Quando o trash science é finalmente fisgado, título de mestre é cassado e artigo fraudado é retratado

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Tenho narrado neste blog os amplos efeitos da disseminação dos vícios da ciência predatória (trash science) nas universidades brasileiras. Mas um caso que me veio recentemente à atenção parece exemplar de como o problema é grave e pode ser encontrado nas nossas melhores e tradicionais instituições de ensino superior.

O caso em tela ocorreu no Programa de Pós-Graduação em Economia Doméstica da Universidade Federal de Viçosa, onde o acadêmico Paulo Henrique Bittencourt Moreira teve seu título de Mestre em Ciências cassado por violação de direito autoral e de fraude acadêmica, como mostra a imagem abaixo.

titulo retiradoComo a cassação de um título acadêmico é coisa extremamente rara em qualquer lugar do mundo, me pus a procurar mais informações sobre o assunto, e me deparei com mais evidências deste incidente na base de artigos científicos Scielo, mais precisamente na Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia (RBGG). Ali encontrei um pedido de retratação do artigo “Qualidade de vida de cuidadores de idosos vinculados ao Programa Saúde da Família – Teixeiras, MG (Quality of life of elderly caregivers of link to the Family Health Program – Teixeiras, MG)” de autoria do mesmo Paulo Henrique Bittencourt Moreira, O surpreendente é que o pedido de retratação do artigo (na prática cassação do trabalho) foi feito pela autora de um artigo que teria sido plagiado, a professora Márcia Regina Martins Alvarenga, uma das autoras do artigo plagiado, e que é docente da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul.

retratado 1A denúncia da professora Márcia Alvarenga resultou em outra situação rara que foi a cassação do artigo que possuía três autores, incluindo a orientadora da dissertação de mestrado cassada pela Universidade Federal de Viçosa, a professora Simone Caldas Tavares Mafra.

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A retratação do artigo, obviamente combinado com a cassação do título de Mestre, resultou ainda numa ainda mais rara explicação pública da professora Simone Mafra sobre os “malfeitos” do seu orientando.

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Ao ler a resposta e as diferentes explicações da professora orientadora pelas quais a fraude e o plágio não foram detectados em tempo hábil (ver imagem acima), não me restou senão a curiosidade sobre quantos casos semelhantes de fraude e plágio não estão também passando despercebidos por defronte os olhos de outros docentes/orientadores. É que a imensa maioria dos que labutam hoje na pós-graduação brasileira se encontra hoje sob forte pressão para se adequar ao sistema de produtivismo científico imposto pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). E há que se frisar que essa pressão se estende a todos os pesquisadores interessados em obter financiamentos e prêmios por produtividade científica.

Uma coisa para mim é certa: ou se muda as formas de avaliar e premiar a produção acadêmica produzida no Brasil ou este caso será apenas uma pequena parte da ponta de um imenso iceberg de contaminação da ciência brasileira pelo que há de pior no trash science. A principal pergunta que fica aos gestores que comandam o CNPq e a CAPES é a seguinte: qualidade ou quantidade, o que vai ser?