catastrófica criada pelo governo de Jair Bolsonaro que agiu para desmantelar todo o frágil sistema de comando e controle que conseguia conter o avanço descontrolado do desmatamento no Brasil. Com isso, temos a perda de áreas significativas de florestas, sem que haja qualquer vislumbre de que se esteja buscando formas sustentáveis de ocupar a Amazônia e o Cerrado, ao contrário do que declaram as entidades ligadas ao latifúndio agro-exportador.
Quem desejar baixar o arquivo contendo o sumário dos dados do RAD 2021, basta clicar [Aqui!] .
Informações obtidas no portal do Ministério do Meio Ambiente foram analisadas e tratadas por pesquisadores do Centro de Estudos da Metrópole (foto: Patrícia do Prado Oliveira/USP Imagens)
Agência FAPESP – O Centro de Estudos da Metrópole (CEM) disponibilizou o acesso gratuito a seu acervo cartográfico georreferenciado das Unidades de Conservação (UCs) de todo o Brasil.
Estruturado pela Equipe de Transferência e Difusão do CEM – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP sediado na Universidade de São Paulo (USP) e no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) –, o banco de dados traz o mapeamento das UCs, classificadas em 11 categorias estabelecidas pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), com mapas em escala compatível com o arquivo de municípios (1:250.000).
As UCs formam o chamado Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), criado pela lei 9.985/2000. Os dados que o CEM oferece integram todo o conjunto de unidades de conservação, ou seja, as federais, estaduais e municipais.
A mais numerosa entre as 11 categorias das UCs é a Reserva Particular do Patrimônio Natural, uma área privada criada por iniciativa do proprietário, onde é permitida a pesquisa científica e a visitação turística, recreativa e educacional. Em termos de extensão predominam no Brasil as Áreas de Proteção Ambiental, constituídas por terras públicas e privadas, com atributos naturais, estéticos e culturais importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas.
Os dados primários para a elaboração do repositório foram obtidos pelos pesquisadores do CEM junto ao portal do MMA e passaram por análise e tratamento, antes de serem disponibilizados pelo CEPID.
“Trabalhamos no sentido de colocar à disposição um acervo integrado e padronizado do ponto de vista da representação cartográfica e topologicamente consistente, ou seja, sem sobreposições e vazios”, explica Daniel Waldvogel Thomé da Silva, pesquisador do CEM. A sobreposição ou recobrimento de áreas ocorre quando polígonos se interceptam ou se superpõem.
No trabalho com os dados, a Equipe de Transferência do CEM notou algumas ocorrências do tipo. Um exemplo está no Parque Nacional da Neblina, nos limites Brasil/Venezuela (Estado do Amazonas), uma UC em que mais de 60% de sua área é coberta pelas terras indígenas Yanomami, Balaio e Médio Rio Negro II, “o que resulta em evidente conflito em termos de uso”, notam os pesquisadores do CEM no documento técnico em PDF que acompanha os arquivos da base de dados.
“As terras indígenas também são consideradas como parte do acervo ambiental do Brasil, apesar das grandes diferenças conceituais e legais que as separam do sistema SNUC”, ponderam no documento.
Para resolver as sobreposições, a Equipe de Transferência do CEM adotou diversos critérios técnico-científicos, que são detalhados no documento.
Para consultar a base de dados basta ir na página “Download de Dados”, selecionar a base “Meio Ambiente”, no menu à esquerda, e procurar por “Unidades de Conservação Ambiental do Brasil”.
Manaus, 02 de dezembro de 2021 – Nos últimos meses, sobrevoos realizados pelo Greenpeace Brasil em regiões diferentes da Amazônia identificaram o avanço do garimpo ilegal em Unidades de Conservação (UC) e Terra Indígenas (TI). Na última terça-feira (23), o Greenpeace flagrou centenas de balsas de garimpo ilegal alocadas no rio Madeira, em Autazes, no Amazonas. Já nesta quarta-feira (01), um monitoramento inédito revela que, desde 2016, o garimpo ilegal já destruiu pelo menos 632 quilômetros de rios dentro da Terra Indígena Munduruku, no Pará.
Veja aqui as imagens capturadas no sobrevoo à TI Munduruku
Os rios destruídos foram o Marupá, das Tropas, Cabitutu, o igarapé Mutum, o rio Marupá e o igarapé Joari (conhecido localmente como Joarizal). Em cinco anos, houve um aumento de 2.278% na extensão de rios destruídos dentro da TI Munduruku. Para se ter uma dimensão, a destruição desses rios e igarapés é equivalente – em relação à extensão dos rios impactados diretamente -, àquela que a Vale infringiu ao Rio Doce no rompimento da barragem no distrito de Bento Rodrigues, zona rural de Mariana (MG).
Segundo o porta-voz da campanha de Amazônia do Greenpeace Brasil, Rômulo Batista, dos 11.111 hectares abertos na Amazônia para mineração entre janeiro e setembro de 2021, 73% incidiram dentro de áreas protegidas ou seja Terras Indígenas e Unidades de Conservação, segundo o programa DETER-B do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
“Infelizmente o que estamos vendo nos últimos anos é uma verdadeira explosão do garimpo na Amazônia. Obviamente, um problema desse tamanho tem muitas causas como a crise econômica e a falta de oportunidade, mas sem dúvida nenhuma, o apoio dos diferentes níveis de governo em especial – na figura do presidente da República que é um contumaz apoiador do garimpo -, e daqueles que destroem a amazônia, tem sido o acelerador para que a situação chegasse nesse ponto que estamos agora. A fiscalização e controle devem ser ampliados e serviços de inteligência devem ser usados para desmantelar quadrilhas e prender os barões dos garimpos que são os responsáveis por financiar tal atividade”, explicou Batista.
O assessor jurídico da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Tito Menezes, do povo Sateré-Mawé, afirma que os governos municipais, estaduais e federal precisam dar suporte efetivo às organizações indígenas na luta contra o garimpo ilegal.
“É preciso denunciar qualquer tipo de ameaça aos territórios indígenas, mas principalmente o garimpo ilegal, que traz junto outras atividades criminosas e muita perversidade”, declara Tito.
Outro dado importante verificado neste levantamento é o quanto o discurso do governo Bolsonaro e o desmonte da legislação socioambiental influenciou na expansão da atividade garimpeira. Entre 2018 e 2019, a quantidade de quilômetros de rios destruídos no território Munduruku explodiu, saindo de 88,5 para 178 – um aumento de 101,12%.
Criminosos estão desmatando santuários da floresta tropical para a construção ilegal de prédios de apartamentos
Não só no Rio: um terreno desmatado na região amazônica próximo a Porto Velho, no estado de Rondônia (17.9.2019)
Por Norbert Suchanek para o JungeWelt
Oficialmente,a onça ‘parda, que tem até 2,3 metros de altura e 70 quilos, é considerado extinto na Grande Rio de Janeiro desde a década de 1930. Mas, surpreendentemente, no ano passado, uma câmera de vigilância filmou o felino em um parque paisagístico na zona oeste da cidade brasileira. Um grupo de pesquisadores da Universidade do Rio de Janeiro (UERJ) deu início a sua trilha. Eles percorreram as reservas naturais e florestais da área urbana e montaram várias armadilhas fotográficas. O esforço valeu a pena. “Nossos dados confirmam que Puma concolor está repovoando a cidade”, relatou a equipe de pesquisa na revista científica Check List em setembro . No entanto, não se sabe ao certo quantos exemplares do felino, também conhecido como puma, vagam pelo Rio.
O que está claro: a volta da onça-parda ressalta a importância da preservação dos vestígios de Mata Atlântica na metrópole carioca e a necessidade de manutenção e ampliação dos corredores entre os fragmentos florestais maiores. Mas o oposto tem acontecido há anos. O oeste do município do Rio de Janeiro, em particular, é controlado por milícias criminosas fortemente armadas. As milícias estão aproveitando os preços dos imóveis que explodiram há cerca de dez anos e a resultante carência de moradias na metrópole carioca. Eles se rasgam sob as unhas de espaços públicos e muitas vezes cravam ilegalmente prédios inteiros de apartamentos sob o olhar da polícia e das autoridades ambientais, para depois venderem. As milícias, também recrutando de ex-policiais, estão abrindo caminho cada vez mais para a ocupação das reservas naturais. De acordo com os últimos dados da secretaria de meio ambiente da cidade do Rio de Janeiro, os criminosos desmataram cerca de 500 hectares de floresta para a construção de moradias ilegais entre 2017 e 2020. Quase metade delas está nos três bairros da zona oeste de Campo Grande, Santa Cruz e Guaratiba.
A prefeitura do Rio declarou guerra ao alvoroço e, segundo suas próprias declarações, demoliu mais de 300 prédios ilegais desde o início do ano – 34 deles em área de Mata Atlântica. No entanto, gravações da TV Globo em junho mostraram que prédios ilegais ainda estão sendo construídos em reservas naturais.
Em outubro, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro montou uma força-tarefa especial contra a grilagem de terras e transações imobiliárias ilegais pelo crime organizado na cidade. O decreto do Ministério Público destacou as ações das milícias no manguezal protegido de Guaratiba. Eles venderam ilegalmente terras na área, construíram estradas nos manguezais e ergueram prédios sem qualquer infraestrutura. O esgoto não tratado das casas danificou o rio Cabuçu-Piraquê e os manguezais. Além disso, o Ministério Público reclamou do desmatamento dentro da reserva de 4.398 hectares de mata atlântica do Mendanha, que faz parte da serra Gericinó-Mendanha e, como os manguezais de Guaratiba, é habitat da redescoberta onça-parda.
Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal JungeWelt [Aqui! ].
Às vésperas da COP 26, novo estudo do IPAM mostra grilagem como vetor de emissão de gases estufa e contaminação do setor pecuário com irregularidades na cadeia de produção de gado
Brasília, 27 de outubro de 2021 – As áreas de pasto ocupam 75% do que foi desmatado nas terras públicas não destinadas da Amazônia, boa parte resultante de grilagem, contaminando o setor com ilegalidade. As informações são de umestudo lançado hoje por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), que mostra o avanço do desmatamento nessas áreas na última década e seu peso para o agravamento das mudanças climáticas.
O texto aponta que, entre 1997 e 2020, um total de 21 milhões de hectares foram destruídos, ou 8% dos 276,5 milhões de hectares de florestas públicas existentes da Amazônia Legal. É uma área maior do que o Paraná. A emissão de gases estufa associada é de 10,2 giga toneladas de CO2, correspondendo a cinco anos de emissões brasileiras.
“A grilagem é um fator de risco para o equilíbrio climático do planeta, e ainda carrega para o setor da pecuária dois problemas: ilegalidade e mais emissões de gases do efeito estufa”, diz o pesquisador sênior do IPAM, Paulo Moutinho. “Uma economia verdadeiramente de baixo carbono no Brasil precisa passar por uma análise ampla sobre o impacto das cadeias produtivas no agravamento do efeito estufa. Deixar essas emissões de lado não faz sentido quando temos uma emergência climática em curso”, alerta.
A COP 26, a Conferência do Clima da ONU, começa na próxima semana em Glasgow, no Reino Unido, com a missão de acertar o livro de regras do Acordo de Paris, que estabelece esforços globais para controlar as emissões de gases do efeito estufa. Um dos pontos em aberto é o funcionamento de um mercado de carbono que tem o potencial de impulsionar projetos de conservação de florestas tropicais.
“Se o Brasil quiser se mostrar como destino de investimentos em projetos de REDD+ [Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal], por exemplo, precisa fazer a lição de casa. Isso significa necessariamente acabar com o desmatamento, começando por proteger as florestas públicas e combater a grilagem de forma definitiva”, afirma Moutinho.
“Terra de ninguém”
O problema é grave. A nova análise do IPAMmostra que 44% do desmatamento nos dois últimos anos (2019 e 2020) na Amazônia ocorreu em terras públicas.
Terras indígenas e unidades de conservação, ainda que sob intensa pressão, mostram os menores índices de desmatamento: somente 1% e 2% de suas áreas totais, respectivamente, foram convertidas para outros usos. Já a conversão da floresta em pasto é regra em terras devolutas e florestas não destinadas, muitas vezes seguida por um Cadastro Ambiental Rural (CAR) irregular, numa tentativa de emular posse da terra para venda ou para usufruto.
Atualmente, existem 16 milhões de hectares de florestas públicas não destinadas declarados como propriedade privada dentro do Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural, e 15,2 milhões de hectares nas outras terras não destinadas. O desmatamento nas áreas com CAR foi 59% maior no período 2016 a 2020 em relação ao período anterior, de 2011 a 2015.
“Depois do desmatamento, um quarto da área é abandonado e começa a apresentar indícios de regeneração. O restante vira pasto e continua até hoje”, explica a principal autora do estudo, a pesquisadora Caroline Salomão. “Nos últimos dez anos, percebemos que o pasto permaneceu nessas áreas públicas, ou seja, houve algum tipo de investimento.”
O boi criado nessas áreas pode ser vendido para outras fazendas e, mais cedo ou mais tarde, acaba invariavelmente em um frigorífico. Como as empresas não monitoram o cumprimento de regramentos sociais e ambientais de seus fornecedores indiretos, ele não é computado como carne de desmatamento ilegal.
Segundo Salomão, frigoríficos e varejistas – com o auxílio do Ministério Público e de governos federal, estaduais e municipais – poderiam investir em tecnologias para mapear todas as fazendas de fornecimento, dando escala a iniciativas inovadoras como “Boi na Linha”, GT Rastreabilidade do Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS), Grupo de Trabalho de Fornecedores Indiretos (GTFI), “Selo Verde”, entre outras.
Além disso, investimentos em capacitações sobre melhoria produtiva e regularização ambiental para fornecedores podem fazer uma grande diferença. “É claro que o combate à grilagem e a proteção das terras públicas é responsabilidade do governo. Mas o setor privado pode ser determinante para a mudança ao fechar as portas para ilegalidade”, defende a autora.
Queimada próxima ao rio Rio Branco na Reserva Extrativista Jaci-Paraná, em Porto Velho, Rondônia Foto: Christian Braga/Greenpeace
Organizações enviaram hoje, carta ao Governador Marcos Rocha, sobre a redução da Reserva Extrativista Jaci-Paraná e do Parque Estadual de Guajará-Mirim. A carta afirma que os cortes foram além do previsto, contrariando parecer técnico do próprio governo. Confira abaixo a carta, na íntegra. Organizações estão disponíveis para entrevista.
Porto Velho, 28 de julho de 2021
Senhor Marcos Rocha Governador do Estado de Rondônia Palácio Rio Madeira – Av. Farquar, 2986 -Bairro Pedrinhas CEP 76.801-470 – Porto Velho, RO
O projeto de lei complementar do Executivo número 080/2020 propunha a redução da Reserva Extrativista Jaci-Paraná e do Parque Estadual de Guajará-Mirim. Como compensação, oferecia a criação de outras seis unidades de conservação: Os Parques Estaduais Ilha das Flores e Abaitará; as Reservas de Desenvolvimento Sustentável Bom Jardim, Limoeiro e Machado; e a Reserva da Fauna Pau D’Óleo. O projeto cortava cerca de 150 mil hectares e protegia outros cerca de 120 mil hectares.
Na tramitação na Assembleia Legislativa, os cortes subiram para cerca de 220 mil hectares e foram estabelecidos na lei 1089/2021, que o senhor sancionou contrariando os pareceres técnicos do seu próprio governo.
A Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental (Sedam) informou o senhor em 18 de maio de 2021, por meio do Parecer nº 45/2021/SEDAM-CUC, que não havia estudos técnicos para diminuir as unidades de conservação; alertava para o comprometimento substancial dos atributos naturais que justificaram a criação das unidades de conservação; Frisava que as novas áreas propostas não apresentavam os mesmos atributos das unidades reduzidas; e salientava que não houve consulta pública para fazer as alterações. Na conclusão, opinava pelo veto ao projeto.
Da mesma maneira, a Procuradoria Geral do Estado, em 19 de maio de 2021, por meio do Parecer nº 35/2021/PGE-PAMB, registrava a violação de uma série de princípios, leis e acordos internacionais. E opinava igualmente pelo veto. Ainda assim, o senhor sancionou o projeto, o que motivou a abertura de Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI), por iniciativa do Ministério Público do Estado.
Agora, a Assembleia Legislativa novamente se insurge contra as unidades de conservação da natureza, por meio do PLC 104/2021, extinguindo o parque estadual Ilha das Flores e reduzindo em 6,5 mil hectares a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Limoeiro – duas das áreas criadas justamente para compensar as reduções em Jaci-Paraná e Guajará-Mirim. Ressalte-se que os mesmos argumentos usados pela Sedam e pela PGE para indicar o veto anteriormente valem para este caso. Novamente, não há consulta, não há estudos e há uma série de violações legais.
Mais uma vez, a Assembleia Legislativa coloca o estado de Rondônia na condição de pária perante um mundo que busca por mais florestas, que precisa de mais natureza, para garantir o próprio futuro da humanidade, como mostram as secas no sul do país e a diminuição de oferta de água na Amazônia. A decisão dá, ainda, mais argumentos para o levantamento de barreiras econômicas para o estado e para o país.
A decisão agora está em suas mãos. O futuro nos observa e cobrará seu preço. Tenha em conta que sua assinatura terá impacto não apenas entre nós, mas também para as futuras gerações. Por isso, reiteramos o entendimento de que o projeto deve ser vetado integralmente, para manter sem reduções a criação das duas unidades de conservação.
Assinam:
Ação Ecológica Guaporé – Ecoporé
Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé
CIMI – Conselho Indigenista Missionário
Greenpeace
WWF-Brasil
Procurador Daniel Dalberto
Íris Morais Araújo (Professora UFT)
Gicele Sucupira (Professora UNIR)
Júlia Otero dos Santos (Professora UFPA)
Rosa Maria Guarasugwe (Liderança indígena Povo Guarasugwe)
A imagem acima mostra área de desmatamento no distrito de Santo Antonio do Matupi, em Manicoré, Amazonas, próximo à Floresta Nacional do Aripuanã e da Área de Proteção Ambiental de Campos de Manicoré (Foto: Daniel Beltrá/Greenpeace/19/02/2017)
Por Elaíze Farias para o “Amazônia Real”
Manaus (AM) – Os municípios de Apuí e Novo Aripuanã e o distrito do Santo Antônio do Matupi, em Manicoré, concentram a maior parte da exploração primária da madeira no Amazonas. Na Operação Arquimedes, a Polícia Federal descobriu que as madeiras apreendidas vinham de áreas como Terras Indígenas (TIs) e Unidades de Conservação (UCs) federal e estadual, conforme demonstraram os laudos feitos na região sul do estado. Santo Antônio do Matupi é conhecido localmente como “180”, por estar situado no quilômetro com esse número na BR-230 (Transamazônica). A maioria da carga ilegal, segundo a Polícia Federal, seria exportada para o exterior. (leia mais na matéria Amazônia em Chamas: 90% da madeira exportada são ilegais, diz Polícia Federal)
“Existem focos de extração ilegal nas proximidades, por exemplo. No ‘180’, se você olhar ao redor, existem focos de extração ilegal que é justamente as madeiras que alimentam essa cadeia da fraude”, disse o delegado Caio César Cordeiro de Oliveira Silva, coordenador da Operação Arquimedes, realizada desde o final de 2017, quando mais de 400 contêineres de empresas com suspeita de irregularidade, foram apreendidos em Manaus.
Conforme o delegado, o modus operandi do desmatador é simples: ele deixa de atuar em uma área já sem madeira para atuar em outra que ainda mantém a vegetação nativa preservada.
“Por que ele faz isso? Porque a área dele, que foi licenciada, não tem mais madeira boa. Então, o plano de manejo, quando foi fantasiado ou fraudado, tem apenas um documento formal que, na verdade, não foi nem vistoriado, não tem madeira boa. O madeireiro, então, pega a madeira boa que dá em áreas públicas, em áreas de proteção, e vende como se fosse do local dele. Então, nas proximidades, dos planos de manejo ou da serraria tem focos ali específicos de extração dentro de terras indígenas”, explicou o delegado.
O delegado Caio César afirma que o madeireiro, nesta situação, acaba usando crédito com madeira de origem ilegal. Quando o madeireiro vende, junta as duas origens – o crédito da madeira de origem legal com a ilegal, que é comprada clandestinamente – e comercializa para terceiros.
“As fiscalizações são muito difíceis para detectar se aquela madeira veio realmente daquela área ou não. Então, genericamente falando, os madeireiros faziam isso: fraude no sistema. Eles movimentavam crédito virtual. O outro lado era financiar o pagamento de propina, quando o engenheiro [da madeireira] aproximava o empresário do servidor público”, explica o delegado.
Desmatamento no distrito de Santo Antonio de Matupi, próximo a Flona Aripuanã (Foto: Daniel Beltrá/Greenpeace/19/02/2017)
À Amazônia Real, o delegado da Operação Arquimedes defende que é preciso manter uma fiscalização permanente nos órgãos de investigação e nos órgãos ambientais para atestar a origem da madeira e a maneira como ela está sendo comercializada.
“Existe uma fragilidade na estrutura porque nem toda carga é fiscalizada. Se o madeireiro fala que está com 20 metros cúbicos de ipê dentro do contêiner, ou uma madeira mais barata, mas na verdade está saindo outra coisa, só tem uma maneira de detectar isso, que é a fiscalização física da carga.”
Mas como fazer esse tipo de fiscalização se os órgãos de controle, Receita Federal e Ibama, não têm como ter servidores dia e noite para esse tipo de ação? Sem fiscalizações suficientes, os madeireiros recorrem a todo tipo de fraude, explica o delegado.
“Infelizmente, não temos como estar sempre, mas é preciso fazer essas fiscalizações para intimidar e causar prejuízos econômicos para eles como uma forma de intimidá-los para se regularizarem”, diz Caio Cordeiro Oliveira Silva.
Combate aos crimes no sul
O superintendente da PF no Amazonas, delegado Alexandre Saraiva (Foto: DCS/DPF)
O distrito de Santo Antônio do Matupi, município de Manicoré, no sul do Amazonas, é uma das áreas de maior pressão de desmatamento da região amazônica. De um projeto de assentamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que acabou esvaziando de seu propósito inicial, Matupi se transformou em um dos maiores polos madeireiros do Estado. É nesta área que a Polícia Federal escolheu para instalar o Grupo de Investigações Ambientais Sensíveis do Amazonas (Giase), unidade especializada no enfrentamento aos crimes ambientais praticados por organizações criminosas.
“A PF já tem, há muito tempo, um grupo chamado Gise (Grupo de Investigações Sensíveis), para atacar crime organizado, facções criminosas, tráfico de drogas. Percebeu-se que a gente precisava de algo similar para combater as grandes organizações criminosas voltadas para o crime ambiental. Surgiu a ideia do Giase. Porque a coleta de prova tem que estar onde o crime está ocorrendo”, explicou o superintendente da PF, Alexandre Saraiva.
“Nem todos são a favor daquilo [crime ambiental]. O dinheiro da madeira ilegal não gera riqueza nem para os indígenas, os ribeirinhos, a população local e nem para o Estado. É sonegação. Além da questão ambiental, tem o roubo de uma propriedade pública, que é a madeira. Pertence ao Estado. É tão grave quanto roubar o Banco Central”, sentencia o superintendente.
Saraiva explica que um dos focos de atuação do Giase será a grilagem de terra que está vinculada ao desmatamento. “A grilagem é um vetor importantíssimo. A questão fundiária ainda está em processo de regularização. É um vazio do Estado que tem ser preenchido. A gente tem que começar”, disse ele.
O superintendente explicou que a ideia de criar o Giase no Amazonas foi sua, diante da gravidade do desmatamento e da grilagem de terra no sul do Amazonas. “A questão da segurança é muito grave. Temos postos nas fronteiras, no rio Solimões, e ali era um local que faltava preencher com a presença da PF. A vocação da PF é investigar e chegar nos responsáveis”, destacou Alexandre Saraiva.
É no sul do Amazonas onde o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registra as maiores taxas de queimadas no estado. De janeiro a setembro, o instituto registrou 10.042 focos de incêndios no Amazonas, uma aumento de 27% em relação ao mesmo período de 2018: 7.934 pontos. Os municípios com mais queimadas são Lábrea (2.171 focos), Apuí (2.054), Novo Aripuanã (994), Boca do Acre (843), Humaitá (553), Canutama (462), Maués (208) e Autazes (136). Leia a série Amazônia em Chamas.
Criação de gado em Apuí, próxima aos limites da Floresta Nacional de Urupadi, e da área que corre o risco de ser reduzida. A foto ilustra uma pressão no entorno. (Foto: Daniel Beltrá/Greenpeace) 19/02/2017