A Universidade do Terceiro Milênio: formação, ciência e desafios institucionais

Por Carlos Eduardo de Rezende

A Universidade Estadual do Norte Fluminense – Darcy Ribeiro (Uenf) foi concebida com uma missão estratégica: impulsionar o desenvolvimento regional e nacional por meio da formação de recursos humanos altamente qualificados e da produção de conhecimento científico de excelência. Desde sua fundação, a instituição se destaca por ter sido a primeira instituição a propor a contratação de doutores, com dedicação exclusiva e tempo integral na Uenf ampliando assim o compromisso com o despenho acadêmico e a participação na formação dos nossos discentes em nível de graduação e pós-graduação. Aliás, sempre é importante ressaltar que a instituição começou quase que simultaneamente os cursos de graduação e pós-graduação; junto com a Uerj implantamos as cotas, e com a instituições públicas de ensino participamos desde a concepção do Ensino à Distância.

A transparência acadêmica e administrativa é um pilar essencial para a credibilidade da universidade. A ampliação e publicidade dos critérios de avaliação em editais, a prestação de contas públicas e a clara documentação dos processos decisórios fortalecem a confiança da comunidade acadêmica e da sociedade. A adoção de mecanismos de deliberação, com ampla consulta, assegura a inclusão de diferentes perspectivas na formulação de políticas institucionais.

No contexto da Uenf, a definição de diretrizes orçamentárias para execução de projetos e aprimoramento da infraestrutura deve seguir um fluxo decisório estruturado, promovendo o debate em instâncias como laboratórios e coordenações (graduação, pós-graduação e extensão), seguido pela deliberação nas diretorias de centros e posterior encaminhamento à Reitoria. Essa sistemática garante uma gestão eficiente, evitando favorecimentos e promovendo a integridade institucional.

Os procedimentos institucionais de uma universidade são fundamentais para garantir a eficiência da gestão, a lisura na aplicação de recursos e a promoção da qualidade acadêmica, desempenhando um papel central na prevenção de desvios administrativos, reduzindo a possibilidade de irregularidades em processos como a alocação de verbas públicas e a distribuição de bolsas acadêmicas.

No campo da formação de recursos humanos, a Uenf desempenha um papel central na capacitação de profissionais aptos a enfrentar desafios complexos em diversas áreas do conhecimento. Os seus programas de graduação e pós-graduação são reconhecidos pelo compromisso com a inclusão social, permitindo que estudantes de diferentes perfis socioeconômicos tenham acesso a uma formação de qualidade. No entanto, é fundamental dedicar maior atenção aos laboratórios destinados às aulas práticas e teóricas, bem como a toda a infraestrutura de apoio, assegurando condições adequadas para o desempenho dos docentes.

A inovação didática não pode ser vista como uma responsabilidade exclusiva do professor, mas sim como um processo que exige o necessário suporte institucional, que não será suficiente com a concessão de bolsas. Para que novas metodologias de ensino sejam implementadas de maneira eficaz é imprescindível que a universidade ofereça equipamentos adequados, espaços bem estruturados e investimentos contínuos em tecnologia e capacitação docente. Dessa forma, será possível aprimorar a qualidade do ensino, promover uma aprendizagem mais dinâmica, e garantir que os discentes tenham uma formação sólida e alinhada às demandas contemporâneas.

A produção científica da Uenf reflete uma sólida articulação entre ensino, pesquisa básica e aplicada, com ênfase em áreas estratégicas para região como agroecologia, biotecnologia, ciências biomédicas, ambientais e sociais, políticas públicas e engenharias. Os projetos conduzidos nos nossos laboratórios não apenas impulsionam o avanço do conhecimento, mas também geram soluções para demandas sociais e econômicas. Para garantir a continuidade desse protagonismo acadêmico é essencial manter investimentos sustentados em infraestrutura, apoio a pesquisadores e colaborações acadêmicas nacionais e internacionais.

O futuro da Uenf depende de sua capacidade de conjugar transparência institucional, gestão responsável, formação acadêmica sólida e produção científica comprometida com o interesse público. Esses elementos, articulados de maneira integrada, asseguram a qualidade acadêmica e reforçam o papel da universidade como agente transformador na construção de uma sociedade mais justa e sustentável.

Concluindo, a modernização dos recursos didáticos, aliada ao conforto de salas de aula bem equipadas para atividades teóricas e práticas, é essencial para alcançarmos um salto de qualidade no ensino.


Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da UENF e pesquisador 1A do CNPq

O centenário de Leonel Brizola passou em meio a um curioso silêncio no campus da Uenf

MVC-066FLeonel Brizola visitou o campus da Uenf em junho de 2001 para prestar solidariedade à luta da autonomia universitária da universidade que havia criado em 1993

Por Carlos Eduardo de Rezende*

O ano de 2022 carrega uma responsabilidade sobre a história de criação para a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, a Uenf, ou Universidade do Terceiro Milênio como seu idealizador, o professor Darcy Ribeiro, sempre a tratou. Exatamente neste ano, dois dos principais responsáveis pela criação da UENF completariam 100 anos. Em 22 de janeiro, Leonel Brizola, e, em 26 de outubro, Darcy Ribeiro. Estes dois grandes personagens da História Política Brasileira, sempre lideraram grandes projetos educacionais e entre eles a criação da Uenf, em Campos e em Macaé. Hoje, a UENF está presente em vários municípios do Estado do Rio de Janeiro através do Consórcio CEDERJ e nossos alunos precisam conhecer a trajetória institucional com exatidão, por isso, a importância dos registros históricos.

Esperei até o dia 31 de janeiro de 2022 para escrever alguma coisa pela celebração dos 100 anos do Leonel de Moura Brizola por entender que a Uenf deveria se manifestar através da sua reitoria (Reitor, Vice-Reitora, Pró-Reitores ou Chefe de Gabinete). A história de uma instituição, no meu entendimento, tem muita importância para o seu futuro e o silêncio do grupo que compõe esta Reitoria, diante de uma data que considero relevante para nossa instituição, me causou tremendo desconforto.

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Leonel Brizola assiste ao lado de Oscar Niemeyer a uma explanação de Darcy Ribeiro sobre o projeto da Uenf

A Uenf necessita realmente que registros fidedignos sejam estabelecidos, pois ao longo destes 28 anos, percebo tentativas equivocadas de escrever passagens sobre a criação da UENF.  A celebração dos 25 anos de existência da UENF não foi publicada até hoje e considerando a possibilidade de publicações de documentos na forma de E-Book não existe razão para que este material ainda não esteja disponível.

Retomando o início da Uenf, a mobilização da sociedade regional pela criação de uma universidade foi um sucesso e foi incluída na constituição estadual onde dizia que “O estado criará a Universidade Estadual do Norte Fluminense, com sede em Campos dos Goytacazes, no prazo máximo de três anos a partir da promulgação da Constituição”. A Constituição foi promulgada em 1989 e o prazo para criação da Uenf seria até 1992, mas apenas em agosto de 1993 iniciamos as atividades na instituição. Abaixo selecionei algumas passagens na trajetória inicial da Uenf e Leonel Brizola, pois são muitos e não seria possível em uma curta nota abordar a todas.

– Em um primeiro momento e através do Decreto 16.357/91 criou o estatuto inicial da  Uenf que previa a incorporação das instituições de ensino superior vinculadas à Fundação Cultural de Campos e à Fundação Benedito Pereira Nunes;

– Leonel Brizola coloca Darcy Ribeiro à frente do Programa dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEP) e também da criação da Uenf. Neste momento, tudo começou a mudar com Darcy Ribeiro liderando o projeto da Uenf. Brizola sempre foi considerado um centralizador, mas a Darcy e Niemeyer ele sempre depositou total confiança e liberdade para todas as ações. Este trio foi o alicerce fundamental para a materialização da Uenf, mas a área de educação sempre obteve um tratamento muito especial por parte do Brizola sendo iniciada no Rio Grande do Sul passando por inúmeros cargos políticos até a chegada ao Governo do Estado do Rio de Janeiro. 

– O uso dos CIEPS foi um fator determinante assim como a liberação de recursos do governo estadual para a construção da Uenf, em tempo recorde, foi uma das experiências mais incríveis que pude presenciar. A cada visita que fazíamos a Campos, tínhamos uma evolução da construção e o pátio de obras funcionava 24h por dia.

– Leonel Brizola através da Faperj liberava recursos financeiros para grupos de pesquisa e todos vinham com pacotes para compra de equipamentos e todas as condições necessárias para realizar pesquisas. Esta política pública atraiu inúmeros pesquisadores estrangeiros e brasileiros, inclusive vários membros a Academia Brasileira de Ciências. A vinda destes profissionais propiciou que a UENF iniciasse os cursos de graduação e pós-graduação simultaneamente.

– O prestígio e confiabilidade política de Brizola, assim como algumas lideranças acadêmicas que estava a frente do projeto Uenf, foram fundamentais para a atrair cientistas, jovens e sêniores, assim como sua credibilidade política na região. Em uma das vindas a Campos paramos em Macaé para o almoço e na comitiva estava o Prof. Carlos Alberto Dias que escolheu a cidade de Macaé para instalar o Laboratório de Engenharia e Produção de Petróleo e o primeiro curso de graduação de Engenharia e Produção de Petróleo do Brasil.

– As boas relações políticas de Leonel Brizola em Campos proporcionaram que a UENF iniciasse suas atividades, em 1992, na Fundação Norte Fluminense de Desenvolvimento Regional (FUNDENOR) que nos abrigou por muitos anos, inclusive possibilitando o início do Curso de Medicina Veterinária e experimentos com animais de biotério. Nossas relações institucionais permanecem e devem continuar sendo fortalecidas.  

– Em 1992, a cidade do Rio de Janeiro abrigou a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO 92) e foi exatamente nesta reunião que Leonel Brizola assinou acordos comerciais com a Alemanha liderada pelo Chanceler Helmut Kohl. A partir deste acordo vários equipamentos alemães foram adquiridos possibilitando vários grupos iniciarem suas pesquisas com o que havia de melhor, por exemplo, na área de microscopia convencional e eletrônica.

Existem muitas passagens de Leonel Brizola na UENF, mas teríamos que transformar uma nota muito maior, mas sua importância não pode jamais ser negligenciada e por isso me chamou atenção a falta de uma manifestação formal por parte da administração da instituição para toda comunidade universitário assim como para a regional.

Concluindo, deixo registrado o texto que marca a entrada da UENF: O Governador Leonel Brizola fez erguer esta Universidade Estadual do Norte Fluminense, para que no Brasil floresça uma civilização mais bela, uma sociedade mais livre e mais justa, onde viva um povo mais feliz.

Salve Leonel Brizola!!!

*Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB) da Uenf e esteve entre o grupo de profissionais que deram inicio ao funcionamento da instituição em 1993.

Darcy Ribeiro: a Universidade do Terceiro Milênio

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Por Isaac Roitman*

Em 1995 fui convocado pelo então reitor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), Wanderley de Souza, e por Darcy Ribeiro para colaborar na implantação dessa Universidade. O isolamento provocado pela COVID-19 me estimulou a revisitar minha passagem por Campos dos Goytacazes.

Leonel Brizola, em 1991, delegou a Darcy Ribeiro a tarefa de conceber o modelo e coordenar a sua implantação. Darcy fora o criador e o primeiro reitor da Universidade de Brasília (UnB) e autor de projetos de instauração ou reforma de universidades na Costa Rica, Argélia, Uruguai, Venezuela e Peru. Ao receber a missão de fundar a Uenf, Darcy se impôs o desafio de fazer da nova universidade o seu melhor projeto.

Concebeu um modelo inovador, onde os departamentos – que, na UnB, já tinham representado um avanço ao substituir as cátedras – dariam lugar a laboratórios temáticos e multidisciplinares como célula da vida acadêmica.

Cercou-se de pensadores e pesquisadores renomados para elaborar o projeto da Uenf e apresentou-a como a “Universidade do Terceiro Milênio”. Previu a presença da Uenf em Macaé (RJ), onde viriam a ser implantados os Laboratórios de Engenharia e Exploração do Petróleo (Lenep) e de Meteorologia (Lamet). Ela foi inaugurada em 1993.

As marcas da originalidade e da ousadia que Darcy imprimiu a seu último grande projeto de universidade se tornaram visíveis. A Uenf foi a primeira universidade brasileira onde todos os professores têm doutorado. A ênfase na pesquisa e na pós-graduação, sem paralelo na história da universidade brasileira, faz da Uenf uma universidade para formar cientistas. A essência do projeto era dotar o Rio de Janeiro de uma universidade moderna, que atualizasse o Brasil nos principais campos do saber, onde os laboratórios seriam a célula da vida acadêmica, e os centros de pesquisas pudessem praticar, ensinar e aplicar as tecnologias mais avançadas.

Por ter obtido o maior percentual de ex-alunos participantes da Iniciação Científica concluindo cursos de mestrado e doutorado, a Uenf ganhou, em 2003, o Prêmio Destaque do Ano na Iniciação Científica, conferido pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Em 2009 recebeu novamente esse Prêmio.

Em 2008, a Uenf foi reconhecida pelo MEC como uma das 15 melhores universidades brasileiras, ficando em 12º lugar no ranking nacional baseado no IGC (Índice Geral de Cursos da Instituição). Também em 2008, a Uenf recebeu o Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos, categoria Extensão Universitária, concedido pela Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI). Em 2007, 2008, 2009 e 2010, a Uenf foi apontada pelo Ministério da Educação (MEC) como uma das 15 melhores universidades do Brasil, com base no Índice Geral de Cursos (IGC).

A missão da Uenf é a de criar e disseminar o conhecimento científico, tecnológico e artístico em todos os campos do saber e formar profissionais capazes de inovar e buscar soluções aos desafios da sociedade contemporânea com vistas ao exercício pleno da cidadania.

Os princípios que a Uenf segue para cumprir sua missão são: 1. Compromisso estrito com a excelência; 2. Gratuidade e qualidade; 3. Autonomia didática, científica e administrativa; 4. Legalidade, impessoalidade, moralidade, transparência e eficiência; 5. Garantia ao pluralismo de ideias e concepções pedagógicas; 6. Inserção social e apoio efetivo ao desenvolvimento regional; 7. Valorização do ser humano; e 8. Respeito à diversidade.

Nesses 27 anos de existência, a Uenf, assim como outras Universidades estaduais do Rio de Janeiro, sofreu crises de natureza econômica. É fundamental que sua comunidade universitária, o governo e a sociedade blindem crises futuras para que os sonhos de nosso querido Darcy Ribeiro sejam realidade para todo o sempre. A sociedade do Rio de Janeiro e do Brasil serão os beneficiados. Vida longa para a Universidade do Terceiro Milênio.

Isaac Roitman é  Professor emérito da Universidade de Brasília, pesquisador emérito do CNPq, membro da Academia Brasileira de Ciências e membro do Movimento 2022-2030 O Brasil e o Mundo que queremos.

fecho

Este texto foi inicialmente pelo Monitor Mercantil [Aqui!].